A alegria não é incompatível com a civilidade

Infelizmente, o que se viu depois da festa seguiu um enredo conhecido, sem motivos para congratulações: toneladas de lixo nos logradouros públicos, praias entupidas de detritos e ruas fétidas

Palco da Copa do Mundo em 2014 e da Olimpíada de 2016, o Brasil vive um período probatório, em que sua capacidade de receber turistas e organizar eventos com multidões é posta à prova, numa espécie de ensaio geral para as duas grandes comemorações esportivas. É também sob essa perspectiva que deve ser feito o balanço do Carnaval nas capitais do país, em particular no Rio de Janeiro, sede da Olimpíada e da final da Copa. Durante os quatro dias de folia, o Rio recebeu 900 mil turistas, um número maior que a meta traçada para a Copa. Seis milhões de foliões seguiram 500 blocos de rua numa alegre e pacífica confraternização - uma proeza digna de celebração. Infelizmente, o que se viu depois da festa seguiu um enredo conhecido, sem motivos para congratulações: toneladas de lixo nos logradouros públicos, praias entupidas de detritos e ruas fétidas. No Rio, a empresa de limpeza urbana, a Comlurb, havia recolhido mais de 700 toneladas de lixo. O cenário de imundície não era diferente em outras capitais. Até o domingo passado, a empresa de limpeza urbana de Salvador recolhera mais de 600 toneladas de lixo nos três principais circuitos dos trios elétricos. Até o final do Carvanal, previa-se a coleta de até 1.500 toneladas de lixo. As razões para os monturos nas ruas são também previsíveis. A infraestrutura é insuficiente e há poucas latas e caçambas de lixo. Isso é resultado não só de falta de investimento, mas também de planejamento deficiente por par~e das empresas encarregadas da limpeza. O trabalho delas precisaria começar bem antes. Não é que o se verificou na preparação para o Carnaval. As operações especiais erraram feio ao prever o número de garis necessários. No Rio de Janeiro, apesar do lixo recorde nas ruas em 2013, o número de garis arregimentados pela Comlurb só cresceu 15% em relação ao ano passado. O bom administrador público é aquele que traça cenários e não é pego de surpresa. Não é só a falta de infraestrutura urbana que explica a sujeira. Alegria não é incompatível com civilidade - e esse comportamento ainda precisa ser reforçado entre os foliões. No Rio de Janeiro, 659 pessoas foram presas por urinar nas ruas 57 delas mulheres. O número caiu em relação ao ano passado, mas não espelha necessariamente uma melhora de comportamento. As ruas continuaram pestilentas. Filas intermináveis em banheiros químicos explicam - embora não justifiquem - a ação dos preguiçosos ou desesperados que sujam as ruas. A ONG AffroReggae adotou uma estratégia criativa para encorajar os foliões a urinar no lugar certo. Usou a urina para movimentar um trio elétrico na Zona Sul do Rio. O inusitado projeto, batizado "xixi elétrico", transformava a urina em energia. Ele sozinho, porém, não tem o condão de ensinar boas maneiras a quem não as trouxe de casa. Campanhas de conscientização precisam ser feitas o ano todo. E a punição aos infratores deve ser rigorosa antes e depois do Carnaval.