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DISTINÇÃO ENTE ESTADO DE FILIAÇÃO E DIREITO DA PERSONALIDADE AO CONHECIMENTO DA ORIGEM GENÉTICA.

PARTO ANÔNIMO Paulo Lôbo

O Professor Paulo Lôbo, em seu texto, trata de duas importantes garantias: o direito ao estado de filiação e o direito à origem genética. Ao delinear os contornos de cada uma delas, defende a necessidade de distingui-las para se evitar confusões, como tem ocorrido na jurisprudência nacional. Por muito tempo, o estado de filiação se subordinou à verdade biológica e às relações matrimonializadas. No entanto, a certeza absoluta quanto à origem biológica, advinda do desenvolvimento científico, começou a se mostrar insuficiente para fundamentar a filiação. Outros valorem passaram a orientar as relações humanas, de modo que a afetividade e o melhor interesse da criança se tornaram, hoje, os principais legitimadores da filiação e da paternidade. A filiação é uma construção cultural, resultante da convivência familiar e da afetividade. Do ponto de vista jurídico, é considerada um fenômeno socioafetivo e tem natureza de direito de família. Nesse sentido, o estado de filiação seria gênero, cujas espécies seriam a origem biológica e a não biológica. Ele deriva, portanto, da comunhão afetiva construída entre pais e filhos, independentemente da origem genética. Já o direito ao conhecimento da origem biológica tem sede no direito de personalidade, que toda pessoa humana é titular, na espécie direito à vida. Não se confunde, por conseguinte, com o estado de filiação, possuindo inclusive normas de regência e os efeitos jurídicos distintos. Sua finalidade também é distinta, desvinculada da filiação. Dentre elas, pode-se citar a necessidade de ter conhecimento da ocorrência de doenças em parentes próximos e, assim, poder tomar medidas preventivas de saúde. Há, ainda, a vontade de integrar o núcleo da identidade pessoal, que não se resume ao nome, abrangendo toda a ancestralidade do indivíduo. Decorrente do exposto, podemos dizer que, para garantir o direito à origem genética, não é necessário investigar a paternidade. São dois institutos distintos. O exercício do direito de conhecer os ascendentes biológicos, por ser direito da personalidade, é garantido a toda pessoa humana, não dependendo de estar inserido em relação de família para ser tutelado ou protegido. Pugar a origem genética, para fins de direito da personalidade, portanto, é uma garantia do indivíduo. Difere, assim, da demanda pela investigação da paternidade, inadequada para o fim de conhecimento da origem genética, já que, busca a atribuição da paternidade, que, conforme já mencionado, deriva do estado de filiação, independentemente da origem

já que um foi totalmente sacrificado em benefício do outro. que ainda não foi constituído. há previsão da possibilidade de conhecimento da origem biológica. O autor critica. recusar-se a se submeter ao exame de DNA. tem-se a orientação que o STF firmou. fundada o princípio da dignidade humana. em ação investigatória. a origem biológica não prevalecerá. independe de comprovação da convivência familiar. nos casos de inseminação artificial heteróloga (Resolução nº 1. posteriormente.(biológica ou não). Como exemplo. que não poderia. que o juiz conjugue os efeitos da recusa com as demais provas existentes nos autos. adotado na França e em outros países. 48 do ECA). Tal instituto. O direito ao conhecimento da origem genética não significa necessariamente direito à filiação. a confusão que faz a jurisprudência – inclusive do Supremo Tribunal Federal – entre direito à origem genética e reconhecimento ou contestação do estado de filiação. no sentido de garantir ao réu o direito de recusa ao exame de DNA. Para tanto. Por conseguinte.358/92 do Conselho Federal de Medicina) e de adoção (art. Importante relembrar que a origem biológica só presume o estado de filiação que ainda não foi ainda não constituído. mas sem qualquer reflexo nas relações de parentesco. de modo a firmar seu convencimento. por sua vez. sem efeitos de parentesco. Tal entendimento foi bastante polêmico. No mesmo sentido tem se mostrado o direito alemão. ainda. Em ambos os casos. mas entendendo que está garantido o direito a conhecer as origens. na hipótese de estado de filiação não-biológica já constituído na convivência familiar duradoura. reconhecendo a dificuldade de se conciliar os interesses de um filho que busca suas raízes biológicas e de uma mulher que escolhe dar à luz no anonimato. ainda. demanda-la para atribuir-lhe a maternidade. O STJ. A Corte Europeia dos Direitos Humanos considerou válido o “parto anônimo”. mas negando ao autor o direito de conhecer sua origem genética. não houve uma adequada ponderação de interesses. permite que a mãe opte por não ter sua identidade constando na certidão de nascimento do filho. orientou-se em sentido contrário. No ordenamento jurídico brasileiro. apesar da evidente colisão de direitos. inclusive editando o enunciado da Súmula 301. Entretanto. a investigação da origem biológica exercerá papel fundamental para atribuição da paternidade ou da maternidade e. comprovado no caso concreto. Por fim. no entanto. o Professor Paulo Lôbo discorre sobre o “parto anônimo”. assegura-se o direito da personalidade. Sua aplicação exige. que estabelece presunção juris tantum de paternidade ao suposto pai que. . já que. do estado de filiação. espanhol e argentino.

não há “parto anônimo”. já que permite que a mãe deixe de exercer a maternidade. já que a criança é registrada com o nome da mãe. Não há. Desse modo. mas não incorra nos crimes de aborto ou abandono. .O fundamento do “parto anônimo” é o exercício de liberdade da mulher que não deseja assumir a maternidade. No Brasil. figura como alternativa a essa gravidez indesejada. anonimato. por sua vez. Tais finalidades e resultados são atingidos através da adoção. que prevê a faculdade à gestante de entregar o filho ao Juizado da Infância e Juventude para adoção. Sua consequência é a descriminalização.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO – UFPE CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS – CCJ FACULDADE DE DIREITO DO RECIFE – FDR FICHAMENTO DE DIREITO DE FAMÍLIA Recife. 4 de abril de 2013 Anna Clara Leite Pestana .