Fragmentos_Degusta.

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2011 Esta é uma versão de demonstração, em baixa resolução, do livro “FRAGMENTOS DO INFERNO” e pode ser distribuida gratuitamente. Porém seu conteúdo não pode ser copiado, reproduzido ou alterado sem a permissão da editora estronho. Nesta versão Tiago Toy.
você encontra o conto

“IGNÁCIA”

de

A versão impressa possui melhor qualidade gráfica.
Todos os direitos desta edição reservados à Editora Estronho
www.editora.estronho.com.br

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pelo menos. http://terra-morta. Já atuou.Tiago Toy O nome real é proibido mencionar. Terra Morta. Tem certa dificuldade em dialogar conclusivamente. Seu primeiro livro. surgiu em 2008 na web e arrebanhou uma fervorosa legião de fãs. Adora capuccino. assim como sua idade. Em 2009 foi pra capital em busca de seu destino com 50 reais e 30 miojos na mochila..blogspot. Nasceu por engano em uma cidadela no interior de SP. Atualmente se empenha em virar um escritor famoso. Passa a maior parte das horas vagas escrevendo e bancando o Social Media. ou. desenhou. dias frios e sente saudades de sua família.. famoso. Não gosta de barulho nem de pessoas efusivas.com Fragmentos_Degusta. inclusive de sua gata Miyuki.indd 14 17/11/2011 17:46:03 . dançou e cantou.

corriam. analisava as fichas sobre a mesa. O Lar da Criança Favos de Luz abrigava menores vítimas de abandono ou maus-tratos. Se pudesse levaria todas para sua casa. Pela janela. mas a nicotina a ajudava a se acalmar. quando não se transformava em qualquer outro sentimento que a fazia receber de volta a eterna órfã. lembrava-se não de uma ou duas ou três. porém.indd 15 17/11/2011 17:46:04 . Era amor à primeira vista. Os olhos naturalmente esbugalhados passeavam pelas linhas. Fragmentos do Inferno E Fragmentos_Degusta. Estela não se recordava de nenhuma mulher que resistira a enrolar os dedos nos cachinhos da menina. A menina tinha nove anos e fora adotada pela primeira vez aos cinco. Os pais em potencial logo se apaixonavam pela carinha de querubim de Ignácia. muitas vezes tomada como arrogante. e a cabeça tentando entender: por que ela não se adaptava?. Tragando. um raro momento em que esqueciam sua condição de abandonados. Pulavam. No entanto. Já encaminhara várias crianças para ótimas famílias e se lembrava das despedidas envoltas em lágrimas de alegria. o máximo que podia fazer era procurar lares onde seus anjos pudessem viver felizes e saudáveis. Estavam felizes. Apesar de calma e dona de um sorriso radiante. Amor esse que acabava rápido. Naquele momento. Estela era rígida.15 stela sabia que não devia fumar ali. fina e rala. gritavam. viu as crianças no playground. séria. Ignácia não se enturmava. a sobrancelha direita arqueada. Era quase hora do almoço e nenhuma parecia estar com fome. mas sabia que ela não estaria lá. próximas à plaqueta que a identificava a toda e qualquer criatura que entrasse no escritório: Estela Albuquerque – Diretora. mas das seis despedidas da pequena Ignácia. Nunca! Estela já desistira de entender a antipatia que os órfãos pareciam nutrir por ela. Os olhos brilhantes e expressivos não demonstravam timidez alguma. mas amava aquelas crianças. enquanto a enxaqueca martelava as têmporas. Estela a procurou em meio à algazarra.

Trazia uma pasta amarela nas mãos e um grande sorriso encavalado acima do queixo protuberante. Reynaldo? – estava acostumada ao jeito exagerado do assistente social e nem lhe prestou muita atenção. voltou a verificar as fichas. Deu mais uma baforada. quase os fazendo saltar das órbitas. sem dar margem para questionamentos quanto àquele odor. Mal terminada a frase. mas o cheiro permaneceria. um urso de pelúcia marrom quase do seu tamanho. Lembrava-se da felicidade com que levavam Ignácia e não acreditava na frieza com que a traziam de volta. perguntar se havia sofrido maus-tratos ou se fizera algo que os aborrecera. Diversas vezes. Os casais nunca eram claros em suas explicações. em conversas com seu único amigo. mas Estela apenas ouvia aquele blá-blá-blá repetitivo. – Dona Estela. mas Estela sabia que tentar separá-los seria o mesmo que matar seu sorriso. sempre abraçada a Maylon. apagando o cigarro e jogando-o no lixo. Estela a encontrou absorta. Tentavam dar motivos para a devolução. tentara conversar com a menina. agarrada a Maylon. lançando um jato de fumaça sobre a montanha de papéis. Há alguns meses. na tentativa de livrar-se de qualquer indício. de trejeitos afetados. Nas primeiras vezes. desenhando. por hora a fio. irrompeu escritório adentro. lendo as figuras dos livros ou deitada. – Encontrei uma parenta do pai de Ignácia. Tiago Toy .indd 16 17/11/2011 17:46:05 .16 Ignácia não demonstrava tristeza. tampouco aborrecimento. Faltava-lhe um olho e a costura da boca estava solta. e ouviu as batidas na porta. – Pode entrar. Apesar das rejeições.Ignácia Fragmentos_Degusta. ela havia voltado pela última vez. a porta se abriu e um rapaz alto e moreno. Abanou o ar. mantinha o lindo sorriso entre as bochechinhas rosadas e corria para seu quarto. a senhora não vai acreditar! – O que foi. Passava a maior parte do tempo sozinha. e largou os papéis. Ignácia sorria timidamente e respondia apenas com um singelo “não sei”. – Só um minuto. Com uma expressão séria. Estela arregalou ainda mais os olhos. – disse apressada.

enquanto batia as unhas na mesa. entendeu. nesse momento. Talvez seja um sinal. sozinha. homem. A desconfiança aumentou. – Mas tem tios-primos de quarto grau.– Como assim? Sabemos que ela não tem tios. balançando a pasta. praticamente cuspindo as palavras. O assistente engoliu em seco e quase se arrependeu de ter falado naquele tom. Reynaldo abriu a pasta e exibiu a ficha de Mônica Volquimar. Tinha vinte e seis anos. nem nada. – Não podemos mandar Ignácia para esse lugar. – Eu fui criado naquela região e garanto que não sou nenhum viciado. ofendido. Estela. enfurnada naquele quarto. Estela não entendeu porque Reynaldo estava enrolando tanto. os danos serão maiores do que se ela viver onde essa mulher mora. O receio de ser mais um ponto sem nó de Reynaldo deixou Estela com um pé atrás. Fragmentos do Inferno 17 Fragmentos_Degusta. trabalhava no Banco HSBC e morava no Centro de São Paulo. Encarando-a por algum tempo. Estela fuzilou Reynaldo. Talvez não tenha dado certo com os vários que tentaram exatamente por causa disso. – Vá direto ao ponto. e pra quê? Pra estar. – Antes de mostrar as fichas. – A menina já foi para vários bairros de São Paulo. enfim. Você viu onde essa mulher mora? Reynaldo sabia que Mônica vivia próxima à região da Cracolândia e temia que Estela não enxergasse além. falta de um parentesco. conversando com aquele urso rasgado! É assim que você quer que ela continue até os dezoito anos? Se for o caso. A tensão tomou conta do escritório. em um ponto nada convidativo. acredito que eles possam fazê-la se sentir em uma família.indd 17 17/11/2011 17:46:06 . Sou? Ou você acha que todos que vivem ali são marginais? – Reynaldo abandonara o sorriso e adquirira um ar mais sério. quero que você se lembre do quanto queremos que Ignácia seja adotada por alguém que a ame de verdade. dois sendo de classe alta. O assistente percebeu a desconfiança em seu olhar e continuou. Apesar de alguns detalhes.

torrada. Estela queria saber se Ignácia se adaptaria. Estela firmou um acordo. Mônica e seu marido.indd 18 17/11/2011 17:46:07 . dinheiro esse destinado à compra de um apartamento em Santana. apesar de viver onde vive. aceitaram a adoção sem pestanejar. Foi clara sobre quase hesitar em procurá-los devido à localização de seu apartamento.– Tudo bem. pelo contrário. zona norte de São Paulo. Eduardo. ela tem condições de criar uma criança. – Estela concordou.Ignácia 18 Fragmentos_Degusta. Mantinha os cabelos lisos e escuros em um discreto topete e andava ligeiramente encurvado. ela lançou uma piscadela para o urso sobre a cama. Reynaldo saltitou pra fora da sala. antes que o sorriso desproporcional se formasse no rosto do assistente. é esse o nosso trabalho. de corpo violão e cabelos encaracolados com pontas amareladas. somente quando se mudassem para o apartamento. mas a cabeça em chamas do pedacinho de madeira a alcançou. Em um quarto onde o sol tentava entrar pelas frestas semiabertas da veneziana. Ignácia passaria duas semanas com eles. Aliviada. o casal teria sua guarda definitiva. Questionou sobre a moradia e ficou feliz ao saber que eles possuíam uma interessante economia guardada. acendeu um fósforo. por fim. Afinal. A formiga tentou mudar a direção. era muito branco. Tiago Toy . Com um sorriso sapeca no rosto de anjo. vamos marcar uma entrevista com essa Mônica e descobrir se. de cócoras no chão. enquanto Estela sorria discretamente e acendia outro cigarro. – Mas antes de contar à Ignácia. Ignácia. Mônica era uma mulata linda. Estela os convocara para uma entrevista em uma quente tarde de sábado. No fundo. O que a convenceu foram os ótimos empregos do casal. No entanto. ela levantou um dedo. – Já tenho o telefone. então. A menina ouviu o quase inaudível crepitar e assistiu a formiga tremelicar duas vezes antes de cair. para o qual se mudariam em alguns meses. voltaria ao lar de adoção e. mas nem assim despreocupada. Eduardo.

Eduardo e Mônica se apaixonaram pela pequena. – Meu pai Oxalá. mais você é muito gentil. os dois foram apresentados à Ignácia. que só os conhecia através das fotos mostradas pelo assistente. Mônica questionou a diretora do orfanato sobre as cicatrizes no braço esquerdo da menina. erguendo a cabeça – É sua sobrinha? 19 Fragmentos do Inferno Fragmentos_Degusta. Dona Mônica.indd 19 17/11/2011 17:46:08 . – interrompeu a garota. Sem que Ignácia ouvisse. – Oh. Encurvou-se de modo limitado e enrolou o indicador gordo nos cachos sedosos. Assim que entraram. Mônica se limitou a um breve aceno. Ignácia chegou ao apartamento 41 do edifício Santa Eulália. Sem fingir simpatia. mas quem é essa criaturinha linda que está com você? – Ela se chama. – A senhora tem um sorriso bonito. logo encontraram umas das moradoras em sua eterna vigília. Parecia não notar o ar de contentamento da menina. roubando uma risadinha de Ignácia. porém se conteve quando Ignácia parou em frente à velha. Pudera. minha filha! – e. Sob a luz.Acordo fechado. aproximando-se. Seu Eduardo. – Nada que uma plástica não resolva. seus olhos amendoados adquiriam uma linda nuance esverdeada. A pele branca como marfim contrastava com os cabelos cacheados cor de cobre. Ao explicar sobre o incêndio que matara seus pais.. a menina era uma boneca viva.. Dona Neuza não pareceu surpresa com o elogio. Mônica não disfarçava a ansiedade. Na semana seguinte. Estela se espantou com a praticidade da resposta da mulher. Um sorriso nervoso permaneceu estampado em seu rosto durante todo o trajeto. Eu gosto. – Bom dia.

. o candomblé. sem aquele costumeiro fedor de mofo que impregnava as paredes. Não que fosse uma questão de preconceito. mas enérgico. minha filha? Porém. 20 Tiago Toy . Deu um pulo sobre o colchão e colocou o urso cuidadosamente ao lado dos travesseiros. Ignorou o resto do quarto.Mônica torceu o nariz. enquanto encarava o único olho do urso. tentando não parecer rude. Se nos der licença. Abraçada a Maylon. Da rua. Dona Georgina realmente havia caprichado na limpeza. Ele. – Gostou? – Mônica parecia mais criança do que a própria Ignácia. a tirava do sério. e Ignácia está cansada. – Seja bem-vinda. Mônica interviu. puxou a menina pelo braço.indd 20 17/11/2011 17:46:09 .. – e. os olhos tensos. acabamos de chegar do. dizia sempre para si. Mônica encarou Eduardo. minha filha. – gritou. O ambiente era mal iluminado e estava quase que completamente decorado com a cor preferida da menina: vermelho.Ignácia Fragmentos_Degusta. Falava de modo infantil. sua religião talvez. nutria uma aversão especial por aquela velha mexeriqueira.. mas também não queria sua filha frequentando a casa de gente daquele tipo. – Como você disse que gostava de vermelho. de modo delicado. a menina seguiu em direção à cama e passou a mão queimada sobre os babados da colcha. antes que as duas desaparecessem escada acima. talvez percebendo que não obteria resposta. – Gostamos. Algo em Dona Neuza. – Dona Neuza. Ignácia se voltou para o casal com um sorriso de aprovação... que não era muito de falar.. O primeiro lugar ao qual Mônica a levou foi ao seu quarto. continuou. – Você aceita um doce. pigarreou. em uma voz demasiado doce. antes que Ignácia pudesse responder. Dona Neuza. Além de não gostar de dar satisfação a curiosos. Estava impecavelmente limpo.

– uma mancha branca enfeitava seu queixo. – a menina continuou olhando. que vira um cachorrão depois. Eduardo a observava. calado. suspirou. Mônica mantinha um sorriso nervoso nos lábios carnudos e se animou quando a menina fez um movimento. objetos decorativos e até de um filhote de São Bernardo. sentando-se ao seu lado. Trazia uma jarra de suco de laranja e alguns doces comprados na padaria. muda. – Até o cachorrinho? – finalmente Ignácia falou. Ignácia deixou o sonho de lado e observou o painel atentamente. – Esse é o Painel das Metas. – Até o cachorrinho. Aqui é muito bonito. Ignácia não esperou o convite e atacou um sonho. – Está muito gostoso. Vocês preferem um cachorrão ou um filho? Eduardo e Mônica foram pegos de surpresa pela pergunta. – e deu outra mordida no doce. Mônica. recortes dos mais variados tipos emolduravam a foto de um apartamento de luxo com vista para um bosque. Analisava cada detalhe. Ao perceber que ela se interessara mais pelo suco. – Eduardo brincou. Ao redor. – Gostou mesmo daqui? – Sim. Prefiro um gatinho. deitado em uma poltrona de couro e com os pés sobre um apoio. Nele. – Aqui o Du e eu colamos recortes de como queremos que seja nosso apartamento e o que queremos nele. – Isso porque você não viu o nosso futuro apartamento.indd 21 17/11/2011 17:46:10 . impaciente. 21 Fragmentos do Inferno Fragmentos_Degusta. Apontou para um painel acima de sua cabeça. Mônica se aproximou e limpou-a com um guardanapo. – Não gosto de cachorrão. Eduardo riu do inocente comentário. imagens de móveis de alto padrão. Ignácia tomou um gole de suco. sem dar importância ao momentâneo silêncio. achou que a menina demorara muito para perguntar do que se tratava e foi logo explicando.Mônica entrou na sala com uma bandeja.

– Não sou não. – Não sou linda. querida? – Você disse que o doutor vai curar meu defeito. menina. – Eduardo continuava rindo. – Claro que você é linda. – Mônica se adiantou. foi até a garotinha e se ajoelhou. a cura é comer muito arroz com feijão. Nesse momento. – Então. querida. Pessoas perfeitas não têm defeitos. um presente de nós dois. – Seria uma surpresa. pegando seu braço com a cicatriz. Mônica sorriu e alisou o braço da menina.22 – Preferimos os dois. Ignácia. – Tem doutor que faz a gente crescer? – Como assim. – Podemos cuidar de um cachorro e de uma menina linda como você. – Isso não é defeito. – É uma menina perfeita. E nós vamos resolver isso pra você. sem saber o que falar. que continuava encarando-a com ar de interrogação. – Se é esse seu defeito.indd 22 17/11/2011 17:46:11 . deixando Ignácia ligeiramente ofendida. – Nós estamos vendo alguns médicos para te deixar perfeita. – lançou um sorriso ao marido. Mônica. – Eu sou muito baixinha! Eduardo explodiu em gargalhadas. deixando Mônica corada. curiosa. enquanto Eduardo enfiava alguns biscoitos na boca. que estava parada ao lado do painel. O casal se entreolhou. – Mônica elogiou. Tiago Toy . Ignácia abaixou a cabeça. claro. tá bom. na costumeira voz infantil. a boca cheia de biscoitos. Ignácia a encarou. Mônica emudecera. – De qual defeito estamos falando? – Mônica se perdera completamente. – Ignácia voltou a sorrir e engoliu o último pedaço de sonho.Ignácia Fragmentos_Degusta. – E isso não vai faltar. Faziam ideia do motivo de sua tristeza repentina.

Mônica. Ignácia. que estava no corredor. Eduardo encostou a porta do quarto. Pegando o controle remoto no braço da poltrona. Eduardo estranhou o sorriso da menina. vestir o pijama.Eduardo e Mônica haviam explicado a situação em seus trabalhos e conseguiram uma semana de folga. Mônica lançou-lhe um olhar repreensivo. Eduardo levantou num pulo e se atrapalhou ao apagar o fogo. Colocara o jornal sobre o cinzeiro com uma bituca de cigarro ainda acesa. Ela sempre fora do tipo que jogava as coisas na cara. enquanto rabiscava um bloco de notas. não em resposta ao seu pedido. bloqueada pela nova mãe. Ele era gerente de vendas em uma empresa de telemarketing. mas fitando o jornal queimado.indd 23 17/11/2011 17:46:12 . fazendo-a assinar um papel onde se comprometia a trabalhar dobrado quando voltasse. Haviam combinado de tomar cuidado com fogo perto de Ignácia. – Talvez tenha queimado junto com o jornal. Ficou tão entretido com novelas que levou um tempo até ouvir a voz da esposa. – Depois diz que não é distraído. sujando o tapete com cinzas. e a menina. por menores que fossem. Dois dias depois da chegada de Ignácia. então. ainda era caixa no banco e experimentara certa relutância por parte da gerente em conceder-lhe as faltas. não tivera dificuldade em se dar uma folga. – Apaga isso! Ele demorou a entender o que acontecia. Depositou o jornal sobre a mesa de centro e apoiou os braços atrás da cabeça. Eduardo estava acostumado ao gênio da esposa. – Me desculpe por isso. o que dera início a um pequeno incêndio. – Eduardo! – estava gritando. pelo contrário. Decidiu ignorar seu mau humor e foi ao guarda-roupa. – Ela ainda não perdoara o deslize ocorrido à tarde. Fragmentos do Inferno 23 Fragmentos_Degusta. Mônica estava fazendo contas com uma calculadora. conseguiu entrar e vislumbrou os últimos resquícios de chamas. ligou a TV assim que a novela da tarde começou. – Você viu meu isqueiro? Enrolado em uma toalha. Eduardo estava na poltrona lendo um jornal enquanto Mônica havia ido ao mercado com a menina.

Mônica emudeceu. acariciou os cachos da esposa. se tivesse nascido. Se Eduardo fosse como a mulher. Você ia gostar que nosso filho fosse como ela. – Além disso. largada naquela cama. meu amor. – É perfeita.. Mônica. mais do que já temos? Olha a Angélica. sabendo que o Tiago Toy . mas decidiu-se por uma trégua. Parece uma bonequinha. mas que não tá nem aí pra ela? Ou você acha que aquela Valesca se importa se a menina está bem ou não? Eduardo continuou em seu mutismo. E nós perdemos. Nem eu fazia ideia desse primo distante. mas nos ganhou. ele teria sido infeliz. – Os Silva se matam de trabalhar. então. Às vezes. você quer dizer.indd 24 17/11/2011 17:46:13 . – Olha o presente que ganhamos. Ignácia perdeu os pais. Deu mais um beijo e enxugou a lágrima que rolou pela face do marido. na esperança de que algum dia ela se levante daquela cama e. e tudo pra quê? Pra manter a filha semiviva. Preferia sofrer sozinho. não é? Mônica pensou em empurrar sua mão. optou pelo silêncio. Eduardo não a encarava. Sabia que isso a magoaria. mas ela pôde ver seus olhos marejados. A mulher percebeu e alisou seus cabelos. – Muito. Você sabe que.24 Deitando-se. de jogar as coisas na cara.Ignácia Fragmentos_Degusta. – Ela é linda. Você ia querer ter que lidar com tantos problemas. diria que foi ela quem escolheu abortar. Aborto é premeditado. – não conseguiu continuar diante do olhar repentino de Eduardo. A menção da palavra perfeita deixou-o com um olhar vago. Mas o que tinha em mente guardou para si. – Foi melhor assim. sendo cuidada por uma criatura que se diz enfermeira. Deus nos tira pessoas especiais para nos dar outras melhores. – fechou o bloco e deu-lhe um beijo. – Nós escolhemos perder.. Uma criança defeituosa não se adapta.. ele teria nos dado muito trabalho..

O barulho que Eduardo fazia a irritava ainda mais. Correu até a panela e a tirou do fogo. O cômodo estava vazio. estranhou ao ver a carne longe de estar pronta. acreditando ser a TV. Arfou de surpresa diante da pequena labareda que surgiu. Deixou o pano próximo à poça de óleo e foi até a sala. querida? – a voz de Eduardo veio da lavanderia que agora. Viu alguns pelinhos de Maylon chamuscando. Mal se abaixou para limpar a sujeira e ouviu gritos. – Está tudo bem aí. potes e aquele inferno todo. Prevendo que teria que cozinhar tudo novamente. Agora poderia dispensar as caixas de fósforo e Maylon não se sentiria tão incomodado. Escutou por um tempo. ainda tinha que aguentar aquilo. já não bastasse ter de cozinhar. se preparou novamente para limpar o chão. Ela tampou a panela onde preparava a costela e foi até a lavanderia. Pegou um pano velho e. escorregou o dedo e tentou novamente. Mônica se conteve para não xingar. onde um pequeno rasgo servia de esconderijo. Apagou o abajur do seu lado e virou sem dar boa noite. De volta à cozinha. mas não ouviu mais nada. Ignácia manteve o dedo pressionado e aproximou o isqueiro. – Não foi nada. Cheirou o ar em busca Fragmentos do Inferno 25 Fragmentos_Degusta. até que parte de seu braço esquerdo adquiriu uma marca escura. porém o cheiro de queimado a assustou. ao sair.indd 25 17/11/2011 17:46:14 . Curiosa. Ignácia devia estar no quarto. como sempre. depois da chegada de Ignácia. O olho do urso brilhava diante do fogo. servia como depósito para as suas tranqueiras. Como odiava panelas. Foi queimando e queimando e queimando. sorrindo ao descobrir o segredo daquele objeto.veria em seus pesadelos. Admirou o objeto por alguns minutos e rolou a pedra. Uma marca igual à sua. Ignácia tirou o isqueiro de baixo do braço de Maylon. a boca costurada com uma linha vermelha em forma de sorriso. encostou a porta. O vidro de óleo se espatifou no chão.

formando instantaneamente um galo. Mônica ouviu o marido chamando.Ignácia Fragmentos_Degusta. o prédio está pegando fogo. ouviu os gritos. – Mônica..indd 26 17/11/2011 17:46:15 . que bateu com um forte estrondo. abre a porta! – Eduardo começou a se alterar. O que será que aquela louca daquela crente está aprontando agora? – pensou. Desconfiada. – Eduardo gritou. – Edu. Vinham do corredor.26 do foco do odor forte. começaram os socos e pontapés. Era como se estivesse trancada. Com dificuldade. mais uma vez. – Edu. Da fresta da porta emanava uma luz. correu de volta à sala e não acreditou ao encontrá-la tomada pela fumaça... Tiago Toy . porra! – EU NÃO CONSIGO! Mônica gritou ao ouvir o primeiro chute. a tomada da TV explodiu. ela levantou e girou a maçaneta. Era fogo. sentiu uma dor aguda no joelho e conteve o grito ao perceber um pedaço de vidro cravado na perna. – EDUARDO! Mônica disparou pela cozinha. Foi quando. Levantando-se. originando um incêndio que logo tomou conta das cortinas. A pancada foi certeira em sua testa. – Pega a menina e sai daqui. Ao passar pelo óleo. mas a porta não abria. – O quê? – Fogo! Um momento de silêncio e. – Mônica.. as batidas se intensificaram. Em seguida. em seguida. escorregou e se chocou contra a porta da lavanderia. – Não consigo. – Abre essa porta. Antes que pudesse pensar em chamar Eduardo. por que você me trancou? Via a maçaneta girando. desesperada. Encostada contra a porta.

mas teve a impressão de que o fogo se curvou em sua direção e se afastou. Mônica quase escorregou novamente no óleo quando o exaustor se incendiou. – IGNÁCIA? Era impossível enxergar qualquer coisa. Mancando. Seus dedos haviam queimado. ignorando a dor lancinante nos pulmões. atravessou a sala tomada pelo fogo.– Mas Edu. Mônica sentiu o coração apertar ao descobrir que os recortes do Painel das Metas tinham sido reduzidos a cinzas. – Ignácia! Onde você está? Temos que sair daqui! A porta do quarto estava com a base negra. impedindo-a de conseguir a água. Engasgando com a fumaça. Havia também uma barreira de chamas que a impediam de se aproximar da cama. abafando os gritos.. Mônica temeu que fosse tarde. Mônica enxergou a silhueta de Ignácia sobre os travesseiros. alastrando o fogo. vem pra cá. Teve a ideia de buscar água. O fogo tomara conta também da cozinha. Devia estar apavorada. Mais uma vez ela atravessou o corredor. cruzou o corredor com a mão na boca. E você? – ela começou a chorar.indd 27 17/11/2011 17:46:16 . Pegou um quadro da parede e forçou a maçaneta para baixo. A poltrona de Eduardo não mais existia. – Aguenta mais um pouco que eu já volto! A situação no corredor havia piorado. – Eu me viro. Mônica pegou a maçaneta e gritou de dor. além de um fogaréu no lado esquerdo. e chegou ao banheiro. As fiações haviam sido atingidas pelo fogo e a fumaça a impedia de encontrar a saída. Vasculhou por algo com que pudesse carregar a água e encontrou apenas um balde meio Fragmentos do Inferno 27 Fragmentos_Degusta. Não precisa ter medo. Rápido! Amedrontada. meu amor.. Tentou chegar mais perto. A sala havia se transformado em um inferno. Vai. as mãos ardendo a cada toque. A menina permanecia imóvel. Faíscas e estampidos fortes vinham da TV. encontrando o quarto envolto em fumaça negra. e quase não conseguia respirar. A TV explodira. Mônica tateava as paredes. Restava uma última tentativa. – Ignácia.

só percebeu que estava com os cabelos em chamas quando chegou à sala. Talvez soubessem o que os esperava. Encheu-o até onde foi possível e correu até o quarto de Ignácia. Sabia que não a chamaria até a hora do jantar. Após alguns dias. tropeçou nos próprios pés quando uma explosão sacudiu o edifício. Em seu desespero. No momento em que voltou ao corredor a janela explodiu. Desnorteada. imóvel. despejando a água sobre a cama. Tentou apagar com tapas. Mônica concluiu que não havia mais o que fazer e desistiu. O casal aprendera a dar a privacidade que ela precisava. Diversas vezes. eles não apareceram mais no quarto. e desceu as escadas para o andar inferior. indo em direção à janela arrebentada. não encontrou inseto algum. não sentiu mais nada. Nas pontas dos pés. cercada pelas chamas. Ignácia havia queimado completamente o braço esquerdo do urso. principalmente durante a madrugada. O quarto era rapidamente consumido pelo fogo. que a olhava como se ela fosse um pequeno monstrinho.quebrado.Ignácia 28 Fragmentos_Degusta. – Eduardo. aumentava seu sorriso. mas o calor na cabeça só fez aumentar. onde os encontrava. De repente.. pelo contrário. O cheiro forte não a incomodava. Chorando e tossindo. avistou algo Tiago Toy . saiu do apartamento. Ignácia continuava lá.indd 28 17/11/2011 17:46:17 . Antes que pudesse se declarar frustrada.. não conseguiu se segurar no parapeito e caiu. o isqueiro no bolso da calça. A última coisa que sentiu foi o couro cabeludo queimando enquanto caía. Escondido entre a parede e a cabeceira havia um vidro. ela o deixou sobre os travesseiros e saiu. Encarando Maylon por alguns minutos. muda. Puxando os cabelos. Passou pela porta da mulher estranha do 42. – IGNÁCIA? – gritou. Ignácia saíra escondida para o corredor. ao perceber que o balde não seria de muita ajuda. Mônica havia chegado do mercado há algum tempo. onde jaziam inúmeros insetos torrados. mas a cama permanecia intacta. Seguindo o rodapé do corredor.

o bicho disparava e ganhava vantagem. mais pessoas chegavam. Apesar da cena chocante. Decidida. Um sorriso surgiu no rostinho de anjo. A multidão de curiosos se aproximou do corpo. Sem se preocupar com segurança. Ignácia desceu os degraus aos pulos. enquanto outras pessoas gritavam. do edifício. A perseguição durou pouco. e viu a aranha sumir pela porta de saída. outras às vítimas que eram expulsas. ela se viu diante da porta de Dona Neuza. Os olhinhos amendoados brilharam e o isqueiro acendeu. vivas ou mortas. O gato deu uma patada no bicho morto. estranhamente fechada àquela hora da noite. A cabeça da mulher estourara com o impacto. seguiu até a escada. Ignácia foi atrás.se movendo no fim do corredor. Curiosa. grandes e cabeludas. Pouco do cabelo restara. Não era uma aranha normal. descendo mais um lance de escadas. onde avistou uma aranha descendo os degraus. observava tudo com olhinhos brilhantes. 29 Fragmentos do Inferno Fragmentos_Degusta. tirou do bolso uma aranha por uma das pernas. Com uma das mãos. Logo. Ignácia assistia ao fogo consumir o edifício. fugindo das investidas da garota. abandonando o Santa Eulália. Uma senhora desmaiou. A curiosidade diante da tragédia só aumentava. umas atentas às labaredas cada vez maiores. Parecia aquelas dos filmes. Em meio ao grupo que crescia a cada minuto.indd 29 17/11/2011 17:46:18 . Agarrada a um gato que escapara das chamas e que lhe fora entregue por um dos homens fardados que jogavam água no prédio. Quando conseguia se aproximar. A aranha seguiu pelo andar inferior mais rápido. exibindo o couro cabeludo deformado. torrada.

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