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E O POETA O QUE É?

Aline Pires de Morais 1 Prof. Dra. Enivalda Nunes Freitas e Souza (Orientadora)

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ENTRE O DOM E ATÉCNICA
O impulso criador do poético reside desde a Antiguidade Grega na influência

das divindades sobre a atividade humana, e no que se refere à poesia, essa sempre teve desde a sociedade arcaica um valor sagrado, já que era imbuída de um valor mágico que a tornava uma verdade transcendente e encantatória. Os poetas, por sua vez, eram considerados os escolhidos das divindades para conhecerem o estado sublime, assim, a atividade poética sempre foi uma das maneiras pelas quais o homem consegue alcançar a dimensão do sagrado indo além da experiência física, já que a “poesia foi a primeira linguagem dos homens”. (PAZ,1984, p.83) Na Grécia Antiga, é atribuída à poesia uma origem divina, ou seja, os aedos, espécie de videntes, eram detentores de conhecimento e tinham como tarefa ser porta – vozes das Musas, ou seja, não eram os autores dos versos que declamavam, eram simplesmente os instrumento de que as Musas se serviam para a transmissão da mensagem, elas falavam através deles com o objetivo de “conduzir as mentes de seus ouvintes ao encontro de um mundo oculto” (KRAUSZ, 2007, p.23), eram eles que, intuídos pelas musas, faziam com que a poesia fosse provedora de conhecimento, eram os responsáveis pela manutenção da cultura, já que desviavam a visão do homem “da realidade concreta e imediata para outra, o mundo remoto e imaginário, que contém a memória de tudo o que foi” (ibidem), ou seja, através da poesia uma sociedade conseguia conhecer seu passado ligando-se diretamente a ele. Essa inextricável ligação da poesia com o poder das divindades desde os primórdios demonstra que os poetas sempre foram servidores das Musas, “uma espécie de sacerdote em contato próximo com uma realidade inacessível a outros mortais (ibidem, p.50), dessa maneira, podemos crer que o poeta sempre foi imbuído de um poder que não lhe é próprio, ele sempre foi o portador das verdades divinas, já que a poesia “tem o poder de proporcionar aos mortais o esquecimento dos próprios males”
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Aluna regular do Curso de Mestrado em Teoria Literária da Universidade Federal de Uberlândia

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que é poeta. p. teu desamor também Há de passar.] produz determinado tipo de canção que é inconfundivelmente sua” (ibidem. que ele também é fruto de uma laboriosa tarefa que vai se concretizando em cada verso. e aceita que é assim sempre. profecia. revelação. o momento da expressão poética tira a palavra de sua função meramente representativa. compondo: Nós dois passamos. se comparada à dos aedos. Sua poesia está situada nesse jogo em que os opostos se conciliam e o belo passa a residir nos opostos complementares que denunciam e espelham afetos. Trevo escuro Desmemoriado. “o poeta aos poucos deixa de ser o comunicador de uma voz divina para tornar-se o artesão que. nítido Nós dois passamos porque assim é sempre. que permite que a poesia se faça ver. nos revelando que poeta e fazedor de palavras estão sob os influxos do tempo. E os amigos E toda a minha seiva. medos e excessos. é aí que a figura do poeta vai se situar nas esferas do dom e da técnica e do sagrado e do profano.21) O poema hilstiano traz em si a certeza de que tudo passa e há de passar. permite que tudo passe. Inconsentido. meu suplício De jamais te ver. fazedor de palavra.67) e sua atividade. e faz com que seu poema seja hierofania.112). porque trabalha as palavras para dar vida ao verso. foi ganhando novas assertivas à medida que o homem passou a estabelecer uma distância entre ele e as Musas. graças a suas habilidades [. amor e desamor. é ele que promove a ambivalência do sentidos e enriquece a poesia. no entanto. a fazendo retornar à sua 2 . 2003. (HILST. capaz de mostrar a coexistência das essências opostas. Sou apenas poeta E tu. coincidido e ardente No meu tempo de vida tão maduro. vida. nos revela uma associação com as divindades que os fazem narradores de verdades que eles nunca presenciaram. p. e o sujeito poético. E singular e raro este tempo inventivo Circundando a palavra. percebendo que o tempo é o fundador da multiplicidade do ser. p. limiar em que situamos a poética de Hilda Hilst. Essa ligação profética.. mas revela em seu trabalho quase que artesanal. poesia.. Porque o tempo da poesia é singular raro.(ibidem. lúcido.

então afinal qual a diferença entre o poeta e o fazedor de palavras? Seria a mesma proposta por Dufrenne? Ao poeta a inspiração e ao fazedor de palavras a técnica? De acordo com a definição de Dufrenne. fazedor de palavra”. o que envolve releituras e revisão do texto” (GRANDO. ou seja. porque se ela é trevo escuro. lúcido. p. pois “normalmente exige reelaboração da linguagem e experimentação. estudiosa de crítica genética e da poesia hilstiana. porque poesia é a busca de um sentido mais profundo para a vida humana. e não o estado poético como acontece com o poeta inspirado. e assim seu uso gera seu aperfeiçoamento. o poeta artesão é o “técnico”. aquele que tece. Para Octavio Paz “a técnica é procedimento e vale na medida de sua eficácia. sabe o quanto lhe custou alcançá-la” (DUFRENNE. é também símbolo que significa o mundo e o salva do vazio. p. trabalha a palavra até a exaustão para encontrar o verbo adequado. Mikel Dufrenne no livro O poético aponta uma bipartição na figura do poeta. ela é aprendida na medida em que é utilizada.20).. p. quer conhecer todas as receitas da sua arte por ter feito longamente seu aprendizado ao inscrever-se na escola de mestres [. é preciso um trabalho com a linguagem.244). ele é o detentor de uma técnica que foi aprendida e treinada para atingir a perfeição. p. criado por uma ‘técnica’ que morre no instante mesmo da criação” (ibidem.] reivindica para si a excelência. porque fazer poesia é um trabalho laborioso.20).123). 1969. Cabe ao poeta revelar a palavra poética. e afirma que Hilda não planejava e nem programava a criação de seus poemas. símbolo de mediação entre o sujeito e a sua transcendência.. porque “cada poema é um objeto único. Cristiane Grando. fazer e desfazer que o artesão executa. o que mais lhe importa é o ato poético.verdadeira essência linguagem originária em que a imagem se impõe com sua força expressiva. isto é. 1998. na medida em que é um procedimento susceptível de aplicação repetida” (1983. é “o homem de uma profissão. cria. Hilda Hilst poetiza: “Sou apenas poeta / E tu. artesanal. e o poeta cria sua própria técnica que em Hilda Hilst nunca é puramente racional. sendo: o artesão e o inspirado. 3 . nos esclarece que o processo criativo da poeta Hilda Hilst é resultado desse trabalho de tecer e destecer.

2003. Ouro mais raro”.130). Alguns poemas são reelaborados várias vezes. e pelas quais ele recusa que a poesia se prostitua. para libertar-se ao libertar a arte” (ibidem.130). 1969. p. e é na figura do poeta que a arte ganha e assume seu papel de estar na mediação do sagrado e do profano. antes de serem passados a limpo.38) A técnica hilstiana é a voz de um sujeito que se mostra não como seguidor de receitas do fazer lírico. “reivindica a inspiração apenas para ser livre. Voltaire de “entusiasmo”. porque ele “Pede à divindade. ora copiados à mão. p. na concepção duffreniana. meu dom. há na relação entre esse e a linguagem o que conhecemos por inspiração. “E minha voz e cantiga? / Meu verso. p.130). de forma intensa e rápida. sortilégio. p. (GRANDO. vida?” (HILST. p. ou seja. celebrar poderes. Para libertá-la da escravidão a fins alheios: distrair. porque cada poema de Hilda Hilst é único e ressoa da alma. sua criação é motivada por esse terceiro elemento que o anima. (HILST.39) O poeta inspirado. é aquele que valoriza o estado poético em detrimento do ato poético. já que a poesia hilstiana é mediação que se faz verbo de amor.94) Dufrenne comenta ainda que “o poeta inspirado reivindica para si a inspiração como uma potência primeiramente negativa para libertar a arte. outros encontram sua forma e musicalidade nas primeiras versões. A operação poética é diferente da operação técnica e não conseguimos ver um manual de instruções que nos orientam a fazer poesia. / De poesia.Nota-se que normalmente seus versos são redigidos pela primeira vez à mão. Rollo May denomina de “elemento demoníaco” e Eliade chama “mana”.131) 4 . ela deve ser imparcial a isso. porque é um meio que o poeta tem para libertar-se do real recriando-o. todas as tarefas às quais a prosa pode submeter-se. Para subtraí-la também às pressões formais que arriscam a paralisá-la ou mecanizá-la (DUFRENNE. Para o pensador do poético a arte não tem que servir a objetivos ideológicos e sociais. ensinar. e que Antônio Brasileiro chama “delírio sagrado”. 2003 p. “o poeta inspirado não admite que a arte seja submetida a uma dialética que acabe por destituí-la” (DUFRENNE. uma vez que ela é “um meio de ir diretamente a Deus sem passar pela mediação de uma Igreja” (ibidem. p. 1969. ora datilografados.

é preciso revolucioná-las. Depois de mais ou menos uns 30 dias. e não se consegue mudá-lo seguindo regras. é o lançar de um novo olhar para a vida. anotei e coloquei-a em minha mesa. eu estava folheando um dicionário de autores estrangeiros. Então anotei a frase. respiração. já que ela não está no campo da objetividade e da racionalidade. que fala por meio dele. e então a poesia vem quase num fluxo. um sentimento que não sei definir. Tenho uma bonita do Oscar Wilde que diz: ‘Todos nós estamos na sarjeta. Quando terminei de ler essa história. porque esteve na linha mediadora que ao obedecer as regras. O primeiro verso aparece para você. me veio uma frase assim: ‘Uma égua na água sob a lua’. porque a “atividade poética é operação capaz de transformar o mundo” (PAZ. fervoroso. e sua poesia sempre foi “inspiração. de repente.15). é um estado quase inexplicável porque surge a qualquer momento. é um sentimento quente. p. que embriagado sai do barco uma noite e. conforme declaração: A poesia você não programa.174). e a poética hilstiana é isso. 1983.É necessário que a poesia não se sirva das regras acadêmicas para fundar-se. Outro dia. Às vezes eu anoto umas frases e coloco em minha mesa. 2007. 2 DELÍRIO SAGRADO E O DEMÔNIO DO TRABALHO: VIAS DA CRIAÇÃO Em Platão a discussão sobre a figura do poeta inspirado também é apresentada. uma coisa febril. quase inteira (HILST. mergulha na água e morre. está num frenesi” (Apologia de Platão apud KRAUSZ. mas alguns de nós olham para as estrelas’. Achei a frase bonita. uma vez que racionalmente não se consegue fazer poesia. para o pensador a criatividade poética é uma espécie de dom divino. ela está muito além disso. de repente. p. como se estivesse entrando em contato com algo que não sabe explicar. in: MASCARO. as recriava. e sim a intensidade de uma experiência vital. exercício muscular” (ibidem. Hilda Hilst produz poesia seguindo esse fluxo do estado poético. por acaso. quando leio a história do poeta chinês Li Tai Pó. me veio um fluxo amoroso. e no momento da criação ele é “possuído por um deus. porque estaria assim destituído de sua razão para criar. não sabe quem é.15). ele está fora si. 1986) 5 . ao querer apanhar a lua refletida no lago. porque nenhum homem tem a capacidade de criar uma obra poética se não for inspirado por um deus. quebra de paradigmas. p.

p.. (2003. NEM ME SIGA. redonda. escrevi os dez poemas em quinze dias.. in: BORSERO. Exorcismo.51) Ao falar do poeta artesão. convencido de que a simples técnica fará dele um bom poeta. magia. já que a “influência divina na arte poética é submetida às rédeas da razão e só assim a poesia é capaz de conduzir a qualquer tipo de conhecimento da verdade” (KRAUSZ. Sublimação. Saí do banho toda contente. seja dominando uma técnica. Então veio o segundo. presença. p. afirma que o poeta não é puramente técnica ou puramente inspiração. Dufrenne afirma que “o desejo que o invade é imediatamente satisfeito pelos mecanismos nele organizados. 2002. (HILST. compensação. E DE MIM MESMA NUNCA SE APERCEBA. Túlio. seja dominado por um dom. p. êxtase. QUE ESTE AMOR NÃO ME CEGUE. logos.] Confissão.. condensação do inconsciente [.. desse modo. maneira pelo qual o pensamento platônico definiu a inspiração e se “algum homem vier às portas da poesia sem a loucura das Musas. 2007. esboçada”.Em seu livro Íon. Lindos. ele será malogrado. Platão discute que os poetas ao criarem seus poemas estão sob o influxo de uma possessão ou mania que vem das Musas.15). sob o influxo da inspiração que os versos de Cantares do sem nome e de partidas se dão: Então. 6 . Jorge Coli afirma que a poesia hilstiana.176). p.177) É. A epígrafe é do Camões. 1995) Os versos hilstianos sopraram sempre loucura. em sotaque português. (apud KRAUSZ. 1983. 2007. p. Experiência inata “ (PAZ. porque o poeta é verdadeiramente o que encarna a linguagem. ainda. foi se fazendo / Em mim [. foi sempre “oração. lindos. p. e a poesia daquele que está em pleno juízo se revelará inferior àquela dos possuídos”. 1969. litania. e que tornam a fala mais organizada e fluente” (DUFRENNE. epifania. (HILST. conjuro.] / A idéia. Túlio. um dia o primeiro verso do poema. e Hilda Hilst deixa uma certeza “Antes de ser mulher sou inteira poeta”. Hilda Hilst concilia: “A idéia.124).60) É importante observarmos que segundo Dufrenne. definido por Hilda Hilst como fazedor de palavras.

2003.157). Hilda Hilst também trabalha a linguagem e nos confirma afirmando sobre o processo criativo de A obscena senhora D: Tenho sensações diversas e também medo. e como gostaria Octavio Paz em Signos em rotação (1996) numa situação ideal. não estamos afirmando que basta a influência das Musas para que o poema esteja dado e definitivamente pronto.85). A partir disso. O texto já vem bastante arrumado porque já foi vivido esses dois anos.Atinge o cerne de nossos destinos. Essa verdade maior é afirmada nos versos: “Retoma. têm o impulso da criação e quando esse cessa fica a necessidade do labutar. sobretudo.98) É importante destacar que ao falarmos de criação literária e de suas influências. ela é “em sua essência uma operação poética que consiste em ver o mundo como 7 . revolver algo não suficientemente explorado dentro de nós. um pouco. Ela sempre suscita aquilo que somos. (1996) Utilizar a linguagem para fazer poesia foi sempre um mistério que envolveu a história da atividade literária. Hilda Hilst é feiticeira. para além das palavras. 1984. Coisas que transformamos em ausentes e que pertencem. p. de modo justo. passamos a perceber que a poesia consegue atingir seus destino que é transmutar a realidade. para além das éticas e dos valores. haja vista que o fenômeno da criação artística apresenta-se ainda como um desafio. antes. 1986) Assim. minha poesia”. mesmo que pouco. e fazer poesia “é. com a linguagem. (HILST. mas também autocriação” (PAZ. 2007. Buscar compreendê-lo é. Túlio. P. porque a experiência poética é uma experiência de vida. uma vez que o poeta participa dela de maneira completa. os seres humanos viveriam a poesia que não careceria ser escrita porque seria ela mesma a vida. então não há muito o que ficar trabalhando (MASCARO. porque a linguagem é “o mais misterioso de todos os atributos humanos” (KRAUSZ. fazer-se a si mesmo: a poesia não é só autoconhecimento. é pitonisa: seus versos misteriosos nascem de uma embriaguez divina que nos faz entrever o essencial de que nos esquecemos. p. ao sem nome. os poetas foram os mais corajosos na busca desse deciframento. o poeta inspirado. pois há dois anos que estou convivendo com aquela personagem [Hillé] e sei que agora é hora de passar para o outro o que já estava sedimentado dentro de mim. / O que pertence à vida: / Meu sangue.

p. e a voz do poema nega a lucidez do fazedor de palavras. p. 2003. freqüentemente parece milagroso. Dessa maneira. “a operação poética consiste em uma inversão ou conversão do fluir temporal. “Inconsentido. p. tão flamante meu preclaro tecido / Que o mundo inteiro. p. da verdade absoluta” (GUIMARÃES. 1984. 1984.11).79) Ao tomar consciência que o tempo é operador de mudanças.57) Poeta e fazedor de palavras dão se as mãos e aceitam que não conseguem deter o tempo. é “uma forma de representação capaz de revelar a unidade que permite a subsistência de todas as diferenças entre as partes” (GUIMARÃES. 2004.157). 2004. o poema não detém o tempo: o contradiz e o transfigura” (PAZ. é objeto humano feito de linguagem.73).73).83) e “seu poder não apenas de comunicar verdades a respeito da realidade. 2006. e tudo passa.uma trama de símbolos e de relações entre esses símbolos” (PAZ. o homem não o consegue detê-lo. nítido”. p. porque o poema “é o espaço onde as criaturas se recriam e recriam o mundo numa relação que se avizinhe o máximo possível. e o sujeito hilstiano vê “Do tempo / As enormes mandíbulas / Roendo nossas vidas” (HILST. / E singular e raro este tempo inventivo / Circundando a palavra. assumindo a experiência poética. ela o singulariza na sua universalidade. 2006. Em seu tempo inventivo o poeta se encontra “Desmemoriado. atinge o dom da profecia e imbuído de um delírio sagrado mostra o amor como sua mola propulsora.46). P. esse tempo é fugaz. p. mágico e também perigoso” (KRAUSZ. porque a palavra é trevo escuro. “Nós dois passamos porque assim é sempre. e percebe a indecifrabilidade desse momento. coincidido e ardente /No meu tempo de vida tão maduro”. revelação da nossa condição original. a palavra é o indecifrável. É desse poder encantatório da poesia que a palavra hilstiana nos põe frente a versos que mostram que sua criação vai além da técnica de criar versos. é diálogo que concilia. 2003. Trevo escuro” porque o tempo é portador de mudanças. o poeta percebe a singularidade e raridade do momento de criação poética. há de cantar comigo” (HILST. porque ele é “Brevidade de um passo no passeio”. percebemos que a criação literária não detém o tempo.75) A poesia é convergência de contrários. mas também de levar a um consenso diante da realidade. e mesmo que 8 . não o amarra e o declara encerrado. e questiona “Devo continuar a te dizer palavras / se a poesia apodrece / entre as ruínas que é tua alma?” (HILST. 2007. p. amor. “Tão intenso meu canto. p. e por isso o sujeito hilstiano sabe que passará. (HILST.

p. é inspiração. gênio.mundo curvo . como de toda arte. razão” (1984.54) Existe um equilíbrio que o canto poético vem completar para que um novo tempo tenha início e novos caminhos e espaços possam ser percebidos. é vida se fazendo canto.. o eu hilstiano nos revela. ele se esvai. percebemos que o tempo é instaurador de mudanças. “Tomo para mim uma tarefa inteira: A de guardar um tempo. é poesia e é vida. mas é trabalho. mas é razão. pois o que tem que falar é a voz da poesia. 1984.60). assim. porque ela é transcendência.191).se vida. a poesia é a convergência de uma linha . A poesia hilstiana tem o poder de instaurar no tempo de sua criação. em que a experiência do eu entra em contato com a realidade exterior” (GUIMARÃES. por si só já é contraditório. acaso. 2002. mas que o burila para que o poético habite uma esfera da razão. p. espírito. “Porque tu sabes que é de poesia / Minha vida secreta” (HILST.tentemos detê-lo é impossível. é ato sagrado que irrompe em um universo profano. “o poder da poesia. Para Octavio Paz o poeta recebe colaboração em sua atividade poética que “alguns chamam de demônio. existe a voz do poeta e a voz do sujeito poético que se enlaçam extinguindo as fronteiras para alcançar a unidade de uma voz que é simplesmente o ressoar poético. 3 CONCLUSÃO Fazer poesia é uma arte situada entre o dom e a técnica e o poeta é aquele que intuído pelos deuses recebe o dom da poesia. outros dizem trabalho. 2006. porque o eu hilstiano rompe com a realidade interior e dá vida a sentimentos de alma que são o seio de sua escrita.. é demônio. tentamos apreendê-lo. musa. p. mas é gozo. 2002. mas que na poética hilstiana é um pouco de tudo. e a voz do poeta aparece no limiar da autenticidade e inautenticidade. consiste em evocar em nós os sentimentos contraditórios. mas que cumpre a uma finalidade.reta que leva o homem à compreensão do amor e da amplidão. porque traz em si uma conciliação de forças contrárias. é subjetividade. 9 . p.82). enfim. é suor.). inconsciente.191). um momento sagrado. porque sua voz “é e não é sua”(PAZ. p. mas por ser fugaz. fecundar a alma de todos os conteúdos vitais. o todo que recebe / E livrá-lo depois de um jugo permanente” (HILST. O fato de ser poesia. realizar todos esses momentos interiores (. é canto fazendo . dessa maneira.

São Paulo: FFLCH-USP. 4 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DUFRENNE. ______. Cristiane. Maria Severina Batista. 1982. ______. 10 . Porto Alegre: Editora Globo. São Paulo: Globo. São Paulo: Globo 2003. O arco e a lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Os filhos do barro: do romantismo à vanguarda. 2005. O canto imantado: Um estudo da poesia lírica de Adélia Prado. Goiânia. GRANDO.69). Cantares. ______. ______. PAZ. 1969. ______. Baladas. As musas-Poesia e divindade na Grécia arcaica. 2006. 2. 2002. ______. (Doutorado em Estudos Literários). 21 de junho de 1986. São Paulo: Globo. Ed. Hilda. São Paulo: EDUSP. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Signos em rotação. Dora Ferreira e Hilda Hilst. Ed. “Hilda Hilst”. Obscena Senhora Morte – Odes Mínimas dos Processos Criativos de Hilda Hilst. São Paulo: Globo. Do desejo. Memória e Noviciado da Paixão.Hilda Hilst tem consciência disso afirmando: “Nada ficou de mim / além de eu mesma. Luis S. 2003. 1998. Amavisse de Hilda Hilst: edição genética e crítica. 1984. O poético. 3. 2002. mas a voz de sua poesia ficou e há de permanecer enquanto houver o desejo de ir além. In: Jornal da Tarde. São Paulo: Perspectiva. / Tênue vontade de poesia” (2003. p. ______. São Paulo. Sônia de Amorim. Júbilo. 2004. (Dissertação de Mestrado). São Paulo. São Paulo: Globo. GUIMARÃES. Octavio. (Doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada). MASCARO. porque ela partiu para o infinito. Mikel. 2007. Exercícios. 2003. KRAUSZ. HILST.