A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós The Project Gutenberg EBook of A correspondência de Fradique Mendes, by José Maria Eça

de Queirós This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.net Title: A correspondência de Fradique Mendes memórias e notas Author: José Maria Eça de Queirós Release Date: December 27, 2008 [EBook #27637] Language: Portuguese Character set encoding: ISO-8859-1 *** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CORR. DE FRADIQUE MENDES *** Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) A CORRESPONDENCIA DE Fradique Mendes Obras do mesmo auctor: -1-

A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Revista de Portugal. 4 grossos volumes 12$000 As Minas de Salomão. 1 volume 600 Os Maias. 2 grossos volumes 2$000 O Crime do Padre Amaro. Terceira edição inteiramente refundida, recomposta e 1$200 differente na fórma e na acção da edição primitiva. 1 grosso volume O Primo Bazilio. Terceira edição. 1 grosso volume 1$000 A Reliquia. 1 grosso volume 1$000 O Mandarim. Quarta edição. 1 volume 500 A Illustre Casa de Ramires. 1 volume 1$000

1$000 No prelo: A Cidade e as Serras. Eça de Queiroz A CORRESPONDENCIA DE FRADIQUE MENDES (MEMORIAS E NOTAS) PORTO LIVRARIA CHARDRON De Lello & Irmão, editores 1900 Pertence no Brazil o direito de propriedade d’esta obra ao cidadão Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que para a garantia que lhe offerece a lei n.º 496 de 1 d’Agosto de 1898, fez o competente deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinação do art. 13.º da mesma Lei. -2A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Porto―Imprensa Moderna A CORRESPONDENCIA DE FRADIQUE MENDES FRADIQUE MENDES (MEMORIAS E NOTAS) I A minha intimidade com Fradique Mendes começou em 1880, em Paris, pela Paschoa,―justamente na semana em que elle regressára da sua viagem á Africa Austral. O meu conhecimento porém com esse homem admiravel datava de Lisboa, do anno remoto de 1867. Foi no verão d’esse anno, uma tarde, no café Martinho, que encontrei, n’um numero já amarrotado da Revolução de Setembro, este nome de C. Fradique Mendes, em letras enormes, por baixo de versos que me maravilharam. Os themas («os motivos emocionaes», como nós diziamos em 1867) d’essas cinco ou seis poesias, reunidas em folhetim sob o titulo de Lapidarias, tinham logo para mim uma originalidade captivante e bemvinda. Era o tempo em que eu e os [2] meus camaradas de Cenaculo, deslumbrados pelo Lyrismo Epico da Légende des Siècles, «o livro que um grande vento nos trouxera de Guernesey»―decidiramos abominar e combater a rijos brados o Lyrismo Intimo, que, enclausurado nas duas pollegadas do coração, não comprehendendo d’entre todos os rumores do Universo senão o rumor das saias d’Elvira, tornava a Poesia, sobretudo em Portugal, uma monotona e interminavel confidencia de glorias e martyrios de amor. Ora Fradique Mendes pertencia evidentemente aos poetas novos que, seguindo o Mestre sem-igual da Légende des Siècles, iam, n’uma universal sympathia buscar motivos emocionaes fóra das limitadas palpitações do coração―á Historia, á Lenda, aos Costumes, ás Religiões, a tudo que através das idades, diversamente e unamente, revela e define o Homem. Mas além d’isso Fradique Mendes trabalhava um outro filão poetico que me seduzia―o da Modernidade, a notação fina e sobria das graças e dos horrores da Vida, da Vida ambiente e costumada, tal como a podemos testemunhar ou presentir nas ruas que todos trilhamos nas moradas visinhas das nossas, nos humildes destinos deslizando em torno de nós por penumbras humildes. Esses poemetos das Lapidarias desenrolavam com effeito themas magnificamente novos. Ahi um Santo allegorico, um Solitario do seculo VI, morria uma tarde sobre as neves da Silesia, assaltado e [3] domado por uma tão inesperada e bestial rebellião da Carne, que, á beira da Bemaventurança, subitamente a perdia, e com ella o fructo divino e custoso de cincoenta annos de penitencia e d’ermo: um corvo, facundo e velho além de toda a velhice, contava façanhas do tempo em que seguira pelas Gallias, n’um bando alegre, as legiões de Cesar, depois as hordas de Alarico rolando para a Italia, branca e toda de marmores sob o azul: o bom cavalleiro Percival, espelho e flôr d’Idealistas, deixava por cidades e campos o sulco silencioso da sua armadura d’ouro, correndo o mundo, desde longas éras, á busca do San-Gral, o mystico vaso cheio de sangue de Christo, que, n’uma manhã de Natal, elle vira passar e lampejar entre nuvens por sobre as torres de Camerlon: um Satanaz de feitio germanico, lido em Spinosa e Leibnitz, dava n’uma viella de cidade medieval uma serenada ironica aos astros, «gottas de luz no frio ar geladas»... E, entre estes motivos de esplendido symbolismo, lá vinha o quadro de singela modernidade, as Velhinhas, cinco velhinhas, com chales de ramagens pelos hombros, um lenço -3-

A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós ou um cabaz na mão, sentadas sobre um banco de pedra, n’um longo silencio de saudade, a uma restea de sol d’outono. Não asseguro todavia a nitidez d’estas bellas reminiscencias. Desde essa sésta de agosto, no Martinho, não encontrei mais as Lapidarias: e, de resto, o que n’ellas então me prendeu, não foi a Idéa, mas a Fórma―uma fórma soberba de plasticidade [4] e de vida, que ao mesmo tempo me lembrava o verso marmoreo de Lecomte de Lisle com um sangue mais quente nas veias do marmore, e a nervosidade intensa de Baudelaire vibrando com mais norma e cadencia. Ora precisamente, n’esse anno de 1867, eu, J. Teixeira de Azevedo e outros camaradas tinhamos descoberto no céo da Poesia Franceza (unico para que nossos olhos se erguiam) toda uma pleiade d’estrellas novas onde sobresahiam, pela sua refulgencia superior e especial, esses dois sóes―Baudelaire e Lecomte de Lisle. Victor Hugo, a quem chamavamos já «papá Hugo» ou «Senhor Hugo-Todo-Poderoso», não era para nós um astro―mas o Deus mesmo, inicial e immanente, de quem os astros recebiam a luz, o movimento e o rythmo. Aos seus pés Lecomte de Lisle e Baudelaire faziam duas constellações de adoravel brilho: e o seu encontro fôra para nós um deslumbramento e um amor! A mocidade d’hoje, positiva e estreita, que pratíca a Politica, estuda as cotações da Bolsa e lê George Ohnet, mal póde comprehender os santos enthusiasmos com que nós recebiamos a iniciação d’essa Arte Nova, que em França, nos começos do Segundo Imperio, surgira das ruinas do Romantismo como sua derradeira encarnação, e que nos era trazida em Poesia pelos versos de Lecomte de Lisle, de Baudelaire, de Coppée, de Dierx, de Mallarmé, e d’outros menores: e menos talvez póde comprehender taes fervores essa parte da mocidade culta que logo desde as escolas [5] se nutre de Spencer e de Taine, e que procura com ancia e agudeza exercer a critica, onde nós outr’ora, mais ingenuos e ardentes, nos abandonavamos á emoção. Eu mesmo sorrio hoje ao pensar n’essas noites em que, no quarto de J. Teixeira d’Azevedo, enchia de sobresalto e duvida dois conegos que ao lado moravam, rompendo por horas mortas a clamar a Charogne de Baudelaire, tremulo e pallido de paixão: Et pourtant vous serez semblable à cette ordure, A cette horrible infection, Étoile de mes yeux, soleil de ma nature, Vous, mon ange et ma passion! Do outro lado do tabique sentiamos ranger as camas dos ecclesiasticos, o raspar espavorido de phosphoros. E eu, mais pallido, n’um extase tremente: Alors, oh ma beauté, dites à la vermine Qui vous mangera de baisers, Que j’ai gardé la forme et l’essence divine De mes amours décomposés! Certamente Baudelaire não valia este tremor e esta pallidez. Todo o culto sincero, porém, tem uma belleza essencial, independente dos merecimentos do Deus para quem se evola. Duas mãos postas com legitima fé serão sempre tocantes―mesmo quando se ergam para um Santo tão affectado e postiço como S. Simeão Stylita. E o nosso [6] transporte era candido, genuinamente nascido do Ideal satisfeito, só comparavel áquelle que outr’ora invadia os navegadores peninsulares ao pisarem as terras nunca d’antes pisadas, Eldorados maravilhosos, ferteis em delicias e thesouros, onde os seixos das praias lhes pareciam logo diamantes a reluzir. Li algures que Juan Ponce de Leon, enfastiado das cinzentas planicies de Castella-a-Velha, não encontrando tambem já encanto nos pomares verde-negros da Andaluzia―se fizera ao mar, para buscar outras terras, e mirar algo nuevo. Tres annos sulcou incertamente a melancolia das aguas atlanticas: mezes tristes errou perdido nos nevoeiros das Bermudas: toda a esperança -4A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós findára, já as prôas gastas se voltavam para os lados onde ficára a Hespanha. E eis que n’uma manhã de grande sol, em dia de S. João, surgem ante a armada extatica os esplendores da Florida! « Gracias te sean, mi S. Juan bendito, que he mirado algo nuevo! » As lagrimas corriam-lhe pelas barbas brancas―e Juan Ponce de Leon morreu de emoção. Nós não morremos: mas lagrimas congeneres com as do velho mareante saltaram-me dos olhos, quando pela primeira vez penetrei por entre o brilho sombrio e os perfumes acres das Flôres do Mal. Eramos assim absurdos em 1867! De resto, exactamente como Ponce de Leon, eu só procurava em Litteratura e Poesia algo nuevo que mirar. E para um meridional de vinte annos, [7] amando sobretudo a Côr e o Som na plenitude da sua riqueza, que poderia ser esse algo nuevo senão o luxo novo das fórmas novas? A Fórma, a belleza inedita e rara da Fórma, eis realmente, n’esses tempos de delicado sensualismo, todo o meu interesse e todo o meu cuidado! Decerto eu adorava a Idéa na sua essencia;―mas quanto mais o Verbo que a encarnava! Baudelaire, mostrando á sua amante na Charogne a carcassa pôdre do cão e equiparando em ambas as miserias da carne, era para mim de magnifica surpreza e enlevo: e diante d’esta crespa e atormentada subtilisação do sentir, que podia valer o facil e velho Lamartine no Lago, mostrando a Elvira a cansada lua, e comparando em ambas a pallidez e a graça meiga? Mas se este aspero e funebre espiritualismo de Baudelaire me chegasse expresso na lingua lassa e molle de Casimir Delavigne―eu não lhe teria dado mais apreço do que a versos vis do Almanach de Lembranças. Foi sensualmente enterrado n’esta idolatria da Fórma, que deparei com essas Lapidarias de Fradique Mendes, onde julguei vêr reunidas e fundidas as qualidades discordantes de magestade e de nervosidade que constituiam, ou me pareciam constituir, a grandeza dos meus dois idolos―o auctor das Flôres do Mal e o

discordantes de magestade e de nervosidade que constituiam, ou me pareciam constituir, a grandeza dos meus dois idolos―o auctor das Flôres do Mal e o auctor dos Poemas Barbaros. A isto accrescia, para me fascinar, que este poeta era portuguez, cinzelava assim preciosamente a lingua que até ahi tivera como joias acclamadas o Noivado do Sepulchro e o Avè Cesar! , habitava [8] Lisboa, pertencia aos Novos, possuia decerto na alma, talvez no viver, tanta originalidade poetica como nos seus poemas! E esse folhetim amarrotado da Revolução de Setembro tomava assim a importancia d’uma revelação d’Arte, uma aurora de Poesia, nascendo para banhar as almas moças na luz e no calor especial a que ellas aspiravam, meio adormecidas, quasi regeladas sob o algido luar do Romantismo. Graças te sejam dadas, meu Fradique bemdito, que na minha velha lingua hé mirado algo nuevo! Creio que murmurei isto, banhado em gratidão. E, com o numero da Revolução de Setembro, corri a casa de J. Teixeira de Azevedo, á travessa do Guarda-Mór, a annunciar o advento esplendido! Encontrei-o, como de costume, nos silenciosos vagares das tardes de verão, em mangas de camisa, diante de uma bacia que trasbordava de morangos e de vinho de Torres. Com vozes clamorosas, atirando gestos até ao tecto, declamei-lhe a Morte do Santo. Se bem recordo, este asceta, ao findar sobre as neves da Silesia, era miserrimamente trahido pela desleal Natureza! Todos os appetites da paixão e do corpo, tão laboriosamente recalcados por elle durante meio seculo d’ermo, irrompiam de repente, á beira da eternidade, n’um tumulto bestial, não querendo para sempre findar com a carne que ia findar―antes de serem uma vez satisfeitos! E os anjos que, para o receber, desciam d’aza serena, sobraçando mólhos de Palmas [9] e cantando os Epithalamios, encontravam, em vez d’um Santo, um Satyro, senil e grotesco―que de rojos, entre bramidos sordidos, mordia com beijos vorazes a neve, a macia alvura da neve, onde o seu delirio furiosamente imaginava nudezes de cortezãs!... Tudo isto era tratado com uma grandeza sobria e rude que me parecia sublime. J. Teixeira d’Azevedo achou tambem «sublime―mas bréjeiro». E concordou que convinha desentulhar Fradique Mendes da obscuridade, e erguel-o no alto do escudo como o radiante mestre dos Novos. -5A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Fui logo n’essa noite á Revolução de Setembro, procurar um companheiro meu de Coimbra, Marcos Vidigal, que, nos nossos alegres tempos de Direito Romano e Canonico, ganhára, por tocar concertina, lêr a Historia da Musica de Scudo, e lançar através da Academia os nomes de Mozart e de Beethoven, uma soberba auctoridade sobre Musica classica. Agora, vadiando em Lisboa, escrevia na Revolução, aos domingos, uma «Chronica lyrica»―para gozar gratuitamente o bilhete de S. Carlos. Era um moço com cabellos ralos e côr de manteiga, sardento, apagado de idéas e de modos―mas que despertava e se illuminava todo quando lograva «a chance (como elle dizia) de roçar por um homem celebre, ou de arranchar n’uma coisa original»; e isto tornára-o a elle, pouco a pouco, quasi original e quasi celebre. N’essa noite, que era sabbado e de pesado calor, lá estava á banca, com uma quinzena d’alpaca, suando, bufando, a espremer [10] do seu pobre craneo, como d’um limão meio sêcco, gottas d’uma Chronica sobre a Volpini. Apenas eu alludi a Fradique Mendes, áquelles versos que me tinham maravilhado―Vidigal arrojou a penna, já risonho, com um clarão alvoroçado na face molle: ―Fradique? Se conheço o grande Fradique? É meu parente! É meu patricio! É meu parceiro! ―Ainda bem, Vidigal, ainda bem! Fomos ao Passeio Publico (onde Marcos se ia encontrar com um agiota). Tomámos sorvetes debaixo das acacias: e pelo chronista da Revolução conheci a origem, a mocidade, os feitos do poeta das Lapidarias. Carlos Fradique Mendes pertencia a uma velha e rica familia dos Açores; e descendia por varonia do navegador D. Lopo Mendes, filho segundo da casa da Troba, e donatario d’uma das primeiras capitanias creadas nas Ilhas por começos do seculo XVI. Seu pai, homem magnificamente bello, mas de gostos rudes, morrera (quando Carlos ainda gatinhava) d’um desastre, na caça. Seis annos depois sua mãi, senhora tão airosa, pensativa e loura que merecera d’um poeta da Terceira o nome de Virgem d’Ossian, morria tambem d’uma febre trazida dos campos, onde andára bucolicamente, n’um dia de sol forte, cantando e ceifando feno. Carlos ficou em companhia e sob a tutela de sua avó materna, D. Angelina Fradique, velha estouvada, erudita e [11] exotica que colleccionava aves empalhadas, traduzia Klopstock, e perpetuamente soffria dos «dardos d’Amor». A sua primeira educação fôra singularmente emmaranhada: o capellão de D. Angelina, antigo frade benedictino, ensinou-lhe o latim, a doutrina, o horror á maçonaria, e outros principios solidos; depois um coronel francez, duro jacobino que se batera em 1830 na barricada de St -Merry, veio abalar estes alicerces espirituaes fazendo traduzir ao rapaz a Pucelle de Voltaire e a Declaração dos direitos do homem ; e finalmente um allemão, que ajudava D. Angelina a enfardelar Klopstock na vernaculidade de Filinto Elysio, e se dizia parente de Emmanuel Kant, completou a confusão iniciando Carlos, ainda antes de lhe nascer o buço, na Critica da Razão pura e na heterodoxia metaphysica dos professores de Tubinguen. Felizmente Carlos já então gastava longos dias a cavallo pelos campos, com a sua matilha de galgos:―e da anemia que lhe teriam causado as abstracções do raciocinio, salvou-o o sôpro fresco dos montados e a natural pureza dos regatos em que bebia. A avó, tendo imparcialmente approvado estas embrulhadas linhas d’educacão, decidiu de repente, quando Carlos completou dezeseis annos, mandal-o para Coimbra que ella considerava um nobre centro d’estudos classicos e o derradeiro refugio das Humanidades. Corria porém na Ilha que a traductora de Klopstock, apesar dos sessenta annos que lhe revestiam a face d’um pêllo mais denso que a hera [12] d’uma ruina, decidira afastar o neto―para casar com o bolieiro. Durante tres annos Carlos tocou guitarra pelo Penedo da Saudade, encharcou-se de carrascão -6-

A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós na tasca das Camêlas, publicou na Idéa sonetos asceticos, e amou desesperadamente a filha d’um ferrador de Lorvão. Acabava de ser reprovado em Geometria quando a avó morreu subitamente, na sua quinta das Tornas, n’um caramanchão de rosas, onde se esquecera toda uma sésta de junho, tomando café, e escutando a viola que o cocheiro repicava com os dedos carregados d’anneis. Restava a Carlos um tio, Thadeu Mendes, homem de luxo e de boa mesa, que vivia em Paris preparando a salvação da Sociedade com Persigny, com Morny, e com o principe Luiz Napoleão de quem era devoto e crédor. E Carlos foi para Paris estudar Direito nas cervejarias que cercam a Sorbonne, á espera da maioridade que lhe devia trazer as heranças accumuladas do pai e da avó―calculadas por Vidigal n’um farto milhão de cruzados. Vidigal, filho d’uma sobrinha de D. Angelina, nascido na Terceira, possuia por legado, conjuntamente com Carlos, uma quinta chamada o Corvovello. D’ahi lhe vinha ser «parente, patricio e parceiro» do homem das Lapidarias . Depois d’isto Vidigal sabia apenas que Fradique, livre e rico, sahira do Quartier-Latin a começar uma existencia soberba e fogosa. Com um impeto de ave solta, viajára logo por todo o mundo, a [13]todos os sopros do vento, desde Chicago até Jerusalem, desde a Islandia até ao Sahará. N’estas jornadas, sempre emprehendidas por uma solicitação da intelligencia ou por ancia d’emoções, achára-se envolvido em feitos historicos e tratára altas personalidades do seculo. Vestido com a camisa escarlate, acompanhára Garibaldi na conquista das Duas-Sicilias. Encorporado no Estado-Maior do velho Napier, que lhe chamava the Portuguese Lion (o Leão Portuguez), fizera toda a campanha da Abyssinia. Recebia cartas de Mazzini. Havia apenas mezes que visitára Hugo no seu rochedo de Guernesey... Aqui recuei, com os olhos esbugalhados! Victor Hugo (todos ainda se lembram), desterrado então em Guernesey, tinha para nós, idealistas e democratas de 1867, as proporções sublimes e lendarias d’um S. João em Pathmos. E recuei protestando, com os olhos esbugalhados, tanto se me afigurava fóra das possibilidades que um portuguez, um Mendes tivesse apertado nas suas a mão augusta que escrevera a Lenda dos Seculos! Correspondencia com Mazzini, camaradagem com Garibaldi, vá! Mas na ilha sagrada, ao rumor das ondas da Mancha, passear, conversar, scismar com o vidente dos Miseraveis―parecia-me a impudente exaggeração d’um ilhéo que me queria intrujar... ―Juro! gritou Vidigal, levantando a mão veridica ás acacias que nos cobriam. E immediatamente, para demonstrar a verosimilhança d’aquella gloria, já altissima para Fradique, [14] contou-me outra, bem superior, e que cercava o estranho homem d’uma aureola mais refulgente. Não se tratava já de ser estimado por um homem excelso―mas, coisa preciosa entre todas, de ser amado por uma excelsa mulher. Pois bem! Durante dois annos, em Paris, Fradique fôra o eleito de Anna de Léon, a gloriosa Anna de Léon, a mais culta e bella cortezã (Vidigal dizia «o melhor bocado») do Segundo Imperio, de que ella, pela graça especial da sua voluptuosidade intelligente, como Aspasia no seculo de Pericles, fôra a expressão e a flôr! Muitas vezes eu lêra no Figaro os louvores de Anna de Léon, e sabia que poetas a tinham celebrado sob o nome de Venus Victoriosa. Os amores com a cortezã não me impressionaram decerto tanto como a intimidade com o homem das Contemplações: mas a minha incredulidade cessou―e Fradique assumiu para mim a estatura d’um d’esses sêres que, pela seducção ou pelo genio, como Alcibiades ou como Goethe, dominam uma civilisação, e d’ella colhem deliciosamente tudo o que ella póde dar em gostos e em triumphos. Foi por isso talvez que córei, intimidado, quando Vidigal, reclamando outro sorvete de leite, se offereceu para me levar ao surprehendente Fradique. Sem me decidir, pensando em Novalis que tambem assim hesitava, enleado, ao subir uma manhã em Berlim as escadas -7A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós d’Hegel―perguntei a Vidigal se o poeta das Lapidarias residia em Lisboa... [15] Não! Fradique viera de Inglaterra visitar Cintra, que adorava, e onde comprára a quinta da Saragoça, no caminho dos Capuchos, para ter de verão em Portugal um repouso fidalgo. Estivera lá desde o dia de Santo Antonio:―e agora parára em Lisboa, no Hotel Central, antes de recolher a Paris, seu centro e seu lar. De resto, accrescentou Marcos, não havia como Fradique ninguem tão simples, tão alegre, tão facil. E, se eu desejava conhecer um homem genial, que esperasse ao outro dia, domingo, ás duas, depois da missa do Loreto, á porta da Casa Havaneza. ―Valeu? Ás duas, religiosamente, depois da missa! Bateu-me o coração. Por fim, com um esforço, como Novalis no patamar d’Hegel, afiancei, pagando os sorvetes, que ao outro dia, ás duas, religiosamente, mas sem missa, estaria no portal da Havaneza! II Gastei a noite preparando phrases, cheias de profundidade e belleza, para lançar a Fradique Mendes! Tendiam todas á glorificação das Lapidarias. E lembro-me de ter, com amoroso cuidado, burilado [16] e repolido esta:―«A fórma de v. exc.a é um marmore divino com estremecimentos humanos!»

de desespero: &#8213. tão livremente e tão firmemente como sobre aquelle chão de ladrilhos [19] onde pousavam os seus largos sapatos de verniz resplandecendo sob polainas de linho. d’uma penetração aguda.mão delicada e branca onde vermelhejava um rubi. á vontade. para que o macadam regado me não maculasse o verniz dos sapatos.. Um homem desceu. que perfurava. cahiam na minha admiração como oleo n’uma fogueira. E toda a sua finura. «uma pega intellectual». eu passeára na Via Sagrada que vai de Athenas a Eleusis. Ponho-lhe o nome!» Mas quando Fradique viu a Revolução de Setembro ficou livido. parava na Havaneza. impaciente. O primo sorrira. tomára uma caleche para Belem. Saltou para a tipoia.com quem já n’essa madrugada. o bem-adorado de Anna de Léon! O que me seduziu logo foi a sua esplendida solidez. Lêra a primeira. n’essa manhã. Ao pararmos no Central tremia d’acanhamento.. lançada a trote. implorando a misericordia de Vidigal. E. Pedro. como amargo. Não sei se as mulheres o considerariam bello. Eramos assim em 1867! Marcos Vidigal já me esperava. na sua familiaridade.? .. Na redacção.Uma mumia. entre Fradique e elle. A face era do feitio aquilino e grave que se chama cesareano. emquanto Fradique fumava o seu chibouk persa.com a rigida condição de serem firmadas por um pseudonymo.. eu sentia n’aquelle corpo a robustez tenra e agil de um ephebo. por entre os lyrios que desfolhavamos. tão superiores e novos. o Amigo da Verdade. contendo uma mumia egypcia. pareciam igual e superiormente talhados para a Ironia e para o Amor. misturada de energia. é melhor não lhe fallares nas Lapidarias! -8A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Sim! pensava eu. A vida de tão varias e trabalhosas actividades não lhe cavára uma prega de fadiga. Um dia. pedira a Fradique para publicar na Revolução algumas d’essas estrophes divinas. estava nos olhos&#8213. a sã e viril proporção dos membros rijos. do fundo vivo da Natureza. para os revestir de magestade. n’um sonho repassado de erudição e sensibilidade. em Cintra. Trazia uma quinzena solta. o conquistador das Duas-Sicilias. se enterrava sem esforço.Nunca! E contou que a publicação d’aquelles trechos na Revolução de Setembro quasi occasionára. o aspecto calmo de poderosa estabilidade com que parecia assentar na vida. roendo o charuto. havia momentos. N’esse instante uma tipoia. Vidigal. Depois. pela vermelhidão humida e pela sinuosidade subtil. mas archivei gulosamente o termo. cedo. assim de quinzena preta e barbeado. Fradique Mendes abriu os braços. Só quando sorria ou quando olhava se surprehendiam immediatamente n’elle vinte seculos de litteratura. como sempre. perfumado.Uma caleche! Para Belem!. por ser pouca decerto. igual á das calças que cahiam sem um vinco: o collete de linho branco fechava por botões de coral pallido: e o laço da gravata de setim negro. Eu achei-o um varão magnifico&#8213. abrira sobre [17] a mesa uma pasta de velludo negro. Qual?. como uma verruma d’aço em madeira molle. contemplar o cinzelador das Lapidarias. antes pura e fina como a d’um Lucrecio moço. Senti um allivio quando o porteiro annunciou que o snr. Eram as Lapidarias. em plena gloria. ao revêr as provas. Talvez Fradique. em vez de Fradique. n’uma tinta já amarellada. Eu não sabia. E ás duas horas.olhos pequenos e negros.De modo que. alvoroçado. a Serenada de Satan aos astros. Na pelle. mas sem as linhas empastadas e a espessura flaccida que a tradição das Escólas invariavelmente attribue aos Cesares. rematou Vidigal. depois de almoço. offerecia a perfeição concisa que já me encantára no seu verso. estacou na rua. talvez insistente de mais. conversando.dominando sobretudo por uma graça clara que sahia de toda a [20] sua força mascula. Era o seu viço que deslumbrava. com as pilecas fumegando. sobre o ensino de Platão e a versificação das Lapidarias.De manhã apurei requintadamente a minha toilette como se. Na rua do Alecrim (para combater a pueril emoção que me enleava) perguntei ao meu companheiro quando publicaria Fradique as Lapidarias. consentira&#8213. na infancia do mundo grego.. tratei de philisteu o auctor consideravel do Avè César! &#8213. ao vêr o seu nome impresso debaixo [18] de versos com que se orgulharia Lecomte de Lisle. só lhe acudiram pseudonymos decrepitos e safados. não deixava depois de escanhoada nem aspereza nem sombra. &#8213. burguez e philisteu»!&#8213. d’uma fazenda preta e macia.. Descobrira.E aqui Vidigal parou para me pedir a significação de philisteu.. Fradique Mendes. o Observador&#8213. Ha alguma coisa em Belem? Murmurei. acariciando o hombro do primo Marcos. que escaldava ao sol do agosto. o familiar de Mazzini.nenhum bastante novo para dignamente firmar poesia tão nova. apenas um buço crespo e leve lhe orlava os labios que. á maneira do chanceller Bacon e d’outros homens grandes pela acção. fonte perenne das suas amarguras! Agora tinha lá encalhado um caixote. apresentou-me como um «poeta seu amigo». brilhantes como contas de onyx. que havia os Jeronymos. E apesar de Vidigal me ter contado que Fradique festejára os «trinta e tres» em Cintra. maravilhado. porém. como patricio e como parente. ligeiro e forte. e batemos através do Loreto. da Alfandega. surprehendido. no Martinho. Parecia ter emergido. Recordo até que logo n’essa tarde. n’um gesto desolado e risonho. Tratava-se. Pude então. todo nos sonhos da Virtude e da Arte. Era Fradique Mendes. e chamou regeladamente a Vidigal «indiscreto. d’uma brancura lactea e fresca. seja a do artista nobremente e perpetuamente insatisfeito que não aceita ante os homens como sua a obra onde sente imperfeições! Estes modos de ser. n’uma idéa d’Arte. Depois de lêr a carta. abriu uma carta que lhe estendia o porteiro. commovido. dando relevo á alvura espelhada dos collarinhos quebrados. deseje esconder d’este mundo de materialidade e de força o seu fino genio poetico! Ou talvez essa ira. Vidigal empallideceu. pela festa de S.«Acabou-se! Sublimidade não é vergonha. Elle adiantou a mão sorrindo&#8213. Fradique abandonava a escolha á phantasia de Vidigal. fosse encontrar Anna de Léon&#8213.. Vidigal. dentro de uma tipoia. com uma tremenda rosa de chá na lapella. o Independente. a barba. largas folhas de versos. na tela ou no gesso. pallido. Disse comsigo:&#8213. Por entre o barulho das rodas Vidigal gritou: &#8213.

enfiou para a tipoia. mais polida e branca que os marfins de Normandia. muito louro. d’um arenque que viveu? Ter sido peixe ou escriba nada importava para os effeitos fiscaes. Era uma das suas memorias melhores de Coimbra essa taverna das tias Camêlas. Mas. passar toda uma eternidade a tocar harpa. o homem que conversára com Hugo á beira-mar!. surgira uma insuperavel difficuldade:&#8213. mescladas a um fio de canella e mangerona. pelo Paes. com um olhar furtivo..que elle enchera de confusão e de horror.. mas uma côr quente de tabaco escuro da Havana. e chronista de Ramèzes II. gritou ao cocheiro a morada do Ministro. sem ligaduras e sem inscripções. desde o primeiro anno de Coimbra. e uma console. Atravessei alli uma d’essas angustias atrozes e grotescas. enfaixado dentro do seu caixão.. apesar d’esforços sagazes.. em calão teimoso:&#8213. e por meio dos livros que atulhavam uma velha mesa de pau preto. Depois. de altos pés dourados. com uma perola espetada na gravata.que me convidou a subir aos seus quartos. seu collega na Revolução de Setembro. Mandára-o vir de Paris para dar a uma senhora da Legação d’Inglaterra. Se ella em vida nadava n’um cardume nas ondas do mar do Norte. E os olhos. com sincera sympathia: &#8213. por esta «chulice» de esquina de tabacaria assim atabalhoadamente lançada como um pingo de sêbo sobre o supremo artista das Lapidarias. um lustre embuçado em tulle. Então. para poderem no céo. que tambem me pareceu oriental.. quando Pentaour desembarcára. Assim fiquei só com Fradique&#8213. por outros lentes ainda.. E eu que n’esse instante. por entre temerosas contendas de Metaphysica e d’Arte. comidas ruidosamente na penumbra fumarenta das pipas. o poeta das Lapidarias alludiu ao torrido calor d’agosto. muito grave. bem trabalhada. outr’ora palpitante. defronte do espelho no patamar.10 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós além d’isso em toda a sala um aroma desconhecido.e jámais esquecem. colleccionava antiguidades funerarias do Egypto e da Assyria. bordada a flôres de amendoeira&#8213. Fradique perguntou-me pelo Pedro Penedo. nas margens do Nilo. Por fim Fradique murmurou. Realmente. Ora este empenho. toda scintillante e nova! Nada! Só me acudiam sordidezes parallelas. ao lado de Santa Cecilia. algum vestigio da originalidade intensa do homem que o habitava. Vi então que tinha o cabello castanho-escuro. dos nossos tempos estouvados de Concertina e Sebenta. hoje seccada ao fumeiro. entre as duas janellas que respiravam para o rio... fino e levemente ondeado sobre a testa. está d’escachar! E ainda o torpe som não morrera. não apresentavam aquella negrura profunda que eu comparára ao onyx.? -9A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Sim. O que a Alfandega via diante de si era o corpo d’uma creatura. pelo aposento. sobre o marmore da console. e esperar Vidigal. perfeitamente. diante do cofre sarapintado que encerrava tanto saber e tanta piedade! E agora n’aquella carta os amigos Pintos Bastos aconselhavam. ..que me maravilhou e que me intimidou. o que é um arenque defumado senão a mumia.Uma mumia. Pela escada. Entrei no quarto atordoado. Lady Ross. com bagas de suor na face. «bem catita»&#8213. largas calças de xadrez verde e preto. tinham permanecido virgens. Sómente. Todavia as auctoridades da Alfandega continuavam a hesitar. que. bebendo uma «soda e limão». depois pelas tias Camêlas. e o peito florido por tres cravos amarellos! (Percebi que este servo magnifico se chamava Smith). Isto parecia-lhe logico.esteio da Regeneração e seu Chronista musical? Vidigal esfregava as mãos. ha quatro mil annos.que artigo da pauta se poderia applicar ao cadaver d’um hierogrammata do tempo de Ramèzes? Elle Fradique suggerira o artigo que taxa o arenque defumado. não conseguia arrancar o defunto letrado aos armazens da Alfandega&#8213. sorrindo. Errava .&#8213.Aquelle Marcos é uma flôr! Concordei. sua amiga d’Athenas.não era certamente da conta dos Poderes Publicos.salvar do fisco a mumia «d’um figurão pharaonico»! E arrebatou a carta dos Pintos Bastos. E á perturbação succedeu a curiosidade de descobrir em torno. E que sardinhas! Que arte divina em frigir o peixe! Muitas vezes em Paris se lembrára das risadas. considerando que altos pensadores se exprimem assim. como feito de rosas de Smyrna. a Alfandega aterrada avisou a policia. e as ceias desabaladas que custavam setenta reis. através de lascivas gerações d’estudantes. quem melhor para o alcançar que Marcos&#8213. no fundo. O meu enleio crescia. E debalde rebuscava desesperadamente uma outra phrase sobre o calor. quando se começa a vida e a litteratura. alegremente. Ahi estava [22] uma coisa bem digna d’elle. limpando o suor. arrolava as rezes de Amnon e commentava os capitulos de fim de dia&#8213. das illusões e dos piteus d’então!. Fradique Mendes voltára de dentro.. Logo na primeira [21] tarde. illluminado. com o prato de sardinhas em cima dos joelhos. calmadas as desconfianças d’um crime.«é de rachar»! «está de ananazes»! «derrete os untos»!. o corpo veridico e veneravel de Pentaour. essas encantadoras velhas. que em plena frescura e plena ventura. a linha da minha sobrecasaca e a frescura da minha rosa&#8213. uma mumia historica. que escrupulosamente. contei a velha estima que me prendia a Vidigal. com uma simplicidade rude. ou se. coçando o queixo.deixei estouvadamente escapar esta coisa hedionda: &#8213. installado decerto por Fradique com colchões sobrepostos. escriba ritual do Templo de Amnon em Thebas. recordando Coimbra. do antigo typo fradesco e bruto.. como mais nacional e mais rapido. Só. banhados agora n’uma luz franca. que se arrancasse um empenho do Ministro da Fazenda para fazer sahir sem direitos o corpo augusto do escriba de Ramèzes. Accendeu [24] uma cigarrette e ordenou a «soda e limão» a um creado surprehendente..&#8213.Sim. [23] Felizmente Fradique desapparecera por traz d’um reposteiro de alcova. pousavam soberbos ramos de flôres: e a um canto afofava-se um espaçoso divan. vincam a alma&#8213.serenei. de sêda verde. já uma afflicção me lacerava. vestido com uma cabaia chineza! Cabaia de mandarim. aos vinte annos. Vi apenas cançadas cadeiras de reps azul-ferrete. que dois cobrejões orientaes revestiam de côres estridentes. revistava.

com a sua Ode á tomada de Namur. elle desejava esconder o seu genio poetico. na idade em que se imita..&#8213. permanecesse nos cimos da Poesia Franceza. ou artista insatisfeito nunca reconheceria a obra imperfeita. as passára a verso. não passava d’um psychologo. Poesia subentendia emoção: e .11 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Baudelaire. lucidez.«Em todo o caso a fórma de v. sorrindo paternalmente. varado! Que um Boileau. muito grave. senhor! Ha de entrar livremente. todo intellectual. E então. homem de poesia. á maneira d’um grande astro. De resto em França (accrescentou o estranho homem) não havia poetas. sobriedade&#8213. miudos reparos sobre o Pedro Penedo e o carrascão das Camêlas. Tinha mil coisas. e um poeta tornava-se tanto mais popular quanto mais visivelmente possuia o genio de prosador. áquelle espantoso termo de maganão. Dizia estas coisas enormes n’uma voz lenta. Eu acudi affirmando.que ia recortando os termos com a certeza e a perfeição d’um buril.. sobre versos de Lecomte de Lisle.se respirava conjuntamente um ar abafadiço de Serralho e de Academia. confessei que para mim Baudelaire dominava. e jurára logo poupar-lhe o opprobrio de ser tarifada como peixe salgado.e só mais tarde. sem razão.. Então eu. durante um verão de trabalho e de fé. cujo coração bate normal e serenamente. exc. foram perfeitos.. Fradique Mendes tirou a cigarette dos labios para rir&#8213. as perturbações temerosas d’uma lesão cardiaca. que é um devoto do maganão das Flôres do Mal! Córei. E eu escutava.que são qualidades de prosa.e Vidigal. um pedagogo. e que eu mentalmente classificava de insolente. burilada n’essa noite com paciente cuidado:&#8213... para nada d’elle mostrar imperfeito). com a sua assignatura.a é um marmore divino. desabafei:&#8213.a é um marmore. Elle não considerava assignaveis esses pedaços de prosa rimada. eu ficára rente da mesa. quando já ninguem se lembrasse em França do tumultuoso lyrismo de Hugo. suffocava-me. E. estendi a mão para o chapéo. com uma curiosidade que me verrumava: &#8213. Apenas na rua. na moderna Poesia. [25] singelo&#8213. Elle estirára-se no divan. A sua obra era como a d’um pathologista.» Mas Fradique deixára o divan [26] e pousava em mim os olhos finos de onix. murmurei:&#8213.a tinha mesmo ajuntado:&#8213. enchia-me de mal-estar: e anciava só por abalar d’aquella sala onde. n’uma folha de papel. Essa cobardia. havia quinze annos. dissipado o acanhamento.que eu mentalmente classificava de crystallino. Teixeira d’Azevedo com um Fradique idealisado. tomado estranhamente. laboriosamente. Fradique não me reteve. onde um ramo de rosas se desfolhava ao calor sobre volumes de Darwin e do Padre Manoel Bernardes. sobre a fórma do seu verso.. um lambão de côrte. emquanto descreve. e de eloquencia. provando as minhas finas letras. n’aquella conversação com o familiar de Mazzini e d’Hugo.Vejo então. todo em chamma. em que .alludi ás Lapidarias. como Bacon. á banca. que decalcára. Depois declarou que a publicação d’esses versos. foram perfeitos.parecia-me uma d’essas affirmações. depois de rectificar a justeza das analyses. Tanto assim que Baudelaire compuzera primeiro em prosa as Flôres do Mal&#8213.com um riso que seria genuinamente galhofeiro. Sorrindo. á porta que se abrira com estrondo. abundantes e esmagadoras. interessára-se francamente por aquella mumia d’um «collega».«A fórma de v. As Flôres do Mal continham apenas resumos criticos de torturas moraes que Baudelaire muito finamente comprehendera. fôra uma perfidia do leviano Marcos. mas inteiramente novo. logo abaixo d’Hugo. exc. desabafei:&#8213. A genuina expressão da clara intelligencia franceza era a prosa. entoou com ardor a Grã-Duqueza. S. e o esforço para reter os protestos do meu enthusiasmo pelos Mestres da minha mocidade. se de certo modo o não contradissesse um laivo de vermelhidão que lhe subira á face côr de leite. disse elle. a sua cabelleira e a sua ferula. com um diccionario de rimas!. afiançou que bem cedo eu perderia essa illusão! Baudelaire (que elle conhecera) não era verdadeiramente um poeta. recorri á phrase. triumphante. na travessa do Guarda-Mór (occultando a escandalosa apologia de Boileau.12 - . á lapidada phrase. o seu sorriso e o seu shake-hands. por um sentimento de inferioridade e de melancolia. com tão bolorentas opiniões classicas. retorcendo o buço. espantei J. Apenas na rua.&#8213. sincero.. pela erudição e observação accumuladas. Então Fradique.um dissecador subtil d’estados morbidos. [28] Ao mesmo tempo julgava humilhante ter soltado apenas. Os seus mais finos conhecedores prefeririam sempre os poetas cuja poesia se caracterisasse [27] pela precisão. dessemelhante de todos os homens que eu até ahi conhecera! E á noite. abancando ao piano. E na justa ambição de deslumbrar Fradique com um resumo critico.«Que pedante!» [29] Sim. Despachei o defunto! O ministro.. de tipoia! Fradique riu d’aquella designação de classico dada a um hierogrammata do tempo de Ramèzes&#8213.. n’uma trapeira do Luxemburgo.Tudo isto vinha n’um tom muito moço. quando o nome do poeta da Lenda dos Seculos fosse como um suspiro do vento que passou&#8213. sem me lembrar que. mas nunca pessoalmente sentira. penetrante&#8213. que depois da obra de Baudelaire nada em Arte me impressionára como as Lapidarias! E ia lançar a minha esplendida phrase. senhor! não. de rebuscada originalidade. mas os dois passos com que me acompanhou no corredor.. Boileau continuaria a ser um classico e um immortal. julgando-se a cada rima um innovador genial. porém.» Subitamente. surgiu Vidigal: &#8213. tanta rosa nas jarras e todas as molles exhalações de canella e mangerona. com que se procura assombrar os simples. exc.Tudo prompto! gritou. por não poder apresental-as n’aquella fórma translucida e geometrica do poeta das Lapidarias. todo no appetite de revolver com aquelle homem genial idéas de Litteratura. a contestar: mas não ousava. d’um analysta&#8213. com todas as honras devidas a um classico!» E logo de manhã Pentaour deixaria a Alfandega.«Não.

nitidamente vejo. Galguei os degraus do terraço. a erudição e o gosto! J. com o lindo nome de Rosa das Aguas. nos jardins do Ezbekieh. Marcos Vidigal. E eis que subitamente (sem que recordação alguma evocasse até esta imagem)&#8213. perdi a idolatria da Fórma. que tinha um debarieh. e reproduziam sobre um fundo radiante de luar oriental. E. chapéo braguez orlado de sêbo. com um pavoroso cacete ponteado de ferro. o verbo. Era uma solidão. Ha quanto tempo pelo Cairo?» Teve ainda outras palavras indolentes e affaveis. n’aquella terra de roupagens soltas e rutilantes. Teixeira d’Azevedo. estendido n’uma comprida cadeira de vime. avançando com o barco. por entre [31] palmeiraes que emergiam da agua.13 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Times esquecido sobre os joelhos. por Vidigal que burocratisava entre os palmares brahmanicos. já tripulado e amarrado á sua espera no caes de Boulak. com intenso nojo. com despeza. Concordou no emtanto que convinha ir estudar «um machinismo de pose montado com tanto luxo»! Fomos ambos ao Central.» Ao outro dia.«Mas veja v. embebendo-se todo de calor e de luz? Fradique Mendes. diante do Hotel Sheperd. fui argumentando com o poeta das Lapidarias. para percorrermos á noite as illuminações do Beiram.a nos Miseraveis a alta lição moral. n’um relevo quasi tangivel&#8213. a precisão formalista das idéas occidentaes. que. E o laço da gravata de setim negro representava bem. de gardenia ao peito. quem hei de eu avistar? Que homem. o quarto do Hotel Central. as coisas finas e tremendas com que o devia ter emmudecido n’aquella tarde de agosto! O arraes cantava os vergeis de Damasco. governava a India como Secretario Geral. e enunciando emfim. a graça. altivamente affirmar.. a cabaia de sêda. sob o lustre embuçado em tulle.a face eburnea e fresca. sentindo em baixo as carroças de ferragens rolarem para o Arsenal.A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós tudo era irresistivel. só para horrorisar Fradique&#8213. e Fradique. Perdera porém o acanhamento que então me enleava. apenas dôcemente quebrado pela cadencia dos remos e pelo canto dolente do arraes. á Historia da Musica e á concertina: e levado assim esse grato amigo do Tejo para o Mandovi eu não soubera mais do poeta das Lapidarias. Eu berrava mentalmente:&#8213. diante das duas janellas que miravam o Tejo. sobre as immoveis aguas do Nilo. e o meu vasto chapéo panamá: &#8213. dias depois. Sem desarranjar a sua beatitude.. N’um banco ao seu lado. O homem deu-lhe apenas a impressão de ser postiço e theatral... Melhor fui conhecendo os homens e a realidade das coisas. Fradique Mendes (disse o porteiro) partira na vespera n’um vapor que ia buscar bois a Marrocos. trepára da Chronica Musical á Administração Civil. avistei eu no terraço.. quando os [32] muezzins cantam a terceira oração. Depois. a face marmorea de Lucrecio moço. de novo entregue. navegava nas margens inundadas do Nilo. Trabalhei. Teixeira d’Azevedo tinha o enthusiasmo difficil e lento em fumegar. sob as minhas lunetas azues. por onde errára. e com elle cortando as faxas de luz e sombra. e grossos tamancos ruraes!. entre o reps azul. em Memphis. até á Nubia. a grandeza moral do remendo e a philosophica austeridade da nodoa! Eramos assim em 1867! Tudo perdido! Perdida a minha gardenia. engravatado em setim. o grande divan de côres estridentes. soube que Fradique chegára havia uma semana de Suez. todo eu sorria. perdida a immundicie estoica do meu camarada! O [30] snr. por entre um riso de transbordante prazer.. o recolhimento e a solemnidade triste de longas arcarias de claustros.. Antes por vezes me succedia de repente vêr. um vasto silencio de terra morta. através da Revolução de Setembro. [33] Todo o sol do Mar Vermelho e das planicies do Euphrates não lhe tostára a pelle lactea.. que era o da festa do Beiram. na sua cabaia de sêda. Eu. Trazia. na defeza de Hugo e Baudelaire.. . ou no sitio em que foi Memphis. não tornei a lêr Baudelaire. ainda para além de Ibsambul. vindo das margens do Euphrates e da Persia. os olhos côr de tabaco insistentes e verrumando.. o perfume que esparzia. como eu continuava a esfregar o suor e o pó. no fundo d’uma tipoia. Tudo isto arranjado com trabalho. recolhi ao Cairo pela hora mais quente. aconselhou que me purificasse n’um banho turco. nem em Memphis. J.e diante d’esse homem de sceptismo e de luxo. o . claramente vêr. n’esses ocios asiaticos que lhe fazia o Estado. mas lá.«Então como vai desde o Hotel Central?. um anno inteiro e um dia. Perguntou-me pela pachorrenta Lisboa. vejo. Uma occasião. com as mãos cruzadas por traz da nuca. III Alguns annos passaram. celebrando por entre o fumo da cigarette a immortalidade de Boileau! E eu mesmo já não estava no Oriente. elle descruzou apenas um braço que me estendeu com lentidão. durante o tempo que assim remámos n’esta decoração pharaonica para a morada do Sheik de Abou-Kair. as idéas. lançando o nome de Fradique. como democrata e como idealista. d’entre todos os homens. E ao apear do meu burro. Em 1871 percorri o Egypto. caracterisado de «Diogenes do seculo XIX». O encanto do seu acolhimento esteve na facilidade com que me reconheceu. Nunca porém se me apagára a lembrança do homem singular. o sorriso sinuoso e sceptico onde viviam vinte seculos de litteratura.. e que repousasse toda a tarde. na piscina que fica ao pé da Mesquita de El-Monyed. Durante o curto e dôce momento que alli conversámos. limpando o pó que me empastára a face com uma espessura de mascara. exactamente como no Hotel Central. como nos contos de fadas. jaquetão encardido e remendado que lhe emprestára o creado. e que ia n’elle subir o Nilo até ao Alto Egypto. exc. uma larga quinzena preta e um collete branco fechado por botões de coral. viajei..

pulára em linguas de fogo até aos labios d’Egina. E ella. na Rosa das Aguas. de barbas encaracoladas. pouco a pouco. Devia chamar-se A derradeira campanha de Jupiter:&#8213. jantando á mesa do Hotel Sheperd. folheando os Guias Bedecker. os Deuses iam lentamente consummando a sua humanisação. Os Deuses (scismava eu. cuja face cheia de magestade e força serena reproduzia as feições com que Jupiter se revelou á Escóla d’Athenas&#8213. O selvagem escancarou um riso de faiscante alvura no ebano do carão redondo. em que museu admirára eu já aquelle rosto olympico.do frascario e femeeiro Jupiter. entre a Civilisação. me sentei diante da sopa de «rabo de boi». eu desenvolvia [38] e coordenava estas imaginações&#8213.um Deus de rabona. através da mesa. n’uma mesa onde flammejava. pensativo. outra vez entregues. alastrava-se um homem gordo e molle.e n’elle obtinha o fundo erudito e phantasista para incrustar todas as notas de costumes e de paizagens colhidas na minha viagem do Egypto. Justos céos! Le Dieu! Intentaria o negro affirmar que aquelle homem de barbas encaracoladas era um Deus&#8213. quem seria ella? A côr das suas [37] tranças. através da salada de tomates. para n’elles baptisar centuriões cacheticos e comidos de dividas. comendo um macarrão que profanadoramente se prendia ás barbas divinas por onde a ambrosia escorrera? Certamente o dôce motivo que através da Antiguidade. o Fecundador. eu já decerto encontrára algures. levaria a Nympha das aguas. vêr-se-hia a fronte marmorea de Jupiter arfar em cadencia. tropegas do incessante peregrinar aos altares de Aphrodite. um ramo enorme de cactos. ora por necessidade (cada dia se torna mais difficil ser Deus). cheia de força tranquilla como a de um Jupiter. Paulo á Grecia. até aos derrocados templos onde Jupiter poderia murmurar. já pelo habito que os Deuses nunca perderam de imitar os homens. no calmo esforço de perpetuamente conceber a Regra e a Ordem. esparso [35] e tenue. attendendo bem. Mas que motivo o traria alli. como cicerone. e aquelle amigo de Fradique que se parecia com Jupiter.decidido a convertel-as n’um Conto para publicar em Lisboa na Gazeta de Portugal. a enamorar-se de Fradique e a trahir Jupiter! E eil-a aproveitando cada recanto de palmeiral e cada sombra lançada pelos velhos . pelo Hotel Sheperd. Nada mais consequente do que descobrir Jupiter no Cairo. aconselhados pelo erudito Hermes. Assim se tornava verosimil que aquelle homem. sob as palpebras pesadas. a suave ondulação dos seus hombros. na intimidade dos Immortaes. na sala do Sheperd. peregrinavam até ás ruinas dos templos onde outr’ora lhes era [36] offertado o mel e o sangue das rezes. as maravilhas da Imprensa. uma senhora. Visitára a Laconia. n’uma téla devota. já para escapar aos ultrajes d’uma Christandade pudibunda. ouvindo de perto a harmonia ineffavel da palavra de Jove? Fradique era um dos derradeiros crentes do Olympo. a quem eu só via a massa esplendida dos cabellos [34] louros.Mas em logar de descançar. e prender-se logo ao seu serviço. depois do banho lustral. gottejára em pingos d’ouro sobre o seio de Danae. cuja vasta face. atravessára toda a Macedonia com uma escada ao hombro para trepar ao alto eirado da morena Seméle? Agora. Era .. Fradique Mendes já estava jantando. ao trote dôce de um burro. longe da Juno molle e conjugal. Sómente.15 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós muito incenso!» Assim.«Abichei aqui . bebendo com elles champagne Clicquot. creador da Regra e da Ordem. na saudade imperecivel das omnipotencias passadas. em syllabas claras. sobre um escabello mourisco. entre as luzes. Ao seu lado pousava de leve. no meu quarto forrado de esteiras. onde tão romanticamente se ouviam cantar no jardim as fontes entre os rosaes. dissipando toda a incerteza&#8213. trahia a argilla mortal? Terminei por perguntar ao negro de Seneh que servia o macarrão. tudo indicava claramente uma d’essas deliciosas Nymphas das Ilhas da Ionia. e mesmo um dia. que eu vira essa face. dilatada em magestade pela absorpção perenne do incenso e da prece? De novo interroguei o Nubio quando elle voltou erguendo nas mãos espalmadas uma travessa que fumegava. Mas Fradique? Como se achava alli Fradique. E cahi logo n’esta preoccupação. De novo o Nubio me atirou. colhendo garfadas lentas da salada de tomates) não tinham talvez morrido: e desde a chegada de S. em Céo e Terra.14 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós sobre o Olympo. o Deus especial e conhecido que habitava o Sheperd! Fôra pois n’um altar. perfeitas e graciosas. durante a jornada do Nilo. os olympicos abafavam sob saias e jaquetões o esplendor das nudezas que a Antiguidade adorára: e como tomavam outros costumes humanos. outros. e os velhos Deuses. com saccos de tapete. pelo Cairo.. O que o podia arrastar ao Cairo senão alguma saia. C’est le Dieu! Era um Deus! Sorri a esta idéa de litteratura&#8213. viera ao Cairo passar umas férias sentimentaes. E certamente com elle e com a Nympha da Ionia ia Fradique subir o Nilo. e indicando minas d’aras com a ponta do guarda-sol:&#8213. bem feridas. ás suas occupações primordiaes de lavradores e pastores. e transbordando de alegria pagã. defronte. Já por vezes deixavam a doçura do seu valle bucolico. vestida de branco. sacudira as pontas de touro entre os braços d’Europa. viajavam por distracção ou negocios. E. sempre inspirára os actos de Jupiter&#8213. fallava a lingua dos Deuses. viviam refugiados n’um valle da Laconia. esse desejo esplendidamente insaciavel de deusas e de mulheres que outr’ora tornava pensativas as donzellas da Hellenia ao decorarem na Cartilha Pagã as datas em que elle batera as azas de Cysne entre os joelhos de Leda. para dar ao conto um relevo de modernidade e de realismo picante. n’uma cadeira de braços. cujo busto irresistivel provinha das artes conjuntas de Praxiteles e de Madame Marcel. e. nos ocios que lhes impozera o Deus novo. Em que rua. nas terras barbaras de Allah. o Tonante. grunhiu com respeito:&#8213. recebia d’elles a inspiração. tentei ainda. O que me appetecia era o leito fresco. ora por curiosidade (cada dia se torna mais divertido ser Homem). ou velhas matronas com pêllo no queixo. onde apenas a fadiga do olhar. através da poeira quente do deserto libyco. como o fumo que se eleva de uma brazeira meio apagada. cortavam a monotonia dos longos estios da Attica bebendo as aguas em Vichy ou em Carlsbad: outros ainda. Cé-le-diêu. ou viva ou em marmore. e. e com bahús. Uns iam estudar nas cidades. Nem elle nem ella porém podiam esconder a sua origem divina: através do vestido de cassa o corpo da Nympha irradiava uma claridade.fosse na realidade Jupiter. com aquella viçosa mulher. evidentemente. devotamente prostrado diante da Fórma. visitar fóra do Cairo as sepulturas dos Kalifas. como as d’uma estatua de Praxiteles que usasse um collete de Madame Marcel. do Parlamentarismo e do Gaz. da minha imaginação esfalfada foise evolando não sei que sonho. e as costas. que outr’ora os Diaconos Christãos expulsavam dos seus frescos regatos. enojando Minerva e as damas sérias do Olympo. Quando á noite. vestido de flanella azul. pai inesgotavel dos Deuses. Sómente. a fadiga tirára-me o animo de pasmar para outras maravilhas musulmanas.

Quem é este homem? Conheço-lhe a cara. com um principio de obesidade. rindo. que a Poesia Oriental classicamente compara desde seculos aos braços da Terra levantados para o Céo. cançadamente. com a sua chavena de café na mão. de tigellinhas de barro e de vidro onde [42] arde um pavio ou uma mecha d’estopa.. cofiando as barbas encaracoladas. O que eu tomára pelo annuncio d’uma presença divina significava apenas&#8213. através do rumor e da poeira. &#8213. murmurar-lhe coisas em grego mais dôces que os versos de Hesiodo. deixar-lhe nas flanellas o seu aroma de ambrosia. a esplendida aventura de amor. desenvolvida. já me tratava por vossê. conservando. Desejaria bem (confessou elle) que essa fosse a realidade.. balbuciaria ella. resaltavam na escuridão. que se chamava Jeanne Morlaix.emquanto o Pai dos Deuses. o andar. como braços em noite de festa. e os minaretes. Se não era um Olympico&#8213. Mas. esplendidamente sublinhadas por um risco de luz.Naturalmente. que eu comparava. um brilho tremia. reproduzidas no moderno Oriente. arrastando a perna tarda. tornou-me logo mais precioso este compatriota que dava á nossa gasta Patria um lustre tão original! Para saber se elle preferia aniz ou genebra acariciei-lhe a manga com meiguice. o logar proprio na civilisação musalmana. me explicava como um livro de estampas.. [41] que para sempre ligam e fundem dois sêres. dos toldos pendia uma franja que faiscava.quando vi Fradique adiantar-se para mim. a sua encantadora intenção! Descartes. Na celebração do Beiram (custeada pelo Khediva). E foi em mim um extase [40] ruidoso. Com quanta profundidade e miudeza conhecia o Oriente este patricio admiravel! De todas aquellas gentes. com radiosa saliencia.aguas. Mas a descomedida profusão com que se prodigalisam as tigellinhas (quando as paga o Pachá) torna as velhas cidades meio arruinadas. quasi intimo. da physica Epicuriana ou atomista. Vivamente puxei a cadeira para o poeta das Lapidarias: &#8213. bem proprio para o ultrage que eu lhe preparava na Gazeta de Portugal. que a trouxera ao Cairo. a belleza especial e nova estava [43] na multidão festiva que atulhava as praças e os bazares&#8213. ancestral e cornudo! Enthusiasmado. durante a jornada do Nilo. Ella porém tinha a harmonia. quando nos erguemos para ir vêr as illuminações do Beiram. ostentavam. Longas fieiras de pontos refulgentes marcavam a borda dos eirados. no decurso da nossa convivencia. e inclinado a vêr por toda a parte. o dois! Contei-lhe então a minha phantasia pagã. Um qualquer nada provoca esse fatal ou providencial enlaçamento d’atomos. intensamente diversas desde a côr até ao traje&#8213. para o barbaro.. as mais quebradas e as mais fugidias. zombando. e formam essas cadeias. continuaria imperturbavelmente a conceber a Ordem. nos jardins de Choubra. a historia. E faria pensar aos assignantes da Gazeta de Portugal:&#8213. as coisas mais dôces da Anthologia! Ao menos. supremo. a religião verdadeira da Linha e da Côr! E esta intimidade de Fradique com o auctor de Mademoiselle de Maupin. aberto. ser eu o cicerone. em fórma de colchete ou d’anzol. não á de Fradique.»&#8213. o Conto que ia trabalhar. para mim. [39] o aroma.16 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós &#8213. como as do Minho. pousando em cada friso de moucharabieh e em cada grade de varandim. agradeceu. que eu tão generosamente reservára a Fradique na Ultima campanha de Jupiter. um luxo de braceletes fulgindo na treva serena. em sonho.. Fôra elle captivado pela sinuosa e poetica homenagem que eu assim prestava ás suas seducções de homem? Não sei.«O que elle por lá gozou!» Fradique sentára-se. com um modo novo.e todas as linhas do Cairo. as muito lidas maravilhas d’essas Mil e uma noites que ninguem jámais leu. Por vezes um olhar. As illuminações no Oriente consistem.. com a aragem.sobretudo para um occidental besuntado de litteratura. Fradique Mendes. augusto. ia apontando. de Jove e da Nympha que passavam. Devagar. a irradiação d’uma Deusa!. falla algures das affeiçoes produzidas pelos Atomes crochus.e que Fradique. Jupiter tambem se erguera. como desastradamente em Verona succedeu a Romeu e Julieta: por vezes o impulso de duas creanças para o mesmo fructo. e que fôra n’essa tarde. Fradique alludiu gratamente a essa minha encantadora intenção de lhe atar em torno do pescoço os braços de Jeanne Morlaix.. seria a causa mysteriosa e inconsciente. . e era comparsa dos Delassements-Comiques. c’est le deux! Gautier no hotel occupava o quarto numero dois. sobre cada folha d’arvore. na negrura da noite calma. Fradique sorriu. e ser por todo esse valle do Nilo immensamente cochonne&#8213. ás d’uma mascarada fabulosa. as portas abriam sob ferraduras de lumes. com um chicote de nervo (que é no Egypto o emblema de Auctoridade) entalado debaixo do braço. abotoado n’um paletot de flanella. corretor de fundos. n’uma constancia vencedora da Sorte e sobrevivente á Vida. Era (lembrei eu a Fradique) como se durante todo o dia tivesse cahido sobre a sordida cidade uma grossa poeirada d’ouro. os perfeitos dias de paixão que lhe destinava na viagem para a Nubia. que assim se enfeitam em louvor de Allah. quando elle me aclarou o grunhir do negro de Seneh. quente.. E.elle sabia a raça. n’estes tempos de abstracta e cinzenta intellectualidade.Mas. por esta theoria (tão satisfatoria como qualquer outra em Psychologia affectiva). que se engancham invisivelmente de coração a coração. Ora. a radiosa creatura estava caninamente namorada de um Sicard. já construia a primeira linha do Conto: «Era no Cairo. para seu mal. e com os Immortaes vogar á véla e á sirga sobre o rio de immortalidade! Junto á minha face.Em todo o caso. jantar aos jardins de Choubra. diante da sua agudeza.era pelo menos o derradeiro Pagão. como na amizade classica de Orestes e Pylades. realmente deslumbrantes&#8213. porque não se podia encontrar mulher de mais genuina belleza e de mais aguda seducção do que essa Nympha das aguas. arranjada por um archeologo em noite . recebendo. creio eu. nunca esquecerei. os costumes.. as tigellinhas eram incontaveis&#8213. Pedi mesmo permissão para lhe dedicar a Derradeira Campanha de Jupiter. solidificada depois em seis annos de intimidade intellectual. desfallecendo de paixão entre os granitos sacerdotaes de Medinet-Abou. com o velho paladino de Hernani.&#8213. o nada que determinou a sua primeira sympathia para commigo. depois do jejum do Ramadan. um sorriso cuja doçura tambem me envolveu. accrescentou o originalissimo homem. e agora rebrilhasse. É Gautier! Gautier! Theophilo Gautier! O grande Theo! O mestre impeccavel! Outro ardente enlevo da minha mocidade! Não me enganára pois inteiramente. perfeito.. realisava uma triumphal viagem a Thebas. de gravuras. nomeando á minha curiosidade flammejante essas estranhas figuras. Mas. a enamorar-se de Fradique e a trahir Jupiter! E eil-a aproveitando cada recanto de palmeiral e cada sombra lançada pelos velhos pilones d’Osiris para se pendurar do pescoço do poeta das Lapidarias. com banqueiros gregos. Pareceu-me um Deus pesado e molle. Tão realmente divina que resolvi logo substituir-me a Fradique no Conto. Muitas vezes. meu caro patricio. o plastico mestre do Romantismo era apenas&#8213. n’um vergel real. atomos recurvos. resistentes como o bronze de Samothracia.

Estas differenças porém. Esta idéa penetrára profundamente em Said-El-Souriz. soldados pretos do Darfour. sabedor profundo do Guebrismo. cobertos de chagas. Em resumo era um Messias.. disse Fradique. Fradique. muito gravemente. a velha religião nacional da Persia&#8213.. E Fradique. ao sahir do Moujik. conversando ambos no eirado sobre estes altos interesses espirituaes. que no Oriente. não me lembro se degolado. amanuenses turcos.. cheio de curiosidade por este pittoresco Advento. que Fradique dizia passarem n’alma com uma «caricia rascante».e portanto do Paraiso. com a familiaridade que se ia entre nós accentuando. Fradique. Ulemas de turbante verde. um Christo. fórmas airosas sob véos claros. no mundo musulmano ha duas divisões religiosas&#8213. um d’esses Messias que cada dia surgem na incessante fermentação religiosa do Oriente. com a varanda em arcarias. movendo gravemente os pés entrapados em ligaduras. mendigos de mesquita. Os Persas são Sieds. se fuzilado. Attrahido para essa nova seita por curiosidade critica.. suggerira-lhe um dia. de porte insolente. mais viva e teimosa. no fundo. e declarára-se Bab. o homem eleito entre todos pelo Senhor para abrir aos crentes a porta da Verdade&#8213. fôra logo mandado como emissario babista a Medinet-Abou (a antiga Thebas). repiques de pandeiretas. surgia uma frontaria branca. com compridos bigodes esvoaçando ao vento. topára com uma hostilidade que se avivou até á perseguição:&#8213. a idéa de apoiar o Babismo nas raças agricolas do valle do Nilo e nas raças nómadas da Libya. pois. sobretudo na mesquita de El-Azhar. Como tal atravessou a classica evolução dos Messias: teve por primeiros discipulos. Que sei eu! Um Carnaval rutilante..que eram mulheres. aquelles.18 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Paixão. E como eu. sacudidos pelo trote dos burros sobre albardas vermelhas. eram homens do Sennar. e litterariamente polido. em Tabriz. Então a multidão parava. rindo. não tendo agora no Occidente occupações attractivas. Fradique Mendes parou. têm um caracter mais politico e de raça.. de esplendidos olhos. eriçada de longas cerdas de porco-espinho que os corôam d’uma aureola negra.É um Ulema de Bagdad. chegasse a penetrar no ensino de alguma das mesquitas do Cairo. com a cabeça envolta n’um lenço amarello cujas franjas immensas lhes faziam [44] uma romeira de fios d’ouro.os Sieds e os Sunis. a grande Universidade do Oriente. e de todos os labios sahia um grande ah! languido e maravilhado. perguntei a Fradique o que o detivera assim na Persia um anno inteiro e um dia como nos contos de fadas.nomeando á minha curiosidade flammejante essas estranhas figuras. partindo dos Fellahs e dos Beduinos. de collete bordado a ouro. E toda esta turba magnifica e ruidosa se movia entre invocações a Allah. chegára pouco a pouco a ganhar pelo Babismo um interesse militante&#8213. homem de decisiva influencia em todo o valle do Nilo pelo seu saber e pela sua virtude: e elle. gemidos estridentes partindo das cordas das dourbakas. enormes saccos enfunados&#8213. e. além Beduinos sombrios.não por admiração da doutrina. arranjada por um archeologo em noite de folia erudita para reproduzir as «modas» dos Semitas e os seus «typos» através das idades:&#8213. com toda a singeleza. de caracoes frisados. para sondar o Sheik Ali-Hussein. Mais litteralmente. morrendo. a bôca e o coração. mas por veneração dos apostolos. Partindo d’esta idéa. Ganhando ahi auctoridade theologica.17 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós mêda. mais longe Abadiehs. eram Arnautas da Macedonia. iniciado na pura tradição mosaista pelos judeus do Hiraz. e cantos lentos&#8213. pela tradicional marcha dos movimentos sectarios. talvez essa nova onda de emoção religiosa. onde a cada momento passavam.. Assim caminhavamos. pastores e mulheres: soffreu a sua tentação na montanha: cumpriu as penitencias expiadoras: prégou parabolas: escandalisou em Méca os doutores: e padeceu a sua . com o pesado alfange de bainha escarlate pendurado no peito. Entre homens de seita Suni. para observar como nasce e se funda uma Religião. do que theologico e de dogma.aqui Fellahs. com fardetas de linho ennodoadas de poeira e sangue.esses cantos arabes. o Babismo poderia então atacar com vantagem as velhas fortalezas do Musulmanismo [48] dogmatico. com quem elle trocára o salam . e que se chamava o Babismo. n’um silencio de harem. sêdas colgantes.a isto desde logo indicava que seria acolhido pelos Sunis com deferencia e sympathia. ridentes e ageis na sua longa camisa de algodão azul. de grenha em fórma de . A discordancia resalta.a unica porta através da qual os homens poderiam jámais penetrar na absoluta Verdade. e curtos saiotes tufados e encanudados. partia tambem para . tomava na Persia um desenvolvimento quasi triumphal. lhe invejava aquella intimidade com um «homem de tunica verde e de mitra persa»: &#8213. ainda que um fellah do Nilo desprezará sempre um persa do Euphrates como heretico e sujo. seguindo por uma viella mais solitaria e favoravel ás confidencias) tivera por iniciador certo MirzaMohamed. Assim o Babismo entre os Sieds. Em persa Bab quer dizer Porta. como em toda a parte. n’uma aldeia obscura. O Babismo (contou-me elle.. que eu comparava. e. o salam &#8213. d’uma voluptuosidade tão dolente e tão aspera. onde a religião é a occupação suprema e querida da vida. E quantos ainda elle me fazia distinguir e comprehender! Judeus immundos. confessou que se demorára tanto nas margens do Euphrates por se achar casualmente ligado a um movimento religioso que. os outros. Elle era. Mas por vezes. que em Bagdad se ligára familiarmente com um dos mais vigorosos e auctorisados apostolos do Babismo. dizia Fradique. onde os ulemas mais moços formam uma cohorte de enthusiastas sempre disposta ás innovações e aos apostolados combattentes. armas ricas reluzindo nas cintas de sêda. d’uma casta antiga. Said-El-Souriz (a quem salvára o filho d’uma febre paludosa com applicações de Fruit-salt). Persas de mitra de feltro. rindo. a porta&#8213. Ora. um tremor de lumes no crystral dos lustres. desde 1849. [45] trocou com um moço pallido. quando. eram cavalleiros do Hedjaz. ás d’uma mascarada fabulosa. [47] logo que Sieds ou Sunis necessitem pronunciar-se perante uma nova interpretação de doutrina ou uma nova apparição de propheta. bellas estatuas gregas esculpidas em ebano.Mirza-Mohamed amalgamára estas doutrinas com uma concepção mais abstracta e pura do Mahometismo. entre o casario decrepito e rendilhado. Aquelle moço pallido. superiormente intelligente. o Babismo encontraria um campo facil ás conversões.essa saudação oriental em que os dedos tres vezes batem a testa. Uma das personalidades mais finas e mais seductoras que encontrei na Persia! Então. recamos d’ouro. sobem das massas sinceras do povo até ás classes cultas. Coptas togados á maneira de senadores. pomposos e anafados. emmudecia.. como os Turcos são Sunis. Estes. casa rica de Sheik ou de Pachá. por onde se avistavam lá dentro. depois do jejum do Rhamadan.. Mirza-Mohamed apresentava-se como o grande porteiro. Tendo [46] conhecido os Evangelhos Christãos por contacto com os Missionarios.

O sol mergulhava nas areias libycas: e ao alto.Está tão mediocre como o Occidente. ia subindo o vapor lento d’uma visão. descia cantando para a agua do Nilo. E recolhemos ao hotel. mesclada de extravagancia. Depois.já polluiam a graça das velhas danças arabes. As fórmas delicadas do classicismo persa nem se respeitavam. rente das casas do Velho Cairo. Porque não? Tinha a mocidade. Calado. onde elle ia embarcar para o Alto Egypto. Outra não seria minha commoção. A Dança e a Poesia. e o seu sereno olhar enchia minha alma de fortaleza indomavel. antes de recolher aos ninhos.19 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós tiras de papel. vive só da actividade philosophica. se estes eram os factos certos. emquanto Fradique. affirmava Fradique. a iniciação da Verdade. além de agua e amor! Foram angustiosos momentos em que farejei estonteado pelo largo de El-Azhar. E não sabia o caminho do Hotel Sheperd.. nem quasi se conheciam. amarrado á estacaria. [52] Baixei.. carregadas de lentilha e de cana dôce. devagar. agitado cada manhã por uma nova e complicada concepção da Moral. a levar a Palavra aos gentilicos. lançadas assim através do Cairo em festa. com o cantaro amarello pousado no hombro. a benção crepuscular. descambára. uivando em cadencia os louvores d’Allah. encolhendo os hombros.&#8213. &#8213. a espalhar o verbo babista. do ulema de Bagdad. invadido pelo pensamento do Bab. a escrevinhar . puro em toda a sua profundidade como a alma d’um justo. nem Derviches. da possivel fundação de um imperio Babista&#8213. sem uma nuvem. depois de tantos annos. esbarrando inconsideradamente contra rudes beduinos armados. enlevado n’estas phantasmagorias.. me perdi de Fradique. por fim. nem poetas do deserto recitando as façanhas d’Antar. ouvindo-lhe as esperanças e os sonhos! Assim conversando. em meio de fellahs pasmados e de Moghrebinos arrimados ás lanças. em Beni-Soueff. Á medida que elle fallava do Bab.nem almées dançando entre brilhos de vermelho e d’ouro. puro em toda a sua profundidade como a alma d’um justo. descia cantando para a agua do Nilo. sem uma sombra. sem uma nuvem. Ao outro dia acompanhei Fradique a Boulak. como no tempo em que eram Deuses. me contava que o espirito oriental. n’uma toada langorosa e triste. se. Viame discipulo do Bab&#8213. á hora em que os Directores Geraes sobem devagar da Arcada. findando o charuto. nas vesperas de S. hoje. tropeçando nos fogareiros onde fervia o café. e na manhã clara sulcava o claro Tejo. devendo encontrar-se com o babista. E os ibis. na Gazeta de Portugal! E pouco a pouco d’este desejo.«Eu sou a Porta!» Não mergulhei no Apostolado babista&#8213. no Nilo.. que. entre barcas d’Assouan. antes de recolher aos ninhos.nem. lançar por sobre os eira esperava. ao salão do debarieh. atirando [51] a perna pelos ares á moda vil de Marselha! E na Poesia triumphava a mesma banalidade. Como S. sem uma sombra. Paulo embarcar para a Grecia. avistava terra. outros termos uteis. Desembarcava. envidraçado. sob as suas tendas de linho. para d’elle me informar. com um bater d’azas contentes. lia. bemdita entre todas as aguas..mas succedeu que. carregadas de lentilha e de cana dôce. Um dia.. Mas seguiu logo. iam em miserrima decadencia. levando de preferencia a salvação ás almas que me eram mais caras. como no tempo em que eram Deuses. contemplámos silenciosamente aquellas margens que. entre barcas d’Assouan.De sorte. As almées. Mas já não me prendiam as surprezas d’aquelle arraial musulmano&#8213. abandonando as minhas bagagens. embarcava n’uma galera: as tormentas assaltavam a minha prôa apostolica: a imagem do Bab apparecia-me sobre as aguas. e a pobre Poesia Oriental.. vinham. eu tivesse com elle passeado pelas ruas estreitas de Seleucia. o céo adormecia... &#8213. bemdita entre todas as aguas. e rumas de livros para as séstas de estudo e de calma quando lentamente se navega á sirga. o céo adormecia. como d’uma agua que ferve. como a nossa. Onde iria? A Portugal certamente. e em meio do Loreto. as duas grandes artes orientaes.recebendo n’essa noite. vinham. cheio de curiosidade por este pittoresco Advento. Uma fila de mulheres coptas.. lançar por sobre os eirados. estofado. murmurei. E os ibis. Não recordo.. tratando themas vetustos com uma emphase preciosa. O seu debarieh esperava. a fonte da imaginação seccava entre os musulmanos. E. d’essa missão apostolica ao velho Sheik de Thebas. com o cantaro amarello pousado no hombro..o homem tomava aos meus olhos proporções grandiosas. n’um Parnasianismo barbaro. aos brados. partia tambem para Thebas. galgava aquella bemdita rua do Alecrim. em arabe. revolvia commigo o confuso desejo de me aventurar n’essa campanha espiritual! Se eu partisse para Thebas com Fradique?. penetrámos no adro da [49] mesquita de El-Azhar onde mais fulgurante e estridente tumultuava a festa do Beiram. á lua mingoante. rente das casas do Velho Cairo. Não conhecera jámais ninguem envolvido em coisas tão altas: e sentia-me ao mesmo tempo orgulhoso e aterrado de receber este segredo sublime. abria os braços e bradava:&#8213. tinha o enthusiasmo. que banalmente recolher á banal Lisboa.20 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós fila de mulheres coptas. Logo de longe lançava uma injuria ás igrejas [50] de Lisboa. E partia logo a prégar. construcções d’uma Fé vetusta e menos pura. me impressionaram indizivelmente. durante momentos.pela sua virtude: e elle.. não tendo agora no Occidente occupações attractivas. amarrado á estacaria. O sol mergulhava nas areias libycas: e ao alto. atraz de Fradique. Uma .quando topei com elle olhando placidamente uma almée que dançava. o nome de Fradique&#8213. sob um bico de gaz. n’um desprendimento já divino de bens ainda terrestres. tiras de papel ensebado. que lhe offerecem os Logicos dos bazares e os Metaphysicos do deserto. através das . Já por sobre a turba atirava.. de uma outra fé surgindo no mundo musulmano com o seu cortejo de martyrios e d’extasis. Fradique. Mais viril e nobre seria encetar no Oriente uma carreira de evangelista. pervertidas pela influencia dos casinos do Ezbequieh onde se perneia o can-can&#8213. N’uma e outra se tinham perdido as tradições do estylo puro. onde ha tantos seculos não entra um enviado de Deus. com armas penduradas para as manhãs de caça. Só sei que as revelações de Fradique. Paulo. que o Oriente. Nem me permittiu adiante admirar um poeta. no convés.

«Cá encontrei o teu . Amrou enviado de Mahomet. Tem curiosas parecenças com Descartes! É a mesma paixão das viagens. mais acabado producto da civilisação em que me tem sido dado embeber os olhos. A vela fôra içada á briza suave que arripiava a folhagem das mimosas. sob o vôo das pombas. aos Pampas. E emfim certos requintes de Fradique . Homem todo de emoção não se podia fundir intellectualmenle com aquelle homem todo de analyse. O poeta da Morte de D. e das subitas [55] desapparições. na quinta da Saragoça. O extenso saber de Fradique tambem não o impressionava. em pedaços ardentes d’aventureiros da Renascença. pelas Antilhas. abrigam aldeias que têm a simplicidade de ninhos.e lê Sophocles no original». e dictando a um creado de calção. que levava o philosopho a fechar os livros «para estudar o grande livro do Mundo». sendo um nervoso e um apaixonado. arremette com um chicote na mão contra um troço de lanças abyssinias:&#8213. onde Fradique viera repousar da sua jornada ao Brazil e ás republicas do Pacifico. por todos sentirem que n’ellas a vida é cheia de bens maiores e de doçura suprema. no verão de 1877. a mesma attracção pelo luxo e pelo ruido. a paizagem divina e sem igual. Teixeira d’Azevedo. Marcha cinco leguas sem parar. as carabinas de Winchester. E receio que em logar do Discurso sobre o Methodo venha só a deixar um vaudeville». O Nilo corre. mais veneravelmente correcto que um mordomo de Luiz XIV. que estas qualidades. pouco tempo depois. dizia d’elle n’uma carta carinhosa:&#8213. Mas a hora chegára: abracei Fradique com singular emoção. n’outro de Brummel. J. elle creára amizades onde todos encontraram proveito intellectual e encanto. E depois de tudo isto fecha a sua porta ao mundo&#8213. que em Descartes se traduzia pelo gosto de frequentar as «côrtes e os exercitos». ao Chili e á Patagonia. olhos cobiçosos. mas intensa. uma perola negra no esplendor do peitilho. clemente e misericordioso!» Ao redor. extaticos ou saudosos: Reis de Judá. desde o loquaz Herodoto até ao primeiro Romantico. para vivar e governar lá dentro. retomado por essa «bisbilhotice [54] ethnographica» a que elle allude n’uma carta a Oliveira Martins. Alexandre-o-Grande sonhando o imperio do Oriente. sentado á borda. E entre bençãos e cantos a vasta barca fendeu as aguas sagradas. finas e como de bronze sobre o ouro da tarde. não se partiu. Bonaparte retomando o immenso sonho. Fradique é um genio com escriptos!» Tambem Fradique. aqui pararam como nós. o mesmo amor do mysterio. Depois.«Fradique Mendes é o mais completo. do outono de 1875 ao verão de 1876. D’elle me escrevia em novembro de 1877 o auctor do Portugal Contemporaneo:&#8213. como a idéa do seu espirito é sempre a mais original. a mesma singular mistura de instinctos romanescos e de razão exacta. Prefeitos de Roma e Prefeitos de Byzancio. S. desde os rudes Pastores que arrazaram Thanis. Reis da Persia. conheceu o pensador das Odes Modernas. que nos unira no Cairo. vozes lentas murmuraram:&#8213. e arrojando-o á Terra disse: Vai. n’uma carta d’esse tempo que conservo. no orgulho da sua eternidade.e para sempre a alma [53] fica presa e lembrando.estudo e de calma quando lentamente se navega á sirga. feriu as cordas da dourbaka. para estes céos. Além d’isto. sentia uma insuperavel antipathia pelo que elle chamava o lymphatismo critico de Fradique. Todos. bate ao remo os melhores remadores de Oxford. e para viver n’esta suavidade e n’esta belleza os povos travam entre si longas guerras. Só lhe falta uma idéa que o alugue. as cabaias de sêda. do nascimento e da fidalguia. Luiz enviado de Christo. n’uma das suas cartas a Oliveira Martins. sorri ás mulheres com o encanto e o prestigio com que sorrira á fadiga. nunca confessada. as tres Pyramides. o deixámos perder por entre os interesses mais fortes das nossas fortunas desencontradas. Fradique. Para além verdejam. mette-se sósinho ao deserto a caçar o tigre. erguem-se. durante uma residencia mais intima em Lisboa. com a sua casaca do Cook. III Durante annos não tornei a encontrar Fradique Mendes. o homem pallido de grande pose que disse as dôres de «Réné»! Bem conhecida é ella. através das compridas idades. em Cintra. começava a sua longa viagem ao Brazil. «As noções d’esse guapo erudito (escrevia elle em 1879) são bocados do Larousse diluidos em agua de Colonia».«Em nome de Allah que nos leve. Ninguem está mais superiormente apetrechado para triumphar na Arte e na Vida. Com tudo isto falta-lhe na vida um fim sério e supremo. que concentrára as suas jornadas dentro da Europa Occidental&#8213. as grandes escovas de prata lavrada. contemplámos silenciosamente aquellas margens que.emquanto eu errava pela America. paternal e fecundo. Faz armas como o cavalleiro de Saint-Georges. d’outras barcas. na vida intima de gentleman em viagem. com quem. Á prôa o arraes. que considero o portuguez mais interessante do seculo XIX.tinham como eu sentido a seducção d’aquelle homem adoravel.e á noite n’uma sala. têm feito o enlevo de todos os homens. modelou á pressa Fradique. E o ultimo companheiro da minha mocidade que se relacionou com o antigo poeta das Lapidarias foi J. Quantos. João e da Musa em Ferias chamava-lhe «um Sainte-Beuve encadernado em Alcides». e divergido sempre. a mesma vaidade. espalmando as mãos para o céo. sobre Philologia e sobre Metaphysica. uma lição de alto gosto. em si excellentes concorressem a realisar. levando para Thebas o meu incomparavel amigo. os Ptolomeus magnificos. e veste-te no Poole!» Emfim Carlos Mayer. n’outro de Chateaubriand. E quando a minha vida emfim se aquietou n’um velho condado rural de Inglaterra. entornou-lhe por cima champagne e tinta de imprensa. no convés. deu um dia sobre a personalidade do meu amigo um resumo sagaz e profundo: «O cerebro de Fradique [57] está admiravelmente construido e mobilado. Mas o fio de sympathia. Apenas isto&#8213.22 - . Ramalho Ortigão. a mesma coragem serena.«Em nome de Allah que vos leve!» Um dos remadores. a sua apparição no mundo: «Deus um dia agarrou n’um bocado de Henri Heine. apesar de tão tenue. durante momentos. vêl-o [56] no seu quarto. Quasi todos os tres mezes trocavamos uma carta&#8213. amassou tudo nas suas mãos omnipotentes. Teixeira d’Azevedo. alongando para estas aguas. e ainda os que vieram só para contar da terra adoravel. Tinham ahi conversado muito. É um ensino. eu sabia de Fradique por alguns dos meus camaradas. nem nós. entre as suas malas de couro da Russia. bebendo golos de chá que lhe manda o Gran-Duque Vladimir. E explicava assim. n’esse inverno. de phantasia e de geometria. lamentando como Oliveira Martins que ás multiplas e fortes aptidões de Fradique faltasse coordenação e convergencia para um fim superior. preparando-se. Reis de Assyria. A rosa da sua botoeira é sempre a mais fresca. ao perigo e á morte. clamou:&#8213. falla com tanta elevação e carinho.21 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Fradique. e possue as noções mais novas e as mais certas sobre Physica. escolhendo um perfume. Á orla do deserto. de quem. e que Fradique miudamente enchia de idéas e de factos. apesar das dissimilhanças de temperamentos ou das maneiras differentes de conceber a vida&#8213. os jardins e os pomares de Rhodah.cinco ou seis folhas de papel que eu tumultuosamente atulhava de imagens e impressões. pelas republicas do golfo do Mexico. e em fragmentos resequidos de sabios do Instituto de França. sobre Astronomia. telegrammas que vão levar noticias suas aos boudoirs de Paris e de Londres. Mais longe as palmeiras de Giseh. outro tomou uma flauta de barro.

quando por traz do jornal que eu encostára á garrafa assomou uma larga mancha clara. de pensar». Não conheci jámais espirito tão impermeavel á tyrannia ou á insinuação das «idéas feitas»: e decerto nunca um homem traduziu o seu pensar original e proprio com mais calmo e soberbo desassombro. o sêr sensivel.» Ergui-me com um grito. elle exerceu sobre mim imperio e seducção.estaca. firme. com effeito. era a suprema liberdade junta á suprema audacia. passei em Paris a semana da Paschoa. vem para mim serenamente. em Londres e em Lisboa.. Nas alegres temporadas que com elle convivi em Paris. se eu tivesse reparado. encontrasse restos de pallidez e de emoção: mas o tom era simples. Se eu então concebesse uma Philosophia original. tem de ser recolhida como outr’ora aos Santuarios. emmudece! Diante de nós. D’essa noite em Paris datou verdadeiramente a nossa intimidade intellectual&#8213.«Ah. um peitilho. como os antigos reis do Oriente. sabbado». mas nunca. ao crepusculo. E uma voz muito serena murmurou: «Separámo-nos ha annos no caes de Boulak. a mulher e o seu tormento. vinha vagarosamente desenvolvendo a idéa de que a extrema democratisação da Sciencia. um pouco altivo. iria a elle com a confidencia d’uma esperança ou d’uma desillusão.isto é. talvez estreito. nas amarguras do seu coração. tudo de incomparavel brancura. «Apesar de trinta seculos de geometria me affirmarem (diz elle n’uma carta a J. passára vivamente. e começando: «Hontem philosophava com um amigo no jardim das Tulherias. mais que nenhum outro homem. Em 1880 (nove annos depois da minha peregrinação no Oriente). causavam uma irritação quasi physica ao meu velho camarada da Travessa do Guarda-Mór. IV O que impressionava logo na Intelligencia de Fradique.. Esta regra. que a defenda contra as curiosidades das plebes. a sua voz mordente recortando o verbo com perfeição e preciosidade. na ordem do Sentimento. d’um orgulho apenas permissivel a um Spinosa ou a um Kant. na nossa copiosa correspondencia d’esses annos privei sempre. amigo.. estas predicções de desastre e de fim&#8213. dirigia severamente a sua conducta. não se offerecendo todo. não se abrindo.«O homem. uns cabellos côr de mel. o seu habito de beber champagne com soda-water. nós conservámos sempre o habito especial. nem uma sombra que lhe toldasse a pureza. se eu achasse que. Determinadamente lhe chamo intellectual. Não ha outro meio de nos salvar da anarchia moral.. que com elle preparava para bem cedo a sua catastrophe moral. os raciocinios do seu cerebro.. uma gravata. De resto. balbucia um «adeus!». Ora n’essa tarde. ou surripiasse á Natureza distrahida uma das suas secretas Leis&#8213. acena a um fiacre. fui cear solitariamente ao Bignon.. meu caro. de 1880 a 1887.. não se deve mostrar aos seus semelhantes senão unica e serenamente occupado no officio de reinar&#8213. na verdade. Confessava porém. como aquelle. feito da banal argilla humana. que se encostára ao meu braço. ou antes na sua maneira de se exercer. como Oliveira Martins. para subir da porta do Hotel Universal á porta da Casa Havaneza.. d’um critico genuinamente occupado na deducção do seu conceito. Fradique. não teve uma intermissão. e como se deprehende d’uma carta a Madame de Jouarre (datada de «Maio. para que os meus olhos não penetrassem de leve.que em oito annos.22 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós (escovas de prata e camisas de sêda). Pelo menos commigo assim se comportou immutavelmente. desde essa noite de Paschoa em Paris que iniciou as nossas relações.e o maitre-d’hotel recuou assombrado diante da meridional e ruidosa effusão do meu abraço. tivesse soffrido horas antes uma desillusão tão mortificante e rude. uma face.de preferencia escolheria Fradique como confidente d’esta actividade espiritual. Outro homem que. Tem de ser recolhida aos Santuarios.. sem reserva.talvez por sentir que a rara originalidade de Fradique se concentrava toda no sêr pensante. com a intelligencia de Fradique&#8213. de 1883. um coupé onde entrevi. era o grande erro da nossa civilisação. me atormentou a [59] curiosidade de a conhecer&#8213.. A Sciencia.e interrompidamente assisti e me misturei á sua vida pensante: nunca porém penetrei na sua vida affectiva de sentimento e de coração. «Mulher!». murmuraria ao menos. ao trote fino d’uma egoa de luxo. n’um desafogo generico e impessoal:&#8213. conversando por sob os castanheiros em flôr. porque a revestiam quatro tapeçarias de Luca Cornelio contando os Trabalhos de Hercules. como se desde essa manhã nenhum outro cuidado o absorvesse senão o seu th cuidado o absorvesse senão o seu thema do jardim das Tulherias: [61] &#8213. [62] através da nossa activa convivencia. Teixeira d’Azevedo) que a linha recta é a mais curta distancia entre dois pontos. fui (como combinára) buscar Fradique á rua de Varennes. e entregue a um sacro collegio intellectual que a guarde. Vivamente tambem. Apenas entrei na sala que denominavamos a «Heroica». o jardim das Tulherias. Nem. Ha a fazer com esta idéa um programma para as gerações novas! Talvez na face. ao velho palacio dos Tredennes.desenrolando determinadamente diante de mim. E correspondia-se regularmente com elle&#8213. Fradique com um sorriso. por entre as tenras verduras de maio. pensei eu. ao transpôrmos a grade [60] para a praça da Concordia. ou os seus não se detivessem demais.mas para o contradizer com acrimonia. para os lados da rua Royale. N’uma carta a Oliveira Martins..Não lhe acabei de dizer ha pouco. De repente. com as mãos enterradas nos bolsos d’uma quinzena de sêda. que estupida é a vida!» Elle fallou da Sciencia e das Plebes. que era um collete. ou impondo talvez a si mesmo. e desapparece ao galope arquejante da pileca para os lados do cães d’Orsay. Fradique sacode o meu braço.não se manifestando nunca aos meus olhos senão na sua funcção intellectual. outros traços ainda.&#8213.») Fradique corria n’esse fiacre a uma desillusão bem rude e mortificante. e que o outro. Tinha encetado as ostras e uma chronica do Temps. me sahia mais directo e breve rodear pelo bairro de . repetia sem especial relevo as costumadas fragilidades da argilla. Muito bem me lembro eu d’uma resplandecente manhã de maio em que atravessavamos. ou preparasse os mandamentos d’uma nova Religião.23 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós com um luxo tão nobre e tão sobrio. Fradique diz:&#8213. Uma noite. na penumbra dos setins que o forravam. o seu universal e illimitado derramamento através das plebes. E. o Philosopho que assim lançava.&#8213. porque esta intimidade nunca passou além das coisas do espirito. senão nas funcções da Intelligencia. sempre igual e sempre certa. Por isso talvez. de nos considerarmos dois puros espiritos. onde elle installára desde o Natal os seus aposentos . Fradique deixa a janella d’onde olhava o jardim já esbatido em sombra. Era. depois da Opera. E Fradique igualmente manteve commigo esta attitude de inaccessivel recato&#8213. que Fradique era o portuguez mais interessante [58] e mais suggestivo do seculo XIX.

já porque a suggestão d’esses conceitos se imponha e nos leve subtilmente a concluir em concordancia com elles&#8213. com uma força de pensar muito propria. as telas do Ticiano.. fluctuando diffusamente na nossa memoria. para agradar. sempre que a sua probidade de Professor e de Critico lhe impunha a proclamação da verdade.mundo mediano e regrado. muito pessoal e muito decidido. é já uma virtude. causada pelos quarenta mil volumes que todos os annos. se eu achasse que.o Europeu irá insensivelmente regressando á nobreza do estado primitivo. suando e gemendo. a murmurar desconsoladamente:&#8213. os nossos Lusiadas. onde as Idéas. que escrevia na Revista Suissa. oh Carolus. entre o Hottentote nú movendo-se na plenitude logica do Instincto. depois de leituras e conversas. pelo pedantismo das sciencias. e rarissima. o Jornal. Mas.«Como é bello!» Raros soffrem estas angustias criticas do desditoso [64] Cornuski. sem odio sincero a Diana e ao seu culto e só para que d’elles se falle com . nos pareçam ser as nossas proprias. as orações de Bossuet. devem ser como as Maneiras. durante dois annos. e das grandes Moraes. com a sua indocil e brusca liberdade de Juizos. para subir da porta do Hotel Universal á porta da Casa Havaneza.desobstruindo-o. as quatro idéas e as quatro impressões legadas pela Antiguidade e pela Renascença.distancia entre dois pontos. e outros monumentos canonizados. e que (diz Fradique) «constantemente sentia o seu gosto. Um espirito inventivo e novo. com a nossa lança forte cravada na relva. e ahi esperasse pacientemente que os sopros vivos da Natureza. depois de vinte mezes [66] de matagal e de brejo. através da vida. rebellar-se contra obras de Litteratura e de Arte que a unanimidade critica. começa a absorver esta camada do Logar-Commum&#8213. com o craneo limpo de todos os conceitos e todas as noções amontoadas desde Aristoteles podendo proceder soberbamente a um exame inedito das coisas humanas. Carlos. ao Adão renovado que regressasse da Patagonia com o espirito escarolado do pó e do lixo de longos annos de Litteratura&#8213. logo se murmura com desconfiança: «Pretencioso! busca o effeito e o destaque!» Ora Fradique nada detestava mais intensamente do que o effeito e o destaque excessivo.tentou-o elle. porque o nosso espirito não possua a viril coragem de affrontar a auctoridade d’aquelles a quem tradicionalmente attribue um criterio mais firme e um saber mais alto. oh Carolus Mayerensis. de viçosa originalidade. a Inglaterra. da Regra. No mundo a que irresistivelmente o prendiam os seus gostos e os seus habitos&#8213. E não possuindo em torno de si Livros e Revistas que lhe renovem uma provisão de «idéas feitas».. espirito que distillas espiritos. deve ir curar-se da Civilisacão litteraria por meio d’uma residencia tonica. e permittindo-lhe o são exercicio da funcção natural. e das grandes Criticas. [63] constitue uma qualidade rara:&#8213. vive dentro d’uma pallida e morna infecção de banalidade. com um ou outro arrebique sobreposto. E tudo preferiria a ser apontado [68] como um d’esses homens.24 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós seguro que o de tão finos entendimentos através dos tempos? Quem sabe? Talvez n’essas obras exista a sublimidade&#8213.é mais desagradavel a esse mundo do que o homem rudemente natural que não regre e limite dentro das «Conveniencias» a espessura da cabelleira. Martinho e pelos altos da Graça. «O homem do seculo XIX. tem consagrado como magistraes&#8213.e só no meu espirito a impotencia de a comprehender». declararia logo á secular geometria&#8213.a Gerusalemme Liberata do Tasso. este homem robusto.a lamentavel verdade é que hoje todos nós servilmente tendemos a pensar e sentir como antes de nós e em torno de nós já se sentiu ou pensou.25 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós precisa&#8213. onde densos formigueiros de chapéos altos se atropellam. me sahia mais directo e breve rodear pelo bairro de S. batendo-lhe a Intelligencia e d’ella pouco a pouco varrendo os detritos de vinte seculos de Litteratura. A Patagonia opéra sobre o Intellecto como Vichy sobre o figado&#8213. e pela estupida admiração de si mesmos!. e das conclusões oraculares dos Mestres. A isto. sem deixar os muros classicos da rua de Varennes. e das grandes Economias. a França e a Allemanha depositam ás esquinas. Ora este «exame inedito das coisas humanas». a Industria. com incomparavel vigor e sinceridade. as tragedias de Racine. e das grandes Pilherias que vão por essa Europa. que a Intelligencia. Cornuski. estirados ao sol entre a palmeira e o regato que tutelarmente nos darão o sustento do corpo.que a distancia mais curta entre dois pontos é uma curva vadia e delirante!». só possivel. o estridor das risadas. tremia. Teixeira d’Azevedo) falla d’um polaco. que altivamente pretenda readquirir a divina potencia de gerar. com risonha inconsciencia. E o desgraçado Cornuski. diante dos córos da Athalie e das nudezes do Ticiano. Nunca lhe conheci senão gravatas escuras. praticam o seu servilismo intellectual. affrontava o perigo de passar por um petulante rebuscador de originalidade. E n’isto mostrava intrepidez moral. que. Os pendentes farrapos que lhe restarão das pantalonas e da quinzena que trouxe da Europa. nem um benefico Nunes Algibebe que lhe forneça uma outra andaina de «fato feito»&#8213. a Moral. pelas mistificações dos reformadores pela escravidão da rotina. estonteados pelas superstições da civilisação.mas o animo de a affirmar intemeratamente diante da magestosa Tradição. professor e critico. e mulheres ao lado vertendo-nos n’um canto dôce a porção de poesia e de sonho que a alma .» [67] Assim diz Fradique.deixaremos livremente as ilhargas crestadas estalarem-nos de riso á idéa das grandes Philosophias. que heroicamente se batera em duas insurreições. «geralmente adoptadas» e não individualmente creadas&#8213. livres e nús. Esta independencia da Razão. o Folheto. e em que interminavelmente e monotonamente reproduzem.camada que depois todos os [65] dias.Fradique. seria necessario que se internasse no Deserto ou nos Pampas. a Revista. a Economia Politica. já porque as idéas estabelecidas. a Sociedade e a Arte? Farrapos. virgem de litteratura. lhe refizessem uma virgindade. o Livro lhe vão atochando no espirito até lh’o empastarem todo em banalidade. se chama educar! A creança. segundo o poeta das Lapidarias. sanguineo. O Estado por meio das suas escólas canalisa esta infecção. Para que um Europeu lograsse ainda hoje ter algumas idéas novas. entre os Hottentotes e os Patagonios. D’esse espirito indisciplinado e creador. Depois de dois annos de vida selvagem. de radiosa excepção! Fradique (n’outra carta a J. com effeito. com a alma mais triste que um crepusculo d’outono. que Fradique assim apregôa com desordenada Phantasia. sem invenção e sem iniciativa intellectual. Por isso eu te affirmo. Todos porém.&#8213. a Religião. o Europeu. desde a sua primeira «Selecta de Leitura» ainda mal soletrada. avido de gloriola e de excessivo destaque. continuava. nudez do corpo e originalidade da alma. desde seculos. queres remergulhar nas Origens e vir commigo á inspiradora Hottentocia? Lá. e lh’o tornarem tão inutil para a producção como um sólo cuja fertilidade nativa morreu sob a areia e pedregulho de que foi barbaramente alastrado. pela illusão do ouro. e o franco mover dos membros grossos.que restará ao civilisado de todas as suas idéas sobre o Progresso. deixando transbordar a vida abundante e multipla que o anima e enche&#8213. Quando de lá voltar é um Adão forte e puro. porque só elle é essencialmente do seculo XIX (diz Fradique n’uma carta a Carlos Mayer).«Não! Porque será o meu criterio mais . Já. G. pensava:&#8213.

que.uma percepção extraordinaria da Realidade. o discipulo de todas as Philosophias&#8213. de cada uma recebendo um accrescimo de substancia. a diversão sceptica que tantas injurias arrancou a Carlyle. É justamente o que succede aos monumentos de Londres mergulhados no . formam em torno de cada phenomeno uma nevoa que esbate e deforma os seus contornos.cometa errando através das idéas. pisando os tapetes com os seus pés nús. os preconceitos. O dilettante. uma Realidade&#8213.. Quero dizer. que. a catholica cidadella do Carlismo. duqueza de Varle e d’Orgemont. nem elevando-lhes o bem-sentir por meio da Metaphysica que é uma inspiradora de poesia. vão. com que Fradique se arremessava ao fundo real das coisas. E tudo preferiria a ser apontado [68] como um d’esses homens. incendiar-lhe o templo em Epheso. que eu. para «poder desmontar e estudar peça a peça o mecanismo d’um cerebro de Nihilista». como recommenda Buffon) certos contornos que o limitam. de cada planta pacientemente extrahindo o seu mel:&#8213. Não! essa séria convicção (a que os inglezes chamam earnestness). lhe dão feição propria no esparso e universal conjunto. corre entre as idéas e os factos como [72] as borboletas (a quem é desde seculos comparado) correm entre as flôres. «Todo o phenomeno (diz elle n’uma carta a Anthero de Quental. não sou um d’esses homens seguros e uteis. Sómente Fradique não se limitava. a rotina e sobretudo a illusão. communicava á sua vida uma valia e efficacia muito superiores ás que o dilettantismo. ia como a abelha. quasi irreductivel ao verbo. Assim se exercia esta diligente e alta Intelligencia. para se produzir Litteratura . retomar logo o vôo estouvado. Temporal e espiritualmente fiquei simplesmente um touriste». A expressão de Realidade não é philosophica. Esta independencia. Só portanto me resta ser. Qual era porém a sua qualidade essencial e intrinseca? Tanto quanto pude discernir. Assim se incorporava em Londres aos Positivistas rituaes.o que duplamente me leva a amal-a com pertinacia». vão queimar o incenso e a myrrha na ara da Humanidade e enfeitar de rosas a Imagem de Augusto Comte. Não sendo pois um sabio. mas em cada uma deixando alguma coisa do calor e da energia do seu movimento pensante. para apanhar dentro d’ella o mais possivel d’um conceito pouco coercivel. passar a outro facto ou a outra idéa. Estes touristes da intelligencia abundam em França e em Inglaterra. onde para sempre permanecesse por inercia&#8213. o partidario de todos os Partidos. gozar todas as surprezas e emoções intellectuaes que elle possa dar. agitando um grande facho. Todo o phenomeno. nem um philosopho. Fradique (para continuar a sua imagem) transformava-se em «cidadão das cidades que visitava». Assim se fizera babista. com a esperança de lá colher «a flôr de alguma extravagancia instructiva». A entrada na Historia tambem se me conserva vedada:&#8213. recolher com cuidado o ensino ou a parcella de verdade que exista nos seus refolhos&#8213. toda núa. Assim visitei outr’ora a Italia. para se tornar budhista praticante. pois. porém.eram de resto as qualidades que melhor convinham á funcção intellectual que para Fradique se tornára a mais continua e preferida. Assim [71] habitára durante um longo verão Seo-d’Urgel. percorrel-o miudamente. explorar-lhe o inedito. e frequentára as suas sessões. nem sou tambem um d’esses homens.26 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós basta possuir talentos. De sorte que d’elle bem se póde dizer que foi o devoto de todas as Religiões. em plena festa.quero dizer.. Sómente o erro. em 1882) nem um sabio. entre os dois mediums supremos. embebendo-se convictamente n’ellas. Fradique. um homem que passa. como se percorresse uma a uma as cidades [70] d’um paiz d’arte e luxo. concorrera prodigamente para a fundação da Revista Espiritista. nem um philosopho. nos dias festivos do Calendario Comtista.nem accrescendo-lhes o bem-estar por meio da Sciencia que é uma productora de riqueza. estuda apenas o aéreo relevo dos monumentos e a roupagem das multidões. com vagar e com paz. consiste em me acercar d’uma idéa ou d’um facto. esta livre elasticidade de espirito e intensa sinceridade&#8213. ou (para me exprimir por uma imagem. para penetrar e desvendar o Babismo. suggestiva através de certa obscuridade que a envolve) tem uma Realidade. deslizar suavemente para dentro. a tenham fomentado com interesse ou paixão. A entrar hei de levar a minha amiga núa. em que fixára a curiosidade e actividade critica dos seus derradeiros annos. a exames exteriores e impessoaes. tem relativamente ao nosso entendimento e á sua potencia de discriminar. encontrando n’essa fugidia mutabilidade o deleite supremo. destinados por genio ás analyses superiores que se chamam Philosophias.e sahir. enristando para os homens as pontas fecundas dos seus nobres seios nús.porque. e penetrar cabalmente o Budhismo. como esses. sed magis amica Veritas! Este bello latim significa. e constituem o seu exacto. destinados por temperamento ás analyses secundarias que se chamam Sciencias. encolhido n’uma quinzena sordida pregada com alfinetes. Patoff e Lady Thorgan.menos (como elle diz n’uma carta a Madame de Jouarre) «ter de vestir a Verdade nos armazens do Louvre para poder entrar com ella em casa de Anna de Varle. Assim se preparava (quando a morte o surprehendeu) a voltar á India. caro historiador.impedindo que por seducção elle se désse todo a um Systema. á maneira de quem n’uma cidade d’Oriente.gravatas escuras. E eu!. julgo que a originalidade é agradavel ás mulheres e só desagradavel aos homens&#8213. e presidia as Evocações da rua Cardinet. real e unico modo de ser. Assim se ligára com os Theosophistas. communica ás naturezas que a elle deliciosamente se abandonam. «para destrinçar bem (diz elle) quaes são os motivos e as formulas que fazem um Carlista&#8213. A egoista occupação do meu espirito hoje.27 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós pareceu-me sempre ser&#8213. lanço-a ao acaso e tenteando. e impede que a visão intellectual o divise no seu exacto. o definem. com effeito. envolto na tunica de linho. mas eu emprego-a. de cada opinião recolhendo essa «parcella de verdade» que cada uma invariavelmente contém. real e unico modo de [73] ser. para pousar. «Não ha em mim infelizmente (escrevia elle a Oliveira Martins. Tudo preferiria&#8213. minha madrinha.quero dizer certos caracteres. retendo as noções e os gostos de Europeu. no fundo.porque todo o sectario obedece á realidade d’um motivo e á illusão d’uma formula». se. Mantinha por principio que se devia momentaneamente crêr para bem comprehender uma crença. através das idéas e dos factos. a tradição. infinitamente curioso e attento. As Pantheras de Batignolles. enlevado no esplendor das côres e das fórmas. a ignorancia. Assim se tornára o confidente do veneravel Principe Koblaskini. Amicus Mundus. Assim se afiliára em Paris a um club revolucionario. a suprema qualidade intellectual de Fradique . sem odio sincero a Diana e ao seu culto e só para que d’elles se falle com espanto nas praças. desde que homens. depois de outros homens. fascinantes e pouco seguros. e que consistem em reduzir essas Leis e esses Typos a uma formula geral por onde se explica a essencia mesma do inteiro Universo. Aquelles que imperfeitamente o conheciam classificavam Fradique como um dilettante. e que consistem [69] em reduzir uma multidão de factos esparsos a Typos e Leis particulares por onde se explicam modalidades do Universo. não posso concorrer para o melhoramento dos meus semelhantes&#8213. para tentar a Historia convém possuir virtudes.

Por fim. de repente. Quando fiz onze annos. arrancou-me ao pachorrento ensino do padre Nunes. a final explicação da Arte. Historiador? Pelo confortavel e conchegado sentimento que ella me dava da solidariedade humana. Raras são as visões intellectuaes bastante agudas [74] e poderosas para romper através da neblina e surprehender as linhas exactas. aquellas sobretudo que pertencem á Pre-historia&#8213. Tudo isto vai expresso d’um modo bem hesitante e incompleto! Lá fóra o sol está cahindo d’um céo fino e nitido sobre o meu quintal de convento coberto de neve dura: n’este ar tão puro e claro. desde os insectos até aos astros. o habilitára a crear em latim barbaro poemetos tão bellos como o Laus Veneris tenebros[ae])&#8213.«A Arte é um resumo da Natureza feito pel com a maxima concisão&#8213. real e unico modo de ser. que «se o bom Deus. desfeitas as nevoas.. Lembro que uma noite. uma ternura e uma veneração genuinamente budhistas. Quasi todos os tres mezes. E adivinha vossê porquê. até que. As sciencias naturaes eram-lhe queridas e familiares. Lembro que uma noite.a Anthropologia. em Paris. Fradique conservou-se algum tempo mudo.. «Amo a Natureza [76] (escrevia-me elle em 1882) por si mesma. a definição de Fradique!» A superior intelligencia de Fradique tinha o apoio de uma cultura forte e rica. a Inglaterra e a Allemanha. com uma pequena variante:&#8213. O jardineiro levava-me pela mão: e todos os dias a avó me dava com solemnidade um pataco para .elle podia assim dar resumos absolutamente profundos e perfeitos. que (segundo me affirmou Riaz-Effendi. mesmo morrer. Além d’um solido conhecimento das linguas classicas (que. perdi toda a flexibilidade e fluidez da technologia philosophica: só me poderia exprimir por imagens recortadas á tesoura. em 1886) tive a paixão da Historia.era o seu poder de definir. do seu divino ermo.. no silencio deferente que se alargára:&#8213. Em resumo adoro a Vida&#8213. Mas vossê decerto comprehenderá. em novembro? Nas manhãs de nevoeiro.impede que a visão intellectual o divise no seu exacto..revelava logo o seu processo interior de concentrar e applicar a Razão.elle podia assim dar resumos absolutamente profundos e perfeitos. com o direito costumario dos Cafres.«A Arte é um resumo da Natureza feito . Conheci-o assim successiva e ardentemente occupado com os monumentos megalithicos da Andaluzia. e mandou-me a uma escóla chamada Terceirense. como sempre. na graça e na fealdade de cada uma das fórmas innumeraveis que a enchem: e amo-a ainda como manifestação tangivel e multipla da suprema Unidade. D’ahi vem que quasi todos os seus passos são transvios. enunciadas desde Platão: inventaram-se outras. minha avó.28 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós pela imaginação». com as raças Polynesias. o phenomeno visto limitadamente através d’um temperamento. toda e individualmente. em que as coisas tomam um relevo rigido. E a minha religião está toda no credo de Athanasio. e estes constantemente estão trocando o Templo e a Taberna.. nós ouviriamos resoar entre as nuvens. compadecido das nossas hesitações. no silencio deferente que se alargára:&#8213. que eram.e com espanto se encontra n’uma taverna quem julgára penetrar n’um templo. dardejando os olhos para o vago. nos atirasse lá de cima. o seu inquieto espirito mergulhava de preferencia nas sciencias sociaes. um dia.de que são igualmente expressões uma rosa e uma chaga.como dizia Oliveira Martins&#8213. ha difficuldade em distinguir se a sombra densa que ao longe se empasta é a estatua d’um heroe ou o fragmento d’um tapume.porque Fradique sentia pela Natureza. foi o da Historia. a que cada Religião e cada Philosophia deram um nome diverso e a que eu presto culto sob o nome de Vida. Conhecia tambem o arabe. creadora do céo e da terra. no outono. se discutia com ardor a natureza da Arte. Ora para a maioria dos espiritos uma nevoa igual fluctua sobre as realidades da vida e do mundo. Estudos carinhosamente feitos com o coração&#8213. o estudo das Raças. que eram. um dia. e Fradique annunciava triumphalmente alargando os passos alegres por sobre o tapete livre:&#8213. n’uma rua de Londres. na sua casa da rua de Varennes. como sempre.porque tudo é viver.«Sorvi todo o Sabeismo!». densas camadas de Revistas especiaes. enunciadas desde Platão: inventaram-se outras.possuia profundamente os idiomas das tres grandes nações pensantes. quasi todos os seus juizos são enganos. Uma pardacenta illusão submerge toda a cidade&#8213. altas rumas de livros enviadas da casa Hachette. dardejando os olhos para o vago. chronista do sultão Abdul-Aziz) fallava com abundancia e gosto. com essa maneira lenta (que para os que incompletamente o conheciam parecia professoral) murmurou.. a França. «Desde pequeno (escrevia elle a Oliveira Martins. Pois bem! Fradique dispunha de uma d’essas visões privilegiadas. Fradique conservou-se algum tempo mudo. a Realidade pouco a pouco lhe surgisse na sua rigorosa e unica fórma. possuindo um verbo que traduzia com a maxima concisão&#8213. Depois. a Linguistica.«Creio na Vida toda-poderosa. Já os seus instrumentos de saber eram consideraveis. Anthero excellente e subtil! Já esteve em Londres. com a christianisação dos Deuses Pagãos. ou «Esgotei os Polynesios!» O estudo porém a que se prendeu ininterrompidamente. Possuindo um espirito que via com a maxima exactidão. com especial constancia. [77] com as habitações lacustres.29 - . na sua idade de Poesia e de Litteratura decorativa. Um cadaver rigido no seu esquife vive tanto como uma aguia batendo furiosamente o vôo. Por fim. na sua casa da rua de Varennes. sobretudo pelo animal e pela planta. [75] Certamente. o verdadeiro contorno da Realidade. não conheço mais completa definição d’Arte! E com razão affirmava um amigo nosso. em Paris. Eis o que eu queria tartamudear». O proprio modo que tinha de pousar lentamente os olhos e detalhar em silencio&#8213. Adoro a Vida e portanto tudo adoro&#8213. soberba como o rolar de cem carros de guerra. com a mythologia dos povos Aryanos. com a magia Chaldaica. com essa maneira lenta (que para os que incompletamente o conheciam parecia professoral) murmurou. n’uma das suas ultimas cartas.» Quando começou porém a nossa intimidade. da Realidade intangivel. indicavam-me que uma nova curiosidade se apoderára d’elle com intensidade e paixão. A manifestação d’esta magnifica força que mais impressionava&#8213. em 1880. homem de excellente phantasia. e uma insaciavel e religiosa curiosidade do Universo impellira-o a estudar tudo o que divinamente o compõe. dos Mythos e das Instituições Primitivas. Repetiram-se todas as definições de Arte. uma constellação e (com horror o confesso) o conselheiro Acacio. Revistas e volumes desappareciam. o phenomeno visto limitadamente através d’um temperamento. Estas aferradas investigações duravam emquanto podia extrahir d’ellas «alguma emoção ou surpreza intellectual». É justamente o que succede aos monumentos de Londres mergulhados no nevoeiro. se discutia com ardor a natureza da Arte. para me habituar ás coisas duras da vida (como ella dizia). alastrando o tapete de Caramania. á maneira de um longo e pertinaz dardo de luz. Repetiram-se todas as definições de Arte.

o velho Suma-Rabêma. [81] A cultura de Fradique recebia um constante alimento e accrescimo das viagens que sem cessar emprehendia. sobre a guerra do Peloponeso. no mesmo instante a veneravel antiguidade d’esses habitos tirou-lhes a vulgaridade toda que n’elles me humilhava tanto! Depois de os ter detestado por serem communs aos filhos do Silva procurador&#8213. ordem e excellencia do stock». Viajei [79] por toda a parte viajavel. Talvez vossê murmure com desdem&#8213. o paciente e fino reconstructor dos Costumes e das Maneiras da Antiguidade Classica. como eu. e compravam tambem. E. até ás minas de prata de Nerchinski. tentando temerariamente penetrar na cidade sagrada de Lahsá) até á alta Manchuria.ainda que a sua derradeira residencia em Jerusalem.«mera bisbilhotice!» Amigo meu. ao chegar á costa.«Levou-me pois effectivamente á Historia o meu amor da Unidade&#8213. a alta potencia synthetica. a força e a abundancia das idéas novas. Fradique accrescenta:&#8213. que tinha estampas. As suas cartas a Oliveira Martins (sobre o Sebastianismo.isto é. tão lamentavelmente morta depois. ás lacunas. a Ethica e a Litteratura d’esse povo «profundo entre todos. as divergencias d’esse typo de civilisação mediano e generico d’onde sahia e que . por outro lado. pela mão d’um servo&#8213. d’uma transparencia de crystal. das maneiras. a sua forte capacidade de comprehender philosophicamente os movimentos collectivos. j’ai reçu votre invitation où il y a beaucoup d’intolerance et trois fautes de français. regando as roseiras. de eternisar uma civilisação». li todos os livros de explorações e de travessias&#8213. constitue o mais completo estudo até hoje realisado por um homem da Europa sobre os Costumes. Só a Archeologia o levou quatro vezes ao Oriente:&#8213. Fradique era de resto ajudado por uma prodigiosa memoria que tudo recolhia e tudo retinha&#8213. comparavel á memoria de Fradique. vous nous observez de trop près.» N’essa mesma carta. o levaram na Africa Austral desde o Cabo até aos Montes de Zokunga. como «installação.amor que envolve o horror ás interrupções. este pataco. sob o impulso de admirações ou de curiosidades intellectuaes. no seu jardim de Chelsea. aos espaços escuros onde se não sabe o que ha. vai do reles ao sublime. je vous invite donc.30 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós conhecia a adega do café Inglez.. pour que votre jugement n’en soit faussé. eram costumes novos que feriam o meu monstruoso orgulho de morgadinho&#8213. «Tenho folheado e lido attentamente o mundo como um livro cheio de idéas. sobre o golfo de Bothnia. porém. desde o Thibet (onde quasi deixou a vida. como eu. Assim m’o confessou uma tarde Suma-Rabêma. não despreze a bisbilhotice! Ella é um impulso humano. Os mesmos interesses de espirito e «necessidades de certeza» o levaram na America do Sul desde o Amazonas até ás areias da Patagonia. A necessidade d’uma certeza sobre os Presidios Penaes da Siberia impelliu-o a affrontar centenas de milhas de steppes e de neves.«Assim faziam tambem os romanos!» Era por esse tempo pouco mais alto que uma espada gôda.por me descerem ao nivel humilde dos filhos do nosso procurador. Um amigo nosso exclamava um dia. para perceber até aos seus derradeiros limites a Humanidade a que pertenço.que chamavam o Ientaculum . O que tornava estas viagens tão fecundas como ensino era a sua rapida e carinhosa sympathia por todos os povos. estes bolos. por mera festa dos olhos. Este creado. Passou logo á Suecia. chefe da IV secção da policia imperial:&#8213. foi motivada (segundo me affirmou o consul Raccolini) por poeticos amores com uma das mais esplendidas mulheres da Syria. como todos. a sua erudição archeologica repetidamente esclareceu e auxiliou. só . Por isso. de latitude infinita. nunca fui senão a Marrocos». sur votre intérêt. Pois. a Archangel. com surpreza.vasto e claro armazem de factos. Tudo isto. e mandou de lá. evidentemente. na sabia composição das suas telas. dos ritos de todas as idades. sobre as tristes costas de Chypre. e dá uma synthese profunda.denominado o Capsarius.&#8213. que. Monsieur. se não recebesse subitamente.e pelo outro a descobrir a America!» O saber historico de Fradique surprehendia realmente pela amplexidade e pelo detalhe.respeitei-os por terem sido habituaes nos filhos de Scipião. o seu fino poder de evocar psychologicamente os caracteres individuaes&#8213. que os rapazes em Roma (na grande Roma!) iam tambem de manhã para a escóla.depois accende o charuto. o nosso Imperio no Oriente. e explica o feitio e o metal da fivela do cinturão de Leonidas!» Com effeito. et pour avoir de la Russie une vue d’ensemble plus exacte. n’uma rude telega. confeiteira da esquina. a certeza do saber. adiante. para comerem á merenda&#8213. Nunca visitou paizes á maneira do detestavel touriste francez..Fradique abalou para Vasa. uma filha de Abraham Côppo. bolos para a minha merenda. e amava uma mulher obesa que morava ao fim da rua. com essa ironia affavel que nos homens de raça celtica sublinha e corrige a admiração:&#8213. sem data.. e sentir a compacta solidariedade do meu sêr com a de todos os que me precederam na vida. li. A sua aventurosa e aspera peregrinação pela China. e que me era dado por meu turno celebrar n’uma honrosa solidariedade com a grande gente togada. das armas. Monsieur.A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós eu comprar na tia Martha. para notar de alto e pêcamente «os defeitos»&#8213. promptos sempre a servir. pensando com uma vangloria heroica:&#8213. e não sentir a contínua solidariedade do pedaço de terra que tenho sob os pés com toda a outra terra que se arqueia para além. meu caro. d’aller la regarder de plus loin. O exame da Russia e dos seus movimentos sociaes e religiosos trouxeram-no prolongados mezes pelas provincias ruraes d’entre o Dnieper e o Volga. não o sentia com esta clara consciencia. o Governo. de fórmas. este aviso do general Armankoff. o Marquez de Pombal)[1] são verdadeiras maravilhas pela sagaz intuição. o faustoso banqueiro de Aleppo. incansavelmente exploro a Historia. das festas. que (como diz Fradique) conseguiu descobrir os tres ou quatro unicos principios de moral capazes.porque me repugnava não conhecer o globo em que habito até aos seus extremos limites. um bolo n’uma tia Martha do Velabro ou das Carinas. de noções. dos trajes. durante dezoito mezes.. Por um lado leva a escutar ás portas&#8213. Mas nunca entrei d’ahi por diante na tia Martha. Para vêr por fóra. desde a India Vedica até á França Imperial. sem erguer a cabeça.alliava-se n’elle [80] a um minucioso saber archeologico da vida. pela sua absoluta força. bem classificados. O nosso amigo Chambray affirmava que. folheando [78] uma Encyclopedia de Antiguidades Romanas. E proseguiria [82] n’este activo interesse. Um dia. dans votre belle maison de Paris! &#8213. este bilhete ao general Armankoff:&#8213. A compra do bolo tornou-se como um rito que desde a Antiguidade todos os rapazes de escóla cumpriam. no naufragio do Magnolia. todos bem arrumados.«Aquelle Fradique! Tira a charuteira.

montado n’um potro.como paizagem. no vetusto e veneravel carro sabino. e da sua impersonalidade critica. descomedida e papalva imitacão de Paris.tornava-se para Fradique. algures) os pratos veneraveis do Portugal portuguez. Desde 1880 os seus movimentos pouco a pouco se concentraram entre Paris e Londres&#8213. e onde assenta. «Com tres fortes retoques (escrevia-me elle em 1881. Fradique foi sempre um genuino Portuguez com irradicaveis traços de fidalgo ilhéo. G. idas festivas a romarias no carro de bois. com a vara de campino erguida. levados por um ingenuo tumulto de idéas grandes. que se tornam um motivo de sonho. toldado de chita. singularmente repugnantes. catita e conselheiral. recebia uma lição directa e viva de cada sociedade em que mergulhava. com uma varredella definitiva por essas bemditas ruas&#8213. Falta aqui uma atmosphera intellectual onde a alma respire.« em Roma sê romano»&#8213. horror mundano. as idéas. com desacostumada emoção) «para ter terra em Portugal. as divergencias d’esse typo de civilisação mediano e generico d’onde sahia e que preferia. entre caçadores de elephantes. e ainda por intimas razões que são no fundo honrosas para esses desgraçados Politicos. Mas uma [85] existencia enraizada em Lisboa não me parece toleravel.isto é. E a sua anciedade perpetua era então descobrir. Fradique nutria pelos politicos todos os horrores.32 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Logo a comida constituia para elle um real desgosto. Havia n’estas ferozes opiniões. horror physico. a inhabil.Lisboa seria uma d’essas bellezas da Natureza creadas pelo Homem.e não d’uma observação que discrimina. cuja intransigencia e obstinação nem factos nem raciocinios podiam vencer. laivos de perfeita verdade. de cultura. toda physiologica. E . em conversas. para notar de alto e pêcamente «os defeitos»&#8213. Fradique replicou simplesmente: &#8213. fraternisações ruidosas nos adros e nas tavernas.31 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós propriedade ao sólo augusto d’onde um dia tinham partido. que « Lisboa é uma cidade traduzida do francez em calão»&#8213. infindaveis cavaqueiras á lareira dos campos. da sua facilidade em se nacionalisar nas terras alheias.como n’uma aringa africana da terra dos Matabeles. e. no Braganza. os juizos de Fradique sobre a Politica offereciam o cunho d’um preconceito que dogmatisa&#8213. em Cintra. O mais puro e intimo do seu interesse deu-o sempre aos homens e ás coisas de Portugal. um tormento sincero. «Ahi (diz elle). a almondega indigesta e divina do tempo das descobertas. Havia aqui uma antipathia de instincto. de maneiras crassas. a delicia de viver». pela rasteira vulgaridade da vida provincial. rarissimamente mudavam de meias. E estava tão homogeneamente n’uma cervejaria philosophica da Allemanha. tão acerbamente notadas por elle nos Politicos&#8213. e ha catitismo mesmo nos cemiterios. petisco dilecto de D. comparando os meritos da carabina «Express» e da carabina Winchester. com azulejos lustrosos e alegres revestindo as fachadas sujas do casario. ou essa maravilhosa cabidella de frango.eu nem por isso deixo de o mandar varrer do meu quarto.tão facil e dôce de cumprir em Roma. vem da politiquice e dos politiquetes».se explicam sufficientemente pela precipitada democratisação da nossa sociedade. nas proprias graças com que uma senhora recebe. a cavallo&#8213. aprofundando o Absoluto entre professores de Tubingen&#8213. buscadores de mundos.com excepção das «visitas filiaes» a Portugal: porque. cumpria-o elle gostosamente trilhando com as alpercatas rotas os desfiladeiros do Himalaya.Se um rato morto me disser. superiormente denunciada por elle n’uma carta que me escreveu em 1885. meu amigo. de jaleca e cinta. mostrando que todas essas deficiencias de espirito. presuppondo-os reles. votados por um fado vingador á destruição da nossa terra.«Onde estão (exclama elle. Lisboa é uma cidade alitteratada. lentamente.. broncos. com arvoredo e pinheiros mansos plantados nas collinas calvas da Outra-Banda. correndo entre as manadas de gado. Assim lh’o affirmava eu uma manhã. algum resto do genuino Portugal. certamente. afadistada. Fradique amava logo os costumes.&#8213. fundindo-se com elles no seu modo de pensar e de sentir. mais que em nenhuma outra parte. Depois certas feições. de maneiras. de finura. Mas em geral. de arte e de peregrinação. enfeitado de louro. improprios para se misturar a naturezas de gosto. n’um luminoso resumo. os mais injustificados: horror intellectual. transparece fadistice: mesmo na Arte ha conselheirismo.touriste francez. [86] de gosto. os preconceitos dos homens [83] que o cercavam: e. julgando-os incultos. imaginando que nunca se lavavam. se lastíma de não poder conseguir «um cozido [87] vernaculo!»&#8213. nos finos e lavados ares da manhã. e que d’elles provinha esse cheiro morno e molle que tanto surprehende e enoja em S. Mas a nausea suprema. [84] e para se prender pelo forte vinculo da . A cada instante em cartas. Este efficaz preceito&#8213. inaptos absolutamente para crear ou comprehender idéas. Bento aos que d’elle não têm o habito profissional.com demoras em villas decrepitas que o encantavam. realisára-a (como diz n’uma carta a F. . a terra chã da leziria e do boi. Essa «saloia macaqueação». de que os fidalgos inglezes que vieram ao reino buscar a noiva de Carlos II levaram para Londres a surprehendente noticia? Tudo estragado! O mesmo provincianismo reles põe em calão as comedias de Labiche e os acepipes de Gouffé. o pato com macarrão do seculo XVIII. A sua região preferida era o Ribatejo. Lisboa só lhe agradava&#8213. através da frandulagem do Francezismo. João IV. apenas transpunha Santa Apolonia. sinto. Bem mais justo era o horror que lhe inspirava. Ha litteratice na simples maneira com que um caixeiro vende um metro de fita. dominam. de quem elle herdára o sangue e a curiosidade do além !» Sempre que vinha a Portugal ia «retemperar a fibra» percorrendo uma provincia. A compra da quinta do Saragoça. do Hotel Braganza). pelas influencias abominaveis da Universidade.«eu cheiro mal por isto e por aquillo e sobretudo porque apodreci». na vida social de Lisboa. os seus avós. entre as vinhas da collina Celia e as aguas susurrantes da Fonte Paulina. apesar da sua dispersão pelo mundo.&#8213.

homens de letras. pela calma acquiescencia á vassallagem com que depois do Senhor Rei venera o Senhor Governo. n’esta especialidade consideravel. E como um de nós lançára casualmente o nome de Renan.. com as velhas algibeiras da casaca de sêda cheias d’odes shaphicas. Este amor do passado revivia n’elle. em viellas fedorentas. bem curiosamente. abriam sobre um d’esses jardins de arvores antigas. que. com melancolica sinceridade. affirmava elle. o Portugal do seculo XVIII. rondando os pateos da casa de Marialva ou .Vossê é um monstro. pelo seu catholicismo pagão. havia amor do «pittoresco». e sincero.. consolado de decencia e de ordem. e que. antes da Democracia e da Critica! A saudade do velho Portugal era n’elle constante: e considerava que. requentados. e carinho fiel aos Deuses latinos. João V&#8213.. até lhes dar a fórma unica e dogmatica de pyramide ou de vaso funerario.pela sua morosa paciencia de boi manso. insipidaram . a um typo uniforme (representado pelo sujeito utilitario e sério de sobrecasaca preta)&#8213. formam retiros de silencio e paz silvana. Maria I.estamo-nos nutrindo miseravelmente dos sobejos democraticos do boulevard. mas a unica em Portugal onde se não sente odiosamente a influencia do Lamartinismo ou das Sebentas de de Direito Publico». aturdidos pelas arruaças do marquez de Cascaes ou do conde d’Aveiras. etc.. os legumes. com fidalgas sentadas em esteiras. vos encontrasse de cabelleira e rabicho. com uma inspiração original. tanto seduz os financeiros e as cocottes. o vi plenamente satisfeito. levados aos empurrões para a enxovia pelos malsins da Intendencia. os restos do perú e o mote. e os lacaios no pateo.eis o que se encontrava nas cinco salas que constituiam o «covil» de Fradique. Tudo isso seria dignamente portuguez. quando via realisados em Lisboa. de ferro rendilhado. e a vida não é possivel sem um bocado de pittoresco depois do almoço. João V..33 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós d’Aveiro. D. inundados á noite pelos despejos d’aguas sujas. a vós. Foi n’uma taverna da Mouraria (onde eu o levára). Fradique habitava. deliciosa. e cada dia se prendia mais á quieta doçura dos seus habitos de Paris..n’uma festa de raro e delicado brilho. onde podesse vir. modos. onde inextricavelmente se embaralham e se contradizem as Artes e os Seculos. A derradeira vez que o encontrei em Lisboa foi no Rato&#8213. os vinhos. a duqueza de La Rochefoucauld-Bisaccia póde dar uma festa igual: e para isto não me valia a pena ter feito a quarentena em Marvão! Supponha porém vossê que eu vinha achar aqui um sarau do tempo da Senhora D. na rua de Varennes.. e que Fradique lamentava.. degeneraram desde o Constitucionalismo e o Parlamentarismo. gostos. Desde quando? Pelo que dizem os velhos. Ahi estava uma coisa unica. como os homens têm perdido o caracter. os fructos têm perdido o sabor. Confesse que é o que vossê queria! Fradique volveu serenamente: &#8213. pela sua doçura amaviosa e naturalista. o mundo ficára diminuido. os dôces. uma harmonia de tons castos&#8213. Por isso Fradique em Portugal amava sobretudo o povo&#8213. de cima. pimentos e grão de bico. em perfeita innocencia de espirito. datando de Luiz XIV. espaço. claridade. Fradique protestou com paixão: [88] &#8213.. diante d’um prato complicado e profundo de bacalhau. desde 1880. o luxo e o «modernismo» intelligente das civilisações mais saturadas de cultura e perfeitas em gosto. a dois dias de viagem. o lombo de porco. tornados santos calendares.» Só uma occasião. regalar-se de pittoresco e de archaismo. idéas. ao atacarmos o piteu sem igual. vós não merecieis melhor. Depois d’esses enxertos funestos no velho tronco lusitano. alguns moveis d’arte da Renascença Franceza. os mais ingenitos e mais originalmente proprios. porcelanas raras de Deft e da China. etc. o velho Portugal fidalgo e fradesco [89] do tempo do snr. Para o gozar com coherencia Fradique despiu a sobrecasaca. estranho n’um homem tão subjectivo e intellectual: mas sobretudo havia o odio a esta universal modernisação que reduz todos os costumes. pelos seus trajes. sob o barbaro e justo nome de bric-à-brac.Ramalho Ortigão não se conteve: &#8213..tendo sempre detestado esse atulhamento de alfaias e estofos. por ter perdido esse typo de civilisação intensamente original. lá na rua de Varennes. e tambem pelos seus defeitos:&#8213. e servidos em chalaça e galantine! Desastre estranho! As coisas mais deliciosas de Portugal.. á espera que os senhores.Era bem mais digno e bem mais patriotico que em logar de vos vêr aqui. como não muda a Natureza que o envolve e lhe communica os seus caracteres graves e dôces. Fradique! O que vossê queria era habitar o confortavel Paris do meado do seculo XIX. n’aquelle bairro fidalgo e ecclesiastico. Vossê. entre os mendigos. . amplos divans d’Aubusson. lamentando os saraus beatos e secios do seculo XVIII. n’esta saudade de Fradique pelo [90] Portugal antigo. vos mandassem por um pretinho. rezando em côro a ladainha!. desembargadores pedindo mote.Nada de idéas! Deixem-me saborear esta bacalhoada. degeneraram. encolhidinhos no salutar terror d’El-Rei e do Diabo. esticados nas gravatas e nas idéas que toda a Europa usa. [91] V A ultima vez que Fradique visitou Lisboa foi essa em que o encontrei no Rato. Todas as varandas.o povo que não mudou. pela qual se podia fazer a viagem de Paris a Lisboa em liteira! Um dia que jantavamos em casa de Carlos Mayer. Amava-o pelas suas qualidades. Fradique parecia desolado: &#8213. Nobres e ricas tapeçarias de Paizagem e de Historia. crenças. frades tocando o lundum no bandolim. uma ala do antigo palacio dos Duques de Tredennes que elle mobilára com um luxo sobrio e grave&#8213. onde por vezes nas noites de maio se arrisca a cantar um rouxinol. Com effeito.com a monotonia com que o chinez apara todas as arvores d’um jardim. O antigo poeta das Lapidarias tinha então cincoenta annos. em casa dos Marialvas. a vitella de Lafões. como no tempo do Senhor D. pelos seus cantos. «Amava-o ainda (diz elle) pela sua linguagem tão bronca e pobre. e ter aqui.. E nós aqui.Em Paris. pela alegria idyllica que lhe poetisa o trabalho. depois de dadas as graças. como a um museu.

gritava:&#8213. ás exposições.«Não se realisa a conferencia do principe de Bismarck com o conde Kalnocky. aos cuidados de Smith que. como os Faunos amavam as Nymphas.. (Assim dizia Fradique).«Li no Times»&#8213. velho escossez da clan dos Macduffs.. aos clubs&#8213. symbolisando. Fallava-se hontem em Vienna d’um novo emprestimo russo. abria todas as janellas á luz. vêr Smith. percorria nos Jornaes e nas Revistas as chronicas d’arte. Smith rompia pelo quarto de Fradique.34 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós ligeireza macia de Figaro á sapiencia confidencial do velho Oliveiro de Luiz XI. Fradique considerava-as como «organismos» superiores. um trabalho todo intimo [94] á busca de verdades que não são para o ruido e para o mundo. sempre renovada e saborosa. segundo a Cartilha e o Codigo». como em face d’uma carta alheia fechada com sinete e lacre». mas Fradique sustentava que havia aqui um proveitoso regresso á tradição classica. estavam para elle (pelo menos nas suas theorias de conversação) classificadas em especies.. Fradique mergulhava n’um banho ligeiramente tepido. sala séria e simples. A influencia d’este «feminino» foi suprema na sua existencia. com um jogo de luvas de lã. a rabona curta. Sir! Immediatamente Fradique. por curiosidades de critico. sempre caracteristicos. que.e depois. pousava o dedo subtil sobre os labios puros. os sapatos de verniz decotados. e por exigencias de sanguineo. Depois. Á uma hora almoçava. differentes e mais proprios de adoração do que tudo o que offerece a Natureza: ao mesmo tempo. Lia então tambem com cuidado os jornaes portuguezes (que chama algures «phenomenos picarescos de decomposição social»). a esponjar a face e a cabeça em agua fria. [96] critical-o em voz alta com independencia e veia. como o de Apollo. uma maravilhosa egoa das caudelarias de Aïn-Weibah que lhe cedera o Emir de Mossul. solido. ovos e legumes:&#8213. as calças de xadrez verde e preto (côres da sua clan). Fradique amou mulheres. emquanto o ensaboava e escanhoava. em perfeita sciencia e perfeita consciencia:&#8213. e sobre todas as coisas. Fradique amou mulheres. ás salas d’armas. por paixão de analysta. Estes curtos resumos de Smith formavam a carcassa das suas noções politicas: e Fradique nunca dizia&#8213. Bem barbeado. «Folhear o livro (diz elle ainda a Madame de Jouarre). com effeito. desde Scipião o Africano. mas fóra d’essas. de flanella. creio eu. como barbeiro (affirmava Fradique) reunia a . mas superiormente interessantes para quem como elle se comprazia em analysar «a obra genuina e sincera da mediocridade».. Na presença. através d’este culto. De manhã. e s A influencia d’este «feminino» foi suprema na sua existencia. Os conservadores perderam a eleição supplementar de York. corria ao immenso laboratorio de marmore. d’onde voltava para as mãos vigorosas de Smith. E. que precedia o toque lento e quasi austero das horas com uma toada argentina de antiga dança de côrte: e era mantida n’uma immutavel regularidade pelo seu creado Smith.. Morning. mas fóra d’essas. divinamente complicados.é bem permittido. passando o pincel na barba do amo. mal se espalhavam no ar os compassos gentis e melancolicos d’aquelle esquecido minuete de Cimarosa ou de Haydin. atiral-o para um canto percorridas as melhores paginas&#8213.. de theatro ou de sociedade. ás visitas. leval-o no coupé para lêr á noite em casa.mas «Li no Smith».» Os amigos em Lisboa riam d’esta «caturreira». e considerava Calino tão digno d’estudo como Voltaire. sem respeito. ia dissecando e estudando esses «organismos divinos». Tomava então o seu chocolate. . onde uma imagem da Verdade. enfiando uma das cabaias de sêda que tanto me maravilhavam.aos cuidados diversos que se cria um homem d’alto gosto vivendo n’uma cidade d’alta civilisacão. «Estou em presença d’estas (escreve elle a Madame de Jouarre). de litteratura.35 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Fradique conservava um tom penetrado de respeito. porém. através da vida e do mundo. já todo branco de pello e ainda todo rosado de pelle. e recolhia á bibliotheca. em frente á vasta mesa de ébano. abandonava-se. e frequentemente o critico e o enthusiasta desappareciam para só restar n’elle um homem amando a mulher. e murmurando. que não eram da competencia politica de Smith. qualquer que fosse o seu brilho. excluindo toda a investigação experimental. De tarde subia ao Bois conduzindo o seu phaeton. do Standard e da Gazeta de Colonia! Era para mim uma surpreza. d’aquellas que se «exteriorisam» e vivem todas no ruido e na phantasia. com a sobriedade d’um grego. com a sua alta gravata branca [93] á Palmerston. «roseo e reluzente». ou montando a Sabá. Havia a «mulher d’exterior». flôr de luxo e de mundanismo culto: e havia a «mulher d’interior». Smith ia dando a Fradique um resumo nitido. amava a Mulher. radiosamente branca na sua nudez de marmore. diante da qual. tomando goles lentos de chá russo. bem informado. . estendido n’um divan. annotal-o nas margens assetinadas. Á maneira dos sentimentaes da Restauração. além d’isso. [95] A sua conducta para com as mulheres era governada conjuntamente por devoções de espiritualista. aos ateliers. estirado n’uma poltrona. dando de entre a roupa um salto brusco que considerava «de hygiene transcendente».A vida de Fradique era medida por um relogio [92] secular. com um resfolgar de Trytão ditoso. E a sua noite (quando não tinha cadeira na Opera ou na Comédie) era passada n’algum salão&#8213. dos telegrammas politicos do Times. todo em factos. que havia trinta annos o acompanhava. Fradique achava-se tão livre e tão irresponsavel como perante um volume impresso.precisando sempre findar o seu dia entre «o ephemero feminino». aconselhal-o a um amigo. As mulheres. que em todo o mundo latino. a que guarda o lar. o friccionava até que o corpo todo se lhe tornasse. O resto do dia dava-o aos amigos. fibra a fibra. de clina e de pelle de tigre. d’estopa. com severo zêlo. instituira os barbeiros como «informadores universaes da coisa publica». na simples e boa lei natural. ás nove horas.

. onde passos sem conta se misturam&#8213. Em Fradique eram os olhos que se alargavam. consciente da [99] universal fragilidade. Francisco d’Assis e que ainda se não calou) a irremediavel fraqueza humana: e o seu perdão subia logo do fundo d’essa Piedade que jazia na sua alma. Só assim conseguiremos dar alguma belleza e alguma dignidade a esta escura debandada para a Morte». N’essa attenção de beato diante da Virgem. pergunta d’onde se erguerá a mão bastante pura para arremessar a primeira pedra ao erro. Para obter e reter esse espelho. do espelho encantado em que a velha Maharina se via radiosamente bella. julguei sentir na sua natureza (como no seu verso) uma impassibilidade brilhante e metallica: e através da admiração que me deixára a sua arte. cheios de luz negra.. e se algum mais bem provido e seguro para o caminho necessitar apenas sympathia d’almas. com toda a leviana altivez da mocidade. e em que Fradique. á procura da moeda de prata que vai ser o calor e o pão d’um dia. Em toda a culpa elle via (talvez contra a razão.. Nos ultimos tempos. cuja pileca.«Todos nós que vivemos n’este globo formamos uma immensa caravana que marcha confusamente para o Nada. summa divina de toda a experiencia humana&#8213.uma alma extremamente sensivel.é bem permittido. marcava a noticia com um traço a lapis.«ajudai-vos uns aos outros!» Que. tão sagaz e real. Decerto Fradique não era um santo militante. creio eu. Fradique tinha cincoenta annos: e. portanto. sem o qual o velho Shakspeare (nem eu. Esta caridade estendia-se budhistamente a tudo [101] que vive. entre «o ephemero feminino». ou por uma inspiração da sua natureza&#8213. quando a nossa intimidade uma noite se fixou a uma mesa do Bignon. O commentario mais instructivo das suas theorias dava-o elle. com o sacco pendente do focinho. tranzido de frio&#8213. A sua maxima para com os pobres (a quem os Economistas affirmam que se não deve Caridade mas Justiça)&#8213. visto n’uma sala. porém. até á vasta e esparsa miseria que com a força d’um elemento devasta classes e raças.) estas nobres palavras:&#8213. impassivel. inspiravam-lhe um enternecimento infinito. Cerca-nos uma natureza inconsciente..Fradique. bem cedo senti. n’um agreste dia de inverno. quasi unica na nossa geração&#8213. no humedecimento enleado dos seus olhos finos. me parecera mais composta por um systema do que genuinamente ingenita. Teixeira d’Azevedo [98] que não encontrára no poeta das Lapidarias aquelle tepido leite da bondade humana. sobretudo quando necessitadas. no remoto anno de 1867.que indicava ao velho Smith o numero de libras que devia remetter.«Os homens nasceram para trabalhar. tendia áquella velha misericordia evangelica que. correndo ambos a uma estação de fiacres para nos salvarmos d’um chuveiro que desabava. servida por um corpo extremamente forte. para passar friamente através!. e seguir. segundo a Cartilha e o Codigo». tepida e generosamente.um Homem. depois d’elle) comprehendia que um homem fosse digno da humanidade.36 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Carmanges chamou depois le degel de Fradique. mortal como nós. e nós. encontrámos apenas um coupé.cada um ceda metade do seu pão áquelle que tem fome. singularmente raros. descalçam pacientemente a luva. e escriptas nos derradeiros annos (n’uma carta a G. tornavam-se-lhe immensos. Só nos resta para nos dirigir. abrem insensivelmente os labios. preoccupava-o sobretudo a miseria das classes&#8213. acuda com o braço áquelle que [100] vai tropeçar. Tinha-os pequenos e côr de tabaco: mas junto d’uma d’essas mulheres de exterior. porém.que peccados e que traições não commetterá a Maharina?. quando escutam um homem que as perturba. mas em obediencia áquella voz que fallava baixo a S. pois. que as almas se abram para elle transbordando d’essa sympathia. teve n’elle um consolador diligente e real.. que não nos entende. «estrellas de mundanismo».aconselhal-o a um amigo. É a lenda india. Uma occasião em Paris. Não conheci homem mais respeitador do animal e dos seus direitos. A sua mesma polidez. raro entre os homens&#8213. concorreu para a formação d’este juizo uma carta (já velha. A velha lady Mongrave comparava-os «ás guelas abertas de duas serpentes». Creio.&#8213. desapertam pacientemente o paletot. Ou por uma conclusão da sua philosophia. n’um jornal. Havia alli com effeito um acto de alliciação e de absorpção&#8213. furiosamente empenhadas na lucta pelo pão . quasi tangivel&#8213. As creanças. De maior duração e intensidade que os seus amores foram todavia as amizades que Fradique a si attrahiu pela sua excellencia moral. tão risonha e perfeita. F. na pressa que nos leváva. a sua cabaia de sêda&#8213. brotar. perante o peccado e o delicto. Fradique teimou em esperar que o cavallo almoçasse com socego&#8213. no murmurio quente da voz mais amollecedora que um ar de estufa. por elle conhecido. As mulheres encontravam n’elle esse sêr. um pequenino que pede. Ora nenhum homem mais perigoso do [97] que aquelle que dá sempre ás mulheres a impressão clara.param sob a chuva e sob o vento. de 1855) que alguem me confiou.mas havia sobretudo a evidencia da perturbação e do encanto que o inundavam. A forte expressão de virtude que n’elle logo me impressionou foi a sua incondicional e irrestricta indulgencia. esse secular preceito. que d’elle não recebesse allivio. que encontrando. Sempre que lia por acaso. Seriam estas subtilezas (como suggeria um cruel amigo nosso) as d’um homem que theorisa e idealisa o seu temperamento de carrejão para o tornar litterariamente interessante? Não sei. Quando eu conheci Fradique em Lisboa. lançando ao lado um algarismo&#8213. comia melancolicamente a sua ração.e perdeu as Nove Musas. lançava este rude programma de conducta:&#8213.as mulheres viam apenas a influencia omnipotentemente vencedora das suas graças de Fórma e d’Alma sobre um homem esplendidamente viril. na tumultuosa caminhada. Decerto. estenda metade do seu manto áquelle que tem frio. na rajada que nos leva. e subjugam o coração mais rebelde só com mover os hombros lentos ou murmurar «que linda tarde!» Quem se mostra facilmente seduzido&#8213. como manancial d’agua pura em terra rica. A sua bondade.era «que á hora das comidas mais vale um pataco na mão que duas Philosophias a voar». desde a amargura limitada e tangivel que passa na rua. quasi humidos. nem sequer nos vê. pudicamente. e d’onde não podemos esperar nem soccorro nem consolação.facilmente se torna seductor.. em que com tanto esplendor se reflecte a sua pelle engilhada&#8213. uma calamidade ou uma indigencia.confessei um dia a J. atiral-o para um canto percorridas as melhores paginas&#8213. as mulheres para chorar. através da impassibilidade marmorea do cinzelador das Lapidarias. os fortes. ou porque eu então o observasse com uma assiduidade mais penetrante.de que ellas são irresistiveis. Toda a desgraça. a uma venda de tapeçarias (onde Fradique cubiçava umas Nove Musas dançando entre loureiraes). para vasculhar no fundo da algibeira. E para ellas Fradique possuia esta superioridade inestimavel. o leite da bondade humana. poupe o corpo d’aquelle que já tombou.» Mas em 1880.por sentir que n’estas Democracias industriaes e materialistas. sem publicidade. não se limitava a esta expressão passiva. e era d’estes. a sua personalidade. rebuscando pelas viellas miserias a resgatar: mas nunca houve mal. avelludados. ou porque n’elle se tivesse já operado com a idade esse phenomeno que Fustan de . São d’elle. o seu viço. Certas mulheres muito voluptuosas. sempre prompto a brotar. e que magnificamente o mereceu. que Fradique foi profundamente amado.

todas as miserias humanas! E voltava então a amarga affirmação da crescente aspereza dos homens. teve um longo e intenso arripio. homo homini lupus. ha de ter por isso a sua igreja e a sua liturgia. ce Fradique! » Acompanharam a sua passagem derradeira pelas ruas de Paris. Não acaba mais dôcemente um bello dia d.. Logo n’essa noite. VI O erudito moralista que assigna Alceste na Gazette de Paris dedicou a Fradique Mendes uma Chronica em que resume assim o seu espirito e a sua acção:&#8213. «A fraternidade (dizia elle n’uma carta de 1886 que conservo) vai-se sumindo.Ha de vir. Do bloco d’ouro em que poderia ter talhado um monumento imperecivel&#8213. confortavel e rica tambem. em torno a lares sem lume.«Pensador verdadeiramente pessoal [105] e forte. e trinta horas depois. e aos seus semelhantes que lhe baterem á porta. onde no dia dos Mortos elle mandava sempre collocar um ramo d’essas violetas de Parma que tanto amára em vida o creador da Comedia Humana. nos crepusculos de novembro. que vai ser dos pobres?.» Quantas vezes. Mãos fieis. sessões. e atravessou a praça da Concordia a pé.. Indifferente porém aos resguardos. sem soffrimento. como diziam os antigos. na sua bibliotheca apenas alumiada pela chamma incerta e dôce da lenha no fogão. «tinha vivido». Todo esse pó d’ouro se perdeu no pó commum. seguro d’uma robustez que affrontára tantos ares inclementes. até que no inverno de 1888 a morte o colheu sob aquella fórma que elle. Desde que a caridade se organisa e se consolida em instituição. ao recolher. sempre appetecera&#8213. Não ha nada a fazer. que tinha no bolso uma carteira com o monogramma e os bilhetes do general Terran-d’Azy. ao recolher.para assim lamentar. O que resta a cada um por prudencia é reunir um peculio e adquirir um revolwer. tão serenamente que durante algum tempo Smith o julgou adormecido. através do constante deperecimento dos costumes e das simplicidades ruraes. . e de sentimento natural passa a funcção official&#8213. Lindos rostos. tão serenamente que durante algum tempo Smith o julgou adormecido. cheios de idéas. inopinatam atque repentinam . Assim. Fradique. não contando já com os impulsos do seu coração. como diziam os antigos. forçados pela violencia do conflicto e da concorrencia a um egoismo rude. E sobre a sepultura de Fradique. com quem fizera n’um yacht uma viagem á Islandia) achou no vestiario a sua pelissa russa trocada por outra. Fradique emergiu d’um silencio em que os olhares se lhe perdiam ao longe. e por fim hão de surgir novas turbas de escravos. Fradique Mendes não deixa uma obra.38 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós alguns dos mais gloriosos homens de França nas coisas do saber e da arte. principalmente n’estas vastas colmeias de cal e pedra onde os homens teimam em se amontoar e luctar. A noite estava sêcca e clara. como sobre a do grego desconhecido de que canta a Anthologia. que soffria de repugnancias intolerantes. com um exacto sentimento das felicidades humanas:&#8213. . teve um longo e intenso arripio. não longe da sepultura de Balzac. pelos salões e pelos clubs de Paris.Era necessario que viesse outro Christo! murmurei eu um dia. como afundados em horisontes de tristeza&#8213. Com os corações assim duros e os invernos tão longos. foi decerto tambem lamentado este sceptico de finas letras. até ao club da Rue Royale. e mais tarde ha de ser esquecido. um presidente e uma campainha. Não acaba mais dôcemente um bello dia de verão. sahindo d’uma festa da condessa de La Ferté (velha amiga de Fradique. que espalhou ás mãos cheias. «tinha vivido». já pisados pelo tempo. decorreram os derradeiros annos de Fradique Mendes em Paris. e.«Aqui jaz o ruido do vento que passou derramando perfume. [104] O dr. mais tenues que um halito. migalhas.tirou elle durante annos curtas lascas. sob um céo cinzento de neve. &#8213. Fradique encolheu os hombros: &#8213. não se quiz cobrir com o agasalho d’aquelle official rabugento e catarrhoso. o choraram. dar. as almas cada dia se tornam mais sêccas e menos capazes de piedade. que cuidava dos males humanos envolto em cabaias de sêda. Uma noite. Ao outro dia acordou com uma tosse leve. ou pão ou bala. se poderia escrever:&#8213. segundo as circumstancias. Fradique. Labert declarou que fôra uma fórma rarissima de pleuriz. necessita [102] obrigar-se publicamente ao bem pelas prescripções d’um estatuto. mas cortada por uma d’essas brizas subtis. E. sem soffrimento. como Cesar. o mundo vai rolando a um egoismo feroz. em que cada um se torna cada vez mais o lobo do seu semelhante. com regulamentos.. em pobres moradas. ha de talvez libertar os escravos. este homem foi o dissipador d’uma enorme riqueza intellectual. Logo n’essa noite.« Toujours de la chance. conversando. A primeira evidencia d’este egoismo é o desenvolvimento ruidoso da philantropia. Por indifferença. relatorios. diante de mim. de casaca. na saudade das emoções passadas. por indolencia.. por seu turno. Fradique. E accrescentou. comités.» Toda esta chronica vem lançada com a usual superficialidade e inconsideração dos francezes. Jaz no Père-Lachaise..37 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós egoista. de delicadas occupações [103] e d’obras amaveis. foi a Fontainebleau com amigos no alto d’um mail-coach.é porque o homem. calor e sementes em vão. e trinta horas depois. e já eram comparadas pelo velho André Vasali a «um punhal traiçoeiro». que durante leguas se afiam sobre planicies nevadas do norte. conservam sempre perfumado de rosas frescas o marmore simples que o cobre na terra. com enternecida elevação. e depois ha de ser negado.

depois da colheita do balsamo?. em que Fradique exclamava. por julgar pobres e sem brilho no mundo os pensamentos que para lá arrojava? Alguns amigos pensam que ahi se devem encontrar. realmente. Impressas e dadas ao mundo só d’elle conhecemos com effeito as poesias das Lapidarias. no governo de Karkoff. cobertas de linhas incomprehendidas. ainda moço. fundada em fins de 69 em Paris por um grupo de poetas symbolistas. n’essa pagina bem ornada e sonora. murmuraram com sympathia que Madame Lobrinska fugira. sem bananeiras.« Era em Babylonia. de tenaz labor. . que appareceu na Revue de Poésie et d’Art. nunca veio compensar aquelles exilados que soffriam das saudades da neve:&#8213. publicadas na Revolução de Setembro&#8213. ao menos algumas revelações sobre a sua natureza. no mez de Sivanù. onde a um canto brilhava a ouro. percorreu todo o saber do seu tempo. coberto do pó . então Chanceller Imperial. o Julgamento de Libuska. condes de .até que reflorecesse os lilazes.&#8213. Elle foi ao contrario um homem todo de paixão. onde o pensador depozera a confidencia do seu pensamento. a ella que vivia longe da publicidade. escrevi a Madame Lobrinska contando o meu empenho em fixar n’um estudo carinhoso as feições d’esse transcendente espirito&#8213. me veio murmurar uma d’estas noites. singularmente.uma Psychologia das Religiões e uma Theoria da Vontade. vossê (d’aqui o sinto) deixára pender a face aterrada entre as mãos tremulas. que Fradique com desconsolado orgulho denominava a valla commum . bem determinada. ( capiténe) morrera em Paris. como Secretario. e. Os seus amigos sorriram. enlevado então no culto das Litteraturas slavas. A Collina do Adeus. e sobraçando in-folios archeologicos. junto de Starobelsk. Na primavera. Madame Lobrinska era parenta dos senhores de Zelene-Hora.. trilhou os cinco continentes. «não leram mais no dia todo». apostolou uma religião. A legação na Europa. O chronista da Gazette de Paris acerta porém. Ella chamava a Fradique Lucifer. Durante seis annos jazeu no Rio de Janeiro. indifferença. Immediatamente Madame Lobrinska. como elle. trabalhada por ella com superior pureza e relevo. esperando aquella legação na Europa que o Principe Gortchakoff. Esta senhora. como para marcar com precisão a natureza de Fradique. fez duas campanhas.40 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós das Idades.«Sinto-me resvalar.. que voltam repetidamente.«Trabalha um romance! E no teu romance resuscita a antiguidade asiatica!»? E as suas suggestões pareceram-me dôces. amigo.e [106] esse curioso poemeto em latim barbaro. Mas d’esta vez Libuska não voltou. «Os papeis de Carlos Fradique (dizia em summa) tinham-lhe sido confiados. no governo de Karkoff. D’este modo se estabeleceu a obscuridade em torno dos manuscriptos de Fradique.39 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Colloredo&#8213. se occupava com paixão do mais antigo e [107] nobre dos seus poemas. bem deduzida. as duas obras a que Fradique alludia como sendo as mais captivantes para um pensador e um artista d’este seculo&#8213. reconstruindo uma civilisação extincta. Ambos leram esse texto heroico&#8213. que Fradique denominava a valla commum . encontrou Fradique.Per terram ad coelum. de ferro lavrado.e desde então habitava Paris em luxuosa e risonha viuvez. O poeta das Lapidarias morreu em novembro:&#8213. impresso com solemnidade. com solemne magoa. noite de duro inverno e de erudição decorativa:&#8213. se não alguns extractos dos seus manuscriptos. Em 1874 seu marido Paulo Lobrinski. dilecto Oliveira Martins. chegou a aprender tão completamente a nossa dôce lingua de Portugal. com uma letra grossa e redonda. e escrevia capitaine com t. A sua carreira foi portanto irremediavelmente subalterna e lenta. ai de mim. Laus Veneris Tennebrosae. absorveu tantas civilisações. e do mundo que se interessa e lucra na publicidade.e implorando.Nada menos reflectido que as designações de indolencia. se não completas. voltou com as flôres dos castanheiros. de indifferença. A resposta de Madame Lobrinska foi uma recusa. a praticas culpadas e vãs! Ai de mim. Que continha realmente esse cofre de ferro. esta divisa&#8213. recolheu ás suas vastas propriedades russas perto de Starobelsk.e dias depois Madame Lobrinska recolhia de novo á melancolia das suas terras. de 1880. se um dia desprecavidamente no seu lar receber um tomo meu. d’entre todas as amigas de Fradique. n’uma capital mundana.. com o intuito de que para sempre conservassem o caracter intimo [109] e secreto em que tanto tempo Fradique os mantivera: e n’estas condições o revelar a sua natureza seria manifestamente contrariar o recatado e altivo sentimento que dictára esse legado. como os dois amorosos de Dante. Um dia.» Isto vinha escripto. era da velha familia russa dos Principes de Palidoff. Teixeira d’Azevedo) julgam que n’esses papeis existe um romance de realismo epico. caro historiador. para chorar entre os seus moujiks a sua segunda viuvez&#8213. quem. que se chamava Varia Lobrinska. entre os arvoredos de Petropolis. Muitas vezes.&#8213.e Madame Lobrinska. na rua de Varennes. no seu exilio. Outros (como J. d’uma doçura lethal!.e possuia justamente uma reproducção das duas folhas de pergaminho que contêm a velha epopeia barbara. os entrevi eu dentro d’um cofre hespanhol do seculo XIV. diplomata silencioso e vago. ao menos esboçadas. e que se nos torna tão familiar e real «com os seus velludos brancos de Veneziana e os seus largos olhos de Juno». por fins d’outono. podia apreciar como paginas vivas. E escassamente póde ser accusado de indolencia. » Decerto. casualmente encontrado em 1818 nos archivos do castello de Zelene-Hora. em casa de Madame de Jouarre. de acção. esses manuscriptos que para as outras seriam apenas sêccas e mortas folhas de papel.mostrando que decerto sob «os claros olhos de Juno» estava uma clara razão de Minerva. com uma ironia mysteriosa:&#8213. sob uma corôa d’ouro. a rainha que no Julgamento apparece «vestida de branco e resplandecente de sapiencia». que pertencera ao regimento das Guardas Imperiaes.. affirmava pertencer a Madame Lobrinska [108] par droit de beauté et de sagesse. Fradique porém deixou manuscriptos. que me foge a penna para o mal! Que demonio [110] malfazejo. Logo que comecei a colleccionar as cartas dispersas de Fradique Mendes. que Fradique me mostrou uma traducção da elegia de Lavoski... cercada d’aias e de crépes. E deduzem essa supposição (desamoravel) d’uma carta a Oliveira Martins. nem com as flôres dos castanheiros. Todos esses papeis (e a plena disposição d’elles) foram legados por Fradique áquella Libuska de quem elle largamente falla nas suas cartas a Madame de Jouarre. de uma languida e longa anemia. Só ella pois.até que o dôce instante veio em que. ou já coordenadas nos seus materiaes. porém. n’uma larga folha de papel aspero. como a Salammbô. Que dirá vossê. O marido de Madame Lobrinska era um Diplomata que estudava e praticava sobretudo os menus e os cotillons. culta. e começando por estas linhas:&#8213. que. Fradique dera a Madame Lobrinska o nome de Libuska. affirmando que d’esse duro obreiro não resta uma obra.

conversavamos sobre a Africa e sobre religiões Africanas. cada dia. na sua real potencia e nos seus reaes limites.Fradique! porque não escreve vossê toda essa sua viagem á Africa? Era a vez primeira que eu suggeria ao meu amigo a idéa de compôr um livro. sem que lh’o mostrassem mais potente ou mais largo esses «fumos da illusão litteraria»&#8213. desapiedadamente. nem os relevos d’um só vaso nos serão perdoados! E é isto um amigo intimo!» Ramalho Ortigão.Não! Não tenho sobre a Africa. Mas a critica inclemente e sagaz que praticava sobre os outros. atirando a cigarette para o lume. Para o ser não lhe faltaram decerto as idéas&#8213.que são divinisações dos chefes mortos. a tomar por faiscantes raios de luz alguns sujos riscos de tinta. A distenção retumbante de Hugo era tão intoleravel como a flaccidez oleosa de Lamartine.. cujas conclusões. E lembrei que a bem curtas jardas da chaminé que nos aquecia. o Instituto de França e a Escóla Normal.eis as duas influencias negativas que retiveram Fradique para sempre inedito e mudo. n’um dos derradeiros Nataes que vim passar á rua de Varennes. de paizagens.41 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós coisas boas e más. inclina a crêr que os papeis de Fradique contêm Memorias&#8213. comparando os ceremoniaes e os fins [113] d’estes cultos selvagens da Africa com os primitivos ceremoniaes liturgicos dos Aryas em Septa-Sandou. n’um resumo cortante. elle seguiu assim a maxima que tanto seduzia Descartes&#8213. que possuiam do modo mais perfeito a «bella arte de dizer». sobretudo pelos traços de vida e de natureza africana com que vinham illuminadas.. depois da colheita do balsamo?. Espiritos dispensadores das . tornados pela morte Mulungus.. murmurou com lentidão e melancolia: &#8213. podessem imprimir ao espirito humano um movimento inesperado. com redobrada sagacidade e inclemencia. concluo que elle não deixou um livro de Psychologia. de encarnar as suas idéas.que levam todo o homem de letras. rindo. exercesse sobre as almas a acção ineffavel do absolutamente bello&#8213. E como eu lhe observasse que vira talvez d’um modo differente e superior. é ainda impotente para encarnar a menor impressão intellectual ou reproduzir a simples fórma d’um arbusto. de supplementar.porque só a Memorias se póde coherentemente impôr a condição de permanecerem secretas. nenhum prosador para elle tinha relevo.. murmurando:&#8213. de dispensavel. nem Memorias&#8213.mas faltou-lhe a certeza de que ellas. com todas as suas iguarias!. Desconfiança de si como pensador.. intensidade. Eu não sei escrever! Ninguem sabe escrever! Protestei. perdido n’um velho solar russo. Tudo o que da sua intelligencia emanasse queria elle que perpetuamente ficasse actuando sobre as intelligencias pela definitiva verdade ou pela incomparavel belleza. E nos modernos nenhum tambem o contentava. vida. para produzir aquella fórma que elle concebera em abstracto como a unica digna. nem pela idéa. renovando a philosophia e a sciencia.Para que?.preferiu altivamente permanecer silencioso. E affirmo afoutamente que n’esse cofre de ferro. Era uma noite de grande e ruidoso inverno: e desde o café. contra aquella generalisação tão inteiriça. no mez de Sivanù. poderia levar ás intelligencias persuasão ou encanto que definitivamente marcassem na evolução da razão ou do gosto&#8213.Quem? exclamou Fradique. desconfiança de si como escriptor e creador d’uma Prosa.. a Flaubert vibração e calor. Eu por mim. Elle ergueu a face para mim com tanto espanto como se eu lhe propozesse marchar descalço. mas todos lh’os surprehendi. praticava-a sobre si. que nos dois melhores seculos da litteratura franceza. transparentemente. e separada do valor do pensamento. Todas estas coisas me prendiam irresistivelmente. bene vixit qui bene latuit. » Decerto.. Nem os bordados d’uma só tunica. que escondia a sua vida com tão altivo recato. vossê (d’aqui o sinto) deixára pender a face aterrada entre as mãos tremulas. que tudo varria. sobre os cultos nativos&#8213. conclusões que por alterarem o curso do pensar contemporaneo valesse a pena registrar. côr. ao contrario.Fradique quasi se impacientou: &#8213. mal corre a penna sobre o papel. Fradique recolhera na região do Zambeze notas muito flagrantes. seduzido: &#8213. com todas as suas armas! a descripção do banquete de Sennacherib. E concluindo que. até aos bosques de Marly. muitos homens houvera. Depois. por bellezas especiaes e raras. E declarou logo. nem sobre [114] coisa alguma n’este mundo. E sorrindo. com todos os seus terraços! a descripção da batalha de Halub. faz a travessia da Africa.. Fradique encolheu os hombros.e o que ha de artificial. pelo seu valor definitivo.. através da noite tormentosa. com residencia divina nas cubatas e nas collinas onde tiveram a sua residencia carnal.inexplicaveis n’um homem todo de idéa e de abstracção. que os outros não tivessem já visto.Babylonia. e que em sciencia uma só verdade necessita mil experimentadores&#8213. &#8213. n’aquelle velho bairro de Paris onde se erguia a Sorbonna. Não vi nada na Africa. com os pés estendidos á alta chamma dos madeiros de faia que estalavam na chaminé. muito vivas. ou o querer forte. e saturado de erudição. e. desde o meu Bossuet até Beaumarchais. merecessem ser registradas e perpetuadas: e faltou-lhe ainda a arte paciente. a Renan solidez e nervo. nem pela fórma. Fradique concluia (como mostra n’uma carta d’esse tempo a Guerra Junqueiro) que na religião o que ha de real.porque Fradique nunca foi verdadeiramente um auctor. da Realidade [112] fazia-lhe distinguir o seu proprio espirito tal como era. essencial. não existe uma obra&#8213. Só podia apresentar uma série de impressões. que só por si propria. Nenhum d’estes sentimentos elle me confessou. tão vivo n’elle. d’um melhor e mais contínuo conhecimento de Fradique. tal como o fallamos. O .. nem uma Epopeia archeologica (que certamente pareceria a Fradique [111] uma culpada e vã ostentação de saber pittoresco e facil). onde Fradique pelas festas do anno me hospedava com immerecido esplendor.«Justos céos! Ahi vem sobre nós a descripção do templo das Sete-Espheras. A Michelet faltava gravidade e equilibrio. que nem todos os dias um homem educado pela philosophia. O sentimento. de transitorio é a Theologia e a Moral. necessario e eterno é o Ceremonial e a Liturgia&#8213. Comecei por Bossuet. havia ainda. E então peor! Porque o verbo humano. Por motivos nobremente diferentes dos de Descartes. com uma irreverencia violenta que me emmudeceu... a Taine fluidez e transparencia.

. apresenta a vastidão e a copiosidade da correspondencia de Cicero.que é apenas a creação impessoal do seu espirito. accrescentava n’um post-scriptum :&#8213. Mas este ponto precisava ser mais desembrulhado&#8213.&#8213.que [118] o valor das idéas (e portanto a escolha das que devem ficar) não é decidido por aquelle que as concebeu. como Fradique. organisada com discernimento e carinho. enriquece sempre o thesouro da documentação historica. E finalmente como cartas são palestras escriptas (assim affirma não sei que classico). Johnson. esse. que. «em conversas com que se deleitava. depois da sua morte. de Proudhon.possuido da sublime ambição de só produzir verdades absolutamente definitivas por meio de fórmas absolutamente bellas. uma Correspondencia. os homens e o mundo. como verbo. de Voltaire. . plasticamente. exclamei. ou em cartas.Fradique passou no mundo. n’esse ruido e publicidade a que elle sempre se recusou por uma rigida probidade de espirito. desde os quietos habitos a que se acolhera depois de 1880 aquelle «andador de continentes». ajuntou. só deixou vestigios da sua intensa vida intellectual na sua Correspondencia. Aturdido. que só por si. de ondeante. Temos depois que as cartas d’um homem. a Flaubert vibração e calor. era d’uma exuberancia desordenada e barbarica. realisasse uma absoluta belleza&#8213. Fradique.leves migalhas d’esse ouro de que falla Alceste. e onde se sente o brilho.. alludia eu a um livro que me acompanhára e me encantára.a Renan solidez e nervo. e que depois.» As suas conversas. que. os gostos. e d’outros poderosos remexedores de idéas. toda occupada dos Pyrenéos onde gastára o verão.um d’esses espiritos recolhidos que vivem para se aperfeiçoar na verdade e não para se glorificar no mundo. que me decidiu. ideal e miraculosa. na carta que me volveu. posta ao lado de outros estudos. sem deixar outros vestigios da formidavel actividade do seu sêr pensante além d’aquelles que por longos annos espalhou. não sendo didacticamente preparadas para o publico (como as de Plinio).. apenas em mim se foi calmando a saudade d’aquelle camarada adoravel. que eram ainda conversas naturaes com os amigos de que as ondas o separavam. com as largas orelhas attentas.«A Correspondencia de Doudan é realmente muito legivel.» &#8213.se eu não possuisse [117] a evidencia de que Fradique incondicionalmente approvaria uma publicação da sua Correspondencia. a Correspondencia de Xavier Doudan&#8213. enthusiasta e paciente. Eis-ahi uma maneira de perpetuar as idéas d’um homem que eu afoutamente approvo&#8213. e o lapis prompto a tudo notar e tudo eternizar. Por isso. contêm mais ensino que a sua philosophia&#8213. os modos de sentir. mas revelava o sentimento que mantivera mudo aquelle superior espirito&#8213. de avelludado. Accresce ainda que.como leio todas as collecções de Correspondencias. Foi a lembrança d’esta opinião de Fradique. E Fradique. tanto mais livres e mais exigentes no seu julgamento quanto estão julgando um morto que só desejam mostrar ao mundo pelos seus lados superiores e luminosos. o valor intrinseco. tão clara e fundamentada.e eu sinto parar á porta o cavallo em que vou trepar ao pico de Bigorre». Além d’isso uma Correspondencia revela melhor que uma obra a individualidade. porque a outra metade não é reductivel ao verbo. perguntei áquelle «feroz insatisfeito» que prosa pois concebia elle. O pobre [115] Balzac. era a mais preferida das suas occupacões. n’uma carta em que lhe contava uma romantica jornada na Bretanha. A essa carinhosa tarefa devotei um anno&#8213. E o preciosismo dos Goncourt e do seu mundo parecia-lhe perfeitamente indecente. ellas dispensam o revestimento sacramental da tal prosa como não [119] ha. e que.publicar-lhe a corresponcia! Ha desde logo esta immensa vantagem:&#8213. um Boswell. uma prosa como ainda não ha! Depois. o homem. e a preciosidade do bloco rico a que pertenceram. se uma obra nem sempre augmenta o peculio do saber humano. ainda que através d’ella apenas se sente um espirito naturalmente limitado. colligida depois com reverencia pelos confidentes do seu pensamento. sendo o producto quente e vibrante da sua vida. emocionado (porque estas questões de fórma desmanchavam a sua serenidade) balbuciou que queria em prosa «alguma coisa de crystallino.e que expressionalmente..43 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Vida que se confessa constitue o estudo d’uma realidade humana. Uma Philosophia offerece meramente uma conjectura mais que se vai juntar ao immenso montão das conjecturas: uma . VII Se a vida de Fradique foi assim governada por um tão constante e claro proposito de abstenção e silencio&#8213. Em 1888. cahido em solidão e doença. o vento as levou&#8213. como o velho dr. á maneira do sabio antigo. a Taine fluidez e transparencia. . que desde novo se entranhou no doutrinarismo da escola de Genebra. mas por um grupo de amigos e de criticos. rindo.E como ainda a não ha. concluindo: &#8213.Não! gritou Fradique. e não por indolencia de meridional [116] como insinua Alceste. Li em todo o caso essas cartas&#8213.Emfim. de marmoreo. sob os platanos do seu jardim. tudo podesse traduzir desde os mais fugidios tons de luz até os mais subtis estados d’alma. Só se podem produzir fórmas sem belleza: e dentro d’essas mesmas só cabe metade do que se queria exprimir. só pelos livros conheceu a vida.. constituem um estudo excellente de psychologia e de historia. alarga o nosso conhecimento do Homem. o pensar contemporaneo e ambiente.. que. E assim seria&#8213.porque a correspondencia de Fradique. e isto é inestimavel para aquelles que na terra valeram mais pelo caracter do que pelo talento. pareço lançar estouvada e traiçoeiramente o meu amigo. é uma inutilidade escrever. a reunir as suas cartas para que os homens alguma coisa podessem aprender e amar n’aquella intelligencia que eu tão estreitamente amára e seguira.. á tarde.eu.42 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Tudo isto era talvez especioso e pueril. D’elle pois só restam as suas cartas&#8213. reproduzindo necessariamente os costumes. que merecesse ser escripta. publicando as suas Cartas. unico objectivo accessivel ao esforço intellectual. que o seguisse pela cidade e pelo campo. uma prosa como não póde haver! &#8213..não tendo.

primeiros fluxos da verborreia parlamentar! (Isto denuncia um janeiro triste. E por outro lado se o Egypto ou Tunis formassem resplandecentes centros de Sciencias. caracterisam o feitio do seu pensamento.o conjunto de idéas. e. M. Quando se dirigia a mulheres substituia ainda o nome do mez pelo da flôr que melhor o symbolisa. mesmo n’esta idade de ferro e de força. para lucro da Civilisação. que.como rijos musculos n’um corpo e ouro farto n’uma bolsa não bastam para que um homem honre em si a Humanidade. Se as Origens do Christianismo. como as suas «impressões de Lisboa». os Civilisados pisam e retalham tão desassombradamente como se sangra e se corta a rez bruta para nutrir o animal pensante. Ora suppondo vaidosamente que cada quinhentas cartas minhas [120] contêm uma idéa&#8213. Florença. das instituições e das riquezas de que Chicago tambem justamente se gloría. d’entre as que deixam [122] entrevêr algum instructivo episodio da sua vida de coração. como as de Voltaire ou de Proudhon. o corrente e constante commentario que acompanha e illumina a obra. entre Paris e Chicago? São duas palpitantes e productivas cidades&#8213. escolho apenas algumas. o enxame sublime das Idéas e das Fórmas. ó Carlos. parecendo morder o papel como um buril para contornar bem rigorosamente a idéa. a imagem d’este homem tão superiormente interessante em todas as suas manifestações de pensamento.resulta que cada idéa me fica por cento e vinte e cinco mil reis. Gounod. porque são. publicando as cartas de Fradique Mendes. modos. que fumar é mais barato que pensar. com riscos. o . Bento. se ellas vinham de moradas familiares aos seus amigos. Que differença ha. a sociedade e os costumes. empeçam com ardor a educação&#8213. separações. Fevereiro. possue a mais um grupo especial de homens&#8213. Não é portanto possivel dispôr a Correspondencia de Fradique por uma ordem chronologica: nem . duas operações identicas que consistem em atirar pequenas nuvens ao vento». n’este papel. transcriptas com tão maliciosa realidade para regalo de Madame de Jouarre. Bonnat. notava méramente o nome do mez. d’entre as que mostram traços de caracter e relances da existencia activa. E por isso. e a economica Classe-Média que o dirige. ajudado pelo Smith (affirma elle a Carlos Mayer).Renan. Londres. Mas. em esmalte escarlate. como diz finamente Alceste&#8213. me custa 250 reis. chegada dos Chrysanthemos (o que indica começos de setembro).Lisboa. emquanto em baixo jazia o vinho rico e substancial que não foi nunca distribuido nem serviu ás almas sedentas. Cogitat ergo [123] est.minusculas e simples. com guerreiros incontaveis nas suas aringas e incontaveis diamantes nas suas collinas. Sente-se logo o prazer com que compunha estas cartas na fórma do papel&#8213. [121] tambem.onde os palacios. a um intuito de puro e seguro patriotismo. Frequentemente. além dos palacios.. lançada com facilidade e largueza. A Força e a Riqueza não bastam para provar que uma nação vive d’uma vida que mereça ser glorificada na Historia&#8213. para tornar as almas melhores. Este méro calculo bastará para que o Estado. Nivoze. a arte. Londres. Uma nação só vive porque pensa.. Floreal. soltas. cercar a real realidade das coisas: ora mais fluida e rapida. offerece a maior similitude com a conversação de Fradique: ora cerrada e fina.que pela incessante produccão do seu cerebro convertem a banal cidade que habitam n’um centro de soberano ensino. com enveloppe e estampilha.F. Em cartas que não são d’um auctor e que não constituem. «Calculei já.nenhuma nação. ella mostra todavia. ora hesitante e demorada. e em que o gesto estreito e sobrio se lhe desmanchava n’um esvoaçar de flammula ao vento. d’entre as que se referem a coisas de Portugal. d’entre as que. como inilludivelmente prova. assim ligeira e dispersa. as riquezas. formando uma historia continua e intima das suas idéas. se equivalem soberbamente. será sempre uma terra bravia e morta. fézes de velhos compendios). de paixão. a Sciencia. Lisboa. como n’aquelle esforço tão seu de tentear. vastas bastante para que n’ellas coubesse o desenrolamento da mais complexa idéa. em excellente relevo. Fradique nunca datava as suas cartas: e. Inutil seria decerto. Além do meu desejo que os contemporaneos venham a amar este espirito que tanto amei&#8213. e. os parques. cumpria sobretudo destacar as paginas que com mais saliencia revelassem a personalidade&#8213. que cada uma das minhas cartas. Falguieres. a Litteratura.45 - . Só na verdade o Pensamento e a sua creação suprema.44 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós de resto essa ordem importa desde que eu não edito a sua Correspondencia completa e integral.&#8213.esplendidas folhas de Whatman. c’est son genie qui mousse.Proudhon. ousaria occupar como um campo maninho e sem dono esses sólos augustos d’onde se elevasse. n’estes pesados maços das cartas de Fradique. eburneas bastante para que a penna corresse n’ellas com o desembaraço com que a voz corta o ar. os tornam perante o mundo sacrosantos. de Litteraturas e de Artes. Taine.. e bachareis em cima bolsando. attrahem para elles universal reverencia e carinho. dão grandeza aos Povos. e d’outros poderosos remexedores de idéas. realmente. Julho. de sociabilidade e de acção. e possuo assim cartas com esta bucolica data&#8213. incessantemente educassem o mundo&#8213. vemos apenas a espuma radiante e ephemera que fervia e transbordava. Existem assim cartas innumeraveis com esta resumida indicação&#8213. com effeito.eu obedeço. por entre injurias. Berthelot. Um reino d’Africa. Paris. em que tangivelmente se sente e se palpa o homem. primeiras violetas (o que indica fins de fevereiro). pelo interesse especial que as realça.provando. N’ella. na sua consistencia de pergaminho. tipoias no largo de S. Contrabalanço pensar e fumar. as Artes. Pasteur. e ainda. Estas dispendiosas folhas têm todas a um canto as iniciaes de Fradique&#8213.e porque tem Chicago apenas sobre a terra o valor de um rude e formidavel celleiro onde se procura a farinha e o grão? Porque Paris. Paris. singularmente desigual. n’estas laudas fragmentaes. com lama. revolvendo noções geraes sobre a litteratura. Coppée.. A letra que as enche. lembrando esses momentos de abundancia e de veia que Fontan de Carmanges denominava le dégel de Fradique. Porque fórma [124] pois Paris um fóco crepitante de Civilisação que irresistivelmente fascina a humanidade&#8213. A correspondencia de Fradique Mendes. para que não prevalecesse contra ellas o carcomer do tempo. procurar a summa do alto e livre Pensar de Fradique ou do seu Saber tão fundo e tão certo. espiar. fortes bastante. restituia aos mezes as alcunhas naturalistas do kalendario republicano&#8213. através de uma serena legião de homens geniaes. as instituições. Uma carta de Lisboa offerece mesmo esta data atroz&#8213. formando dentro d’elles o thesouro de verdades e de bellezas que o mundo precisa. Massenet&#8213. gostos.

. uma rara graça no andar.então com ardente instancia lhe aconselho o Cook (o Thomaz Cook) que é da mais extremada moda. os espiritos e os corações da Terra. graça altiva e ligeira de Deusa e de ave. portanto. rodando lentamente para mostrar o córte ondeado [128] e fino da cinta. dezembro. possivelmente alado e dianico (de Diana). &#8213.como uma consolação e uma esperança. nos viessem d’além dos mares. Dirá a minha madrinha:&#8213. Para subsequentes conselhos de «fornecedores». e que lhe sirva mais tarde. a massa de cabellos que o mólho de velas por traz. angelicos.&#8213. que o habilite a mencionar os Lords que lá encontrou. que me seduziu logo. perguntando á minha experiencia&#8213. do humorismo e do gosto. com ponta da bengala. Nos olhos porém surprehendi-lhe depois uma faisca de vivacidade sensivel&#8213. e falha tudo. como recordação consoladora de elegancias moças&#8213.nem aquelles hombros descahidos. Portuguezes d’estes não podem ficar para sempre esquecidos.e. do Lyrio no Valle. necessita esse Artista.. que V.-t.e é como quem aos seus templos juntasse mais um sacrario ou sobre as suas muralhas erguesse mais um castello. conversando comsigo. Olhos finos e languidos. Deu-me assim a impressão. todo aquelle que venha revelar na nossa patria um novo homem de original pensar concorre patrioticamente para lhe augmentar a unica grandeza que a tornará respeitada. Se pretende meramente um homem que lhe cubra a nudez com economia e conforto. entre as orchideas. da nova e monumental Chicago&#8213. Michelet escrevia um dia. Nos tempos incertos e amargos que vão. Quem era? Supponho que nos chegou do fundo da provincia. sob a mudez de um marmore. emanando de um espirito positivo.«como pude eu abranger tanto. todas provam a mesma vitalidade.para Chicago. e sobretudo o subtil encanto dos olhos&#8213.. Portugal continúa a ser um grande [125] paiz vivo. Minha querida madrinha. como as plantas para o sol. permanece sempre ao seu grato serviço&#8213. É a primeira expressão em que hoje apanho decentemente a realidade. quando as baixava. de testa alta e clara. levando para a ceia Libuska. Mas os braços eram perfeitos. da vivaz invenção. porque me não lembro de ter encontrado em Paris aquelles cabellos fabulosamente louros como o sol de Londres em dezembro&#8213.«qual é o melhor alfaiate de Londres».que emquanto viver pelo lado da Intelligencia. Voltei. encontrei o bilhete com que consideravelmente me honrou. estava sentada.45 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Fausto. Londres.mas a revelação de um espirito como o de Fradique assegura que um paiz vive tambem pelos lados menos grandiosos. se voltariam. parecia pender um romance triste. absolutamente ruinoso. Um livro de versos póde sublimemente mostrar que a alma de uma nação vive ainda pelo Genio Poetico: um conjunto de leis salvadoras. Se uma nação. com Libuska ao lado fiscalisando?» É que voltei. apesar de tão indolentemente enterrada n’um divan. &#8213. de ser uma elegiaca do tempo de Chateaubriand. . escolhendo d’alto. deseja um alfaiate que lhe dê consideração e valor no seu mundo. como diz o Ecclesiastes.. as telas de Bonnat. dolentes. e dos corações incomprehendidos. provém estas garatujas. mesmo que jaza morta pelo lado da Acção. onde reinavam coisas escandalosamente amarellas. Depende isso inteiramente do fim para que V. uma mulher loura. cheviotes para blusas de caça. Ora no Pensamento ha manifestações diversas: e se nem todas irradiam o mesmo esplendor. em casa de Madame de Tressan. da graça.que a datava do seculo XVIII. Meu caro patricio. á porta da Havaneza. . da transcendente ironia. a nossa patria não é inteiramente um cadaver que sem escrupulo se pise e se retalhe. nimbava d’ouro. Bem differente da nossa sapiente Libuska.» O mestre da Historia de França com isto significava&#8213. os marmores de Falguieres. cada passo encurta a distancia da sepultura. quando passei. tarde. caro patricio. imitados de uma madona de Montegna. e nas pestanas. maio. e da hombreira da porta readmirei os hombros dolentes [130] de virgem do seculo XIII. então recommendo-lhe aquelle que tiver taboleta mais perto do seu Hotel. póde solidamente comprovar que um povo vive ainda pelo Genio Politico:&#8213. da phantasia. Se porém V. e não para Paris. São tantos passos que forra&#8213. possa citar com orgulho.. e inteiramente desusados em França desde o reinado de Carlos X... )[2] Paris. por debaixo do atroz retrato da Marechala [129] de Mouy. AS CARTAS I ao visconde de a. só tem superioridade porque tem pensamento. ao começo. Por isso eu o revelo aos meus concidadãos&#8213.Fradique Mendes. que se move com o esplendido peso de uma estatua! E do interesse por esse outro passo. d’algum velho castello do Anjou com herva nos fossos. ao recolher do campo. mas valiosos ainda. a unica belleza que a tornará amada. talvez por lhe presentir..«Se em Portugal restam quatro ou cinco homens como o auctor das Odes Modernas.Só hontem á noite. longe. alludindo a Anthero de Quental:&#8213. em Londres ou outros pontos do Universo. ao passar. á hora gêba do rheumatismo. na velhice. Não admirei com igual fervor o vestido preto.Hontem.46 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós II a madame de jouarre ( Trad.dos olhos finos e languidos. n’uma carta.

como muros n’um campo.abateu. e o logar que não recebe essa luz benefica jaz como «o torrão que o Nilo não beijou». Talvez o requinte em retardar. e mande-me dizer que nome tem. não [134] ha logar para que uma alma se affirme e se produza na absoluta expansão da sua força. entre os que governam povos. Ramèzes photographado?. com o focinho de bull-dog acorrentado d’um Bismarck. na sua parochia.mas é comprovado por toda a Renascença. para elle nascem todos os fructos da terra. já com um pé na escada de sêda. para um Pharaoh da decima-nona dynastia. . Não o faria decerto um cão de boa raça. n’aquella manhã de Março em que conversavamos ao sol sobre o caracter dos Antigos. &#8213. para reedificar o kiosque. E que me diz a essa face real? Que humilhantes reflexões não provoca ella sobre a irremediavel degeneração do homem! Onde ha ahi hoje um. teima em chamar Sezostris).para d’elle tirar o illimitado poder. tão realmente como Hokem seu Eunuco-Mór. ou com o carão do Czar russo. para que os homens gozassem na sua fórma terrena. e para elle se volta toda a esperança dos homens. Querido amigo. Ramèzes faz estalar as tres cordas entrançadas do seu latego de guerra! Eis um homem &#8213. trazendo «os seus chinós de festa e a cutis envernizada com oleos de Segabai». que fealdade tacanha d’estes rostos de poderosos! D’onde provém isto? De que a alma modela a face como o sopro do antigo oleiro modelava o vaso fino:&#8213. e um copo de Tokay em nada parecido com aquelle Tokay que Voltaire. agora diante de si. e Amnon estremece inquieto quando. ou Pentaour seu Chronista-Mór.e remetto. se recordava de ter bebido em casa de Madame d’Etioles (os vinhos dos Tressans descendem em linha varonil dos venenos da Brinvilliers). A proposito de castellos: cartas de Portugal annunciam-me que o kiosque por mim mandado erguer em Cintra.Porque é que não me adiantei. se demorava. para sul ou para leste. Caro Oliveira Martins.Cumpro emfim a promessa feita na sua erudita ermida das Aguas-Ferreas. a photographia da mumia de Ramèzes II (que o francez banal. diante dos pylones do seu templo.. d’uma ineffavel benevolencia que cobre o mundo. tomasse sempre o caminho mais longo. dirigindo-se mesmo para a felicidade. O que mais prejudicou Petrarcha aos olhos de Laura&#8213. um feixe de musculos sobre um feixe d’ossos.e que seguramente póde affirmar no seu canto triumphal:&#8213. feita pelos bons Egypcios com tanta fadiga e tanta despeza. Tres mil e oitocentos francos achatados em entulho. maio.e hoje. e escreve no Jornal da Tarde estudos melancolicos sobre as Finanças! O meu procurador em Cintra aconselha agora. voltei a cear ao pé da minha radiante tyranna.foram os Sonetos. as fronteiras dos reinos. depois da contemplação junto á hombreira. constantemente vi. nos tempos do rei Arthur? Não sabe. [133] representa muito decentemente a Eternidade e a Vida-Futura. nas nossas civilisações. E eis-nos agora podendo contemplar as «proprias feições» do maior dos Ramezidas. O architecto que o construiu é deputado. III a oliveira martins Paris. para misturar a languidez d’um olhar fino a fatias de foie-gras. elle altera e arraza. onde cada recanto de bosque offerecia a emoção inesperada d’um flirt. Outr’ora um simples homem.. Não ha senão o homem. e pensava: «Ai. e não pedi uma «apresentação?» Nem sei. Sabe o que dava tanta seducção ao palacio das Fadas. como elle acreditava e lhe affirmavam os metaphysicos de Thebas. Pois era a immensidade d’annos que levava a chegar lá.Fradique. vi. recentemente descoberta nos sarcophagos reaes de Medinet-Abou pelo professor Maspero.47 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Shakspeare&#8213. continuador do grego banal. É com estes elementos alegres [132] que nós procuramos restaurar o nosso imperio d’Africa! Servo humilde e devoto&#8213. Ora 1886. os olhos finos e languidos.. que palrador que és. de boa familia. Mas seriamos nós [131] desejados pelo «ephemero feminino» se não fosse esta providencial brutalidade? Só a porção de Materia que ha no homem faz com que as mulheres se resignem á incorrigivel porção d’Ideal que n’elle ha tambem&#8213. podia erguer-se e operar como um elemento da Natureza. Ahi o tem V. Tudo tende á ruina n’um paiz de ruinas. entre os animaes. ou aquelles que outr’ora em dias de triumphos corriam a juncar-lhe o caminho de flôres. picarescamente suggestivo este facto&#8213. durante tres mil annos. exhalando o seu extasi em invocações á Noite e á Lua&#8213. através de jardins encantados. como documento. Não me amaldiçôe por esta sinceridade de meridional sceptico. Que chateza. já velho. um carão parado e affavel que podia ser o do seu Copeiro-Mór. (Com que morbida propensão acordei hoje para o estylo asiatico!) O facto é que.48 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Bastava ter o illimitado querer&#8213. e que lhe destinava como «seu pensadoiro e retiro nas horas de sésta»&#8213. Mas por entre o banal sandwich de foie-gras. Mas ahi está justificada a mumificação dos cadaveres.«Tudo vergou sob a minha força: eu vou e venho com as passadas largas d’um leão. «as vantagens da Eternidade!» Ramèzes. mil e quatrocentos annos anterior a Christo. quando eu fallo o céo escuta. obliquo e bigodoso d’um Napoleão III. resurge effectivamente «com todos os seus ossos e a pelle que era sua» n’este anno da Graça de 1886. o logar para onde volve os seus olhos é bemdito e prospéra. d’uma batalha.&#8213. E quando Romeu.. diz com espanto: «a tua vontade dá a vida e a tua vontade dá a morte!» Elle impelle a seu bel-prazer as raças para norte. Eis-ahi em Ramèzes um sêr que tudo quer e tudo póde. as coisas da terra estendem-se a meus . ou d’um banquete.. na minha quintarola. segundo diz o Escriba. o Deus sagaz. o rei dos deuses está á minha direita e tambem á minha esquerda.para eterna perturbação do mundo. Resultados de não lêr Tennyson.. as cidades novas surgem das suas pegadas.Julietta batia os dedos impacientes no rebordo do balcão. os deuses dependem d’elle. filho dos Montaigus!» Este detalhe não vem em . e a quem Phtah. que fazia com que La-Fontaine. não conseguiu apagar? Eisahi verdadeiramente um Dono de homens! Compare esse semblante augusto com o perfil sôrno. que tenha essa soberana fronte de calmo e incommensuravel orgulho. em photographia. com as palpebras baixas e sorrindo. não acha V. esse superior sorriso de omnipotente benevolencia. a loura castellã do Anjou. todo esse esplendor viril que a treva de um hypogeo. esse ar de imperturbada e indomavel força. um estimavel rapaz. que entende de construcções e que é empregado na Procuradoria Geral da Corôa! Talvez se eu necessitasse um Jurisconsulto me propozessem um trolha.

inigualavelmente grande. IV a madame s. Um artigo de jornal fal-o estacar. de tradições. trabalham por baixo d’elle. diluido em estrangeirismo. Esta carta é a reacção violenta da conversa conselheiral e conselheirifera. que vai da cordilheira Libyca á Mesopotamia: e nunca houve mais petulante emphase do que nas Panegyrias dos Escribas. &#8213. que Ramèzes conserva mesmo além da vida. de interesses.o feitio amolgado d’uma coisa que rola aos encontrões. o mero instrumento de adquirir noções e idéas. vinte paginas de Quevedo. Ah. Dez burguezes nedios e dez professores guedelhudos. desditoso amigo. e que por meio de cada uma se pediu o primeiro pão e agua da vida&#8213. Consumir energia e vida na aprendizagem de as pronunciar tão genuina e puramente que pareça que se nasceu dentro de cada uma d’ellas. Más em hespanhol. immenso banho de phantasia. para cavar a terra.O hespanhol chama-se D. Em conclusão:&#8213. resequido. minha senhora. O seu patriotismo desapparece. Já não ha uma face sublime: ha carantonhas mesquinhas onde a bilis cava rugas [137] por entre . com mão livre»&#8213. Na lingua verdadeiramente reside a nacionalidade. com aquelle accento chato e falso que denuncía logo o estrangeiro. Minha cara amiga.surripia-as ás migalhas. de sentimentos. Cada impulso da sua vontade esbarra com a resistencia d’um obstaculo. tão miudamente occupado em alindar e requintar a enxada. esse. para esse abastecimento intellectual. que faz V. com impeccavel segurança e pureza. mumificado. erecto [136] e seguro: tem de ser ondeante e rastejante. sete annos. mora na Passage Saulnier. pelo muito que braceja e ronca d’alto. é na realidade por ellas arrastado. por outro lado as condições que cercam hoje um poderoso do typo Bismarck. e conversei inevitavelmente. fevereiro. Paris. conselheiro d’estado. era aquella região. Com cada idioma alheio que assimila. crispado. Miseravel omnipotencia! E o sentimento d’esta miseria não póde deixar de influenciar a physionomia dos nossos poderosos dando-lhe esse feitio contrafeito. onde despejo como perfume idoneo um frasco de Shelley ou de Masset. como estariam agora.em quê? No luxo de apurar até a um requinte superfino.como instrumentos de lavoura. estatelam por terra o alto andaime dos seus planos. se lhe levanta a cada instante diante dos passos como marcos sagrados. que o envolvem. attribua-o a que jantei hontem. votando dentro d’uma sala. batendo contra muralhas. de principios. A rabulice d’um legista obriga-o a encolher precipitadamente a garra que já ia estendendo. A vigilancia ambiente impõe-lhe a necessidade vil de fallar baixo e aos cantos. são apenas instrumentos do saber&#8213. Com um hortelão assim. os seus pomares Touraine? [139] Um homem só deve fallar.49 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós os recortes do pêllo.&#8213. e o cosmopolitismo do Verbo irremediavelmente lhe dá o cosmopolitismo do caracter. Mas o homem é. é um pobre Adão achatado entre as duas paginas d’um codigo. sem outros limites que os do proprio querer&#8213. 12. orgulhosamente mal. ou suppõe ser. de preceitos. com um ferro simples encabado n’um pau simples.um banho lustral. meu amigo. de direitos. e portanto sobrio. um ou outro romance de Galdós. Alguns florins dentro d’um sacco tornam-se o tormento das suas noites. depois de receber o fluxo labial d’um conselheiro? Eu tomo um banho por dentro&#8213. que nada perderam da sua força. durante os mezes em que a horta tem de ser trabalhada. [138] alguns dos «Piccarescos». e superfluo. de interesses. do seu nome e da sua belleza. tendo-se tornado impossivel uma vida humana vivida na sua maxima liberdade e na sua maxima força.para que deseja a minha sensata amiga que elle pronuncie esse castelhano que sabe com o accento. com o seu correligionario P. e muchas cosas más. nem da sua liberdade. hesitante. minha boa amiga.&#8213. e o sal d’um madrileno nascido nas veras pedras da Calle-Mayor? Vai assim o dôce Raul desperdiçar o tempo que a Sociedade lhe marcou para adquirir idéas e noções (e a Sociedade a um rapaz da sua fortuna. Um desgraçado d’esses não está acima de nada e depende de tudo.resultou perder-se para sempre. dos onze aos dezoito)&#8213. Quichote. É-lhe tão impossivel dispôr d’um cidadão como d’um astro. o D. o sabor. do czar. azedado e sobretudo amolgado que se nota na cara de Napoleão. Mas se seu filho já sabe o castelhano necessario para entender os Romanceros. em torno d’elle: e parecendo dirigil-as. e más também em portuguez no sentido de pessimas. modos alheios de sentir. acha todo isto excessivo e phantasista. de todos os que reunem a maior somma de poder contemporaneo&#8213. Por isso o polyglota nunca é patriota. repassada de risonha serenidade.é fazer como o lavrador. de pedra ou de macadam. E esta consciencia da grandeza.pés.mas como a boia solta vai no cimo da torrente. Assim um omnipotente do typo Bismarck vai por vezes em apparencia no cimo das grandes coisas. o isolam das outras raças. se applicasse.que lhe importa? Todas são ruas. que é tudo quanto basta lêr na litteratura de Hespanha. para eu as colher com mão livre. genuinos Ramèzes no seu deserto. e para sempre estou erguido sobre o throno do mundo!» [135] «O mundo». Ramon Covarubia. a lingua da sua terra:&#8213. pela maior parte arenosa. depois de escuras intrigas. a summa e perfeita expressão da grandeza.Fradique Mendes. que em vez de se contentar. de Bismarck. Em todas a falla .&#8213. As irresistiveis correntes de idéas.e quem fôr possuindo com crescente perfeição os idiomas da Europa vai gradualmente soffrendo uma desnacionalisação. O homem moderno. Não ha já para elle o especial e exclusivo encanto da falla materna com as suas influencias affectivas. apenas concede. duas comedias de Lope de Vega. Calle d’Alcalá. recheado de betume da Judêa. creio que com dez francos por lição se contentará amplamente. mesmo nas alturas sociaes. introduzem-se-lhe no organismo moral modos alheios de pensar. Toda a sorte de convenções. As unicas physionomias nobres são as das feras. Rue de Rivoli. no typo physico do homem. a embutir emblemas no ferro e esculpir flôres e folhagens ao comprido do pau. Porque as linguas. Wilhem Strasse&#8213. Amigo certo et nunc et semper&#8213.a mumia de Ramèzes II (unica face authentica do homem antigo que conhecemos) prova que.todas as outras as deve fallar mal. Regent Street. A sua acção no mundo é um perpetuo bater de craneo contra espessuras de portas bem defendidas.. e como é aragonez. está claro. torturado. Em vez de «recolher as coisas da terra. Se V. Nunca póde avançar d’uma arrancada. Veja V. do incircumscripto poder vem necessariamente resplandecer na physionomia e dar essa altiva magestade.

pouco differençaveis do coaxar das rãs. o proposito de pronunciar com perfeição linguas estrangeiras constitue uma lamentavel sabujice para com o estrangeiro. durante annos. pensar. se póde fundir com todas&#8213. Com effeito. diante d’elle. as linguas dos outros! Mesmo porque aos estrangeiros o polyglota só inspira desconfiança. nem lar estavel&#8213. Devem. como o desejo servil de não sermos nós mesmos. maio. o quer verificar historicamente. E como pelo Verbo. O seu lindo Raul ganhará ainda assim uma nova faculdade de exprimir&#8213. com uma capa de bandas de velludo. candidamente suppõe. em Berlim. em Paris. Ao fim de annos esse habilidoso. e póde substituir as lições na lingua de Quevedo por lições na guitarra de Almaviva.. que tanto o escandalisa na sua parochia&#8213.A sua carta transborda de illusão poetica. é guitarrista. da sua essencia e do seu objecto. que chegou a fallar absolutamente bem outras linguas além da sua. risonha mas dyspeptica. minha senhora! Fallemos nobremente mal. que trespassando com versos (ainda mesmo seus. do que poder. e poupar ao nosso Raul o trabalho medonho de pronunciar Viva la Gracia! e Benditos sean tus ojos! exactissimamente como se vivesse a uma esquina da Puerta del Sol. o Vocabulo. . Ramon. «os descampados e atoleiros das grammaticas e pronuncias». sem hesitações.o trilhar. bulgaro e polaco. as Sacristias. com genuina e exacta propriedade de construcção e de accento. imitava com o rebolar lento das saias tufadas uma gallinha no chôco. o esforço contínuo de um homem para se exprimir.isto é. patrioticamente mal. e gritava ki-ki-ri-ki! kó-kó-ri-ki! kó-ró-kó-kó! Nunca. e mais rutilantes que as flechas de Apollo) a Igreja. tem sido o fim de todos os cultos. Isto todavia não impede que se utilisem os serviços de D.que só conhecia e só comprehendia sob o seu nome nacional vernaculo de ovos. desde o mais primitivo. tome um bordão. Além d’isso.porque as suas idéas forçosamente devem ter a natureza incaracteristica e neutra que lhes permitta serem indifferentemente adaptadas ás linguas mais oppostas em caracter e genio. por meio das quatro cordas d’uma viola. só este. cravava n’elle os olhos agudos e bem explicados. no que elle tem de mais seu.a faculdade de exprimir emoções por meio de cordas de arame. Elle.é ter da Religião. do culto de Indra. Para ella huevos. de nos fundirmos n’elle. sem attritos. hollandez. E este dom é excellente! Convem mais na mocidade. eggs. em idiomas estranhos&#8213. o Verbo&#8213. reclamar com perfeição o pão e o queijo&#8213. no Valle Feliz. e tenta uma installação de vida em todas porque não é tolerado por nenhuma.oh incorrigivel beato do idealismo! Se V. até ao culto recente do coração de Maria. [141] E aqui está como. ou d’um estalar de madeira. a Liturgia. benevola amiga&#8213. através do mundo. perdeu toda a originalidade de espirito&#8213.esta expedita senhora reclamava o famulo do Hotel. estas necessidades vitaes d’estomago e alma&#8213. de facto. grego. e mesmo na velhice. Por outro lado.e superiormente frescos! Beijo as suas mãos. eram sons da Natureza bruta. Ora isto é uma abdicação de dignidade nacional. como sêr que não tem raizes. o jejum da sexta-feira e os ossos dos Martyres. em vez d’um endereço eu lhe forneço um tratado!. E será realmente indispensavel mesmo para prover. desafogar a alma das coisas confusas e sem nome que n’ella tumultuam.Fradique. o esforço para se confundir com [140] gentes estranhas no que ellas têm de essencialmente caracteristico. Suppôr. se póde «desentulhar Deus da alluvião sacerdotal». o Padre.a uma religião que consista apenas n’uma Moral apoiada n’uma Fé&#8213. Não.em sueco. e as arêas d’um grande deserto. comia simplesmente ovos&#8213. deixe Vianna do Castello. successivamente se disfarça n’ellas. Moralistas e Mysticos) não passa d’um conjunto de Ritos através dos quaes cada povo procura estabelecer uma communicação intima com o seu Deus e obter d’elle favores.51 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós deixou de comer os seus ovos&#8213. as escarpas do Hymalaia. uma sonhadora idéa de sonhador teimoso em sonhos! Meu bom amigo.«que cabem bem na roupa de toda a gente». Estamos aqui em Septa-Sindhou. chupando o cigarro de Lazarillo. ser como aquelles «corpos de pobre» de que tão tristemente falla o povo&#8213. em cidade ou região intelligente do Universo.. Este.apaga n’elle toda a individualidade nativa. e suba commigo por essa antiguidade fóra até um sitio bem cultivado e bem regado que fica entre o rio Indo. oeufs. decerto inclue os conselheiros de Estado) a uma comprehensão toda pura e abstracta da Religião&#8213.. Esta senhora. em Moscow.sêr que rola através das nacionalidades alheias. se a minha amiga percorrer a Gazeta dos Tribunaes verá que o perfeito polyglotismo é um instrumento da alta escroquerie. Pois quando em Londres. além de Zorrillista. através das estalagens do mundo. levado pelo dilettantismo das idéas.porque as Religiões para os homens (com excepção dos raros Metaphysicos. como V. e [143] elevar o Povo (no Povo V. agachava-se gravemente sobre o tapete. Que a minha garrulice ao menos a faça sorrir. que é o instrumento essencial da fusão humana. pela mão dura dos mestres. desejava os seus ovos&#8213. Meu caro amigo. V a guerra junqueiro Paris. no paiz das Sete-Aguas. saber. como dizia o velho Milton? Eu tive uma admiravel tia que fallava unicamente o portuguez (ou antes o minhoto) e que percorreu toda a Europa com desafôgo [142] e conforto. espontaneamente.50 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós ambiente lhe offerece um elemento natural e congenere onde o seu espirito se move livremente. &#8213. de mais proprio. Ha ahi. uma Religião a que se elimine o Ritual desapparece&#8213. minha tia .em todas sente e aceita uma Patria. das ei.

e em que todas (apesar dos elementos estranhos de Theologia. quando ella devia escorregar sobre o hombro. encontrará nas duas grandes Religiões do occidente e do oriente. E n’esse ceremonial era indispensavel não alterar nem o valor d’uma syllaba na Prece. espalmando as mãos ao céo. todos esses detalhes estavam prescriptos immutavelmente pelos Rituaes. um traidor ao Estado. derretendo as neves do Hymalaia. amuado e sumido no fundo do Invisivel e do Intangivel. seja o proprio Flamen Dialis. de Ethica que lhe introduzem os espiritos superiores) terminam por se resumir. as hervas aromaticas que dão o Sômma. que o Arya necessita observar para que Indra o attenda&#8213. ao lado. esse corpo de conceitos foi decorado pelo povo:&#8213.53 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós praticas. Quantas Legiões vencidas.influenciar o Deus. já mais crente no esforço proprio. de certa casta. lançando ironias d’ouro á Divindade.52 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós rogados.ou porque Auruspice não arrancou lã bastante da cabeça do anho! Por isso Athenas castigava o Sacerdote que alterasse o ceremonial. quizer volver aos nossos philosophicos dias. parando (antes de recolhermos a Vianna. a verdura aos prados.flôres pregadas no altar pela imaginação ou pela virtude idealista. as Religiões. consistiram sempre praticamente n’um conjunto de praticas.) está hoje resumido a uma curta série de observancias materiaes:&#8213.e será na terra como a creancinha que ninguem nutre e a que ninguem ampara os passos. o Arya ficará sem meios de propiciar o seu Deus. em Roma. [146] da riqueza. nem regras para a conducta dos homens. e soltando com um golpe de fogo «a chuva que jaz no ventre das nuvens». por esta quente alvorada de maio. observou em Septa-Sindhou poderá verificar igualmente. em segurar a benevolencia dos Deuses.mas nunca o povo se persuadiu que tinha Religião. amigo meu. nunca penetraram nas multidões para methodicamente governar os juizos ou conscientemente governar as acções. pede esses bens á hygiene. uma totalidade de Ritos. tornando SeptaSindhou mais esteril que o «coração do mau». da paz. desattendido do seu Deus&#8213.fosse elle tão ligeiro como reter a ponta da toga sobre a cabeça. Constituiam verdadeiros crimes contra a patria&#8213. sem o comprehender.onde eram preciosa materia de dialectica ou de poesia. despedia [147] logo das Alturas os dardos da sua colera. E mesmo quando. no momento de maior esplendor e cultura das civilisações greco-latinas. a cartilhas. vestidos de linho candido. Um limpa e desbasta a lenha que ha de nutrir o lume sagrado. lhe erguerem canticos dôces. O Catholicismo (ninguem mais furiosamente o sabe do que V. ou póde. E responderá que a Religião consiste em paces deorum quaerere. pelas quaes o homem simples procura alcançar da amizade de Deus os bens supremos da saude. este. como um semeador. São padres. E se. estão executando um Rito que encerra em si toda a Religião dos Aryas. Peor ainda! Passava a ser a irreligião: e o Deus. Estes homens. que todas por instincto repetem&#8213. as formulas. e que tem por objecto propiciar Indra&#8213. porque o Pontifice deixára perder um grão de cinza da ara&#8213. V. vestidos de linho. o seu pau sacrosanto. De sorte que V. meu amigo. porque d’outro modo o Deus. Na idéa do antigo isso significa cumprir os ritos. qual é o corpo de doutrinas e de conceitos moraes que compõe a Religião. se comprovou que Indra só o escutará. sem as penetrarem. e o senado depunha os Consules que commettiam um erro no sacrificio&#8213. sobre um outeiro. accessorio e transitorio&#8213. Reduzido a catechismos. ou divinisando as forças da Natureza.&#8213. a potencia divina que póde encher de ruina e dôr o coração do Arya. seja um oleiro de Suburra. as praticas. que V. um altar de pedra coberto de musgo fresco: em cima brilha pallidamente um fogo lento: e em torno perpassam homens. desprendendo a pestilencia das lagôas.Indra. obra de doutores e de mysticos.. sorvendo a agua das regas. meu amigo! São os primeiros capellães da humanidade. sem canticos. Indra. servia a . celebrando um rito da missa Aryana. sobre [148] as quaes a Theologia e a Moral se sobrepozeram. entoa um cantico austero. da forca. ou divinisando a Alma dos mortos. quantas cidadellas derrubadas. e a Religião falseava o seu fim supremo&#8213. com reverencia. Ha meramente [145] uma Liturgia. e que portanto agradava a Deus. vê. já farto d’estes tempos antigos. aquelle. o cahir lento das gottas da libação. sempre propicio.uma vez que. a Liturgia e o Ceremonial. a alegria e abundancia á morada do Arya.&#8213. A obliquidade das pregas na tunica do Sacrificador. o fogo. votado ás masmorras do Tuliano. mel e carne d’anho. lhe amontoarem dons de fructa. Sem dons. derrame sobre Septa-Sindhou todos os favores que póde appetecer um povo rural e pastoral. não reconhecendo o Sacrificio da sua dilecção e a Prece do seu agrado. á lei e ao trabalho. restituir a agua aos rios. onde quizer. era um inimigo publico. Não ha aqui Metaphysica. o tamanho das achas do lume votivo.e todavia nunca houve Religião dentro da qual a Intelligencia erguesse mais vasta e alta estructura de conceitos theologicos e moraes. em apaziguar os Deuses. com os longos cabellos presos por um aro [144] d’ouro fino. como na Velhice do Padre Eterno. Esta Religião primordial é o typo absoluto e inalteravel das Religiões. lhe offertarem libações. como um luxo intellectual. permanecia desattento e alheio. No primeiro povoado em que pararmos V.na terra dos Aryas. Esses conceitos. Trata-se pois simplesmente de convencer Indra a que. Em todos os climas. em Athenas ou Roma.porque attrahiam sobre ella a indignação dos deuses. o almofariz. o crivo e o vaso do Sômma. espalha grãos de aveia em volta da Ara. sem libações.e cada um d’elles está. sem anho.nem explicações sobre a natureza dos deuses. vendo n’essa omissão de liturgia uma falta de reverencia. no Catholicismo e no Budhismo. que uma longa tradição demonstrou serem as unicas que conseguem fixar a attencão dos Deuses e exercer sobre elles persuasão ou seducção. ainda persiste nos ritos propiciadores para que Deus ajude o seu esforço. Se V. outro pisa dentro d’um almofariz. em todas as raças. não descerá á terra a derramar-se na sua bondade. queimando os pastos. o sol. porém. O que V. uma comprovação ainda mais saliente e mais viva de que a Religião consiste intrinsecamente de . á ordem. era talvez um grande e admirado Poeta Comico: mas satyrisando. e a sua exclusão ou a sua alteração constituiam impiedades. um passo lançado á direita ou movido á esquerda. ahi perguntar a um antigo. a salubridade ás lagôas. nem Ethica&#8213.elle sorrirá. dithyrambisa) na Antiguidade classica. pela experiencia de gerações. nunca propriamente sahiram das escólas e dos mosteiros&#8213. nem o valor d’um gesto no sacrificio. de Metaphysica. com pancadas que devem resoar «como tambor de victoria». quando em torno ao seu altar certos velhos. a beber esse vinho verde de Monção. E se vier de Vianna do Castello um Poeta tirar ao Arya o seu altar de musgo. só concederá os beneficios .

no pensar dos simples. . pausadamente. tinham. de obter d’elle os bens transcendentes para a alma e os bens sensiveis para o corpo. só se obtem pela constante e incansavel pratica dos preceitos&#8213. como uma carta lacrada e sellada. se propicia a Deus..«É fazer poojah todos os dias e dar o tributo ao Mahadeo». a Religião terá sempre por fim. e que. Mas d’ahi a instantes o chefe bate uma palmada afflicta na testa. a Ethica e a Poesia. Não ha aqui Theologia. milhões de sêres terão perdido o seu Deus. Foi nas margens do Zambeze. O mesmo Céo e Inferno. o essencial foi sempre ouvir missa. o poder de attrahir a attenção. como sempre.mais ella na realidade se divinisa. o jejum. tudo retivera: e immediatamente arrebata um machado. fóra de toda a pratica e de toda a observancia ritual. E quanto mais elle se materialisa&#8213. V. A Egreja é o vaso de que Deus é o perfume.&#8213. Que faz Lubenga? Grita por um escravo: dá-lhe o recado. porém. Ao contrario! Estão no seu estado natural e normal de Religião. Ha o acto do infinitamente fraco querendo agradar ao infinitamente forte. e. que por esse acto de cortezia transcendente «lhe ficará grato e lhe augmentará os seus bens». a novena. dar tunicas aos santos.«parte!» A alma do escravo lá foi. e para outros espiritos de eleição. O Minhoto dirá:&#8213. communicar com o seu Deus. se alcançam d’elle os dons inestimaveis da saude.a missa. elle consistiu sempre para as multidões em ritos. cantar hymnos». ao Mulungú. E talvez com razão. e os outros preceitos moraes do Catechismo. o que é Religião. como sêres religiosos..Deus volatilisado. esfiar o rosario. Não se espante! Quero dizer. de Humanitarismo.Deus. não se desconsole. se ganhava ou se evitava pela pontual obediencia á lei. que não seja um philosopho. com o seu Mulungú (que era. eliminar o Padre. Pergunte a qualquer mediano homem sahido da turba. agarra o machado. um seu avô divinisado). O segundo escravo era um . nunca. a vestimenta. tanto mais colloca o povo face a face com o seu Deus. diz-lhe ao ouvido rapidas palavras. Egreja partida&#8213. por um mero dobrar [151] de joelhos. ou um mystico. O Catholicismo n’esse instante terá acabado. em todos os tempos. mahometana. para que o devoto ao passar. incluindo V. inteiramente despidos de Liturgia e de exterioridades rituaes. E quando esse Millenio detestavel chegar. intellectual e moralmente como a que Jehovah com uma tão grande inspiração d’artista fez da costella de Adão. E todos terão razão. a penitencia. e berra:&#8213.. nas barbaras ou nas cultas. que V. nunca lidou com este moinho? É lamentavelmente parecido com o moinho de café: em todos os paizes budhistas V. grandemente! Porque o seu objecto.a mais conhecida das quaes é o moinho de rezar. que desejava mandar á sua Divindade. separa-lhe a cabeça. para uso da sua fraqueza. quanto mais se materialisa. a bemquerença e os favores do Senhor. nunca poderá ser senão o privilegio d’uma élite espiritual. commungar. a offerta. mais se popularisa&#8213. o altar. Ora este encontro é o facto essencialmente divino da Religião. possa fazer chocalhar dentro as orações escriptas e communica com o Budha. Só por estes ritos. terá V. lhes fornecem. ao ouvido: verifica bem que o escravo tudo comprehendera. budhista. da felicidade. que quanto mais se desembaraça dos seus elementos intellectuaes de Theologia.«É offerecer ao Mulungú a sua ração de farinha e oleo».«Vai!» Esquecera-lhe algum detalhe no seu pedido ao Mulungú.haverá sempre ao lado d’ella. nem o Budhismo vão por este facto em decadencia. pela idéa de que esses versiculos. [149] e não pelo cumprimento moral da lei moral. nas vesperas de entrar em guerra com um chefe visinho. Mas para isso é necessario que venha o Millenio&#8213. da paz. de Moral. Voilà! Para V. selvagem ou culta. ella seja apenas como o espirito humano fallando ao espirito divino». etc. ou um moralista. amigo! Mesmo entre os simples ha modos de ser religiosos. Porque emquanto houver uma mulher constituida physica. deploravelmente limitada. Para servir a Deus. e as Obras de Misericordia. e para os que as governam..54 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós repellindo-os para as suas regiões naturaes que são a Philosophia. e que não lhe offerece os meios simples e tangiveis de communicar com Deus.. De sorte que no catholicismo do Minhoto como na religião do Arya. nas hordas do Nepal ou no mandarinato chinez. nem Moral. está todo em communicar com Deus. Ora a graça. tão graves e confidenciaes matérias continha. a estola. Dentro d’essa Religião foi elaborada a mais alta das Metaphysicas. por isso mesmo que no Catholicismo o premio e o castigo não são manifestações da justiça de Deus. as galhetas e a agua-benta. a communhão.bem felizmente para ellas. e cada tipoia de praça fôr governada por um Mallebranche.. uma imagem e um padre.&#8213. por nome Lubenga. fazer promessas. na sua essencia. jejuar á sexta-feira. da riqueza. Uma Religião. o padre. E só decorou mesmo esses Dez Mandamentos. que é o meio de agradar a Deus. toparia com o mesmo phenomeno no Budhismo. a imagem. V. e brada tranquillamente&#8213. bem vestido.e portanto mais se divinisa. todo o Rito e toda a Liturgia&#8213. não se podia transmittir através dos Feiticeiros e do seu ceremonial. o homem absoluto que está no céo vem ao encontro do homem transitorio que está na terra.«É ir ao serviço ao domingo. está claro. que as pretende governar! De resto. jejuar. O hindú dirá:&#8213. tão facil de realisar que. e esses são os meios de communicação que os seus respectivos estados de civilisação e as respectivas liturgias que d’elles sahiram. Para a vasta massa humana. como instrumentação material para realisar estes objectos. um mero balbuciar de Padre-Nossos. nas encruzilhadas do campo. um altar. quer. Mas as multidões humanas não são compostas de Socrates e de Senecas&#8213. n’uma união directa e simples. a Religião é outra coisa&#8213. porém dirá (e de facto o diz): «Tornemos essa communicação puramente espiritual. só por cumprir os dez mandamentos. Nem o Catholicismo. para purificar este Catholicismo. dando duas voltas á manivella. por uma virtude maravilhosa.o catholico immediatamente abandonará uma Religião que não tem Egreja visivel. [150] Se tivessemos tempo de ir á China ou a Ceylão. decepa a cabeça do escravo.isto é. direita para o céo. Um chefe negro. pagã. praticas&#8213. em Septa-Sindhou como em Carrazeda d’Anciães. mas da graça de Deus.como já era outra coisa em Athenas para Socrates e em Roma para Seneca. despida de toda a exterioridade liturgica. sancção extra-terrestre da lei. ainda de ajuntar a esta perfeita humanidade masculina uma nova humanidade feminina. na idéa do povo. Um presenciei eu. etc. o verá collocado nas ruas das cidades. um pensador. deliciosamente puro e [153] intimo. commungar pela Paschoa». physiologicamente differente da que hoje embelleza a terra. a mais nobre das Moraes: mas em todas as raças em que elle penetrou.em que cada cavador de enxada seja um philosopho.«É ouvir missa. E se V.55 A correspondência de Fradique Mendes . o templo. a promessa. lentamente. V. [152] a supplica dos favores divinos e o afastamento da cólera divina. chama á pressa outro escravo. O inglez dirá:&#8213. rezar as contas. O recado ou pedido. recitados com os labios. ceremonias. O africano dirá:&#8213. o rosario. christã. tudo se resume em propiciar Deus por meio de praticas que o captivem. Essa communhão mystica do Homem e de Deus. os officios. queria.

cheia de saudades da casa. E o Argentino farejou em mim esta benevolencia critica&#8213. esperando a cada instante que surja. da Republica Argentina ou Peruana. bock a tres. desde que elle. A testa escanteada recua. Eduardo. Mas se não é. quasi com religião. impaciencia a tres. todo o dia em Versalhes.. A voz é toda de desconsolo:&#8213. grossa perola. foge toda para traz. tendo posto ao lado sobre uma cadeira.Eça de Queirós post-scriptum . não me trocava pelo principe de Galles. Sentia-se alli uma d’essas admirações effervescentes. segura e insolente satisfação de viver. a consideração dos seus fornecedores. Pergunto a Chambray [158] como lhe vai a Vida. fugidio Ramalho. e Mendibal falla. um cotão negro.56 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós repuxava mais para fóra o caroço da garganta. &#8213. não vinha. sempre lhe direi. um só que fosse.No sabbado á tarde. quasi dolentemente. escutava com a compostura pesada de um portuguez antigo. hesitante.Fradique. que «a noute estava esplendida!» Quando voltei á mesa e ao bock. senhora de grande idade. picante em seducção e finura.. Como V.É verdade! Veja o senhor! Este ramo de cravos! Até consola. onde a mãe d’ella. pouco mais negro que a tez. esta noite! de passagem para a Hollanda! ás dez! no café da Paz!» Fico dôcemente alvoroçado. De sorte que elle proprio. lançando o derradeiro traço. avança como o esporão d’uma galera por entre as pontas quebradas do collarinho muito alto e mais brilhante que esmalte.mas. aquelle homem iria deixando escorrer a sua adoração pela mulher. por entre a turba baça e molle do boulevard. quando roça pela nossa mesa um sujeito escurinho.. como digo a todo o mundo:&#8213. Nada de Ramalho.. que . que se arremessa pela portinhola para me gritar: «Ramalho. e que me queria simplesmente segredar. chupadinho. denunciando uma virilidade frouxa. Em compensação um caso. De cahir de joelhos! Então nos ultimos dias a mamã andára tão rabugenta!. borbulhantes.. conhece&#8213. n’uma ancia de recolher. senhores. Tinhamos alli portanto um fanatismo de preto pela graça loira d’uma parisiensesinha. Ás onze apparece Eduardo. Mendibal». Eu contemplo. gastára-a a reunir aquelle esplendido ramo de cravos amarellos para lhe trazer. E agora viera de a esperar na gare Saint-Lazare. Desde que comprehendi. esbaforido. Carmonde devorava o homemzinho com olhos que riam e que saboreavam. com finaes que desfallecem. se esvaem em gemido. d’uma côr acobreada de chapéo côco inglez.. apesar da minha justa repugnancia pela esquina do café da Paz. E Mendibal. Mendibal trepou para um fiacre com o seu amoroso molho de cravos.o «formoso Chambray». Eu arrastei os passos. Amigo do dito&#8213. não havia outra em Paris! Por exemplo. o ramo de cravos. um soberbo [155] ramo de cravos amarellos. que traz na mão com respeito. que se não podem retrahir. Comprehendi. para estes carinhos. Madame [157] Mendibal até emmagrecera. mesmo por sobre as mesas dos cafés: onde quer que passasse. deliciosamente divertido. passar o dia a Versalhes. Eu não sei se o senhor é casado. Centro catita do Snobismo internacional. É um homem d’além dos mares. e «uma esposa adoravel». a elle!» &#8213. Ás dez salta d’um fiacre com anciedade o vivaz Carmonde. no que diz. Carmonde. esse. derreado e radiante. com um prazer que lhe . habitava por economia. cheia de achaques! Pois era uma paciencia. e ás nove e meia. parece cotão. Houve um momento em que me ergui. Olhe que para estas lembrancinhas. Graças a Deus. que transbordam por toda a parte.que o retem e apresenta «o snr. desfiava as virtudes e os encantos de Madame. sobre as excellencias de Madame: «Sim. Falla arrastadamente. lá me installo. o Argentino encetára em [156] monologo a glorificação da «sua senhora». O animal tem tudo: immensas propriedades além do mar.Case com uma franceza. posso dizer que acertei! E se tivesse filhos. Como deslizou elle a mencionar essa dama que lhe embelleza o lar? Não sei. case com uma franceza!. com cuidados devotos. lhe pedira que se fosse distrahir. revelou que madame Mendibal era franceza. a santa creatura estivera com cuidado na sogra. e profundo. Pois. ao contrario. já desilludidos de Ramalho e das suas pompas. positivamente. Encontro Chambray no fundo d’uma poltrona. Mendibal aceita um bock: e eu começo a contemplar mudamente aquella facesinha toda em perfil.porque foi para mim que se voltou. na rue Cambon. o esplendor da Ramalhal figura. com bock a dois. que V. no calor da noite. onde a barbita rala. Na gravata. como um guarda-chuva encharcado vai fatalmente pingando agua. Eduardo e eu sorviamos as derradeiras fezes do bock. com um bock. que abandonára á pressa uma sobremesa alegre pour voir ce grand Ortigan! Começa uma espera a dois. abril. esticadinho. E assim até que o bronze nos soou o fim do dia. Esta maneira simples de communicar com Deus deve regosijar o seu coração. revela a mais forte. dispersamos. recolhendo da Opera. sympathisei. o carinho com que ella cuidava da mamã (da mamã d’elle). uma sujeição. o mais decisivo. Não podia haver nada mais sinceramente grotesco e tocante. Nem lhe soubera bem a visita á mamã! A maior parte da tarde. e uma tarde tão linda. O caroço da garganta esganiçada. n’esse domingo. chamado por um velho Inglez meu amigo. uma casa no Parc-Monceau. como recortada n’uma lamina de machado. não ha senão uma franceza. e amigo de Eduardo&#8213. com uma convicção forte. [154] VI a ramalho ortigão Paris. No club encontro Chambray. assustada. que passava. Querido Ramalho. E Ramalho? Inedito ainda! Espera a tres. nem do seu viço. avisto dentro d’um fiacre o nosso Eduardo. até ao club. uma delicadeza. Perdôe a confiança. um rapaz. madame Jouffroy.

ainda hesitante e vaga. Não ha senão as francezas! Que diz V. E se d’aqui resultar um filho (o filho que o Argentino appetece). um geito guloso de molhar os beiços a cada instante. fixa um olhar lento em redor pelo quarto e pela alcova. É um rastacuero côr de chocolate. sessenta mil francos de renda.. e dardeja á dama um d’esses olhares que eram outr’ora symbolisados pelas flechas de Cupido.despe o casaco. pela simples força da voz quente. e tem este grito d’alma: &#8213. Este mundo portanto está superiormente organisado. que c’est bon. depois. um chapéo de duzentos francos. ao fim d’esse dia de primavera e de campo. com effeito. que a desenervou. como os acontecimentos pediam com urgencia e logica. que a encanta. como dizem os hespanhoes&#8213. junto d’agua. a pretexto de baixar o vidro por causa da poeira. Na estação. Chambray conhece á orla do bosque. conclue Chambray [161] accendendo o charuto. regada com vinho branco de Suresnes? Madame na verdade sente uma fomesinha alegre de ave solta no prado: e Satanaz. lhe permittiu reentrar mais acalmada na monotonia do seu lar. como os da lanterna de Diogenes. recanto bucolico. ondeando sobre a testa curta. solido. envolto em consideração. vem d’entre as palpebras um pouco pesadas. trinta annos. um d’esses raios de luz indagadora que. de incomparavel doçura. supplica-lhe que ao menos lhe diga como se chama. para o fundo do quarto. momentos.e ambas insensivelmente se entrelaçam. de toda a sua pessoa franca e mascula. faz surgir a garota que ha quasi sempre no fundo da matrona. de casa burgueza. alarga os braços. la mar. e valendo o trabalho de existir. que opinião tem n’esse dia da Vida. Dois solitarios nas orelhas. Ao chegar a Courbevoie. corre adiante. Cabellos apartados ao meio. ao despedir-se da terra por esse dia. Olhos graves.o «formoso Chambray». E o Argentino adquiriu outra inesperada e triumphal certeza de quanto era amado e feliz na sua escolha. desapontamentos d’alcova». Lucie.tal é o brado sincero de Chambray! Quando chega a caldeirada. sobre o calor de Paris. Versalhes. Está travada a Ecloga. com um aroma da seiva em redor. Chambray pensa comsigo:&#8213. por traz do Figaro aberto).«burgueza. dos olhos alegres. E. toma o seu «grande ar Chambray». Ella aperta devagar as fitas do chapéo. para todo decorar e retêr&#8213. apanha uma das flôres da janella que mette no corpete. Mas. uma tavernola que tem as janellas encaixilhadas em madresilva. Amigo fiel. O sol. No mesmo compartimento com elle ia uma mulher. a propiciar as coisas na tavernola. todas estas tres excellentes creaturas. ficou encantado quando ella lhe deu um grande ramo de cravos amarellos que eu lhe mandára arranjar em Viroflay. a excita. Chambray declara a Vida uma delicia. Chambray tem uma inspiração genial&#8213. faz a confidencia que lhe bailava impacientemente no sorriso e no olho humedecido. já apressado e frouxo. Corpo soberbo de Diana n’um vestido collante do Redfern. temperamento forte. inaccessivel ao burguez. «Em todo o [160] caso que o almoço suba depressa. meu bom Ramalho? Eu digo que. porque elles têm de partir pelo trem das duas horas»&#8213. É um rasgo de bohemia e de liberdade. ás duas horas tomariam o outro trem para Versalhes. ao fim d’este domingo de maio. Pergunto a Chambray [158] como lhe vai a Vida. em resumo.arrebata-a moralmente. accresce. no meio d’esta respeitabilidade physica e social. uma installação magistral: quarto fresco e silencioso. procuram um homem que seja um homem. de se desembêter! E depois. direito a Chambray (que vigiava de lado. Chambray já se senta na banqueta ao lado d’ella. Ella murmura&#8213. fumando. esquecido! Tratava-se de voltar á estação para tomar o trem de Paris. &#8213. Em Viroflay.Fradique. proposta brusca de Chambray para darem um passeio por um sitio de Viroflay que só elle conhece. e ser util aos seus com rediviva applicação.58 - . sem chumaços e sem blagues. com a ponta da lingua. estava o marido. a estas coisas consideraveis. com uma barbita rala. vivamente. abanca em mangas de camisa.. um lucro effectivo para a sociedade. sobre a frescura do campo. Ah oui. Porque não irão lá almoçar uma caldeirada. superiormente installado na vida. mesa posta. á espera d’ella. com tenção de visitar os Fouquiers. Madame experimentou uma sensação nova ou differente.. dando ao rabo. E sei tambem que é casada porque na gare Saint-Lazare. sem se conter.conhece&#8213. ainda no quarto. Em Suresnes. Encontro Chambray no fundo d’uma poltrona.. Coitado. Madame impassivel. que fielmente o espera á volta da Hollanda&#8213. Porque note V. cortina de cassa ao fundo escondendo e trahindo a alcova.e outra vez á mesa. Chambray passou por um immenso prazer e uma immensa vaidade&#8213.&#8213.. Acham lá. Tres ditosos. mão de Chambray repellida por Madame:&#8213. a desafogou. ao contentamento [162] individual dos tres. Depois. e acompanhado por um trintanario serio. ou antes . grossos e apaixonados. Ella concede outra. atrevidamente timida. Fôra a Versalhes. Em Sevres. ao saltar para um compartimento differente (por causa da chegada a Paris). E apenas o comboyo larga. como. obtiveram um ganho positivo na vida... deixou-os ainda em Viroflay. e a primavera e Satanaz conspirando e soprando sobre Madame os seus bafos quentes. immediatamente. Sêr substancial. enorme perola na gravata.. E. este nosso Mundo é perfeito e não ha nos espaços outro mais bem organisado. ainda na tavernola. mão de Madame arrebatada por Chambray.E é tudo o que sei d’ella. bem alimentado. derreado e radiante. Mulher deliciosa. Chambray n’um aperto de mão.e partem. une grande et belle femme.57 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós physiologicamente. [159] Chambray arrisca uma palavra. Eil-os no campo.os dois unicos resultados que elle conta na existencia como proventos solidos. diante d’um beefsteak reconfortante. E nem a deixa hesitar&#8213. Atira tambem o chapéo. com uma simples jornada a Versalhes. . que herde as qualidades fortes e brilhantemente gaulezas de Chambray.

e recomeçou elle. coche ou carroça. havia. O homem largou. reflexões e panoramas» d’esta terra [163] que é minha e que está a la disposicion de ustêd. com as mãos piamente estendidas sobre a sua maravilhosa edição dos Deveres de Cicero. uma rebusca através das . coçando a cabeça por baixo do bonet. O guarda da Alfandega. e com um gesto clemente declarou a Alfandega satisfeita. armazenados ao fundo. um homem de bonet de galão. .Não ha! Essa é curiosa! Então como sahem d’aqui os passageiros? [166] O homem encolheu os hombros. descorçoado. como patriota descontente. Mas faltava inexplicavelmente um saco de couro. Nada! Repentinamente porém uma mulher de lenço vermelho na cabeça.. com indizivel tedio. Vi este digno homem hesitando pensativamente diante d’um embrulho de lona. março. Smith já arrebanhára a custo a minha bagagem. era conforme calhava a sorte. mesmo na Romelia. A dama abalou. Nada! Impaciente. reflexões e panoramas». um carregador dava uma busca vagarosa através dos fardos. por noite morta. Smith immovel. uns trinta talvez&#8213. que de repente me acudia á memoria estremunhada o juramento que lhe fiz no sabbado de Paschoa em Paris. Juramento bem estouvado. separado da bagagem a que estrictamente o prendia o numero d’ordem estampado na guia em letras grossas&#8213. vasilhas.) Lisboa. uma carreta. O guarda enterrou o braço através d’estas coisas intimas. foi uma densa treva. Pois com tanta fidelidade cumpro eu os meus juramentos (quando feitos sobre a Moral de Cicero. notas. meu senhor? Era! Era o meu saco. E eu logo. barricas. pelo correio. sob a chuvinha miuda. e em silencio.gente simples. já irritado. cravando os olhos em roda. Vinhamos poucos no comboio. abri logo escancaradamente ambos os olhos para recolher «descripções. Não indaguei como elle se encontrava alli. Chegáramos a uma estação que chamam de Sacavem&#8213.. como na plena consciencia de que todos os serviços eram abominaveis. que bem depressa atravessou a busca paternal e somnolenta da Alfandega. Eram lanternas de faluas dormindo no rio:&#8213. sósinho. este. carros. escuros como azeitonas. á espera das bagagens sérias. pacotes. para a escuridão das plataformas interiores. no passeio. no comboio. Deviam ser duas horas da madrugada. á chegada dos comboios. No casarão soturno. á cata d’um vehiculo qualquer com rodas. Smith e eu. á portinhola. de maletas ligeiras e sacos de chita. e a Patria toda uma irreparavel desordem. Não sei quantos seculos assim esperamos. Então [165] o capataz arrancou a guia das mãos inhabeis do carregador. Era Lisboa e chovia. «Ás vezes havia. de cigarro collado ao beiço (bondoso homem!).A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós VII a madame de joujarre (Trad. Porque não as havia em Lisboa? Eis ahi um abominavel serviço que deshonrava a Nação! O aduaneiro esboçou um movimento de desalento. envolta n’uma velha capa [164] de pelles. contra a parede enxovalhada.. veio por fim rolando com pachorra. e suppliquei áquelle benemerito que corresse as visinhanças da estação. outras vezes não havia. para transportar gente e bagagem. reclamou o meu bilhete. cuja tampa..Será aquillo. pelo chão vasio. &#8213. notas. e logo se sumia para a cidade sob a molhada noite de março. Portugal em «descripções. de oculos no bico. que me levasse ao conchego d’um caldo e d’um lar. dizendo Vossa Excellencia! Em Portugal. A dama de nariz de cegonha reconheceu logo a sua caixa de folha de Flandres. um livro de missa e dois ferros de frisar. uma boceta de dôce. com a sua intelligencia superior de chefe. Seria qualquer d’esses o saco de couro? Depois. n’aquella madrugada agreste. bocejavam com dignidade. Smith protestava. chapeleiras. o Smith[3] e uma senhora esgrouviada. deitava tambem aqui e além um olhar auxiliador e magistral.até que. Ficamos sós. com o casaco encharcado d’agua. apontou para a porta da estação: &#8213.» Fiz reluzir uma placa de cinco tostões. Minha querida madrinha. resmungando. ao chegar a Lisboa (vindo do Norte e do Porto). O carregador atirou a jaleca para cima da cabeça. Assim se arrastou um d’estes quartos d’hora que fazem rugas na face humana. e recolheu logo annunciando com melancolia que não havia tipoias. e desappareceu para dentro. velhos bahus. O asphalto sujo do casarão regelava os pés. todos somos nobres. fiquei eu. e para regalo de quem reina na minha Vontade) que. boa madrinha. Da porta do fundo. cahindo para traz.e tudo o que os meus olhos arregalados viram do meu paiz. De sorte que tornei a cerrar resignadamente os olhos&#8213.59 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós «arrumações». commendador de Carlos III e membro da Academia de Toulouse. através dos vidros humidos do wagon. encetei eu proprio uma pesquiza sofrega através do casarão. censurei (voltado para o capataz e para o homem da Alfandega) a irregularidade d’aquelle serviço.. latas e garrafões. canastras. de lhe mandar todas as semanas.. onde dois guardas d’Alfandega. carretas.. e todos nos tratamos por Excellencia. em que oscillava o montão da nossa bagagem. Em todas as estações do Mundo. Depois para se consolar puxou com delicia o lume ao cigarro. sahiu ao largo.e reclamei uma tipoia. á espera que o saco rompesse das entranhas d’este globo desconsolador.. como se lê no sub-titulo da Viagem á Suissa do seu amigo o Barão de Fernay. apenas o recordei. d’onde mortiçamente surgiam aqui e além luzinhas remotas e vagas.Foi hontem. declarou que positivamente nas nossas bagagens não havia nem couro nem saco. todos fazemos parte do Estado. mesmo em Tunis. pipos. fóra.e symbolisavam d’um modo bem humilhante essas escassas e desmaiadas parcellas de verdade positiva que ao homem é dado descobrir no universal mysterio do Sêr. exigente madrinha!) um penteador sujo. omnibus. diante d’uma arca de pinho. &#8213. Por fim sacudiu os hombros. com a guia na mão. Passados instantes voltou. esquadrinhando zelosamente caixotes. revelou aos meus olhos que observavam (em seu serviço. que alli vadiava. a dama e eu marchando desencontradamente e rapidamente para aquecer ao comprido do balcão de madeira.

Debalde! Não foi mais resistente ao bello cavalleiro Percival o portão de ouro do palacio da Ventura! Finalmente o cocheiro atirou-se a ella aos couces. sacudindo a chuva. são tres mil reis? Á luz do vestibulo.Então.quero dizer a sege salvadora. Graças te sejam. por uma corrida. viesse a cruzar por aquellas paragens. seguindo estes lances. Nada.. todas as malas rolaram em catadupa sobre o calhambeque. Restava pagar o batedor. Vim para elle com acerba ironia: &#8213.. enfiei para a tipoia&#8213. sob a chuvinha impertinente. Espera amarga. Eu não chorei&#8213. a trilhar á pata a distancia que vai de Santa Apolonia ao Hotel de Braganza! Poucos passos adiante. Fradique. que me batia a face. lá continuamos. o capataz declarou que «iam dar tres horas. Este era o luxo. depois de todo o penoso trabalho das Sciencias e das Revoluções para igualisarem e embaratecerem os confortos sociaes. o carregador voltou. de cabeça baixa. a não ser que por acaso alguma caleche. Com effeito este parecia ser o unico recurso aos nossos males. n’uma fileira soturna. Commovido. E que ha de elle responder. affirmando que não havia uma tipoia em todo o bairro de Santa Apolonia. gemidos. n’um galope desesperado. mas submisso como quem cede á exigencia d’um trabuco. Essa separação porém não convinha ao meu conforto.e de mim. Partimos emfim. E.60 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós é a esperança n’aquelles a quem a sorte se tem mostrado amoravel) eu e o Smith ainda uma vez sahimos ao largo. que... e eis. o dorso esmagado sob dezenas de kilos. o homem sorria. Lá para o snr. e marchassemos com ella para o Hotel. suando. ao cabo de tão barbara jornada. dezoito francos! Dezoito francos em metal. nenhum rumor de rodas. Tres gritos. espera esteril! Nenhuma luz de lanterna. E todos tres.. no meio dos tapetes e estuques do Progresso.61 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós . á uma.e declarou que ao Hotel de Braganza (uma distancia pouco maior que toda a Avenida dos Campos Elyseos) não me podia levar por menos de tres mil reis. como o estojo de viagem me derreava o braço. punhadas.atirassemos a bagagem para as costas. camarada fiel da nossa trabalhosa noite. Mas serenou. [169] este o repouso! Alli. com uma carruagem certa (contratada talvez por escriptura). e elle queria fechar a estação!» E eu? Ia eu ficar alli na rua. Agarrei o estojo de viagem e o rolo de mantas: Smith deitou aos seus respeitaveis hombros. n’esta Idade democratica e industrial.Mas que hei de eu fazer? Hei de ficar aqui? O capataz aconselhou-me que deixasse a bagagem. no espirito do Estrangeiro. uma positiva caleche. A minha querida madrinha. offegando. uma grossa maleta de couro: o carregador gemeu sob a enorme mala de cantoeiras d’aço.. o malandro sem par? &#8213.depois de me ter despedido com grande affecto do carregador. cortaram a mudez d’aquelles ermos. á maneira de naufragos n’uma ilha deserta do Pacifico. D’ahi a momentos estavamos assaltando a porta adormecida do Hotel de Braganza com repiques. atirei-o para as costas. Então.. tomado d’assalto e de assombro.Aquillo era por dizer. avançando para dentro da capital d’estes reinos! Eu viera a Lisboa com um fim de repouso e de luxo. Tremulo de colera. á redea. sob a noite agreste. Não sei quantas eternidades gastamos n’esta via dolorosa. esperando através da treva a vela&#8213. aos pés do cocheiro. a escutar anciosamente se ao longe. pae ineffavel! Estamos emfim sob um tecto. ergueu o chicote.desordem.mas tinha vergonha. com um intenso azedume a estragar-nos o figado. E (deixando ainda dois volumes para ser recolhidos de dia). [170] clamores. amarrado. inteiramente farto. sombrios e em fila. ajudados por um carregador&#8213. injurias. estacaram a parelha. Sei que de repente (como se a trouxesse. &#8213. a viesse recolher [167] «muito a meu contento». lenta e estremunhada.. a porta. o homem lembrou outra solução. não sentiriamos rolar para nós o calhambeque da [168] Providencia. o anjo da nossa guarda) uma caleche.. virgens de cargas. Finalmente. Assim se arrastou um d’estes quartos d’hora que fazem rugas na face humana. Depois para se consolar puxou com delicia o lume ao cigarro. seu amo. á decisão do desespero. Farto. tropeçando no lagedo mal junto d’uma rua tenebrosa. E era que nós. Eu não tinha conhecido o snr. meu Deus. suspirando. sofregos e desesperados. prata ou ouro. Pois n’esse caso elle não via solução. eu e o Smith. na sombra avara!. praguejando com furor. comprehendendo a sua espantosa omnipotencia&#8213. desoladamente nada. cocegas. rolou nos seus gonzos. todos nos apinhamos á porta da estação. D. começamos. .. devagar. a trabalhar de carrejão!. mudos. e elle queria fechar a estação! Que fazer? Abandonamo-nos. deve ter já lagrimas a bailar nas suas compassivas pestanas. desacreditada toda uma civilisação secular! No emtanto o capataz fervia. rompeu a passo do negrume d’uma viella. Uma simples tipoia que falta de noite. decerto por comprehender melhor esta linguagem. Eram tres horas (mesmo tres e um quarto). a um montão de bagagens intransportavel? Não! nas entranhas do digno capataz decerto havia melhor misericordia. D. e na manhã seguinte. E. Todavia (tanto costas amollecidas por longos e deleitosos annos de civilisação repugnam a carregar fardos. com o ouvido inclinado ao lagedo. uma immensa e pungente vergonha do Smith! Que pensaria aquelle escocez da minha patria&#8213. tresnoitada e trasmalhada. parcella d’essa patria desorganisada? Nada mais fragil que a reputação das nações. Fradique é o que quizer. todas as violencias e todas as seducções. Sim. minha madrinha. sondando a escuridão. muito ao longe. e tão tenaz .

n’um silencio condignamente magestoso. O sacerdote immediatamente estacou com deferencia. com respeito.mas o seu talento inspirava tanto mais respeito quanto mais invisivel e inaccessivel se conservava lá dentro. e seguia. sempre para cima.trazido por um governo (não recordo qual) que conseguira. Conselheiro d’Estado. O unico recurso que restou então aos devotos d’esse immenso talento (que já os tinha. como n’um resumo. na ponta d’uma bancada. ou que fundações. que.que. visivel! O talento immenso de Pacheco ficou sempre calado. os braços cruzados sobre o collete de velludo. E deseja ainda o meu amigo saber que obras. na aula de direito natural. n’este paiz que. expressa. sempre para mais alto. Eu casualmente conheci Pacheco. aquelle que de longe de si sempre péna&#8213. a veridica maneira [171] por que se entra. e os oculos a faiscar. para que. Este talento nasceu em Coimbra. na grande cidade de Portugal. das multidões impressionaveis ás classes raciocinadoras. desdenhando a Sebenta. Tenho presente.«que ao lado da liberdade devia sempre coexistir a autoridade!» Era pouco. a carta em que o meu douto amigo. todo um formidavel mundo. Pacheco teve um movimento como para atalhar um padre zarolho que arengava sobre a «liberdade». uma manifestação positiva. &#8213. a fronte vergada para o lado como sob o peso das riquezas interiores. havia um mundo. este sorrir. Todo seu. de idéas solidas. Governador de bancos. ao voltar de Fontainebleau. No emtanto Pacheco não prodigalisou desde logo os seus thesouros. por proveito seu ou urgencia do Estado. Logo na estrellada noite de dezembro em que elle. ou que accrescimo na civilisacão portugueza deixou esse Pacheco. Fradique. bastavam ao paiz que n’elles sentia e saboreava a resplandecente evidencia do talento de Pacheco. meu caro snr. Presidente do conselho&#8213. este talento. n’estas situações. nem uma idéa.«É o Pacheco. sob aquelle curto resumo. em lojas palreiras de barbeiros do Algarve.. incontaveis) foi contemplar a testa de Pacheco&#8213. com o seu immenso talento aferrolhado dentro do craneo como no cofre d’um avaro. cuja morte está sendo tão vasta e amargamente carpida nos jornaes de Portugal. De pé. aquelle immenso talento que lá dentro o suffocava. apoderar-se do precioso talento de Pacheco. todos os olhares. no rico e povoado fundo do seu sêr. Veio ao seu seio&#8213. em nome e no interesse da Revista de Biographia e de Historia. os do governo e os da opposição. austero . da sua [172] força. VIII ao snr. decerto:&#8213. os tachygraphos apuraram vorazmente a orelha: e toda a camara cessou o seu desafogado susurro. Sim. communicando-se. através das instituições. já d’oculos. tudo teve. ou que idéas. se começaram a voltar com insistencia. para seu ensino. se dizia. na manhã em que Pacheco.como se olha para o céo pela certeza . os corpos collectivos. D.Encontrei hontem á noite. com esperança:&#8213. nos cafés da Feira. minha cara madrinha. me pergunta quem é este meu compatriota Pacheco (José Joaquim Alves Pacheco).Pacheco sorria. de longe e a seus pés. Quando os amigos. no fundo. com dispendios e manhas. O curso [173] começou logo a presentir e a affirmar. conservava a sua attitude de pensador recluso. a relassa fraqueza que nos enlaça a todos nós portuguezes. Pacheco não deu ao seu paiz nem uma obra. nem um livro. Pacheco era entre nós superior e illustre unicamente porque tinha um immenso talento. reverentes lagrimas. Todavia.Fradique. nos enche de culpada indulgencia uns para os outros. murmurando em redor de Pacheco « que immenso talento! » o convidavam a alargar o seu dominio e a sua fortuna&#8213. com o dedo espetado (geito que foi sempre muito seu). ao dispersar. as repartições. os partidos. a sua figura e a sua vida. assombrado do seu immenso talento. rapaz de immenso talento!» E desde que as Camaras se constituiram. o Pacheco!» Pacheco estava maduro para a representação nacional. na discussão da resposta ao discurso da Corôa. nunca deu. nas profundidades de Pacheco! Constantemente elle atravessou a vida por sobre eminencias sociaes: Deputado.«Parece que ha agora ahi um rapaz de immenso talento que se formou. Tinha um sorriso brejeiro e serviçal. os jornaes. e. como todos os movimentos religiosos. em Lisboa. levou pelo paiz. [174] para Pacheco. Pacheco teve necessidade de deixar sahir. quasi com anciedade. para se affirmar e operar fóra. este lampejar dos oculos. Aquelle bandido conhecia o snr.. Ministro. Finalmente uma tarde. Ambos eramos portuguezes.mas a camara comprehendeu bem que. mollinet Director da Revista de Biographia e de Historia Paris. Não volveu a fallar durante mezes&#8213..62 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós nos seus passos.Eça de Queirós Humilhação incomparavel! Senti logo não sei que torpe enternecimento que me amollecia o coração. Director geral. Pacheco affirmou n’um tom que trahia a segurança do pensar e do saber intimo:&#8213. Dei uma libra áquelle bandido! E aqui está.Pacheco tudo foi. setembro. assegurou «que o seculo XIX era um seculo de progresso e de luz». e irremediavelmente estraga entre nós toda a Disciplina e toda a Ordem. o contemplava. Mas nunca. percebia alli um grande espirito que se concentra e se retesa todo em força intima. no ultimo quartel do seculo XIX. a massa compacta da nação. seguido ao tumulo por tão sonoras. com curiosidade:&#8213. com praxistas gordos debaixo do braço.. vendo Pacheco sempre pensabundo. nem uma fundação. baixando os olhos serios por traz dos oculos dourados. E já em escuras boticas de Traz-os-Montes. a noticia do immenso talento de Pacheco. ou que livros. levou facilmente Pacheco a um premio no fim do anno. até os mais sertanejos burgos. que havia muito talento em Pacheco: e esta admiração cada dia crescente do curso. se podesse pela vez primeira produzir o immenso talento de Pacheco. Mollinet. A fama d’esse talento alastrou então por toda a academia&#8213. Meu caro snr. se susurrou pelas mesas. E esta reserva. dos rapazes aos lentes. Par. que duas gerações tão soberbamente acclamaram. foi ao Martinho tomar chá e torradas. Era a bonacheirice. Esta geração academica. Mollinet. recolhido.

A testa cada vez se lhe tornava mais vasta. Pacheco começou a ser um Director universal de Companhias e de Bancos.«Nem é necessário mais! Basta vêr aquella testa!» Pacheco pertenceu logo ás principaes commissões parlamentares. a admiração pelo seu immenso talento chegou a tomar no paiz certas fórmas d’expressão só proprias da religião e do amor.a . nas camaras. reviravam o branco do olho ao céo. encontrará o cunho de Pacheco. n’esse esplendido momento. para murmurar piamente:&#8213. s. ahi n’essas bancadas. um terror disciplinar! Ai d’esse sobre quem viesse a desabar com colera aquelle talento immenso! Certa lhe seria a humilhação irresgatavel! Assim dolorosissimamente o experimentou o pedagogista. penetrou no Conselho de Estado. o seu talento era immenso! Mas immenso se mostrou o reconhecimento da sua patria! Pacheco e Portugal.a pensava de Canovas del Castillo. a quem aquelle immenso talento amargamente irritava. larga e lustrosa.e esta nota. Em todas as instituições. havia devotos que espalmavam a mão no peito com uncção. appeteceu conhecer o que s. Silenciosamente.e immediatamente se percebeu que massiça consolidação viera dar ao Poder o immenso talento de Pacheco. nas commissões. Pacheco descerrava o braço. Mollinet percorra os nossos annaes. todas o appeteceram. dispondo. fundações.[175] que Deus está por traz. Cubiçado pela Corôa. Portugal todo. Vendo que inabalavel apoio esse immenso talento dava ás instituições que servia.Eu estava lá. desdenhoso das especialidades. espetando o dedo. como insinuaram tres ou quatro espiritos amargos e estreitamente positivos.Pacheco não teria sido o que foi entre os homens: mas sem Pacheco&#8213. Pacheco mesmo. aqui n’esta cadeira. A esses ouvi eu bradar com furor. como um [178] excessivo e desproporcional privilegio. Ministro do Reino (Pacheco dirigia então o Reino) de descurar a Instrucção do paiz! Nenhuma incriminação podia ser mais sensivel áquelle immenso espirito que. com a mão gorda. e Directores geraes balbuciavam maravilhados:&#8213. Decerto. lá em cima. Todo elle era testa. junto d’elle. Sorria apenas. sobre questões d’Instrucção Publica. e ajustadissimamente se completavam. E quando emergia da sua concentração. o Progresso. Perdera o cabello radicalmente. em silencio.«Que talento!» E havia amorosos que. de resto. E muitas vezes. Nas cadeiras do governo. Quando elle foi Presidente do Conselho. de resto. Havia aqui a evidente attitude d’um immenso talento que (como segredavam os seus amigos.«Ao illustre deputado que me censura só tenho a dizer que emquanto. Ás vezes porém. a nação deixou de curtir [176] inquietações e duvidas sobre o nosso Imperio Colonial. nos centros. dentro d’este regimen. faz berreiro. exc. Conselheiros.mesmo nas minimas coisas. O seu partido reclamou avidamente que Pacheco fosse seu Chefe. obras. Apenas ás vezes. Na sua pasta (que era a da Marinha) Pacheco não fez durante os longos mezes de gerencia «absolutamente nada». e crescia em influencia e dignidades.63 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós immenso de Pacheco. quando a opposição se tornava clamorosa. Não relembrarei a sua incomparavel carreira. que é ter talento de mais!» Pacheco no emtanto já não fallava. Este immenso talento não podia deixar de soccorrer os conselhos da Corôa. na sua phrase lapidaria e succulenta. Á maneira que elle assim envelhecia. piscando o olho com finura) «está á espera. n’uma assembléa humana. Basta que o meu caro snr. uma tão apaixonada e fervente rajada de acclamações! Creio que foi d’ahi a dias que Pacheco recebeu a grã-cruz da Ordem de S. na sala da Condessa de Arrôdes. tomava com lentidão uma nota a lapis:&#8213. E mais que nunca revelava o seu immenso talento&#8213. ensinára que «um povo sem o curso dos lyceus é um povo incompleto». para que o esconder? Outros havia. tomava uma nota lenta. o Fomento. O immenso talento de Pacheco pouco a pouco se tornava um credo nacional. teve tudo. Mas os outros partidos cada dia se soccorriam com submissa reverencia do seu immenso talento. bastava para perturbar. faço [177] luz!»&#8213. Espetando o dedo (geito sempre tão seu) Pacheco esborrachou o homem temerario com esta coisa tremenda:&#8213. o voar superior d’uma aza por sobre arvoredo copado) que o «talento verdadeiro só devia conhecer as coisas pela rama».«Ai! que talento!» E. a pairar». com fervor. reformas. era para lançar alguma idéa geral sobre a Ordem. É que o immenso talento de Pacheco terminára por inspirar. necessitavam insubstituivelmente um do outro. Muito bem me lembro da noite (sendo elle Presidente do Conselho) em que. cerrando os olhos e repenicando um beijo nas pontas apinhadas dos dedos. balbuciavam com langor:&#8213. A testa de Pacheco offerecia uma superficie escanteada. ao talento . está repleto de Pacheco. Mas pela primeira vez. . acuar a opposição. ensinava (esboçando. Thiago.«Irra. alguem. Nunca porém accedeu a relatar um projecto. a Economia. E não me recordo de ter jámais ouvido. Pacheco rarissimamente surdia do seu silencio repleto e fecundo. eu. exc. atirando patadas ao chão:&#8213. n’uma recomposição ministerial (provocada por uma roubalheira) foi Ministro:&#8213.Portugal não seria o que é entre as nações! A sua velhice offereceu um caracter augusto. traçada com saber e madurissimo pensar. que um dia se arrojou a accusar o snr. na galeria. Em Pacheco pouco a pouco se concentrava a nação. Porquê? Porque sentia que finalmente os interesses supremos d’esse Imperio estavam confiados a um immeaso talento. magistralmente. Pacheco. Foi tudo. moral e socialmente. Sem Portugal&#8213.

Mas não era. a sua incansavel aspiração para um viver de verdade e de belleza: cada graça de seus movimentos me trahiu uma delicadeza do seu gosto: e nos seus olhos differencei o que n’elles tão adoravelmente se confunde. Era sómente uma rara tela. de dolente e de meigo que brilhava através e vinha da alma. alludi ao immenso talento de Pacheco. assim visivel e quasi tangivel.«mediocre. Foi ahi que a vi. ao principio. a perda irreparavel que era sua e da patria. pousando os pinceis ao fim do dia. interpretei-o d’este modo:&#8213. Já a certeza de tantas perfeições bastaria a fazer dobrar. o vestido preto com relevos côr de botão d’ouro. entre os molhos de orchideas. punham nos seus cabellos aquelle nimbo d’ouro que tão justamente lhe pertence como «rainha de graça entre as mulheres». Toda a nação o chorou com infinita dôr. que me prendia pelo esplendor patente e comprehensivel. E foi em torno um murmurio d’admiração. ao passo que a comprehendia e que a sua Essencia se me manifestava. e que me dominava com transcendente omnipotencia. a meditar em silencio a sua belleza.uma influencia estranha.Não. no mundo todo não reconheci mais que uma apparencia inconstante. tudo o que não foi esta contemplação perdeu para mim valor e encanto. Minha adorada amiga. de leve. . tão clara e lisa. encontrei a sua viuva. depois de muito esgravatar. em Cintra. Jaz no alto de S. commovido. triste. sem esquecer um fio dos seus cabellos ou uma [181] ondulação da sêda que a cobria. meramente um Quadro. conversando com Madame de Jouarre. de joelhos e hirto no seu sonho. perdido na admiração da Imagem que lá rebrilhava&#8213. onde por suggestão do snr. Mas succedeu ainda que. Mezes depois da morte de Pacheco. como um artista que n’algum escuro armazem.. Eterno desaccordo dos destinos humanos! Aquella mediana senhora nunca comprehendera aquelle immenso talento! Creia-me. com fervor. Mas quando. conselheiro Accacio (em carta ao Diario de Noticias) foi esculpida uma figura de Portugal chorando o Genio. Como . Videira.na sala da Condessa de Arrôdes. Passei. differente de todas as influencias humanas. um pallido e passivo extasi diante da sua Imagem. É uma mulher (asseguram amigos meus) de excellente intelligencia e bondade. que eu a cada dôce momento olhava&#8213. facilmente me revelou o seu desdem do mundanal e do ephemero. de espiritual. como um Fra Angelico. Cumprindo um dever de portuguez. alguem. no baile dos Tressans. posta em sacrario.e só quando sentia a fadiga das coisas imperfeitas ou o desejo novo d’uma . meu caro snr. Pouco a pouco. com que eu procurava conhecer através da Fórma a Essencia. magistralmente. Ia ser justamente creado marquez de Pacheco. calor de coração.&#8213. descobrisse a Obra sublime d’um Mestre perfeito. e (pois que a Belleza é o esplendor da Verdade) deduzir das perfeições do seu Corpo as superioridades da sua Alma. com crescente surpreza. sem soffrimento. diante d’uma console. seu dedicado&#8213. o seu sorrir cançado. os olhos que conservára baixos&#8213.. Foi no inverno. junho. os encantos diversos de Linha e de Côr. o snr. mas logo tudo em redor me pareceu irreparavelmente enfadonho e feio. s. o leque antigo que tinha fechado no regaço. Mollinet como aquelle talento. s.. E.era ao mesmo tempo tão fino! Rebentou.quero dizer. [180] IX A CLARA.a deu com a mão grave. E foi assim que lentamente surprehendi o segredo da sua natureza. meiaaltura. E tão intensamente me embebi n’essa contemplação. sob um mausoleu. note o meu caro snr. porém. Canovas!» Porque. cujas luzes.) Paris. (Trad. immovel e muda no seu brilho. no começo d’este duro inverno. exc. a sua clara testa que o cabello descobre.. entre poeira e cacos.64 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós N’aquelle gesto quantas [179] coisas subtis. attento ás curiosidades que até ahi o seduziam. exc.e um fugidio.. em março. regressava á Imagem que em mim guardava.a morreu. e ajoelhando ante a Madona a implorar d’ella repouso e inspiração superior. luz de razão. appeteceu conhecer o que s. uma influencia descia d’ella sobre mim&#8213. porque o não confessarei? Essa imagem foi para mim. calor que melhor alumia. n’uma adoração perpetua. um corte horisontal no ar. e fui [182] como um monge na sua cella. João. diante da illustre e affavel senhora. que eu tive comsigo o meu primeiro encontro. lento e maravilhado. alheio ás coisas mais reaes. O meu sêr continuava livre. minha adorada amiga. lamentei. aberto aos sentimentos que até ahi o solicitavam. alvoroçado.mas para lhe louvar apenas. Silenciosamente. que é para elle a unica realidade. Mollinet. exc. e ainda por não sei quê de fino. pendurado no fundo da minha alma. decorada e inteira. logo me contou a rectidão do seu pensar: o seu sorriso.até que só essa occupação me pareceu digna da vida. no seu claustro. quasi apiedado sorriso arregaçou-lhe os cantos da bôca pallida. Comecei a viver cada dia mais retirado no fundo da minha alma.a pensava de Canovas del Castillo. e voltei a readmirar. sendo tão vasto&#8213.Fradique. luz que melhor aquece. minha adorada amiga. não foi na Exposição dos Aguarellistas. que levei commigo a sua imagem. fundamente pensadas! Eu por mim. bem religiosamente. d’uma nobreza tão intellectual. &#8213. Não! era antes um ancioso e forte estudo d’ella. a viuva de Pacheco ergueu n’um brusco espanto. sem outra influencia mais sobre mim que a d’uma fórma muito bella que captiva um gosto muito educado. quasi repentinamente. Lembro ainda. os joelhos mais rebeldes..65 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós occupação mais pura. na casa do dr. por mandado dos Fados.&#8213. sorrindo apenas. e corri a encerrar-me com ella.

a um espiritualista&#8213. (E tudo isto por tres mil reis de soldada). esfrega e arruma todo o andar.e eu trepo com gosto duas ou tres vezes por semana á sua officina de Metaphysica a saber se.. X a madame de jouarre ( Trad.como outr’ora a Virgem Maria quando animava os seus adoradores. conduzido pela alma dôce de Maine de Biran. feito pelos veneraveis preceitos das Georgicas. desde maio.. emprehendedor e destro. &#8213. mas quasi o seu isolamento: e se a minha querida amiga surgisse. e que os oitocentos mil reis de um olival bastam. é obra d’essa educação que a sua alma dá á minha. mas um sorriso. que é tido pelos portuguezes em grande veneração). sem esforço. engomma as saias da Madama. Descobri um patricio meu. ámanhã. que se chama Procopio. [187] varre.. sem saber.. Assim um arbusto silvestre floresce á borda d’um fôsso.. que não o vê. reza o terço da sua aldeia. comecei a aspirar á santidade.66 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós meu aperfeiçoamento. na formosissima Lisboa. Minha excellente madrinha. na travessa da Palha. o seu admiravel afilhado. na esbatida humildade d’uma adoração que até receia que o seu murmurio. escarolla as louças. Esta casa de hospedes offerece encantos. n’um dia de solidão. e eu recebesse de si. ) Lisboa. disfarçada por traz dos seus derradeiros véos. Só desejo que me deixe viver sob essa influencia. a sua Graça&#8213.bastou que eu a avistasse de longe. E tem sido em mim agora um arquejante esforço para subir a uma perfeição identica áquella que em si tão submissamente adoro. desabrochar. e semelhante decerto ao vinho da Rethia&#8213. me permittisse desenrolar junto de si. arrastando os seus chinelos com a indolencia grave d’uma nympha latina. vinhinho leve e precoce. conversa sem berrar.Eis o que tem «visto e feito». que já não posso conceber os movimentos do meu sêr senão governados por ella e por ella ennobrecidos. Quasi todas as profissões em que se occupa a classe-média em Portugal estão aqui representadas com fidelidade. se no meu gosto não haveria desconcertos que podessem ferir a disciplina do seu gosto. as idéas e os sentimentos que no nosso Anno da Graça formam o fundo moral da nação. um murmurio de prece. que está decidido a casar com ella quando fôr empregado na Alfandega. descendo n’uma nuvem e concedendo-lhes um sorriso fugitivo. E considere ainda que. elle já entreviu emfim. E os quatro paineis que ornam a sala. se a minha idéa da vida era tão alta e séria como aquella que eu presentira na espiritualidade do seu olhar. porque lá em cima nos remotos céos fulge um grande sol. Só peço esta permissão caridosa.lhe poderei dizer? Monge. que vive ha tres annos construindo um Systema de Philosophia no terceiro andar d’uma casa de hospedes. só com existir e ser comprehendida. decerto faria um acto de ineffavel misericordia&#8213. sãos e fartos. pouco a pouco. resplandecendo. junho. de longe. a doze tostões por dia. Veja pois como se me tornou necessaria e preciosa. rosinhas e aves pela parede. Se hoje me abandonasse a sua influencia&#8213. E tão dependente fiquei logo d’esta direcção. De sorte que a minha querida amiga. Ulyssipo pulcherrima. que. a agitada confidencia do meu peito. a Causa das Causas. de ovos e bifes. nada lhe rogo. fóra vinho e roupa lavada. tão facil e dôcemente opéra o . e tem ainda vagares para amar desesperadamente um barbeiro visinho. das Ilhas.votou a sua vida á Logica e só se interessa e soffre pela Verdade. um leito de ferro philosophico e virginal. como um asceta. e . [184] as suas mãos não tiveram de se impôr sobre as minhas&#8213. para exercer esta supremacia salvadora. ficaria então radiosamente seguro de que este meu amor. Rethica? A torrada. ermitas e santos. e dar o seu curto aroma. emanando do simples brilho das suas perfeições. se tivesse consciencia. um retrato de Fontes (estadista. não direi uma rosa.. serve nove almoços.67 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós dois pratos. e se o meu coração não se dispersára e enfraquecera de mais para poder palpitar com parallelo vigor junto do seu coração. N’estas piedosas visitas vou. certa do meu renunciamento a toda a recompensa terrestre.&#8213. se tornou a minha educadora. quo te carmine dicam. conhecendo alguns dos hospedes que n’esse terceiro andar da travessa da Palha gozam uma boa vida de cidade. roce o vestido da imagem divina.&#8213. Investiguei com inquietação se o meu pensar era condigno da pureza do seu pensar. do seu sorrir. vou passar a tarde com Madame de Jouarre. não o conhece.e é mantido em rigido asseio por uma d’estas creadas como só produz Portugal. bella moça de Traz-os-Montes. paladino das Idéas Geraes. E considere que. idéa ou sentimento. nove jantares e nove chás. e de sobra. para me harmonisar e merecer a convivencia com a Santa a que me votára.Fradique. já morto. Veja pois quanto me conservo distante e vago. ou deixando-lhes cahir entre as mãos erguidas [185] uma rosa do Paraiso. sentiria pela Luz. nenhum bem imploro de quem tanto póde e é para mim dona de todo o bem. cassa vistosa nas janellas. encontra ante seus olhos piedade e permissão para esperar. É um philosopho alegre. uma imagem de Pio IX sorrindo e abençoando. tem uma aguardente de muscatel excellente. [183] fechado na minha cella. O vinho vem do lavrador. ou este meu sentimento indescripto e sem nome que vai além do amor. que. n’uma festa. e meu parente. é incomparavel.&#8213. Assim.todo eu rolaria para uma inferioridade sem remissão. Fiz então sobre mim um aspero exame de consciencia. em pleno resplendor. tratada pelo lume forte. e eu posso assim estudar.devia antes dizer. Por isso o meu amor attinge esse sentimento indescripto e sem nome que a Planta. Não ha ahi a santidade d’uma cella ou d’uma ermida. o meu parente. Mas se a minha querida amiga por acaso. Ao almoço ha . que é o seu cicerone nas viagens do Infinito. como n’um indice. uma vista da varzea de Collares. e magnanimamente o faz crescer. [186] considerando que a mulher não vale o tormento que espalha. Perfeitamente sei que tudo o que hoje surge em mim de algum valor. Espirito livre. prega esses botões de calças e de ceroulas que os portuguezes estão constantemente a perder. O quarto do meu primo Procopio tem uma esteira nova. necessitando de si como da luz.

Paulina junta um peculio prudente. graças ás aguas de Vidago. e cincoenta e seis latas de dôce de tijolo. e o Estado que lhe dá o seis por cento: portanto o universo todo está perfeito. e a vida perfeita. tomou o seu quarto n’esta casa de hospedes. Nada o inquieta. já morto. por ternura. pontualmente. junto do balcão. Mas D. Depois do café dá um «hygienico» pela Baixa. visita uma moça gorda e limpa que mora na rua da Magdalena. consta de duas unicas entidades&#8213. . traçando a perna) é ter padrinhos e apanhar um emprego. desde que Pinho. Paulina Soriana. paciente e maternal. conselheiro Vaz Netto. toda em tons de tijolo e de café. reservada. em suppôr que Pinho seja alheio a tudo quanto seja humano. e por causa do emprego. De resto. e um singelo orai por elle. &#8213. Segue então para a Avenida. e de Innocencia. verdadeiramente merecedores d’esse nobre nome. calça os chinelos de marroquim.68 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós do corretor Godinho. affecto. conselheiro Vaz Netto lembrou que.para Pinho só ha os prestamistas do Estado. Quinzinho tem pois a sua prosperidade agradavelmente [189] garantida. repetindo sempre a sopa. pacifica e risonhamente. de barba grisalha.e todos fieis. e muito justamente. despe e dobra a sobrecasaca. com placidez e firmeza. alonga os passos para a tabacaria Sousa. minha querida madrinha. sorri e diz. na rua. Chama-se Joaquim.a vê: era pelo gosto. É elle quem todas as manhãs annuncia a hora do almoço (o relogio do corredor ficou desarranjado desde o Natal) sahindo do seu quarto ás dez horas. de Ordem Social. sob as arvores. onde bebe um copo de agua de Caneças. quando me honrou com estas confidencias) gostava que o Quinzinho acabasse os estudos. Pinho pouco requer:&#8213. com os extras. visto elle se mostrar assim desmazelado. com pouco gosto pelas letras. O Diario de Pernambuco. com as mãos cabelludas encostadas ao cabo do guarda-sol. o trabalho é pouco e o ordenadosinho está certo ao fim do mez. Cada semestre recebe o juro das suas inscripcões. tornou-se no decurso da sua vida excessivamente restricta. mas risonhas. O mais antigo.apenas uma pedra lisa e decente. com a face erguida e dilatada em bem-estar. com o seis por cento das suas inscripções. o snr. E emquanto ao destino ulterior da sua alma. e aqui engorda. e vindo occupar á mesa. a pelle escura. alguma comedia do Gymnasio. satisfazem e de sobra [192] essas outras necessidades de intelligencia e de imaginação. passou cinco dias no Lazareto. como é para um commendador o seu mausoléo. Á mesa. o melhor era não teimar mais nos estudos e no Lyceu. que roe as unhas e segue o curso dos lyceus. Chegou uma tarde de inverno n’um paquete da Mala Real. enverga uma regalada quinzena de ganga. o mais respeitado (e aquelle que eu precisamente já conheço) é o Pinho&#8213. é em Pinho pouco exigente. uma senha para o Gymnasio. Não era pela necessidade. a cadeira de verga. com o seu nome. desdobrando o guardanapo&#8213. a gozar o ar puro e o luxo da cidade. que é tido pelos portuguezes em grande veneração). Pinho (como elle a mim proprio me assegurou)&#8213. com a sua garrafa d’agua de Vidago. e que não se produzam nos principios e nas ruas disturbios nocivos ao pagamento do coupon.O essencial para um rapaz (affirmava ha dias a apreciavel senhora. ou uma Magica. pouco lhe basta para contentar a porção d’Alma e Corpo de que apparentemente se compõe.Fontes (estadista. exc. já posta. ou dá a volta ao Rocio. como v. depois do almoço. Por meados d’outubro. com uma luneta d’ouro pendente d’uma fita de sêda. lustra o chapéo de sêda. Todas as sextas-feiras entra no seu banco. A patrôa. segundo affirmam os Naturalistas) tem de communicar com os seus semelhantes por meio de gestos ou sons. desembarcou com dois bahús. dobra a esquina da rua Nova da Trindade.Que ainda assim (ajuntou a boa senhora. onde passa duas horas pousado n’um môcho. Paulina á Burocracia que ella considera. o commendador Pinho.elle proprio. e em certos dias sobe o Chiado. corre os dedos pela barba e murmura&#8213. nem a terra de provincia em que nasceu. Não! Estou certo que Pinho respeita e ama a humanidade. comtanto que a policia mantenha a ordem. A necessidade que todo o sêr vivo (mesmo as ostras.tem um filho. parando a contemplar alguma senhora de sêdas mais tufadas ou alguma vittoria de librés mais lustrosas. de bom juizo e de boa economia. Ninguem sabe d’este Pinho nem a idade. nada o apaixona. a carreira mais segura e a mais facil. conserve appetite e saude.«só deseja depois de morto que o não enterrem vivo». ao Rocio. e dignos de que por elles se mostre reverencia. e se arrisque um passo que não cance muito&#8213. bem afreguezada. Depois de almoço calça as botas de cano. frescalhota e roliça. Com as coisas publicas está sempre agradado. e regateia. ao escriptorio terreo . D. e entrar immediatamente para a repartição. diante das vitrines de confeitaria e de modas. E esta honesta permutação de idéas lhe basta. é uma Madama de quarenta outonos. Parece uma excellente senhora. Pinho. Quinzinho.«temos comnosco o inverno»: se outro hospede discorda. que Humboldt encontrou mesmo entre os Botecudos. que elle. gastando. baixote. e repousa até que a tarde refresque. para o commendador Pinho. Homens. de Paz campestre. Depois entala o guarda-sol debaixo do braço. o Diario de Noticias.. ha agora sete hospedes&#8213. uma vista da varzea de Collares. com janella para a travessa.. uma cadeira especial de verga. Sómente a humanidade. marcada com lenço. a cada esquina. desemmaranha do cordão d’ouro do relogio [190] para lêr com interesse e lentidão os cartazes dos theatros. uma imagem de Pio IX sorrindo e abençoando. fica logo arrumado. de Fé. Pinho emmudece. mas ainda deserta. Pela influencia (que é toda-poderosa n’estes Reinos) d’um amigo certo. nem as origens da sua commenda. e pela rua do Ouro. Paulina está tranquilla com a carreira do Quinzinho. de quarenta e cinco a cincoenta mil reis por mez. Ás seis recolhe. Toda a sua existencia é assim um pautado repouso. á espera do Quinzinho. Mesmo ácerca d’um ponto tão importante. comtanto que lhe sirvam uma sopa succulenta. De resto supponho que D. inspiram as salutares idéas. e toda ella mais branca que o chambre branco que usa por sobre uma saia de sêda roxa. á noitinha. governe este ou governe aquelle. e está destinado por D. ha já no Ministerio das Obras Publicas ou da Justiça uma cadeira de amanuense. com um pescoço muito nedio.«temos o verão comnosco»: todos concordam e Pinho goza. Na casa. Nas funcções do sentimento Pinho só pretende modestamente (como revelou um dia ao meu primo) «não apanhar uma doença». tão necessarias. soffreu esta primavera não sei que duro mal que o forçava a infindaveis orchatas e semicupios. Aos domingos. homens serios.o Pinho brazileiro. porque teme controversias. e duas donzellas beijocando uma rôla. que é o London Brazilian. com uma pachorra saboreada. sempre vestido de casimira preta. O universo.fica consolado e disposto a dar graças a Deus. E mesmo como o Quinzinho foi reprovado nos ultimos exames. com almofadinha de vento. sentado n’um banco. já [188] gordo tambem. e que o Estado continue a pagar fielmente o coupon. Pelos meados d’abril. nem o trabalho que o occupou no Brazil. &#8213. n’um prato fundo. já o snr. para elle. com [191] recato. nem a familia. Sem ser rigorosamente viuva&#8213. Errariamos porém. A sua vida tem uma d’essas prudentes regularidades que tão admiravelmente concorrem para crear a ordem nos Estados. e vai muito devagar até á rua dos Capellistas. e. e janta. que elle possa encher duas vezes&#8213. com demoras pensativas. É um sujeito atochado. solidos. a sua cadeira.

Paulina.70 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Engenheiro na Palestina Paris. certamente! Até para manter em estabilidade e solidez a ordem d’uma nação. a sua conta do banco verificada ás sextas-feiras. por um tubo de couro. Meu caro Bertrand. ao Estado e a Pinho. XI a mr. tão amada do céo. hoje. as suas rigidas mãos de ferro fundido. queridos a Phebo. não hesitou. para Pinho. entre outros animaes. marcada por bandeirinhas.Francisco José Pinho. Ha n’elle toda a humana vontade de amar os homens seus semelhantes. que. sorris. sou eu que aportei ao Havre na minha Arca. abril. n’este Domingo de Paschoa em que os céos contentes. Assim gordo e quieto. segundo corre. levando commigo. todo engonçado. E o nosso amigo vai ser feito barão de S. Socialmente. o lapis ainda errante sobre o papel.Muito ironicamente.69 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós d’essa revelação. um Diogenes de rabôna preta. &#8213. Ora nada mais inoffensivo que um lobinho: e nos nossos tempos. e a ajudou a sahir do seu sepulchro. se revestiram paschalmente d’uma chasula d’ouro e d’azul. Pinho é um lobinho. se ergue entre esses laranjaes. Pára em . eu concluo que as intenções de Jehovah. Estamos em pleno versiculo [195] XVII. não me julgando menos digno da Graça e da Alliança divina do que Noé. oh filho dilecto e fatal da Escóla de Pontes e Calçadas! Nem necessitava esse plano com que me deslumbras. bertrand b. No caso d’estas aguas do céo não cessarem. Jorge. que Samsão. hirto contra as muralhas de Herodes. para com este paiz peccador. os seus prazeres colhidos em hygienico recato. o seu facil assentimento a todos os feitios da coisa publica. meu primo Procopio. com a sua placidez de habitos. fumegando e guinchando. e o chefe de bonet agaloado.. gabados pelo Evangelho. emplumado. mesmo sob o bruto pisar das hordas philistinas. os seus genuinos «semelhantes»? Os prestamistas do Estado. na antiquissima Jeppo. o guarda-sol pousado sobre uma pedra tumular de propheta. e de os beneficiar. Por isso o Estado. sem sopro de vento que os ondule. Bem o sinto. resuscitou Dorcas. todo aparafusado. e através das lunetas defumadas contemplas. chovendo em fios d’agua cerrados.e logo que soube que eu era um possuidor de inscripções. vou comprar madeira e betume.Fradique. O pae de Pinho chamava-se Francisco&#8213. Pois na primeira manhã que voltei. e o Estado tenha sempre Pinhos a quem peça dinheiro emprestado. que n’este paiz de sol sobre azul. contou-lhe ha tempos em confidencia. alli dorme o seu somno terrestre. rola descaradamente [197] pela planicie de Saaron. mas não o contrariando tambem. derrocou movendo os hombros. contando que findaste o traçado do Caminho de Ferro de Jaffa a Jerusalem ! E triumphas! Decerto. sêccamente retrahido dentro da pipa da sua inutilidade. continuos. . É o commendador Pinho um cidadão inutil? Não. todo te dilatas. parecendo golpes d’uma faca vil por cima d’uma carne nobre. que ainda couraçado. que o parasitam. são diluvianas. um seu semelhante. praticou logo o acto de beneficio. repousando sob o figueiral. e fazer uma Arca segundo os bons modelos hebraicos ou assyrios. do capitulo VII do Genesis. está chovendo. desarrolham as garrafas da cerveja festiva! E por traz de vós o Progresso. formando das nuvens ás ruas uma trama molle de humidade e tristeza. que desmanche a paz do Estado. É em Jaffa. com as botas fortes enterradas no pó de Josaphat.Assim. e mistura o pó do seu carvão de Cardiff ao vetusto pó do Templo de Baal. collado sobre o organismo social. arregalando os olhos. o infeccionam e o sobreexcitam. ligeiramente córado. a sua inercia. em que o Estado está cheio de elementos morbidos. Acto tocante.. Sómente quem são. Corre por sobre Lydda. e o guante sobre a espada. trazendo o seu dôce dentro d’um guardanapo. para que mais tarde. porque é n’elle simultaneamente prestada uma homenagem graciosa e discreta á Familia e á Religião. Pinho. deu de beber ao Menino. que eu possuia [193] muitos papeis! muitas apolices! muitas inscripções!. imperturbados. Corta através de Beth-Dagon. Francisco. todo em linhas escarlates. limpando o grosso suor da façanha. e Quinzinhos gordos com quem gaste o dinheiro que pediu a Pinho. á casa de hospedes. tendo baixado as aguas. tambem triumpha. Pedro. com estalidos asperos. Seu afilhado do coração&#8213. não se retrahiu mais ao seu dever humano. correndo aos brados das mulheres. esta inoffensibilidade de Pinho póde mesmo (em relação aos interesses da ordem) ser considerada como qualidade meritoria. e os lilazes novos perfumam o meu jardim para o santificar. esfregando. Pinho apresenta todos os caracteres d’uma excrescencia sebacea. Ora Pinho não se dá bem com o uso da goiabada&#8213. ruborisado e feliz. não ha mais prestadio cidadão do que este Pinho. á porta de Damasco. o Pinho e a D. na terra trigueira da oliveira e do louro. bem o comprehendo o teu escandaloso traçado. depois . affirmação [194] ou negação. e a carvoeira. a boa tecedeira. do Poço Santo d’onde a Virgem na fugida para o Egypto. Se por acaso d’aqui a tempos uma pomba branca fôr bater com as azas á sua vidraça. que a tua primeira Estação com os alpendres. D’um Pinho nunca póde sahir idéa ou acto.ª classe forrada de chita. não concorrendo para o seu movimento. D’ahi a locomotiva. Adeus. e a sineta. rolará da velha Jeppo para a velha Sião o negro comboio da tua negra obra! Em redor os empreiteiros. mudo e repassado de tristeza. minha querida madrinha! Vamos no nosso decimo oitavo dia de chuva! Desde o começo de junho e das rosas. o sugam. já heroica e santa antes do Diluvio. a «linha» onde em breve. me chega a tua horrenda [196] carta. e. nunca n’ella murchavam anemonas e rosas. E em que consiste para Pinho o acto de beneficio? Na cessão aos outros d’aquillo que a elle lhe é inutil. a sua reticencia. com uma malicia bem inesperada n’um espiritualista. e lá veio. offereceu-me uma boceta de dôce de tijolo embrulhada n’um guardanapo. quasi commovido. Toma agua. capitalista como elle. Não. o vai crear barão. E barão d’um titulo que os honra a ambos. e atrôa com guinchos o grande S. nem raio de luz que os diamantise. Portugal se repovoe com proveito. com a sua 1. onde a alma se debate e definha como uma borboleta presa nas teias d’uma aranha. e as balanças. que explica aquella alma! Pinho não é um egoista. onde S.

Destruir a influencia religiosa e poetica da Terra Santa.e ser-me-ia penoso ter de jornadear de Paris a Bordeus. decerto muito simples e muito humanas. padeceram. as mulheres. Um unico sitio na terra permanecia ainda com os aspectos. Ninguem mais do que eu.. na sua sociabilidade. e estaca emfim. os homens que deram ao mundo uma das suas mais altas transformações:&#8213. com largas argolas d’ouro e um aroma de sandalo. Paulo. aprecia e venera um caminho de ferro. porém. a configuração classica: e ninguem póde achar no Lacio o rio e o fresco valle que Virgilio habitou e tão virgilianamente cantou. só resta penhasco e ortiga. pela frescura da tarde. entre os homens sentados além. a florescencia miraculosa das roseiras de Saaron. Colleia e arqueja pelo valle melancolico que habitou Jeremias. desfeita em pó. no terminus de Jerusalem! Ora. na verdadeira. e a Athenas byzantina. o Menino bebendo. os costumes. n’aquella de que tu não és obreiro. na sua fórma rural. que profanação. e que ahi encontrassemos ainda nos seus trajes. considero [198] que a tua obra de civilisação é uma obra de profanação. devem entrar tanto os Contos de Fadas como os Problemas de Euclides. á sombra das arvores que os anjos iam adiante semeando. eu que não sou das Pontes e Calçadas. para sempre soterrada. perderam o seu heroismo de cidadellas. que a cada momento duvidamos se aquella ligeira e morena mulher. os costumes. esperança. por tunneis fumarentos.. repousando sob o figueiral. com que o tinham visto. Esse poder. Nada de Material devia pois desmanchar o seu recolhimento Espiritual. é preciosa para o intellectual. Jehovah só entre esses montes se . n’uma ponte de ferro. e a Athenas musulmana. não será ainda Rachel. e a Athenas barbara. nem accionista da Companhia dos Caminhos de Ferro da Palestina.72 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós o velho scenario da historia está assim esfrangalhado e em ruinas. pela necessidade que a alma tem do Divino. as servas moendo o grão. desde Jacob até S. os velhos sentados. N’elles viveram. do Poço Santo d’onde a Virgem na fugida para o Egypto. que é o districto de Liverpool ou o departamento de Marselha. a banalisam. Decerto seria igualmente interessante (mais interessante talvez) que se podesse colher a mesma emoção na Grecia. são por isso veneraveis. Infelizmente. locomotivas manobrando pela Judéa e Galiléa. Pára em Ramleh. abrigo consolador. que devastação bruta e barbara! E por [202] perder essa fórma sobrevivente das civilisações antigas. n’algum terraço de mercador levantino.71 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós mostrava. E é penoso que a fumaraça do Progresso suje um ar que conserva o perfume da passagem dos anjos. destroem irremediavelmente o poder emotivo da Terra-dos-Milagres. de que provinha? De ella se ter conservado. mesmo pelo lado da utilidade. Jesus desceu a esses valles pensativos para renovar o mundo. cantando. e de um modo tão presente e real. querido do seculo. ao que parece. como Jesus subia do valle de Jerichó para Jerusalem. Os logares onde se passaram essas historias. Rompe por entre ruinas que foram a cidadella e depois a sepultara dos Machabeus. Mas a vida intima. em Sião. quando invadem . que ergue o braço. Mas são fabulas que ha dois mil annos dão encanto. através d’estes quatro mil annos. e as danças lentas ao rufe-rufe das pandeiretas. se transformaram na tão linda mythologia christã.e esse sitio era um pedaço da Judéa. para passarmos. atirando. as maneiras. quinze minutos de demora! ). se assobie ao luar a valsa de Madame Angot. á porta das villas muradas. a aldeia dos dôces hortos e do homem dôce que enterrou o Senhor. que conduz um cordeiro preso pela ponta do manto. a grande Athenas de Pericles. decerto. o homem de longos cabellos nazarenos que nos saúda com a palavra de paz. um tapete ante o limiar da sua morada. que é a velha Arymathea ( Arymathea. e accusas precisamente a velha Palestina de ser uma incorrigivel fonte de Illusão. deu de beber ao Menino. e mesmo escandalosas.são fabulas. sordida de felugem. ou se. tanto nos corações simples como nas intelligencias cultas. os ceremoniaes. e. e de que tinham partilhado. é tão util como a certeza: e na formação de todo o espirito. a administração turca tem menos esplendor que a administração romana. suada. o vinho é raro. as collinas de Judá. no tempo em que visitava os homens. Decerto sobrevieram mudanças em Israel. e energia para viver a um terço da Humanidade. As tendas de pelle de cabra plantadas á sombra dos sycomoros. Os proprios montes perderam. porque o põe n’uma communhão flagrante com um dos mais maravilhosos momentos da Historia Humana.. esboroadas.&#8213. o thesouro do nosso saber e da nossa inspiração fica irreparavelmente diminuido. e se assim desapparecer para sempre a opportunidade educadora de vêr uma grande imagem do Passado. engenheiro! S. Bertrand amigo. com o seu cantaro no hombro. essa influencia espiritual da Palestina. o pastor apoiado á sua alta lança. e que tem por melhor esforço aperfeiçoar a Alma do que reforçar o Corpo. Galga. o escriba que passa. considera um Sentimento mais util do que uma Machina. Se elle fôr grosseiramente modernisado. sob a Athenas romana. no valle de Hennom. Ora. onde choraram os prophetas. á sombra da figueira e da vinha. com terrifico esplendor. veladas de amarello ou branco. apenas um peregrino saudoso d’esses logares adoraveis. bilhares e bicos de gaz. com o seu tinteiro dependurado da cinta. é um retrocesso na Civilisação. os utensilios. combateram. [201] Esta sensação. e que conversa comnosco por parabolas. immutavelmente biblica e evangelica.tudo permanece como nos tempos de Abrahão e nos tempos de Jesus. ensinaram. Fura.&#8213. e as carpideiras em torno aos sepulchros caiados. azeitada.. urbana [200] ou nomada. a caminho da fonte. Entrar na Palestina é penetrar n’uma Biblia viva. todos os sêres excepcionaes que hoje povoam o céo.tudo transporta o peregrino á velha Judéa das Escripturas. que depois. na fuga para o Egypto. e ainda as procissões nupciaes. aquelle de curta barba frisada. nivelado ao prototypo social. dos vergeis e jardins que cercavam Jerusalem.Toma agua. da Samaria e da Galiléa.&#8213. Tu sorris. e a Athenas constitucional e sordida. Bem sei. o montanhez atirando a funda ás aguias. e não duvido que aqui e além. Suja ainda Emmauz. seguido do seu rebanho. meu Bertrand. vara o Cedron. a torrente em que David errante escolhia pedras para a sua funda derrubadora de monstros. As coisas mais uteis. não será Jesus ensinando. e que os seus trilhos de ferro revolvam o sólo onde ainda não se apagaram as pégadas divinas. todo o saber se apagou. a hospedeira que nos acolhe. preciosa para o crente.. os trajes. Sempre a Palestina foi a residencia preferida da Divindade. essa Athenas incomparavel jaz morta. com a sua materialidade de carvão e ferro. Por toda a parte . meu bom Bertrand. para que elle [199] seja completo. Mas a illusão.. são importunas. omnibus. as cidades.&#8213. escarranchado n’um burro. porque a modernisam. nas suas maneiras. por um tubo de couro. os claros terraços cheios de pombas. Pedro resuscitando a velha Dorcas. a industrialisam. o seu desenvolvimento inevitavel de hoteis.

e o camello grave que carrega os fardos.que não sejam accionistas dos Caminhos de Ferro da Palestina!. que fazem o encanto da jornada. Bertrand. com que vai povoando estas cellas monasticas forradas de cretones claros.73 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Santo Sepulchro! Será este o teu feito&#8213. tem no topo outra cruz de pedra. Um caminho de ferro é obra louvavel entre Paris e Bordeus.a não ser o destro commis-voyageur que vai vender pelos Bazares chitas de Manchester ou pannos vermelhos de Sedan. se offerecesse ao homem do seculo XIX para o conduzir lentamente a Jerusalem e a Salomão&#8213. com uma careca de melão. Eram fidalgos que tomavam serviço na milicia do Senhor. infindavel em poesia e lenda. de boa agua. á Pia. sem soalheiras nem solavancos. [204] Por isso a tua obra maligna prosperará pela propria virtude da sua malignidade. A quinta foi sempre. dentro de poucos annos. Quando de Jerusalem se partir para a Galiléa n’um wagon estridente e cheio de pó. esse homem. lago caseiro orlado de bancos. e canta piedosamente as origens heroicas de Portugal emquanto amanha os seus campos e engorda os seus gados. Minha querida madrinha. tem oito filhos. através da Via Dolorosa illuminada pela electricidade. vinham preguiçar no verão.grosseiramente logares que lhes não são congeneres. como agora. requeimado dos soes. com todos estes emblemas sacros. O teu negro comboio rolará vazio. que é. Adeus. aos renunciamentos do mundo. Nos esteios de pedra que sustentam a vinha ha por vezes uma cruz gravada. e todos os fardos abarrotados de pedrarias e balsamos. entre aromas de roseira. como elles. e onde os conegos Regrantes de Santo Agostinho. XII a madame de jouarre Quinta de Refaldes (Minho). Bernardo tornára especialmente vistoso e macio. Se d’um lado.e do outro lado um comboio. e o lyrio de Salomão que se colhe nas fendas d’uma ruina sagrada. os ricos e nedios Cruzios.&#8213. e eu tivesse comido em vez da couve-flôr da horta a flôr do Lotus.e que. ou severamente nos arraste. Agora pertence a um amigo meu. onde o Padre Theotonio inteiramente o lavou da fetida crosta de Peccado Original.e o fim da lenda christã. e as frescas paragens junto aos poços biblicos. Toda a quinta. por aqui me quedei. o occidental positivo que de manhã partir da velha Jeppo. lhe promettesse a mesma jornada. brota dos pés de uma santa de pedra. e já perdera a alma. e jantar divertidamente em Ramleh no Grand-Hotel dos Machabeus&#8213. e o incenso sahisse dos cravos.74 - . e comprar na estação de Gaza a Gazeta Liberal do Sinai.Estou vivendo pinguemente em terras ecclesiasticas. agarraria a sua chapelleira e enfiaria sofregamente para o wagon. Mas socega. onde podesse descalçar as botas. ou o monogramma de Jesus. estendida ao sol como um ventre de Nimpha antiga..irá. pobre senhor de tres palmos que ainda não vivera da alma. nunca resistem ás tentações sensualistas do Progresso. [207] gozavam risonhamente os vagares. nada ha que nos môva. No meio do pateo. como Virgilio. &#8213. e os arautos coroados de anemonas. E desde então. dia de S. Rijo. silvando. na horta. como se Refaldes fosse a ilha dos Latophagios. em Jerusalem. e a tenda de lona que se planta á tarde entre os palmares. com os seus elephantes e onagros. Adiante ainda. bem arada e bem regada. todo enfeitado de laçarotes e rendas. que canta adormecidamente [206] cahindo de concha em concha. um famoso senhor de tres palmos. Bernardo. que desde a bolinha dos calcanhares até á moleirinha o cobria todo. outra santa franzina. de grossa fartura. E eu justamente voltei de Lisboa a estes milheiraes do [205] Norte para ser padrinho do derradeiro. com um adro assombreado por castanheiros. olvidado do mundo e de mim. d’estes prados.ª classe. hirta no seu nicho. Mais longe. desejaria que se installasse um restaurante com as suas mesas. de toda esta rural serenidade. com bilhete d’ida e volta. assim santificada por signos devotos. por mais descrente ou irreverente. e o ar profundamente sceptico e velho. sob um azul que S. e lyras. porque esta quinta foi de frades. e estandartes. a propria caravana da Rainha de Sabá. Historia e Arte. toda em campos de pão. e os pedaços de deserto onde se galopa com a alma cheia de liberdade. limpida e farta. por cada fenda borbulhasse um regato. prende por um claustro florido de hydrangeas e a uma egreja lisa e sem arte. ao repicar dos sinos claros. engenheiro e accionista! Os homens. Mas. como os seus irmãos mais velhos tomavam serviço na milicia d’El-rei&#8213. a relva cobrisse os soalhos. Os frades excellentes que n’ella habitaram amavam largamente a terra e a vida. ou um coração sagrado. a fonte.Fradique. á beira de uma agua clara. E são justamente essa tenda. E. lá o conduzimos. que por quelhas de granito vai luzindo e fugindo através do feijoal. viçoso. Que pura alegria essa para todos os entendimentos cultos&#8213. Uma cruz de pedra encima o portão. na doçura d’estes ares. os . e jasmineiro. sustentando nas mãos um vaso partido. e dormitar de ventre estendido. e que é talvez Santa Rita.. por mais eruditamente artista. e attrahem o homem de gosto que ama as emoções delicadas de Natureza. todo roscas e regueifas. lembra uma sacristia onde os tectos fossem de parra. côr de tijolo. á noite.nas naves de Norte-Dame ou na velha Sé de Coimbra... beber um bock e bater tres carambolas no Casino do . mesmo os que melhor servem o Ideal. como são sempre os do Minho. Entre Jerichó e Jerusalem basta a egua ligeira que se aluga por dois drachmas. monstro!&#8213. pensativo. a agua das regas. n’um vasto tanque. de portinholas abertas. a vinte kilometros por hora. No sabbado. preside. fecunda. onde pende ainda da corrente de ferro a vetusta e lenta sineta fradesca. grave. onde decerto os bons Cruzios se vinham embeber pelas tardes de frescura e repouso. á sahida de Jaffa. talvez ninguem emprehenda a peregrinação magnifica&#8213. por mais intellectual. o seu cheiro a guisados. O casarão conventual que habitamos. e onde se dorme tão santamente sob a paz radiante das estrellas da Syria. poeta e lavrador. que um musgo amarellento reveste de melancolia secular. o seu tinir de pratos. que me affaga e me adormece. e as rememorações do Passado á noite em [203] torno á fogueira do acampamento. Nada mais necessario na vida do que um restaurante: e todavia ninguem. os olhinhos luzindo entre rugas como vidrilhos. no seu wagon de 1. ao borbulhar de outra fonte. como uma nayade. e a escolta flammejante de beduinos.

n’esta morada de monges. o repouso acertado para quem emerge. pesado e risonho. geme pela sombra da azinhaga. com o seu espigueiro ao lado. arejada. onde S.. Quem nunca provou este arroz de caçoula. a moça vai mungir as vaccas. De sorte que não houve necessidade de alterar esta vivenda. pelas calmas de julho.e o trabalho principia. Verdadeiramente estas tardes santificam. Toca o sino a Ave-Marias. traçada para as occupações mais gratas. a hortaliça. nem as quebradas de serra e valle. S. já ha pyrilampos nas sebes. No piar velado e curto dos passaros ha um recolhimento e consciencia de ninho feliz. se come na verdade tão deliciosamente como n’estas rusticas quintas de Portugal. estas caseiras de aldeia. que é intelligente. bastante a fartar as panellas todas de uma aldeia. As cellas espaçosas. a fructa têm um sabor mais vivo e são. ondulando ricamente até ás collinas macias. limpa e alisada. deslisa com incomparavel doçura. como uma miseria esquecida:&#8213. As vozes vêm. em . altas e desgarradas. Adiante é a horta viçosa. em torno do pateo (onde a agua da fonte todavia corre dos pés da cruz) são solidas tulhas para o grão. pensamento que não podesse contar a um santo. mais enfeitada que um jardim.. Depois a eira de granito. E a quinta depois. onde alvejam as camisas de linho crú. que no tempo dos frades se chamava a comezaina. Petronilla. minha madrinha. nem as espessuras de bosque. com as suas latadas de sombra macia. Em todo o céo se apagou a refulgencia d’ouro. Ceres n’estes sitios bemditos permanece verdadeiramente. feito só da religiosidade natural que nos envolve. quando de religiosa passou a secular. nem os claros de pinheiral gemente. com rotulos e notas traçadas pela mão erudita dos Abbades&#8213. não foi differente da do velho convento.. Em todos os casaes se está murmurando o nome de Nosso Senhor. fofos eidos em que o gado medra. nem arranque. succulenta. offerece. o Deus que mais comeu. Francisco de Assis e S. esse transcendente guloso. estas cabidellas de frango coevas da Monarchia que enchem a alma. que não ha n’esta alma. a boiada volta dos pastos. Os arvoredos repousam n’uma immobilidade de contemplação. toda encrostada das lamas do mundo.&#8213. os olivaes. a sua harmonia se tornou perfeita. mantêm uma serenidade risonha na tarefa mais dura.e o vinho. de opulencia rural. com ruas que as tiras de morangal orlam e perfumam. sem regras e sem abbade. bem arejado. Uma poeira discreta velava a livraria. Bruno abominariam este retiro de frades e fugiriam d’elle. e recebem d’ellas. como no Lacio. e tão em harmonia com ella. A casa dentro offerece o mesmo bom conchego temporal. d’além. porque é todo feito a cantar. amorosamente. para além dos pinhaes e das collinas. Em fila. cançada e farta. tal como é. onde apenas por vezes algum conego rheumatisante e retido nas almofadas da sua cella mandava buscar o D.A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós privilegios e a riqueza da sua Ordem e da sua Casta. E não ha n’este labor nem dureza. e que é por isso a mais bem comprehendida por Deus. esse trabalho que em Portugal parece a mais segura das alegrias e a festa sempre incansavel. e de centeio. os relvados. De madrugada. A sala. Vinham para Refaldes. ou as Farças de D. breve a tarde trará a porção de poesia de que necessita o Espirito. serio e pingue. Espanejada. a Deusa da Terra. assim cabidos das mãos do bom Deus sobre a mesa.. Venus. e da alma lhe limpa todo o cuidado escuro. a dormente susurração das aguas regantes. arrotando. e corre para lá gralhando e refulgindo.75 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Á uma hora é o jantar. guizam um banquete que faria exultar o velho Jupiter. cheias de ermo e mudez. por essa Europa superfina. a fila dos jornaleiros mette-se ás terras&#8213. livre das contradicções do Espiritual e do Temporal. conforme a veneravel tradição dos Cruzios. com as suas varandas rasgadas. E. e os lenços de longas franjas vermelhejam mais que papoulas. E tudo é tão calmo e simples e terno.. apenas [209] mais bella. o pegureiro atira o seu cajado ao hombro. Quichote. a quinta acorda. ao fim do jantar. pequenina. sentindo a penetrante bondade das coisas. pesado de matto. que. Essa era a ditosa feição da vida antiga. o linho sobre os regatos. com duas panellas de barro e quatro achas a arder no chão. A cozinha era mais visitada que a egreja&#8213. beber o seu café aos golos. abrem para as terras semeadas. O arado mais acaricia do que rasga a gleba. a perenne sensação de fartura. E por fim. este anho paschal candidamente assado no espeto. e as latadas ensombram. Depois escurece. por n’ellas encontrar melhor que na sua cella a «fecunda solidão».e todos os dias os capões alouravam no espeto. tão propria á oração que não tem palavras. e mais nobremente soube comer. os campos de milho. O mundo recua para muito longe. Em palacio algum. tão dôces para n’ellas se curtirem deliciosamente as saudades do céo. scintilla no alto. torna refrescante o seu suor. porque. ou seguindo nas faias do pateo o cantar alto d’um melro. galhofando. agora apaziguado [211] e tratavel. de mangas arregaçadas. Não se procure pois. [208] copadas de parra densa. educado a nectar. Na cozinha enfumarada.. em qualquer banco de pedra em que me sente. é o refeitorio. E a sala melhor.. Um carro retardado. desde que ha Deuses no céo e na terra. o esplendor arrogante que se não deixa fitar e quasi repelle.e a vida que n’ella então se começou a viver. Ella reforça o braço do lavrador. respirando a fresquidão. no fino silencio. A agua sabe onde o torrão tem sêde. rijamente construida para longos seculos de colheitas. no seio attrahente da foice. como de um peccado vivo. em seges e com lacaios. não póde realmente conhecer o que seja a especial bemaventurança tão grosseira e tão divina. de tectos apainelados. O centeio cae por si. o matto florido para os gados. capoeiras abarrotadas de capões e de perús reverendos. Bernardo se embrenhava. d’este arroz e d’este anho! Se estes meios-dias são um pouco materiaes. escandalisados. o vinhedo baixo. que tudo propicia e soccorre. Estava já sabiamente preparada para a profanidade. os gallos cantam. onde os regalados monges podessem. Não! Aqui. os ouros claros e foscos ondulando nos trigaes. a torna tambem pacifica e dôce. e vai ainda beberar ao tanque.só a adega. com rochas núas.. através da vidraçaria cheia de sol. mais que nenhum outro paraiso humano ou biblico. d’entre os trigos. Todo elle é feito com a mansidão com que o pão amadurece ao sol. bem catalogada. de bens terrenos que não enganam. fico enlevado. tão largo que os pardaes voam dentro como n’um pedaço de céo. A quinta tudo fornece prodigamente:&#8213. uma pacificação que penetra na alma. os cães de fila são acorrentados. onde o gotejar da agua sob a cruz é mais preguiçoso. o [210] azeite. . elle derrama uma doçura.e estamos então realmente na felicidade de um convento. e cria esse momento raro em que céo e alma fraternisam e se entendem. o precioso sabor das tristezas monasticas. ou do campo em sacha. Por isso os que a servem. bem fendilhado. sem passar pela mercancia e pela loja. cheirosa. tão proprias para a choça e para a cruz do ermita.

» E accresce ainda. . inanimado.77 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Divindade.. No teu amor [214] recebi a minha Iniciação.. esse ineffavel estar comtigo que é hoje todo o fim da minha vida. ao anoitecer. como se não percebe a vermelhidão das rosas ou o verde tenro das relvas antes de nascer o sol! Foste tu. se jámais te deixarei escapar dos meus braços! Por isso mesmo que és a minha . e que. Mas quê! A pobre Venus só offerecia a serena magnificencia da carne. E só para mim.Fradique. posso affirmar:&#8213. com um ar quêdo. E. mas a Eleusis cheguei. O que eu desejaria na verdade é que fosses invisivel para todos e como não existente&#8213. pois.que te queria entrouxada n’um rude. antes de viver a teu lado. E a creatura incomparavel do meu scismar. Cytherêa e Dolorosa. d’uma belleza feita de Céo e de Terra. Quando ha dias.recomeço a aspirar desesperadamente para ti como para uma resurreição! Antes de te amar. Assim passarias [216] no mundo como uma apparencia incomprehendida... que tu és tão sumptuosamente bella e tão ethereamente bella. mas consagrada n’um santuario.&#8213.« amo. no terraço de Savran.que era eu.grata verdade. ou antes d’um sonho que deve ser universal&#8213. É que. porque realmente estava admirando nas coisas a belleza inesperada que tu sobre ellas derramas por uma emanação que te é propria. Apenas. logo existo! » E não foi só a minha realidade que me desvendaste&#8213. diante de muito altar que não era divino. e espreitasse o adormecer das collinas junto ao calor dos teus hombros&#8213. Todos murmurariam compassivamente&#8213. ante aquella sempre admirada e toda perfeita Venus de Milo..e já estou tentando recontinuar anciosamente. dez minutos. minha bem-amada. nunca eu lhes percebera. com cadeias de bronze.76 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós ( Trad. não existia. a minha suprema e unica vida. dos livros fechados no tempo dos Cruzios&#8213. uma rigida mudez occultasse a tua intelligencia. e eu te comprehendo! Eras a encarnação do meu sonho. que me alumiaste o mundo. . em ti tão bella...e vi e senti a verdade!. que é para ti um acto de Misericordia e para mim de Salvação. eis que tu surges. pela larga estrada pendurei muita flôr que não era verdadeira. ao reconhecer n’ella a alliança sempre almejada e sempre frustrada do Real e do Ideal.e fico como um morto jazendo no meio de um mundo morto. Mas tu vieste. Perderia assim o triumphal contentamento de vêr resplandecer entre a multidão maravilhada aquella que em segredo nos ama. agora sei.[212] cima. ) Paris. para meu martyrio e gloria. e me permittir que eu bradasse tambem triumphalmente o meu&#8213.não sabias. longe da tua presença.mas ainda a realidade de todo este Universo.Ainda ha poucos instantes (dez instantes. as coisas para mim cessam de ser&#8213. Quantas vezes. de modo que nem por um momento se descontinue essa fusão ineffavel. De todo lhe faltava a chamma que arde na alma e a consome. Assim te quero tambem. as imagens dos seus Baals. decerto [215] a teriam acclamado in eternum como a definitiva Divindade. se os seus olhos soberanos e mudos se soubessem toldar de lagrimas. não estejas de ti namorada como aquelle Narciso que treme de frio. por meio d’este papel inerte.mas só eu te descobri. Vê quanto te amo&#8213. para me fazer sentir a minha realidade. emquanto na guitarra ao lado geme algum dos fados de Portugal. que tanto gastei n’um fiacre desolador desde a nossa Torre de Marfim ) eu sentia o rumor do teu coração junto do meu. porque os homens.. abysmando-me sem cessar na tua essencia. e permanecendo Deusa do Prazer se tornasse Senhora da Dôr&#8213. e a lua. recebendo constantemente n’alma a tua visitação.«Tambem fui a Eleusis. dôce adorada. surde. coberto de musgo. pensei que se debaixo da sua testa de Deusa podessem tumultuar os cuidados humanos. ao fundo da varanda. Meu amor. sob esses seios. vago vestido de merino. se. um dia palpitasse o Amor e com elle a Bondade. te queixavas que eu contemplasse as estrellas estando tão perto dos teus olhos. uma lua vermelha e cheia. que eu já concebera&#8213. em Eleusis penetrei&#8213. antes de receber das mãos de meu Deus a minha Eva&#8213. consentissem em tremer no murmurio de uma prece submissa. Seu grato e mau afilhado&#8213.para sempre e irremediavelmente estás presa dentro da minha adoração. só com pousar junto de mim e murmurar o meu nome&#8213. se o seu marmore soffresse. belleza completa e só tua.que nunca julgára realizavel. nunca existiria!. a Venus Espiritual.. na verdade? Uma sombra fluctuando entre sombras. só Divindade minha.e eu sempre diante d’elle rojado. de dentro do involucro escuro. ou.. como a escutar. se revelaria a tua perfeição rutilante. que só por mim quizeste ser descoberta! Vê. como o antigo Iniciado. longo em saudades e em ais. o corpo e a alma adoraveis! Quanto adoraveis! Nem comprehendo que. &#8213. acorrentada dentro do templo avaro que te construi. Mau latim&#8213. E o dia na quinta finda com uma lenta e quieta palestra sobre idéas e letras. sempre no teu altar. tendo consciencia do teu encanto. que essa contemplação era ainda um modo novo de te adorar. Os Sacerdotes de Carthago acorrentavam ás lages dos Templos. que me envolvia como um inintelligivel e cinzento montão de apparencias. juntando ao esplendor da Harmonia a graça da Fragilidade. [213] cesso de viver. em mim tão rude&#8213.&#8213. XIII a clara. nem eu te soube então explicar.porque só desde que não pertence a uma ordem espiritual é que esta casa se espiritualisou. e pelo soffrimento se espiritualisasse. Deus nobis haec otia fecit in umbra Lusitaniae pulcherrimae. que foram o appetite sublime dos Deuses e dos Heroes. E quando eu assim pensava. Agora entendo.que perpetuamente um estofo informe escondesse o teu corpo. tão feliz fui. se ella fosse do nosso tempo e sentisse os nossos males. me finda esse perfeito e curto momento de vida que me dás. por detraz dos negros montes.então não estaria collocada n’um museu. pois. novembro. só talhados para o mel e para os beijos.« Pobre creatura! » E só eu saberia da «pobre creatura». se os seus labios. sem que nada os separasse senão uma pouca de argilla mortal. está cheia de livros.

ache interessante e psychologicamente divertido. a corôa livida entre o cabello mais negro e grosso que pellos de clina. e o sentir. em Savran. a hospeda divina do meu coração. do Clero Lusitano só entrevira exterioridades. envolver-te toda n’uma felicidade immaterial. e levanto as mãos. Por dentro. e te amo. tenho de me contentar que seja eterno.. n’um sonho cheio de certeza. O sangue novo que me circula nas veias.mas com a Secretaria [221] da Justiça e dos Negocios . desde que foi collado á sua parochia. e o viver. a uma outra repartição. O meu distrahido e pallido Metaphysico affirma. gerado na gleba. como eu. e durmo seguro sobre o teu peito na plenitude da gloria. irreprimida e mais forte que o horror. junho. através do horror. e que ainda hoje em Portugal fornece á Egreja todo o seu pessoal. à beira da fonte. e que. porém.78 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós escapar o que me está borbulhando na alma. com uma fidelidade de indice. tendo consciencia do teu encanto... regelado e mudo. Minha querida madrinha. que talvez a minha madrinha. ainda em toda a refulgencia da belleza archangelica. e o parecer da classe ecclesiastica em Portugal.«No calendario do seu coração. de reentrar no meu sepulchro. Fradique. O peito bem arcado. e te amo. Só posso deixar de te amar&#8213. E na face da Santa. é tão inexprimivelmente bella! É a vida de um Deus. por vezes. por ligações de confissão e missa com fidalgas que têm capella.que eu as appeteceria para ti. Por isso ha em mim um incessante desespero de não te saber amar condignamente&#8213. Balbucio. Para elle o Sacerdocio (que de resto ama e acata como um dos mais uteis fundamentos da sociedade) não constitue de modo algum uma funcção espiritual&#8213.. o carão côr de couro curtido. sahindo da vida á mesma hora e indo continuar no além o mesmo sonho estatico.e assim deslisarmos enlaçados através do silencio e da luz. um Empregado Publico. são o meu amor por ti&#8213.e se elle me fugisse. olho o mundo em torno de nós como um Paraiso para nós creado. as mãos ainda escuras. attinge a altura de uma virtude:&#8213.N’aquella casa de hospedes da travessa da Palha. em logar de entrar todas as manhãs n’uma repartição do Terreiro do Paço para escrevinhar ou archivar officios. uma Santa. logo depois de voltar de Refaldes. encolhendo os hombros. seria impotente para exprimir o meu extase. por fóra. O que em padre Salgueiro me encantou logo. tumultuosa..quando deixar de ser. meu primo o Metaphysico. infestadas de litteratura e politica. o espirito novo que em mim sente e comprehende. uma sobrepeliz alvejando n’uma tipoia atraz d’um morto. tão intensas&#8213. Com effeito. E outras [217] vezes desejaria arrebatar-te n’uma felicidade vehemente. de modo que por o meu amor não ser perfeito. em vez da carteira se ergue um altar. Assim não receio:&#8213. na casca. ) Lisboa. na verdade. e te asseguro a unica verdade. uma batina desapparecendo pela porta d’uma sacristia. crente ainda em Jupiter e Apollo. XIV a madame de jouarre ( Trad. Mas eu largamente te amo e por mim e por ti! A tua belleza. de tal sorte que n’ella nos destruissemos sublimemente. apesar do longo contacto com a alvura e doçura das hostias. Desejaria. nunca foram. com um sobre-tom azul nos queixos escanhoados. te elevasse ao Olympo para completar a sua ventura divina.toda minha te sei e para todo o sempre. com essa sua maliciosa paciencia de colleccionar Typos. padre Salgueiro é o costumado e corrente padre portuguez. os dentes escaroladamente brancos&#8213. oh minha tres vezes bemdita. um padre. Não penses que estou compondo canticos em teu louvor. um velho lenço de rapé posto na borda d’um confessionario. a cada instante temeria que um d’esses Deuses invejosos te raptasse. foi a sua maneira de conceber o Sacerdocio. muito brandamente. que padre Salgueiro não se destaca por nenhuma saliencia de Corpo ou Alma entre os vagos padres da sua Diocese. [218] pastor de gados. cujos derradeiros véos de penitencia se vão esgaçando pelas pontas das rochas negras.tudo n’elle pertence a essa forte plebe agricola de onde sahiu. que usa um uniforme. e por ti. na sua gracilidade ou na sua magestade. calma infinitamente como deve ser a Bemaventurança&#8213. E n’esta desoladora insufficiencia do Verbo humano é como o mais inculto e o mais illetrado que ajoelho ante ti. pela frequentação das auctoridades e das Secretarias.mas unicamente e terminantemente uma funcção civil. Nunca. coberto de musgo.e que tu me resuscitaste. oh minha Santa roubada! Mas de nenhum d’estes modos te sei amar. Tu sorris tristemente d’esta eternidade. padre Salgueiro se considerou senão como um funccionario do Estado. o pensar. e de nós só restasse uma pouca de cinza sem memoria e sem nome! Possuo uma velha gravura que é um Satanaz. melhor que todas as verdades&#8213. de folego fundo. rondando pachorrentamente o Rocio. As suas relações portanto não são. o padre Salgueiro. onde. vai mesmo nos dias santificados. como posso. com o céo (do céo só lhe importa saber se está chuvoso ou claro)&#8213.e foram decerto os modos tão puros da tua alma que fixaram as linhas tão formosas do teu corpo. na noite em que tanto palestramos. toda de chamma. como um folle de forja. atrellado [219] á lavra angustiosa da Verdade.79 A correspondência de Fradique Mendes .ou antes (pois desceste de um céo superior) de não saber tratar. onde vive. asperas. eu teria outra vez. Ainda hontem me perguntavas:&#8213. Ao contrario! Toda a Poesia de todas as idades. fulgurante.e que resume mesmo. não estejas de ti namorada como aquelle Narciso que treme de frio.que te amo.e se eu fosse esse pagão que tu affirmas que sou.Quanto adoraveis! Nem comprehendo que. arrastando nos braços para o Abysmo uma freira. tão fraco ou inhabil é o meu coração. seraphica. conheci. desbravado e afinado depois pelo Seminario. É em plena simplicidade que deixo .&#8213. e te amo!. Rainha da minha graça. uma tal alegria e paixão. pelo [220] desejo de se alliar e de se apoiar á unica grande instituição humana que realmente comprehende e de que não desconfia. Melhor talvez:&#8213. n’estas casas de hospedes da Baixa. como miolo. celebrar missas e administrar sacramentos. quantos dias dura a eternidade?» Mas considera que eu era um morto&#8213. &#8213. e sobretudo por longas residencias em Lisboa. padre Salgueiro apresenta toda uma estructura moral deliciosamente pittoresca e nova para quem. E a vida comtigo. como ella merece. mas um pagão do Lacio. a minha infinita oração. a batina (como os guardas da alfandega usam a fardeta). brilha..

tres noites por semana. até Pio IX.A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Ecclesiasticos. se perfila. porque é subsidiado pelo Estado para casar bem os cidadãos. As suas occupações. n’um dia (decerto um domingo). suado e afflicto. pois. exc. No fim do mez recebe os seus dez mil reis (além da esmola)&#8213. porque justifica o despacho. na obra pontifical de Pio IX. Não admira. Faz serviços e recados. como todos os outros bachareis que em Coimbra decoram as Sebentas de Direito natural e de Direito romano para «fazerem o curso». A sciencia é a formalidade penosa que lá conduz&#8213. o seu S. já esqueceu regaladamente a significação theologica e espiritual do casamento:&#8213. Á doutrina de Jesus é tão alheio como á philosophia de Hegel. Samsão arrancando as portas de Gaza.e o seu bispo reconhece o seu zelo. para executar certos actos publicos que a lei determina a bem da ordem social&#8213. lhe pertença a elle padre Salgueiro! Outro tanto seria exigir de um verificador da alfandega que moralisasse e purificasse o commercio.e nunca. indispensaveis para a regularisação do estado civil. com boa fiscalisação civil. Só o grau vale e importa. cabal na ejaculação dos latins. Deceparia a lingua. certas expulsões de Demonios.e ainda ha mezes o encontrei. segundo observei. pondo na benção toda a uncção prescripta. á sua canceira. formosa e honrosa como é. toma chá em casa do seu chefe. meras ceremonias civis. por causa de duas incumbencias de. funccionario zeloso. da historia da Egreja. se [225] ella é economica e virtuosa. e.verdadeira provação.a Arca de Noé. quando se canta o Polliuto. Padre Salgueiro.&#8213. Além de raros actos da vida activa de Jesus. Não fuma. como os Santos Padres:&#8213. depois de atravessada. em procurar melhoria de emprego. pousa a mão na espada. sempre de preto. Durante o inverno só uma noite vai a um theatro. com bom rigor liturgico. com obrigações sobrenaturaes que lhes são delegadas e pagas pelo Céo. com furor. Ha ahi um cadaver para enterrar? Padre Salgueiro toma o hyssope e enterra. que considera mesmo cheia de poesia. . como empregado (além das horas dadas aos deveres liturgicos). o seu Liguori&#8213. levando rebuçados ás senhoras. elle só tem a cumprir funcções rituaes em nome da Egreja. sendo um funccionario. complexos e indescriptos. que. pacificar inimizades. Emquanto a orações. na opinião de padre Salgueiro.a uma relativa a queijadas de Cintra. a sua Theologia Pastoral. Com o seu bispo é incansavel:&#8213. Muito differentes se apresentam as obrigações de um parocho! Funccionario . outr’ora no seminario. bemdiz os beneficios da instrucção. para este excellente padre Salgueiro. Thomaz. hoje. mas. S. Levanta-se ás dez horas. em face ao seu general. E os Santos. a sua conducta. nada sabe do Evangelho&#8213. por isso. nem sequer suspeita que lhe sejam necessarios ou favoraveis. ser ordenado pelo seu bispo. Veste. porém. com louvavel logica. confessar. outra a uma collecção do Diario do Governo. Mas não admitte que. por milagre flagrante de Jesus Christo:&#8213. meditações. de purissima lição. nem omissões.porque se préza de liberal. os pães multiplicados nas bodas de Caná. deve manter. o decoro que tornará as suas funcções respeitadas do mundo. Todos os dias de jejum come um peixe austero. Foi ella que o collocou na sua Parochia. Nunca transpoz as portas impuras de um botequim. e na força com que ligam a vida transitoria a um principio Immanente. Não conheço maior respeitabilidade do que a de padre Salgueiro. Para que? Padre Salgueiro constantemente tem presente que.80 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós ecclesiastico. E é casto. deseja mais progresso. pensou na sua natureza divina. casar. Decerto. Que elle. a todos os directores geraes da Secretaria dos Negocios Ecclesiasticos.que considera todavia muito bonito. consistem muito logicamente. sem transigencias. e a mulher portanto não entra nas suas funcções. esteja obrigado a consolar dôres. Os sacramentos são. A sua ignorancia é deliciosa. a fuga para o Egypto no burrinho. uma opera sacra. como um tenente. mortificações. Onde eu tambem o acho superiormente pittoresco. que aprendeu certamente em oleographias&#8213. Maneja habilmente eleições. Carlos. dirigir arrependimentos. que. é o seu desconhecimento absolutamente candido das origens. Da Biblia tambem só conhece episodios soltos. não quer cumprir com defeitos funcções que lhe são pagas sem atrazo. na Graça que communicam ás almas. e casa com pericia. todos esses pacientes methodos de aperfeiçoamento e santificação propria. Judith degollando Holophernes. formam uma Casta. se d’ella lhe pingasse uma falsidade. enterrar os parochianos.e em Lisboa. uma Aristocracia espiritual. assigna o Primeiro de Janeiro. Esse santo emprehendimento pertence aos Santos. exames d’alma. depois provido n’uma parochia pelo seu ministro. Não condemna e repelle a mulher com colera. O que tambem me diverte. o azorrague cahindo sobre os vendilhões do Templo. e portanto do Estado que a subsidia. esmiuçando escrupulosamente as certidões.os deveres para com as almas. nem a Infallibilidade. adoçar a dureza dos egoismos. hora classicamente adoptada pelos empregados do Estado. Padre Salgueiro imagina que o Christianismo se fundou de repente.mas meramente para cumprir as disciplinas officiaes do curso. não para continuar a obra do Senhor guiando docemente os homens pela estrada limpa da Salvação (missões de que não curam as secretarias do Estado). é cavaqueando ácerca dos deveres que lhe incumbem como pastor de almas&#8213.baptisar. á sua aridez.e desde essa festiva hora tudo para elle [223] se esbate n’uma treva incerta. Mas o regulamento da Egreja prohibe a mulher: elle é um funccionario ecclesiastico. Ha ahi uma criança [224] para baptisar? Padre Salgueiro toma a estola e baptisa. onde vagamente reluzem nimbos de santos e tiáras de papas. desde que os administra. nem o Syllabus:&#8213. perfeito em unir as mãos com a estola.mas casa.a não ser em presença dos seus superiores ecclesiasticos. não deixa ao espirito [222] desejos de regressar á sua disciplina. e depois o aconchego de um emprego facil. nas noites amigas em que conversamos na travessa da Palha. como funccionario. e então por deferencia gerarchica. ensinar a cultura da bondade. a S. A idéa que padre Salgueiro tem da sua missão determina. é para o benemerito padre Salgueiro a mais estranha e incoherente das novidades! Não que desconheça a belleza moral d’essa missão.até a venéra. receber na cabeça a borla de doutor. a sua Moral. É rigidamente casto. Nunca abre o breviario&#8213. Pertence por isso a um partido politico:&#8213. padre Salgueiro decorou em compendios ensebados a sua Theologia Dogmatica. por continuação de uma obra divina.

Jesus não possue melhor amanuense. mas sómente. Este baque provaria a fragilidade do Divino&#8213. da Secretaria dos Negocios Ecclesiasticos. moralista amargo. Juizos ligeiros. que não é de sete Egrejas. leviana e atabalhoada de todo affirmar. Enxertou destramente louvores ao Ministro dos Negocios Ecclesiasticos. e só com lançar um olhar distrahido sobre o eleito.«É um genio!» ou «É um santo!» offerecemos uma resistencia mais considerada. um sermão succulento. Com excepção de alguns philosophos escravisados pelo Methodo.«Este [229] é uma besta! Aquelle é um maroto!» Para proclamar&#8213. uma outra «d’essas folhas impressas que apparecem todas as manhãs». com fervor. a corôa ou a aureola. Venancio. E menos de dois mil annos bastaram para que o Christianismo baixasse dos grandes padres das Sete Egrejas da Asia até ao divertido padre Salgueiro. de tudo julgar. sobre que não estejamos promptos a promulgar rotundamente uma opinião bojuda. tambem concedemos bizarramente. Inconsciente como uma peste. um frade do Varatojo. quando uma boa digestão ou a macia luz d’um céo de maio nos inclinam á benevolencia. desenrolou todos os seus milagres (que são poucos) com exactidão. Por esse sermão.eis tres negros peccados sociaes que. Não foi bispo. a quem rendeu preito constitucional.A tua idéa de fundar um jornal é damninha e execravel. me faz lembrar os velhos homens evangelicos. encommendado. depois do Julgamento.Fradique. com as épocas da fundação. o reverendo padre Salgueiro. narrou com rigor agiologico o seu martyrio. &#8213. que. que é todavia humanissimo. e d’alguns devotos roidos pelo Escrupulo. pelo extasi da sua fé. que perpassou n’um relance ante os nossos olhos escorregadios e fortuitos. meu Bento e meu reprobo! Não penses que. mal escutado a uma esquina. tudo o que se desfaz e tudo o que se refaz. Larguissimamente o merece. do homem. espalhas sobre as almas a morte. todos nós hoje nos deshabituamos. tão pontual. Em todo o caso. XV a bento de s. Considera antes como foi incontestavelmente a Imprensa. por base aquelle . Venancio. do penoso trabalho de verificar. assistindo a um sermão que elle prégou pela festa de S. Para julgar em Politica o facto mais complexo. Meu caro Bento. ou antes nos desembaraçamos alegremente. Intolerancia&#8213.Não fallei da sua intelligencia. É pratica e methodica&#8213. Felicitei n’essa noite. exagero. e se endureça mais a Intolerancia.apenas nos basta folhear aqui e além uma pagina. e muito devotamente.e deu.S. a nossa ligeireza é fulminante. já Moysés. Estabeleceu a filiação do Santo. como no nosso seculo apressado.. e em formato rico. atulhado de idéas novas. como qualquer S. personalidade ou obra humana. da obra. E nunca realmente comprehendi por que razão outro amigo meu. Venancio.81 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Ora veja. soffria com o murmurar variavel dos Hebreus. com telegrammas e chronicas. Assim passamos o nosso bemdito dia a estampar rotulos definitivos no dorso dos homens e das coisas.«o horrendo padre Salgueiro!» .como verifiquei. enumerou as [226] egrejas que lhe são consagradas. Com que soberana facilidade declaramos&#8213. citando as auctoridades. se exacerbe mais a Vaidade. e até este seu afilhado. Ouço que vai ser nomeado conego. creio que cumpri. tu vaes concorrer para que no teu tempo e na tua terra se aligeirem mais os Juizos ligeiros. moralmente. que o amor de extensos annos fortemente encadeou&#8213. E a opinião tem sempre. exarando as datas. essa improvisação impudente se tornou a operação natural do entendimento. n’uma manhã de vento. e apenas. por esse preço. o seu devorador cuidado na pacificação das almas. com a sua maneira superficial. os cabritinhos folgando. em summa. Em todos os seculos decerto se improvisaram estouvadamente opiniões: o grego era inconsiderado e garrulo. É com impressões fluidas que formamos as nossas massiças conclusões. a profusão da sua caridade. minha madrinha! Mais de trinta ou quarenta mil annos são necessarios para que uma montanha se desfaça e se abata até ao tamanhinho d’um outeiro que um cabrito galga brincando. encerrando tudo o que convinha á glorificação de S. Por um gesto julgamos um caracter: por . Paris. Principalmente para condemnar. no longo Deserto. largamente nos contentamos com um boato.. Para apreciar em Litteratura o livro mais profundo. o padre Salgueiro.82 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós pequenino lado do facto. que. mais enraigou no nosso tempo o funesto habito dos juizos ligeiros. modesto e simples: &#8213. Foi. tão respeitavel&#8213. como diz tão assustada e pudicamente o Arcebispo de Paris. Não ha acção individual ou collectiva. mas nunca. Elle murmurou.se não fosse que realmente o Divino abrange as religiões e as montanhas. Lançando. João Chrysostomo. um excellente relatorio sobre S. documentado. Mas ainda assim. Venancio infelizmente não se presta. tão proficiente. Vaidade. recebia padre Salgueiro 20$000 reis&#8213. nem mesmo [227] d’uma. Não esqueceu a Familia Real. e ahi empurramos para a popularidade um maganão enfeitado de louros ou nimbado de raios. através do fumo escurecedor do charuto. em [228] que. outubro. recozerás e ganirás. matam uma Sociedade! E tu alegremente te preparas para os atiçar.&#8213. nunca exerceu cargo publico!. Já decerto o Diabo está atirando mais braza para debaixo da caldeira de pez. chama sempre a este sacerdote tão zeloso. a Asia.

mesmo as boas. (Como me vim tornando altiloquente e roncante!. Pelo jornal. do que á Comedia-Franceza em noite de Coquelin? Porque os monges. um meliante. que te estou moralisando).pequenino lado do facto. e os Artistas rebolam na extravagancia esthetica.. Ainda. tu desenvolverás. Hontem um infame e ignobil bandido. uma manhã. Que se trate d’uma revolução do Estado.83 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós vaidade. e. Para se conquistarem essas sete linhas bemditas. com affectações de anarchismo evangelico. N’estes estados de civilisação. tudo deriva da . parecia (e era) um Huno. diante de dois copos de vinho branco. o barrete de pelle de lontra. N’este verão. menos sobre os que influem nos negocios do Mundo ou [232] nas direcções do Pensamento. e. lhe espalhem o nome [234] pelo ar sonoro. á meia noite. os homens praticam todas as acções&#8213. surge a horda ululante dos charlatães. é uma util abastecedora da Historia. como aquellas duas azas com que os iconographistas do seculo XV representavam a Luxuria ou a Gula: e o Mundo todo se arremessa para o jornal. mais negro. etc. uma massa espumante de juizos ligeiros.) Mas é a verdade..» só manda os cem mil reis á Creche. e com cinzas. Nenhum estudo. os destinos do Universo. Bento. poetisas. O Jornal estende sobre o mundo as suas duas folhas.gritava triumphalmente para outro vadio imberbe e livido. desde os senadores até aos varredores. querem setenta linhas nos jornaes do Boulevard. estes fidalgos. para a propagação das vaidades! O jornal é com effeito o folle incansavel que assopra a vaidade humana. desde os jockeys até aos assassinos. Agora. como n’aquelles que só pareciam amar na vida. Até o velho instincto da conservação cede ao novo instincto da notoriedade: e existe tal maganão. meu Bento? Porque em casa de seu sogro houvera um escudeiro. socio de Academias. a prégar nos pulpitos de Paris. bem provido de Encyclopedias. esparrinha e julga. e os Sabios alardeiam theorias mirabolantes. do fundo dos seus claustros. como «porcos e ladrões». decidem com dois rabiscos da penna sobre todas as coisas da Terra e do Céo. sobre toda a «sorte e condições de gente van». d’uma arte profana e theatral.. salpicadas de preto. ruidosos e ôcos.. de Philippes a Actium. Ella é tão roedora nos sêres de exterioridade e de mundanidade.. prodigiosamente. e os Politicos desmancham a ordem do Estado. Entrámos na quaresma (é entre as cinzas. e sobre o desventuroso Universo que se torna assumpto e propriedade tua. da solidez d’um Banco. pensativo. onde [235] diz:&#8213.). durante algum tempo.É verdade. tantos mais elementos positivos possuirá o seculo XX para reconstruir com segurança a personalidade do auctor das Origens do Christianismo. ao menos o sorriso do Principe. Incontestavelmente. nunca a vaidade foi.. porém. por excellentes rapazes que rompem pela redacção. talvez o maior dos gregos. n’essa tinta cujo brilho é mais appetecido que o velho nimbo d’ouro do tempo das Santidades. um «estado d’alma»! Tu. De todos os tempos é ella. comprehender a obra. a sua indiscriminada publicidade concorre pouco para a documentação da historia. fornecido tambem de Encyclopedias e de Telephones. surdem os frades dominicanos. que conhece a Europa. de Mappas. meu Bento! Vê quantos preferem ser injuriados a serem ignorados! (Homenzinhos de letras. através d’ella. a sua rica pessoa commentada no jornal! Vir no jornal! eis hoje a impaciente aspiração e a recompensa suprema! Nos regimens aristocraticos o esforço era obter. commentando a situação economica. logo em cima. e por ella se perdeu Alcibiades. Mesmo as boas. que «em Lisboa os filhos das mais illustres familias da aristocracia se empregam como carregadores da alfandega. meu Bento. se quer agachar sob as duas azas que o levem á gloriola.. lhe irrita e lhe espalha a chamma. a quem arremessára um jornal: &#8213. como a sua fórma melhor. entre o silvar do gaz e o fervilhar das chalaças. considerava os francezes todos. como a reportagem hoje se exerce. o bigode hirsuto e pendente.&#8213. e conservando criados de farda para lhes ir receber o salario? Estas pipas. juizos tão solidos e comprovados como os que aquella bemdita gazeta archivou definitivamente ácerca da nossa alfandega e da nossa fidalguia. de Estatisticas. todos os males da Vaidade! A reportagem. varão douto. senão já o favor. Decerto importou saber se era adunco ou chato o nariz de Cleopatra. vaes com penna sacudida lançar sobre a França e sobre a China. que não mudava de collarinho e surripiava os charutos. o rabisco da penna.. nenhum documento. d’uma Magica. da obra. a quietação e o silencio. que ante um funeral convertido em apotheose pela abundancia das corôas. Pois assim o ensinou um jornal consideravel. bem negro. dos coches e dos prantos oratorios. em todas as letras. como no nosso damnado seculo XIX. e ao fim de cada mez mandam receber as soldadas pêlos seus lacaios!» Que dizes tu aos herdeiros das casas historicas de Portugal. de Telegraphos. no teu tempo e na tua terra. sem tirar mesmo o chapéo. Considera agora outro. n’estas semanas de peixe.. e tão creadores de escandalo que Paris corre mais gulosamente a Notre-Dame em tarde de Dominicano. formam uma deliciosa e chimerica alfandega que é menos das Mil e Uma Noites. para que a gazeta exalte os [233] cem mil reis de Z. agarram uma tira de papel. desde a chronica até aos annuncios... Mas. filhos de S. do que. Rente ao balcão de zinco.. um alto jornal de Paris. que perpassou n’um relance ante os nossos olhos escorregadios e fortuitos.. com quem outr’ora jornadeei pela Asia. Este inglez illustra magistralmente a formação escandalosa das nossas generalisações. E quem nos tem enraizado estes habitos de [230] desoladora leviandade? O jornal&#8213. escandalosamente.. Este é o primeiro peccado. como diz a Biblia. rico. Um inglez. a vaidade do homem! Já sobre ella gemeu o gemebundo Salomão. tudo tende á vaidade. um sobrevivente das hordas d’Alarico. e politica de Portugal. meu Bento. collaborador de Revistas. E quantos mais detalhes a esfuracadora bisbilhotice dos reporters revelar sobre o snr. e com um aprumado saber. vaes crear d’estes . Eis-ahi. improvisados na vespera. entrei n’uma taberna de Montmartre a comprar phosphoros. o motor offegante do pensamento e da conducta. de Telephones. estes lacaios dos carregadores. e toda a celebridade dos histriões. Nas nossas democracias a ancia da maioria dos mortaes é alcançar em sete linhas o louvor do jornal. do homem. e os seus moveis. E a fórma nova da vaidade para o civilisado consiste em ter o seu rico nome impresso no jornal. pinguemente remunerada. pertence á Academia das Sciencias Moraes e Sociaes. Para apparecerem no jornal. bem sei. bem negro. em todos os generos. como agora se diz tão alambicadamente. este domingo. E porquê esses sermões sensacionaes.. Por um gesto julgamos um caracter: por um caracter avaliamos um povo.o jornal. vagamente oriundo de Dijon. Nem é mesmo necessario que as sete linhas contenham muito mel e muito incenso: basta que ponham o nome em evidencia. e deseja ser o morto. e a sua roupa branca. meu Bento! O «nosso generoso amigo Z. no teu jornal. ha assassinos que assassinam. dentistas.. E é por essa gloriola que os homens se perdem. o meu nome todo! Na segunda columna. que pelas ventas chatas. lambe os beiços. nenhuma certeza. Sou eu! O nome todo! E espalhou lentamente em redor um olhar que triumphava. affirmava. e pela reportagem que será a sua funcção e a sua força.. com exhibicões de psychologia amorosa. Porquê. Bento. Renan. que offerece cada manhã. [231] com uma redacção muito erudita. ou d’um descarrillamento. que das Mil e Uma Asneiras. e de todos os cantos. e as mulheres se aviltam. pois que do feitio d’esse nariz dependeram. O proprio mal appetece sofregamente as sete linhas que o maldizem. Domingos. nosso amigo generoso. e legisla no Senado! E tu. muito cedo. carregando pipas de azeite no caes da alfandega. e muito. E não ha classe que não ande devorada por esta fome morbida do reclamo. com um traço.

fundadora de mosteiros. n’aquelle gesto hereditario que funda os pactos. segundo Bento e o seu jornal. um amigo que regressou da Abyssinia. Santa Clara da minha fé! Não! não mandei essa linha superflua.85 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós XVI a clara ( Trad. e é não só o Pae da Mentira. Vê tu quando se alastra uma gréve.. se tornam mais rebeldes á indulgencia.estados. E não só atiça as questões já dormentes como borralhos de lareira. [239] e só em ti vivo!. uma nova escola de Intolerancia. É elle que por um lado inflamma as exigencias mais vorazes&#8213. oh super-amada. cruelmente Abyssinisante. .porque então a decencia. ainda antes do almoço. de que a minha paixão está viva e viçosa e te envia os bons dias? Para que? Para socego da tua incerteza? Meu Deus! Não será antes para regalo do teu orgulho? Sabes que és Deusa. inercia. Tens de sustentar que elles são maleficos. cortado por uma bala. Depois considera o derradeiro peccado. para além d’esse muro. abrangendo a Litteratura. como um alambique distilla alcool. Nos homens que vagam para além do teu muro. negrissimo.se cada manhã o jornal não avivasse os odios de Principios. O jornal matou na terra a paz. dos teus amigos.) que te impõe fatalmente esta divertida separação das virtudes e dos vicios. é murmurar paz! juizo! e estenderem as mãos uns para os outros. o minuete de Gluck. verbosa et tremenda epistola. Das solas dos pés até aos teus raros cabellos.84 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Bento. para ir. nunca poderás admittir que a Razão ou a Justiça ou a Utilidade se encontrem do lado d’aquelles contra quem descargas pela manhã a tua metralha silvante de adjectivos e verbos&#8213. sem exame. E porquê. como esse anti-semitismo nascente. É pela acção do jornal que se azedam todos os velhos conflictos do [237] mundo&#8213. velhacos. quasi rabugenta. que são os Reprobos. Realisam esses outros uma obra? Bento não poupará prosa nem musculo para que ella pereça: e se por entre as pedras que lhe atira. e a quem tive de escutar com resignado pasmo as ... civismo. amiga de S. no meu velho relogio. entendo partido. e cada manhã a multidão se envenena aos goles com esse veneno capcioso.e todavia só é festejada uma vez. só haverá. e não do lado dos teus. os acirrasse como se acirram mastins até que se enfureçam e mordam. ergues um muro de pedra miuda e bem cimentada: dentro d’esse murosinho. as anachronicas e brutas perseguições medievaes. tenderia a uma suprema pacificação&#8213. e enche o ar de tumulto e de pó. Mas Santa Clara.e que as almas. de Raças. suave fonte de piedade e milagres&#8213. [236] desarrazoados. e gritarias mais sanhudamente:&#8213. do lado dos outros. mais furiosamente apressa a sua demolição. dois credos se confrontam em hostilidade: o instincto primeiro dos homens.» Mas não sabes tu. A sociabilidade incessantemente amacia e arredonda as divergencias humanas. só haverá necessariamente sandice. ) Paris. Em torno de ti. Mas surge logo o jornal. energia. e mentalmente tarjada de luto. de alta linhagem. do teu partido. irritado como a Furia antiga. Minha muito amada Clara. ou quando entre duas nações bruscamente se chocam interesses. confidenta de Gregorio IX. só porque appareceu dez braças adiante. estive cinco dias (cinco curtos dias de outomno) sem te mandar uma linha. como um rio arredonda e alisa todos os seixos que n’elle rolam: e a humanidade. Tu fundas. obtusidade e espirros.um defluxo burlesco.Teu Fradique. egoismo. segundo o jornal de . intelligencia. cada manhã. me appareceu hoje a tua carta com os primeiros frios de outubro. traficancia! É a disciplina de partido (e para te agradar.. de Classes.Toda em queixumes. Ora esta carta já vai. um certificado. desevangelisadas. onde plantas a tua bandeirola com o costumado lemma de imparcialidade. os que o compram e o adoptam lentamente e moralmente se fazem á tua imagem. tua padroeira. lêr os meus jornaes. [238] até que d’ellas salte novamente uma chamma furiosa&#8213. Depois é o jornal. de triumphal belleza. com delicia. E. e em que apenas um ramo secco d’olaia soffreu. porque seria mortificante para os seus amigos que alguma coisa de util ou de bello nascesse dos seus inimigos&#8213. meu Bento. a Philosophia. e vastamente merecem o chumbo com que os trespassas.mas inventa dissensões novas. mais féro de coração que um Trastamara ou um Borgia. Francisco de Assis. e reclamas incessantemente o incenso e os canticos do teu devoto. em torno de ti. e. muito tremenda e verbosa. desinteresse. que são os Eleitos. te forçariam a saltar o muro e desertar para esses justos. de quem herdou a ubiquidade. com os seus gritos. como a de Tiberio. O jornal exerce hoje todas as funcções malignas do defuncto Satanaz. a condemnarás como funesta. ou quando. minha dôce descontente? Porque. que os separa. e quando entre elles reconhecesses S. antes que o seculo finde. Mas escuta! Onze horas! Onze horas ligeiras estão dançando. saber. etc. era uma grande santa. outubro. e lhes sopra na alma a intransigencia. com melancolia.&#8213. e eu tenho pressa de a findar. em letra bem firme. e os empurra á batalha. affirmando essa verdade tão patente e de ti conhecida como o disco do sol&#8213.e vivesse. taparias a face para que tanta santidade te não amollecesse. de que fui o enfastiado padrinho. que o abuso da Civilisação material tem amollecido e desmarcialisado. Desde que penetras na batalha. etc. porque todos os males bruscamente se abateram sobre mim:&#8213. Todo o jornal distilla intolerancia. a 27 de agosto! Sabes bem que estou gracejando. &#8213. emfim. na ordem espiritual. casualmente entrevê n’ella certa belleza ou certa utilidade.e por outro fornece pedra e cal ás resistencias mais iniquas. e. Francisco d’Assis distribuindo aos pobres os derradeiros ceitis da Porciuncula. que a tua lembrança-me palpita na alma tão natural e perennemente como o sangue no coração? Que outro principio governa e mantem a minha vida senão o teu amor? Realmente necessitas ainda..«que só em ti penso. tu só verás peccadores. mas o Pae da Discordia.«Lá anda aquelle malandro a esbanjar com os vadios o dinheiro que roubou!» Assim tu serás no teu jornal. cada anno. que repetirá. dignidade. no seu sentido mais amplo. vileza. que uma longa cultura e a velhice tem tornado docemente sociavel. desde logo te atolas na Intolerancia! Toda a idéa que se eleve. se não já a consciencia. para além do muro. um confuso duello. com o teu novo jornal.

Eu. que errava pelos campos da Galiléa.. nascerão outros melhores. minha linda Clara! Quando se ama como elle (ou como eu). segundo Jesus. Em todo o caso.muito approvo. finos e languidos. minha flor. Renan. cruelmente Abyssinisante. aconselhando aos homens a que abandonassem como elle os seus lares e bens. o enternecido e erudito vigario de Nossa Senhora da Razão. pela somma das virtudes individuaes. é necessario desentulhar esse pobre Budha da densa alluvião de Lendas e Maravilhas que sobre elle tem acarretado. vida? Mesquinhos valores. para penetrarem um dia n’um Reino venturoso. sem amor nenhum terrestre. sempre durante a passagem na terra. Qualquer folha de olmo te ensina mais que todas as folhas dos livros. desdenhou princezas de Castella e de Aragão. n’um palacio que está para além das nuvens e que é de meu Pae!» O Budha.86 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós amor. Incontestavelmente. fortuna. e depois ao outro. e fazendo pedantescamente. o illimitado amor pelos sêres. Na verdade só se deve amar quando se é rei&#8213. em recompensa.mas só agora comprehendo o rei. o mesmo frade mendicante.d’olaia soffreu. em premio. e pallidas. os jornaes publicam outro prefacio do snr.. sou pelo Budha. deve ser um contentamento esplendido o ter princezas da christandade.nunca alma melhor visitou a terra. e que se estende a toda a terra d’onde o Mal desapparece. era um Principe. Jesus cria uma aristocracia de santos.87 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós Madame de Jouarre. um curso escandaloso de Religiões Comparadas. a cultura perenne da misericordia que resgata. O Budha. mas mais cruel.«Eu sou um pobre frade mendicante. que por fim se torna perfeita. e tu sabiamente procederias em deixar o Budha no seu Budhismo. um amigo que regressou da Abyssinia. á beira do caminho rude. uma vez que esses teus bosques são tão admiraveis.. affrontou sedições. solitaria nas suas florestas. O Budha pertence á cidade e ao collegio de França: no campo a verdadeira Sciencia deve cahir das arvores. cria. e em que elle se mostra.e ainda te não contei. esse. todo cheio do snr. agora latim!) São raras. Chove: continuamos em Republica. homens mortaes. já murchas decerto e dançando no vento. Jesus. vos dê a cada um. no seculo XIX e com defluxo) a vida do Budha é mais meritoria. em te retemperar na sua força e nos seus aromas salutares.&#8213. e d’esses outros ainda mais perfeitos. e. e a quem tive de escutar com resignado pasmo as caravanas. desconsoladamente. que d’esse nascer. como virtude heroica. emfim. como sempre. por causa d’um grande amor. e que. soffreu a desaffeição dos povos.. e thesouros. cortado por uma bala. as novas de Paris. É como offertar na mão aberta [241] um pouco de pó. que andes lendo a do divino Budha. que se chama Fernam Lopes. e que constituem a côrte do céo para deleite [243] da sua divindade. convidou alguns desventurados (dos [244] quaes eu o maior) para escutarem tres capitulos d’um novo attentado do barão de Fernay sobre a Grecia. emfim. ficou sem essa folha.&#8213. e quasi estragou o reino! Eu já conhecia a chronica&#8213. pelo contrario. pela pratica crescente da virtude em cada geração.porque só então se póde comprovar a altura do sentimento com a magnificencia do sacrificio. e um reino forte para sacrificar a dois olhos. Sobretudo do que eu&#8213. as façanhas e os leões!. segundo o Budha. como nos tempos de Eva. Mas um méro vassallo como eu (sem hoste ou castello). sempre indiminuida. diz simplesmente:&#8213. para bem dos homens. e um povo. porque de vós. os amores. uma existencia superior. ou de bello para sacrificar? Tempo. este esposo.que aqui estou pontificando. só aproveita egoistamente ao justo. E depois a bem amada nem sequer fica na historia. a esposada do seu coração. minha estudiosa Clara. e. diz:&#8213. deixa o seu palacio. e insto com cada um de vós. durante seculos. (Bom. a imaginação da Asia.chamando todas as grandezas ao nivel da sua humildade. abstracto. este pae. aproveita ao sêr que o substituir na existencia. que chegou da Rocha com menos cabellos brancos. Tal como ella foi. cheia das minhas [240] letras. accendi o meu lume:&#8213.e não vem d’ella proveito directo para o Mundo. Nada sacrificava em si e instigava os outros ao sacrificio&#8213.. deprendida da sua mythologia. e temos. ou de nobre. . a Noite do Renunciamento. o filhinho adormecido no berço de nacar. um dia. tudo isto é muito complicado. e. em quem esse amor mais se sublimára:&#8213. Porque não sei como se comportam os teus bosques. e d’ahi lhe viera um filho. infinita em annos e infinita em delicias.&#8213. E a justiça do justo. meu . O Budha. um mendigo sem vinha ou leira. santamente accumuladas. para lucro eterno da terra. de illimitado poder.. a maior porção de Divindade que até hoje tem sido dado á alma humana conter. que possue elle de rico. tão finos e meigos. que elle te parece apenas um Jesus muito complicado. a meu vêr (tanto quanto estas excelsas coisas se podem discernir d’uma casa de Paris. e nada iguala. e na sua nudez historica. E ahi está como a minha pobre Clara. por dedicação aos homens. em que pratiqueis o bem durante os poucos annos que passaes na terra. vai através do mundo esmolando e prégando a renuncia aos deleites.e toda a noite de hontem mergulhei na muito velha chronica d’um Chronista medieval da minha terra. Mas. E depois considera a differença do ensino dos dois divinos Mestres. de illimitada riqueza: casára por um immenso amor. e a confiança na morte. o seu reino. [242] o aniquilamento de todo o desejo. que continua a soffrer da sua porção de Mal. oh doce exilada. Renan. dissipou thesouros. e assim. e como elles costumam ser na Asia. e peço-vos que sejaes bons darante a vida. e tão inutil para a segurança do seu coração como as folhas que a cercam. E por historia&#8213. sorrindo pelo que esperam e mais pelo que promettem. os perigos. e onde o Budha é sempre. o desdem forte do ascetismo que se tortura. sob a rude estamenha de um mendicante. acta Urbis. esses dois Mestres possuiram. E grandemente o invejo. Só me restam tres pollegadas de papel. ante os teus lindos olhos. Ahi se conta d’um rei que recebeu o debil nome de Formoso. Um. Para me consolar da verdura perdida. se estabelecerá pouco a pouco na terra a virtude universal!» A justiça do justo. portanto. individualmente. descessem á solidão e á mendicidade. De resto. para que eu depois. Dizes.«Eu sou filho de Deus. o incessante aperfeiçoamento na caridade. perdeu a vassallagem de castellos e terras. Jesus foi um proletario.e este principe.&#8213. que está nos Céos. um . uma humanidade que em cada cyclo nasce progressivamente melhor. esse. que arrebata para o céo onde elle é Rei.mas aqui as folhas do meu pobre jardim amarellaram e rolam na herva humida.

penso eu. e temos. aqui publicadas.. You may use this eBook for nearly any purpose such as creation of derivative works.Renan. as saudades. Project Gutenberg is a registered trademark.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal). Creating the works from public domain print editions means that no one owns a United States copyright in these works. Reunidas as notas e fragmentos dispersos.net/license). so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United States without permission and without paying copyright royalties. magrinha e de maus dentes. os desejos e as coisas ardentes e suaves e sem nome de que meu coração está cheio. you agree to comply with all the terms of the Full Project Gutenberg-tm License (available with this file or online at http://gutenberg. Renan. If you do not agree to abide by all the terms of this agreement. complying with the rules is very easy. we hope that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by freely sharing Project . performances and research.org/2/7/6/3/27637/ Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at http://www. displaying or creating derivative works based on the work as long as all references to Project Gutenberg are removed. Notas: [1] Estas cartas constituem verdadeiros Ensaios Historicos. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm electronic works 1. que herdou. minha adorada. DE FRADIQUE MENDES *** ***** This file should be named 27637-h.88 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós *** START: FULL LICENSE *** THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free distribution of electronic works.&#8213. you must cease using and return or destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. reports. em montão. todo cheio do snr. Redistribution is subject to the trademark license. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" or PGLAF). performing. especially commercial redistribution. See paragraph 1. apply to copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.C. you may obtain a refund from the person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1. agree to and accept all the terms of this license and intellectual property (trademark/copyright) agreement. If you do not charge anything for copies of this eBook. It may only be used on or associated in any way with an electronic work by people who agree to be bound by the terms of this agreement.. o titulo de Versos e Prosas de Fradique Mendes.E. If an individual work is in the public domain in the United States and you are located in the United States. Section 1. (traduzida). If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the terms of this agreement. aquella nariguda. distributing. pelas suas proporções. you indicate that you have read. e que tem tão lindamente engordado e ri com dentes tão lindos.Fradique. E é tempo que te mande. owns a compilation copyright in the collection of Project Gutenberg-tm electronic works. There are a lot of things you can do with Project Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic works. e em que elle se mostra. o do nosso esculptural visconde de Fonblant com mademoiselle Degrave.C below.pgdp.zip ***** This and all associated files of various formats will be found in: http://www. End of the Project Gutenberg EBook of A correspondência de Fradique Mendes. Of course. 1. we do not claim a right to prevent you from copying.A. See paragraph 1. by using or distributing this work (or any other work associated in any way with the phrase "Project Gutenberg"). milagrosamente. . n’esta linha. como sempre. devem formar um volume a que o seu compilador dará. sem que se esgote por mais que plenamente as arremesse aos teus pés adoraveis. There are a few things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works even without complying with the full terms of this agreement. by José Maria Eça de Queirós *** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CORR.gutenberg. um casamento de paixão e luxo. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm electronic work. que.htm or 27637-h. unless you receive specific permission. understand.E below. [3] O velho creado de quarto de Fradique Mendes. são naturalmente escriptas em francez. Special rules. They may be modified and printed and given away--you may do practically ANYTHING with public domain eBooks. o enternecido e erudito vigario de Nossa Senhora da Razão. 1. que beijo com submissão e com fé.) Updated editions will replace the previous one--the old editions will be renamed.B. set forth in the General Terms of Use part of this license. Eis tudo. não poderiam entrar n’esta collecção.8. and may not be used if you charge for the eBooks. [2] Muitas das cartas de Fradique Mendes. os dois milhões do cervejeiro. emfim. "Project Gutenberg" is a registered trademark. Todas essas vão acompanhadas da indicação abreviada trad. Nearly all the individual works in the collection are in the public domain in the United States.

or other immediate access to. without prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1. distribute or redistribute this electronic work. with active links to.7.E. 1. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm License terms from this work. your use and distribution must comply with both paragraphs 1. Royalty payments should be clearly marked as such and sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in Section 4. a full refund of any money paid for a work or a replacement copy.D. compressed. provide a copy.3. displaying. The fee is owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other form.6. Do not copy. at no additional cost.You provide a full refund of any money paid by a user who notifies you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm License. 1. 1. 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The copyright laws of the place where you are located also govern what you can do with this work. check the laws of your country in addition to the terms of this agreement before downloading.1. including any word processing or hypertext form.89 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós 1.E. The Foundation makes no representations concerning the copyright status of any work in any country outside the United States. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted with the permission of the copyright holder.E.1.E.E.net). . .E. fee or expense to the user. You can easily comply with the terms of this agreement by keeping this work in the same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.90 A correspondência de Fradique Mendes Eça de Queirós .5. performing. 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A CORRESPONDENCIA DE Fradique Mendes Obras do mesmo auctor: E�a de Queiroz A CORRESPONDENCIA DE FRADIQUE MENDES (MEMORIAS E NOTAS) PORTO LIVRARIA CHARDRON De Lello & Irm�o. editores 1900 A CORRESPONDENCIA DE FRADIQUE MENDES FRADIQUE MENDES (MEMORIAS E NOTAS) I II III III IV V VI VII AS CARTAS I II III IV V VI VII VIII IX X XI XII XIII XIV XV XVI .