You are on page 1of 26

-

E REANA AO E A ALMA:
quando os mortos são
comemorados
"1nho uma notícia ri pra te dar',
me disse Af ono um noite,
de p o doi, diante do eplo
do banheiro.
E meu coração se cnfangeu.
Agor já se Q rm 15 ano.
Surpreende-me que sejam tanto."
(arin Colassanti, JB, 7.11.92)
surpresa da escritora Åu
Colassanti diante do 15 ano
transcorridos após aquele dia ftal Q
deria ter se dissipado após uma breve
lembrança. Tantos aniversários de
morte passam depercebidos. O ani­
verário da morte de Clarice poderia
ser mais um deles. N não foi ito O
que aconteceu. Em novembro de 1992,
o Centro Cultural Banco do Brail, no
Rio de Janeiro, abrigou durnte 25
dias um evento destinado a evocar a
escritora Clarice Lispctor por ocasião
-
NetoEamar|igoédæiædo&AngeæCu|inbo.
Regna Abre
da passagem dos 15 anos de sua mor­
t. O evento conistiu n realizção de
ur grande exsição e na reunião de
flmes, vídes e peças de teatro prou­
zidos a partir de seus escritos, tradu­
ções para outro idiomas, paletras,
tese, enaios. Em menos de um mês,
os cem mil feqüentadores daquele
Centro Cultural, particularmente os
amigo e admiradore da escritora,
puderam desfrutar de intenso e envol­
vente ritual: evocar Clarice. 'dos os
dia, era psível assitir a um desfle
de pesoas de idade e origen varia­
d que, seguindo as orientaçõe do
catálog da exsição, circulavam pelo
saguão e subiam as escadarias "se pre­
parando em festa e em susto pra o
encontro com Clarice".
Longe, bem longe dali, num pque­
na cidade no interior de São Paulo, um
ritual semelhante acabava de aconte­
cer. Ïnte uma semana, a cidade de
São José do Rio Pardo abrigra um
Ã8ÞUJm¼O,RiodoJanoim,voI7,W Ï4, 1Ü4,§ ZÜ�ZðÜ.
206 ESTDOS HISRL-199
evento comemorativo em decorrência
da passagem do aniversário de morte
do escritor Euclide da Cunha. Pales­
tras, expsições, um defle na princi­
pal avenida da cidade e uma romaria
cívica ao túmulo do escritor foram a
principais atividades do evento. Os ho­
téis da cidade, completamente lotdos,
hospdaram admiradores do escritor e
estudantes de diveras cidade do in­
terior de São Paulo dispstos a partici­
par da "maratona euclidiana". Na se­
mana de 9 a 15 de agost de 1992, São
José do Rio Pardo, onde o ecritor es­
creveu Os sertões. viveu intensamente
o que alguns euclidianos qualificavam
como "a vocação de cultuar Euclides da
Cunha". Particularülente nese ano, a
"seman euclidiana" foi cercada pr
grandes festejos. Além da comemora­
ção pla passagem do aniversário de
morte do escritr, os euclidianos come­
moravam os 90 anos da publicação da
primeira edição do conagrado livro e
(o que me pareceu surpreendente!) o
80 anos de "comemorações euclidia­
nas" naquela cidade. Em suma, come·
moravam o aniversário daquilo que
eles próprios engendraram: a8 "come­
moraçõe euclidiana".
Dois escritore mortos são evocados.
Duas comemorações, fundadas no
memo aparente motivo ¬ passagem
do aniverário de morte -, são realiza­
das no mesmo ano em pontos diferen­
tes de Mmesmo pa[s. Acontecimentos
à primeira vista bizatIos: comemora­
se a mort? Porque lembrar de alguém
exatmente n passagem do aniverá­
rio de sua morte? O que ese fenômeno
tem de singular?
Pretendo refetir aqui sobre uma
modalidade de comemoração que con­
siste em evocar pronalidades na pas_
sagem do aniverário de morte. Dois
rituais são focalizado. £b dizem
respito a escritores consagrado. Ï
curando distinguir a semelhanças e
diferenças entre os dois rituais, centro
a análise em dois eixos. O primeiro
relaciona-ee com o lugar desa modali­
dade de comemoração nas sociedades
moderns, sua função e signifcado en­
quanto "lugar de memória" num mun­
do mrcado pla fragmentação, pla
tendência àdesagregação dos laços de
continuidade. O segundo eixo visa
aprender e tematizr a concepões
diferenciais de pssoa que são ritual­
mente dramatizada nos eventos enfo­
cado, tomando como referência as dis­
tinções propostas pr 'illing entre as
categorias sinerida e mMn! xd
('illing, 1972).
Lugares de memória
Lautore preocupados em mag
as grande transformações no mundo
moderno sinlizam M mudança sig­
nifcativa no camp da memória social
Segundo o historiador Pieri Nora, nas
chamada sciedades tradicionais, a
memória etava incorprada à vivên­
cia cotidian da tradição e do costume,
deempenhando o papl decisivo de as­
sinlar a passagem regular do pssado
ao futuro ou indicando do pasado o
que er necessário reter para prprar
o futuro (Nora, 1984). No mundo mo­
derno, a memória teria deixado de es­
tar incorprada àvivência cotidian da
tradição e do costume, sendo substituí­
da pr "lugares de memória". Ou seja,
a memória teria deixado de ser nma
função ativa do conjunto da sociedade
para W tornar atributo de alg. P
invês de ser encontrada no proprio te­
cido social-no costume, na tradição -,
a memória tomaria forma em lugares
deterwindos pasando a depender de
agentes especialmente dedicados àsua
produção.
£NR£A NAÇÃO E A A 207
Isto não signifca que a memória
tenha perdido o papl significativo que
ante lhe cabia no sentido de etbele­
cer os Iços de continuidade através
dos tempos. Esse papl continuaria
preente nos "lugare de memória".
Ese equivaleriam à nOidade da
preeração de memórias coletiva,
sem as quais a vida estancaria num
eterno preente. Os '1ugare de memó­
ria" seriam tanto lugares materiais, a
exemplo de museus e arquivos, quanto
lugares pouco palpáveis ou imateriais,
como anversários, elogios fúnebre. ri­
tuais, comemoraçõe.
A noção de "lugares de memória"
serve como ponto de partida j a
nossa reflexão. P enfocar o a t de
"lembrar o morto" envolvendo um ri·
tual coletivo em dois casos específicos,
deparamo-nos com uma modalidade
singular de ''lugar de memória". Desse
modo, este artigo pretende contribuir
para o mapament de pquena parte
dese imenso território da memória
social. A noção de '1ugare de memó­
ria" nos parece útil na medida em que
asinala a formação de um camp com
regras próprias de funcionmento,
com agentes próprios, com um objeto
mais ou menos definido. O historiador
fancé prope a exploração de todos os
sentidos da categoria ''lugares'', dos
mais materiais e concretos - como os
monumentos aos mortos e os arquivos
nacionais -aos mais abstratos e int­
lectualment construídos, como a no­
ção de linhagem, de geração, ou mesmo
de região e de "homem-memória".
Lembrar o morto
O ritual de '1embrar o morto" que
hoje no parec tão banal e crriqueiro
não existiu smpre. O histriador Phili­
p Jæasínala que até o séulo 2a
morte er vista como coletiva, ligada ao
detino da espie, pdendo sr rumi­
da n fórmula "todos nó mOJermos".
A prtir de então, cmeçou H surgr a
precupação cacterístic dos temps
moders: a morte individual, a morte
de si próprio. A partir do século 7I, o
homem d soieades ocidentis tnde
a dar à morte um sentido novo, prém
estreitamente ligado àtemá tica da mor­
te individual: é a preoupaço com a
morte do outro, "o outro cuja lamenta­
ção e saudade inspiram ao século 2e
ao século 7o culto novo do túmulos e
do cmitérios".
Segundo Arie, n Idade Mé wÔ
morto eram cnfIdos, ou ante, aban­
dondos à Igreja, e puco imprva o
local eato da sua sepultur, que n
maior parte dos caos não er indicada
nem pr um monumento nem memo
pr uma simple incrição. A visita pie­
doa ou melancólic a um túmulo de um
ent querido era um ato deconhecido.
Na segunda metde d século 2as
coisas mudaram. Para Oespíritos "ilu_
Dd¨dese príodo, a acumulação
de mortos ns igrejas ou nos pquenos
pátios d igrjas tornou-se intolerável.
Reivindicavam-se motivos de "saúde
pública" e de dignidade cm rlação aos
mor. Aclava-e a Igreja de Um
apn d am desinteresando�e
dos corps. Evocva-se o exemplo do
antigos, a sua piedade plos mOlts,
atestda plos restos de seus túmulos,
pla eloqüência da sua epigrafm funerá­
ria. Os mortos não deviam cntinuar a
envenenar os vivos, e os vivo deviam
testemuaos morto, através de um
verdadeiro cult lic, a sua veneraço.
Lsu tfulos tornavam-se o sii
da U prença pra além da morte.
Uma preença que não supunha nece­
sariamente a imortalidde d religiõs
de salvação, cmo o cristianismo. Et
preenç era Mrt àafeição dos
sobrevivente e à sua repugnãncia T
208 ESTDOS HSTRCOS 1ÛÛ1Í11
cente em aceitar o deaprecimento do
ente querido. Aos seus restos se agarr­
vam os sobreviventes. Ariês mencion
algun cso em que os rstos mortis
são transfOJmados em relíquias me
diant a coneração em grandes globos
de álcoL
A segunda metade do século 7Ü
assinala o irúcio de Mprocso de pri­
vatização dos mortos. A ma ioria d Q·
soas prtendeu, ou cnervar os seus
mortos em C_ ente, ando-os na pro
predade da fam, ou pder visitá-los
no caso de serem inudos em cemit
rio público. Pretendia-se ter acesso ao
lugar exato onde o crp havia sido de
positado e que Ulugr prtencese de
pleno direito ao defunto e à fmília. A
concssão de Msepultura se conver
numa certa forma de propriedade. S�
ge a idéia de visitar a sepultura de um
ente querido como se vai àcsa de um
faDr ou a M csa própria cheia de
reordações.
"A recordação confere ao morto uma
espcie de imortalidade, estranha
ao dealbar do cristianismo. Dede o
fm do século XIII, mas ainda em
pleno séc. 2e séc. 7 fancee,
anticlericais e agn<sticos, os des­
crentes serão os viitantes mais as­
síduos dos túmulos dos parent. A
viita ao cemitério foi ¬ continua a
ser -, em França e em Itália, o gran­
de ato permanente da religião.
Aqueles que não vão à igrea vão
sempre ao cemitáio, onde ganha­
ram o hábito de pr flores nas cam­
j.E aí se recolhem, isto é, evocam
o morto e cultivam a sua recordação.
Culto privado, pis, M também,
desde a origem, culto público. O cul­
to da recordação estendeu-se ime­
diatamente do indivíduo à socieda­
de, n seqüência de M memo mo­
vimento da senibilidade. L auto
res de projetos de cemitério do sé.
2 desejavam que os cemitérios
fossm ao mesmo temp parque.
organizado. para a visita familiar e
museus de homen ilutres, como a
Catedral de S. Paulo, em Londres."
Ariês asocia esse culto aos mortos
a uma representação de sociedade que
emerge no fnl do séc. XIII e que
encontra sua expressão no psitivismo
de Augusto Cmte. Esa representação
sinaliz uma sociedade composta si­
multaneamente do mortos e dos vi­
vos, onde os mortos são to signmcati-
• • •
vos e necess8nos como os VIVOS.
"A cidade dos mortos é o inverso da
socieade dos vivos, ou, mais pro­
priamente que o myero, a sua ima­
gem intempral. E que os morto.
pasaram o momento da mudança e
os seus monumentos são os sinais
viaívei. da perenidade da cidade.
Assim, o cemitério reconquistou na
cidade um lugar, ao mesmo tmp
ilico e moral, que tinha perdido no
início da Idade Média mas que tinha
ocupado durant a Antiguidade."
(Ariês, 1989: 43-54)
A evocção do mortos asociou-se
também a oultas foIde culto O visi­
tação, além da visit ao pmulo no cemi­
tério ou da veneração de rlíquias. Con­
Cerências, pronunciamentos de elogios
pstumos, rituais rligiosos, lançamen­
ude biog, expsiçõe comemora­
tiva em mueus e até prgramas esp­
ciais de televisão são al@ d for­
mas modern de "lembrar os mortos".
O crecnte pTo de individualiza­
ção no mundo moero ÿe ter con­
ferido Mpapl epcialmente detaca­
do ao ritual de evocção d mortos.
Nu mundo de individuos, crt mor­
tos tendem a deempnhar M lugar
imprant pra a referência do vivos.
Em muito C¿ trnfotll m- em

ENTREANAÇÁO E A A
209
ben simbólicos disputado avidamenta
pelo mercdo. Sl [ passaram
a disputar não apnas o prestígio mas
certamente também os direitos autorais
e a rentbilidade fmnceim que ema­
T de mortos conagrado. Algun
chegm a ser momentanemente rs­
suscitados par vender prduts na T
como oconu com o pta Vmícius de
Morae, que, através de um trque ci­
nematogáfco, pasou a ser visto m
ndo cerveja com o pareir 'bm J L
bim decorridos alganos de sua mor­
te. O anúncio tentava fazer pssar a
idéia de que o peta havia 1A uscitdo,
enunciando referência visuais de con­
tempraneidade. Os mortos pasB
a viver na soiedade dos vivo. E M
pardoxo notável,é o próprio fto de não
mais existirem o que os torn m va­
lorizados. Obseremos o desabafo d
mãe do cineat fmoso reclamando
que as memas empresas que se neg­
vam a prduzir seus último filmes em
vida teria passado a financiar as re
tropctivas e as æiç pósb.
Num cert sentido, pis, tmbém os
mortos torram-se mercadorias.
"Histórias de vida" e o indivíduo
moderno
A contrução de "histórias de vida"
está intimamente relacionda ao domí­
nio da História, como assinalou PieI
Bourdieu, signifcando a æ ação de
prssuptos que rpusam na idéia de
que a vida contitui um todo, um con­
junto corente e orientdo, que pde e
deve ser apreendido como expæ o
unitária de uma intenço subjetiva e
objetiva, de um prjet. D que et vida
obedece a um ordem crnológca (que
é também uma ordem lógica) cm M
origem e um fmal. L que o acntci­
mento da vida de um indvíduo for­
mam M seqüência ordenda, e Þ
estência æum sntido. ¯vida é
decrita cmo um cmo, M J¿
uma cm U encrzilhadas,
com UU d,com BUB ambo·
cae, ou cmo um cmo, um trajeto,

um curo, uma Q gem, MVagm,
comprtando um início e um f. A nar·
rativa biogc geralmente precupa­
se com um sntido, M razão, M
lógica, uma conistência e Mcntn·
cia através do etabelecimento de rela­
çõe. P·se a idéia de que exste
uma caua eficiente e Ül entre as
etapas sucesivas de um desenvolvi·
ment necesário. Assim, a "história de
vida" de um morto cmpartivamente
com a de um vivo aQ como um
prouto m is bem acabado e talvez por
isso m valorizado. Neses cso não
se con o risco de se ter a biografa
desautorizada plo próprio sujeito bio­
grafado, ne' tmpuco de haver M
súbita mudança M comp1ent do
biogafdo que jogue pr tena uas
æ tiva traçadas sobre o sentido da
sua vida.
Walter Bnjamin lembr que
"é no momento da morte que o saber
e a sabedoria do homem e sobretudo
sua existência vivida - e é dessa
substáncia que são feitas as histó­
rias - assumem pla primeira vez
ur fOnna transmissível. Assim co·
mo no interior do agonizante desf­
lam inúmeras imagen - visões de
si mesmo, O quais ele se havia
encontrado sem se dar cont disso-,
assim O inesqueível aDora de re·
pente em sus getos e olhares, con·
ferindo a tudo o que lhe diz respito
aquela autoridade que mesmo um
pobre-abo possui ao morrer, para
os vivos em seu redor." Bnjamin,
1987:208)
A "tórias de vida" contituem os
alicer que etruturm os rituais de
210 ESTDOS HISTRICOS -19W14
evocção dmortos. Lmbrar do morto
é flar sobre ele, relatar seus feit,
drrr sobre suas alegrias, suo an­
gústias, seu amores, õUõ aquisiçõe,
BQ inatisfções, sua frutraçõe,
sua obra inacbadas, enun, é evoar
sua pasagem pla vida n ten. Uma
long tradição neta direão conolidou­
s cm os rlatos das vidas de sntos n
religião cristã. Ïvários tips de reme
morção, que incluem biog, crono
logia, ma terial iconogáfco e relatos de
pronalidades cnagradas. A biog­
Üe crnologias são gerhnente eri .
tas por espcialists - pquisadors
dedicado a grimpar todas as "erd­
de" e pculiaridades sobre a vida do
sujeit. Em grl, es e pquador
Q m anos de sua vida reunindo
fgmento deixados plo mor: car,
manuscritos, artigo publicados e m­
tos,livs e até pdaçs de guardanap
com puenos pema e rabisco pI
ventur escritos na mea de um bar. A
crnolog crisUm verades sobr
a trajetórias biográfics' o ano e o locl
corret do nscimento, a principais
viagen, o8 enconLs amoroo, O f­
lho, os lançamento da principais
obrs, as mudançs marcnt no âm­
bit prfs ionl (valorizndo-se princi­
palment aquelas que denotm conveI
sàatividade que cnagru o biogr­
fdo). A crnologia, Mvez etabele­
cidas, pssam a ser toIadas como rfe
rências. Elas fornecm a base pra ou­
tro tips de relat que enfocam um
príodo da vida da ja ou Mativi-

dade pr ela exerida. E bem verdade
que a cronologias estão sempre sendo
construídas e que algumas datas impre
cia ou eventos duvidosos podm gerar
debate que s etendem pr an. O
W de Euclide da Lmé exemplar.
Peuenas dúvida cmo a data e o locl
COltos de seu casamento ou grndes
questõe como o estabelecimento de
U verdade sobr sua morte trágic
tém gerado simpio e meas-rdon­
das que já dOQ18 um século.
O material iconográfic é muito uti­
lizado e serve Qcritalizar uma m_
gem Vdo sujeito e do ambiente em
que ele viveu. Em geral, há sempr M
imagem que s sobresai entre a de­
mais, estbelecndo M memória vi·
sual do biogldo acita cletivamente.
Ou seja, embora os sueitos lembrados
tmtido várias feiçõe ao longo dos
ano, n maioria das veze um retrato
vai se impndo cmo sua "erdadeira"
imagem. Quem, ao pnar em Machado
de As is, não visualiza um senhor com
barba e cbelos brancs e um pueno
pin-nz rondo a circuncrever-lhe
o olhos? Quem, ao pnar em Euclides
da Lm,no vê o rosto de um homem
de meia idade onde sobT em os bigo­
de e os olhos amendoados? E quem,"o
pnar em Claric Lspctor, não de­
prt de imeato par M imagem de
bela mulher com ar inteligente e sonha­
dor? Intencionlmente ou não, o fato é
que este proesso de contruço visual
cou epnde a um sistema de valores.
Os cntrutore da memória seleio­
nam entre a imagen psívei aquelas
que exprsam suas æaçõe æ-
tuais. b, pr exemplo, a intenção é
enftizr no biogrfado suas qualidade
intelectuais, diicilmente será ecolhido
para a principl referncia viual p­
tUIa um retrato onde ele aprec em
criança ou fntiado num baile de cr­
naval. P contrário, é comum serem
omitidas alg imagen cnidera­
da puco dignas. D fato, o aspcto
visual contitui pça-have n monu­
mentalizção de M psa.
Rlatos de peronalidade deem­
penham um duplo papl na contrução
póstuma: de um lado, servem para de­
monstrar a prenidade do morto e de
sua obra e, de outro, serem para atua­
lizar o valor simbólico de vivos O mor­
Þ. Ao incluir na biografia ou ns
ENE A NAÇÃO E A A 211
rituais p6stumos depimentos de ps­
soa conagrada, O contrutors de
nem6ria realizm um movimento com
alto teor "aurático"J onde todos O en­
volvidos participam de uma troca de
ben simbólico.
Michel Foucult, em artig publica­
do em 1969, chamava a atenção para a
relevância de uma reflexão cuidadosa
sobre ese proceso incrivelmente di­
fundido na sociedades modernA de
fabricação de imortais, notadamente
centrado na fg de artistas de m
dos o gêneros e, entre eles, os ecrito­
re. Coniderava o filósofo ser nesá­
rio prer a uma análie histórico­
sociológica da peronagm do autor,
invetigando su pTeso de indivi­
dualizção nas sociedades modernas
Eram sua indagaçóes: a partir de que
momento epcialistas começaram a
fazer pequisas sobre a autenticidade
e a atribuição de txtos a detet do
ecritores? Em qual sistema de valores
O escritores pasaram a ser reveren­
ciados? A partir de que momento come­
çaram a contar não mais as vidas dos
heróis, m as vidas dos escritore?
Como foi instaurada esta categoria
fundamental da crítica "o homem e a
obra"? (Foucault, 1969)
A construção da pessoa
-modelos diferenciados
Nse a "tóriA de vida" seguem
padsmelhant, nem sempre ser
vem ao memo prpsito. Am­
do o rituais de evoaço de Euclide da
Le de Clarice Lispctor, prebe
mos que nesse casos o rlatos de "hls­
tórias de vida" 8vam valors de
renciados. Obseramos também que
modelos distinto de constrço da ÿ
sa eram Utizados.
Com relação a este tm da contru­
ção da psoa, 'rilling suger que leve­
mos em cont nuances que torm
mais complex a idéia de individuo
moder, As inlando a emergência de
duas categorias-chave que soferam
continua elabrações num longo pro­
ceso que se etendeu de Î1 do séc.
2ao séc. 2Esa ctgrias são
"sinceridade" e Uautenticidade". A valo­
rizção da "sinceridade" sigcou his­
toricamente um imprtante elemento
na constituição do individualismo mo­
derno. Tendo rompido com a antigas
totlidade, como a rligião, o indiví­
duos deiXram de prceber a si pró­
prio como p inte@te d um
todo mior que os enomg va, para
se prceberem relacionalmente. Nest
conÞ, sobressaiu a precupação
com a atitude frente ao outro. Lindi­
víduos ps aram a relacionar-se un
cm os outro em função de ideis eri­
gidos em comum. Valore como fdeli­
dade e honestidade de un para com os
outl' torÎm-se etruturants. e a
vida em soieade passou a ser preo­
minantemente relacional
A categoria "autenticidade" teria se
aÜdo pteriormente, indicando
uma mudança na Jneira como o in­
divíduo passou a conceber a si próprio.
O foco principal deslocou-<e da preou­
pação com o outro para a tematizção
do self, a busca do "autêntico", da sub­
jetividade associada a um impulso ín­
timo coniderado "mais verdadeiro",
Da fdelidade e da honestidade com
relação ao outro pasou-e a privilegar
a fdelidade e a honetidade de cada
individuo g cnsigo memo. Uma
sociedade predommtemente rela­
cional, onde OB indivíduos se voltvam
para ideais comUM, abriu caminho pa­
ra M sociedade forllada pr môna­
das, seres autônomos e independentes.
A emergência da noção de "autntici­
dade" assinalou uma concepão de in-
212 ESTDS fSTrCS-19W14
dividuo enquanto um seIr definido C
mo unidade livre e autônoma com T
lação a toda e qualquer totlidade cós­
mica ou social.
Embor Tril prcur rlacionar
a ctegorias �incridade" e "autentici·
dade" numa abordagem histric, ob­
seramos que, no conædo individua·
1ismo moderno, as cncepõ de Q
decrrentes num W e no outr no s
motram mutlamenu excludenus. Na
vida social, as noções de "inceridade" e
"autenticidade" são, ainda em nO
d,encntrad de form" meclada. A
diferenciação entre elas diicilmenu ÿ
de ser encontda de for" plenmenu
acabad. Em muits ca, os indivi­
duos repreentam a si prprios como
sere cncomitantemente "sincros" e
"autênticos".
Entretanto, quando s trat do cn­
æda memória soial, onde os indivi­
duos Báo construídos pr agnu esp
cialmenu voltdos par es e Ü,como
é o O dos rituais de evocção dos
mortos, difernciaçóe cmo a apnta­
das pr Tilling pem tomar foI
visíveis. Folizando as cmemoraçõe
em toro de Euclide da L e de
Clarice Lpctor, observamo ur in­
unção deliberda dos agenu produt
re de memória de enftizar deteD ·
das caracurísticas do individuo em
questão, visando expresar modelos di­
fernciados de cntrução de g
1-"SORRIA, EUCLIDES ESTÁ
VIVOI"
Uma matéria publicitária publica­
da num jor loal, T Õælod RÍ
Pad, em 8 de agosto de 1992, etam­
pava a curiosa frase "Sorria, Euclides
etá vivo!". Não deixava de ser uma
maneira alegre e divertida de enunciar
o sentiment da cidade de São José do
Rio Pardo em toro das comemorações
pela pssagm do anivereário da mortA
do ecritor Euclide da Cunha. De fato,
duranu ur semana de festa e con­
graçamentos o esritor adquiria uma
vida incomum. Etudanus, dons de
casa, profssioni das atividades mais
variadas, enfm, muitos moradores da
peuena cidade paulista revisitvam o
escritor, relembrando de algum modo
sua pssgem pla cidade, sua história
de vida, suas contribuições para a na­
ção brasileira. Das dez ecolas exisun­
U na região nenhuma ficava indife­
renu. 1das, sem exceção, uma tiza­
vam ns salas de aula aspectos da vida
e obra de Euclide da Cuna. Durante
a "seman euclid", de 9 a 15 de
agosto, dos jaDde infãncia àúnica
univeridade local - Faculdade de Fi­
losof1, Ciências e Ltra de São José
do Rio Pardo - os etudanus convi­
viam com esu prongem sobre o
qual aprendam dado cronológicos e
históricos e, fundmentalmenu, que
ele havia .ido o morador mais ilustre
da cidade e ali havia ecrito sua obra
conagada, Os seres.
Bandeirolas e fæespalhadas p­
la cidade deixavam entrever o clima
fetivo. Ldoi jornais locais, TÕælo
d RÍ Pad e 1mOræo estampa­
vam notícia sobre as pronalidades
que chegavam, bem como matérias pu·
blicitárias saudando o evento. A mortA
de Euclides da Cunhajá completava 83
anos e aquela não em a primeira vez
que o rio-perdenes se reuniam para
evocar a memória do ecritor. De acor .
do com o euclidianists, a primeira
vez tinha sido em 1912, exatamenu no
dia 15 de agoto, quando três anos
haVse passado desde que ele tom­
bara mortalmente ferido no bairro da
Piedade, no Rio de Janeiro.
Euclide da Cu pas�ou a ser co­
memorado em São José do Rio Pardo
pelo fto de ur sido naquela cidade que
EMA NAÇÃO E A A 213
foi ecrito o livro coniderado um épico
nacional. Euclides da Cu morou
com sua família em São José do Rio
Pardo durante o anos de 1898 e 191,
trabalhando como engenheiro de obra
públicas na recontrução de uma pnte
sobre o rio Pardo. O livro foi escrito no
interior de uma pquena caban du­
rante os momentos de folga da tarefa
de reconstrução da ponte.
Na passagem do primeiro aniverá­
rio de morte do escritor, algun rio-par­
dene que o haviam conhecido resol­
veram orgr uma homenagem
pstuma. Alguém teve a idéia <e sair
de preto em direção à caban. A hora
combinada, da prt da Prefeitura Mu­
nicipal, um grupo de CI de sei g­
soas iniciou a romaria. Durante a ca­
minhada, a população da cidade foi ao
pucos aderindo à manifestação. Foi
asim que começou a "romaria cívica"
em prol da memória de Euclide da
Cunha. Rmaria que se prolongou pr
vários anos, tranformando-s em fes­
ta ofcial da cidade de São José do Rio
Pardo, com o apio do govero do esta­
do de São Paulo.
De 1912 aos nossos dia, as "me­
morações euclidiana" foram sendo in­
crementdas pr admiradore de Eu­
clides da Cunha de vários pntos do
país. O núcleo de euclidianos (ou eucli­
dianistas) de São José do Rio Pardo
liderou o movimento angariando novos
adeptos. A pquen cidade, localizada
próximo àCampinas, passou desde en­
tão a ser coniderada a "meca do eucli­
dianismo", A "comemoraçõe eucli­
dianas" adquiriram um significado de
L modo epcial em São José do Rio
Pardo que, desde 1925, com a aprva­
ção de um projeto de lei pla L ma ra
Municipal, o dia 15 de agosto foi insti­
tuído como feriado municipal. A partir
de então, a cidade passou a ter dois
feriados: o dia 19 de mrço, data da
fundação da cidade, e o dia 15 de agos-
to, dt da morte d Euclide da Cu­
D Dese modo, n aniverário de
morte do esritr, o ritmo do cotidiano
pas ou a cder lugar ao ritmo do ex­
trotrio, da fsta, da lembrnça.
Nas palav de M euclidiano, "em
1925, a Mlniciplidade declarava o dia
15 de agoto 'Dia de Euclidea', e fz
dele feriado cmemorativo da saudade
do grande morto" (Luria, 1985).
Em 1992, euclidiano e mordores
da pquena cidade celebravam os 80
ano de "comemoraçõe euclidiana".
Dese moo, rmemorvam O princi­
pais acontecimentos que tiver lugar
durante M long seqüência de even­
to cmemorativo. Lvavam æ últi­
M coneüência o potencial das co-
-
memoraçe: comemoravam as come-
morçõ. O ''Defle de Abertura" da
semana, no dia 9 de agosto, tematizava
a evolução do movimento através dos
ano. Ïm, clube, entidade, ASO­
ciaçõe, bandas e fanfrra defilavam
em animadas ala pela I principal
para umA platéia que se comprimia
M calçadas ou num pueno palan­
que arll do no centro do defle. L
estudante prtendo longas fi
lembravam as principis cOIerêncjss
e os nome dos conferencists que g-
saram pla cidade dede 1912.
L euclidianos diBUvam no pa­
lanque rrdando os principis mo­
ment do euclidianismo e agradeciam
o apio cntante da ppulação em Þ
aquele U. Lmbrvam o início do
movimento, qundo visitntes iut
e etudante de oub p do paí
eram alojado plo moradore em suas
próprias C¡ recrvam os csa·
mentos que acnteerm motivados Q
m "comemoraçõe euclidian"; cit­
vam O ædos bailes que sempre
ûTp dos fetejo e os nome de
muit etudantes quea prtirde "ma­
ratons euclidianas" depMpar
O etudo da vida e obr do ecritor.
214 ESTUDOS HISTOrCOS-1014
Eram também enltecidos os efor­
ços empreendidos na recontituição da
paisagem que inspirou o ecritor: a
restauração da cabana, a colocação em
seu interior da mesa e do banco onde
ele trabalhou e o ajardinment da
área. A cabana era sem dúvida a prin.
cipal relíquia. Ao longo do ano, esta­
beleceu-se uma relação metanímica
entre esse objeto "autêntico" do escri­
tor e seu gênio criador. A cidade de São
José do Rio Pardo, onde ele viveu, e a
caban onde escreveu sua principal
obra pasaram a ser cultuados como
testmunhos materiais de sua presen­
ça, evidenciando uma relação íntima
entre coisas e espírits. Preerando­
se LÔ objetos mais "autênticos" do escri-
.
tor, sua "aura" era preerada.
Os euclidianos faziam referência a
outros momentos signiicativos como a
contrução da ''herma de Euclides da
Cunha" em 1918, a edifcação, pr ini­
ciativa da Prefeitura Municipal, de
uma redoma protetora para a cabana
em 1928, a conolidação da comemo­
rações euclidiana em 1935 com a in­
tituição das "semanas euclidians"
prolongando pr uma semana aquele
ritual que nos primeiros anos retrin­
gira-se ao dia 15 de agosto, dia da
mort de Euclides. Citvam tmbém a
criação d "maratona intelectuai
euclidianas" com a reunião de estudan­
t oriundos de várias partes do paí,
espcialmente do interior de São Pau­
lo, visando à participação em curos
ministrados por epcialista n vida e
obra do escritor, com direito a prêmios
para o melhore coloados. Referiam­
se ainda àretauração e ao tombamen­
to da C onde Euclides havia morado
com sua família que, com apio do g
verno do estado de São Paulo, em 1946,
tranfol'mou-se n "Caa Euclidiana",
abrigando importnte acervo. Por fm,
asinlavam a aquisição recente, em
1982, dos restos mortis do escritor e
de seu flho, Euclide da Cunha Filho.
L ret. mortais depoitados num
mausoléu espcialmente contruído
próximo à caban completvam um
conunto de relíquias epeialmente
signifctiva para a cnolidação do
ritual de lembrar Euclides.
Os euclidianos
Um médico, d. Owaldo Galotti, foi
um d0 grande incentivadore d
"semanas euclidianas" e do etudos
biográfco sobre o autor. No seu enten­
der, conhecer a vida de Euclides da
Cunha era ·não apnAS encontrar alg­
ma chaves pra a compreensão de sua
obra, mas fundamentalmente travar
contato com uma ''história exemplar
capaz de fornecer orientação e sabedo­
ria a tdos os que dela se aproximas­
sem. Para o d. GalGtti, uma fgura
animada e falante, que adora valsar
nos baile com uma juventude rara em
seus mis de 80 anos, pesquisar e nar­
rar aspctos da vida de Euclides da
Cunha contitui um dos principais ob­
jetivos d "comemorações euclidia­
nas" e de sua própria vida.
L euclidianos efetivamente impri­
mem sua marcas n narrativa bio­
gráfiC que tecem sobre o autor de O.
sertes. Nete sentido, distinguem-se
de outros estudiosos da literatura bra­
sileira que vêem em Euclides da Cu­
nha um autr imprtante, prém equi­
valent a muits outro. Cnfesam-se
admiradore do escritor, e é esa rela­
ção de admiração que move o trabalho
de pquisa e difusão que relizm.
Algun chegam ao ponto da devoção,
pregando sua idéia, segindo seus
exemplo e relizando minuciosas e
int, mináveis psquisa em arquivos
e bibliotecas. São "narradores", no sen­
tido que Waltr Benjamin atribui ao
telmo em seu enaio "O nrrador":
EN A NAÇÃO E A A
215
``A narrativa, que durante tnto
tempo floresceu num meio de art
são -no camp, no mar e n cidade
-, é el própria, num certo sentido,
uma forma artesanal de comunica­
ção. Ela não etá interesada em
tranmitir o 'puro em si' da coisa
nrrada como um infOJ ção ou
um relatório. Ela mergullia a coisa
na vida do narrador para em segui­
da retirá-la dele. Assim s imprime
na narrativa a marca do narrador,
como a mão do oleiro na argila do
vaso." (Benjamin, 1987:205)
Walter Benamin contrapõe o "reino
nal ativo", um reino que teve longa
vida na Antiguidade e que no mundo
moerno encontra.se em extinção, ao
"mundo da infOf1açáo":
"Cada manhã.recebemos noticia de
todo o mundo. E, no entnto, smos
pobres em histório. surpreenden­
te. A razão é que os fatos já nos
chegam acompanhados de explic­
ções. Em outra palavras: quase na­
da do que acontece etá a serviço da
mtiva, e quase tudo etá a seri­
ço da informação."
l
(Bnjamin,
1987:203)
Estabelece-se entre os euclidianos e
o autor de Os sers ur relação me­
tonimica -e identificação e de conti­
nuidade. Ao narrarem trecho da his­
tória de vida do escritor, muit veze
enunciam pntos de contato com sua
próprias histórias de vida. O dr. GaIot­
ti, pr exemplo, referiu-se a aspctos
comun da vida do escritr e da sua
própria vida citando-s como as rzõe
que o levaram ao euclidianismo. Ese
aspects eram a peregrinação plo in­
terior; a preocupação com o outro, com
o depssuídos e com a construção da
nação brasileira. Um d fonte de
difusão do moviment, o suplemento
literário publicado pelo jornlA Õælo
d Ri Pad, encontra-se repleto de­
sa narrativas duplamente biogá6-
O. O ecritor euclidiano Paulo Dan­
tas, pr exemplo, jutifcava sua ade­
são como ligad à nOidde de con­
trção da memória de um ecritor
identifcado com a nação brasileira:
"Memória é amor e só guardamos e
lutmos pr aqulo que ammos. E o
amor euclidiano nete instante em que
o Brsil procura ser um Pais sem me­
mória ou M Nação sem tradição é
um sinal alentdor, saber e constatar
que aqui, em agosto todos wW anos, reu­
nidos etmos em toro da memória
daquele Escritor que tanto amou e se
exauriu pelo Brasil." (uplemen Eu­
clm, agosto de 1988)
Num enaio publicado no Suple­
men Euclim de agosto de 1985,
um outro euclidiano, o rio·pardene
Marcio José Luria, comparva o d.
Galotti ao próprio Euclides lembrando
o trabalho de æbem prol da cidade
de São Joé do Rio Pardo, embora ne­
nhum dos dois tivese na.cido nquela
cidade: "(00') flho adotivo de São José
do Rio Pardo, como o é Euclides da
Cunha, as vitórias de Owaldo Galotti
neesariamente hão de ser vitórias da
nosa cidade." O en io voltdo pra
comemorar os 50 anos de euclidianis­
mo do d. Galotti enfatizava a relação
de ambos com o Brail. O d. Galotti
teria prcebido o ''tencial de educa­
ção, de cultura e de civismo" contido em
Euclide da Cunha. '±mobilizou a co­
munidade æ, f-la participar de t­
d a fse de uma verdadeira guerra
cívica, em que gadualmente se tran­
fOIram a Semana EuclidiU de
sua inpiração, de sua responsabilida­
de diret pr tant tmp. (00') Nas
SeMEuclidian, EuclidejaD
deixou de sr o leitmotiv, ma nunca foi
o tema único. Univeridade aberta,
D imprtant do que Euclides sem-
216 ËHRC -19
pr Coi M SeMEuclidian a ho
r prente, o Brsil prente . ¯
O que tranpØ no OO dete ri­
tul é a plnente atuação dos eucli­
diano, agente produtor da mem6
t soial. Ete efetivament "nven­
tm uma tmdiçáo", pr usr a ex­
pm o cuda pr Hobsbawm. O f­
to d cncberem-se cmo continuado
r d D o inteletual do ecritor
fz cm que acrcentm, cm novo
trabalhos, asptos coniderado in­
cncluo. Num levantmento prlimi­
mdetctmo em trno de oitent a
cem euclidts sitemátic e féis.
Ese grup cmprce æ solenidade
em São Jos do Rio Pardo e também
em Cantaglo, cidade ntal do ecritor,
onde b uma "aa Euclidian" e,
anualment, comemora-s a dat de
ncimento do ecritor. Além disso, de­
senvolvem atividade em outra cida­
des, notadamente n cpital e no inte
rior pulista. M vária graçõe de
euclidt& que vêm se suceendo
desde 1912. O recrutamento de novo
adeptos se fz de forma org,
pr meio das maratons ou ciclo de
etudo. Grande part dos euclidiano
são egeso de cidade do interior
paulista (Jundiaí, Campin, ltureva­
va, Brgança Paulista, Ïw, Botu­
catu, Orlândia, São Joé do Rio Pardo,
Dourado, Espírito Sant do Pm).
Mtmbém elemento oriundo da c­
pitl pulista, de Belém, de Aracaju, de
Serrinha (), do Rio de Janeiro, entre
outr cidades do pÍ.
Envolvendo um ritual de congraça­
mento entre os participantes, a "sema­
n euclidiana" reæde fOfila exem­
plar o ptencial de um '1ugr de mem6-
ria". Ao se dirigirem para a cidade
anualmente, ao prticiparem das mes­
M atividade que s reptem too
o anos, os euclidiano preem haver
encontrado um referncial segur, um
pnto fxo e extraoDrio que cn-
trata cm o cotidiano de BOvidas. O
rituade rlembrar Euclide da L
permite que WQa vivam exp .
ciêncis! de enconl e reenconts,
criando entr elas laços de continuida­
de. Apsar de peuenas modificações
de ano para ano, hur constância na
proglarção que inclui O memos
conagados eventos como o desfle de
abe¥, a conferencia principal, a ro­
maria àcaban (e agra ao túmuJo) do
escritor. Já bmuitos anos hospedam­
se no memo hotéis, almoçam junto.
e fcam felizes em saber que tudo de
cert fOl está como deixaram um
ano atl'ás. Mantém ua relação æ­
mamente fmiliar com as pessoas que
trabæ nos locais que freqüentam
e aproveitam o evento para contabili­
zar e celebrar os vivos e os mortos.
Npr que relembrar exatament
Euclide da Cunha? Para o euclidia­
no e par o moradores de São José do
Rio Pardo que apim a "omemora­
çóe euclid, ur rivindicação é
exustivamente sublinhada: a valori­
zação do intrior do país. Euclide da
Cunha emerge como um ecritor que
atibuía um valor psitivo a eta re­
gião. Uma representação de nação é
pelInentemente evocada, atribuin­
do ao interior um valor de expressão da
nacionalidde, "o cerne da nacionali­
dade". Citando trehos da obra cona­
glada, bucam d certe fOl a cona­
ação de si próprio e da região com a
qual se identifcam. Não imprta o
quant eta visão tena de idealizda
e de imagnária, imprta a sua efcácia
num mercado de ben simbólicos.
A evoação de Euclides da Cunha
expressa a busca de valorização do
mundo rural, do srtão, em contrap­
sição ao mundo do litoral, urbano, cos­
moplit, coniderado flso na medida
em que voltado para a cultura impr­
tada. L euclidiano identificam a si
próprio como adeptos de um tradição
ENRE A NAÇÃO E A A 217
regionalista, onde a brasilidade é iden­
tificada com noções como raíze, inte­
rior, região, pvo, terra.
O Euclides dos euclidianos é um
homem identifcado com o interior do
Brail, e ele muitas veze resaltm
algun de seus aspectos biográficos pa­
ra comprovar esta tese, como as via·
gen que o escritor empreendeu pelo
interior de Sáo Paulo como engenheiro
de obras públicas no começo do século.
Ou citam uma frase onde ele textual­
mente afirmava desprezar a vida fácil
das grandes cidades, o cosmoplitimo
que identifcava como prejudicial ao
aforamento do "verdadeiro sentimen­
to nacional": "Alimento há muito o so­
nho de uma viagem ao Acre. Neste paí
para tudo se fazer são necessários m
pdidos e mil empnhos, duas coia
que me repugnam. Penamos dema­
siadamente em francês, inglês ou mes­
mo em prtuguês. Quero pnsar brasi­
leiramente. Quero viver brasileira­
mente!'
Ou ainda citam o trecho de lima
cart sua ao então prefeito de São Joé
do Rio Pardo, Francisco Escobar, na
qual o escritor se queixava da vida
agitada e efêmera do Rio de Janeiro,
enaltecendo momentos passados na
pquena cidade do interior: "/ que
saudades do meu ecritório de zinco æ
margen do rio Pardo, creio que se
pristir nesta agitação etéril, nada
mais produzirei de duradouro".
A frase, gravada numa placa de
bronze e afiada na prta da cabana,
valoriza a opsição entre o litoral con­
siderado efêmero e o interior visto co­
mo duradouro e repreentativo de uma
cultura nacional.
Ao preserar as relíquias de um es­
critor nacional, São José do Rio Pardo
ascende à condição de cidade-monu­
mento, o que foi confirmado plo tom­
bamento da cabana plo Patrimôruo
Histórico NacionaL
o Eucldes dos euclidianos
Na contrução do pronagem, enfa­
tiza-s em Euclides da Cunha a fo"a
do herói que luta contra o destino ad­
vero e que mesmo morto de forma
trágica resurge n esteira da imorta­
lidade com a consagração do gênio cria­
dor. P principais características atri­
buídas a ele são a lealdade, a frmeza,
a convicção, a luta por ideais, a força
de caráter. Seu compromisso com a
nação brasileira é resaltado. O autor
de Os sers é apresentado como ativo
protgonista de falos marcantes da
passagem do século: a luta pla aboli­
ção da escravatura, o movimento repu­
blicano e a profunda transformações
sociais do período. O euclidianos mos­
tram como o escritor participu ativa­
mente da sociedade do seu temp. Co­
mo assinalou Nicolau Sevcenko, Eucli­
de da Cunha era um "mosqueteiro
intletual" lutando plos ideais repu­
blicanos. Foi também um "paladino
malogrado" quando se sentiu traído
pelos novos "donos do poder" que te­
riam feito malograr a República dos
seus sonhos.
Valoriza-se a relação dete enge­
nheiro-ecritor e jornalista-reprter
com o pitivismo. Os euclidianos pr­
sistem nos mesmos objetivos de busca
da verdade do fatos. Tabalham ince­
santemente na análise de novos docu­
mentos sobre a vida e obra do escritor.
Enaltecem o fato de ter sido ele o pri­
meiro a realizar uma reprtagem in
lo no Brasil quando partiu em dire­
ção ao interior da Bahia para ver de
perto o ÜI da guerra de Canudos.
Seu livro teria sido ecrito com base
científca. O fto de tr presenciado os
acontecimentos que narrou funciona­
ria neste CO como um argumento de
autoridade.
Euclide é tambm associado aos
fracos e oprimidos. Os euclidianos f-
218 ESTDOS HISTruCOS-IÛÜ14
zer quetão de M r casos que teste­
munham sua honestidade, sua recusa
àpolítica do compadrio, bem como sua
pstura crítica com relação à sociedade
de corte e aos poderosos do Imprio e
da República. A noção de sinceridade
etrutura a contrução deste prona­
gem. Uma relação metonímica entre
euclidianos, Euclides e a nação brasi­
leira alicerça o culto. Indagado sobre
"Por que Euclides da Cunha?", o dr.
Galotti centrou sua respst em al­
guns pntos báico que no seu enten­
der uniriam euclidianos, Euclide e o
Brasil: a preocupação com a organiza­
ção social do Brasil; a cultura e a sen­
sibilidade do escritor sintonizadas com
a realidade brasileira; a consciência
sobre a verdade do Nordeste, da Ama­
zônia, da questão das nosas fronteiras
e da necessidade de ¾ maior entendi­
mento entre ¾ nações sul-americana;
a defea do sentido de liberdade indivi­
dual e coletiva no contexto dos ideais
democráticos da República; e a lingua­
gem artística e eloqüente que constitui
uma das mais belas e originis pginas
da literatura brasileira.
Algun exemplos de sua histêria de
vida são narrados repetidas veze com
o intuito de reiterar essa visão. Sob
ete àngulo, o ritual celebrativo que
etamo enfocando é também um ri­
tual nrrativo com uma comunidade
de nrradores e uma comunidade de
ouvintes que interage e escuta as mes­
ma histórias toos os anos. Por meio
delas, valores são tranmitidos para a
ação no presente e no futuro. Uma
desas hitórias conta que qundo Eu­
clides tinha 20 anos, em 1886, aderiu
aos ideais republicanos. Em certa oa­
sião, na Ecola Militar, onde era aluno,
anunciou-s que o ministro da Guel'
do Império, 1bmás Coelho, passaria
em revista a trop. Lalunos republi­
canistas teriam decidido náo pretar
continência e atirar os sabres aos ps
do ministro. N,no dia marcado, com
medo das punições, todos teriam volt­
do atrás em slas decisões. Menos o
intrépido Euclide. Esta atitude de­
sencadeu uma série de punições, cul­
minando com sua baixa da Real Ecola
Militar em 1888. Posteriormente, ele
teria sido recompnsado pr sua fill ie­
za de caráter, fidelidade aos compa­
nheiros, honestidade e adeão coerente
aos ideai republicanos. Os euclidianos
na am que no ano seguinte, com a
Proclamação da República, o então ca­
dete tria ps ado de "louco a herói",
sendo saudado plos republicanos e
reintegrado ao Exército. A atitude no­
bre e heróica do escritr em defesa de
seus ideai teria sido prtanto recom­
pensada. Esa histêria é narrada com
um sentido peagógico aos jovens estu­
dantes que se reúnem em São José do
Rio Pardo visando a despertar o senti­
ment cívico.
Outro episódio é contado com fe­
qüência. Floriano Peixoto, então presi­
dent da República, convocou Euclides
em 1893 a fm de lhe conceer um
cargo como uma epcie de pagamento
por sua luta em prol da República. Ao
ser indagado plo marechal sobre suas
aspirações, Euclides respndeu: "Que­
ro que se cumpra a lei." Diante de um
marechal surpreso, mencionou uma lei
que concedia aos formandos em enge­
nharia o direito a um estágio n Estra­
da de Fenv Cntral do Brail. Esa era
poi sua pretenão, realizr o estágio
de engenheiro recém-foIlado, fazer
cumprir a lei. Tria dito Euclide numa
carta a Lúcio de Mendonça: "( ... ) decla­
rei-lhe ingenuamente que desejava o
que previa a Li para os engenheiros
recém-formados: um ano de prática na
Estrada de Ferro Central do Brasil. ( ... )
E tive ainda a inexplicável satisfação
de decer orgulhosamente o saguão e
sair agitando náo sei quantos sonhos
de futuro ( .. . )"
EMA NAÇÁO E AA
219
Os euclidianos comentam a dimen­
são deta atitude de Euclides. Enquan­
to os adeptos do movimento republica­
no disputavam cargos e privilégios,
formando nova casta de pderosos, o
então jovem engenheiro dava uma li­
ção ao país, buscando preservar as in­
tituições e o respito à leL
¯ a trajetória do escritor é des­
crit no sentido de af .. mar sua fdeli­
dade a ideais que foram sendo cons­
truidos nos primeiros anos de su vida
e conservados até sua morte. O ideal
central, o nacionalismo, reveste-B de
variadas formas, e suas atividades pro­
fissionais -jornalista, engenheiro de
obra públicas, escritor -são valoriza­
das na medida em que etão intima­
mente relaciondas com a contrução
da nação. Sua coragem e retidão são
enaltecidas. Esas e outras pquenas
histórias vão serindo para conolidar
o peronagem. Entre elas, sem dúvida
a mais importnte é a da sua partici­
pação M final da Guerra de Canudos
quando, contrariando as teoria racis­
U da épca, como assinalou Gille
Lapuge, decobriu a intratável gran­
deza dos "incuráveis", dos "degenera­
dos", dos "histéricos" de Canudos. Des­
cobriu a beleza dos mestiços, passando
a admirar sua habilidade, sua gnero­
sidade, sua dignidade, sua glória e sua
bela esperança.
Desse modo, o ritual de evocação de
Euclide da Cunha em São José do Rio
Pardo tem o dom de reviver (ou de
reinventar) ese prsongem que num
domingo cinzento, na Estrada Real da
Pieade, tombou de forlla trágica viti­
mado plos disparos do cadete Diler­
mando de Asis, amante de sua esposa.
E nós, envolvidos pla atmosfera inco­
mum desa comemoração evocativa de
um "morto nacional", não pdemo dei­
xar de atender ao simpático aplo do
dentista rio-pardene e srrir. £l,
Euclide etá vivo!
Z - "A PAIXO SEGUNDO
CLRICE L1SPECTOR"
O título do evento já sugere o terre­
no em que etamos ing ando: tete­
no da paião e da subjetividade. Ou­
tros títulos, de matérias joríticas
publica n ocaião, reiteram: "Cla­
rice, prto do coração" J "Paixão miste­
riosa de Clarice", "elarice Lispctr:
viagem ao coração selvagm", "Que
mistérios tem Clarice". Paixão, cora·
ção, alma: domínios de uma singulari·
dade qualcada como misteriosa esel­
vagem. A imprensa desempnha um
papl preciso nese ritual: pr meio da
reptição faz ecoar o evento, difunde-o,
duplica-o. Os títulos das matérias indi­
cam ura pssoa singular. Resta en­
contrar Clarice. Entrar em contto
com sua vida e obra.
Onde encontraremos C/ariee?
O Centro Cultural Banco do Brasil
é uma intituição recente. Llizado
em área tradicional da cidade do Rio de
Janeiro, no coração do centro, ao lado
da igreja da Candelária, sua criação
em 1989, na antiga sede do Banco do
Brasil, resultou de uma iniciativa da
direção e do fncionários do Banco do
Brasil diante da crecente deteriora­
ção do prédio. Segundo ele, o prédio
mereia ser preervado por ser ''u do.
Dantigo da cidade e de expresivo
valor arquitetônico". Dede então pas­
sou a abrigar um museu que havia sido
fundado em 1950 para preserar uma
antig coleção de moedas, um arquivo
histórico e uma biblioteca. O Centro
Culturl Banco do Brasil dispu
também de um amplo saguão e vatos
salões que foram reformados pra
abrigar salas de exosição, teatro, ci­
nema, video, restaurante e cafeteria.
ZZÛ £8DDR8RO-1914
Desde o início abriu-se a várias tn­
dência, financiando projet aprn­
tdos por produtoras culturais ou pro­
movendo eventos patrocindos pr ou­
tras empresas. Podemo dizer que o
CCBB vive sob o signo do efêmer. As
salas de exsição ou de teatro e cine­
ma apreentam uma diveridade de
pro@a que gralmente duram
pucos dias.
As relíquias de Clarice form tran­
prtdas para ur sala onde divera
exsições já haviam sido realizadas
em outras ocasiõe. O CCBB vem de­
senvolvendo uma tradição de event
comemorativos em torno de uma gama
diversificada de artistas e intelectuai
vivos e morto. Em geral, são privile­
giados pronagen identificado com
a cidade do Rio de Janeiro. O t�m da
cidade está sempre presente pelo pró­
prio motivo da historicidade e da im­
prtância do prédio e do próprio Banco
do Brasil na vida do Rio. Mas, talvez
devido aos traços cosmoplits e uni­
veralitas do Rio de Janeiro, não se
verifica ur tendência rigorosa nesse
sentido. No CCBB cabe um pouco de
tudo, peronagens nacionais e estran­
geiros, temas os mais diveros. Por ser
um epaço cultural muit disputado,
vem desempnhando o papl de veicu­
lador das novidades no universo cultu­
ral nacional e internacional.
Dese modo, o ritual evocativo de
Clarice ocorria num espaço bastante
divero daquele conagrado àmemória
de Euclide da Cuna. Se, em São Joé
do Rio Pardo, buscava-se prenizr a
passgem do escritor pla cidade sdi­
mentando num local apropriado as
.ua relíquias. no CCBB relizva .. e
um ritual psageiro. No mê seguinte
aquela mema sala alocaria outros
evento. As relíquia de Clarice no
encontWm æM epaço de cona­
graço prll anente. A máquina de O
crever d ecritra, bem como too um
col\unto de objetos - a carteira de
identidade, foto de mcia, fots da
famíia, cadernos de anotçõe, lenços
de papl com fases anotadas rapida­
ment, liv, deicatórias, manucri­
tos -rmaneeriam pr breve tmp
reunidos em exsição. Se a cabana de
Euclide foi tombada plo Patrimônio
Histórico Nacional, o mesmo não pde­
ria OrIer nquele ææcom o objetos
da ecritora. Sua principal relíquia,
uma antiga máquina de ecrever Un­
derwood, transportda para esta breve
evocação, volUa ser guardada pelos
herdeiros. LO objetos seriam, aps
a desmontgem da eição, devolvi­
dos àFundação Casa de Rui Barbosa,
detentora de gande prte de seu acer­
vo. Efetivamente não estvamos dian­
te de U templo da memória nos mol­
de da cidade de São José do Rio Pardo.
1bdas aquelas relíquias prmanee­
riam ali apnas o temp suficiente pa­
ra que nos Wormássemos sobre a es­
critora, nos deleitássemos com suas
palav, pra depis conhecer outro
pronagem. Clarice er evocada na
m"ma sala que antes hava abrigado,
entre outros, Machado de Assis, Carlos
Drummond de Andrade e Mozart. A
m"ma sala que no futuro abrigaria
muitos oubos eventos. A própria cura­
dora da motra em seguida faria, no
memo epço, uma æição sobre O
cineata Glauber Rocha, comemorati­
va do aniverário do fme Deus e O
d0na trra d sOÌ.
Também o organizadores da mos­
tra não pareiam deter as característi­
cas de nrradore no sentido que lhe
atribui Walter Benjamin. O CCBB é
um epço altmente prollsionaliz­
do Øpreso a noI. Vinculado direta­
mente ao Etado, conta com profsio­
nis wialmente treinados para o
deempenho de atividade cultura is.
Nete sentido, del"me-se como um e­
paço moderno, detinado à Worll o-
EWA NAÇÃO E A A 221
ção. O próprio folheto d apresentação
asinalava:
"Até 12 de outubro de 1989, data da
abertura do Centro Cultural Banc
do Brail, a imagem do prédio da
Rua Primeiro de Mo 66 esteve
sempre ligada ao mundo dos negó­
cios. ( ... ) Inaugurado como sede da
Associação Comercial, em 1906, sua
rotunda abrigva o pregão da Bolsa
de Funos Públicos. ( ... ) No fnal dos
anos 80, ( ... ) o Banco do Brasil ofere­
ce ao Rio de Janeiro um centro de
cultura de gabarito intercional. O
projeto de adaptação conserou o
requinte do traçado original ( ... ).
Mas agora é outro o negócio. Ocupa­
do pla cultura, o prédio tranfor­
mou-se em plo de múltiplas ativ­
dade e fórum de debates. A props­
ta é formar público através da oferta
de produtos de qualidade. Formar e
·nf . ( )" I Ofil ar. 0'0
Neste documento dua idéia sinte­
tizavam a características do espaço
onde Clarice era lembrada: "cultura
como negócio" e "formação e informa­
ção".
Neste espaço, o objetivo principal
estava ligado à originalidade, ao inedi­
timo, à novidade da informação. Não
parecia haver lugar para a forll ação de
um culto a um escritor que se reptisse
indefinidamente através dos anos. Di­
fcilmente uma pronalidade seria
lembrada por dois anos consecutivos.
Como assinalou Walter Benjamin, "a
infOí'mação ð tem valor no momento
em que é nova. Ela só vive nesse mo­
mento, precisa entregar-se inteira­
mente a ele e sem perda de tempo tem
que se explicar nele. Muito diferent é
a nrrativa. Ela não se entrega. Ela
conera UMforças e depis de muito
tempo ainda é capaz de s deenvol­
ver." (B'amin, 1987:204)
Quem quer evocr C/ariee?
'mp de amor o noso agora. Por
Clrice, com Clarice, para Clarice. Que
o Du, cmo ela dizia, nos dê luz e o
ancetral, engenho e æ para que o
espaço se fça em c. sulo. Linguagem
batant Qdizer saudade."
O text do catálogo assindo pla
curadora da mostra, Gisela Maga­
lhães, deixava entrever M simptia
pela escritora. NGisela não era uma
amiga ou M seguidora d idéias de
Clarice Lispector no mesmo sentido
que os euclidianistas o são de Euclides.
Em entrevista aos jornais, ela se defi­
nia como uma arquiteta que "deban­
dou" para a monta

m de "exosições
não convencionais",
EmslIma, a montagem de "APaixão
segundo Clarice Lispctor" refletia
ur eição evocativa de um prso­
nagem literário, sor ndo-se a outras
expsições sobre outros perongens
na extena e brilhante carreira de Gi­
sela Maglhãe.
A curadora confesava ter sido in­
fuenciada em sua formação por Clari­
ce Lisptor, Tfoi no dois meses d
trabalho que precederam a montagem
do evento que leu "enlouquecidamen­
te" o textos de Clarice "para captá-Ia".
Havia a intenção explícit de fazer um
trbalho autoral, artístico. Gisela não
visava, como os euclicianistas, encon·
trar a verdade do autor e tranmiti-la.
Seu objetivo era deliberadamente criar
e afirlar sua própria Clarice.
Esta visão do artista que se distin­
gue do intelectual era reiterada pr
Gisela em uma entrevista concedida à
Revita d Domino do Jorn d±rd
8il.
A intenção da expsição, segundo
el, er "susU no ouvido d pe­
soas, entrar n intimidade, se recolher,
co-mover, mover junto dentr do clima
de Claric".
222 ESTDS HSTRCS -19914
Como C/arce é evocada?
Um catlogo, M exposição, leitu­
rs dramática de Þda escritora,
uma mostra de vídeo e de flme inpi­
rdo na obra de Clarice, M ciclo de
palestra e algun depimentos de
ami� intimas da escritora eram os
principais evento. O reprter de O
Jsldd S. Ïum,José Catello, avi­
sava: ¯ CCBB pretende traçar M
retrato fagmentado e inquieto da es­
critor, seguindo o etilo quente e pa­
radoxal de sua obra.»
Entramos na sale da expsição: '±S
tou em luta com a vibração última." A
fase suprpsta a uma foto de Claric
no fnal da vida tenta fagrar seus últi­
mo movimentos. Entramos em sinto­
)com o ritual de "lembrar o mort".
Sabemos que Clerice etá morta. Pode­
mos tecer sua memória.
O texto do catálogo anuncia: "entra­
remo no timbre de sua palevras". A
palevra tomarão corp para relem­
brar Clerice. Palavras ecritas pla
paredes, plavras e mais palevra (Gi­
sela Maglhães quis tranforllarpala­
vras em objetos), pemas, penAmen­
tos, "frass sem sentido, que eram a
sua liberdade". A meta é provocar os
sentido: nda de Þs Q a com­
preeno racionl O evento busca T
produzir o que os organizadore da ex­
psição avaliam terem sido as caracte­
rísticas es enciai da pronagm.
Provocar "impcto d sOaba ofucan­
Þ¯. Clarice "pouco s imprtva em
ser entendida, pi sabia não ecrever
pr ecolha, M pr íntima ordem de
comando". Sentir UBF8U8 entender, pai­
xão UBF8U8 razo, escrever pr impulo
intero: caracterítica" que servem p­
ra delim itar a psoa que é lembrada
"Claric se faz inteir nU fg­
mentes, nese estilhaços de si mem,
que agora se juntam plenos de vida,
tnt vida, tanta." 1j a-ecrit
ra que ecrve sobr si, sem se imprtar
com o mundo exter, sem etr baliza .
da pr ele, que escrve e vive "pr intima
ordem de cmando". Ing amo no
univero do indivíduo autêntic, tão di­
vero do sincro Euclides preoupado
com a nço, com a honr, com a hane·
tidade. O comprommaior de Clarice
é Qconsigo mema.
.
Entiza-Be o aspto artístic e iné­
dito da expsição (a inforll aço s6 tem
valor no momento em que é nova): mo­
U ple primeir vez os quadrs de
Claric. Aecritora é eta tmbém
como pintora. Seu compromisso é cm a
. Æ . Æ
cnçao e cm a lnvençao. enontra-e
distnte prtant do esritr que bus
decrver Mfato, encntJ ar a verdade
sobre aquilo que Q ¿ aquilo que vê,
aquilo que pQ1sa e busc compreen·
der. O æ O paredes cow m:
etamo ''bem prto d selvagem verme­
lho do seu craço". Etamos bem prto
de amigo e amigas intmde Cleric,
de "ua cmpanheira mai intima, a
velha máquina de palav", ¼ga
que cptva su sutilezas e a fzia
viver intenamente eS palavs,
suas plavr": a velha máquina Un·
derwoo, instrumento de sua vasta
criação, prolongamento em Iatêria da­
quele que no mundo do vivos no mis
se encntra em crne-¬.
No catálogo, M breve depoimento
d ordora do evento. Atnic
Þ sbr a idéia d rviver Claric:
"Q gem do 15 aniversário de sua
morte, Clerice paree estr mais viva do
t' ' te - que nM sen uos a M nçao
quase que de vingar seu destino trágic:
"Não vou morrer, ouviu Du? Não te·
nho cragem, ouviu?' Ncomo reviver
Claric? Por meio de "ua obra que sur­
ge integralmente rlançada ( ... ) tudo se
torndo pr sua prença".
Lmos o depimento de um artista
conagado, Caetno Veloso, relatando
seu encontro com Clarice. Chegamos
£N£ANAÇÃ BAAA 223
mais perto dela revivendo o enconhe
de Caetno e Clarice. ''O primeiro con­
tato com um æde Clarice tave um
enorme impacto sobre mim." O priei­
r contato é pntuado pr sençóe,
aqui não se m em comprellão do
æ, nas idéias propriamente veicula­
das. Aqui enunciam-se as senaçóee
provocadas pls palavras da ecrito­
ra: Cquei com medo", "senti muita ale­
gria pr encontrar Uetilo nvo, mo­
der", "esa alegia etética (eu che­
gava memo a rir) era acompnhada
da expriência de crecnte intimidade
com o mundo senível que a palavra
evocavam, insinuavam, deixavam da�
. oe". O texto avi ... , "ler Clarice era como
conhecer uma psoa".
Fotos da escritora ainda menina,
fotos emolduadas dos pais e das uæ
de Clarice: início, origem, berço, infn­
cia. '±ninguém é eu, e ninguém é você.
Esta é a slidão." Uma imagem de CIa­
ric moçajá escritora dedilhando uma
máquin de ecrever. A ecritor no
oe funda n relação com o outt, no
se coloca como elo de uma cotnte
numa eventual continuidade entre
Q do e presnte. Aquele que a f­
bricam a querem única, intransferível,
singular. Págna seguinte: " li­
berdade é velmelha" sobre o fundo de
sua imagem em negativo. Por dento e
pr fora, da direita àesquerda, a ecri­
tora perfz Utodo.
Novo depimento. Ar é a vez da
amig íntima Nélida Pilon. Aquela que
a viu mOlr: "quando o arpo do deti­
no, envido nquela 8·feirade 1977,
atingu-lhe o corção æ 10:20 da
¢ã, parlisando sua mão dentro da
ma, cmpreni que Clarice havia
æmego.tado o dell mitério que lhe
fqüentara a vida e a obr." O depi­
mento da amig vem sancionar a opsi­
ção entre pxão e razão, entr arte e
ciência. A ecritor em for é uartis­
t e não U tórica. Alguém que "
direto H craço das plavr e dos
,
sentimento". Ï v Nélid: "Atr­
de, fomo ao auditório d PontifIci Uni­
veridade Católic do Rio de Janeiro.
Aps intll debate ettico entr dis
prominentes tric, Clrice Lsp­
tor ergueu·s irada de su cdeir, ins­
tndo-me a sgui-Ia. L for, entre o
aroreo do pque, tommo café na
Cnti. Tamtiu-me, então, o se
guinte rad, cm sbr de cfée indig­
naço: -Dig a ele que s eu tivese
entendido U8plavr de tudo que
,
.
- te ' 'to
- '
eu no f1 ecrl uMª
ca mde todos Omeus u. Clarice
er as i I direto ao cração das pa­
lvr e dos sentimento."
N élida decreve tmbém o cenãrio
em que desfrtou da a.zade da ecri­
tora: o Rio de Janeiro, o Lme, "prei­
samente n FGutavo Sampio ö".
N Clarice não se relacionva com
este entrno. Ïria u geograf1
da alm, preferia fcar absorta conig
mem: "Seu olhoe, abstraídos, como
que venciam um gega exótica, de
teri áspra e revetida de epinhos.
Imgnava eu então que espie de
mundo verbal tai viagen lhe pde­
riam suscitar." A amiga enfatiza su
lado csmoplita, universalist. lem­
bremo-nos que Clarice não nsceu no
Brail, m n Ucrânia, tendo-se na­
ciomdo brasileira æ vésperas do
caamento. "Neste rosto de Clarice
convergiam aquelas pregrina etnias
que venceram séculos, cruzaram
oriente e Europa, até que ancorassem
no litoral brasileiro, onde veio ela af­
nl teer H memo temp o ninho da
sua ptria e o imprio da ö lip­
gem. Estava nela, sim, etmpada a
difcil trajetória da nosa humnidade,
enquanto outra vez seu olhar pusava
resignado na areia da praia de Cop­
caban que o carro, devagar, ia deixn­
do pra D. "A"pátria" é o futo da
uma eclha, m de u ftalidad.
ZZ4 ESTS msTrcs -1Û
Fixa reidência no litoral braileiro,
lol tantas vezes rpresntado por U
critres e ideólogos da ncionlidade
como m is cosmoplita, Mi infuen .
ciado pelo exterior. Clarice é mais as­
sociada à idéia de uma hum nidade do
que de uma ncionalidade espeífca.
O depimento sguinta é do cleg
de trabalho, o jornalista Lúcio Cardo
so, com quem passou a trabalhar em
1941 na Agência Nacional. D todo o
depimento é o mais antigo, ecrito
qundo CIaric ainda vivia. Lúcio cha­
ma a atenção par M slf um lugar
íntimo, interno, um "og", "alguma
coisa íntima que et sempre queiman­
do" e que faz a sua singularidade. Lúcio
aproxima esa "coia Íntima" de sua
identidade feminin: "ese fogo é o se­
gredo íntimo e derradeiro de Clarice: é
o seu segredo de muher e de ecritora."
Tndo uma comparação com Guima­
rãe Rosa, a identidade feminin é as­
sinalada como crucial: ''não há homem
em Clarice Lispctor. Por isto é que ela
arde. SU fábulas, e mesmo a mi
æO, delatm a presença única
dese problem " mulher sitiada", "a
catlogação dos sentimentos são atri­
butos femininos",
Novamente, reitera-se a qualidade
de uma literatura movida plas sena­
ções: ¯O a obra, repit, é M longo,
exautivo e minucioso 8lamento de
senações." L pronagen criados
pla ecritora são decritos como "má­
quina de sentir". Aecritora é compa­
rada com a ingea Virgnia Wol e
.
situada em oposição ao ecritor Jame
Joyce. O depimento seguinte, do pi­
canlista Hélio PelIegrino, retoma a
metáfora do fogo interno, da alma que

incendeia: "A semelhança de Van
Gogh, ela sabia, com a ple do corp �
da alma, que debaixo de tudo lavra um
incêndi9."
Belas fotos de uma moça C1aric
gndo numa puen embarcação
em água clma são pntuadas pr
vero de pets conagrado: Carlos
Drummond de fOd, ôde maio de
1974, "Querida Clarice: Que imprsão
me deixou o su livro! ( ... ) Obrigdo,
amiga!"; João Cabral de Melo Neto,
1985: CIarice adorava flar da mort;
Cazuz, 1989, veros inpirados em '¹
Corp". Foto com o marido em Vene­
za, fraes sltas. Seguimo seu percur­
so e ela no olha fxamente enquanto o
marido se distai com a pisagm: "-
do n etmos sb pn de morte".
Depois vem os filhos, a ecritora é mãe
e O mem brincam n neve. Em
outra foto Clarice olha fmente pra
um cacho de bB. Aexposição pro­
cura mostrar ur mulher simple, em
muito divera da imagem monument­
lizada de Euclides da Cunha em São
Joé do Rio Pardo.
No catálog, um txto anuncia ou­
tro eventos: leituras dDtica de
seus textos, paletras -nde se vê a
indicção de que a ecritora Marina
CoJaanti flarã sobre "Aconvivência
cm a ecritora", o ecritor Af ono R·
mano de Sant'À etará ao vivo
"Lmbrando Clrice"· e as amigas Né­
lida Piúon e Marly de Oliveira deica­
rão um noite para "Memórias e lem .
branças" (a amizade com a escritora).
Um foto pungente lembra Clarice já
doente cercada pla amigas. Fotos de
flIme e vídeos inspirado em sua obr
anWciam oub atrações.
Outa imagm da escritor sguida
das taduçõe de su livros pra ou­
tra üQ. Bilhete, carts, De su
próprio pulso e de ecritores conagra­
do. São mnucritos com �nde p­
tencial aurático: Drummond, Erico Ve­
ríssimo, Hélio PeIlegino, Lúcio Cardo-
BO. Nova referência ao puco valor atri­
buído BB sigcado., ao mundo da
razo: "Poso no ter sentido ma é a
mem flta de sntido que tem a veia
que pula."
ENTRE ANACÁ E A A 225
PDágUUdeæcteVetéoQDtoa¡to.
PDDÎeDUdaeDuVÎttÎDaaoÜda
eÎgåo oD UD ¡UZ gUe oDDT¡8
CoD o c de gnUDD1a de too o
1æto, a Ve¡Da U nderood eDetge aæ
noææoü1æoDo ga1te de L¡atÎæ. L
DoUDÎWgDeDto deæUcoQ. ÎwtD-
DeDtodectÎagåo,eæm gtDÎæVmUa-
¡ÎZtÎDa@ente LÌatÎCecoDQ
do, ct o. ÎnotDæ gaÎDém oDde a
æCtÎuW aQoD aDágUÍm5DW
oo¡ooDg¡eDeDUDæÎdéÎa.PtÎQ-
DæocÎDgÎnBtÎaDeDteg UÍ-
Dæ L¡atÎæ. Îota¡gUwðe@Ddæ, d
VeD0aDæ oæUDmtétÎo.
CONCLUSÃO
NÎVeDoð cetCadoð Qt coDeDota-
góeð. ÜÎtUaÎð coDeDotatÎVoð Dåo næ
g1eeD DeDDUDB DoVÎdBde U¡ aðUa
ÛegÜ8DcÎaDodÎaaddenoæaðVÎdað.
Îææ coDeDo1agóeð ðåo gtóg1Îað do
DUDdoDoe1o, oDde ðeoDðeFaUDa
tend8DCÎa à ÙgDeDtagåo da VÎda o
¡etÎVa. Po ¡Bdo do ðUtgÎDenu do ÎDdÎ-
VÎdUa¡Î8DoDodetDo, oLÎdeDteaæm-
tÎU aM DoVÎDento de QtdB da De-
Dótæ¯,coDotoDgÎDeDtodaðaDtÎgæ
tWdÎgoæ.¾a¡tet W@aDÎnðÎDu¡ÎZoUo
ÜudegUeæ8eDæDo ÎDd1VÎdUa¡Í8Do
ðÎgDµCoU ogtenúDCÎoda Dotteda o
DUDÎdadede oUVÎDtæ. LoD oÜdeð-
ta CoDUnÎdBde, aB eXgtÎ8DcÎæ Ðo
DaÎðgUde1aDðeoDUmt.O DUDdo
dB DodetDÎdade éUD DUDdo gU¡VetÎ-
Zadot. ¯Lada DaDDå DeDeDæ DotÍ-
m de udo o DUDdo. Î, Do enUDu,
ðoDæ QDtæ eD DÎ8tótæB ðUtgteD-
deDteð.¯ A m tÎVæ eDUataD eD
eXtÎDgåo, ðUtgÎtaD noVað ÎoM de
coDUDÎcagåodað gUaÎð a ÍDgtwa éo
eXeDg¡o gatadÎgDátÎCo. Dæðe coDteX-
UÍDQtta ÎnÎotDotÎCÎatonoVo.
A coDeDoWgu adgUÍtu UD
ð@wdo ægCÎa¡Dente ÎDQtUDte
no DoDeDu eDgUe o tuDgÎDeDtoda
DeDótÎa coD að antÎgað ttadÎgóæ Ø
coDoCo8tUDe¡eVoUàCtÍagåodeDoVoð
DeaDÎðDæ. ÀgtÎaD ÜaDtoð Í8¡a eD
UDaDeagadeaDDé8Îa gUegaæoUa
toDdat geFaDeDteDeDte o DUndo
DoetDo.ÜUtgÎUaDecæ8ÎdadedeÎD-
tÎtUÎtDoVaðÎoIdeg eFagåo,de
DeDotÎZagåo, de atgUÎVaDeDto. ÎÎCt-
te Mota Ü¡aeD¯U@tæ deDeDótÎa¯,

ÎtÎC MoDßDaWD e ÅteDce ÛDget CU-
DDataD aeXgæo ¯ttadÎgoæ ÍDVen-
tadæ¯.ÎD¡ÎDDægetaÎð,waægðgUÎ-
ðado1æeðtåoðeteÎetÎDdo aUDDæDo
gH o, eDUwÎaDdo gUe, Dåo DÎð
DaVeDdoUDaDeDótÎaÎDcotQtadBDa
ttadÎgåoeDoco8tUDe,tetÎaðÎdoDeO-
ðátÎo CtÎat¡UgBtæ gtugtÎæ gata a8Ua
cowttUgåo.
ÎtocUtaDoð coD æte attÎgo conttÎ-
DUÎtgaW agUa¡ÎÜCagåodacon8ttUgåo
Doetm do caDQ daDeDótÎaðoCæ¡,
DætWndo að dÎÎe1engað entte dUað
oDeDotagu de æctÎtotæ Qt oa-
ðÎåodeðeUaDÎVetðátÎoðdeDotte. Mo
ædeÎUc¡Îdæda LUnDa, ttaU<ede
UD DoVÎDento getado Do ÎDtetÎot da
ðocÎedude cÎVΡ gUe gá dUta gUæe UD
ðécU¡o. Mo Oo de L¡atÎCe Ìgctut,
tettaUDæ UD eVeDto eæDeto DUD
ontto cU¡tu¡ VÎDCU¡ado ao ÎUdo.
ÀeU oD_etÎVo ÎoÎ DætWtcoDo DæDo
UDa Dod¡Îdade ðÎDgU¡Btde coDeDo-
Wgåo, oDoðåo ætÎtUaÎðdeeVUgåo
dæ Dottoð, gode ag1eæDtat dÎÎewn-
gaððÎgDÎÜOtÎVæ.
ÜåoJoðé 0o ÜÎo Îatdo ttawÎo1oU-
ðeeDUD"CÎdadoDonUDeDto¯eÞ
oaDo wuUtÎtw¡gta¡eDDWto
e&tÎut dUtanW a ðeDaDa do aD1Vet-
ðát1odeðUDotte. ÎæetÎtUa¡æðeDe-
¡Da<eætomdæðaDtæCtÎðtåo8,
oDde eXÎðW u Dea, UD tettÎtótÎo
ða@ado, de g1eÎet8DcÎaDa1cadoge¡oð
g1ógtÎæ g ðdo ½aDto¯gUeUD d
a¡ÎgÎðoU. LoDgetuða¡1ætåo0ÍðgtoB
deÎoMÛ,comag1adæ, æUD¡eÎ-
dæ. P gaÎðageD ÎoÎ WmUUÍda de
226 ESTDOS HISTruCOS -199114
fOnna a recompr um preteno passa­
do. A cabana, o túmulo com seus restos
mortis, a paineira, o rio, a ponte, en­
fim, um conjunto de objetos dispostos
de forma quase eterna procura reter a
passagem do temp, Hdo-se num
pnto do passado. O recanto euclidia­
no, testemunha material de sua passa­
gem pela pquen cidade, pssibilita a
participação no ritual sagrado de um
grup de admiradores ano após ano.
Nese sentido, os euclidianos fOnlam,
até cerl ponto, uma comunidade de
ouvinte, e o trabalho que realizam no
que tange ao escritor guarda certa pro­
ximidade com o trabalho do narrador
descrito pr Walter Benjamin.
Seguindo as propições de Trilling,
o Euclides dos euclidianists atualiza
uconcpção de psoa preominan­
temente referida n idéia de "sincrid­
de", ou seja, que privilegia uma soieda­
de relacional. Os euclidianos esto
imero numa totalidade discuriva on­
de a categoria 'nação' deempnha p­
pl central. Euclides é um ícone da n­
cionalidade, e é sua história exemplar
enquanto moelo e exriência de civis­
mo que imprta tranmitir.
Por outro lado, o ritual de evocação
de Clarice Lispctor ocorre num tem­
plo da chamada ps-modernidade. O
CCBB surge como um arrojado centro
cultural numa cidade marcada plo
cosmoplitismo como é o Rio de Janei­
ro. Esta intituição cultural enfatiza a
veiculação de informações diveras pa­
ra ampliar o univero cultural dos sus
milhares de visitantes. Assim, ao pr­
correrem a expsição de Clarice Lis­
pector os freqüentadore do centro
buscam sorer informações e emoções.
Esta se adicionarão àquelas já sorvi­
d por outros eventos e æ que ainda
estão por vir.
Neste ritual enfatiza-se ua con­
cepção de pessoa onde a noção de "au­
tenticidade" desempenha relevante
papl. A relíquias da escritora são mó­
veis. Uma máquina de escrever portá­
til é o ponto alto, contrastando com a
pequena cabana de Euclides. A máqui­
na de ecrever é compatível com a pró­
pria trajetória de Clarice que nos é
apreentada: uma escritora que valori­
za o mundo interior enquanto geogra­
fia da alma, passando grande parta de
sua vida em cidades cosmoplitas no
exterior ou no próprio Rio de Janeiro.
Deixando o terreno dos vivos, CIarice
tor-se de fOlI plena o que Ï Po­
mian chamou de "er-semióforo". Tal
como os objetos que compõem uma co­
leção de museu, a pessoa Clarice reti­
rou-se do circuito da vida material pa­
ra iQsar num outro, predominan­
tement simbólico. Não havendo mais
o corp de Ciarice, é sua alma que se
procura regatar. Para isso, são neces­
sários OB objetos evocativos: palavras
impressas em cadernos, fotograras, li­
N, notícias em jornais, fragmentos
de uma vida que se djssipu. Ur bio­
grafa, ur cronologia são os primei­
ras passos nesa buca, nessa constru­
ção de uma totalidade de um ser findo
(lembrando a todos nossa própria fmi­
tude). Alma de uma ecritora que viveu
57 anos, de 1920 a 1977, sendo que a
maior parte dele no Rio de Janeiro.
Tajetória que se caracterizou pela mo­
bilidade tnto em termos de moradia
(viveu em muitos lugares, inclusive no
exterior), quanto em trmos de traba­
lho (foi colaboradora de diveros jor­
nais, nunca s flou em um único em­
prego).
A contrução pástuma de Clarice
detoa daquela que envolve Euclides,
onde o interior é valorizado em contra­
posição ao litoral. A cabana que serviu
ao ecritor é um ícone da valorização
do mundo exterior enquanto um terri­
tório demarcado e fuo ^sertão, cerne
da ncionlidade. A placa de bronze
suprpost à caban sinaliza o valor
ENE A NAÇO E A A
227
que esse pdaço de território tem para
os euclidianos. O sertão, o interior do
Bri, equivaleria ao lugar da produ­
tividade, da obra duradoura, em con­
trate com o litorl, lugr do improdu­
tivo e da obra efmera. O ritual em
toro da memória deste ecritor tem
um sentido de durabilidade, dprla­
nência. Nete caso, é vlorizado o cére­
bro, a razão, o penmento. Já a come
moração que lembra Claric emerge
paradoxalmente como o a to de imorta­
lizar o efmero, valorizando O snti .
dos, o coração, o intante.
Euclide da LD é apresentado
como seus pronagens, produt de
ur pesquisa de camp, de uma busca
desenfreada de documentos que ate ..
tem sua realidade. Comparado a ecri­
tores fundadore de literaturas nacio­
nais, como Cran1es e Camõe, o es­
critor está vinculado também a esa
totalidade dicuriva, designada pr
literatura nacional.
A difernça sigcativa que se
fazem sentir no rituais evocativ d
dois ecritores M rmetem æprocu­
pações pioneira de Halbwachs no estu­
do da memória soil. RlatiVdo a
afrllaçõe de Bergon, que acreitava
que o espírito conerava em si o g ·
do em sua inteirez e autonomia, Halb­
wachs abriu cmo g pnr n
lembrnç cmo a re"riação do pasado
no prente, ou seja, em função dva­
lor do preente. Cmo asinalou Ecléa
Bsi, " maior parte d veze, lem-
b
- . ,

rar nao e rever, T rerzer,
U, repnsar, cm imagen e idéia d
hoje, as eperiências do pssado. A me
mória não é sonho, é trabalho. bas im
é, deve-se duvidar da sobrevivência do
g do, 'tl como foi', e que se daria no
inconciente de cda slleito. Alemrn­
ça é uma imagem contruíd plos m.
teriai que etão, agr, àns a disp
sição, no cnjunto de rpreentç
que pvoam nosa cnciência atual."
(si, 1979:17).
A fnção da memória social cnsiste
em atualizr e dndir valore no pre­
sente. Pevocar o passado, o agentes
envolvidos nesa contrução re-riam
o sldo em função de seu intI
e de sua VÔde mundo no preente.
É bom lembrar que é sempre no mundo
do vivo que rituais de evocação dos
mortos fzem sentido.
Notas
1. No d18 dejulho de 1985, num ciclo
de palestras dedicdo a Euclides da C
na Ademia Brasileira de Ltas no Ro
de Janeiro, o ento president da AL,
Austgsilo de Athyde, foi solicitdo por
euclidianists e produtors cmæ a
apiar fnciramente um fme sobr a
vida e a obra de Euclides da C. O
acdêmio então respndeu: "Consider da
maior imprtnca que se realize ¾ flme
sobre Euclides da C, mostrando æ
novas graçe obra de to gande vult
p a litratura brasileira. Entretnto,
como a Amdemia Brasileir dLts g
deria apiar tl prjet? Náo seria just
cm o demais imoH... Am, et é a
caa de Machado, de Casto Alves ... e de
mm outrs. No cso de apoiarmos um
flme sobr Euclides tríamo que cntam­
pIar tdo ÛÑ outs e isto rprentaria
um investmento de to gde mont, que
em princpio me prec completament in·
viável/'
O depimento do presidenta da AL Î
pNent sem dúvid ¼ visão radicl­
mente diversa dquela que æÛÑ euei·
dmu.Podemos dizer, a prtr d Î
flexõe de Waltr Benamin. que o prsi­
dente da AL encntrava-se imerso nu
"udda informaço". Nest mundo, O
acdêmics são alinhados e pots em cn­
diço de igaldde. VmÜ-æinfoÎ"
outr sobr WÑ cntribuiçe de cda u
cm rlação àcnsttuiço de ¾ litera-
228 ESTDOS msTrcos ¬19W14
tura brsileir. Ainformaçes devem ser
objetivas e cada autor deve mercr o mes­
mo espç, pis cda um a seu modo deu
sua cntribuição. Nesse mundo, apenas
triam lugar prjets cmo aquele desci­
ts por A Cristina César em pesquisa
sobre fme foclizando ecritrs. A
Cristna comenta a incativa do Insttuto
Naconal do Cinema Educa bva, em 1936,
de foclizar "pronalidade litrárias" no
cnema sob a dirão de Humberto Mauo.
A maior preocupaço neste ÜÜ era peda­
gógic e enciclopédic. Os primeirs esci­
tres cntmplados foram Machado de P-
si. (1939), Euclides da Cunha (1944), V­
cnte de Carvlho (1945), Martns Pena
(197), Castro Alves (1948) e Rui Barbsa
(1949). Esses escritores formavam poi
 gleria e deviam ser mostrados cmo
galeria. Havia inclusive uma norma deter­
minando o moo e o temp que deveriam
ser dedicdos a cda documentário. "Em
forma de flme, o livro sai da estnte e
abr-se æ multidóes, cheio de luz, Bom e
claridade." O filme não deveria deiar M
lugar sego d expiço racionei e uru­
voca dos sabrs esolares. Est expsiço,
em nível cinematogáfc, se realizaia
através da narraço em off feita pr \
locutr de voz cultivada e enfátic, e de
imagns que ilustrariam o text da narra­
ção (César, 1980:18).
O distncamento do narrador com relaço
ao escitr enfocdo é uma das cndiçe
necssárias pra o bom andamento de ¼
projeto deSu tipo. Aqui predomina a infor­
maço raconal, "nítda, minuciosa, det­
lhada". O fe deve ser "claro, sem dubie­
dades; 16gic, no encadeamento de sua
seqüências". O locutor cm sua voz cultva­
da e enfátc assegura a ausênca de qual­
quer aspcto subjetvo que possa denun­
car eventuais preferências literárias pr
parte dos diretores do projet. O objetvo é
mostrar que, embora diferenciados em al­
gaspctos, tdos os escritres têm va­
lores abolutmenu equivalentes. Como
assinala A Cristina, esses flmes são
reduplicÇS m atraentes da lingua­
gm do livro didátc, do verbeu encclop­
dic. Amem6ria aqui é encmpassada pela
histria cm suas normas e seu cbedal de
c icçõs e alinhments. Como pano
de mo, está a idéia de ¼ história da
literatura em prmanent cnstuço.
2. Um dos euclidanists mais clebra­
do, o d. Oswaldo Galott nasceu em Epí­
rit Sant do Pm, cdade do interior d
São Paulo, em 1911. Ainda menino foi mo­
rar em So José do Rio Pardo onde residem
muito de seu fmiliale. Contm os eu­
clidianists que, um dia, quando jovem,
seu pi lmtria entege um livo pra ser
doado a \a bibliotc que estava sendo
formada em ¾ escla prxima a São
José do Rio Pardo. O jovem rapz, prcr­
rendo de tm a distncia que seprava as
dus cidades, foi lendo o livr duante a
viagem. Ficu to entuiasmado que náo o
largu mais. O livro era Os sertes.
O d. Galott pssou um período de 8ua
vida estudando no Rio de Janeiro na Uni­
veridade do Brasil. Formou·se em medi­
cina em 1933 e retorou a São José do Rio
Pardo. Atuando no euclidianismo, criou
em 1935,juntament cm u professor de
-
literatura, Herclio Agelo, as "semanas
euclidians" em São José do Rio Pardo.
Paralelamenu, o d. Galotti trabalhava
cmo médic percorrendo inÚmers cda­
des do interior de São Pauo como dirtor
do Serviç de Oflmologa Sanitária da
Seetaria de Saúde do Etado de São Pau­
lo. Na décda de 60, imprssiondo cm a
incidência do gaucmA, doenç na vist
cusada pla situaço de miséria em que
vivam o tabalhadores ruais, decidu
dedicr-se de æQ e almA a essa cusa,
exercndo  medicn voltada essen­
cialment pra a ppulação crente do es­
tdo.
Devido a essa atvidade profissional, o d.
Galott foi vist cmo "ubversivo" plas
autoridde govermentai em 194. Foi
pro como cmunista, prmanecndo na
prisão duranu 40 dias. Pdeixar a prisão
pasou a morar na cpitl pulist, onde
reside at hoje. Desde ento vem-se dedi­
cando quase que exclusivamente ao movi­
mento euclidiaoist, realizando psquisas
sobre a vid e a obra do ecitor. Sua csa
é lima epce de aruivo cm documentos
raros sobr o ecritor. Cniderado cmo
£N£A NAÇÃO E A A
229
¼ d [tÎDOgÎ8 ÞÎeÞDOæ aoUW ËU-
cÌIUædLm,od.La¡otUóaemUÙVÎUa
o gue o DI8Ut1aUot ÏÎetWÌoWgUa¡HæU
omo "Domem-memóWa¯. ÏtoúeDWmeD-
W Wm 8ÎUo [ÏUo gt Q8gUo
UtæΡeÎtæ e æUaD@Îtæ gUe o oD8ÎUe-
tam @aDUe aUUtÎUaUe Do æ uDU.
3. LmgWDUo-8e a8ew o¡e@æ Uo Û-
cu¡UaUeDa UéæUaUe50, e¡a tecotUaVague
_áDagUe¡aégcaUe8tOaVaUo@ug![W-
taÜcat[eD8aDUoeIDVeDUDUoaQ@tDo
Ìá[I8 gta Ue8emat."boóOodcbV-
UaUe¯ dIZIa ela. Ìo 8eU eDæDdet, emUota
teDDa8e@UIUo¼VItOtIo8aætteÎtaomo
atgUÎteU OUa¡DaDUo Dæ meÌDoÞ8e8w-
\ótÎo8 Ue atgU1Wtuta Uo gí8, omo M Ue
L8æt ÌIemget eUe ÎÙcÎo LU,8eU Ue-
gÎmeDtO Va¡otIZa a UU8æ Ue mæ
a¡\eta\ÎVo8, ¯Dåo coDVeDcIoDaÎ8¯ omo
gua¡IÜæ.
Referências bibli ográficas
PÜÎËÎ, Îe@Da. 1989. "@e, DoUteZa
e g¡¡tIæ Do¯Ðm[¡oUo8 ÎmotUÎ8¯. ÎIo
Ue daDeIto, ÎÎW, ÏÏLP (æ d
me8ttaUo).
. 1994 ``ËmU¡ema8UaDaCoDa¡IUa-
-- cU¡to a Ëuc¡ÎUe8 Ua LUDDa¯,
RWÚta Braileira d Ciêcia Sociais I
D 24.
PÎÎÏÜ,ÏDÎÌÎQ. 1989. Sobre ahistlria d
morte no Ocid"te der a ld Mé­
dia. ÎI8Uoa, ¯otema.
PÜÜÌÜ, ÎΡetmaDUo Ue. 1946. Um nme,
uma vida, uma obra ÎÎo Ue daDeID,
eUIgåo Uo aUtOt.
ÅÜÜÍÜ, dUUÎtD Ue. 1987. Anna r &sis:
histria d um trágic ÜÏ
ÜPLWL,ÜÞDÎ8¡aW. 1984. Iiaa­
ÏsoÛ:méoire Wepr colkti{,.
ÏatÎ8, Ïa§ot.
ÜA LÜ, À§tÎamÀ. LUe. 1989. "e·
mÓtÎa eÎamÛÎa¯,Estuds lIistlricos. D
ö.
ÜËL, ÎoUett Ì. 1975. 7 brken
conuenat: America civil rligion in
time of trial. ÌeW 3otk, 3e ÜwUUtg
Ïtæ8.
ÜËÌËÎÍL¯, PUet8oD. 1983. Imaned
communitiea.
ÜËÌdA,¾aÌWt. 1987. "LDatWUot¯e
U PoUW UeB Da eW UeaUa W[ÞUU�
tÎUΡÎUaUe técDÎca¯, em Obrc
escolhid. Üåo ÏaU¡o,ÜW8ΡÎeWe.
ÜLÜÎ, ËcÌéa. 1979. Memóia e soied
lebraça r velhos. Üåo ÏaU¡o, ÜÎU¡.
UeÎUa8eLIåDOa8ÎuBUaÎÜÏ.
ÜL\ÍËÎ, ÏÎeMe. 1974. A eonomia
d Osimb6lica. ÜåoÏaU¡o,Ïet8-
QctÎVa.
. 1975. " oU\UtÎet et 8a @Ûe!
oDttÎUU\ÎoD à UDe tDéotIe Ue ¡a Ï�
@Îe¯, Au d la Recherche, D 1, _aD.
1975.
1993. ¯Ë8[tÎW U´ÎUt¦ @éDèae et
aUUctUte UU cDam[ UUWaUctatIgUe¯,
Acls r la Recherche en Sciencs So­
cia, D96·97.
ÜbPL, PUe¡ÎDo. 1982. Enciclopdia
r estud. euclidiao. D 1. Üåo ÏaU¡o,
duDUIaÍ.
_._. 1990.Águas r mmgm ÛoUe
daDeÎto, ÎÎo ÏUDUo.
LPNPÎÎL, JÀUΡoUe. 199. A (or
mação d alm.as: o imagináio d
República n Brail. Üåo ÏaU¡o, Lom-
[aDD1a dÎtta•«
LPÎNAL, do8ó dot@ Ue. 1992. ¯L ¡U-
@atUacU¡\UtaUaUÎOoD¡Da8oOeUaUe
moUeMa¯,Série Encntrs e Estudos !.
ÎÎo Ue daDeÎto, ÍÜPL-ÏÎÌPί˕

LËÜP, PDa LtÎ8tua. 1980. Literatura
não édcumento. ÎÎoUedaDeÎto,ML
ÏÎÌÅίË.
LÎW, ËUc¡IUe8 Ua. 1982. Os sertões.
Üåo ÏaU¡o,Ar LUÌtUa¡.
ÎP̯LÌ, WUett. 1984. ¯L8 ¡eÎUte8
te8gDUemaWu88eau:aÎaUtIcagåoUa
8eD8ÎUΡÎUaUe tomåDtIæ¯,em O grark
massare de galos. ÎIo Ue daDeÎto,
Ltaa¡.
ÎÎÀL̯, Lu. 1985. O indvidualis­
DO uma prspctiva =troplógica d
irologia morra. ÎÎo Ue daDeÎto,
W.
ËÎPÎË, ÀÎtæa. 1972. Mito e ralid.
Üåo ÏaU¡o, ÏeWQmIVa.
ËÎP, ÌotWtt. 1990 [1939]. O prosso
civilizadr. ÎÎo UedaDeÎto,Zt.
1991. Moat: saciologie d'� gé
n.ie. ÏatÎ8, ÜeUΡ.
ÏÅÎÍP, ÎUÎZ Ue La8tÞ. 1991. ¯PoUta Ue
LÌÎVeIta NÎaDDa¯. ÎÎo Ue daDeÎto,
ÎÏW·ÏÏLPÜ [mÎmeo).
230 EbS HIRCS -199
FAUSTO NETO, Antnio. 1991. Mort
em crrem. Rio d Janeiro, Rio
Fundo.
FOUCAULT, Michel. 1969. "Qu'est-c
qu'un autur?", BulletiTl d la Soiét
Façaise d Phii<solúe. Pari., A­
mand Colin.
1971. "Sbr a aruelog d
ciêncas: repst ao Círculo Epistemo.
16gc", em Estruturalismo e teoria d
linguagem. Petópolis, Vozes.
GARClAJR., Anio. 1993. "Les intellec­
tual. et la conscience nationale au
Brésil", Acts c la RechweTl Scien­
cu Sociales, n 98.
GONÇALVES, José Rginaldo. 1988. "Au­
tenticidade, memória e ideologias
naconais", Estuds Históricos, n 2.
_ o 1991. "jogo da autentcidade:
naço e patimônio cultural no Brasil",
em Î dlogo. d parimónio cultural.
Rio de Janeiro, IBPC.
GOULEMOT, Jean-Marie e WALTR,
Eric. 1986. "cntnaires de VaI tire
et de Rollsseau". em Pierre Nora (erg.),
Ls lieu d mémoire. Paris, Gallimard.
HWACHS, Maurice. 1968. Lami­
re collective. Paris, PUF.
HOBSBAWM, Eric. 1984. A invençã das
tradiçõs. São Paulo, Paz e Terra.


�1991. Nações e naionalismo des­
c 1870. Rio de Janeiro, Paz e Trra.
NAR, Gerard. 1987. Mémoir el .ocié­
té. Paris, Méridien Klinckiack
NOR Piarre. 1984. "ntre mémoir et
histoir", em Ìlieux d mél ,oire. Pa­
ris, Gallimard-
OLIR Lucia Lippi. 1990. A queatã
naional na Primeira República São
Paulo, Brasiliene/CNPq.
PEIbO, Marisa. 1991. Umaaoplo­
gia no plural. Brasíia, UnB.
PO), Karl. 1980. A grmtrasfor­
maçã. Rio dJaneiro, Campus.
POM, ¥ 1983. "Cleção", em Eni­
ci<pdia Einadi.
PONTES, Heloísa. 1989. "Retratos do
Brasil: edi tores, editoras e 'Cleções
Brasiliana' Î décda de 30, 40 e 50",
em Sergo Miceli (org.), Hiswria d
ciênia soiais W Brasil, voI. 1. São
Paulo, Vértc/desp/Finep.
REIS, João José. 1991. A DI é uma
feata rito. fúnebres e revolta ppular
no Brasil d sécui 7. São Paulo,
Companhia das Letras.
ROQUETE-PINTO, E. 1927. Seios Ï
lados (eatudo. brasileiros).
� 1933. Ensaios c antropoi<gia
brailiana. São Paulo, Nacional.
SAINT-%TIN, Monique de. 1992. "A
nobreza em França: a tadiço como
crença", Revista Braileira dCiência
Socias, n 20, ano 7.
SEVCENKO, Niclnu. 1983. Liter<ura
como missão. São Paulo, Brsiliense.
SIMEL, Georg. 1971. On individuality
adsoialforms. Chicago, The Univer­
sity of Chicgo Pres.
TRlIJNG, Lionel. 1972. Sincerity and
autl&nticity. Cambridg, Harvard Uni­
versit Press.
VELLOSO, Mônica. 1988. "A literatura
como esplho da nação", Estudos His­
tórics, n 2.
VNT Roberto. 1991. Estilo tropi­
cal. São Paulo, Companhia das Letras.
Øeoòi&pmpuMmq&em]uümd1994)
Regina Maria do Rego Monteiro de
Areu é psquisadora d Cordenação de
Folclore e Cultura Popular do IBAC/FU­
NAe doutoranda do PPGA-UFRJ.