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DA IMPENHORABILIDADE DOS MÓVEIS RESIDENCIAIS – UMA ANÁLISE DO PARÁGRAFO II, ARTIGO 649 DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL À LUZ DA LEI 8.

009/1990.
Por Carlos Arthur Faustini

Dispositivo: Lei n. 5869/73. Código de Processo Civil. Artigo 649. Inciso II.
Art. 649. São absolutamente impenhoráveis: ............................................................ II - os móveis, pertences e utilidades domésticas que guarnecem a residência do executado, salvo os de elevado valor ou que ultrapassem as necessidades comuns correspondentes a um médio padrão de vida; ............................................................

Legislação relacionada: Constituição Federal de 1988; EC n. 26/2000; Lei n. 11.382/2006; Lei n. 8.009/90; Lei n. 8245/91; Palavras-chave: Bens móveis. Impenhorabilidade. Bem de família. O dispositivo em análise, cuja redação foi dada pela Lei 11.382/2006, é óbvia adequação do instrumento legislativo processual à lei de impenhorabilidade do bem de família. Assim, o estudo do mesmo não deve ser jamais desvinculado daquilo que dispõe a lei n. 8.009/1990. O Código de processo civil ressalva a impenhorabilidade dos bens móveis, já observada no art. 1°, parágrafo único da referida lei, que dispõe:
“Parágrafo único. A impenhorabilidade compreende o imóve l sobre o qual se assentam a construção, as plantações, as benfeitorias de qualquer natureza e todos os equipamentos, inclusive os de uso profissional, ou móveis que guarnecem a casa, desde que quitados.”

Faz-se

necessário

bendizer

o

texto

processual

por

excetuar

a

impenhorabilidade não só dos bens suntuosos, mas também os bens considerados supérfluos, desnecessários para manutenção dos padrões médios da vida familiar; conquanto a legislação de 1990 não o fizesse de maneira expressa. Logo, todos os bens móveis compreendidos como bens de família (não considerados suntuosos, mera exteriorização de poder aquisitivo, ou aqueles dispensados para a manutenção do cotidiano familiar) restarão afastados da penhora e qualquer outra medida processual que com ela se assemelhe - como é o caso do arresto.

impenhorável por diferentes turmas do Superior Tribunal de Justiça1. presta-se a estigmatizar o Texto Maior. . Transcrevemos: “VII . afirmam os defensores da inconstitucionalidade. quando em duplicidade.245/1991. 1 RECURSO ESPECIAL N° 173810 – (1998/0032191-8) e RECURSO ESPECIAL Nº 836. da lei n. deixarão de ser considerados necessários e colocados à disposição da penhora. 8.MS (2006/0072755-4) 2 TARTUCE. fundamental à manutenção da dignidade humana. uma extensão feita pelo legislador da natureza propter rem da obrigação assumida pelo locador. bem como a própria afirmação do caráter securatório da fiança. A promulgação da Emenda Constitucional n° 26. sendo o exame sensível do caso concreto atividade essencial do juiz. tão efervescente.009/90. caso comum dos televisores. A aplicação do referido inciso. Assim. Flávio. incluído pela lei n. o conflito jurisprudencial. em oposição. que afirma o direito à moradia como direito social. e seus incisos. o aparelho de ar-condicionado já foi considerado penhorável e.576 . Contudo. alerta a doutrina e parcela da jurisprudência quanto à inconstitucionalidade do dispositivo.” A penhorabilidade do bem familiar do fiador proposta no inciso é. Exemplo habitual. Tomamos como inconcebível a aplicação de qualquer fórmula jurídica. solidariedade e igualdade2. É mister lembrar que o dispositivo processual manter-se-á cativo às situações que impedem a evocação da impenhorabilidade dos bens familiares previstas no art.por obrigação decorrente de fiança concedida em contrato de locação. em cobrança de dívida decorrente de obrigações propter rem (incisos II. não será oposta a impenhorabilidade em execução de alimentos (inciso III). por não observar princípios já consagrados da dignidade. Aparelhos de microondas também se tornaram matéria de constantes contradições.A primeira grande problemática a ser observada é a subjetividade daqueles bens a serem considerados supérfluos. e aqui assumimos o risco da suposição. não nos causa surpresa. Abordagem atualizada. quando as ponderações do magistrado serão aplicadas com íntima vinculação casualística. Assim. 3°. Problemática maior proposta pela presente análise deriva do inciso VII do mesmo artigo. Alguns itens. IV e V) e demais. A penhora do bem de família do fiador de locação. não teria recepcionado tal dispositivo. 8.

Carlos Velloso.br/utilidades/arquivos/OS%20BENS%20MOVEIS%20QUE%20 COMPOEM%20O%20LAR%20SAO%20IMPENHORAVEIS. de justiça social.Para lhes fazer coro. cônjuge e dependentes de bens necessários à manutenção do ambiente familiar? Em assonância aos defensores da inconstitucionalidade. . em sede do Recurso Extraordinário 352940/SP de 2005. Nossa defesa é clara em favor da razoabalidade na aplicação da lei. da Constituição Federal) aplicar ao fiador tamanha penalização. CLEMENTE. Os bens móveis que compõem o lar são impenhoráveis. escorados ainda na hodierna tendência da horizontalidade dos direitos fundamentais. É este olor que deve cativar o juízo predominante no judiciário brasileiro. O contrato – alerta-se: não nos esqueçamos do salutar fenômeno da constitucionalização do direito privado . Marco Aurélio Bicalho de Abreu.pdf . Acessado em 19 de março de 2013. Ledo engano. BIBLIOGRAFIA: CHAGAS. Disponível em: http://www. Alexandre Shimizu . outras de eficácia de normas programáticas. conquanto quem que propriamente constitui-se devedor não terá bem atingido? E quanto a sopesar o contrato acessório – de fiança – em detrimento do contrato principal? Seria atencioso ao princípio da dignidade privar o fiador. cuja elucidação não é nosso objetivo momentâneo. A INCIDÊNCIA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS NAS RELAÇÕES PRIVADAS. 3 FREITAS. sob relatoria do Ministro Cezar Peluso. estão vinculadas questões mercadológicas. Entre os argumentos apresentados. tanto nas instâncias inferiores. Riva Sobrado de . A galopes de avanço e longas viagens pela contramão. indagamos: seria isonômico ( haja vista o art. Divergências jurisprudenciais continuam se perpetuando em diversos sentidos. dizemos que não.com.3 O posicionamento defendido pareceu tornar-se hercúleo através da decisão monocrática proferida pelo Ministro do Supremo Tribunal Federal. quanto nas superiores. No ano seguinte fora julgado Recurso Extraordinário 407688/SP de 2006 em sentido contrário. caput.nunca esteve tão impregnado de uma função social.acipa. 5°.

. Riva Sobrado de .br/noticias/exibir/11359/STJ-decide-o-que-eessencial-ou-superfluo-em-penhora-de-bens-do-devedor . A penhora do bem de família do fiador de locação. 4. STJ decide o que é essencial ou supérfluo em penhora de bens do devedor. Flávio. v. Direitos fundamentais & justiça.com.doc. Acessado em 19 de março de 2013. 2011. TARTUCE. CLEMENTE. A incidência dos direitos fundamentais nas relações privadas.FREITAS. Disponível em: www. Abordagem atualizada. Acessado em 19 de março de 2013.flaviotartuce. 159-185. p. Alexandre Shimizu .direitonet.br/artigos/Tartuce_fiadorII.adv. Disponível em: http://www.