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Geologia e Paleontologia 1.

INTRODUÇÃO A GEOLOGIA

UNIDADE I e II

1.1. Definição e influência da Geologia

Geologia, do grego geo e Logus, é definida como o estudo da Terra. Em geral, é dividida em duas grandes áreas: geologia física e geologia histórica. A geologia física estuda os materiais da Terra, tais como os minerais e as rochas, bem como os processos que operam no interior da Terra e na sua superfície. A geologia histórica examina a origem e a evolução da Terra, seus continentes, oceanos, atmosfera e vida (Figura 1). Mais especificamente, é objeto da Geologia Geral o estudo dos agentes de formação e transformação das rochas e da composição e disposição das rochas na crosta terrestre.

Figura 1. Principais subsistemas da Terra

Nosso planeta consiste num ecossistema complexo e de precário equilíbrio, sujeito à influência de diversas forças da natureza. A atmosfera, a biosfera, a hidrosfera e a geosfera constituem, na verdade, um sistema único e inseparável, pois resultam da ação combinada da energia do Sol e do calor, da radiação e das forças que emanam do interior da Terra. Este delicado equilíbrio mantém a qualidade do ar, da água, a produção de alimentos, enfim, o bem-estar de todas as formas de vida do planeta e a sobrevivência de todas as espécies (Tabela 1).

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Tabela 1. Interações entre os principais subsistemas da Terra

A Geociência, ou Ciência da Terra, inclui todos os estudos científicos dedicados a entender e explicar os processos geológicos inter-relacionados de nosso planeta. A Geologia é uma dessas ciências da Terra que se ocupa do estudo da composição, das propriedades físicas, forças, estrutura geral e história. Entretanto, outras disciplinas estão estreitamente relacionadas com a Geologia, como Astronomia, Biologia, Química, Climatologia, Oceanografia, Física etc. A geologia é uma matéria tão ampla que é subdividida em muitos campos diferentes ou especialidades (Tabela 2). Tabela 2. Especialidades da geologia e seu relacionamento geral com outras ciências Especialidades Geologia planetária Geocronologia Paleontologia Geologia econômica Geologia ambiental Geoquímica Hidrogeologia Mineralogia Petrologia Geofísica Geologia estrutural Sismologia Geomorfologia Oceanografia Paleogeografia Estratigrafia e sedimentologia Área de estudo Geologia dos planetas Tempo e história da Terra Fósseis Recursos minerais e energéticos Meio ambiente Química da Terra Recursos hídricos Minerais Rochas Interior da Terra Deformação das rochas Terremotos Formas da superfície da terra Oceanos Características e localização geográficas Rochas em camadas e sedimentares 2

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Praticamente, cada aspecto da geologia apresenta uma relevância econômica ou ambiental. Muitos geólogos estão envolvidos na pesquisa de recursos minerais e energéticos, usando seu conhecimento especializado para localizar os recursos naturais nos quais está baseada a nossa sociedade industrializada. À medida que aumenta a demanda por esses recursos nãorenováveis, os geólogos aplicam os princípios da geologia, por caminhos cada vez mais sofisticados, para ajudar a focalizar sua atenção em áreas com alto potencial de sucesso econômico. Embora alguns geólogos trabalhem na localização de recursos naturais e energéticos, um trabalho extremamente importante, outros geólogos usam sua especialização para resolver problemas ambientais. Outros, ainda, buscam água subterrânea para atender às necessidades do crescimento explosivo das comunidades e indústrias, ou para monitorar a poluição da água da superfície ou do lençol freático e sugerir os meios para tratá-la. Engenheiros geólogos ajudam a identificar áreas seguras para a localização de barragens, áreas para disposição de resíduos, usinas de energia e projetos de construção resistentes a terremotos. Os geólogos também fazem previsões, de curto e longo prazo, de terremotos e erupções vulcânicas e o seu potencial destrutivo. Além disso, os geólogos trabalham com os planejadores da defesa civil para ajudá-los a formular planos de contingência para o caso da ocorrência desses desastres naturais. Portanto, possuem uma ampla variedade de carreiras e atribuições. À medida que cresce a população mundial a demanda de recursos limitados da Terra, nós dependeremos cada vez mais dos geólogos e suas habilidades.

1.2. Histórico da Geologia

 Conceitos primitivos

Até meados do século XVIII persistiu um “obscurantismo” com relação ao interesse pelos fenômenos geológicos naturais. É provável que esse desinteresse tenha sido influenciado pelas idéias dominantes na época, provenientes de uma observância do livro do Gênesis, que considerava que todo o tempo geológico não ultrapassava alguns poucos milhares de anos. Segundo tais idéias, as rochas sedimentares tiveram origem na ação do dilúvio bíblico, e os fósseis eram interpretados como uma evidência de seres de invenções diabólicas afogados pelo dilúvio. 3

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Não havia até então estímulos à especulação pela crosta terrestre, exceto na busca de minerais úteis. Nessa época, além das observações esparsas de filósofos gregos, haviam surgido publicações de manuais de Mineralogia que tratavam de métodos de mineração e metalurgia escritos por Agrícola (1494-1555). Na segunda metade do século XVIII, as observações científicas de Steno, na Itália, e Hooke, na Inglaterra, produziram interpretações corretas do significado cronológico da sucessão de rochas estratificadas. Arduíno, em 1760, classificou rochas de uma região da Itália em primárias, rochas cristalinas; secundárias, rochas estratificadas com fósseis; e terciárias, rochas pouco consolidadas com conchas. James Hutton (1726-1797) recusou-se a imaginar a criação da Terra a partir de um dilúvio, ou seja, um evento repentino e único. Examinando as rochas estratificadas, encontrou vestígios de repetidas perturbações nas rochas em alternância com longos e calmos períodos de sedimentação. Em muitos lugares constatou que uma seqüência de estratos assenta sobre camadas revolvidas, enquanto, em outros, corta camadas inclinadas. Explicou que inicialmente ambas as camadas eram horizontais, porém a inferior foi erguida e erodida antes da deposição da camada seguinte. Dessa forma, a história da crosta terrestre era a da “sucessão de mundos anteriores”. Suas contestações foram resumidas na célebre frase “não encontramos nenhum sinal de um começo, nenhuma perspectiva de um fim”. O ponto de vista de Hutton veio a ser chamado “uniformitarismo”, pois seus argumentos baseavam-se nas observações da erosão nos rios, vales e encostas, concluindo que todas as rochas se formaram de material levado de outras rochas mais antigas e explicando a formação de todas as rochas com base nos processos que estão agora operando, não se exigindo, para isso, outra coisa senão o tempo. Abraham G. Wemer (1749-1815), um dos mais persuasivos e influentes mestres europeus, defendia ardorosamente uma doutrina denominada “netunista”, a qual se coadunava melhor com a história bíblica. Tal doutrina sustentava que todas as rochas haviam sido formadas a partir de um oceano primitivo único que no passado cobriu toda a Terra. As rochas calcárias, graníticas e basálticas formavam-se a partir de precipitados químicos. Quando a água recuou, ficaram expostas todas as rochas com a configuração que hoje se encontra por sobre toda a superfície terrestre.

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A tese de Hutton sobre o uniformitarismo, embora muito popular, não conseguiu suplantar a de Werner naquela época, só logrando liderança efetiva com Charles Lyell (17971875). William Smith (1769-1839), modesto engenheiro inglês, prestou pouca atenção às controvérsias existentes na época entre os “netunistas” e os “uniformitaristas”, se é que realmente teve notícias da existência de tais discussões. Trabalhando com movimentação de terras, escavações de canais e construção de estradas, foi incorporado a uma equipe que trabalhava na construção do canal de Somerset. Para isso, havia sido enviado inicialmente para o norte da Inglaterra a fim de estudar métodos de construção de canais. Aproveitando a viagem para examinar as rochas expostas, cada vez mais se confirmavam suas suspeitas: as mesmas formações que conhecia no sul da Inglaterra se estendiam pelo norte, e dentro da mesma ordem. Smith trabalhou cinco anos no canal de Somerset, quando descobriu que, entre diversas formações já conhecidas, à primeira vista muitas eram semelhantes, porém tinham uma característica que as diferenciava: os fósseis que continham não eram os mesmos. Descobriu, então, que os sedimentos de cada época tinham seus fósseis específicos. Smith divulga, nessa ocasião, o primeiro mapa geológico, com divisões estratigráficas baseadas nos fósseis. Outras investigações científicas realizadas posteriormente na Europa por Cuvier e Lamark, entre outros, terminaram por afastar a doutrina do netunismo. Com a publicação da obra Princípios de Geologia, de Charles Lyell, os conceitos de Hutton passaram a ser a idéia dominante. Em sua obra, Lyell expôs com clareza os conhecimentos científicos da época com apoio na doutrina de que o presente é a chave do passado. As unidades geológicas foram dispostas em ordem cronológica por “grupos”, e estes foram subdivididos em “períodos”. A grande obra de Lyell teve substancial influência no preparo do terreno para o florescimento das idéias de Charles Darwin, desenvolvidas no século XIX a respeito da evolução dos seres vivos.

 As pesquisas pioneiras no Brasil

O primeiro trabalho científico realizado no Brasil (publicado em 1792) foi da autoria de José Bonifácio de Andrada e Silva e seu irmão, Martim Francisco Ribeiro de Andrada, sobre os diamantes no Brasil. 5

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José Bonifácio devotou-se à mineralogia brasileira e, na Alemanha, assistiu a aulas proferidas por Werner, chegando a lecionar na Universidade de Coimbra. Em 1833, o alemão Wilhelm L. von Eschwege, engenheiro de minas, publica Pluto Brasiliensis, reeditado posteriormente, sobre geologia e mineralogia brasileiras. Von Martius publica, em 1854, um mapa geológico da América do Sul. As primeiras pesquisas no campo da Paleontologia foram realizadas pelo dinamarquês Peter Wilhelm Lund, descrevendo as ossadas de vertebrados pleistocênicos encontradas nas cavernas de Minas Gerais. Em seguida, Agassiz estuda peixes fósseis do Ceará enviados por Gardner, botânico inglês que visitara o Brasil. Em 1875, foi organizada a primeira Comissão Geológica do Império do Brasil, objetivando o estudo da estrutura geológica, da Paleontologia e das minas do Império, cuja direção coube ao geólogo canadense Charles Frederick Hartt, que já vinha trabalhando no Brasil desde 1865 e em 1870 havia publicado a obra Geology and Physical Geography of Brazil. Em 1878, Orville A. Derby publica uma obra sobre a Geologia e a Paleontologia do Paraná. Os brasileiros João Martins da Silva Coutinho e G. S. Capanema foram os pioneiros na investigação geológica da Amazônia e da faixa atlântica. Com a fundação da Escola de Minas de Ouro Preto, a partir de 1876 tem o Brasil iniciada a formação de geólogos que viriam a trazer grande impulso à pesquisa e ao ensino de Geologia no País.

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Geologia e Paleontologia 2. O ESTUDO DA TERRA

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2.1. Considerações Gerais

Quando olha para os mistérios do universo, o homem, reduzido a suas reais proporções, sente toda a humildade diante da dificuldade de compreender aquele infinito conjunto de luz e sombras. Em alguns pontos infinitamente pequenos do universo espalham-se, na realidade, centenas de bilhões de galáxias semelhantes à nossa, com dezenas de trilhões de planetas e estrelas. O Sol, com 1.392.000 km de diâmetro, é apenas uma estrela entre 100 milhões existentes na espiral conhecida como nossa galáxia, e esta, por sua vez, é apenas uma entre milhares de milhões de outras que formam o universo visível. Em escala cósmica, o conhecimento humano é extremamente limitado e fragmentado. Com tantas possibilidades, seria a vida inteligente um privilégio somente deste ponto azul que gira em torno de uma estrela de quinta categoria que constitui uma parcela muito pequena da Via Láctea? Há mais de trinta séculos o homem procura responder a essa pergunta. O homem faz parte de uma civilização altamente técnica há apenas algumas dezenas de anos. A vida na Terra começou há quase 3 bilhões de anos, e o homem surgiu há menos de l milhão de anos. Para que se possa compreender o quanto é pouca a existência do homem na Terra, podemos utilizar um calendário muito comum aos estudantes de Geologia e Paleontologia. Se considerarmos que o tempo transcorrido desde o início da vida até hoje (3 bilhões de anos) seja o equivalente ao de um ano pelo nosso calendário, o homem, em sua forma como é conhecida hoje, surgiu na Terra apenas nas primeiras horas da noite do dia 31 de dezembro. Assim, o homem ocupa um pequeno período de tempo na vida de um planeta que, por sua vez, é um ponto reduzidíssimo num universo imenso. Respondendo à pergunta formulada anteriormente, de acordo com os resultados das pesquisas realizadas em apenas 30 anos de exploração espacial no diminuto sistema solar, acredita-se que podem existir algumas formas de vida em Júpiter, Marte e Titã, o maior dos satélites de Saturno. Segundo Carl Sagan, é improvável que exista uma civilização tecnológica num raio de 200 anos-luz de distância da Terra. Para o homem, viajar à velocidade da luz é uma abstração. Assim, se houver civilizações em outras galáxias, devido às distâncias que nos separam somente será possível o contato por audição, pois a velocidade dos sinais de rádio é também a velocidade da luz. Mesmo que as 7

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civilizações sejam diferentes ainda é possível, pois a base sobre a qual ambas se edificam será sempre muito semelhante. O estudo da Terra deve, portanto, levar em conta as relações desta com o resto do universo e a posição do homem neste. Muitos dos aspectos físicos da Terra são afetados pela ação mútua do Sol, da Lua e das forças contidas na própria Terra. Todos os planetas, satélites ou luas e os asteróides do nosso sistema solar movimentam-se aproximadamente ao mesmo plano e na mesma direção, com a velocidade média de 21 quilômetros por segundo. A Terra está a uma distância de 150.000 km do Sol, e a cada ano completa uma volta ao redor dele a uma velocidade média de 29,8 km/ secundo (Figura 1).

Figura 1. Todos os planetas, satélites e luas movimentam-se aproximadamente no mesmo plano e na mesma direção.

A luz e a sombra escura que se abatem diariamente sobre a Terra são efeitos da rotação da Terra ao redor do seu eixo. Se pudéssemos observar a Terra do alto do Polo Norte para baixo veríamos que a rotação tem sentido contrário à dos ponteiros de um relógio. Esse sentido é também oposto ao do “movimento” aparente do Sol, bem como da Lua e das estrelas (Fig ura 2).

Figura 2. Fotos de quatro fases da Terra

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A velocidade de rotação da Terra é tal que um ponto na superfície do equador se move a aproximadamente 1.666 km por hora e completa 40.000 km em 24 horas. A Lua é o satélite natural da Terra. Tem aproximadamente 3.475 km de diâmetro e gira ao redor da Terra a uma distância de aproximadamente 385.000 km. A diferença do movimento da Terra e da Lua é unicamente ao redor da Terra, de modo que a Lua gira completamente apenas uma única vez durante todo o circuito terrestre. Por isso, vista da Terra, mostra sempre a mesma face, permanecendo a outra sempre oculta (Figura 3).

Figura 3. Sentido de rotação e translação da Terra e de seu satélite, a Lua.

Quaisquer alterações nas velocidades, distâncias entre os corpos celestes ou emissão da energia trariam reflexos incalculáveis sobre a superfície do planeta e seus habitantes. Assim, uma variação significativa no Sol que trouxesse como conseqüência, por exemplo, um aumento da emissão de calor faria com que parte da água acumulada nos polos sob a forma de gelo voltasse ao estado líquido. Isso resultaria num aumento do nível do mar, com a destruição de muitas cidades, como Rio de Janeiro, Londres e Nova York, entre outras. Haveria a invasão de novas áreas pelos rios, ocasionando grandes enchentes. Muitas terras seriam ocupadas, com a destruição de lavouras. O clima se modificaria em muitos locais. Chuvas concentradas em determinadas regiões provocariam deslizamentos de encostas e taludes, destruição de estradas, pontes e casas. A produção de alimentos se reduziria. Haveria a migração de muitos grupos de animais e a extinção de outros. Por outro lado, a modificação das condições ecológicas na Terra está começando a produzir conseqüências danosas para o futuro da humanidade. 9

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Hoje, mais do que nunca, o homem deve compreender o planeta em que vive. A Terra é viva, os rios são vivos, a at¬mosfera é viva. O ar alcança em muitas cidades brasileiras graus de toxicidade alarmantes, e os mares transformam-se nos depósitos de lixo do mundo. Dos solos do noroeste do Paraná, que constituem em conjunto cerca de 70% das terras cultiváveis do estado, a erosão laminar retira e transporta anualmente perto de 40 toneladas por hectare (Figura 4).

Figura 4. Erosão e sulcos com profundidade superior a 20m.

Onde buscar no futuro a água imprescindível à sobrevivência? Onde e como obter ar respirável? Onde plantar alimentos se os solos são rapidamente erodidos, simplesmente porque não existem árvores que possam atenuar o impacto das chuvas, dificultar o arraste dos minerais com suas raízes e manter o lençol de água subterrânea mais próximo do solo? As esperanças de que nossa alimentação estaria nos mares pouco a pouco vão sendo desfeitas. Aos poucos, as praias mais importantes estão se tornando impróprias ao banho, como revelam análises feitas pelos órgãos públicos. O lixo atômico, os acidentes com os petroleiros e os poluentes químicos despejados diariamente no mar não asseguram um bom futuro para aquela fonte de riquezas. É importante que todos os profissionais que atuam no campo das Engenharias, da Biologia, da Geologia, Ciências Naturais, Geografia etc. conheçam as leis naturais que regem o nosso planeta, a fim de trabalhar em harmonia com elas. Cada geração tem sua concepção e sua postura perante a vida e perante o nosso universo. O que legará nossa geração aos nossos descendentes?

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Geologia e Paleontologia 2.1.1. Forma, Tamanho, Peso e Densidade

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A Terra é um esferóide achatado nos polos e dilatado no equador. Considerando que um círculo tem 360 graus, e cada grau ao longo de seu meridiano equivale a uma distância de 111 km, conclui-se que a circunferência da Terra é 360 vezes 111 km, ou seja, aproximadamente 40.000 km. O achatamento dos polos e o crescimento do equador devem-se ao movimento de rotação terrestre. Esse achatamento é tão pequeno que a diferença entre os diâmetros polares e equatoriais é de apenas 44 km (diferença entre 12.756 e 12.712 km). Por outro lado, ignorando o achatamento e supondo que a Terra é esférica, com um diâmetro de aproximadamente 12.700 km, seu volume corresponderá a aproximadamente l,08 bilhão de km3, com área equivalente a 510 milhões de km2. A massa (ou peso) da Terra é calculada mediante a lei da gravitação de Newton. O peso da Terra por este método é de aproximadamente 5,6 sextilhões (ou 5,6 X 1021 toneladas). A Terra tem densidade de 5,52, ou seja, ela é 5,5 vezes mais pesada que a água. Visto que as rochas que ocorrem na superfície têm uma densidade média entre 2,7 e 3,0, o interior da Terra deve ser bem mais denso.

2.1.2. Composição da Terra

A maior parte dos conhecimentos que se tem sobre o interior da Terra provém de meios indiretos. Na realidade, dos 6.300 km que separam a superfície terrestre do seu núcleo conseguiuse perfurar pouco mais que 0,1% (cerca de 7 km). As rochas mais profundas conhecidas provêm das erupções vulcânicas, sem que no entanto se possa afirmar sua profundidade exata. As melhores informações sobre o interior da Terra são fruto de estudos da propagação das ondas sísmicas originadas pelos terremotos. Um terremoto transmite energia através da Terra na forma de ondas que são sentidas como tremores mesmo a uma distância considerável da origem. As vibrações da crosta são medidas com sismógrafos. Muito embora em nossos estudos se devam levar em consideração os fenômenos provenientes da estrutura interna da Terra (vulcanismos, terremotos, falhas, dobras etc.), deternos-emos mais no estudo da crosta terrestre, da qual dependemos estreitamente. Graças à constituição, à idade e à história geológica de nosso subsolo estamos livres de vulcanismos e 11

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terremotos, e as obras de engenharia podem ser dimensionadas sem que se leve em consideração os aludidos fenômenos. Assim como não podemos abstrair a Terra do sistema solar no qual ela está contida, não se pode deixar de considerar a hidrosfera, a atmosfera e suas estreitas relações com a Terra ou a litosfera. A hidrosfera é uma camada descontínua de água que envolve a Terra. A atmosfera é uma camada gasosa que envolve todo o planeta. A água, em seu estado líquido ou sólido, é o agente modelador da crosta terrestre de importância fundamental. A maior parte dos depósitos sedimentares provém do transporte e da deposição pela água e pelo gelo. A atmosfera, por sua vez, está em contínuo movimento, de modo que o vento resultante desse movimento atua sobre a superfície de forma destrutiva e construtiva, ou seja, esculpindo rochas expostas e retirando material de determinadas regiões e depositando em outras. A atmosfera e a hidrosfera permitem a vida em nosso planeta, e os seres vivos desempenham importante papel nos processos geológicos, tendo sido também os agentes formadores dos mais importantes combustíveis fósseis: o petróleo e o carvão.

2.1.3. Relevo Atual

Atualmente, dos 510 milhões de quilômetros quadrados da superfície do planeta apenas 149 milhões (29,22%) constituem terras emersas, enquanto os 361 milhões restantes constituem os mares e oceanos. A distribuição de terras e mares no passado foi diferente da atual. Em todos os continentes de hoje temos registro de antigos mares. As grandes cadeias de montanhas são constituídas de rochas sedimentares marinhas, nas quais são encontradas conchas e outros restos de animais marinhos. Hoje a maior elevação da Terra é o Everest, com cerca de 8.840 m. A maior depressão ou fossa da crosta é a Fossa Filipinas, no Pacífico, com 11.516 m de profundidade. Assim, o maior desnível da crosta é superior a 20.000 m (Figura 5).

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Figura 5. Curva hipsográfica mostrando áreas dos continentes e oceanos em diferentes altitudes e profundidades.

Muito embora durante os seus 5 bilhões de anos de vida a Terra tenha sido submetida incessantemente à ação erosiva da água, do vento e do gelo, sua superfície está longe de ser uniforme. Enquanto os mares eram preenchidos de sedimentos, forças internas semelhantes àquelas que produzem os terremotos e vulcanismos elevavam o pacote sedimentar depositado até a altura dos continentes, produzindo dobras, fraturas e metamorfismo, transformando-se em grandes cordilheiras. E entre essas cordilheiras outros mares surgiam. O que parecer ser uma luta entre as forças de elevação e de erosão para formar uma terra de altas montanhas ou extensas planícies é, na realidade, o delicado equilíbrio entre as duas forças que mantêm no globo suas conhecidas características.

2.1.4. A Crosta Terrestre

A crosta terrestre é uma camada relativamente fina, com 20 a 30 km de espessura em média, mais espessa sob os continentes e mais fina sob os oceanos. Ela é constituída, ao menos na porção superior, por rochas semelhantes às que afloram na superfície: granitos, migmatitos, basaltos e rochas sedimentares. Nas porções mais profundas ocorrem rochas escuras e mais pesadas: diabásios, rochas ultrabásicas etc. Nos continentes predominam os primeiros tipos de rochas, e nas áreas oceânicas os segundos (Figura 6).

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Figura 6. Arcabouço interno da Terra

Essas rochas constituem blocos ou placas de maior ou menor espessura com um comportamento como o de flutuação sobre o substrato mais denso do manto, onde ficam mais ou menos mergulhados, conforme suas espessuras e densidades médias. Assim, as altas montanhas, por serem constituídas de rochas mais leves e mais espessas, estão menos imersas no manto. Os fundos dos oceanos, por sua vez, são constituídos de rochas mais densas, como os diabásios, que afundam mais no manto. Até uns 250 milhões de anos atrás, a maior parte dos continentes estava unida num único. Entretanto, a partir daquela época os continentes começaram a se romper lentamente, formando as placas ou blocos independentes que, por sua vez, foram arrastados por correntes que movimentam o manto rígido-viscoso. Nessa movimentação, existem zonas onde as placas estão se afastando uma das outras e que são preenchidas por novo material proveniente do interior do manto. Em determinadas zonas as placas colidem, produzindo deformações, resultando em formação de fossas tectônicas, dobramentos de espessas camadas de sedimentos, falhamentos, formação de cordilheiras etc. São os denominados movimentos tectônicos. A migração dos continentes continua lentamente, e, hoje, por meio do raio laser e dos satélites artificiais, já está sendo possível determinar a velocidade e a direção de deslocamento dos mesmo.

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