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O Papel da Religião Sérgio Biagi Gregório SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito de Religião: 2.1. Histórico; 2.2. Etimologia. 3. Concepções Redutivas da Religião. 4.

Os Fundamentos da Religião: 4.1. Salvação; 4.2. Revelação; 4.3. Fé. 5. Sentimento Religioso: 5.1. Religião e Religiões; 5.2. Religião como Sistema; 5.3. Meios e Fins; 5.4. Ter Religião e Ser Religioso. 6. Espiritismo. 7. Conclusão. 8. Bibliografia Consultada 1. INTRODUÇÃO O papel da religião é o de explicar os conteúdos existenciais do ser humano: de onde viemos, o que estamos fazendo aqui e para aonde vamos depois da morte. Quando indagamos sobre o papel da religião, associamo-lhe a idéia do sentimento religioso, um dos mais complexos sentimentos que fundamentam a essência do ser humano. É um sentimento natural, como se vê claramente na Lei de Adoração. É sempre uma reverência ao Criador, ao Ser Supremo, ao Ser Sobrenatural, ao Desconhecido etc. Ele, em si, independe da razão, da inteligência, da cultura, do estudo. É natural, e por isso mesmo adquire diversas formas. 2. CONCEITO DE RELIGIÃO 2.1. HISTÓRICO O Totemismo, a mais primitiva das religiões, com a idéia de totem, maná e tabu, subordina um grupo de homens chamado clã aos seres considerados sagrados. O totem refere-se a tudo o que os membros de um clã julgam sagrados. Podem ser animais, árvores, pessoas etc. O termo mana designa uma força, material e espiritual, comum aos seres e coisas sagrados. O tabu — proibições — visa, essencialmente, a separar o sagrado do profano. (Challaye, 1981, cap. I) O animismo é a religião que coloca em toda a natureza espíritos mais ou menos análogos ao espírito do homem. O Animismo foi, a princípio, chamado Fetichismo, coisa encantada, dotada de força mágica (Challaye, 1981, cap. II). A Religião do Egito mostra-nos numerosas sobrevivências do Totemismo; um Animismo manifestado especialmente pela importância atribuída à vida futura dos mortos; um Politeísmo que alguns tentaram orientar para o Monoteísmo (Challaye, 1981, p. 44). Diz Emmanuel “Que o destino e a comunicação dos mortos e a pluralidade das existências e dos mundos eram para eles problemas solucionados e conhecidos” (Xavier, 1972, p. 45) As Religiões da Índia apresentamnos uma mistura de abundantes sobrevivências totêmicas e animistas e de um Politeísmo que se orienta ora para o Monoteísmo, ora para um piedoso Ateísmo (Challaye, 1981, p. 59). O Judaísmo é a religião dos israelitas ou hebreus ou judeus. O documento essencial sobre o Judaísmo é o livro sagrado de Israel, o Antigo Testamento. A palavra testamento foi introduzida pela Igreja Cristã; é má tradução do vocábulo aliança, pois trata-se da aliança entre Deus e a humanidade. O Decálogo que a tradição atribui a Moisés, é uma bela página de literatura religiosa (Challaye, 1981, p. 140-152). O Cristianismo é a religião dos Cristãos. É uma religião monoteísta que coloca em primeiro plano a comunhão com Deus, o Pai, por intermédio de seu filho Jesus Cristo, Salvador da humanidade (Challaye, 1981, p. 202). O Islamismo é termo erudito que designa a religião do Islão (assim chamdo pelos muçulmanos, seus adeptos), fundada pelo profeta Maomé e baseada no Corão (livro que lhe foi revelado por Deus) (Enciclopédia Luso-Brasileira).

A Religião ao entrar em conflito com a razão. a religião está ligada ao sagrado: objeto. REVELAÇÃO Os fundadores de religiões tinham revelações e visões nas quais o próprio Deus os chamava a atuar. que o reteve sem soltar. iluminar. Para Cícero. SALVAÇÃO Muita gente acredita que salvar-se será livrar-se de todos os riscos. Um termo de partida e um de chegada. d) CONCEPÇÃO ANTROPOLÓGICA: para D. cegou-o um resplendor celestial. deuses sobre-humanos. Para Lactâncio. escritor cristão (m. oposto de neglere. explicar e exprimir não o que as coisas têm de extraordinário. Durkheim as concepções religiosas têm por objeto. O significado não é claro. a religião é a crença em forças. e salvar-se é educar-se alguém para educar os outros. f) CONCEPÇÃO IRRACIONALISTA: de acordo com vários filósofos. mas ordinário. Salvar-se é. descuidar.C. torna-se dogmática para poder subsistir. ao buscar a salvação através do conhecimento (gnose). não será subir ao Céu com as alparcas do favoritismo religioso. ritual. lugar. nem o do esperar. levantar. em que princípio e fim são os mesmos. Salvar-se. ETIMOLOGIA A palavra religião é de origem latina (religio). a religião é um campo autônomo: não é o do conhecer.2. g) CONCEPÇÃO PSICOLÓGICA: segundo Freud a religião é uma neurose obsessiva.2.Historicamente. C. Augusto Comte ao propor uma religião da humanidade abre uma nova perspectiva religiosa à consideraçào do homem moderno. para que o mal se extinga no mundo. limitando o âmbito do conceito de transcendência às coordenadas intramundanas. os sarcasmos. (Enciclopédia Luso-Brasileira) 3. “prender”).1. filha rebelde da teologia. 4. Hume a experiência do terror é a origem da religião. Maomé encontrou-se com o arcanjo Gabriel. Deus revelou-se a Moisés numa sarça que ardia. transforma-se numa religião.). CONCEPÇÕES REDUTIVAS DA RELIGIÃO a) CONCEPÇÃO MÍTICO-MÁGICA: a Religião é uma ilusão ou uma superstição. b) CONCEPÇÃO GNÓSTICA: a filosofia. mas a contemplação extática do infinito. Observe os primeiros cristãos: quanto não foi o sofrimento pelas suas mortes nas arenas romanas? Não são poucos os apodos. mesmo penoso. 330 d. mas sim converter-se ao trabalho incessante do bem. Já Lactâncio. e) CONCEPÇÃO SOCIOLÓGICA: segundo E. as zombarias daqueles que empreendem a grande batalha de se unir ao Cristo. poderes. ajudar e enobrecer. É a responsabilidade de se conduzir e melhorar-se. desejo de salvação. Quando Paulo foi chamado por Jesus. antes de mais. a religião é um procedimento consciencioso . na conquista da suprema tranqüilidade. em relação aos deuses reconhecidos pelo Estado. (Enciclopédia Luso-Brasileira) 4. OS FUNDAMENTOS DA RELIGIÃO 4. . diz que vem de religare (“ligar”. As duas raízes complementam-se. no caminho de Damasco. tempo. até que ele lhe prometeu seguir o seu mandato de reconhecer a vontade de Alá. nem o do fazer. pois. portanto. palavra etc.) no De Natura Deorum afirma que a palavra vem da raiz relegere (“considerar cuidadosamente”). a religião liga os homens a Deus pela piedade. 2. c) CONCEPÇÃO MORAL: o objeto da Religião é o mesmo da moral natural. Cícero (106-43 a. Fenomenologicamente. impotência perante esses poderes.

testa-as e tira as suas conclusões. todas as soluções possíveis para o problema. é impossível saber (empiricamente) se Jesus Cristo pertence à mesma categoria de Deus Pai ou se lhe é inferior e. por sua natureza. muitas vezes. apenas transferimos os valores que eram próprios do Totemismo. se não for nenhum desses o seu caso. Quer dizer. Muitas delas. p. as quais. Faz-se preciso. Traça-nos as diretrizes para o robustecimento de nossa fé. Desde a mais alta Antigüidade a apresentação externa do símbolo vem se modificando. Para a maioria das religiões o que importa não é o que acreditamos mas como acreditamos. ou seja.1. aplicando o método experimental. 19 e 20). dependentes de um fundador. p. faz hipóteses. na realidade. sendo a sua elaboração fruto do trabalho do homem. dignas de todo o acatamento pelo sopro de inspiração superior que as faz surgir. os Espíritas devem provocar a manifestação de Espíritos dessa categoria e observar (Kardec. a verdade um dia brilhará para todos. Tenta distinguir a fé cega da fé raciocinada bem como a fé humana da fé divina. na época atual. e do Animismo para a época moderna: instituímos tabus. ligado à tradição. adoramos os santos e seguimos cegamente as determinações de um líder religioso. Embora contrários em muitos pontos de vista. e ambos ressaltam a autonomia da religião em relação à sociedade. A Gênese. porém. misturadas com os elementos da terra em que caíram. o seu caráter sistêmico. Esse sistema organizado de símbolos. Nesse sentido. o conteúdo intrínseco continua o mesmo. Acontece que ter a convicção ou “fé” em certas verdades não nos isenta de estarmos em erro. baseada na razão. no capítulo XIX de O Evangelho Segundo o Espiritismo. estabelecer a diferença entre religião e religiões. As religiões são organizações dos homens. esclarece-nos sobre os fundamentos da fé. qual é a relação hierárquica exata entre os dois. mas. 5. “A religião é o sentimento divino que prende o homem ao Criador. No uso popular dizemos isso quando uma pessoa acredita ou faz algo “religiosamente”. mas. 18 a 20) . 4. se forem conhecidos os dados do sistema (neste caso. 1994. falíveis e imperfeitas como eles próprios. Por isso Allan Kardec. Como traduzir para a prática a noção vaga de que a religião é um sistema? “No caso dos dogmas cristãos.A Revelação Espírita. RELIGIÃO COMO SISTEMA Alguns autores. (Eliade. o que há de comum principalmente entre Mircea Eliade e Claude Lévi-Strauss é que ambos valorizam as “regras” segundo as quais a religião é construída e. contribui para que os indivíduos concretos adotem atitude religiosa pessoal. p. não são em absoluto “históricas” (embora tenham sido enunciadas por personalidades distintas em épocas distintas). que há uma Trindade divina composta por três “pessoas” ou. 37) 5. sua origem é divina e da iniciativa dos Espíritos. o Espiritismo procede da mesma forma que as ciências positivas. do Fetichismo. Mircea Eliade e Claude Lévi-Strauss. ou seja. portanto.2. enfatizaram todos a idéia de que a religião corresponde a certas estruturas profundas. sem necessitar da cooperação de nenhum homem”. FÉ A religião identifica-se com a fé. são como gotas de orvalho celeste. Por exemplo: à hipótese de que os Espíritos que não se consideram mortos. pois estão sincronicamente presentes no sistema”.3.(Xavier. como Émile Durkheim. estão desviadas do bom caminho pelo interesse criminoso e pela ambição lamentável dos seus expositores. participa ao mesmo tempo da revelação divina e da revelação científica. Mas é perfeitamente possível predizer. SENTIMENTO RELIGIOSO 5. 1981. as religiões são sistemas de símbolos. pelo menos por três membros que têm nomes individuais). que teve a experiência religiosa original com modalidade própria. RELIGIÃO E RELIGIÕES Do ponto de vista social.

vacilam e dão esta resposta: Sou espiritualista. Muita tinta se gastou para afirmar ou negar que o Espiritismo seja uma religião. Ser religioso é encaminhar o pensamento para os aspectos cósmicos da vida. afirmando serem espiritualistas. ou nos degraus de um altar. 6. Quer dizer. De acordo com Allan Kardec.5.4. eximem-se de quaisquer responsabilidades. a simplicidade e o amor ao próximo. fazendo o que os conhecedores da lei e da religião deveriam fazer e não o faziam. ter uma religião é pertencer a uma Igreja e obedecer aos dogmas por ela impostos. 5. impedindo-as de se salvarem em outra qualquer. Reformará a legislação. Extinguirá para sempre o ateísmo e o materialismo. p. considerado herege. pois. 299) 7. Obras Póstumas. a religião natural. não temos iniciativa própria. Contudo. TER RELIGIÃO E SER RELIGIOSO O filósofo Dewey faz uma distinção entre ter uma religião e ser religioso. É a isto que se chama "covardia moral". Da diferença entre Espiritismo e Espiritualismo Primeira Parte Capítulo 1 É muito comum afirmar-se que ser espiritualista é a mesma coisa que ser espírita ou espiritista. O Espiritismo é chamado a desempenhar imenso papel na terra. para a humildade. sem se deter nas franjas de uma sotaina. pronunciada por Jesus. confundimos os meios com os fins. restaurará a religião do Cristo. acostumados a sermos mandados por outrem. MEIOS E FINS O fim da religião é a salvação da alma. Aqueles que assim pensam dão prova de que desconhecem os fundamentos da Doutrina Espírita. ou seja. Nela. ao serem interrogados sobre a religião a que pertencem. Mas. muito tato e muita perspicácia para não criarmos uma falsa adoração em todos aqueles que nos ouvem e que por nós tem certa simpatia. embora sejam espíritas militantes. instituirá a verdadeira religião. preferimos prender muitas pessoas a nós ou à nossa Igreja. Eis uma advertência que deve ser constantemente lembrada. retificará os erros da História.3. CONCLUSÃO Se Doutrina Espírita é de libertação. Acham que. A Parábola do Bom Samaritano. Para ele. De duas uma: ou respondem assim porque desconhecem a diferença que há entre a Doutrina Espírita e as doutrinas espiritualistas. Jesus retrata o Samaritano. no tocante à religião. (Kardec. ou porque temem confessar a qualidade de espírita convicto. . por que ainda nos aprisionamos em algumas atitudes dogmáticas? Os Espíritos amigos sempre nos advertem que cada um terá de fazer a caminhada evolutiva por si mesmo. é um bom exemplo. Há outros que. diante da sociedade a que pertencem. ESPIRITISMO É o Espiritismo uma religião? Prende-se ao sentimento religioso? É uma manifestação fortuita? Tornar-se-á uma crença comum? Será uma Religião Universal? Eis algumas perguntas valiosas em nossa reflexão sobre a religião. É preciso. a que parte do coração e vai direto a Deus.

é necessário fazer-se distinção das demais correntes espiritualistas. porque adota nos seus trabalhos imagens dos chamados "santos" (a palavra litólatra vem de litolatria. provém do verbo grego latrein "adorar"). a superior de uma espécie de centro espiritual da .SBEE PROTO-ESPIRITISMO A FASE PRÉ-HISTÓRICA Horizonte tribal e mediunismo primitivo Rui Simon Paz • A mediunidade é uma condição natural da espécie humana e os fatos espíritas. • • • O horizonte tribal caracteriza-se pelo mediunismo primitivo. que é a adoração das pedras). que corresponde ao ECTOPLASMA. Kardec). Para exemplo. entre elas a do casamento e a do batizado. tomemos a Umbanda. por excelência. das faltas cometidas em existências anteriores. porque admite a existência de Deus e de entidades espirituais que sobrevivem após a desencarnação. por outro lado. porque faz uso de ervas para defumações. manifesta-se em todas as culturas chamadas primitivas. mas nem todos os espiritualistas são espíritas". Mas o Espiritismo não tem ritos de espécie alguma. é litólatra. o segundo elemento. ou manifestações mediúnicas. Mas. a média provinha da mente humana. chamada MANA ou ORENDA. que é a Umbanda.É preciso que se saiba que "todo espírita é necessariamente espiritualista. e. face aos seus dogmas e ritos. Será a Umbanda doutrina espiritualista? Sim. Por essas características. A Umbanda não pode ser considerada Doutrina Espírita porque admite cerimônias litúrgicas. admitindo. latra. A Doutrina dos Espíritos é uma interpretação racional das manifestações mediúnicas (A. por estas observações ficou demonstrada a diferença existente entre a Doutrina Espírita e uma das doutrinas espiritualistas. podendo atuar sobre criaturas humanas. são de todos os tempos. bastante afinidade com o Catolicismo. porquanto estabelece a comunicação entre os vivos e os chamados mortos. também considerado espiritualista. que impregna os objetos. além de outros ritos (a palavra fitólatra vem do grego phyton "planta". SOCIEDADE BRASILEIRA DE ESTUDOS ESPÍRITAS . A crença na sobrevivência da alma é universal. será ela Doutrina Espírita ou Espiritismo? Não. é doutrina espiritualista. admite sua evolução através das vidas sucessivas e crê no resgate. seita muito divulgada no Brasil. Como se vê. e é também fitólatra. doutrina esta que tem. são as práticas empíricas da mediunidade. pela dor. Os povos primitivos afirmavam a existência de uma FORÇA. a sobrevivência do Espírito após a morte do corpo físico. Embora seja a Doutrina Espírita uma doutrina espiritualista. Os curandeiros polinésios consideravam três formas de existência dessa força: a mais baixa era transmitida pelos corpos materiais. conseqüentemente. não há dúvida alguma tratar-se a Umbanda de uma doutrina essencialmente espiritualista.

• • Outra ocorrência universal é a existência dos próprios espíritos e de sua manifestação entre os humanos encarnados. Os sonhos premonitórios. Herbert Spencer. permitia ao homem prever o futuro. e não de cogitações filosóficas que podem ser encaradas como “crendices”. . ou adoração de plantas.é um sentimento inato no homem. • • • Da selva à chamada civilização. quando ainda interpreta as coisas em termos exclusivamente humanos. levam o ser primitivo a deduzir a existência de algo além da matéria tangível. no terceiro. As primeiras fases são do ANTROPOMORFISMO. Por exemplo. ou adoração de pedras. enxergou que a crença na sobrevivência decorre de experiências concretas do homem chamado primitivo. a adoração . no segundo. as evidências antropológicas e históricas afirmam a crença universal na sobrevivência do homem após a morte e na possibilidade de comunicação entre encarnados e desencarnados. inerentes ao seres humanos. flores. e. somente.diferente de cultura para cultura .mente humana. Todo ser humano têm sinalizado em si a idéia de Deus. Num primeiro momento temos a LITOLATRIA. depois num grau mais elevado temos a MITOLOGIA. No entanto. materializar e desmaterializar coisas. a FITOLATRIA. por exemplo. demonstram por si sós a transcendência de determinados fenômenos. a ZOOLATRIA. árvores. bosques. que se refere a animais. com sua forma clássica de POLITEÍSMO. apesar do enfoque materialista próprio do Século XIX.

instrumentos são fabricados. Finalmente. Para afastar os maus colocavam mourões nas entradas das aldeias. Os índios Bororos denominam a alma de AROE. influenciou a doutrina cristã da trindade divina (Osíris. A RELIGIÃO DOS ÍNDIOS BRASILEIROS • De um modo geral. é ceifado. vive. Esse processo dá a idéia de renovação permanente da natureza. por fim. que são xamãs desencarnados. e outros constituem. Os Tupinambás sentiam-se rodeados por uma multidão de espíritos. em essência. Alguns eram considerados benévolos. etc. Chamam a alma de KARÕ. todos os seres. Acreditam que depois de algum tempo migram (transmigram) para corpos de animais. deuses-locais. depois da morte. Apenas era encarado em cada horizonte cultural da maneira que os homens percebiam a experiência humana associada ao mediunismo. filho da Terra e do Céu.C. O mesmo ocorre com o trigo.500 a. • • • • • • • • • . de que tudo nasce. então. A racionalização aprofunda a crença nos espíritos. Os Faraós eram portadores de dupla natureza. A teogamia egípcia. viceja. a religião antropomórfica. retalhado ou moído e.. algo que está por trás desse movimento cíclico. Osíris. por exemplo. pois os padres prometiam afastar os maus espíritos com a cruz de madeira na entrada das aldeias. A morte vem quando a alma se afasta definitivamente do corpo. funde-se experiência e imaginação. plantas são cultivadas. tendo seu auge em 1. Animais são domesticados. a humana e a divina. a alma vai para outra morada.. esplende e. O Universo é encarado de duas formas: a Terra-Mãe e o Céu-Pai. Este sistema vigorou até o IV século a. É interessante notar a alegoria de Osíris. depois. denominados xamãs. através de forças divinas. ir aos lugares onde sonha. Ela pode separar-se do corpo. que cresce. Existe uma categoria de médicos feiticeiros. vegetais ou minerais. a mitologia popular impregnada de magia. por exemplo.HORIZONTE AGRÍCOLA: ANIMISMO E CULTO DOS ANCESTRAIS • As formas sedentárias de vida social impõem uma racionalização ao animismo tribal. através do culto aos ancestrais. Cada ente compreende uma parte material e outra espiritual. possuem alma.C. outros não. Nascem assim os deuses-lares. em todas as tribos indígenas há a crença de que todo homem possui uma alma. sejam animais. Daí a idéia de ressurreição. vagar quando o homem dorme. Isis e Hórus). que entram em estado de êxtase e se retiram do corpo ou “encarnam” espíritos. porque eram filhos da rainha e do deus solar. Para os índios Krahó (Timbira). nasce do poder comparativo da razão. Acreditam que. Talvez por isso tenha sido fácil a adesão dos Tupinambás ao Cristianismo. com a rainha Hatsepshut. o mesmo Deus que conhecemos hoje como INTELIGÊNCIA SUPREMA. etc. A idéia de DEUS é de PRIMEIRA-MÃO. e temos o mediunismo. Embora a noção de alma difira de uma tribo para a outra. Esta é a fase da personalização da natureza. morre e torna a renascer. que perambulam por toda parte. enterrado. bem como da noção cristã de alma. personalizando-os e envolvendo os aspectos e os elementos da natureza. O deus Jeová. (perma) O mito agrário é essencialmente analógico. denominada de FETICHISMO. Os xamãs entram em contato com espíritos chamados MAEREBOE. cria-se riqueza.

através do Profeta. • • • • • • . o misticismo hindu e o moralismo chinês. Assim. ele começa a romper os liames da organização social que o aprisionara no agrícola. O importante é que. a individualização do homem. por sua vez. Abrão. um lugar sagrado. nem esquecer seus instrumentos onde dormisse. Atenas ainda mantém o Estado Teológico. o homem se libertou da condição animal. produziu a individualização espiritual. Caracteriza-se por três funções especiais: a formulação de conceitos abstratos. o animismo e o culto aos ancestrais se refundem e forjam o MEDIUNISMO ORACULAR. HORIZONTE CIVILIZADO: MEDIUNISMO ORACULAR • O horizonte civilizado começa com a separação entre política e religião. No horizonte civilizado. 2. no mediunismo oracular. Os deuses representam forças da natureza. O mediunismo primitivo. o) aceitação popular do monoteísmo.• Para os Tupinambás a alma permanecia após a morte. a capacidade de abstração e formulação de juízos éticos e religiosos. durante a viagem para a terra dos seus ancestrais. em Atenas. a religião reflete o sistema político e social: é politeísta como um senado republicano. Se na organização tribal. para descobrir-se a si mesmo. pela primeira vez na história. tornarse indivíduo. através dos atributos éticos do Profeta. se acentuará com o advento da democracia. Daí começa a surgir o INDIVÍDUO. No horizonte civilizado. transformar-se em um ser moral que supera o ser social. e. mas mais personalizados e dramáticos. as cavernas. A culminância desse horizonte se deve: 1. etc. acontece a transição para o culto individual dos espíritos. particularmente com os Persas. Os oráculos podiam ser as matas. o profetismo hebraico. permitiram a INDIVIDUALIZAÇÃO DO PROFETA. e de princípios jurídicos. por exemplo. o) acentuação dos atributos éticos de Deus. na figura da pitonisa. onde encontraria seus antepassados. A humanidade deixa de ser uma espécie para tornar-se um devir. vemos aflorarem a filosofia grega. pois submete a religião ao Estado. Esparta e Atenas herdam essa tradição persa. Deslocava-se apara além das montanhas. na agrícola aprendeu a dominar a natureza e submete-la. HORIZONTE PROFÉTICO: MEDIUNISMO BÍBLICO • A organização social. 3o) estabelecimento de ligações diretas do Deus individual com o indivíduo humano. A separação. de juízos éticos e morais. como sua mais bela afirmação. Há sempre a intermediação de alguém no oráculo (o médium). Durante os funerais eram feitas recomendações ao morto para que tomasse cuidado para não atravessar terreno inimigo. A individualização social produziu a individualização mediúnica e esta. Um novo espírito marcará esse horizonte: o espírito de civilização. Nesse período temos Moisés. Esparta muito mais. A organização social permite ao homem superar a natureza.