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Agricultura orgânica 

[Matéria do Informativo Meio Ambiente e Agricultura ­ ano V nº 17 jan/fev/mar 1997] A agricultura orgânica pode ser definida como sendo um sistema de produção que exclui  o   uso   de   agrotóxicos,   de   adubos   minerais   de   alta   solubilidade   e   de   reguladores   de  crescimento. Desta forma, há necessidade da utilização dos princípios ecológicos e da  conservação   dos  recursos  naturais  para  o  seu  desenvolvimento,  sendo  fundamental  a  busca do equilíbrio ecológico. Assim, entende­se por produto orgânico aquele produzido  em um sistema de produção sustentável no tempo e no espaço, mediante o manejo e a  proteção   dos   recursos   naturais,   sem   a   utilização   de   produtos   químicos   agressivos   ao  homem e ao ambiente, mantendo­se o incremento da fertilidade e da vida dos solos e a  diversidade biológica. No   termo   agricultura   orgânica   estão   agregadas   as   correntes   da   agricultura   orgânica  propriamente dita, da biodinâmica, da organobiológica ou biológica, da natural, do método  agrobiológico   e   da   permacultura.   Estas   correntes   possuem   objetivos   comuns,   porém  apresentam filosofias e princípios próprios. A agricultura orgânica iniciou­se a partir de observações feitas pelo micologista e botânico  inglês Albert Howard, que ao chegar na Índia, onde trabalhou de 1899 a 1940, teve a  oportunidade de constatar que os nativos não utilizavam em suas plantações agrotóxicos  ou adubos minerais. A prática comum era devolver à terra os resíduos vegetais e animais  compostados   em   pilhas.   Em   resposta,   as   lavouras   e   os   animais   eram   vigorosos,  produtivos e isentos de pragas e de doenças. Assim, Horward entendeu a influência que  um   ambiente   equilibrado   exerce   sobre   as   plantas,   animais   e   o   próprio   homem.   Esse  método foi sendo aprimorado ao longo do tempo e hoje encontra­se difundido em todo o  mundo. A agricultura biodinâmica surgiu através de conferências proferidas por Rudolf Steiner em  Koberwitz, Silésia (hoje Polônia), em 1924. Steiner falou a um grupo de agricultores e  cientistas, ligados à comunidade antroposófica, sobre a influência que o cosmo exerce  sobre   o   solo,   as   plantas,   os  animais   e  de   que   forma  pode­se  utilizar   estas   forças   na  agricultura. Assim, ressaltou a importância do organismo agrícola, que deve buscar uma  inter­relação entre as atividades de produção animal e vegetal. A agricultura biodinâmica  tem por base o uso dos preparados biodinâmicos, feitos de extratos de plantas e soluções  orgânicas e minerais, além do calendário agrícola. Sabe­se ainda que muitas das técnicas  utilizadas   na   agricultura   biodinâmica,   como   a   incorporação   da   matéria   orgânica  compostada   ao   solo,   a   adubação   verde,   a   rotação   e   a   diversificação   de   culturas   são  comuns às outras correntes.

A agricultura natural criada pelo japonês Mokiti Okada, fundador da igreja messiânica, em  1935, baseia­se no uso de técnicas que conferem ao solo as mesmas características de  um   solo   de   mata   virgem.   Muitas   destas   técnicas   são   as   de   uso   comum   nas   outras  correntes, mas há necessidade de ressaltar que o composto é feito exclusivamente de  resíduos   vegetais,   pois   segundo   seus   seguidores,   o   uso   de   resíduos   animais   pode  contaminar rios e lagos, além de trazer mau cheiro e atrair insetos. A   permacultura   surgiu   na   Austrália,   por   volta   de   1971,   por   iniciativa   de   um   grupo   de  agricultores   e   ecologistas   que   buscavam   auto­suficiência   para   as   pequenas   e   médias  propriedades.   Esta   corrente   trabalha   principalmente   com   as   culturas   perenes,   não  deixando de trabalhar com as culturas anuais e com animais, para preencher espaços  entre as culturas perenes em crescimento. Os seguidores desta corrente baseiam­se na  teoria   e   na   filosofia   que   as   mudanças   acontecem   com   a   implantação   de   um   grande  número de projetos. Assim, cada pessoa envolvida sente realmente qual é o seu papel  diante do projeto e da sociedade. A   agricultura   organobiológica,   difundida   principalmente   na   Suíça,   Alemanha,   Áustria   e  Escandinávia, baseia­se na compostagem de matéria orgânica na superfície do solo e no  teste microbiológico ou biológico para avaliar a fertilidade do solo. O método agrobiológico, desenvolvido na França, tem por particularidade o uso de pó de  alga marinha, Lithothanme calcareum, rica em micronutrientes. Apesar   das   particularidades   demonstradas   para   cada   modelo,   o   termo   agricultura  orgânica é usado para modelos agrícolas não relacionados com a agricultura baseada no  uso de agroquímicos. Sendo que, independente do termo utilizado, os princípios básicos  que regem estas correntes estão relacionados ao entendimento holístico da agricultura;  ao processo de pesquisa multidisciplinar e elaborado com a participação dos agricultores;  à observação das relações de equilíbrio e harmonia homem­natureza; à compreensão do  solo como um organismo vivo e dinâmico; à sustentabilidade da agricultura; à nutrição do  solo, enquanto organismo vivo e não da planta; e à não utilização de produtos químicos  agressivos ao homem e ao ambiente, entre outros. Na agricultura orgânica é fundamental o manejo e a conservação do solo para se obter  adequadas   características   físicas,   químicas   e   biológicas.   Assim,   este   deve   apresentar  quantidade   equilibrada   de   nutrientes,  altos   teores  de   matéria   orgânica,   ser   equilibrado  biologicamente, ser bem estruturado e livre de agroquímicos. Uma das formas para se  obter essas características é a incorporação de matéria orgânica (composto, chorume,  biofertilizante, adubação verde) ao solo, pois além de acrescentar nutrientes e melhorar 

as suas propriedades físicas, mantém um equilíbrio microbiológico essencial para tornar  as   plantas   resistentes   às   pragas   e   aos   patógenos.   Caminhando­se   em   direção   ao  equilíbrio   biológico,   ocorre   redução   dos   problemas   causados  pelas   pragas,  doenças   e  plantas invasoras. Outros aspectos a serem considerados na agricultura orgânica são a rotação de cultura, o  cultivo intercalar e o cultivo de diversas espécies simultaneamente. A utilização destas  técnicas tem por objetivo aproveitar a adubação residual e quebrar o ciclo de vida de  patógenos e de pragas, devido à mudança no hábito alimentar; melhorar o aproveitamento  dos   espaços;   e   aumentar   a   diversidade   de   culturas   para   a   comercialização. Os   alimentos   orgânicos   são   livres   dos   resíduos   de   produtos   químicos,   como   os  agrotóxicos,   conferindo   maior   segurança   ao   consumidor.   Além   disso,   a   agricultura  orgânica não contamina os solos e os mananciais hídricos com resíduos de agrotóxicos, o  que é fundamental, pois são numerosas as pesquisas demonstrando a contaminação da  água   superficial   e   subterrânea   com   estes   produtos,   tornado­as   impróprias   para   o  consumo. Atualmente, no Brasil e no mundo, existem à disposição dos consumidores, numerosos  produtos   agrícolas   de   origem   orgânica,   como   hortaliças,   frutos,   cereais,   café,   fibras,  derivados de leite, carnes, vinhos, sucos e temperos, entre outros. Pelas características especiais da agricultura orgânica, existem procedimentos que são  recomendados   e   outros   proibidos,   sendo   este   o   assunto   do   próximo   artigo   que   será  publicado no Informativo nr. 18. Marlene Borges Pós­graduanda em Sociologia Rural pela Feagri­Unicamp. Wagner Bettiol Pesquisador da Embrapa Meio Ambiente.
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