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VULNERABILIDADE: CARACTERÍSTICA DO EXCLUÍDO

* Prof. Dewet Virmond Taques Junior
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“A vulnerabilidade intrínseca da existência humana é até certo ponto protegida pela sociedade”, inicia assim, KOTTOW, Michael H., em seu artigo “COMENTÁRIOS SOBRE BIOÉTICA, VULNERABILIDADE E PROTEÇÃO”.

Assim, "o desenvolvimento da técnica não provoca somente processos de emancipação, provoca processos novos de manipulação do homem pelo homem, ou dos indivíduos humanos pelas entidades sociais" (id.). Somos testemunhas de que se tem vivido permanentemente como fruto de uma sociedade onde embora reconhecido o direito de todos ao sistema de saúde, educação, habitação, lazer e formação cultural,

experimenta-se todo um processo de indignação pela desigualdade opressora e discriminatória, que diuturnamente nos leva a convivência com problemas de exclusão social e econômica, acintosamente convivemos com a dificuldade de acesso à educação e a moradia, culminando no funesto processo de desumanização do cidadão. O ser humano reconhecendo sua limitação e, em contra partida, assumindo a incerta tarefa de desenvolver sua própria humanização contando apenas com a força cultural, filosoficamente vem considerando a

vulnerabilidade como uma dimensão antropológica essencial da existência humana. Claro está que a ética, e neste contexto mais explícito a bioética, tem consumido tempo e imposto reflexões, por meio dos mais variados

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Prof, Mestre em Gestão de Instituições de Ensino Superior Prof. Aposentado da Universidade Federal do Paraná Especialista e Prof. de Bioética Membro do Núcleo Arquidiocesano de Bioética

organismos, com a finalidade única em promover, sustentar e iluminar, àqueles que, sem o conhecimento ou amparo legal, encontram-se “entregues” a sua sorte, submetidos aos infortúnios oriundos secundariamente desta situação. Passam a fazer parte dos excluídos, vulneráveis à manipulação. Sempre a vulnerabilidade primária, pode-se assim denominar daquela que surge frente às necessidades mais básicas e vitais do ser humano, acarreta sem dúvidas outras áreas vulneráveis, as quais se pode denominar de vulnerabilidade secundária. Na ótica da vulnerabilidade secundária podem-se enumerar todas as demais áreas que privam o cidadão de sua dignidade tais como a opressão econômica, privação do processo educativo, exclusão à saúde, indiferença ao bem comum, entre tantas. “A bioética tem particular preocupação com esta vulnerabilidade secundária e circunstancial” (id.). Como fulcro desse processo a ciência ocidental desenvolveu-se como ciência experimental e, para compor seus procedimentos experienciais, teve de desenvolver poderes de manipulação “precisos e seguros” (id). Deve-se ter cuidado nesta afirmação! No seu universo fechado e elitista o científico está convencido de que “manipula” em caráter de experimento para a verdade, e o faz não só com objetos, energias e seres, desde unicelulares, mas também até com seres ocupantes de um grau maior na escala zoológica. Assim é que ratos cães, macacos, entre tantos outros “não conscientes”, estão sendo utilizados na perspectiva de que qualquer opressão, agressão e tortura, estão sendo realizadas simplesmente pelo ideal absoluto, suprindo o bem comum em busca de elaboração do puro conhecimento. Na realidade todo experimento neste sentido vem alimentar também o circuito sócio-histórico no qual a experimentação serve à manipulação. Justifica-se assim, toda ação agressiva, promove-se a manipulação alegando-a necessária e imprescindível para sustentar, muitas vezes, simples conceitos ideológicos desprovidos de sustentação científica. Neste contexto, tem-se reduzido e negado todas as afirmações que regem a visão principialista da Bioética.

Na fala de MORIN (2005, p. 24), vivemos uma era planetária, aberta aos tempos modernos, motivo pelo qual suscita a partir de um humanismo laico, uma ideia meta-comunitária que busque como objetivo o bem comum em favor de todo ser humano seja qual for sua identidade étnica, nacional, religiosa ou política (id.). Qualquer processo desumanizador que esteja sendo utilizado, talvez possa inicialmente ter sido procedido por pura ignorância dos fatos, mas na contemporaneidade parece ser movido pela ânsia do poder, prazer, parecer ou possuir (os quatro Ps1 da indignidade e desumanização). Identifica-se, neste prisma, uma “era do vazio”, conforme afirmação de RUSS, (op. cit. 1999), em sua obra ao comentar que: “Quando se abre 'a era do vazio', quando as transcendências faltam, a ética contemporânea surge, através de sua dupla face: como conjunto de regras

deontológicas, mas também como METAMORAL; como teoria fundadora situando-se além dos enunciados morais particulares como ética aplicada, mas também como reflexão teórica" (op. cit. 18). “Na era dos homens ”vazios”, voltados às escolhas privadas, e narcisistas, é possível redescobrir uma macroética, válida para a humanidade no seu conjunto?” (op.cit. p.15). Como seres que carecem de um esforço e necessitam da elaboração de uma verdadeira tarefa com a finalidade de desenvolver e conhecer o seu próprio ser, o humano tem-se colocado, sem sombra de dúvidas, sob a força de um sistema autoritário e absolutista, altamente manipulador. Talvez “uma das mais notáveis debilidades da civilização atual esteja numa inadequada visão do homem”, (cf. Documento de Puebla, 1979). Por força da própria aventura em busca de uma antropologia humanizante2 o ser humano tem feito do tempo no qual vivemos uma época em que mais se tem escrito e falado sobre a pessoa humana, uma época firmada por um humanismo e antropocentrismo, entretanto paradoxalmente, é

também a época das profundas angústias do ser humano com respeito a sua identidade e destino, perdendo-se a noção de sua herança e sua origem. A própria expectativa da aquisição e posse de um bem imediato e duradouro, acarretando uma suposta melhoria na qualidade de vida, que tem sido emergido das teorias e experimentos por meio da biotecnociência parece ter alicerçado um humanismo científico, especificamente biológico, um humanismo ateu, reducionista e simplista. Mais parece uma busca da pedra filosofal ou da fonte da juventude eterna, enredo das estórias folclóricas e de ficção! Puro engodo? Falso redentor? Promessas infundadas? Tem-se envolvido em muitas perguntas às quais não nos têm dado respostas convincentes. Hoje o ser humano está rotulado e sintetizado casuisticamente como sujeito de pesquisa, sob a égide de “conhecimentos científicos”, muito mais como objeto manipulável para uma busca de projeção egoísta dentro da comunidade científica, simplesmente com o intuito de se deter o poder e angariar títulos, oferecendo ao mundo hipóteses com propostas terapêuticas milagrosas como realidade facciosa, simplesmente para enquadrá-lo nas relações e anexos dos trabalhos científicos resultantes, do que um ser humano com anseios, esperanças e necessidade que se encontra em busca de sua verdadeira identidade, de sua missão e de sua herança. O paradoxo criado entre a busca da verdade antropológica e a falsa afirmação de um pseudo-conhecimento, é o “drama do homem amputado de uma dimensão essencial de seu ser – o absoluto – colocado deste modo diante da pior redução do próprio ser”. (id.) Como resultado de todo um trabalho manipulador, tem-se colocado o ser humano como objeto, frente a tantos humanismos, aprisionando a pessoa humana sob uma visão fechada, estreita e reducionista, numa ótica biológica, psíquica ou sociológica, olvidando-se a dimensão pneumatológica (espiritual). Faz-se necessária uma ética-pneumatológica3, abrindo a possibilidade de se

fundar uma ética mais envolvente, integrante e mais comprometedora, tanto para o sujeito como para o objeto da ética – o ser humano! A verdade que se deve à pessoa humana, que é, “antes de tudo, uma verdade sobre ele mesmo” (cf. id.), deve se apresentar como um imperativo ético a ser buscado a todo custo, pois esta verdade traduz a própria origem e renascimento do ser humano. Pode-se correr o risco de se enveredar, como caráter absoluto, para uma macroética, visando uma ética mundial no sentido desta visão cósmica, entretanto não se pode jamais olvidar ou mesmo abrir mão da

responsabilidade de uma postura fundada na ternura, cuja finalidade visaria o domínio destas formas culturais e contemporâneas, consolidando a

necessidade de moldar-se em uma ética-de-responsabilidade, uma éticapessoal. Claro está que ao se lançar os olhares para “classes dominantes” habitantes dos países considerados do primeiro mundo, pode-se identificar as injustiças e forças maniqueístas manipuladoras arrastando multidões a uma vida indigna e desumana. Tem sido justamente nestes países superiores a centralização da maioria das ousadas posturas experienciais no âmago da biotecnociência e nos considerados “mundos inferiores” 4, normalmente, o campo-teste para os procedimentos dos citados prováveis postulados “científicos” 5. Fere-se mortalmente todo princípio de justiça, e o pior, o principio da solidariedade. Pode-se afirmar claramente pontuando a força manipuladora nestes territórios, e frente à vulnerabilidade dos povos menos favorecidos, o meio de cultura para a ação da manipulação. Os seres humanos vivendo uma existência sub-humana incluem-se na grande massa dos excluídos e assim, disponíveis, por essa vulnerabilidade, como elemento de manipulação. “No campo da saúde as sociedades do chamado primeiro mundo gastam quantias fabulosas de dinheiro, enquanto que o terceiro mundo lamenta que milhões de pessoas vivam em extrema pobreza e

milhões de crianças morram nos primeiros meses de vida”. (CORDEIRO, op. cit. p. 15). Como dissemos estas injustiças cometidas ao ser humano bem como as opressões e a criação de ares de vulnerabilidade estão claras, bem como continua afirmando Cordeiro, que “à maioria das pessoas é vedado o acesso às necessidades consideradas básicas, como uma alimentação adequada, água potável, sistemas seguros de saneamento, morada digna, uma atenção à saúde confiável e uma educação mínima”. (id.). Entendemos como afirma KOTTOW no texto citado, que “ser vulnerável significa estar suscetível a, ou em perigo de sofrer danos”. A própria natureza humana, ontologicamente, mostra-se frágil na dinâmica de seu desenvolvimento, desde o aspecto biológico como o sociológico e o psicológico. Susceptível e “disponível” à ação corrosiva do sistema, no tempo e no espaço. Podemos, perfeitamente, enquadrar todas estas formas geradoras de vulnerabilidade humana sob dois aspectos, dependendo do momento ou da área em que foram acometidas. Para base de reflexão pode-se conceber a vulnerabilidade existencial do humano como primária, enquanto deficiências circunstanciais as quais, como uma somatória de acontecimentos, gerando vulnerabilidades, concebidas como vulnerabilidades secundárias. (cf. op. cit.). É premissa que o ser vulnerável sofre com as suas necessidades, consideradas como básicas ou indispensáveis, tornando-o mais vulnerável do que já é. Como bem afirma o autor do artigo em questão, quando diz que “todos estão sujeitos à forma primária de vulnerabilidade” (id), entretanto estes sub-humanos, infelizes, estarão predispostos à segunda forma de vulnerabilidade, quando estarão “prontos” a uma vulnerabilidade mais ampla e profunda marcando de forma indelével a historia da humanidade, desfocando seus princípios, destruindo suas virtudes e desconsiderando sua dignidade. O ser humano partícipe deste processo será o agente formador da estrutura

social pela atuação política/cultural e que, por conseguinte, durante o próprio processo vulnerável que é, tornar-se-á um excluído da mesma. Não será difícil constatar que toda consequência marcada pela própria situação cultural, social e hereditária irá acarretar transtornos, agindo como fator sinérgico gerando naquele que se mostra frágil, uma condição ainda mais favorável de vulnerabilidade. A vulnerabilidade secundária sempre será adquirida e o que é pior, imposta! O processo de humanização será abalado, interrompido, estagnado ou desfocado frente à impotência ou ausência de uma consciência crítica, causada pela predisposição que a vulnerabilidade secundária causa. Talvez motivado por essa realidade é que a bioética tem vindo com força e intensidade, como baluarte de um processo, cuja finalidade será a de ofertar soluções corretivas para suprir as circunstâncias infelizes e sanar o funesto desfecho que a vulnerabilidade secundária tem acarretado no ser humano. Segundo o questionamento da professora Macklin, apud Ksttow, motivo deste trabalho, afirma “o que torna indivíduos, grupos e mesmo países inteiros vulneráveis?” A resposta encontra-se justamente no fato de que as pessoas privadas de sua liberdade e a não assistência dos bens diferenciados como básicos para a dignidade humana, sofrerá a ação discriminatória do “poder” que o sistema impinge, gerando e sofrendo os danos aos quais estará vulnerável e sujeita. Todo processo manipulador e toda ação manipuladora encontrarão no fragilizado pela situação social a violência do sistema negando-lhe suprir as necessidades básicas da dignidade humana, e no sujeito da vulnerabilidade secundária, um elemento favorável e susceptível à manipulação, pois nesta situação frágil o tornará um sub-humano, produto da exclusão. E o mais preocupante, segundo KOTTOW, é que estas pessoas não são atingidas pelos programas normais assistenciais necessitando, quanto possível, de uma proteção mais elaborada e específica. Urge de programas

terapêuticos intensivos e preventivos, auxiliando para que a vulnerabilidade seja combatida eficientemente. São os excluídos que necessitam da reinclusão, são os distantes que necessitam voltar. São os “perdidos” que anseiam para serem “encontrados”, são os “mortos” que buscam “voltar à convivência dos seus”, são os “próximos” a serem encontrados 6. Talvez seja esta a disposição, meta e o objetivo mais direto e essencial da bioética, quando busca justamente os destituídos, excluídos, distantes, quando se coloca ao lado, como intercessora dos destinatários a sofrer danos ou as vítimas de ações malévolas do sistema como fruto da anarquia a qual estamos sujeitos. A MANIPULAÇÃO A manipulação está se tornando um dos maiores problemas da nossa era. Numerosos são os estudiosos eminentes que lhe dedicaram atenção. A necessidade de compreender todos os seus aspectos e ramificações suscita interesse sempre crescente. Com o progresso da biologia e das ciências do comportamento, encontra-se na sociobiologia, etologia humana e tantas outras, disposição para a compreensão desta realidade bem como, colocando-se a elaborar conhecimentos e criando novos paradigmas e terapias reparadoras, como restauradoras da dignidade e liberdade humana. Paradoxalmente, como a historicidade nos tem mostrado não se pode fugir da possibilidade criativa da manipulação inteiramente nova por força do egoísmo desenfreado, acarretando outras exclusões, desilusões e decepções. Talvez seja esta a proposta da ação interventora da bioética. Estagnar esse egoísmo, instrumento maquiavélico deste processo, resgatar e enaltecer o ser humano em suas diversas atividades, restaurar sua dignidade e liberdade, instaurar o bem comum.

A manipulação no campo biológico, clínico e psicológico tem-se tornado um remodelador da natureza humana, desvendando novos caminhos para se libertar de condições desfavoráveis de vida . (cf. HAERING, Bernard, 1975, p. 7) Entretanto perguntas ficam no ar:- essas mudanças realizar-se-ão no respeito da dignidade humana? - O processo comportamental científicos estará voltado para o bem comum? - O princípio da justiça será imperativo ético? Não poucos têm afirmado que no poder manipulador repousa uma ameaça grave para a imagem do homem centrada na autonomia existencial. Não podemos evitar a questão dos valores éticos que estão em jogo. Todo ser manipulado perde sua identidade, sua autonomia, despersonaliza-se. Passa a ser um objeto no qual pode-ser “trabalhado”. Manipulação/manipulado vem do latim manus, “mão” e pleo, “encher”, ou mesmo pellere, “impelir”. Significa literalmente, “ter o objeto na mão”, ou “impelir as coisas com as mãos”, (id). Parece que o ponto decisivo são as “mãos” do agente. O manipulável será objeto para manuseio do manipulador, tornar-se-á “objeto/coisa” a ser transformado pela ação dos agentes que realizam a manipulação. Sempre o ser “desumanizado” será fruto da ação manipuladora e dar-se-á à custa da vulnerabilidade do ser. O termo manipulação foi restringido, nos séculos passados, ao campo da tecnologia, especialmente ao trabalho da mineração ou no manuseio de “drogas” farmacêuticas, quando da preparação de medicamentos. “A partir do século passado, o termo foi estendido a outros campos, como a psicologia, a psiquiatria e a medicina. (op. cit. p.9). Segundo HAERING citando Skinner, aponta que o “ponto de partida decisiva é a mão do agente, ou seja, aquilo que o homem tem em

comum com o animal. O ambiente condiciona o homem, mas, no fundo, ele é parcialmente obra do próprio homem”.(op. cit. 8).

Em se tratando de ação humana, diz-se que o manipulador é aquele que obtém resultados, em relação ao manipulado, diferentes da própria natureza humana, ou seja, toda ação manipuladora causa no indivíduo uma desumanização, há ontologicamente uma transformação da “natureza” humana. Daí a idéia do processo manipulador ser visto como um “tratamento, uma elaboração, um manejo e uma transformação” do ser humano, que o homem faz com suas próprias mãos a respeito do outro. Este conceito diz respeito à ação correspondente de manipulare, referindo-se ao manuseio ou arte de combinar elementos diferentes, vegetais ou minerais, para se buscar uma combinação com características diferentes das originais, ou seja, a combinação resultante do manipulare daria um produto extraordinariamente diferente dos elementos combinados. A característica primitiva, de cada elemento manipulado, desaparecia para o aparecimento de outras, totalmente diferente do original. Embora muitas vezes não façamos uma distinção entre ações violentas, pelas quais o ser humano perde sua liberdade de forma descarada, ou as injustiças pelas quais a pessoa se vê impotente para sobreviver às ações opressoras, a manipulação não se enquadra nestas realidades. A manipulação “é uma violação da liberdade, é uma violência e é uma forma de desumanização”, (op. cit. 907). Entretanto, devemos considerar que nem toda desumanização, nem toda violência e nem toda violação da liberdade pode ser considerada como uma manipulação. Segundo VIDAL, “o conceito de manipulação traz consigo uma nota específica que o qualifica enquanto tal: a ausência ou supressão de toda dimensão crítica por parte do manipulado, e a assunção ou aceitação de tal acriticidade por parte do manipulador”. (id.)

Nosso sistema educativo, não raras vezes, passa a ser um verdadeiro mercado de uma variedade ideológica onde, sobretudo a manipulação está presente.
“Nas sociedades e nos estados totalitários, todo o processo educativo é orientado para a construção do cidadão submisso e manipulado. Tudo o que poderia favorecer uma mentalidade crítica é cuidadosamente excluído ou reprimido”, (HAERING, Bernhard, p. 24).

A manipulação descarta todo raciocínio ou consciência crítica do manipulado. O manipulado perde a dimensão de discernimento, de crítica, características do humano! Todos os estímulos ou toda elaboração da ação manipuladora são percebidos pelo manipulado de forma inconsciente. Segundo VIDAL, “por meio de um ajuste feito habilmente permanecem ocultos à consciência”, (op. cit. P. 907). Cria assim, uma “falsa consciência”, pois o sujeito da manipulação crê falsamente que tomou um comportamento racional, ou adotou uma decisão sábia, e inconscientemente torna-se, por esse motivo o manipulado, um “objeto”. Pode-se considerar, portanto, que o manipulado passa a ser o produto da “produção do desumano”, ou uma atitude aética. O ser humano é matéria prima da ação manipuladora, motivo pelo qual é um ser manipulável. Na sua complexidade humana, dentro de sua própria essência, o ser humano apresenta muitas áreas frágeis passiveis de serem manipuladas. A manipulação passa a ser uma influência exercida, quer individual ou coletivamente sobre o processo de desenvolvimento, no âmbito da socialização secundária, força moldadora da dignidade humana. O processo manipulador reveste-se de uma falta de transparência para aqueles que serão manipulados, motivo porque sempre será um processo com uma forte conotação negativa.

Podemos

analisar,

tendo

em

vista

o

sujeito

manipulador,

considerando que pode ser individual, ou institucionalizada, conforme seja um individuo ou uma instituição, que procura cercear a liberdade crítica ou criativa da pessoa humana. Os grandes ditadores, na expressão da instituição, são os grandes manipuladores. Ditadores, demagogos e exploradores, quer seja no sentido social, político ou mesmo religioso, através das ideologias, tradições, costumes ou doutrinas, são os que empregam suas forças e toda sorte de meios imorais para manipularem aqueles dos quais se querem servir. Creio que podemos configurar a manipulação a partir da

vulnerabilidade, em uma razão direta, ou seja, quanto mais vulnerável seja a pessoa, torna-se mais fácil de ser manipulada. Assim, os manipuladores agem com maior conhecimento intelectual, o mesmo não se verifica para os que “se deixam” manipular. O manipulador está mais ciente de sua ação manipuladora do que o manipulado de sua subdesenvoltura crítica. A sócio/modernidade não cumpriu a promessa de que o acréscimo de razão e a “elaboração” do conhecimento, o desenvolvimento da tecnologia e da biotecnociência, levaria o ser humano a adquirir um acréscimo de felicidade, a consolidação da cidadania e o prognóstico sempre favorável, frente a qualquer patologia ou anomalia. O desenvolvimento da ciência conduziu o indivíduo à bomba atômica, à poluição, aos alimentos cancerígenos, às experiências com clonagem de animais e a busca da “vida eterna”, através de clonagem de órgãos por meio das células tronco que entre tantas outras “novidades” tem acarretado certo pânico no próprio meio científico por meio das neoplasias que emergem no processo de cultura celular. Não é raro encontrar-se atualmente autores que preocupando-se com o paradoxo em que se tem alavancado pelos passos largos da biotecnociência: um progresso inaudito dos conhecimentos científicos, para um correlativo progresso múltiplo da ignorância; progresso dos aspectos benéficos da ciência, para um correlativo progresso dos aspectos nocivos e mortíferos;

progresso acrescido de poderes da ciência, para uma correlativa impotência dos cientistas a respeito desses mesmos poderes. Não será a ciência, pura em seus corolários, com seu cabedal de conhecimentos epistemologicamente sadios cuja missão será sempre a elaboração do saber, uma postura desinteressada onde o aprendizado e a comunicação será sua lei mater e seu imperativo ético? Parece que o ponto crucial reside na técnica, podendo se desvirtuar por força do egoísmo e individualismo, sendo utilizada para atingir satisfações pessoais, aplicada tanto para o bem quanto para o mal e, principalmente, na utilizando-se da política, ou melhor, da politicagem, potencialmente má e nociva. Realmente somos testemunhas de que “os cientistas são muitas vezes levados tanto pela emoção quanto pela razão”. (LEAKEY, 199, p 17). Para o cientista, é urgente uma postura bio/política profundamente ética. Entretanto, separar a ciência da política não é uma opção possível. No século passado tínhamos, é verdade, a ciência do cientista solitário, uma figura romântica e abnegada. Mas a partir da Segunda Guerra Mundial o quadro muda. Surgem os grandes projetos militares, que agregam grande quantidade de cientistas. O Estado passa a subsidiar as pesquisas visando em geral, resultados armamentísticos. A corrida para a fama passa a ser “marketing” do sucesso, as megalo empresas sustentam pesquisas encomendadas, visando simplesmente o lucro e o ser humano cai nas malhas do anonimato fazendo parte da existência como um número estatístico, não um fim em si mesmo, mas um objeto de meio para se atingir um fim pessoal e egoísta. Hoje a pessoa humana está para a tecnociência e não mais a tecnociência a serviço dela. A sociedade capitalista impera, a ânsia pelo poder avassala e aprisiona o ser humano, anarquisando-o.

MANIPULAÇÃO: O POSTO DA CONSCIENTIZAÇÃO! Existe a realidade da manipulação, podendo ser considerada como o pólo oposto da conscientização. Considerando a conscientização como a dimensão pessoal, ética e política do ser humano quando este se constituiu em sujeito, a manipulação, ao contrário, passa a ser a “expressão da ação e do estado nos quais o ser humano é reduzido a objeto”, (VIDAL, 1981, p. 903), motivo esse que o tema da manipulação aparece emergindo paralelamente ao tema da construção da consciência. A IMANÊNCIA/TRANSCENDÊNCIA DO SER HUMANO: Penso que o maior instrumento causador da vulnerabilidade é, sem sombra de dúvidas, a ideologia da negação da transcendência, atribuindo ao ser humano um fim meramente terrestre, temporal. Neste prisma seremos todos, ontogeneticamente falando, objetos de manipulação. Para perpetuar a “espécie” seria necessário ceder às forças do sistema, do poder econômico e da soberania do estado. Sua existência é puramente vulnerável; sua vontade manipulável; seu ideal forjado. Fácil será outorgar à temporalidade humana o sentido de uma aglomeração, não da inter-ação, mas da usurpação, a coletividade

favorecendo interesse pessoais e específicos. Motivado por tudo isso a transcendência é, “o desafio mais secreto e escondido do ser humano”. (BOFF, 2000, p. 22). Na perspectiva da transcendência caberia a pessoa humana, pela vivência-experencial, agir na convivência como instrumento desta dimensão intrínseca do homo-pneuma, abrangendo uma renovação de parcelas da “família” sociológica, em um trabalho missionário, desbravando e rompendo paradigmas desgastados e pelo influxo interior transformá-la a partir de dentro e tornar nova a própria humanidade. Haverá, para se romper a máxima patológica da violência, surda na maioria das vezes, pelo menos pela minoria abastada, a necessidade de construir condições de oferecer uma mudança interior, como matéria prima de

“uma mudança dos critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade”. (SS. Papa Paulo VI, Evangelii Nuntiandi, nº19). A transcendência consolidará consciência ao ser humano de que é um ser concreto, existindo em seu Dom, dom de si, presente em sua abertura. Será e emergirá em sua existência por um único caminho = a comunicação. Só se comunicando, oferecendo a si mesmo como Dom de Si é que este humano brindará sua humanidade, vivendo-com a sua própria abertura ofertada. A condição sine qua non para esta transcendência será a entrega, livre, consciente e de maneira responsável, de si mesmo como um Dom de si. Neste trabalho o humano construirá a si mesmo. Nesta tarefa o humano será o veículo de humanização de seu igual, de seu semelhante. Em contra partida, construirá a si mesmo num processo recíproco, de complementaridade. O humano, como Dom de Si, “é um ser em potencialidade permanente”, (BOFF, op. cit. p. 36). Ao nível da transcendência o humano vivenciará sua mais extraordinária experiência, acumulará a certeza de que deve responder à sua vocação, seu chamado como “escolhido”, realidade eleita, afinal nesta experiência será tocado em seu mais íntimo, no mais profundo de seu EU. Emergirá de seu cerne um enamoramento de si mesmo, não através de uma postura narcisista, mas um enamoramento de sua simplicidade emergida de sua complexidade. Somente por meio deste enamoramento o humano será capaz de, num primeiro ato-da-vida, enamorado do EU, empreitar uma viagem implosiva para dentro de si mesmo. Conhecerá o seu EU, no que de mais íntimo existe, e, após este desbravar, sairá na desafiante tarefa da busca de um outro EU, um verdadeiro TU. Só irá ao encontro com o outro se impulsionado pelo sentimento de enamoramento. Somente na transcendência se enamora. Só quem está envolvido com o processo de enamoramendo, enamora; só enamorado possui a força que humaniza e só o ser humano tem a

capacidade de humanizar. É uma experiência de transcendência. Experiência do encontro de realidades, reciprocidade de humanidade, encontro entre duas pessoas. É inter-ação, ação em conjunto. Todo relacionamento inter-pessoal é um inter-agir. Não se sai incólume após um encontro inter-pessoal. Sempre haverá interação, ação-entre. ESPAÇOS DA VULNERABILIDADE Se considerarmos o ser humano encarar cada como parte um de ser sua

bio/psico/sócio/espiritual,

poderemos

personalidade ou de sua realidade um espaço favorável à manipulação, na dimensão em que não encontrarmos em cada uma delas um sentido epistêmico humano. As ciências que trazem em seu bojo conceitos e definições sobre estas áreas sucumbem ao tentar relacionar o ser humano com um constitutivo participante de um início claro, um princípio abrangente e definitivo. Sempre a manipulação será um artifício natural onde o hiato existente causado pela imprecisão das hipóteses fornecerá dúvidas e acarretará o nascimento de ideologias e subterfúgios para desfoque de uma realidade maior. Todas as áreas componentes da realidade existencial do ser humano não nos fornecem uma visão definitiva, clara e precisa, esclarecida pelas explicações científicas. Sempre nos deparamos com ideias, hipóteses e recursos frágeis sobre o início dessa realidade que conhecemos como ser humano. A humanidade parece perder-se nas eras da existência do próprio astro em que vivemos. BIO VULNERABILIDADE O ser humano em sua complexidade biológica passa a ser um indivíduo extremamente vulnerável, isto a partir de sua própria conceituação. A biologia como ciência da vida, mesmo sendo enquadrada no rol das ciências que submersas em suas leis com sentenças de valor epistemológico, por meio de todas as suas contemporâneas divisões, nos apresentam uma estratificação por força das especialidades, impedindo uma visão global da pessoa humana.

Consequência desta visão, vem sendo dividido o ser humano a porções ínfimas que se perde o contexto como um habitante da aldeia global elemento da espécie homo sapiens sapiens. Da visão holística, a estratificação! Nesta complexidade não se consegue mergulhar plenamente na realidade humana. A tentativa do relacionamento entre os humanos esbarra em obstáculos, muitas vezes quase intransponíveis, pois os valores e princípios que norteiam esta ação comportamental, tornam-se frágeis e relativos, uma vez que “as nossas características biológicas causam-nos uma série de dificuldades”, (REICHHOLF, 1990 , p, 7). Quando a antropologia busca explicações da origem do “homo”, encontra nas teorias “sócios-darwinistas” conceitos que não nos deixa claro uma possível evolução, pois “os antropóides atuais não são de modo algum antepassados vivos do Homem, muito pelo contrário”, (op. cit., p, 33). Talvez a dificuldade que se tem encontrado em contemplar o “princípio” de nossa espécie, a origem de nossos antepassados, seja o fator desencadeante responsável pela “an-arquia” (sem princípio) a qual vivemos, pois tem sido “extremamente difícil reconstruir a história evolutiva”, (LEAKEY, 1997, p, 85). O patrimônio genético designado pelo DNA, que através das bases nucleares ATCG7, hoje nos traz outras expectativas, pois se encontra “independentemente deste, um patrimônio genético adicional nas mitocôndrias”(REICHHOLF, op. cit., p, 20), células estas que multiplicam-se autonomamente e de forma totalmente independente do patrimônio genético do núcleo central, (id.). Este fato nos deixa perplexos uma vez que nem o patrimônio genético será algo definido, determinado e absoluto, e que as centenas de milhares alternativas mutacionais não confirmam nosso “parentesco” familiar! Quem somos? Qual é nosso “sobrenome”? Pertencemos a que “família”? A incerteza que o ser humano tem de sua própria origem, o desconhecimento de seu princípio acarreta em seu ser uma an-arquia existencial. Experimenta-se uma anarquia de seu existir, é alguém sem origem, sem principio.

A fragilidade originária redunda em uma vulnerabilidade do próprio existir. Sem origem, mergulhado no vácuo do relacionamento, sem comunicação, bem sabem os estrategistas militares, o indivíduo experimenta a mais árida solidão. Perde-se no emaranhado das suposições e desorganiza-se o ser. O desequilíbrio emocional acarreta desordens em todas as demais áreas do indivíduo. Na complexidade corpórea do ser, vivenciando a falta de interação relacional o individuo despersonaliza-se; a desintegração refletirá na angústia, mãe do medo que, persistindo levará, sem dúvidas, a pessoa humana afundar na desesperança e ignomínia humana, presa fácil da manipulação. Confuso em sua própria identidade busca vivenciar um personagem, encarnar uma irrealidade, a qual passa a exercer a “paternidade” da criatura mal formada. O círculo vicioso da degeneração humana se instala. Na exatidão matemática perde o sentido da existência ao vislumbrar sua herança. Quanto mais solidão mais incerteza o que irá gerar, a cada momento concreto da vida, mais angústia solitária. A desumanização concretiza-se. Encontramo-nos na presença do enfermo, do prisioneiro, do faminto e, o que pior, alguém desesperançado, frágil e altamente manipulável, sem razão de vida! Será tal qual um ”animal” fragilizado. Cansado da caminhada será deixado ao longo da estrada à sua sorte, vulnerável se tornará presa entregue aos predadores da manipulação, forjadores do “monstro” humano. SOCIO-VULNERABILIDADE A aproximação do humano entre si é uma necessidade vital para sua subsistência, surgindo a convivência grupal. Este fenômeno é uma realidade existente desde sempre. Ao vislumbrar o “humano” vamos encontrá-lo reunido. A “horda”, a “tribo”, a “família”, existe com o humano em consciência, é característica humana. Não quero aqui traçar uma síntese sociológica nem um esboço antropo-social. A expectativa é tão somente trazer a tona uma reflexão sobre

as consequências e os frutos desta vulnerabilidade que nasce deste fato. A implosão que o personalismo solitário causa e a violência manipuladora, trazida pelo egoísmo estagnado na imanência, será fator preponderante e absoluto dentro do relacionamento inter-pessoal como gerador de um espaço altamente vulnerável. A dificuldade em se vislumbrar o horizonte deste agrupamento original ou do princípio histórico do mesmo, acarreta ao cidadão um desconforto social. Como membros de uma sociedade, participantes de uma vivência coletiva, não temos firmado nas páginas de nossa história o princípio da comvivência/vivên cia-com ou o raiar da comum-unidade ou a unidade-com. Somos testemunhas de que esta convivência gera conflitos amalgamantes trazendo resultados sócio/culturais marcantes, pois reunem-se sob um mesmo teto indivíduos que se sentem ameaçados, excluídos, enfim, distanciados dos demais, os quais refletem uma vivência fora ao alcance. Neste processo o enamoramento empático dá lugar aos conflitos e crises antipáticas, fazendo emergir a separação, isolamento, distanciamento e anonimato. O conhecimento desatento, a elaboração do saber sem uma dimensão epistemológica forjará mentes egoístas, possessivas e exploradoras. No âmago da violência, anti-valor emergente, a comum-vivência será abalada, soterrada e confundida. O elemento desta sociedade, desumanizado, fruto e revés do processo que desumaniza o ser humano, se mostrará como um objeto de cobiça e como objeto, matéria prima da manipulação. Sujeito habitante anônimo desta sociedade dissociada tornar-se-á objeto dos “predadores”, os donos do poder. A “sociedade” passa a ser um campo de manipulação e os seus habitantes, seus objetos. A injustiça será a marca de origem made-humano, gerando a violência para se apropriar das forças do sistema, o mesmo criado pelo próprio humano.

O ser humano isolado pela ganância experimenta a desumanização e agora, nesta condição, desumaniza, enfraquecendo o espaço vital, desfocando o verdadeiro e primordial objetivo do com-viver. A fraternidade desaparece, o individualismo impera! O consumismo, o radicalismo passa a ser uma constante inserida no meio do povo que insiste em manter uma postura fraterna, ou pelo menos pseudo-fraterna. Como um elemento patógeno desconhecido, altamente virulento, o egoísmo produz a pandemia da indignidade, deixando a humanidade enferma. Esta sociedade marcada pela massificação e pelo anonimato sofre o “impacto dos meios de comunicação de massa, consumismo,

libertinagem moral, violência coletiva e desigualdades sociais chocantes, exige, de modo “novo” e radical, a segurança das pessoas no abrigo de uma comunidade menor, onde possam ser vividos os valores do relacionamento inter-pessoal”.(Doc. CNBB, nº 18, p. 13). As rápidas, intensas e profundas transformações no mundo contemporâneo globalizado, sinergisiadas pelo progresso cego e a busca insana do poder escravagista, forçada pela cobiça da mentalidade

capitalista/consumista das macro-empresas por meio da ação da biotecnológico-científica, sob o pseudo poder daqueles, é um comprovante deste fenômeno. Nunca a pessoa humana foi vista como meio de consumo, objeto de pesquisa e foco de interesse escuso, como atualmente. Foi criada e vivenciase intensamente um processo de indignidade constante e progressivo e têm-se adotado uma postura da cultura do hediondo, do poder, do possuir, do prazer e do parecer, moldes desta sócio-disforme. Enfim vive-se uma constante anarquia (an-arkéos) sociológica. PSICO-VULNERABILIDADE O ser humano expressa sua realidade existencial por meio de seu comportamento (elemento exterior-visível) “comandado” pelas suas atitudes (componente interior) face aos processos mentais elaborados ao longo de sua

existência. Sabe-se que como nunca, atualmente a socialização secundária tem sido um fortíssimo elemento elaborador de anti-valores e motivador de um ambiente manipulador. Na modernidade, os assuntos cabíveis a Psicologia visa entender e cuidar da maneira como a pessoa humana se relaciona, ou inter-age com os seus pares nesta caminhada, mas engloba também, seu relacionamento com o meio em que vive. Influencia e é influenciado pelo seu habitat próprio, sua morada. Envolve “o seu desenvolvimento, as bases fisiológicas do comportamento, a aprendizagem, a percepção, a consciência, a memória, o pensamento, a linguagem, a motivação, a emoção, a inteligência a personalidade, o ajustamento, o comportamento anormal, as influências sociais bem como o comportamento social”, (DAVIDOFF, 1983, p. 2). A Psicologia inicialmente era entendida como a ciência que estudava a mente, etimologicamente da raiz grega psique = alma e logos = estudo, assim trataria do estudo da alma, (id.). Hoje, porém, a Psicologia ampliou seu campo de estudos e é a ciência da mente, da personalidade humana, do estudo comportamental humano e animal, além de estudar também o comportamento de organizações e movimentos sociais com abrangência ecológica. Nota-se nitidamente que a abrangência envolve aspectos de interdisciplinariedade bio-fisio-sociológicos. Ao contrário dos biólogos, os

psicofisiologistas, ou mais comumente conhecidos como psicobiólogos focalizam a atenção do estudo nas relações entre o comportamento e o funcionamento mental; assim como os psico-sociólogos se enquadram naqueles que buscam sua área de conhecimento nas influências grupais ou sociais sobre os indivíduos. Corre-se o risco constantemente no cotidiano em absolutizar os conhecimentos psicológicos a ponto de uma distorção da própria idéia da pessoa humana, gerando uma visão psicologista, onde tudo pode ser explicado e entendido ao nível dos conceitos dessa ciência.

“Uma visão até então restrita a certos setores da sociedade, ganha cada vez mais importância a idéia de que a pessoa humana se reduz, em última instância, a seu psiquismo. Nesta visão parcial, indigna do ser humano, segundo sua expressão mais radical, a pessoa se apresenta como vítima do instinto fundamental erótico ou com um simples mecanismo de resposta a estímulos, carente de liberdade”.(Doc. Puebla, p. 163).

Como bem se sabe, a psicologia é um campo de conhecimentos no qual “existem fenômenos importantes que não compreendemos”, motivo pelo qual não nos dará “respostas para todos os problemas,(id. p. 5). Encontra-se na linha de pensamento determinista, o princípio defensor da tese de que os atos das pessoas são determinados por enorme número de fatores. Os classificados como intrínsecos envolve as potencialidades genéticas e talvez seja o que nos acarreta as mais variadas perguntas . - Quando aparecem estas características presentes no código genético? - Sua existência de modo latente esperava algum motivo ou predisposição para a manifestação? - Onde se situa o princípio ou origem da psique? - Os elementos que impulsionarão todas as atividades psíquicas pré-existem no código genético? Pesquisas modernas afirmam que o neonato “traz consigo comportamentos que os ajudam a sobreviver”, (op.cit. 67). A psicologia moderna afirma a existência de interações que o meio ambiente fornece à hereditariedade. DAVIDOFF 1983 registra “as influências químicas que agem ANTES do nascimento...”(op. cit. 69). O ser humano vivencia sua existência na interação constituída com seus próximos e com o meio que o rodeia, ou seja, em seu habitat natural, independente dos níveis ao quais esteja submetido.

Uma

verdadeira

linguagem

se

estabelece,

e

como

todo

“relacionamento” linguístico é interativo, rico, complexo e constante, vindo influenciar no desenvolvimento, pois, “na concepção, a hereditariedade programa as potencialidades humanas das pessoas, ao mesmo tempo, o meio está dando forma ao nascituro 9. O material genético opera dentro da célula, enquanto o feto (grosso modo, o organismo antes do nascimento) amadurece dentro do útero. E, qualquer um desses meios, as condições podem modificar o indivíduo”. (id.). Esta disponibilidade de desenvolvimento involuntária gerada pelo feto, sujeita às “intempéries” da vida, dosadas pelas posturas emocionais dos genitores, principalmente materna como é afirmado acima pela intimidade placentária, acarreta no ser em formação “mudanças” em seu comportamento, criando assim, no indivíduo, um meio de cultura favorável a uma vulnerabilidade incontida. Mácula gravada na personalidade do futuro ser favorecerá, via frustrações e anseios, catalisadores da manipulação. Toda ação “externa” com repercussão intra-uterina poderá distorcer os verdadeiros dons e qualidades (mesmo ainda sendo plasmadas), da pessoa humana favorecendo em contra partida a manipulação, imposta pelos indivíduos com quem vai compartilhar a vida. Essa vulnerabilidade ainda pode ser acrescida quando associada às idéias de forças ocultas, “espirituais”, poder de talismãs, “trabalhos” e coisas do gênero estabelecendo-se assim uma visão antropológica errada, conhecida como determinista da pessoa humana. Nesta, o indivíduo “não é dono de si, mas vítima de forças ocultas, não encontrando outra atitude senão colaborar com essas forças ou aniquilar-se diante delas”.(Doc. Puebla, p. 162). Quanto mais prematuro o indivíduo mais intensa será a vulnerabilidade e, consequentemente, mais eficaz a manipulação. A

contextualização deste vínculo de vulnerabilidade deve abranger desde o ato humano pelo qual se estabelece a fecundação dos gametas.

Esta atividade geradora, ditada pela sexualidade, envolvendo o ato genital propriamente dito, é um nível de relacionamento interpessoal onde o valor imprescindível deve ser o da amizade. É um ato puro de amizade. A sexualidade é comunicação, é diálogo e levado por esse motivo podemos conceituar o ato genital como ato “nupcial”
10

. É uma forma de

conhecimento pois por meio dele, homem e mulher se conhecem, se reconhecem como participantes da mesma natureza. Nesta nupcialidade será realizado o “encontro”, entre os cônjuges, profundo gesto de entrega mútua, reciprocidade e complementaridade da sexualidade.
“Neste encontro se defrontam com o seu próprio mistério interior. O encontro sexual pleno terá na genitalidade, a única forma de chegar até o íntimo de si próprio”. (VIRMOND, 1997).

Psicologicamente, para a plenitude deste ato será necessário que a pessoa esteja de posse de todos os recursos de linguagem que a sexualidade proporciona. Deve estar harmonizado para que seja um ato humano. E será na medida que os elementos conjugais estejam humanamente integrados, caso contrário nos depararemos simplesmente e apenas como um ato biológico. Em outras palavras, os seres humanos em sua sexualidade, no encontro genital, no ato “nupcial” especificamente, devem sentir-se à vontade em sua sexualidade, afim de que seja um ato casto, uma vez que a castidade é a sexualidade integrada ao nível de pessoa. É virtude do adulto. É uma necessidade ao se falar de comunicação e relacionamento inter-pessoal. Quando o homem e a mulher unem seus corpos na nupcialidade não se reduz só a função biológica, é sempre um ato humanizante, um ato de amizade, pois haverá uma linguagem, comunicação existencial; sentimento de amor altruísta, ato de confiança, abandono e doação de si mesmo em toda dimensão corpórea.

É um processo de maturidade e afetividade, pois deve ser um “encontro” interior de pessoas que buscam um sentido existencial, dentro do âmbito da conjugalidade. (op. cit.). Neste encontro o ser humano conflita com sua ânsia de perpetuidade, mas os elementos conjugais sentem que sua união e seu amor se encontram fora do alcance da morte. Geram vida. O que caracteriza é o seu significado, não a função biológica simplesmente. Enfrentam o paradoxo: são capazes de gerar vida e não conseguem acrescentar a si próprios. São guardadores do poder gerador de vida e não conseguem acrescentar um minuto sequer nas suas próprias. O meio no qual esse fenômeno eclode só será possível em um ambiente onde o dom de si se apresentar em toda intensidade oblativa. O ato nupcial sendo exercido na manifestação plena do dom de si mesmo, onde os pares o farão na intensidade do gesto amoroso, estará submerso, dentre outras expectativas, na esperança de uma nova vida. A doação recíproca do dom de si se fará numa intensidade inexplicável por palavras e estas aprisionarão, sem dúvidas, o mais profundo sentido existencial. Inefáveis sussurros, sons ininteligíveis serão ouvidos neste momento sublime da criação, onde o ser humano experimenta ser co-criador. O momento da fecundação, fato absolutamente inexplicável pelos mais expressivos fundamentos científicos, jamais compreendidos pela razão humana ou detectado pelos instrumentos mais sensíveis. Qual força misteriosa especificadora elege determinadas células, para que se entreguem solidária e subsidiariamente uma a outra, com o intuito de uma comunhão perfeita? Quem orienta a elaboração desta participação total, plena e radicalmente única, gerando um ser nas mesmas condições de unicidade, ontologicamente idêntica, e que sempre será uma incógnita até para as mentes mais privilegiadas? Único em sua unicidade. Jamais existiu e em hipótese alguma existirá outro ser igual! Na sua exclusiva unicidade foi programado para ser

dom de si, para ser ralação, e neste movimento constante e permanente, forjador de sua própria história e da sua espécie. Protagonista, promotor e cuidador de sua história, da dos seus semelhantes e do próprio ambiente onde vive, terá sua dignidade preservada nesta unicidade, instaurando uma convivência duradoura, religando

permanentemente sua própria existência à sua origem, ao seu princípio. Fora desta harmonia, as margens deste contexto, desfocado desta ótica promove-se a expectativa de um ser gerado “ao acaso”, criado sem as estruturas psico/sociológicas harmônicas, muitas vezes “não querido/desejado”, acarretando em seu desenvolvimento/crescimento áreas profundas em seu íntimo de vulnerabilidade. Sem amor, sem a querência, passa a viver a exclusão e neste caso passível de manipulação. Seus sentimentos, carências e anseios cunharão espaço para que a manipulação encontre guarida. Não amado, não querido e nem desejado, o ser humano pode experimentar em seu ser existencial, profundas feridas, marcas que indelével o acompanharão. Estas circunvoluções existenciais resultarão em pontos de alta vulnerabilidade, passível de ignóbeis manipulações futuras. PNEUMATO (ESPÍRITO)-VULNERABILIDADE Nas reflexões éticas, em busca da valoração do caráter e da individualidade da pessoa, têm-se direcionado o pensamento no sentido de encontrar critérios fundamentais para se obter uma visão integral do ser humano, com o intuito de “iluminar e completar a imagem concebida pela filosofia e as contribuições das outras ciências humanas, a respeito do ser do homem e de sua realização histórica”. (cf. Doc. Puebla, item 306). O devir humano tem percorrido longos caminhos de sobrevivência em busca de sua identidade, sua herança, sua dignidade e sua liberdade. Neste sentido a bioética vem em auxílio, subsidiariamente, a esta deficiência que os conceitos científicos têm apresentado, entre tantas, a sócio-bioetologia. Mergulhados nas várias epistemologias das humanidades, busca-se

dados axiológicos para o convencimento da razão. Nesta dimensão é encontrado o consenso na convicção de que “será impossível a convivência social humana, principalmente nesta sociedade mundial, que emerge nas vicissitudes de um novo porvir, uma nova era”, (cf. BOFF, op. cit. p, 60), se não for apresentado um indicador, uma releitura, parâmetros para se construir uma ética de convivência, ou melhor, uma ética de sobre-vivência, como denominador comum, abrangente a todas as culturas a todos os povos, em todas as dimensões. Apesar do esforço das epistemologias da humanidade, que busca na linguística, semiótica, hermenêutica ou na lógica, as tentativas de respostas às perguntas feitas sobre nós, nos tempos contemporâneos nos têm oferecido lacunas racionais. Permanecem ainda obscuras perguntas como: - Quem somos? De onde viemos? O que fazemos e/ou aonde iremos? O mistério sobre a “criação” do humano, do nascer-morrer, requer reflexão, pensamento e introspecção, pois, “uma leitura mais atenta faz entrever que este mundo maravilhoso também é muito complexo e até conflitivo”, (MOSER, 2004, p. 264), pois esta simples palavra “por si só já abre um leque de questões que, de alguma forma, sempre se fizeram presentes na história do pensamento humano, mas que hoje se revestem de outras cores e de outra profundidade”, (id). De fato, o humano necessita mais do que nunca, encontrar perspectivas de uma melhor compreensão de sua própria existência e um mais claro entendimento sobre sua origem, seu princípio, seu vir a ser “criado”, sem contrapor as forças seqüenciais evolutivas ou sobrepor as idéias seletivas da seleção natural. O pensamento é progressivo, gradativo, elaborado passo a passo, reflexão a reflexão, antropo-phania a antropo-phania. Sem descartar todo o processo de hominização, envolvendo perturbações eco-paleonto-biológicas não se excluí a aventura através do tempo, da bipedização a cranização, com auxilio das ciências neurológicas, do “erectus”, “habilis”, “australopetheco” ao “sapiens”, pois há necessidade

de “atar-se o primeiro elo indissolúvel entre ciência da vida e ciências humanas” (MORIN, 2003, p. 30), integrando o ser humano em sua realidade existencial, nas dimensões bio/psico/sócio/espiritual. O ser humano necessita visceralmente, epistemo-ontológicamente, entrar em contato com sua origem, seu principio. Realmente, “a moradia humana (ethos em seu sentido original) exige o resgate da justiça mínima, da veneração sagrada e da compaixão necessária, sem as quais a moradia humana não é humana, porque não é mais habitável”. (BOFF, 2003, p. 76). As linhas de pensamento, os princípios e os imperativos éticos têm sido claros e fundamentais para qualquer análise ou discussão, entretanto nos parece que não são suficientes, “há exigências éticas que contradizem interesses imediatos”, (op. cit. p, 101), motivo pelo qual se vive um paradoxo, pois “nossa época é que mais se tem escrito e falado sobre o homem, a época dos humanismos e do antropocentrismo, Contudo é também a época das profundas angústias do homem com respeito a sua identidade e destino, do rebaixamento do homem a níveis antes insuspeitados, época de valores humanos conculcados como jamais o foram antes”, (Doc. Puebla, discurso inicial, México, 1979). É da “natureza”
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do humano seu contexto histórico, imerso em

suas variadas circunstâncias, ofertadas pela realidade de que seu caráter é de membro de uma sociedade e por isso mesmo, “herdeiros de um passado, protagonistas do presente e como construtor de um futuro e como peregrino em busca de um sentido existencial”, (cf. Doc. Puebla, item 3), portanto, como forjadores da história, da sua própria história. O “sentido” para esta busca só pode encontrar-se fulcrado na Suprema Realidade, Força do Alto, Criador, Altíssimo, pois “na diversidade das tradições, hábitos e culturas existentes, urge superar as clássicas contradições (um nega o outro, sem destruí-lo e obviar os antagonismos (um destrói o outro) e assumir decididamente uma perspectiva globalizadora e holística”, (BOFF, op. cit. 97).

Será imprescindível uma ótica da transversalidade, como bem afirma BOFF quando comenta sobre a perspectiva holística
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, conceituando tal

procedimento no que diz respeito a sua fisiologia, como a “ capacidade de detectar os inter-retro-relacionamentos de tudo com tudo”, (id.). Ao se tratar da visão espiritual do humano, se quer dizer sobre àquela força, aquele “sopro”12, por meio da qual ele vai sentir-se ligado, ou religado na totalidade das direções. Ligado ou re-ligado consigo mesmo, experienciando a liberdade dignificadora em ser querido na sua unicidade humanizante; com os demais, numa experiência fraternal; com o mundo como senhor e com a força transcendente, com o Deus invisível, como criatura filial deste. BOFF identifica analogicamente esta força maior, integradora, como um fio condutor, o qual se presta a ligar ou re-ligar o humano ao todo, ao tudo, desde o micro ao macrocosmo, à sua historicidade evolutiva e integra-o ao habitat, construindo na consciência, seu princípio.
“Essa experiência permite ao ser humano dar um nome a esse fio condutor, dialogar e entrar em comunhão com ele, pois o detecta em cada detalhe do real”. (op. cit. p. 102

A experiência de aceitar, acolher e deixar-se impregnar pelo mistério desta força, deste “invisível” (Theos,) passa a ser a mística do encontro, pois será não o saber sobre Ele, mas, o senti-Lo. Trata-se não de um fato utópico nem de um sofisma, mas sim, de algo experiencialmente vivenciado. “Crer em Deus (Theos) é compreender a questão do sentido da vida; crer em Deus é afirmar que a vida tem sentido”. (op. cit. 103). Valores e imperativos que norteiam a ética sustentam seus conceitos direcionados para o sentido mais profundo da vida. Uma postura de cuidado com a mesma, atingindo, principalmente os mais distantes, os excluídos, onde o isolamento passa a ser a companhia desoladora.

A vida, energia vital que impulsiona, dinamismo interior no humano, dom e tarefa, deve ser alvo prioritário do ethos mundial pois é a extinção da espécie que está em jogo. É tema central e objeto da ligação ou re-ligação do humano com o cosmo, com sua historicidade. Será necessário que o ser humano, mergulhado como fruto e instrumento formador da cultura, atinja o cerne dela mesma, levedando-a na dimensão axiológica de uma verdadeira epistemes. A re-ligação, ou melhor, a re-informação deve atingir a cultura e as culturas. Entende-se singularidade cultural e “indica-se a maneira particular como em determinado povo cultivam os homens sua relação com a natureza, suas relações entre si próprios e com Deus, de modo que possam chegar a um nível verdadeira e plenamente humano”. (Doc. Puebla, item 385). A importância de um Ethos mundial na busca de uma com-vivência humana, um viver-com, parece ser algo imprescindível para esta sociedade emergente, globalizada. “Hoje vigora ampla convicção de que, sem um consenso básico mínimo sobre determinados valores normas e atitudes, é impossível a convivência humana” (BOFF, 2000, op. cit. 60). Espera-se que as atitudes e esforços religadores, por meio de convicções doutrinárias das religiões tragam em seu bojo, como guardadoras que são (ou devem ser!) das virtualidades e “verdades” com fundamentos para esse consenso de um Ethos mundial. BOFF, apud KÜNG, afirma que “não haverá nenhuma nova ordem mundial sem um ethos mundial”. (id.), entretanto “não haverá nenhuma ordem mundial sem uma paz entre os povos; e não haverá paz entre os povos se não houver paz entre as religiões; e não haverá paz entre as religiões se não houver diálogo entre elas”, (id.). A cultura do pós-modernismo, inspirada na força da bio-tecnociência, nem sempre altruísta, promovida pelas grandes potências e marcada pelas ideologias pretende se universalizar, parece ter sido veículo desintegrador, como realidade paradoxal, pois” “os povos, as culturas

particulares, os diversos grupos humanos, são convidados, e mais ainda, obrigados a integrar-se nelas”, (Doc. Puebla, item 420). Emerge dos anseios e necessidades antropológicas, talvez, uma ética-religiosa, com objetivo de re-ligar servindo como ponto de união ou de ponte entre as epistemologias da humanidade existentes e uma outra epistemologia, utilizando uma metodologia pneumatológica, com a finalidade de re-descobrir o mistério da vida, pois a humanidade necessita desta sabedoria para não sucumbir nos meandros do caminhar do cosmo. Uma epistemologia onde a abordagem conduzisse para a formação de uma consciência que balizasse os passos e uma sabedoria que iluminasse o caminho, pois “sem consciência a ciência só pode conduzir à ruína do homem”, (MOSER, 2004, p. 378), relembrando que “nossa época, mais do que nos séculos passados, precisa desta sabedoria para que se tornem mais humanas todas as novidades descobertas pelo homem. Realmente estará em perigo a sorte futura do mundo se não surgirem homens mais sábios”. (id.). Em se tratando de uma epistemologia baseada em um método interpretativo/descritivo, teria seu fundamento na própria pessoa, que agiria como fruto ou resultado desta experiência de criação. O próprio humano seria a resposta das inquisições feitas por ele mesmo. Talvez emergisse do caos, por força pneumatológica, a consciência de que seria o humano destinatário e, posteriormente, instrumento desta força, a 5ª força do sistema, dando identidade e, vindo a consolidar a epistemologia da unificação das forças existentes, promulgada pela Nanotecnologia, uma vez que todas as epistemologias refletidas convergem para o BIO. Não buscando ratificar um antropocentrismo, mas afirmando uma antropologia a priori, uma vez que o ser humano surgiria como o animal “diferente”, (kadoch)13. Esta experiência vivenciada, pode oferecer aos humanos motivos para um prognóstico favorável quanto ao seu desenvolvimento e sua formação. Pois essa “força integradora”, com caráter pneumatológico (espiritual), consegue perceber que o humano vem sofrendo mudança de valores e

promovendo antivalores num sistema, criado por ele mesmo, profundamente excluidor e manipulador. Aspectos desintegradores da dignidade humana como: ►- O materialismo individualista, valor supremo de muitos homens de hoje, que atenta contra a comunhão e a participação, impedindo a solidariedade; e o materialismo coletivista que subordina a pessoa ao Estado; ►- O consumismo, com sua ambição descontrolada de sempre “ter mais”, que vai afogando o homem contemporâneo num imanentismo que o fecha aos valores maiores. ►- A deterioração dos valores básicos da família que desintegra a comunhão familiar, eliminando a participação co-responsável de todos os seus membros e tornando-os presa fácil. ►- A degeneração da honradez pública e privada; as frustrações, o hedonismo que incita para os vícios, o jogo, as drogas.o alcoolismo, a devassidão. (cf. Doc. Puebla, item 55-56 Como já foi afirmado acima, somente por meio de uma éticapneumatológica, com capacidade de unir as forças do sistema reforçando a Teoria das Cordas, será possível levar a certeza e a harmonia às linhas de pensamento trazidos pelas epistemologias da humanidade, pois “prescindir em qualquer análise da realidade, da dimensão religiosa, é prejudicar a análise, é encurtar a realidade, é minar o fundamento de uma atitude ética universal. No mundo moderno, é a religião uma força central, talvez a força central que motiva e mobiliza as pessoas”.(BOFF, op. cit. p. 62). Sem essa perspectiva pode-se correr o risco de incrementar a vulnerabilidade humana, levando-o, como presa fácil da manipulação destruidora; pseudo-cultura que emerge em dimensão geométrica promovida e agasalhada pelas diversas abordagens epistemológicas existentes na pósmodernidade. Urge uma ética bio-psico-socio-pneumatológica; urge uma éticamundial, urge uma ética-de-redenção para sairmos desta anarquia (ana-

arkéos) em que nos colocamos, verdadeiramente uma realidade sem princípio! NECESSISTAMOS DE UMA ÉTICA INTEGRADORA! PARA SE EXCLUIR A VULNERABILIDADE Penso que uma reflexão sobre a vulnerabilidade fatalmente irá supor uma teorização sobre a exclusão. A essência deste fruto é o que bem cita Edgar Morin (Ética, 2005, p. 20s), “o princípio de exclusão significa que ninguém pode ocupar o espaço egocêntrico onde nos exprimimos pelo nosso EU. O princípio de exclusão é a fonte do egoísmo, capaz de exigir o sacrifício de tudo, da honra, da pátria e da família”. (id.). Imprescindível será uma ética de relacionamento (ética de convivência) na qual o sujeito e objeto, a pessoa humana, agirá como partícipe de seu próprio processo de humanização. Está inscrito no mais profundo do ser humano, em sua essência ontologicamente falando, uma busca que se faz insana frente às vicissitudes da vida, na qual expressa uma verdadeira utopia à vivência altruísta, de inclusão em contra partida do exposto por Morin. Será este princípio, dinâmica avassaladora que o EU, como dom de si, permitirá à inclusão numa força antagônica e em contra partida à exclusão, permitindo esse EU em sua realidade rica, buscar um TU para na interação inter-pessoal, realizando, como fruto a construção de um NÓS. “Assim, existe uma fonte individual da ética, no princípio de inclusão, que inscreve o indivíduo na comunidade (NÓS), impulsionado-o à amizade e ao amor, levando-o ao altruísmo e tendo valor de religação. (id.) Falo da exclusão justamente a que causamos durante a dinâmica do relacionamento inter-pessoal, como insumo de um processo de

desumanização. É a realidade paradoxal, como protagonistas da humanização, pessoal e coletiva, gera-se justamente a anarquia humana, a desorganização e, conseqüentemente a des-humanização.

* NOTAS

EXPLICATIVAS

1- Foi utilizado a figura dos quatro Ps em analogia aos 4 S, apresentação, origem da
escola japonesa de administração. Nesta consta os quatro Ps conhecidos como o PARECER/PRAZER/POSSUIR/PODER. Todos os Ps são apresentados como as “formas” do mundo, os “moldes” com os quais o mundo vem aprisionando o ser humano. 2- O termo antropologia humanizante não se trata de redundância, pois creio que todo processo de humanização teria, por força do próprio sentido etimológico, que ser de convicção antropológica. Aqui se faz uso no sentido pejorativo 3- Refere-se o termo, sobre a dimensão espiritual do ser humano. Prefere-se pneumatológico a espiritual para desvinculá-lo da ideia de religiosidade ou confissão religiosa 4- Referindo-se aos países do 3º mundo, também atualmente alguns rotulados em países do 4º mundo, “classificando-os em países “atrasados”, pobres e sem significância no universo cultural”. 5- Aqui usado no sentido pejorativo. 6- Termos que fazem alusão a parábola do”Filho Pródigo”, narrado por.Evangelho de Lucas, 15. 7- Iniciais das bases nucleares adenina, tinina, citosina e quanina, consideradas como o alfabeto da vida. 8- No sentido de reunir, somar, aglomerar. O termo amálgama define, em mineralogia, ligas metálicas onde um dos elementos é o mercúrio. 9- Termo utilizado para denominar o humano recém nascido, nas duas primeiras semanas.(cf. op. cit. no texto). 10- Nupcial (conjugal) no contexto de ato realizado pelos esposos, abrangendo não só ato biológico, mas ato humano em sua plenitude. 11- No contexto de fator implícito, elemento integrador ao ser humano. 12- Aqui no contexto de Pneuma, em grego. 13- Raiz hebraica que significa, diferente, sem mistura, puro, sem contaminação, santo. Neste sentido dó Deus seria Kadoch, santo em sua essência, três vezez Kadoch, na dimensão trinitária, na teologia cristã.

REFERÊNCIAS 1. BOFF, Leonardo. “Tempo de Transcendência”, 4ª ed., Rio de Janeiro: Ed. Sextante, 2000 2. CORDEIRO, Maria C. dos Santos. “O equilíbrio do pêndulo, a bioética e a lei”. São Paulo:Ed. Ícone, 1998.p. 15 3. DAVIDOFF, Linda L. “Introdução à Psicologia”, São Paulo: Ed. McGraw-Hill, 1983. 4. Documento de Puebla. Discurso Inaugural, pronunciado pelo S.S. João Paulo II, Puebla de los Angeles, México, 1979 5. __________________ “Evangelização das Culturas” – Cultura e Culturas, Puebla de los Angeles, México, 1979 6. HAERING, Bernhard, “Medicina e Manipulação”. São Paulo: Ed. Paulinas, 1977. 7. LEAKEY, Richard. “A Origem da Espécie Humana”, Rio de Janeiro, Ed. Rocco, 1997. 8. MORIN, Edgar, “A Cabeça Bem-Feita”, Rio de Janeiro, Ed. Bertrand Brasil, 2003.

9. _____________, “O método nº 6, ÉTICA”. Porto Alegre: Ed. Sulina, 2005. 10.MOSER, Antonio. “Biotecnologia e bioética”, Para onde iremos?. Petrópolis, Ed. Vozes, 2004. 11.Paulo VI, SS. Exortação Apostólica “Evangelli Nuntiandi”. São Paulo: Ed. Paulinas, 1986. 12.REICHHOLF, Josef. “O Enigma da Evolução do Homem”, Portugal, Ed.Instituto Piaget, 1990. 13.RUSS, Jacqueline, "Pensamento Ético Contemporâneo", S. Paulo. Ed. Paulus, 1999. 14.VIDAL, Marciano. “Ética Comunitária”, Convivência, Sexualidad, Família. Madrid, Vol 2, Ed. Verbo Divino, 1980 15.VIRMOND, Dewet Taques Jr. “Tarefa Conjugal” – Comunidade de Vida e Amor, Apostila, Comunidade Água Viva, Curitiba, 1997. (no prelo pela Ed. Loyola).