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Mód ulo 3 - O e n sin o d a Hist ór ia e as Se n sib ilid ad e s

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apenas. nossa preocupação. em geral. A assepsia dos sentimentos do desejo ainda continua em voga para muitos historiadores. consequentemente. Portanto. dotado de matéria e espírito que se interpenetram. Para os racionalistas (Kant. filósofo francês. o referido autor foge do antagonismo excludente entre razão e emoção. que tem raciocínio lógico. outro filosofo francês. que está intimamente vinculada ao sentir. Assim. Merleau-Ponty (2006). não devem ser excluídas do conhecimento histórico e enquanto tais devem ser trabalhadas no ensino de História. o Doutora em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de São Paulo (USP). p. porta de entrada das sensações. argumenta que o que torna o homem diferente dos demais animais é a sua capacidade de criação. outras interpretações fizeram embate com a anterior. entre outros). esta é. carnal. 26). ela alija do conhecimento acadêmico as emoções. Já Castoriadis (1982). que compreende o homem como um sujeito com corpo. é argumentar que as sensibilidades são partes constitutivas do ser humano. * 2 . assim. Professora do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB). Todavia. destituído de sensibilidades. ainda vagueia por entre a dúvida e a certeza quanto à incorporação das sensibilidades e das emoções na construção do conhecimento. neste artigo. como as demais ciências sociais. embora portador de razão é também portador de intensa sensibilidade. é a capacidade de ser sensível que permite que o novo não seja mera repetição do velho.O ensino de História e as Sensibilidades Cléria Botêlho da Costa * A História. Sob a ótica de Ponty (2006. Partiremos das diferentes interpretações teóricas do que é o homem. A História: uma construção humana e sensível Neste artigo nossa ancoragem epistemológica repousa em Ponty. em nível de graduação e pós-graduação. por exemplo. local onde o sentir inicia-se. Todavia. os múltiplos caminhos do ensino de História. a primeira concepção de homem que nos é repassada nos primeiros anos do ensino básico. o homem se configura. Essas diferentes concepções filosóficas do homem orientam diferentes interpretações da História e. porta de entrada das sensações e de alma ou psique. Diante disto. Descarte. os seres humanos dispõem de um corpo físico. como um ser que pensa. como se o homem fosse um autômato guiado pela razão e. Assim. portanto. parte da compreensão de que o homem. ele então o conceitua como um ser sensível.

a morte. os sujeitos humanos. entre plantas e galinhas.conhecimento sensível emerge dos sentidos. Nessa trilha ganharam relevo temas como a cultura popular. a primeira que aprendemos é a História grandiloquente de Hegel. sem relevância. o qual transcrevo um trecho abaixo: A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalha e nos gabinetes presidenciais. nos namoros de 3 . padecem de desilusões. os sentimentos e as emoções. 211). 1994). mas que compõem o dia a dia dos homens. a criança. a História. século XXI. quanto o sem-terra. o estudante. as mulheres. para os historiadores que se ancoram na percepção de Ponty e próximos dele. que obedecem a outras lógicas e princípios que não os racionais. e a sensibilidade é uma forma de ser e estar no mundo sob o signo da alteridade (RICOEUR. sofrem. Isso me faz lembrar Benjamin (1989. Foi esse fato. por serem sensíveis. Michelet substituir reis e outros personagens históricos tradicionais pelas massas. os letrados. ao narrar a Revolução Francesa. segundo Ranciére. nas casas de jogos. em longa duração. com a subjetividade. os sentimentos. nos colégios. nas escolas. Assim. Por outro lado. Ranciére (1992) analisa como foi possível. E essas forças monumentais eram e são vividas pelo homem. a uma finalidade. a História saiu das armadilhas da história universal. vem do íntimo de cada indivíduo. que possibilitou o surgimento da nova História com Bloch e Lucien Febvre já no século XX. Em relação à História vale lembrar que. Logo. Desse modo. ao colocar que nenhuma prática cotidiana pode ser considerada perdida para a História porque ela é essencialmente humana. com a natureza. com os valores. mas também trilham por entre alegrias e esperanças. o corpo. se abrem para o mundo. Ela se desenrola nos quintais. as minorias. Em livro recente. se comunicam com o outro. que amam. são edificadores da História tanto os reis e as rainhas. se apoia na ciência pós-moderna que proclama narrativas fragmentadas e o trabalho de pesquisa a partir de micros acontecimentos. ao fugir do universalismo. Os artífices da História são os sujeitos humanos. lida com o emocional. numa era democrática. que os levam irremediavelmente a um destino. trabalhamos com uma História linear e sem sujeito. em geral. nos prostíbulos. são seres sociáveis. Contudo. hoje. os não letrados. entre outros. entre muitos outros. os índios. Pensamento bem expresso no poema de Ferreira Gullar. nas usinas. construção pura da razão humana e é apreendida como uma construção de sujeitos: de homens de carne e osso. na França. nas ruas de subúrbios. aparentemente. aprendemos a vê-la em vastos panoramas em que o homem se dilui e se eclipsa diante de forças tão infinitamente superiores às suas que esquecíamos que essas estruturas colossais eram e são vividas pelo homem. p.

formação crítica que só será empreendida via pesquisa e entendemos a 4 . pensamos que a relação ensino-aprendizagem traz em seu bojo a reconstrução das identidades. Trabalhar a História levando em conta o cotidiano é fazer o que os italianos chamaram de micro-história. pois ela se contrapunha ao que se chamava de história cientifica. É no quadro desta compreensão que o sentir humano confere um colorido à História. Conhecer o passado para ajudar a melhor entender o presente e planejar o futuro. passado ou futuro. criando o que se chamava de cor local. é o tempo – presente. sob o qual se emolduram diferentes sentidos e significados para os fatos. diante do quadro sedutor do mundo pós-moderno. quando se falava em trabalhar o cotidiano dos sujeitos na História. 26). O cotidiano era visto como um folhetim. para nos tornarmos sujeitos da história brasileira. até recentemente. o nosso bairro. p. o sustentáculo. que os tornem compreensíveis. Todavia. o papel fundamental da educação é a formação para a cidadania. Para Paulo Freire (1968). No entanto. Todavia. um significado. imprimir-lhes um sentido. ele o é porque nele se integra um imaginário. século XXI. em sua dimensão econômica. assim. por meio da narração de eventos. que tinha por finalidade descrever da maneira mais íntima possível o dia a dia dos homens do passado. deve se ater aos fatos corriqueiros da vida humana porque a partir deles podemos construí-la levando em conta as experiências do cotidiano dos sujeitos. a expressão trazia consigo uma herança pesada de desconfiança e mesmo de desprezo. na esteira de Ricoeur (2004). 1994. mas muito complexo. uma forma de torná-la um direito de todos. política e afetiva. social. vale lembrar que. a raiz que sustenta a História. uma visão global do homem. conhecer passado e presente para conhecer a nós mesmos. Outra dimensão que consideramos importante na escrita da História é a compreensão do homem integral. um direito humano. o cotidiano é algo mais do que a simples descrição dos fatos miúdos e corriqueiros do dia a dia. uma sensibilidade. realçando tanto quanto possível o aspecto exótico deles em relação ao nosso. o nosso país. Desse modo. à medida que busca. é uma construção humana. 1994). fatos. um romance. Seu maior charme estava no fato de descrever usos e costumes de sociedades passadas. Tempo que. a nossa escola. o conhecimento do passado é tornar a educação um instrumento de formação para a cidadania e. e que serve para conferir-lhes um significado nem sempre apreendido de maneira direta (ODÁLIA. como se tratasse de uma História de baixo nível acadêmico. vivido com a mesma intensidade dos fatos miúdos. de uma comunidade. entendemos que a História no presente. No entanto.esquina. Disso eu quis fazer minha poesia (FERREIRA GULLAR. que a diferencia das demais ciências sociais. de um bairro.

em geral. como destroços de outro tempo. na maioria das vezes. A partir desse entendimento. Pois o que a educação pode oferecer de melhor ao aluno é o saber pensar politicamente. concordamos com as criticas de Paulo Freire à educação bancária. Desse modo. monopoliza a relação pelo argumento de autoridade e o aluno se percebe como inferior. que a reflexão sobre a História se impõe como uma necessidade fundamental no processo educativo. Todavia. com a cultura do aluno. sobretudo. ensinar e aprender é uma relação de mão dupla. quanto os alunos ampliam seus conhecimentos com os professores. em direção ao futuro. vontades. se apresenta carregada de tensão. pois quem aprende não é só o aluno que houve a preleção do professor. em sala de aula. em sala de aula. no cotidiano de nossas escolas. que apreende o passado como ruína. experiências e poderes diferenciados. A escola básica deve propiciar ao aluno a oportunidade de ascender à condição de sujeito autônomo e com esta compreensão ele pode ser capaz de se confrontar coletivamente organizado. famílias) estamos estimulando não somente a pesquisa. mas também o exercício da cidadania. permanece inerte na relação como se o ato de educar coubesse apenas ao professor. são sujeitos da produção do conhecimento histórico. professores e alunos são sujeitos com vozes e direitos de aceitar. como cidadãos. por ser tão desigual. participação coletiva. Assim. tanto o professor muito aprende com os alunos. bem diferente da sua. o professor. é por nós compreendida como uma relação dialógica. como uma tabula rasa. modo de educar no qual o aluno não passa de um depósito dos conhecimentos do professor. Ensinar e aprender se configuram. desprovida de prazer. requer luta e. a busca de novos conhecimentos. a ser moldado pelo professor. em geral. e que por isso é rotulada. Ensinar é uma forma de comunicação com 5 . criticar. esta relação ensino x aprendizagem. mas este também enriquece com a experiência. como um diálogo entre sujeitos. reclamar. É dentro deste quadro de uma sociedade que supervaloriza a especialização. detentor de maior experiência e de conhecimento acadêmico. entendo que quando realizamos pesquisas com os alunos sobre a escola onde estudam (bairro. Eis a relação mais direta entre educação e cidadania. que direciona seu olhar. como “sociedade sem memória”. desejos. na cotidianidade dos homens. fundamentalmente.relação ensino/aprendizagem de História excelente oportunidade de formar nossos alunos como críticos. Ensinar e aprender: uma relação dialógica e sensível A relação cotidiana entre professores e alunos de História. Desse modo. Com esta compreensão. Todavia. se torna fastidiosa. a relação ensino x aprendizagem. Com isso queremos dizer que a cidadania é um espaço a ser conquistado. então. ela ocorre entre sujeitos com vozes.

o ensino de história precisa estar atento para as diferentes nuances da sociedade contemporânea. podemos entender que a relação ensino x aprendizagem se constitui como uma relação de coletivos e indivíduos. 6 . no caso. O ensino de História. quanto do aluno. de sua cidade e de seu país. temos um grande comodismo em permanecer no campo do tradicional. Sensibilidade que é expressa pelo aluno em gostar ou não gostar da aula de História. Com essa compreensão. a cidade. Em outros termos. e passa a ser compreendida como uma construção de todos os homens. que deverão evocar os estados desejados da mente e do espírito. ainda estão sendo parcialmente utilizados e ainda eivados de preconceitos. Na maioria das vezes. e do professor em desrespeitar o aluno com palavras ou gestos em sala de aula. pobre. inferioridade do aluno. com gestos ou olhares de desprezo. busca no passado elementos de ancoragem que possibilitam àquele aluno a compreensão do presente. Nesse sentido.Caxias. o aluno é também sujeito do processo de ensino-aprendizagem. rico. mas também alegrias e prazeres a buscar. entre outros. o país onde vive. de grandes vultos . com tristezas. entre outros. ou seja. o sujeito aluno é um sensível interpretador da realidade fugidia e fugaz. sobre o bairro. pela sensibilidade tanto do professor. o aluno é responsável pela construção de uma parcela da história de sua família. em matar ou não a aula de História. de novos documentos e das abordagens. na zona do conforto. seja branco preto. de sua escola. como o historiador poderá comprometer-se sensivelmente com um tempo e extrair-lhes os significados? Pensamos que entram em cena novos atores com sensibilidades mais tangíveis como professor e aluno. que. Assim. A partir da perspectiva apontada acima tentaremos desvendar alguns caminhos possíveis do ensino de História em suas mais variadas formas – escritas. Pedro I. atravessam o mundo e os gostos em diferentes versões. D. a História deixa de ser uma sucessão linear de grandes eventos. vem evocando com muita propriedade a capacidade do sujeito. Precisamos ensinar a captar a realidade por meio dos novos objetos. E esta relação está permeada pelo imaginário. de seu bairro. Assim. Assim. o aluno perceber o mundo que o circunda por meio da sensibilidade. nas práticas educativas. do pragmático. que são obtidos pela qualidade da universalidade destas manifestações. pois é natureza humanizada em que a razão e emoção devem se cruzar. hoje. pessoas de carne e osso. em estudar ou não a disciplina.o outro. entre muitos outros. em não estimular o gosto pela disciplina. permeada por diferentes visões que a cercam. tais como Segunda Guerra Mundial ou a Revolução Francesa. audiovisuais e digitais. dores. Nesse sentido. Cabe ao professor criar o clima e a atmosfera necessários ao despertar de emoções e sentimentos apropriados na sala de aula. doutor ou lavrador. Desse modo. a visão de mundo do sujeito aluno de “ver” e “refletir” sobre sua família. Princesa Isabel.

Pensamos que para ocorrer uma aprendizagem significativa faz-se necessário “tocar” nas sensibilidades do educando e do educador – sujeitos do processo de ensino-aprendizagem. está aportada em teóricos como Edgar Morin (2000). como concretizar a sensibilidades na aprendizagem do ensino de História? Antes de tudo. Assim. passíveis de sensibilidades. entre muitas outras: o cinema. Todavia. o teatro. apesar de a sensibilidade fazer parte da natureza humana. é aquele que é capaz. a sociabilidade. entre outras. O entendimento sobre a complexidade dos conceitos de sensibilidade e sociabilidades devem fomentar práticas pedagógicas voltadas para uma aprendizagem significativa do ensino de História. de sua aprendizagem. do bairro. algumas formas possíveis.Esta compreensão do homem/aluno como sujeito de sua história. é preciso deixar claro o que entendemos por ser sensível. constituído por distintas dimensões: biológica. 7 . Tais práticas devem dar a devida atenção às mudanças que se processam na produção do conhecimento histórico. entre outros que concebem o homem como sujeito inteiro. A constante troca de experiências se dá no campo dos debates e das críticas. com líderes da escola. são formas em que a sensibilidade do aluno e do professor podem se misturar e fazer do ensinar e aprender uma relação de prazer. com o ambiente natural e sociocultural e possibilita o advento do “conhecer” a si mesmo e do conhecer a alteridade. relacional e racional. Nesse sentido. Todavia. fazendo a relação entre saber histórico e saber escolar. entendemos que as discussões sobre a prática do ensino de História tornam-se indissociáveis do viver e do “ser” sujeito da própria história. fornecendo as possibilidades para o uso de novas linguagens no ensino desta disciplina. por via das emoções. passeios no bairro. afetiva. que interagem entre si. de perceber a existência do outro. cabe-nos educá-los para que o aflorar e a aceitação dos sentimentos também são parte da constituição humana e também parte do conhecimento científico. embora este terreno ainda seja movediço. a seguir. como trabalhar o sensível em sala de aula? Apresentaremos. é que tentamos transformar as leituras da realidade numa prática sociável. as entrevistas orais com familiares. Como sujeitos aprendentes. ele promove a interação. os outros.

São Paulo: Brasiliense. Cornelius. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 2006. MORIN. Rio de Janeiro: José Olympio. Jacques. ODÁLIA. Fenomenologia da percepção.Referências BENJAMIN. 1994. Campinas. Edgar. Ferreira. RICOEUR. Paulo. Walter. 8 . Paul. 1994. 1968. 2000. 1989. São Paulo: Martins Fontes. Indagações de hoje. 1982. SP: Papirus. Obras escolhidas (Volume 1). Paris: Seuil. A cabeça bem-feita: repensar a reforma. Tempo de narrativa (tomo 1). Les mots de l’Histoire – Essai de poétique du savoir. Nilo. 3 ed. São Paulo: Brasiliense. 1989. MERLEAU-PONTY. A instituição imaginária da sociedade. CASTORIADIS. Rio de Janeiro: Paz e Terra. FREIRE. Rio de Janeiro: Paz e Terra. GULLAR. Educação como prática da liberdade. RANCIÈRE. O saber e a história. Georges Duby e o pensamento historiográfico contemporâneo. reformar o pensamento. Maurice. 1989.