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1 A ANÁLISE COGNITIVA DAS POLÍTICAS PÚBLICAS: RUMO A UMA SOCIOLOGIA POLITICA DA AÇÃO PÚBLICA – PIERRE MULLER

A análise das políticas públicas, que surgiu relativamente tarde na França, conheceu ao longo dos últimos vinte anos um desenvolvimento considerável: As teorias controversas se multiplicam, os trabalhos empíricos estão em abundancia, alimentados pelo entusiasmo de uma geração de jovens pesquisadores que avaliaram os novos questionamentos sobre o objeto politico que essa abordagem permite questionar. No entanto, paradoxalmente, esse desenvolvimento levantou uma inquietude entre os que mais contribuiram para introduzir na França esta nova maneira de pensar política: A analise política está ameaçada pelo seu próprio sucesso? É muito cedo para formular uma declaração tão pessimista. Em revanche, podemos pensar que uma reflexão sobre as contribuições da análise de políticas públicas de ciência política é útil nos dias de hoje. É preciso se perguntar quais conceitos e os métodos da policy analysis nos fez mudar o olhar (pensamento) sobre a política, e quais são os limites que essa “empreitada” enfrenta hoje para renovar a análise da política a partir do estudo de políticas. A tese que gostaríamos de defender é a seguinte: de um lado, a analise de politicas contribuiu para renovar, de forma espetacular, um número considerável de questionamentos fundamentais da ciência politica, a começar pelas a que concerne a natureza do poder político, pois é ela que conduziu a sociologiser (sociologizar) a análise do Estado. Contudo, de um lado, essa empreitada de renovação enfrenta, agora, uma série de obstáculos ligados à postura de pesquisa que foi adotada pela maior parte das análises que contribuiram para essa ruptura, e que esses obstáculos impedem de mensurar, verdadeiramente, as transformações da ação pública nos dias de hoje, principalmente porque são encontradas dificuldades para questionar uma das questões centrais da ciência política: Como “fabricar” a ordem em uma sociedade complexa? É aqui que a abordagem cognitiva das politicas públicas pode acrescentar elementos de resposta, na medida onde ela tende reformular a questão da ação pública: a partir do momento em que o objeto de politicas públicas não é mais somente para “resolver problemas” , mas também para construir estruturas de interpretação do mundo, entao é possível questionar a relação entre política(s) e contrução de uma ordem social nos novos termos. Para poder confirmar esta hipótese, nós gostaríamos de relembrar inicialmente como a análise de políticas públicas criou uma ruptura no estudo do Estado e como essa ruptura encontrou seus limites. Nós tentaremos mostrar em seguida que a análise cognitiva das politicas públicas permite superar esses obstáculos, pois ela leva a renovar essa difícil questão da relação entre os atores e as estruturas de significado. Assim, ela permite levar em conta melhor a dimensção do global na ação pública e como consequència o impacto da globalização sobre a transformação das formas de ação pública.

a partir de seus outputs. Desta forma. É por isso. a mudança da política deve ser vista como o produto de várias linhas paralelas que (isso é o que difere a ciência política da geometria.2 A ANÁLISE DAS POLÍTICAS PÚBLICAS: UMA SOCIOLOGIA DE AÇÃO PÚBLICA O que melhor caracteriza a reversão feita pela análise das políticas públicas é o fato que ela compreende o Estado a partir de sua Ação. como indicado no trabalho de Kingdon. O desenvolvimento. que coloca em cena os atores do domínio interessado. É desta forma que vimos se multiplicarem os estudos que destacam a complexidade da relação de alternancia política e mudança do conteúdo das políticas públicas. em várias formas. em substituição a uma concepção 1 Observação de Cecília: Mauroy foi primeiro ministro de Miterrand na década de 80. sequência administrativa. a contribuição da análise de políticas é o de poder mostrar que a esfera da representação política constitui apenas uma dimensão – importante – que permite compreender as decisões na matéria da política pública. marcada pelo papel dos partidos e dos atores do campo político no seu sentido estrito. Em geral. sobretudo na Europa. como diz Jean Leca. ou seja. a análise política tem contribuído. em seu estudo sobre a origem da lei Lang sobre o preço único do livro. Yves Surel colocou em evidência o papel decisivo jogado pela alternância de 1981 na abertura de uma janela política levando a uma mudança radical do conteúdo da política. ainda insuficiente na França. O plano não obteve sucesso devido a grande quantidade de greves e manifestações feitas pelos empregados dessas empresas . Vários exemplos da “mudança de 1983” durante o governo de Pierre Mauroy modificaram profundamente o conteúdo das políticas econômicas francesas que eram contrárias aos projetos do “plan Juppé” de Miterrand. como uma “empresa de dominação” caracterizada inicialmente pela sua capacidade de impor uma ordem política global. o de Pierre Mauroy. De forma geral. Na realidade.. O plano Juppé foi uma plano elaborado por Alan Juppé que dava aos funcionários das empresas públicas francesas as mesmas condições sociais e trabalhista das outras empresas privadas na França. que Kingdon chama de correntes.) que se juntam durante períodos específicos graça a ação dos atores mais ou menos identificados com os domínios em que o estudo se revelará de forma central. que diz respeito à atividade de preparação e implementação das decisões.. que a análise de políticas públicas tem mostrado – sem dúvida – que as funções de governo são irredutíveis aos processos de representação politica e que não é possível “inferir” o conteúdo e as formas de atividades governamentais (como atividade específica) das características da “política eleitoral”. As políticas públicas constituem assim um nível de interpretação específica da atividade politica. Assim.1 Todavia. para romper com a concepção que considera o Estado. isso não significa que não havia uma relação entre essas duas dimensões. à profunda transformação das políticas econômicas e sociais nos EUA e UK no início da década de 80. sequência profissional. Estes se desentederam quanto à melhor forma para melhorar a situação econômica da França. Miterrand decide tirar o Franco Françes do Sistema Monetário Europeu o que acarretou na “mudança de 1983” quando um 3 º governo foi criado na França. mostrando claramente que a definição das escolhas públicas não pode ser inferida das condições da luta eleitoral. de trabalhos sobre a avaliação de políticas públicas é bem fundamentado sobre essa postura de pesquisa. de maneira decisiva. Essas sequências. não existe dúvida que os trabalhos de Ronald Reagan e de Margaret Thatcher contribuiram. dizem respeito aos diferentes universos de sentido e da ação que se articula de forma mais ou menos complexa no processo de definição de um programa de ação pública: sequência política. e que a eleição de Chirac levou a uma sensível transformação das políticas de defesa da França com a profissionalização de seu exército.

Se junta aqui a distinção clássica desenvolvida por Fritz Scharpf entre a legitimação entre inputs e outputs. no lugar de entender o Estado pelo alto e em blocos. ela nos permitirá observar por baixo e datalhadamente.. a começar pelo paradigma marxista. Finalmente. sem dúvida. o estudo das políticas públicas lança dúvidas sobre a racionalidade da ação pública.. informação . se transforma em uma máquina em que podemos até desmontar as rodas. apenas. O questionamento que se coloca nos dias de hoje é sobre os limites deste retorno de perspectiva. “o momento” da decisão aparece como um processo incompreensível em que os atores de diferentes naturezas (políticas. É sábido que os trabalhos de March. limitar as capacidades dessa aproximação a. – que permitem abrir a caixa preta do Estado. Uma quantidade de obras (livros. uma série de transformações atuais da ação pública. É possível notar que a concepção de Estado por Max Weber nada mais é que a articulação desse movimento. funcionais. na medida em que. Simon. explicar. truncadas e de natureza imensurável. bibliografias) têm mostrado que os resultados da ação do Estado poderiam ser bem diferentes dos esperados. A Análise da política contribuiu para sociologizar nosso olhar sobre o Estado. Em outras palavras. é evidentemente sobre o saber como os processos de ação pública podem não obstante produzir uma ordem legítima nessas condições. no qual a análise das políticas públicas contribuiu. Na realidade.) participam em um tipo de decantação progressiva de escolhas (que nunca são dadas de início) unindo de forma pouco coerente as informações e dados completamente heterogêneos. nos dias de hoje. poder. se domina transcende até mesmo a sociedade. Cohen e outros iluminaram os limites da racionalidade dos sistemas de decisão ao sublinhar a importância das estruturas cognitivas dos sistemas de decisão e os limites da capacidade dos atores para mobilizar as informações pertinentes.3 centrada sobre a atitude do Estado para a “resolução de problemas”. Tudo acontece como se as rupturas operadas pela análise das políticas públicas tendessem a impedir os pesquisadores que se reconhcem nessa disciplina a levar em consideração alguns dos objetos centrais da ciência política. De um Estado onisciente ou onipotente cuja racionalidade foi capaz de transceder a irracionalidade de interesses particulares. bem como a implementação de políticas públicas constituiria uma sequência irredutível à fase de decisão e suscetível a modificar o conteúdo da ação pública. O questionamento gerado. Essa primeira ruptura é acompanhada de uma reconsideração ainda mais importante: ao enfatizar a observação de resultados da ação do Estado. perguntando não apenas sobre seus resultados. Isto tem contribuído a gerar uma má visão “hégélienne”. fragmentadas e abertas ao mundo exterior? A desconstrução dos grandes sistemas de explicação de ordem politica. o que já fez sucesso na análise de políticas públicas tende. pois o Estado. que é tão forte na Europa. sobre quando o trabalho não responde verdadeiramente as necessidade. mas também pelo seu funcionamento. estratégia. a análise das políticas públicas – que na realidade é a sociologia das organizações que alcançam a ruptura decisiva – propôe ao pesquisador uma caixa de ferramentas constituída de conceitos – atores. deixa aberta a questão de . estudos. Um dos principais limites é.. a dificuldade que encontra a análise das políticas públicas para perceber uma questão central dentro das reflxões atuais sobre a política: como “será produzida” a ordem política em sociedades que são cada vez mais complexas.. A imagem convencional do “decisor” tendo na sua frente o conjunto de dados do “problema” é substituido pela a do funcionamento desordenado do conjunto de atores misturando informações fragmentadas.

o que significa que. o que fez o sucesso da análise política. O PAPEL DOS ATORES NA CONSTRUÇÃO DOS MODELOS DE INTERPRETAÇÃO DO MUNDO A análise cognitiva das políticas públicas procura responder a uma dupla ambição: integrar a dimensão do global. fundamentalmente. a abordagem não lhe é permitida de se responsabilizar pelas complexidades entre “ator e sistema”. A questão que gostariamos de colocar é. no global. É neste momento que as pesquisas de Bruno Jobert constituem um ganho decisivo na compreensão da dialética entre o jogo de atores e a transformação das matrizes cognitivas. chamadas de “fóruns”. sendo ele um ator desse globo. efetuam escolhas. Jobert questiona de fato sobre os modelos “impostos” durante a década de 80 que são vistos como referenciais de partida. uma sociedade política. que foi prejudicado. o fórum das comunidades de políticas públicas que refere à “conduta de . uma postura baseada no individualismo metodológico que coloca no centro da análise a observação do comportamento e das estratégias dos atores que compôe os sistemas de ação que são estudados. existe “qualquer coisa” a mais que transcende de alguma forma as estratégias dos atores individuais ou coletivos e não se reduzem à soma dos comportamentos individuais. Esse limite se baseia fundamentalmente sobre uma questão de método. Em seus trabalhos sobre crescimento. Que é na verdade. Essa é a difícil pergunta que surge na análise cognitiva das políticas públicas. a partir da década de 70 com a dominação do paradigma keynesiano. então. sobre a ideia de que é a partir da observção dos atores e das estratégias que estes colocam em prática que será possível analisar a sociedade global. O problema dessa abordagem ao introduzir o ator na análise é que a situação global não pode ser reduzida à estratégia dos atores. são “livres” – dentro do modelo da estrutura de ordem global na qual têm apenas uma possibilidade limitada de ação. Esta questão vai além dos limites genéticos da análise de políticas públicas. Ela não permite compreender como o ator é as vezes forçado pelo global. Jobert mostra que o processo de imposição/aceitação da mudança de referencial passa por um funcionamento diferenciado em diferentes instâncias. Essa abordagem indutiva baseada. que parece fundamental para compreender a lógica do trabalho na mudanças das políticas públicas. O “consenso modernizador” alinhado com o paradigma keynesiano desaparece diante de uma nova retórica que exalta os “ganhos” da nova competição econômica e estigmatiza os blocos sociais (encontrados nos dias de hoje com o “blairismo” no Reino Unido). O fórum da comunicação pública constitui outra cena específica da “construção da realidade social” que irá modificar os termos da retórica política com o término da guerra fria. que só existe a partir do momento quando ela se atualiza nas estratégias dos atores concretos. sobre aquela de saber se é possível de prescrever as aquisições insubstituíveis de abordagem pelos atores. O autor diferencia inicialmente o fórum científico de economistas. que abriu assim a via para uma “conscientização” dos defeitos da ação pública. o que permitiu ultrapassar as abordagens tradicionais do Estado ao “abrir a caixa preta”. atualmente. com o surgimento de novos interesses e novas reivindicações. integrando o carater irredutível da dimensão global: Como pensar o fato que os atores agem. o que é conhecido como “mudança neoliberal”.4 saber o que faz hoje “ficarem juntos” as diferentes componentes do que constitui. destacando o papel dos atores na construção dos quadros de interpretação do mundo e a implementação concreta da dialética global e “setorial”. Mais precisamente. Por último. definem as estratégias. mobilizam recursos.

e então construído. durante a década de 1970. Comum) ocorre por uma série de ajustes progressivos entre os fóruns que participam na construção de um novo modelo de interpretação do mundo segundo as modalidades de funcionamento bem diferentes. Essa distinção entre vários fóruns mostra bem a importância e a complexidade do papel dos atores na construção das matrizes cognitivas. em função de diferentes exigências (ou urgências): o funcionamento do fórum de economistas é então marcado pela pesquisa de excelência acadêmica no paradigma dominante (mas também pelo jogo de inovação intelectual e de ruptura). houve a imposição de uma profunda transformação do transporte aéreo mundial: o crescimento espetacular da demanda trouxe a aparição de grandes aeronaves seguido da criação de novas empresas aéreas no continente asiático. ou segundo os países. a era da propulsão /reação e em seguida a do transporte em massa. Assim. a construção de aviões de transporte civil é cada vez menos derivada da concepção dos aviões de combate e que deve ter um know-how específico de visão comercial. não resta dúvida que. a construção aeronáutica civil deixa de ser um setor estratégico (no seu sentido militar). Esses trabalhos confirmam. pela ação de agentes posicionados dentro dos espaços políticos. pois foi mostrado como um processo de transformação global pode ser mediatista. Essa pressão. O ponto mais interessante nessa conceituação é de fato a constatação de que cada um desses fóruns funciona seguindo regras próprias. com relação à política setorial. no entanto. quanto as comunidades de políticas públicas. entre a técnica e a política. ainda não era bem clara na época. que se impõem por meio de um trabalho de construção retórica dentro de universos que são ao mesmo tempo distintos e articulados. ela evidencia a importância dos fóruns profissionais como ponto de criação de novas ideias. os setores. uma temporalidade única e colocam em cena atores diferentes. no seu estudo sobre a reforma da política agrícola comum. a aeronáutica civil ganha sua autonomia em relação ao setor militar. de uma forma ou de outra. Para os responsáveis nesse período. as receitas de sua “cozinha” são marcadas pela transação entre as dimensões do global e do setorial. durante a década de 1970. abrindo assim. o futuro da indústria de transporte público não era nada . os atores do fórum da comunicação política são animados pela vontade de participar na construção de alianças políticas partidárias que podem chegar ao poder. a referência dominante do setor aeronáutico passa a se transformar. Não há dúvida que essa nova regra do jogo deveria ser imposta. Assim. Fouilleux trabalha a diferença do modelo desenvolvido por Jobert. engenheiros que havia formado antes de 1939. Isso significa que no paradigma tecnológico dos engenheiros aeronáuticos. entre o administrativo e o profissional. antecipando a subida acelerada do novo referencial global. A variedade e especificidade dos atores que intervém nestes fóruns explicam a forte diferenciação do registro do novo referencial global segundo os domínios. de forma mais aprofundada. prolonga de forma remarcável essa aproximação ao mostrar como a mudança de referencial da “PAC” (Política Agri.5 debates e controvérsias nas diferentes redes de políticas públicas”. Eve Fouilleux. Acima de tudo. Este é o lugar onde são fabricadas as “receitas” que serão utilizadas nos programas concretos de ação pública. aos responsáveis pelo setor aeronáutico na Europa. as observações que poderiam ser feitas sobre o setor de políticas aeronáuticas. Cada ator irá então “trabalhar” a nova matriz cognitiva e normativa dentro de uma perspectiva específica. mesmo que através da transformação da demanda de clientes. como temos na simbólica história da Boeing ao deixar a construção de bombadiers para pode revolucionar o transporte aéreo. Do ponto de vista da política aeronáutica. sendo seu resultado nunca dado antecipadamente. administrativos ou profissionais diferentes.

engenheiros aeronáuticos e responsáveis administrativos que foram capazes de perceber. a tradução sendo. nessa perspectiva. é o de saber “como é possível construir uma ação coletiva num contexto de grande heterogeneidade” sabendo que “para serem governáveis. os transferir para outros registros sob lógica diferente para assegurar a difusão interna e externa. segundo Lascoumes. Assim. na medida que. em particular sobre a noção de “tradução” como “atividade de produção com a vinculação de autores autônomos e transação de perspectiva heterogêneas” Lascoumes propõe o conceito de “transcodagem” que designa “ o conjunto das atividades de regrupamento e transferência de informação em um código diferente: transcodar é em parte agregar informações e práticas. mostra de forma caricatural a passagem de um referencial a outro. é então fruto da ação de algumas pessoas. Lascoumes considera que o processo de produção de sentido se faz. A primeira divergência diz respeito ao peso das concepções passadas aqui. que leva a considerar que as atividades de tradução constituem sobretudo atividades de reorganização de categorias de pensamentos existentes. Estamos próximos das questões mais importantes da análise cognitiva das políticas públicas. doravante. agricultura e aeronáutica). conseguiram convencer os construtores a utilizarem o conhecimento dos engenheiros em uma estratégia comercial como os outros atores o fizeram no Ministério de Transportes. “um processo antes de ser resultado” e a noção de referencial se revelando como muito “substancialista”. é necessário que as questões sejam reformuladas em problemas de ação pública”. O nascimento da Airbus e a mudança de referencial que ela leva no setor aeronáutico. enfim. os trabalhos de Tierre Lascoumes parecem ao mesmo tempo próximos das opiniões do tema. os aviões civis deveriam ser criados em função da necessidade do mercado. essa autonomia do setor civil contrariava toda a cultura civil e profissional do setor na época. É provável que as diferenças entre nossas abordagens são em parte ligadas a natureza dos terrenos estudados (meio ambiente. É certo que as teses que tentamos apresentar aqui foram elaboradas a partir do estudo de dois setores relativamente identificáveis e com . A questão que coloca Lascoumes. dentro dos gabinetes. Esse trabalho sobre a retórica profissional também formou uma empresa destinada a convencer os responsáveis aeronáuticos que. A construção simultânea do Concorde e do Airbus 300B. os dois principais responsáveis pela Airbus na época. é também os construir e apresentar como uma totalidade. Ao se basear nos trabalhos de Michel Callon. uma proposição um tanto quanto absurda no meio militar. Assim. a noção de “mudança de referencial” lhe parece muito radical.6 legível e. para darem lugar às escolhas políticas. Esses atores realizaram um trabalho de mediação entre os diferentes universos. com a interação entre os atores heterogêneos. A segunda divergência está ligada à pespectiva de Callon. na linha de trabalho sobre a tradução. especialmente a partir de seus trabalhos sobre políticas de meio ambiente. os trabalhos de Pierre Lascoumes divergem dos apresentados aqui em vários pontos que levam a se perguntar sobre a noção de referencial. de toda forma. primeiramente. Roger Beteille e Felix Kracht. Essa questão do lugar dos atores no processo de construção de modelos de interpretação do mundo constitui sem dúvida o debate principal entre os diferentes autores que questionam sobre a dimensão cognitiva da ação pública. mas com diferentes interpretações. No entanto. é. identificar a nova força e de traduzir na linguagem dos grupos interessados. onde os aviões eram feitos/criados em função das tecnologias disponíveis. É evidente que o programa da Airbus nunca teria existido (hipótese mais provável) se não fossem os atores responsáveis.

corretamente. o sistema francês de proteção social contribuiu para reproduzir e reforçar a sociedade setorial. durante o período da hegemonia do referencial modernizador. O meio ambiente certamente não apresentam as mesmas características: as fronteiras das políticas públicas estão cada vez mais difusas. ou seja. Resta apenas analisar os procedimentos de negociação. Enquanto que a maior parte dos trabalhos que usam a política social se limitam a um setor particular de proteção social. como um meta-setor que assegura a integração e legitimação da sociedade setorial no seu conjunto durante os anos de 1945-1975. o sistema de proteção social poderia ter sido criado. segundo Palier. Bem sobre essas pressões temos o produto das lutas de grupos interessados em defender seu “jardim”. Os trabalhos destacam. para compreender as evoluções recentes nesse domínio na França. As operações de mediação estão cada vez mais difíceis de serem identificadas e analisadas. . administrativas ou financeiras. ocupa um lugar cada vez mais importante: a relação entre o “setor” do meio ambiente e o global mudou. das estratégias dos atores ou os processos de tradução não serão suficientes para reportar os mecanismos que as sociedades modernas “colocam em ordem” para pensar como uma totalidade. O mesmo tipo de dificuldade é visto no caso das políticas sociais. os campos de conhecimentos mais incertos e os atores nem sempre constituem em profissões capazes de construir discursos sobre o mundo. Baseando os direitos à proteção social sobre o grupo profissional. Eles recordam também que os processos de articulação entre o global e o “setorial” não são de forma alguma a preservação das elites políticas. Mais que um setor particular de política pública. Resta apenas que a noção de transcodagem parece não poder explicar completamente essas situações onde um novo modelo de interpretações do mundo é imposto aos atores. mesmo se suas partes são evidentemente importantes. institucionalizando assim as identidades profissionais e implementando uma intervenção social cada vez mais setorizada. é também necessário olhar as evoluções do conjunto do sistema de proteção social considerando suas dimensões transversais (direitos e garantias). como pode ser visto no campo da segurança alimentar ou nas pressões impostas aos administradores hoje. mas é também evidente que a eficácia dessas lutas está ligada ao fato que elas se desenvolvem em um novo contexto de interpretação do mundo onde a proteção ambiental. É assim que Bruno Parlier se questiona sobre o caráter “setorial” dessas políticas. em coerência com o referencial do mercado. Temos a obrigação de constatar que a cada vez mais. é através da produção de políticas públicas que a função de ordem é exercida: é ao “produzir” as políticas públicas que as sociedade passam a pensas nelas mesmas nas suas ações.7 atores com ambição de falar em nome do grupo profissional e então de integrar a dimensão do global em suas argumentações. que os processos por meio que o global é “construído” não resultam de nenhuma maneira sobre um tipo de edifício perfeitamente coerente no sentido de que cada setor e cada grupo social deveria achar um lugar determinado com antecedência. Parlier cria a hipótese que.

cada sociedade construísse uma matriz própria em que os atores nacionais articulam os diferentes setores. a maneira mais exata da noção de mundialização. É neste sentido que o processo de trabalho hoje difere das formas passadas de mundialização. Nessa perspectiva. além das sociedades nacionais. nas diferentes perspectivas. isso significa que os processos de construção do referencial global nunca foram realmente limitados pelas fronteiras do Estado-Nação. as transações entre uma visão global do mundo e os diferentes sub-universos de sentido correspondente aos diversos setores e domínios de políticas públicas. Do ponto de vista que nos interessa aqui. na França. correspondia bem a um sistema internacional dominado por um certo número de normas econômicas liberais comuns ao conjunto do mundo industrial capitalista. que o processo que chamamos hoje de mundialização não começou com as mudanças que afetaram a economia internacional nos anos 70. na medida onde o espaço de produção dos novos modelos globais de interpretação do mundo se situa agora bem mais além do controle dos Estados. Isso significa que na perspectiva da análise cognitiva das políticas públicas. a cada vez e de maneira específica. de outro. Tudo acontece como. na França por Yves Barel. Enquanto que. nesta época. A ironia da história é que no momento quando as sociedades se vêem assim forçadas a reconhecer e assumir essa ação necessária sobre elas mesmas. É preciso. prevalecia uma forma de referencial de equilíbrio. Não há dúvida. na qual as sociedades modernas seriam marcadas por suas características de auto-referências: o desenvolvimento de políticas públicas é então o sinal da necessidade delas tomarem conta da sua historicidade. é realizada uma transformação que tende a enfraquecer as capacidades do Estado-Nação para constituir o lugar do global. É por isso que o conceito de globalização não é apenas um anglicismo. o lugar do global. mas designa também. a política não é mais definida apenas pela monopolização de violência legítima. por Habermas. mas também.8 DO GLOBAL A GLOBALIZAÇÃO Juntamos aqui a idéia desenvolvida. até esse momento o Estado-Nação era o . Luhmann ou. ainda. processo pelo qual a produção de modelos globais de interpretação do mundo tende a sair (escapar) para o Estado Nacional. de um lado. o processo de globalização corresponde a uma forma de dissociação entre. Doravante. ou seja. como mostrado na maioria dos trabalhos atuais sobre a globalização. o lugar onde são efetuadas as transações entre as diferenças políticas públicas tende cada vez mais a se situar além do Estado e por conseqüência. fazer algumas observações sobre as precauções metodológicas. dentro de um contexto internacional dado. que o Estado-Nação permanece no lugar do global pois é no nível das sociedades nacionais que são feitas. Assim. as funções de construção dos modelos gerais de interpretação do mundo e. como o lugar onde são definidos os modelos de interpretação do mundo. o período identificado como sendo quando. É possível mostrar facilmente que as sociedades capitalistas conheceram períodos de abertura intensa que permitiram identificar os períodos de mundialização (fim do século XIX. É possível considerar. e a cada vez mais. as funções de construção do compromisso social dentro dos sistemas de políticas modernas. por exemplo) seguidos de períodos de fechamento econômico (a partir de 1920).

a UE. Na realidade. Não é o caso de fingir que os atores governamentais foram beneficiados com o monopólio de produção. bem ou mal. acentua essa evolução. a reprodução dos compromissos políticos e sociais. de certa forma. o lugar onde as idéias foram constituídas no ponto de referência para o futuro da sociedade. mesmo sendo difíceis de mensurar as conseqüências políticas. Porém. além do Estado-Nação. os Estados são forçados a assumir e traduzir. Essa evolução não corresponde a um “desaparecimento do Estado”. o governo foi o fórum principal. Os fóruns de produção de idéias globais se transformaram em transnacionais. Nesse contexto. por meio dessa transformação das condições de elaboração dos modelos globais de interpretação do mundo. essas duas funções que participam na construção de uma ordem política legítima. no entanto. De um lado. Esse aparelho político-administrativo. Neste sentido. o processo de globalização tende a os dissociar de forma cada vez mais limpa. no sentido em que veríamos sendo construídas as premissas de ultrapassagem do Estado-Nação sendo forma de “governança global” que vemos sendo implantadas nos dias de hoje. as conseqüências do referencial de mercado e de assegurar. dentro de um espaço territorial cada vez mais contestado. Na perspectiva da análise cognitiva de políticas públicas. e que seria sujeita a rearticular. que não é um Estado (e muito menos um Estado-Nação) produz. e o que constitui seu caráter ambíguo. mas caracterizado pelo novo contexto. pelo menos parcialmente. Ao mesmo tempo. instituições internacionais como o FMI e Banco Mundial. os atores que participam na construção das matrizes cognitivas globais estão de referindo cada vez menos a um status de Estado: as redes de empresas. porém. mas a uma profunda transformação das condições de exercício de regulação política. a função de produção dos referenciais e a função de construção do compromisso social.9 lugar onde se combinava. agora. É sobre este angulo que temos que compreender os debates atuais sobre a noção de governança e. é potencialmente um lugar onde se poderia construir um sistema de representação democrática sujeita a participar na construção de uma ordem política não global. que são eleitos ou responsáveis administrativos. políticas públicas em diversas áreas. a governança européia. o que significa que seu nível opera. . mas que excederia o modelo de Estado-Nação. se adaptarem aos modelos produzidos por outros e gerenciarem as conseqüências da mudança sobre a reprodução de ordem política: O “global” se situa. um lugar de tradução – de transcodagem – do novo referencial global. de forma mais geral. Se podemos falar de “governança mundial”. então. o processo de dissociação funciona em todos os níveis da regulação política. A explosão das redes de informática. podemos assim criar a hipótese que estes novos modos de governança correspondem a uma situação naquela em que a produção dos modelos de interpretação do mundo tende a escapar para os atores governamentais. Os governantes devem. os trabalhos que enfatizam sobre as novas formas de coordenação política. a articulação entre o global e o setorial. como processo de produção de matrizes cognitivas que “impõem” aos Estados constituírem uma versão particular dessa “governança global”. redes científicas e outros. De um outro lado. cada vez mais. a União Européia ocupa um lugar específico.