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No âmbito da semântica jurídicopenal, merece ser ressaltada a opção da nova lei pelo termo drogas, em vez da expressão substância

entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. Assim, no preâmbulo, estão definidos os seus fins maiores e o abandono dessa expressão, já superada no discurso médicocienntífico e jurídico: instituir o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas – Sisnad; prescrever medidas para prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas; estabelecer normas para repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas. No parágrafo único do art. 1º, após reiterar os termos programáticos previstos na ementa preambular, a nova lei estabelece textualmente:
Para fins desta Lei. Consideram-se como drogas as substâncias ou os produtos capazes de causar dependência, assim especificados em lei ou relacionados em listas atualizadas periodicamente pelo Poder Executivo da União.

Temos, a partir de agora, um conceito legal desta categoria jurídica chamada drogas, que não ficou restrito à categoria dos entorpecentes, nem das substâncias causadoras de dependência física ou psíquica. Drogas serão todas as substância ou produtos com potencial de causar dependência, com a condição de que estejam relacionadas em dispositivo legal competente. A Lei 10.409/02 já havia feito esta mesma opção terminológica, mas como todo o seu Capítulo III, que tratava dos crimes e das penas, foi vetado, permaneceu vigendo o texto penal da Lei 6.368/76 e, em conseqüência, a velha expressão vinha se mantendo na linguagem do Direito Positivo. A verdade é que o de termo drogas é de uso corrente no discurso acadêmicocientífico. Isso já poderia justificar a opção modificadora. Mas é, também, a nomenclatura preferencial da Organização Mundial de Saúde – OMS, que há muito abandonou o uso dos termos ou das expressões “narcóticos”, “substâncias entorpecentes” e “tóxicos”.1 Além disso, a Convenção Única sobre Entorpecente, da ONU, promulgada em 1961 e a Convenção contra o Tráfico Ilícito de Entorpecentes e Substâncias Psicotrópicas, de Viena, de 1988, ao se referirem às substâncias tóxicas ou entorpecentes utilizam simplesmente o termo drug. Trata-se, portanto, de nomenclatura que se consolidou mundialmente. E não podemos esquecer que nossa legislação sobre uso e tráfico ilícito de drogas, desde a década de 1960, tem sido baseada nas normas e recomendações constantes dessas duas Convenções internacionais, como também em outras diretivas emanadas da ONU e da Organização Mundial da Saúde. Por outro lado, é interessante notar que a literatura jurídicopenal brasileira sobre o tema tem preferido o termo “tóxicos”. Pode-se dizer que o vocábulo “tóxicos” tem sido utilizado de forma corrente na linguagem jurídica brasileira, para se referir às substâncias até então legalmente denominadas de “substâncias entorpecentes ou que determinem dependência física ou psíquica”.2
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GRECO FILHO, Vicente. Tóxicos – Prevenção – Repressão. São Paulo: Saraiva, 1996, p. 4. Ver, também, GONZAGA, João Bernardino.Entorpecentes. Aspectos Criminológicos e Jurídico-Penais . São Paulo: Max Limonad, 1963, p. 34, N..P. nº 2. 2 Pesquisa sobre a produção científica brasileira comprova a afirmação da preferência de nossos autores pelo termo “tóxicos”. São as seguintes, as obras monográficas editadas e que conseguimos catalogar: BEZERRA FILHO.

1982. embora não Aluízio. simplesmente. João Bernardino. 5 A Convenção Única sobre Entorpecentes de 1961 foi promulgada pelo Decreto presidencial nº 54. Ob.1991. que pode ser considerada como a carta normativa internacional magna em matéria de uso e tráfico ilícitos de drogas. São Paulo: José Bushatsky Editor. 1971.368/76 utilizava a expressão substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica. Entre estas. João de Deus Lacerda. sobre a possibilidade de determinada substância. Jaime Ribeiro da. São Paulo: Saraiva. a Sociedade. Lei de Tóxicos.08. SILVA. Celso. Tóxicos. Jurisprudência e Prática . 2006. 3 Com esta nomenclatura. Comentários.. GRAÇA. Amauri Tonucci e outros. Esta foi promulgada pelo Decreto nº 154. quando poderia ter sido drogas. encontra-se a obra de João Bernardino Gonzaga. como parecia indicar a lei anterior. entorpecente. Rio de Janeiro: Freitas Bastos..33. 1978. Crimes Hediondos. SILVA. passou-se a entender que o essencial é o caráter de nocividade à saúde da substância tóxica ou entorpecente e de seu potencial para causar dependência. independentemente do resultado. cit. Curitiba: Juruá. Manual Prático. 1979. 1996. o termo drogas ganhou a preferência da doutrina. podemos constatar que a palavra drug. a Família. Na verdade. Rio de Janeiro: Renes. DELMANTO. Lei de Tóxicos Anotada e Interpretada pelos Tribunais . teve seu texto “ fortalecido”. na doutrina e na jurisprudência. era necessário e válido o ajuste terminológico. Tóxicos.” E admite que o emprego da “palavra ‘entorpecente’ se adapta mal. também. havia discussão. Rio de Janeiro: Forense. Terrorismo Tortura . Por Que Drogas? Rio de Janeiro: J.1988. Edevaldo Alves da. 4 É curioso verificar que o próprio autor admite que o termo “entorpecentes” não é adequado para denominar o objeto estudado. São Paulo: Saraiva. de 27. “para designar certa categoria de substâncias nocivas à saúde. é compreensível que a Lei 6. 1984. Di Giorgio Ed.216. Processo e Jurisprudência. GRECO FILHO. MENA BARRETO. pois nem todas substâncias causadoras de dependência podem ser classificadas como entorpecentes. Vitor Eduardo Rios. 2001. Curitiba: Juruá.U. Isaac Sabbá. O Indivíduo.P. Curitiba: Juruá. a divergência terminológica decorreu da opção feita quando da tradução oficial dos textos das referidas convenções internacionais para a Língua Portuguesa. São Paulo: Saraiva. que reconhece a dificuldade e impropriedade de empregá-lo como conceito operacional. Lei de Tóxicos Anotada e Interpretada pelos Tribunais. Além disso. Vicente. nos textos da produção científica recente. de 26. com a publicação da nova lei. de 20. 2002. ou não se apta de todo à idéia que ela deve aqui encerrar”. São Paulo: E. SANCHEZ. por substância entorpecente ou. foi traduzida. Valterson.1964.. para eliminar de vez um foco de divergência. São raras as obras com o título de “entorpecentes”.3 Verifica-se que. GUIMARÃES. Por isso.5 Se pesquisarmos o texto oficial em Inglês. utilizada em todo o texto convencional. Tóxicos. GONÇALVES. podem ser referidas as seguintes obras: BOTELHO. c omplementado e atualizado pela da Convenção contra o Tráfico Ilícito de Entorpecentes e de Substâncias Psicotrópicas. Curitiba: Juruá. Tóxicos. 1999. Tal ajuste terminológico era necessário. Tóxicos. Tóxicos. Tóxicos – Prevenção – Repressão .368/76 tivesse optado pelo uso da expressão substância entorpecente e não drogas. mas de forma crescente. Como a Lei 6. 2003. Prática. 1988. . Drogas e Drogados.. para o texto em Língua Portuguesa.12. PACHECO. p. de Viena.Em segundo lugar. 4 GONZAGA. Jorge Vicente. 1982. RANGEL. Com a oficialização da expressão.06. o termo “drogas” vem sendo utilizado para intitular obras monográficas sobre a matéria. José Errani de Carvalho. Esta Convenção. Estudo Geral da Nova Lei de Tóxicos.

comercialização. p. Para essa corrente doutrinária. Se o desvio de destinação. estabelecendo que a substância configuradora do tráfico ilícito deve estar necessariamente prevista na relação oficial publicada pelo órgão competente do Ministério da Saúde.relacionada oficialmente como entorpecente. 66 da atual lei. Afirma-se que a atividade relacionada à droga é dinâmica e se transforma com muita rapidez para criar sempre novas espécies de drogas. . É a solução que melhor se coaduna com o princípio da estrita legalidade. do Ministério da Saúde. no caso a referida Portaria do Serviço de Vigilância Sanitária. 90-1. cujo preceito deve ser complementado por norma de natureza extrapenal. Vicente.6 Não se pode concordar com a crítica de que o engessamento oficial e burocratizado do rol das drogas proibidas deve ser evitado. do art. distribuição ou consumo não constituirá crime de tráfico ou de porte para consumo pessoal. melhor seria deixar na esfera do poder discricionário do juiz a tarefa de. é uma posição hoje completamente superada. com a disposição contida em seu artigo 36. da Portaria SVS/MS nº 344. precursoras e outras sob controle especial. sua produção. se for constatada a existência de alguma substância entorpecente não relacionada na Portaria nº 334.Ob. A atual manteve idêntica orientação. o art. em cada caso concreto e com base no laudo pericial. com o seguinte argumento: “A interpretação de que as substâncias não relacionadas também poderiam determinar a incidência penal desde que causem dependência física ou psíquica resolveria o problema da chamada ‘psicofarmacologia clandestina’. E justifica sua posição. pudesse causar tal dependência e. Assim sendo. 87-94. decidir sobre a natureza nociva à saúde da droga. 1º.. cujo entendimento converge para defender a solução legal de que a droga esteja taxativamente descrita na Portaria ministerial para o fim de se estabelecer o juízo positivo de tipicidade da conduta. É o entendimento de Vicente Greco Filho. sob o argumento de que pode ser fator de insegurança e de impunidade. em conseqüência ser considerada como objeto material do crime de tráfico. p. afirma que a melhor solução seria deixar “ao laudo a identificação da capacidade de causar dependência no caso de não estar a substância relacionada”. psicotrópicas. de 12 de maior de 1998.7 Esta.368/76. 6 7 Ver. sobre o assunto: GRECO FILHO. o delito passaria a existir”. seja na doutrina. por força do princípio da estrita legalidade. seja na jurisprudência. é taxativo ao definir como “drogas as substâncias entorpecentes. por natureza estático e de difícil atualização de sua pauta descritiva das drogas nocivas à saúde pública. tornarem a substância apta a causar dependência física ou psíquica. de norma penal em branco. em consonância com o referido parágrafo único.. Neste sentido. Na verdade. E isto poderia acarretar prejuízos à ordem jurídica e à segurança coletiva. Ob. que não estariam necessariamente arroladas no ato normativo oficial. já havia colocado termo a essa discussão. no entanto. ou as combinações de drogas feitas pelos próprios viciados.” Trata-se. Rejeitando a possibilidade de qualquer forma de ofensa ao princípio da legalidade e da liberdade individual. cit. cit. a própria Lei 6. portanto.

Pode-se dizer que. Quanto à eficácia de suas normas para atingir o fim a que se propõe – reinserção social dos usuários e dependentes e de prevenção e repressão ao tráfico ilícito de drogas – é claro que tão relevante e altruístico propósito éticopolítico e jurídico não dependerá apenas de seu correto conceito de drogas. com a atual Lei de Drogas.Para finalizar. ExDiretor do CCJ/FURB. capaz de aglutinar todos os produtos e substâncias causadoras de dependência. Associado do IBCCrim e da AIDP. vale reiterar a afirmativa de que era necessário e válido o ajuste terminológico. ao menos em termos conceituais e de linguagem jurídicopenal. agora adotado. Afinal. no que concerne à hermenêutica conceitual. * Livre Docente-Doutor em Direito Penal. nosso direito positivo está devidamente ajustado ao discurso internacional e em harmonia com a nomenclatura utilizada nos documentos da ONU e da OMS. Professor do Curso de Pós-Graduação em Ciência Jurídica – CPCJ/UNIVALI. é mais claro e objetivo e menos suscetível de complicação. . a antiga expressão substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica não correspondia mais ao verdadeiro conceito médicocientífico. Ex-Procurador Geral de Justiça de SC. O termo drogas.