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SOCIEDADE BRASILEIRA DE SOCIOLOGIA XII Congresso Brasileiro de Sociologia GT22 – Sociologia da Infância e Juventude

A CENTRALIDADE DA DISCIPLINA NA RELAÇÃO COM A INFÂNCIA E A JUVENTUDE CONTEMPORÂNEAS

ESTELA SCHEINVAR

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à “falta de limites” na educação familiar ou à “desestrutura familiar”. Tem -se investido em uma abordagem individualizada. suas ações e as ações sobre eles que. Discute-se. tendo como foco a constituição de sujeitos. Professora da Faculdade de Formação de Professores – Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ. os sentidos que adquirem. a prática de – no dizer de Bauman – “despojar toda interferência coletiva no destino individual para desregulamentar e privatizar”. favorecendo estruturas próprias de relações disciplinares. como aponta Castell. Interessa. implica na análise dos processos não a partir de um sujeito. 2 . Doutora em Educação. Socióloga do Serviço de Psicologia Aplicada – Universidade Federal Fluminense/UFF. no entender de Foucault. em particular. têm sido abordadas de um modo técnico. mas da sua constituição na trama histórica. abstraindo-se das produções históricas das quais emergem os casos estudados. 1 Socióloga. enquanto exigem um tratamento político.SOCIEDADE BRASILEIRA DE SOCIOLOGIA XII Congresso Brasileiro de Sociologia GT22 – Sociologia da Infância e Juventude A CENTRALIDADE DA DISCIPLINA NA RELAÇÃO COM A INFÂNCIA E A JUVENTUDE CONTEMPORÂNEAS ESTELA SCHEINVAR1 RESUMO A partir da pesquisa “As demandas produzidas na relação entre o conselho tutelar e a escola” este trabalho propõe-se a problematizar a centralidade que tem tomado a disciplina de crianças e jovens na discussão de problemas sociais. então. pois. que passam desapercebidas por funcionarem por meio de mecanismos que operam individualizando o social. Percebe-se que as ciências humanas e sociais têm contribuído a alimentar a fala que entende a questão da disciplina como “o maior problema das novas gerações”. fazer uma discussão genealógica que. atribuindo-a a processos comportamentais. que têm operado de forma violenta.

Ao acessar documentos e ouvir alguns dos grupos implicados nas relações consideradas de indisciplina no contexto da escola. na área da educação escolar. que vêm sendo desenvolvidos na UFF desde 1997e na UERJ desde 2004. 2 Trata-se dos projetos “Estatuto da Criança e do Adolescente: dispositivo de intervenção na área da infância e da adolescência/ECA:DIADIA” e “As demandas produzidas na relação entre o conselho tutelar e a escola”. a certeza de ser a indisciplina dos jovens a maior dificuldade foi contundente. nos prontuários. da parte dos pais. mostra que para os conselheiros tutelares os pais são os maiores responsáveis pela violação dos direitos da criança e do adolescente. parte expressiva dos casos são registrados como produto de conflitos familiares. reclama-se da incompetência da escola para orientar os alunos e ensinar-lhes como se comportar para não transgredirem a ordem e terem sucesso. embora haja um reconhecimento generalizado das dificuldades sociais.A CENTRALIDADE DA DISCIPLINA NA RELAÇÃO COM A INFÂNCIA E A JUVENTUDE CONTEMPORÂNEAS Estela Scheinvar UERJ/UFF A presente análise se fundamenta em experiências de pesquisa e intervenção em escolas e conselhos tutelares2. o conflito tem sido entendido como um problema familiar. ambas no estado do Rio de Janeiro. sob minha coordenação. identificada como produto da “falta de limites” dos jovens. o levantamento de dados realizado em conselhos tutelares nas cidades de Niterói e São Gonçalo. registramos que.do fatídico destino que lhes reserva a chegada à adolescência. econômicas e políticas características da sociedade contemporânea.o tanto quanto possível . Ao lado dessa preocupação central. que se propõem a entender a forma como funcionam as práticas pedagógicas em relação à garantia dos direitos de crianças e jovens. 3 . Foi este pensamento que instigou a problematização dos comportamentos entendidos como responsáveis pelos grandes conflitos sociais. Das incursões realizadas observa-se que. além de alguns se reconhecerem como incapazes de controlar seus filhos. de professores e de pais. do lado dos professores. Da mesma forma. pois. em particular. ao aproximarse dos campos de análise através de conselheiros tutelares. emerge a decorrente necessidade de controlar as crianças para “preveni-las” . em geral.

Surpreende que a metodologia de trabalho adotada. atitude. de cara. conforme apontam os dados do IBGE. neste trabalho está sendo entendido por indisciplina de crianças e jovens todo movimento. desejo. Assim.No entanto. em função do comportamento dos seus subordinados. às quais se recorre em São Gonçalo. haja visto a escola pública ser um serviço deficiente. de formas distintas. 4 . políticas públicas. pois as respostas prontas e certeiras que instrumentalizavam as práticas passaram a ser vistas como difusas e inconsistentes. que não se pauta na introdução de modelos a serem ensinados. apresentavam-se de forma instigante. onde outras práticas sejam produzidas. intervenções socioanalíticas3 nas escola e em conselhos tutelares permitiram um diálogo mais detido com professores. ainda. meios de comunicação. que soava desnecessário ocupar o tão precioso tempo de trabalho de todos os envolvidos com a pesquisa. de parcela importante de responsabilidade pelos “desmandos” da juventude. de início. as formas através das quais as verdades foram sendo construídas. mas na construção de análises a partir das práticas presentes nos estabelecimentos. ao se intervir nos equipamentos sociais através das pesquisas. instalando a diversidade. Cabe frisar. investe em produções distantes da certeza do “saber”. de acordo com a proposta do sociólogo francês Renné Lourau. que o 3 A intervenção socioanalítica. para criar atalhos. por si. que a maior demanda em relação à escola nada tinha a ver com as famílias que tinham sido acusadas. Assim. É uma proposta no sentido de conhecer os caminhos produtores das relações sociais em sua perspectiva histórica e. pois era a busca por equipamento social. ato que leva os segmentos responsáveis pelo controle das novas gerações a se queixarem e a denunciarem a sua incapacidade de controla-los. pais. Esta premissa. saberes que produzam crises e novos percursos. exime escola. o ques tionamento. formas de exercício de poder ou qualquer instância. por exemplo. deslocam-se as oposições construídas sob perspectivas binárias. que pareciam tão íntimos e domináveis. seja através da denúncia de ausência de vagas ou de pedidos de documentação retida por inadimplência em escolas particulares. A insistência na indisciplina de crianças e jovens como causa dos problemas sociais é sustentada em uma produção segundo a qual o jovem tem uma natureza rebelde. Nesse processo. tem se tornado uma ferramenta em favor da produção de outras lógicas que contribuem com o entendimento do que. como se o seu comportamento individual fosse responsável por colocar em risco as estruturas instituídas. neles. os lugares comuns começaram a se tornar estranhos e os territórios. A rigor estas denuncias indicam uma potencialização de tais segmentos. a leitura dos prontuários indicava. parecia tão óbvio. No conselho tutelar. alunos e conselheiros. a partir da busca da gênese e não de uma origem.

Esta uma produção composta de inúmeros fios da história que conta a emergência e atualização da sociedade moderna e que requer ser discutida. assim. defensor da lei. na sociedade industrial. A centralidade que tem tomado a categoria indisciplina tem contado com o suporte de alguns especialistas da área humana e social. a problemas familiares. quando a atribuem à existência de “famílias desestruturadas”. Sustentada na perspectiva positivista. com ênfase no âmbito pedagógico. em favor da luta pelos direitos cidadãos. por último. como nas casas e escolas. à “negligência familiar”. A centralidade da categoria disciplina na sociedade moderna Como é sabido. diferente da prevalecente até o século XVIII/XIX. tornando os problemas domésticos e pedagógicos escalas comportamentais. o poder político torna-se uma instância essencial para regulamentar a ordem natural.foco é o comportamento individual. dos pressupostos da construção da ordem na sociedade moderna. então. que trazem uma nova leitura dos conflitos e das infrações. da lei da natureza. em torno das possibilidades de produzir outros olhares para a relação com a infância e a juventude. destacando como uma de suas características de relevo as inovações nos sistemas jurídico e penal. na Inglaterra e na França (Foucault. Estes. 2003). Michel Foucault denomina a sociedade moderna como “sociedade disciplinar”. induzem à exigência de maior rigor na ordem familiar. Para coloca-la. proposto como se fosse apenas um aparelho administrativo. assim como à atualíssima demanda por “dar limites” a crianças e jovens nos lugares em que convivem de forma sistemática. Concluir que a conduta das crianças e jovens colocam em risco o bom andamento institucional não só é uma forma de sublima-los. passa a ser entendida como a regulamentação das relações naturais e. a infração uma afronta à natureza. pois independentemente da repetição da queixa. do contexto sócio-político contemporâneo no qual é atribuída a responsabilidade pela ordem ao comportamento de crianças e jovens e. enfim. coletivos. não há qualquer indício de movimentos organizados. mas de sugerir certa isenção das estruturas nas quais eles estão inseridos. Os transgressores. a lei. em relação aos chamados “conflitos disciplinares”. passam a ser vistos como 5 . portanto. conjugados com a crença na natureza rebelde do jovem. o presente trabalho propõe-se a fazer algumas incursões em torno da produção das relações disciplinares. em análise. A partir desta lógica.

estes se diferenciam desde cedo de acordo com a inserção de classe. que não se trata de regras universais. que as relações sociais na modernidade têm. da ordem e da disciplina. Neste período. é bom esclarecer. observando-se que os mais pobres foram mais distanciados de suas famílias.forma preponderante com que emerge. ficando os conteúdos técnicos e científicos subordinados a ela. 1992). a escola não só depende da disciplinarização dos corpos para funcionar. ao passo que os pobres são submetidos a controles disciplinares muito mais 6 . em seu estudo arqueológico. O conhecimento escolar passa a ser entendido a partir de regras de ordem. para que seja assumida como necessária e natural para a convivência e de progresso. Assim como o exército. sob tal forma funcionam as escolas. na forma do convento. a lógica disciplinar. os juizados – e todos os equipamentos sociais de maneira geral – que terão a disciplinarização como fundamento de suas práticas. matizada. No entanto.elementos antinaturais. como virtude maior. através do afastamento da família. do distanciamento da autoridade. Não por acaso a escola tem uma história de enclausuramento . mas da dureza da internação. os hospitais. uma série de pesquisadores. mas distinguidas em função da inserção de classe dos alunos. para muito além da disciplina. o ensinamento da obediência.. é o espaço privilegiado para instalar os mecanismos de governo dos séculos XIV ao XVII. tendo os mecanismos disciplinares como objetivo prioritário. dos quais também fazem parte as normas. mas cabe a ela interiorizar a normalização. não só em função “de conteúdos e atividades. pela condição de classe. mostram que a construção do espaço fechado. com ele. Prática fundamental. estes são colocados como pré-condição para que haja ensinamento. mas talvez seja – dentre todos – o espaço por excelência responsável por garantir a ordem necessária à coesão da sociedade burguesa.. Percebe Foucault e. contudo. Assim.”(Álvarez Uría e Varela. que ocorre. Álvarez-Uría e Varela. em primeiro lugar. Mais ainda. Se bem é verdade que vão se instituindo os conteúdos acadêmicos. perturbadores e inimigos sociais. instalando. obedecendo à sua natureza social. o confinamento no espaço escolar é um mecanismo de controle eficiente para a introdução das novas normas produzidas na sociedade burguesa. Não só requer a escola a obediência no seu interior. do rigor dos castigos. Os nobres são menos contidos e aprendem fundamentos da chamada “vida culta”. da submissão às ordens. da subserviência.

a fábrica ou qualquer espaço de atividade formal e os espaços familiares. Coerente com as novas demandas do mundo moderno. Como aponta Max Weber. tornando as condições de vida dos trabalhadores uma esfera desconectada seja do patrão ou dos amigos.rígidos e orientados a servir através da aprendizagem técnicas de ofícios. por serem os primeiros a conseguir. como se fossem esferas independentes. o hospital. o trabalho. Não se trata de despertar uma curiosidade sobre um tema e ter um afã pelo seu aprofundamento. Para tanto. privado. não significa que o espaço seja uma construção coletiva. ao funcionamento do processo produtivo e. Até então os espaços de convivência compartilhados indicavam intimidade e possibilidades de exercício de poder. A tecnologia do poder passa a ser uma estratégia essencial ao exercício da dominação. Estar junto todos os dias. com ele. Esta a lógica que cimentará a escola com o enclausuramento e o distanciamento dos alunos de suas famílias. mas de que os alunos se destaquem por cumprir tarefas. A demarcação é construída entre a escola. Subjetividade esta fundamental à lógica privada da sociedade capitalista. quanto técnicas de domesticação através de mecanismos que em nada se assemelham aos rudes métodos tradicionais de controle. mas na sociedade capitalista não mais operam sob tal lógica. todas as horas. a separação entre o trabalho remunerado e a família é um elemento fundante do capitalismo moderno. tais como a competitividade. a escola não garante tanto um saber. qual seja. os quais passam a ser cindidos. A subjetividade-indivíduo será um dos efeitos do processo de disciplinarização que a prática pedagógica produzirá. demarcando a diferença entre convivência cotidiana familiar e convivência cotidiana formal. O espaço pedagógico como dispositivo de governo se organiza através de mecanismos disciplinares construídos nos mais mínimos cantos e momentos da escola. Sobrevivência e trabalho se dissociam moralmente. a sociedade 7 . A vigilância cotidiana e minuciosa à que é submetido o aluno faz com que aprenda uma noção fundamental. através de métodos de estímulo. os feitos que indiquem que os efeitos de normalização operam eficientemente. mas afirmação das hierarquias que haverão de se internalizar. do processo de controle político. inclusive nas atividades íntimas como comer e dormir. que a proximidade física não significa aproximação afetiva. desconstruindo o sentido das relações sociais precedentes e afirmando hierarquias e normas próprias dos tempos modernos. individualmente. por reconhece-las como uma questão do âmbito individual.

não para inibir suas forças. Face à transgressão . 8 . como para inibir aqueles que por ventura pensem seguir os passos do “transgressor”. as penas que tendem as ser a “correção do dano” – que geralmente quer dizer a confissão do arrependimento e vergonha. vedando qualquer outra possibilidade de ser. nessa medida. mas para multiplicá-las e normalizá-las”(Rocha. um compromisso pessoal e. Nessa medida. sobretudo social. de sentir. para que operem em favor da ordem instituída. o conjunto de instituições que consolidam a vida urbana têm a perspectiva de corrigir para formar. de tecer uma subjetividade domesticada. o olhar disciplinar apenas propõe a contenção.moderna “tem uma ambição pedagógica.a punição passa a ser entendida como necessária. de certa lógica necessária à conservação da ordem estabelecida.por ser esta produzida como uma afronta à sociedade e não como uma discordância . sustentados em naturalizações e em cima dos quais as regras são ditadas.. em favor tanto da pessoa indisciplinada como da sociedade que se vê ameaçada perante sua indisciplina. Perante comportamentos imprevisíveis ou ameaçadores aos poderes instituídos. tanto para evitar a repetição da transgressão do indivíduo concreto que cometeu a irregularidade. evitando qualquer movimento de luta e. mas cairá nas malhas da infração e será submetido às normas disciplinares que punam o comportamento. Todo comportamento diferente do definido como certo pelos que exercem o poder. como um bem. a coação. A sociedade moderna instaura a lógica disciplinar a partir da positivação de parâmetros de verdade. criativo. assumida como natural. de forma exemplar. através da humilhação –. A lógica do poder dominante é produzida como a lógica da vida. de reterritorialização das relações. como uma incapacidade do indivíduo ou como um desafio à ordem estabelecida. mas como um boicote. de olhar. O não cumprimento das metas e do que Rousseau chama de “contrato social” é produzido não como uma opção. não terá espaço de escuta ou análise.. o que significa fazer tentativas mais incisivas e contundentes. inibindo qualquer movimento singular. 2005). o pagamento dos prejuízos – entendidos como prejuízos ao bem comum – e a exclusão são vistas como formas de auto-preservação da espécie e nunca como mecanismos de sustentação de certo poder. de viver.

é uma ordem maquínica à que desde cedo o sujeito terá que ser inserido e da qual se apropriará naturalizando-a. a ordem que leva à obediência. 9 . porque a sua condição de trabalhador não assegura nem a propriedade nem o acesso aos bens que produziu – é pensar na produção de um indivíduo-máquina que aceite e se reconheça despossuído. engrenagens da mesma máquina que cuspirá objetos repetitivos. permite pensar que. seja ainda. há que se produzir corpos dóceis em série. absorvendo movimentos repetitivos. atrelados. da mesma forma que se desenvolve uma tecnologia-máquina. aqui. de sua desapropriação em relação ao produto que ele contribuiu a produzir. abstraindoas de seu lugar no processo produtivo. Ou seja. Sem dúvida. São movimentos concomitantes. Para se iniciar a produção industrial em série. discutem as estruturas e mecânicas através dos quais o poder é exercido. a começar pelos trabalhos do velho Karl Marx. a partir de suas condições pessoais de vida. fragmentadamente – seja porque o trabalhador assalariado não possui os meios de produção. tem a conotação da naturalização.Ordem? Qual das ordens? De diversas formas estudos. Esta relação é exaustivamente analisada por Marx ao longo de sua obra. de maneira a garantir não só a sua imposição. à repetição de movimentos que caracterizam o momento do processo produtivo do qual o trabalhador participa e ao reconhecimento ou. Quando Marx define o modo de produção e. nele. por parte do trabalhador . fragmentado e explorado. Trata-se de uma produção mecânica. seja porque participará de apenas um dos momentos do processo de produção sem condições de dominar o processo produtivo como um todo ou. baseada na tecnologia. é absolutamente indispensável que se desenvolva um indivíduomáquina para que a produção ocorra. A lógica das relações sociais obedecem ao ritmo do capital. orientados ao ideal da 4 “Aceitação”. O que a presente análise quer apontar é que não se está negando o desejo do trabalhador de apropriar-se dos bens por ele produzidos. que é ininterrupto e elemento dinamizador da produção em série. mas que tal desejo passa a ser entendido como algo a ser satisfeito particularmente. Pensar um indivíduo livre. mas a sua hegemonia. para a qual a produção maquínica dos sujeitos é condição essencial. pesquisas e análises. porém atrelado a relações de trabalho nas quais se insere pontualmente. sem considerar qualquer relação entre a sua inserção no processo produtivo e a sua impossibilidade de acesso aos bens construídos. mais ainda. 1974). à aceitação4 da sua alienação ou desapropriação do produto do trabalho. a correlação entre as forças produtivas e as relações sociais engendradas em seu contexto (Marx. ao falar da alienação do trabalhador.

psicologia. A constatação cada dia mais enfática das normas disciplinares não conduzirem ao sucesso individual tem tornado os ensinamentos instituídos em espaços vazios ou. pior. de ser uma engrenagem de forma tão imantada que no fluir da montagem não se reconheça onde acaba o trabalhador e onde se inicia a matéria inerte: ambos tornam-se inertes com a sua obediência-máquina. para efetivamente “contribuir”. A normalização característica da sociedade capitalista. da luta pela minimização do exercício da força física. indicam o silenciamento necessário ao funcionamento do mundo moderno. cada vez tem se tornado mais difícil. mais instantâneo e descartável. por sua vez. o Estadocoação pode ser concebido em processo de esgotamento. O controle cotidiano e minucioso da formação da infância e da juventude não garante a previsão de seu florescente futuro. Gramsci vai apontar a importância da luta pela hegemonia do poder. à produção da vida em série. tem como condição a eficiência a qual. a construção de um consenso em favor de uma política de classes apresenta-se cada vez mais distante. como as colocadas pela burguesia. tal processo se dá através da segregação produzida 10 . não por questões genéticas. Para este autor. sob bases contraditórias. Um aporte interessante a este debate é a idéia de Guattari (1986) da infantilização enquanto função da economia política e da economia subjetiva. em uma violência. mas de confundir-se com uma peça. uma mentira e. 1978). depende da capacidade de inserção da força de trabalho à lógica e ao ritmo com que as máquinas operam. básica para a realização do ciclo do capital. para cimentar a condição de dependência do Estado. Pessoas obedientes e ordeiras talvez seja o produto mais precioso e indispensável para a realização do capital. que é. comportamentais ou receitas morais para a prática familiar. como forma de ampliar a dominação. serviço social e áreas afins. operada especialmente em crianças e jovens. Essa agilidade. que é a reprodução do capital. quando indicam tratamentos orgânicos. em um engano. Não se trata apenas de obedecer. como querem os especialistas em pedagogia. Falas que desde cedo crianças e jovens irão ouvir. à sua reprodução tão rápida quanto possível. a medida que o Estado e a sociedade civil se afirmem enquanto elementos cada vez mais importantes de uma sociedade regulada (Gramsci. Para este autor. Porém. no sentido de “somar-se aos processos” e não alterar a ordem. como toda mentira.sociedade do capital. a cada dia. na medida em que esta propõe-se a ordenar sua inserção em um processo produtivo.

sobretudo nos atuais tempos neoliberais. Bem define o paradoxo do mundo em que vivem as jovens gerações contemporâneas a figura do super-herói: polivalente. à imprevisibilidade e à descartabilidade a partir dos recursos que uma formação bem-comportada e ordeira oferecem. a demanda de um comportamento coletivo é nitidamente produzida como forma de controle. então. a de fixar modelos de comportamento sem possibilidades formais de serem atualizados. que depende de sua capacidade de circulação e atualização para sobreviver.. a repetição e a contenção como condição de sobrevivência. sempre sorridente. sem o reconhecimento formal das atualizações que são operadas. Assim. seguro de suas qualidades e acima dos “acidentes” mundanos. Nada melhor. os espaços fechados. Para um cenário destes. pautadas na potencialização do 11 . precisamente por apontar a busca da solidez dos movimentos. ao fazer uma ponte entre o super-herói e o jovem contemporâneo. ao mesmo tempo que as áreas de recursos humanos e marketing enfatizam a criatividade. em um sistema mutante. Se por um lado a luta pela sobrevivência é clara na necessidade de saídas pessoais. Neste contexto. espontâneas. ou mais bem. guardião da ordem instituída e anônimo. do controle de corpos e mentes. pelo outro. Público e privado em uma relação imanente. imprevisível. vale lembrar que na sociedade capitalista a maior contradição está dada pela relação capital-trabalho. pensar.. a espontaneidade. Os meios de comunicação. Resistente a tudo e a todos. tornamse restritos para acompanhar os movimentos intensos e cada vez mais dispersos do século XX. tais como a escola ou o local de trabalho tradicional. que um super-herói que continue respondendo à instabilidade. Ante este quadro. surpreendente. Paradoxal lógica. só construindo-se um personagem imortal. que lhe permita suportar os ventos avassaladores da acumulação privada. passam a ser fundamentais na afirmação de regras e formas de vida reconhecidas como certas. o “virar-se” para poder acompanhar a instabilidade contemporânea. por exemplo. por tratar-se de um processo de produção cada vez mais coletivo e uma apropriação cada vez mais privada. o processo pedagógico afirma a continuidade. então. atingida através de modelos totalitários de formas de ser. em um mundo cuja marca é a atualização permanente das verdades e das potencialidades. fundamentais na emergência da sociedade disciplinar. sentir. Porém.por sistemas hierárquicos fixos e da culpabilização. triunfante. Interessante a idéia. o indivíduo tem que ser produzido com uma força individual imbatível. porém tensa.

para tanto. que passa a ser exigido para se poder participar dos laços comunitários. como aponta Guattari (1996). caso busque formas singulares de existir. a falta de espaços para realizar a liberdade prometida torna a referência à comunidade. que a ordem do capital impede com seu movimento incessante. disciplinada. implica. Como ele diz: “e no entanto a vulnerabilidade das identidades individuais e a precariedade da solitária construção da identidade levam os 12 . pois em movimento incessante. tornando-o um inimigo do sistema. pertencimento. Se por um lado o indivíduo é produzido como livre. embora seja um termo associado à proteção.liberdade. proteção. vão criando “margens” e “mecanismos corrosivos” que fogem ao ideal de universalidade. a proteção se vê comprometida. Em tais condições. quando definido um único modelo de ser (criança ou jovem). Em um sentido deleuziano pode-se falar na sociedade de controle. no sentido clássico. que recairá com ênfase nos jovens. Na verdade. para manter a ordem. sua liberdade requer um controle (dito em termos atuais sobre a educação das crianças e dos jovens: “liberdade mas com limites”). como tem sido adotado no mundo contemporâneo. Um conceito que traz essa tensão é o de comunidade. não se pode perder de vista que. entra em crise. que também é uma alusão à lealdade. que é uma sociedade que opera através de totalizações. São estas as possibilidades que justificam um certo fascismo social. as totalizações. cujo ideal é a anulação de outras virtualidades. Bauman chama a atenção para o apelo à identidade. so pena ser interditada e coagida. significar a busca de arraigo. no momento em que a comunidade. ao apontar que. a coação à . Bauman (2003) desmistifica a positividade com que é tratada a noção de comunidade. esperando que esta se paute por uma única norma. Chama a atenção o fato do conceito comunidade. os mecanismos de controle vão se expandindo para alcança-lo nos recantos do espaço aberto.indivíduo e. um compromisso com a obediência.tão afamada pela sociedade burguesa . também. está sendo definida uma natureza à relação social “juventude” ou “infância”. afeto. da família como responsável por nutrir sua veia superpotente. Nessa medida. Entretanto. com os deslocamentos sem fronteiras e sob a ditadura do cronômetro. dos que se cobrará uma única identidade. a falta de espaços reais para concretizar a liberdade o levará à busca de outras lógicas de vida. em sua produções. Ao mesmo tempo que o indivíduo ocidental vai-se individualizando cada vez mais. como o inventado pela lógica da reprodução do capital.

a sociologia. com rigor técnico. a julgar pelas verdades consagradas nas lições que são repetidas e cobradas todos os dias. Discute-se. p. a prática de – no dizer de Bauman – “despojar toda interferência coletiva no destino individual para desregulamentar e privatizar”.. querem. que hoje vemos a construção de legislações voltadas a nivelar as formas de coação. favorecendo estruturas próprias de relações disciplinares. em conjunto.. A produção de outros olhares – a construção de outras práticas Sem dúvida. deles mesmos se pensarem de outras formas e de darem sentidos diferentes aos que foram instituídos em relação ao que fazem. Porém. fazendo com que opere uma lógica segundo a qual quanto mais rígida a relação doméstica. a família é chamada a “colaborar”. A medicina. Aliada fundamental para articular os fragmentos de conhecimentos que vão invadindo os corpos. a pedagogia. a história. a psicologia. Não resta muito que inventar. Ao dar-lhes uma natureza interdita-se a possibilidade de se pensar outras formas de ser criança e jovem. as áreas da ciência. Em nenhum momento se constróem espaços de escuta e invenção coletiva. mas de coação e obediência disciplinar. às que a família se viu impelida a adotar. a família tornou-se o alvo predileto para as queixas pelos “desvios” de seus filhos. o serviço social. maior grau indique de dedicação e afeto familiar. dizem. a norma disciplinar produzida pelo poder dominante faz parte do pensamento hegemônico. a antropologia. de maneira geral. Uma das formas de violência é a definir as crianças como “curiosas” e os jovens como “rebeldes” por natureza. descolando-os do lugar da transgressão para o de rupturas produzidas por “processos de singularização”. que têm operado de forma violenta e invisível. Nesse movimento. sentem.21). 13 .construtores da identidade a procurar cabides em que possam. então. como se a questão da educação/formação das jovens gerações fosse técnica e não um fundamento político essencial à dominação. depois disso. realizar os ritos de exorcismo em companhia de outros indivíduos também assustados e ansiosos” (Bauman. O poder discricionário emerge com tanta potência. Guattari (1986) contribui para se pensar em movimentos que fogem às totalizações que as subjetividades dominantes operam. funcionando por meio de mecanismos que operam individualizando o social. 2003. pendurar seus medos e ansiedades individualmente experimentados e. definem crianças e jovens minuciosamente em cada uma de suas etapas.

tidas como naturais. potência. Insistir na natureza rebelde. como também através dos efeitos múltiplos que escapam à sua previsibilidade. a emergência de forças que. potencializando a sua expressão instituinte. na busca de espaços de criação. se deslocam para terrenos inusitados. Observa-se. Através desta lente a indisciplina não é um erro. mas instalam um debate sobre o sentido das relações. por serem coagidos quando tornados evidentes ou incômodos. nem as estruturas e práticas políticas e sociais. Em geral. o normal e o patológico é desconstruída e as verdades cristalizadas. dando visibilidade a processos instituintes que passam despercebidos quando capturados sob a forma de transgressão. desta perspectiva. mas sobretudo. A autonomia é uma condição para a reterritorialização do instituído.Trata-se de uma proposta de positivar as normas não só através de seus efeitos de obediência. possibilidade de novas virtualidades e. não se configuram organicamente. mais ainda. Curioso o pensamento preocupado com os limites dos filhos e dos alunos. agressiva. os processos de singularização tendem a ser movimentos espontâneos e individuais. mas os silenciamentos exigidos quando a sua 14 . tornando afirmativos os processos de singularização. terão que inventar dispositivos para intervir nas relações instituídas. Importante pensar não só a ordem exigida às novas gerações. ). Por não terem um espaço instituído e. não trazem uma preocupação com a sua regularidade. não só se individualizam questões coletivas. o funcionamento das práticas. mas um embate. destrutiva ou curiosa das crianças e dos jovens é uma forma de não discutir nem os processos moleculares. a lógica dicotômica positivista que demarca o certo e o errado. se individualizam relações sociais e políticas que estão atravessadas nos micro-espaços. sem perceber que as margens são tão estreitas na sociedade contemporânea que mal consegue-se respirar. p. as lógicas de poder instituídas. vivas. Ao se abordar do ponto de vista comportamental as práticas consideradas disruptoras. se não forem sufocadas. destituindo-as das condições históricas em que foram produzidas. embora indiquem forças presentes. como coloca Heckert em relação à experiência na escola: “nos modos de gestão que estão em ação na escola se expressa a multiplicidade de linhas e será na composição destas linhas que se gestem maneiras que aprisionam e expandem as possibilidades de criar práticas educacionais que facultem exercícios de autonomia”(Heckert. 2004. Os atos tidos como indisciplinados. Para tanto.

o objeto. a coexistência dos princípios burgueses de liberdade e igualdade. se explica a partir do que é feito” (Veyne. Se bem é verdade que a democracia não garante as condições de vida da população. acreditar nela. perverso.). ditatorial. que coloca os seres humanos em condições desiguais. A luta pela democracia vai muito além da garantia legal de condições de vida. mas das políticas de Estado. O importante não é nomear a democracia. face à exploração do trabalho. em democracia. p. em uma sociedade cuja noção de Direitos Humanos ainda é tão precária que o próprio direito à vida é questionado quando discutida os atos infracionais dos pobres. que pressupõem condições políticas que intervenham nas hierarquias e. Importa analisar o que se 15 . colocando sob questão. 1982. O que se defende. não é uma idéia natural. não em função dos comportamentos particulares. A noção democrática no Brasil é profundamente delimitada por recortes de classe. na criação. os pensadores liberais reconhecem que a igualdade é uma précondição para o funcionamento democrático. Hannah Arendt afirma que o totalitarismo exige a noção de “verdade” e bem sabemos que esta é uma produção histórica em favor da hegemonia do poder. presentificando-se em torno de uma vontade democrática. com elas. no qual não há espaço para se pensar na participação.disciplina se torna o centro das análises. Como falar em participação. cruel e profundamente autoritário. desenhem novas geografias nos espaços sociais. enganamo-nos quando pensamos que o fazer. quando se luta pela sociedade democrática. então. liberdade e participação e é a partir destas que Marx discute os paradoxos da construção democrática. na democracia. ou seja. ela implica na garantia de mecanismos para o exercício do poder. como fundamento para o estabelecimento de regimes democráticos. implica na criação de dispositivos de participação efetiva nas próprias estruturas nas que se convive. Desde os atenienses as condições para a democracia estavam dadas pela igualdade. mas práticas diferenciadas. se explica pelo que foi o fazer em cada momento da história. Da mesma forma. que faz parte de um discurso de guerra. o silenciamento das novas gerações é o enraizamento de práticas que em nada se aproximam à possibilidade do múltiplo e até do divergente coexistirem manifestando-se. O apelo à disciplina é uma exigência de obediência civil a todo instante. mas construi-la. Segundo Paul Veyne a tese central de Foucault coloca que “ o que é feito. a prática. descontextualizada de um mundo caótico. um modelo pronto. no coletivo.

Projeto de Pesquisa. ULAPSI.. pois são associados a experiências nomeadas participativas. Zygmunt. Universidade Federal do Espírito Santo. 1996 Heckert. Referências Bibliográficas Álvarez-Uría. La Piqueta. y Varela J. São Paulo. Abril Cultural. dadas as evidências históricas . Félix.Filosóficos e Outros Textos Escolhidos. Re-significar as propostas igualitárias e. Nesse sentido. Formação sob controle: novos modos de inclusão/exclusão docente. as participativas. Arqueología de la Escuela. XXXV. utilizando-se. Rio de Janeiro. Departamento de Psicologia. é uma luta coletiva. 1992 Bauman. nessa medida. Marisa. Vitória. Cartografias do Desejo. e Rolnik. Mais ainda: a análise das práticas sociais a partir de experiências concretas permite entender os mecanismos de funcionamento dos campos de intervenção e. Introdução [À Crítica da Economia Política] e Prefácio Para a Crítica da Economia Política . Civilização Brasileira. In: Manuscritos Econômico . É neles que o projeto neoliberal se torna visível. tais como a disciplina.Karl Marx. a política e o Estado Moderno. São Paulo. Karl. embora os direitos democráticos evidenciem forças em luta pela possibilidade de ampliação dos espaços de exercício do poder. a infância e da juventude. Ana.o limite de uma intenção democrática restrita ao âmbito legal. Os processos de luta por escola pública: memórias e invenções cotidianas. V. Micropolítica. Rio de Janeiro. os meios de comunicação e o funcionamento político dos equipamentos sociais. 2004 Marx. A luta pela participação democrática. apenas capaz de produzir rupturas se pensadas as relações sociais e. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Zahar.produz como democracia. I Congresso Latinoamericano de Psicologia. O debate sobre a democracia tem frisado . Madrid. Antonio. RJ. 1978 Guattari. 2003 Foucault. que têm sido capturadas pelas estruturas dominantes. NAU Editora. nelas. Sueli. é uma tarefa árdua quando tais relações têm apresentado como efeito a concentração do poder. Julho de 1974 Rocha. Michel. A verdade e as Formas Jurídicas. Os Pensadores. Maquiavel. para tanto. F. 2005 16 . 2003 Gramsci.e cada vez com maior ênfase. nelas. a partir de novos paradigmas políticos. destituindo de referências diferenciadas conceitos como o de participação. os movimentos moleculares testemunharão as possibilidades concretas para que tal vontade se realize. a constituição e os efeitos produzidos pelos espaços micropolíticos. como forma de destituir a centralidade de categorias individualizantes.

Universidade de Brasília. Brasília. Como se Escreve a História. Paul Marie. Foucault revoluciona a história. 17 .Veyne. 1982.