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SOCIEDADE

AO SOM DE ‘OS TRÊS PALHACINHOS’

Com a ajuda de engenhos especiais, Ana Isabel e os outros meninos exercitam a motricidade

LUÍS BARRA

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LUÍS BARRA

SAÚDE

Terapia pela música
A produção de sonoridades a partir de instrumentos, com ou sem recurso à voz, está a ser aplicada com êxito na reabilitação de crianças com deficiência
CLARA SOARES

as noções de espaço e de tempo, e se possível, de sincronização. Graciete Campos, directora do núcleo de Faro, é a primeira a mostrar-se satisfeita com os resultados. Apesar de se tratar de uma população com deficiências neurológicas e mentais, cujos progressos são lentos, «registaram-se melhorias significativas ao nível da auto-estima, da socialização e até das capacidades cognitivas». Pequenas conquistas A aplicação da música na reabilitação ganhou visibilidade durante as duas guerras mundiais, quando os veteranos incapacitados, física e emocionalmente, apresentavam rápidas melhoras na sequência das visitas de músicos aos hospitais de campanha. Com a oficialização do primeiro curso de musicoterapia, no Estado americano de Michigan, nos anos 40, a especialidade passou a ser reconhecida internacionalmente, conquistando mais adeptos nos sistemas de saúde da América do Sul, Estados Unidos e Reino Unido. A partir dos anos 80, esta técnica expressiva foi largamente difundida no contexto psiquiátrico – em Lisboa, surgiram projectos-piloto no Hospital Júlio de Matos. Com os avanços da
VISÃO 17 de Abril de 2003

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ssim que entram na sala, ganham outro fôlego. Agarrados às cadeiras de rodas, os miúdos já sabem onde devem ficar durante a sessão. O mote é lançado pela terapeuta, que inicia os primeiros acordes da melodia Os Três Palhacinhos, que eles reconhecem igualmente através de pautas com imagens, afixadas nas paredes. Ana Isabel, 13 anos, não tem atraso mental, mas a paralisia cerebral deixou-a sem coordenação dos membros e impossibilitada de falar. Embora não consiga seguir o ritmo na perfeição, acompanha a letra através dos desenhos e tecla os sons no órgão, graças a um capacete equipado com um ponteiro. Atenta aos movimentos dos «prota-

gonistas», Gabriela Rodriguez de Gil, argentina radicada em Portugal e há três anos a trabalhar no núcleo regional de Faro da Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral, vai orientando a sessão de musicoterapia que dura, em média, 45 minutos. «A ideia não é fazerem uma produção musical rigorosa», esclarece. Assim exercitam a motricidade, a expressão e outras capacidades, que ampliam depois, no quotidiano. Formada pela Universidade de Salvador, a musicoterapeuta construiu, com a ajuda do pai, uma instalação metálica que comporta vários instrumentos musicais adaptados. As argolas de pé e mão, ligadas por roldanas, os interruptores de queixo e outros engenhos criados especificamente para cada caso permitem accionar cada peça do conjunto e trabalhar

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SOCIEDADE

As implicações da musicoterapia na saúde (seja através da audição ou da criação activa de sons, individualmente ou em grupo) justificam o seu uso na prática clínica

APLICA-SE A
• DISFUNÇÕES NEUROLÓGICAS (ex: paralisia cerebral) • AUTISMO E DIFICULDADES DE COMUNICAÇÃO • ALTERAÇÕES DE COMPORTAMENTO (ex: hiperactividade) • DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM (crianças) • DEFICIÊNCIA MENTAL (estimulação precoce) • ESTADOS TERMINAIS (geriatria)

FACILITA A
• Coordenação motora • Tónus muscular • Organização sensorial • Capacidades cognitivas (atenção, memória, etc.) • Expressão emocional • Competências sociais • Desenvolvimento da auto-estima

medicação, os doentes podiam reintegrar-se fora dos asilos, flexibilizar condutas e adquirir bem-estar pela terapia com recurso ao som. Facilitadora da comunicação em pessoas de todas as idades, esta intervenção pode ser combinada com tratamentos convencionais, em situações de doença ou de crise – como no caso das crianças órfãs do Kosovo, que foram seguidas por uma equipa de musicoterapeutas, no pós-guerra.

Formada há sete anos, a Associação Portuguesa de Musicoterapia está a dar os primeiros passos, pela mão de Teresa Leite, psicóloga e musicoterapeuta, formada nos Estados Unidos da América. Embora admita que «esta terapia ainda não é conhecida por quem cria lugares nas instituições de saúde», acredita que a actividade tem condições para ser profissionalizada. Após uma demonstração prática na sala de formação da Escola Superior
INÁCIO LUDGERO

de Educação João de Deus, em Lisboa, Teresa faz um balanço positivo das aulas de introdução à Musicoterapia, incluídas no programa curricular do curso de educadores de infância e professores do ensino básico. Iniciada há três anos, a iniciativa foi seguida de perto pelas escolas superiores de educação do Porto e de Beja e os alunos parecem convencidos: «Primeiro mostram reservas, depois rendem-se.» s

A psicóloga lamenta que esta técnica ainda não seja conhecida por quem cria lugares nas instituições de saúde em Portugal
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TERESA LEITE E A MUSICOTERAPIA

LUÍS BARRA

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