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O processo de trabalho é, antes de tudo, a utilização da força de trabalho.

Já sabemos que trabalho é valor, mas para portar esse valor, a mercadoria precisa exercer um valor de uso. Diante disto, o homem se apropria da natureza e extrai dela as características particulares para elaborar suas mercadorias enquanto valor de uso, não é porque agora é o capitalista que está sob o controle da produção que a questão da necessidade do valor de uso se esvai. Não há como conceber uma mercadoria se ela não contiver em si a capacidade de atender a necessidades humanas, e isso se dá independente da forma social estabelecida no trabalho, é independente do fato de ser o capitalista agora o detentor da força de trabalho do trabalhador, dos bens de produção, ou de qualquer outra coisa. Fazendo uma analogia com animais que também exercem trabalho (aranha, abelha, etc.), Marx chama atenção para uma característica peculiar do trabalho humano: ele ocorre, antes de tudo, na mente. É um trabalho intelectual, imaginativo, criativo, idealizador – ocorre na cabeça. Além da necessidade de força bruta, de braços, pernas, enfim, de capacidade mecânica do corpo, há a necessidade da vontade prévia estar estabelecida, para que o trabalho seja orientado a um fim. “Os elementos simples do processo de trabalho são a atividade orientada a um fim ou o trabalho mesmo, seu objeto e seus meios.” (pp. 150) A existência da matéria prima como necessidade para a fabricação de mercadorias precisa ser entendida como um trabalho já realizado anteriormente. Exemplo: A natureza apresenta a árvore, mas para que eu construa uma cadeira, esta árvore precisa se apresentar sob a forma de madeira. Transformar a árvore em madeira é um processo de trabalho, transformar a madeira em cadeira é utilizar-se do “trabalho morto” realizado anteriormente. Na totalidade do processo de trabalho, pode se considerar que por meio da transformação do objeto de trabalho, o homem efetua uma atividade onde o produto é o alcance final de todo o processo. O produto é o objetivo do trabalho, tendo-o em mãos, o trabalho está objetivado, e pode-se considerar que o meio e o objeto de trabalho são como meios de produção e, o trabalho mesmo é como trabalho produtivo. O produto passa a ser não só o resultado, mas também uma condição do processo de trabalho.Por outro lado, o trabalho introduzido neste produto é o meio de conservar aqueles “trabalhos mortos” como valores de uso. Voltando ao exemplo da cadeira: Se eu transformo a árvore em madeira, e depois não transformo a madeira em nada de útil, o trabalho que realizei ao transformar a árvore em madeira torna-se inútil. Construir uma cadeira passa a ser, portanto, uma maneira de conservar o produto trabalhado anteriormente, e o processo de trabalho pode ser entendido, então, como uma atividade orientada a um fim para produzir valores de uso apropriando-se sempre dos processos de trabalho

anteriores. “O capitalista, mediante a compra da força de trabalho, incorporou o próprio trabalho, como fermento vivo aos elementos mortos constitutivos do produto, que lhe pertencem igualmente.” (pp.154) O produto é um valor de uso, no entanto, o capitalista não fabrica a mercadoria por causa dela mesma. Ele fabrica valores de uso pelo fato de serem portadores de valores de troca. Marx dá o exemplo da produção de fios, então vamos ficar neste exemplo: Para produzir fios, o capitalista necessita comprar outras mercadorias, força de trabalho e meio de trabalho. O capitalista comprará todas as mercadorias por seu valor no mercado, 10 quilos de algodão por 10 reais – neste preço já está representado o trabalho anterior necessário para sua produção. De fuso desgastado será considerado 2 reais. Se uma massa de ouro de 12 reais equivale a 2 dias de trabalho (24 horas, duas jornadas de 12), Marx considera que para produzir o algodão, e o fuso somado, represente dois dias de trabalho também. Compra-se a força de trabalho (correspondente a seis horas de trabalho necessárias para fiar e reproduzir seu meio de subsistência) por 3 reais. Se o capitalista fizer os cálculos, verá que gastou 15 reais para a produção da mercadoria. E perceberá que gastou 2 jornadas e meia de trabalho (presentes no trabalho do linho, do fuso, e na jornada de trabalho paga ao trabalhador que fiou) para fabricar a mercadoria, portanto esta mercadoria custaria 15 (5 x 3) reais. O capitalista ficaria perplexo, seu produto custaria o mesmo que custou para ser fabricado, se vendesse mais caro do que custou, rapidamente outros capitalistas poderiam fazer o mesmo, e assim estagnaria as trocas da mesma maneira, não se produziria mais dinheiro do que se adiantou – isso seria o fim do capitalista. Para sair dessa situação, descobriu-se a “fórmula mágica”, a chamada expropriação do trabalhador, o aumento da sua jornada de trabalho, para que o trabalho que realiza seja o lucro do capitalista que o paga. Coloca-se o trabalhador então numa jornada de 12 horas, se gasta agora 20 reais em 20 quilos de algodão, 4 reais no fuso, desgaste, e paga-se o mesmo pela força de trabalho 3 reais. No entanto, ao determinar o valor da mercadoria, a força de trabalho exercida acrescenta 6 reais ao seu valor (não 3). O que custou 27 reais (somando todos os elementos do processo de trabalho), pode ser vendido por 30 (somando todo o trabalho contido). Esses 3 reais é o lucro do capitalista. E o dinheiro empregado é menor que o dinheiro retirado, dinheiro tornou-se capital. Esse lucro é chamado por Marx de MAIS VALOR. Mais valor absoluto é então o prolongamento da jornada de trabalho, para além daquele tempo necessário para a subsistência, que vai parar como forma de dinheiro no bolso do capitalista. Essa perseguição por aumento de tempo, consequentemente, aumento de produção impulsiona, por exemplo, a criação de tecnologias. O período que compreende o capitalismo é o período de maior inovação tecnológica empregada pelo homem já

visto. E todos esses fatores que envolvem o processo produtivo pertencem ao capitalista: os meios de produção, os bens de produção, a força de trabalho do trabalhador, a mercadoria final... Tudo. Aos homens restam apenas sua força de trabalho a ser vendida, todo o resto diz respeito ao capitalista, ele mantém todo o controle. Não é a toa que durante todo o século XIX, as demandas sociais de lutas eram por redução de jornada de trabalho. Em meu seminário, pude exprimir a situação lastimável de crianças, adolescentes e mulheres com jornadas de 16, 18 horas por dia para que se alcançasse esse objetivo do capital. A deterioração dos seres humanos que vendiam sua força de trabalho em favor do constante enriquecimento automático de outros seres humanos que detinham todo o poder no processo de produção era um problema social grave, mortes e doenças eram recorrentes, o mau desenvolvimento de jovens trabalhadores se tornou corriqueiro. Os outros colegas em seus seminários, também expuseram as diversas lutas e reivindicações dos trabalhadores na época, principalmente os direitos das crianças – que eram mais afetadas, mais exploradas, e recebiam muito mal. Aliás, se recentemente comemoramos o dia 8 de março como dia internacional da mulher, tem em um de seus motivos justamente as lutas das mulheres por redução de jornada. Ao longo de todo o século, pequenas conquistas foram sendo alcançadas em favor dos trabalhadores, mas se por um lado a tática da arrecadação do mais valor sofria baixas, por outro, outras táticas poderiam vir a ser empregadas, como por exemplo, a redução do salário pela jornada, o que de maneira quase igual, consolidava e assegurava o lucro do capitalista.