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A História Não Contada da Psiquiatria: Crueldade, Tortura, Eugenia e Dano Cerebral

A entrevista do autor do livro MAD IN AMERICA, Robert Whitaker para o site The Street Spirit
Entrevistado por Terry Messman (tradução: José C B Peixoto)

Street Spirit: Quais razões levaram você a escrever um livro sobre a história de maus tratos da psiquiatria? Parece que quando você começou a trabalhar em uma história para o Boston Globe se abriu uma porta inusitada. Robert Whitaker: Sim, essa foi uma história peculiar; tipo de uma entrada pela porta dos fundos, realmente. Em 1998, eu comecei a escrever sobre os problemas em testes clínicos de medicamentos psiquiátricos. Naquele ponto, eu decidi fazer uma série para o Boston Globe sobre os problemas na pesquisa psiquiátrica. Enquanto eu estava fazendo aquela série, eu acabei encontrando acidentalmente estudos de resultados que eu julguei surpreendente. Um desses estudos era da Organização de Saúde Mundial que mostrava que os outcomes (conseqüências, resultados) para as pessoas com problemas de saúde mental eram muito, muito melhores nos países mais pobres do mundo. A propósito, os resultados desse primeiro relatório eram tão

surpreendentes, que eles repetiram tal estudo, mas eles apresentaram os mesmos resultados. Quando eu perguntei a pessoas o porquê disso, ninguém podia me dar uma boa resposta. Eles só diriam, "Oh, bem, as famílias são bondosas por lá," ou "essas sociedades são gentis." Realmente não parecia muito verdadeiro. Spirit: Nos países desenvolvidos, supostamente nós avançamos mais em terapias e medicamentos; e mesmo assim os resultados são piores aqui, com muito mais pessoas presas em uma crônica e eterna doença mental? Whitaker: Exatamente. Dessa forma isso realmente abriu uma questão interessante que ninguém estava respondendo. Uma outra coisa chamou minha atenção quando eu comecei a examinar aqueles estudos da Organização de Saúde Mundial. O que ninguém, e eu quero dizer: ninguém, mencionou era que o uso de drogas anti-psicóticas era muito menor nesses países pobres onde as pessoas acabavam com pouca freqüência continuando sob medicação. Então aqui você teve esta disparidade. Você tem nosso paradigma médico, aqui, neste país, que diz que o tratamento medicamentoso ininterrupto para alguém diagnosticado com esquizofrenia é absolutamente essencial. E mesmo assim os resultados e as taxas de recuperação são muito, muito mais altos nos países pobres onde eles não seguiram tal paradigma. Isso obviamente levanta uma pergunta: Existe algo errado com nosso paradigma? O outro estudo que se encaixa com os já relatados foi feito por pesquisadores da Escola Médica de Harvard que, em 1994, examinou para resultados ao longo de séculos para pacientes com esquizofrenia, e concluíram que os resultados realmente não melhoraram desde 1900, quando as terapias empregadas eram “terapias da água”. Novamente, isso era o oposto da história que nós contamos a nós mesmos. A história que nós contamos para nós mesmos é que nós estamos conseguindo drogas sempre melhores e nós estamos conseguindo sempre melhores entendimentos da "biologia" da doença esquizofrenia. Spirit: Você é um dos poucos escritores que ousou desafiar a história medicamente aceita de que as drogas antipsicóticas e os recentes medicamentos de última geração

são o único caminho para tratar o que denominamos esquizofrenia. Whitaker: Foi isso que realmente me atraiu para essa história, o fato é que existe um sistema de crenças em pleno vigor - que a propósito, eu compartilhava desse sistema quando eu comecei este livro. Quando eu estava fazendo aquela série para o Boston Globe sobre pesquisa psiquiátrica, eu absolutamente acreditava no senso comum de que estas drogas anti-psicóticas realmente melhoraram as coisas e que elas totalmente revolucionaram a forma como nós tratamos a esquizofrenia. Tais pessoas costumavam ser presas para sempre, e agora embora talvez as coisas não fossem tão boas, já seriam muito melhores. Era uma história de progresso. Eu acreditei nisto, e eu acreditei que as drogas eram essenciais e eram "como insulina para diabete," porque foi assim que eu fui informado. Spirit: O que levou você, então, a desenvolver uma crítica tão ampla da história inteira da psiquiatria? Whitaker: Eu fiz a série para o Boston Globe, e eu realmente não fiquei satisfeito com que eu entendi até aquele ponto porque existia um mistério lá fora que precisava ser explorado, e é por isso que eu fiz o livro. Spirit: Uma das revelações de seu livro é o modo de que ele dá a voz para aos verdadeiramente sem voz. Os pacientes testemunham sobre os efeitos devastadores do eletrochoque, lobotomia, coma por insulina e drogas neurolépticas. Suas vozes são surpreendentemente diferentes daquilo que o establishment psiquiátrico reportou sobre tais terapias. Whitaker: Oh, isto é um grande ponto. Quando eu estava fazendo essa primeira série no Globe, tudo isso começou a ser publicado – de que a história do quão eloqüentes eram as terapias, o quão essenciais eram os medicamentos, isso não era compartilhado pelos próprios clientes. Então você imediatamente percebe que existia uma perspectiva diferente, uma compreensão diferente e uma história diferente a ser informada. Você fala sobre dar a voz aos sem voz. Quando eu comecei a ler histórias de psiquiatria, as vozes daqueles que eram tratados estavam absolutamente omitidas. Simplesmente

não estavam lá! O que é atordoante. Você pergunta às pessoas por que tais vozes não estavam lá, e eles dizem, "Bem, eles são testemunhas inconfiáveis." Ou, "Eles nem sabem que estão doentes." Você sabe a história toda. Mas isto é obviamente incrivelmente ridículo. É realmente obsceno. Spirit: Por que você acha "obsceno" que tais vozes foram omitidas das histórias que você pesquisou? Whitaker: Porque é como fazê-los não serem pessoas. Eles não contam. Sua experiência não conta. Nós sabemos quando você fizer algo semelhante para alguém, isto é um ato obsceno, se isso foi feito para judeus ou escravos ou qualquer pessoa oprimida. Nós viemos a entender que negar experiência de alguém, negar isto, é uma coisa obscena a ser feita. E ainda assim, para grupos como esse, como sociedade, nós ainda não permitimos que eles falem por si mesmos. Pense sobre quem fala atualmente sobre doença mental neste país. Raramente alguém denominado de mentalmente doente fala por isso. Quando eles fazem um artigo no jornal que será uma citação da NAMI [Aliança Nacional para Doentes Mentais] com o ponto de vista da família, ou então lá estarão as companhias farmacêuticas ou os médicos. Mas com que freqüência você realmente consegue o ponto de vista do paciente? É com muito pouca freqüência. Isso foi uma das coisas que eu resolvi fazer, examinar a história oficial através da história, porém contando o que os pacientes por si mesmos estão dizendo sobre tais terapias. E que seja permitido examinar, numa perspectiva histórica, qual grupo parece ser mais preciso, mais verdadeiro - em outras palavras, qual a história se sustentará com o passar do tempo. Por exemplo, se você lembrar-se dos pacientes submetidos ao eletro-choque nos anos 1940 que tiveram que ser arrastados para fora da mesa. Bem, naquele momento, claro, a história foi de que era isto seria bom para eles, certo? Mas o que nós sabemos hoje? Nós sabemos que isso foi tão abusivo quanto o inferno. Foi horrível. Spirit: Naquele momento, os psiquiatras re-asseguravam ao público que aquilo era absolutamente indolor e que oferecia grande alívio aos seus sintomas; a despeito de que os

pacientes freqüentemente tinham que ser arrastados, e iam esperneando e gritando para a sala do eletro choque... Whitaker: Exatamente. E existe uma lição para ser aprendida aqui: Se você ignorar a voz daqueles tão tratados, você faz corre um grande perigo de cometer um dano real. De fato, como nós vemos com o correr da história, a perspectiva que vai se comprovar como verdade, é quase inevitavelmente aquela daqueles que foram “tratados”. As histórias dos próprios pacientes, cada vez mais, se parecerão mais corretas e mais precisas, o que nos trará uma outra perspectiva desse processo histórico. Você questiona sobre dar vozes para aqueles sem direito de falar. Você não pode contar com precisão a história da psiquiatria, a história dos tratamentos para os mentalmente doentes neste país, sem dar escuta para aqueles que foram sujeito dos tratamentos. É altamente incompleto sem isto! Spirit: Uma de suas surpreendentes percepções diz respeito a quantos tratamentos psiquiátricos deliberadamente utilizavam "terapêutica prejudiciais ao cérebro." Isto é uma linha comum que liga o eletro-choque, o coma por insulina, a lobotomia e as drogas neurolépticas. Estas terapias são propositadamente projetadas para danificar o funcionamento mais sofisticado do cérebro, e o público não conhece isto. Ainda atualmente, os psiquiatras admitem que estes tratamentos "trabalham" deliberadamente incapacitando funções mais elevadas do cérebro. Whitaker: Sim, e mais uma vez, isso parece assombroso. Existe uma linha comum entre os tratamentos e as intervenções médicas ao longo dos últimos 200 anos, a cada época, sempre pareciam funcionar. Se você fosse um médico e você estivesse dando uma destas terapias: vamos dizer que seja uma sangria, ou se você está prendendo alguém em uma “cadeira tranqüilizante” ou você está dando choques 50 vezes ou você está envenenando alguém com uma terapia convulsiva com metrazol - você precisa acreditar que tudo isso funciona. Então a linha comum que você começa a descobrir é como eles definem o que é eficiência ao lidar com um doente mental: a eliminação de sintomas. Abatendo os sintomas você não vê estes tipos de fantasias selvagens, e pelo menos

eles não estão exibindo as alucinações e o comportamento que podem estar perturbando aos outros. Então como eles fazem isto? Bem, está posto que você pode derrubar aquelas alucinações, paranóia, pensamentos selvagens, ouvir vozes, etc. Você pode abater tudo isso diminuindo a função do cérebro, o que faz sentido porque o cérebro é necessário estar em operação para que os pensamentos funcionem deste modo. E isso que você vê de tempos em tempos repetidamente na psiquiatria - coisas do tipo que debilitam pessoas, coisas que derrubam os processos cognitivos mais elevados. Questões que realmente vieram a serem usufruídas na primeira metade do século 20, quando nós tivemos o florescente movimento da eugenia neste país, que desvalorizou completamente o mentalmente enfermo como ser humano, que os enxergavam como se fossem ameaças para a saúde social. Spirit: A psiquiatria tentava “avançar" assaltando o cérebro com o eletro-choque ou a lobotomia, e agora com a mais nova geração de neurolépticos: as drogas atípicas - que são de fato um ataque ainda mais severo ao funcionamento químico das funções mais elevadas do cérebro e ao sistema de transmissão da dopamina. Whitaker: Nenhuma dúvida que sobre isto. E isso realmente foi conseguido na medida em que nós aprendemos mais sobre o cérebro a partir do início do século 20. Agora você vê a agressão, vamos dizer, nos anos 1940, tornando-se muito mais explícita. Se você voltar e ler os jornais médicos naquele tempo quando eles eram mais honestos, você verá pessoas que escrevem sobre as "terapêuticas prejudiciais ao cérebro" (“brain-damage therapeutics”). Era assim que era denominado. Spirit: Essa é uma frase incrivelmente desumana. Whitaker: Mas eram as palavras da época, não são minhas palavras. E eles contariam sobre como eles tiveram essa evolução desde o eletro-choque. O que eles diriam sobre o eletro-choque é isto, que abatia as funções mais elevadas do cérebro para um breve período; entretanto como as pessoas se recuperavam desse trauma, as ilusões e as alucinações retornavam. Então eles diriam que você tem que fazer repetidamente o eletro-choque 30, 40, 50 vezes, então se

estabelecia um dano cerebral, em essência, isso se tornaria permanente. Então nós conseguimos a lobotomia que, obviamente, estaria desconectando a maior parte do cérebro que nos torna um ser humano, o que nos distingue de primatas mais inferiores. Nós desconectamos essa região e nós sabemos que isto é um dano cerebral, mas o que eles diziam àquela época? Era tratado como uma milagrosa terapia do cérebro e o sujeito que inventou isto [Egas Moniz, um neurologista português] conseguiu o Prêmio Nobel em medicina. Mas era realmente curioso como eles falavam a respeito dos pacientes naquele tempo. Eles falavam sobre abater pessoas até um "nível mais baixo de Ser." Isso era considerado um bom resultado. Spirit: Embora eles estivessem eliminando muita de sua personalidade, suas emoções, sua memória – até, às vezes, sua habilidade física para funcionar. Acabar em um estado vegetativo era racionalizado como um bom resultado? Whitaker: Exatamente. Spirit: Como a psiquiatria declarou que isto era um benefício? Porque as pessoas ficavam mais sossegadas nos asilos psiquiátricos? Whitaker: Basicamente, essa é a resposta. Eles ficariam mais quietos nos asilos, mais fáceis de administrar, e isto foi realmente a resposta. Em resumo, é isso. Spirit: E após uma lobotomia, talvez eles não tivessem tantas alucinações porque para tal se exige um intelecto além da capacidade de imaginação e das emoções para que alguém viva naquele mundo interno de fantasias. Whitaker: Exatamente. Na verdade, você veria Walter Freeman, que era o promotor pioneiro de lobotomia neste país, fazendo exatamente aquela declaração. Eles diriam: Correto, existiria um pouco de prejuízo nisso e as pessoas se tornavam menos criativas; elas, subitamente, não ficariam mais interessadas em tocar o piano. Ele falaria sobre como alguns de seus pacientes, que antes de lobotomia, amavam tocar piano, ou adoravam fantasiar sobre que a história, de como seria, digamos, se os índios americanos tivessem ganhado. Em outras palavras: pensamentos extraordinários,

pensamentos interessantes, pensamentos criativos, pensamentos poéticos. E eles diriam: correto, você perde tudo aquilo; mas em compensação, nós conseguimos uma pessoa mais facilmente administrável. Freeman diria que eles não têm mais emoções fortes. Eles gostam de comer e eles engordam. Mas eles não se incomodam, e eles realmente não se importam com ter interações sociais, assim eles não são de fato, mais tristes, e isso era visto como muito bom. Eles eram mais fáceis de ser impedidos de fugir, e mais dóceis para as normas asilares, e provavelmente mais baratos também. Spirit: As drogas anti-psicóticas foram, possivelmente, um caminho mais preciso para danificar o cérebro ao corromper o sistema de transmissão da dopamina. O que, basicamente, resultava era o mesmo: as funções mais nobres do cérebro eram subjugadas e o indivíduo se tornaria mais vegetativo. Essa seria a linha comum e é por isso que alguns pacientes comparam estas drogas como lobotomias químicas? Whitaker: Isso era uma linha comum, e não foram apenas os pacientes que chamaram as drogas de lobotomias químicas. Nos anos 50, quando as drogas entraram, a cirurgia da lobotomia ainda era vista como uma coisa positiva. Esse era o sistema de crenças da época, lembra? O inventor da lobotomia acabou por ganhar um Prêmio Nobel no início dos anos 50 quando estava sendo introduzidas tais drogas. Nós estávamos ainda usando repetidos eletrochoques. Nós ainda estávamos agarrando truculentamente os pacientes, perseguindo-os corredor abaixo, e os prendendo em amarras, e os forçando ao eletro-choque. Então as drogas entram em cena e é realmente fascinante a leitura da literatura médica daquele tempo, porque eles falavam sobre como as drogas como Thorazine (no Brasil: Clorpromazina, (Amplictil®)), Haldol e demais neurolépticos provocavam uma mudança num indivíduo -- uma mudança semelhante àquela obtida com a lobotomia. E isso era percebido de um modo muito positivo. As pessoas ficaram mais quietas, menos comprometidas emocionalmente com seu meio ambiente? Sim, e isso era visto positivamente. Eles se tornaram mais letárgicos em seus movimentos? Sim, e isso era visto como bom. Eles se

importaram menos com eles mesmos, o que é uma função dos lóbulos frontais? Sim, e isso era visto positivamente. Fisiologicamente, ao perseguir esse aspecto, e nós conhecemos isso, realmente, é dessa forma que as drogas neurolépticas funcionam. Elas bloqueiam profundamente a transmissão de dopamina. Por exemplo, se você pegar um macaco e fizer uma lobotomia, e assistir como se comporta; e por outro lado, se nós dermos a outro macaco clorpromazina e bloquearmos a transmissão da dopamina do lóbulo frontal, você observará um comportamento bem semelhante. A diferença principal é que a lobotomia não danifica o controle motor, considerando que isso as drogas também fazem. É por isso que essas drogas resultam em sintomas da Síndrome de Parkinson, discinesia tardia, e todas aquelas outras deficiências orgânicas motoras que evoluem com o passar do tempo. De certa forma, os neurolépticos standards são mais amplos em suas capacidades de reduzirem a atividade mental do cérebro do que as lobotomias frontais. Spirit: Incrível. Os elogiados neurolépticos são mais destrutivos do sistema motor do que as lobotomias? Whitaker: Bem, eles seriam absolutamente destrutivos ao sistema motor. Quando a clorpromazina e o haloperidol foram introduzidos, eles realmente afirmavam que você saberia que foi alcançada uma boa dosagem quando você começar a obter sintomas de Parkinson. Spirit: Então sintomas do Parkinson seria o resultado desejado? Whitaker: Exatamente. Você manejaria as doses desses medicamentos até que um indivíduo estivesse conseguindo tremores e mostrasse dificuldades de iniciar os movimentos voluntários. Nesse ponto, eles diriam, "Ah! nós obtemos uma dose eficiente." Ocorreu uma conferência psiquiátrica famosa em 1956 em que eles disseram que isto é o sinal: nós aumentamos a dose até ser obtido o Parkinson. Agora por que nós conseguimos o Parkinson? Você chega ao Parkinson porque você está criando com as drogas a mesma deficiência na transmissão de dopamina que você consegue com a doença propriamente dita. Então não é realmente só um efeito colateral. O problema com o sistema motor é um

efeito direto. Os sintomas de parkinson são absolutamente um efeito direto da queda da transmissão da dopamina. E nós já sabemos o quão profundo isso é. As drogas bloqueiam algo entre 70 a 90 por cento de um tipo particular de receptor de dopamina, o receptor D2. Dessa forma as drogas bloqueiam mais ou menos 80 por cento de seu nível normal de dopamina. E você consegue sintomas da Doença de Parkinson quando você perdeu mais ou menos 80 por cento dos neurônios dopaminérgicos no cérebro. Então você está criando a mesma deficiência. Não é um efeito colateral – é um efeito direto. Spirit: Então os sintomas do Parkinson são efeitos deliberadamente pretendidos, uma vez que eles sabem que isso é inevitável? Whitaker: Bem, isso não só é inevitável, como é parte do tratamento! Realmente, esse é o meio de examinar os neurolépticos comuns. Primeiro, nós temos uma droga que, como um efeito direto, diminui sua capacidade de controlar os movimentos. Segundo, como um efeito direto, derruba a atividade no sistema límbico do cérebro onde nós estabelecemos as respostas afetivas para o mundo. É por isso que indivíduos sob uso de clorpromazina e haloperidol não estão muito comprometidos (com o meio ambiente). Spirit: Eles são emocionalmente “planos”, freqüentemente muito distantes. Whitaker: Sim, porque você está subjugando essa parte do cérebro. Então finalmente, ao subjugar os lobos frontais, você tem pessoas que não estão muito motivadas, porque é nos lobos frontais o local onde nós nos importamos conosco mesmos e temos preocupação com o futuro. Portanto, esses são efeitos diretos. Então essa é a questão, seria como um efeito colateral, o que nós conseguimos como redução dos sintomas psicóticos, alucinações e vozes? Nós temos todas estas perdas: redução dos movimentos, redução dos sentimentos e afeto, redução da habilidade de gostar da si mesmo. É por isso que muitos pacientes odiavam estas drogas, Amplictil® e Haldol®. Absolutamente odiavam. Agora temos a próxima surpresa. Você iria pelo menos considerar cuidadosamente isto, você conseguiria uma

redução dos sintomas almejados de psicose, especialmente considerando o quanto nós temos com todos esses efeitos negativos. Mas a coisa mais surpreendente é isto, com o passar do tempo, ao invés de obter uma redução na psicose nas pessoas tratadas com estas drogas e sob este paradigma, você realmente vê um aumento comparado ao grupo de pacientes tratados com placebo! Então, mesmo em relação aos sintomas alvo, que supostamente nós estamos derrubando com estas drogas, com o passar do tempo você percebe uma enfermidade ainda mais crônica. Isso completa este retrato do quanto é assombrosamente injusto esse paradigma. Nós conseguimos todos estes efeitos negativos sendo impostos às pessoas que tiveram o infortúnio de terem esses diagnósticos; mas no final, mesmo quanto aos sintomas alvo, você vê maior cronicidade na psicose. Você percebe o fracasso sob qualquer olhar que dirija a tal tratamento. Spirit: Você entende que deve ser por isso que os estudos da OMS mostraram que os pacientes nos Estados Unidos são mais propensos à uma esquizofrenia de longo curso em relação aos pacientes de países pobres onde não estão sendo prescritos neurolépticos pelo resto da vida dessas pessoas? Whitaker: Penso que seguramente essa é resposta correta. O que acontece, no curso natural daqueles diagnosticados com esquizofrenia, numa boa porcentagem, se não tratados com as drogas, é que eles melhoram ou se recuperam. Durante o estudo da OMS, só 16 por cento de pacientes em países subdesenvolvidos são mantidos sob uso de drogas, ainda assim eles tiveram aproximadamente 65 por cento na categoria dos melhores resultados. Até em nossos próprios estudos, se você reportasse aos tempos quando eram tentadas alternativas sem o uso de medicamentos, você veria mais de 50 por cento de bons resultados em follow-ups de dois anos a de três anos. Se você examinar para o espectro natural das pessoas diagnosticadas com esquizofrenia ou desordem esquizoafetiva, e se você não os tratasse com drogas, algo ao redor de pelo menos 50 por cento, após um período de seis meses a um ano, se recuperaria e continuaria com suas vidas. Mas o que acontece uma vez que você os põe sob estas drogas, e

os mantém sob essas drogas, você os empurra para uma cronicidade vitalícia! Eu acredito que existe acachapante evidência que mostra que é isto que realmente acontece. É por isso que a Organização de Saúde Mundial encontrou esta diferença nos resultados - crônicos nos Estados Unidos contra muitas pessoas que se recuperam nos países mais pobres. Spirit: Seu livro documenta como essas drogas funciona ao induzir uma patologia no cérebro corrompendo um neurotransmissor, a dopamina. Atualmente o retrato que a psiquiatria apresenta ao público seria de que aquelas drogas anti-psicóticas realmente funcionam como “cura” à psicose, ou funcionam ao harmonizar uma química cerebral desorganizada. Você ficou surpreso com a amplitude de tais pretensões? Whitaker: Enquanto eu estava fazendo a pesquisa, poderia haver essas constantes surpresas, de maneira que eu não podia acreditar no que eu estava encontrando. Essa é uma delas, e isso é absolutamente assombroso. Ainda me assombra. É fraude médica – essa é a única maneira de se descrever isso. A história, como você disse, era que eles sabiam que essas drogas bloqueavam a atividade da dopamina, e de forma muito profunda. Então eles construíram a hipótese de que as pessoas com esquizofrenia deveriam ter dopamina demais em seu cérebro para ficar assim; e então ao bloquearem esse neurotransmissor, nós estaríamos ajudando a “equilibrar” a química do cérebro. Isto é a história que está ainda sendo divulgada, de que os neurolépticos são “como insulina para diabete.” Assim se construiu tal história, e você pode ler isto em livros de ensino médico nos anos 80. De maneira interessante, entretanto, ao mesmo tempo em que isso estava sendo dito, nos anos 80, toda a evidência mostrava exatamente o oposto. A evidência demonstrava que antes dos medicamentos, as pessoas com esquizofrenia não tinham uma química anormal da dopamina. Então os medicamentos neurolépticos bloqueiam o sistema da dopamina - em outras palavras, eles estão criando uma anormalidade neste importante neurotransmissor. Em resposta, o cérebro tenta lidar com aquele bloqueio de duas maneiras. Inicialmente, ele tenta liberar mais dopamina, e

em seguida o cérebro começa a destruir a sua habilidade de fazer isto. Então ele cria de fato mais receptores de dopamina. Então se você olhar para o cérebro de uma pessoa que tem estado sob uso de neurolépticos, eles tem muito mais receptores de dopamina que o normal. Você realmente está criando o muito problema - muitos receptores de dopamina - que seria a explicação de como se iniciaria a esquizofrenia. Seu cérebro agora fica hipersensível à dopamina - em outras palavras, fica anormal. Nós já tínhamos descoberto por volta de 1979 como o seu cérebro, quando criava estes receptores extras de dopamina, realmente se tornava mais vulnerável para a psicose. Então em 1979 nós realmente tínhamos uma boa noção, na literatura de pesquisa, de que esta história toda de que as drogas normalizaram a química cerebral era uma mentira; e nós também já sabíamos que nós estávamos colocando o cérebro para fora de seu modo normal de funcionar, e que isso levaria à uma maior vulnerabilidade para a psicose. Spirit: Mas eles não informaram ao público? Whitaker: Sabe, naquele momento, a obrigação moral de medicina era informar aquilo para os pacientes. Pelo menos você teria que ser honesto sobre isto, e você teria que investigar isto. Você está pronto para isso? Em 1998, essa é a peça final deste quebra-cabeça, a Universidade da Pennsylvania fez um estudo MRI em que eles estudavam pessoas medicadas com neurolépticos. Eles encontraram que realmente os cérebros daquelas pessoas muito tratadas começavam a exibir mudanças no volume cerebral. Então você começa a ver uma redução dos lobos frontais e um crescimento dos gânglios basais. Então agora nós estamos vendo mudanças morfológicas no cérebro. E aqui está a prova concludente: eles verificaram que aquelas mudanças no volume do cérebro eram associadas com uma agravação dos sintomas alvo. Então o quebra-cabeça agora todo se fecha, não é mesmo? Isso se coaduna com o estudo da Organização Mundial da Saúde. Isso informa porque as pessoas estão ficando crônicas porque você está dando a elas um agente que causa uma anormalidade na função do cérebro, e essas mudanças causam no cérebro uma psicose ainda pior.

Spirit: E isso prende os pacientes ao que se chama, a longo prazo, de “esquizofrenia medicada.” Whitaker: Oh, exatamente. O que acontece depois destas mudanças se estabelecerem é que você não pode sair destas drogas facilmente, porque você fica com um cérebro alterado. Então quando você largar dessas drogas, e você tem uma recaída e se torna psicótico novamente, eles dizem; “Ahá, veja, você precisa das drogas!” Mas na verdade, o que nós temos são pessoas que ficaram com mudanças cerebrais e é por isso que eles não estariam ficando bem quando eles fossem abruptamente retirados dessas drogas. Spirit: Um dos efeitos colaterais do neurolépticos é a discinesia tardia, uma forma severa de déficit motor orgânico. Sua pesquisa mostrou como um cientista do NIMH, George Crane, advertiu sobre a discinesia tardia por anos, porém foi ignorado pela Associação Psiquiátrica Americana, que negligentemente recusou divulgar essa advertência. O que isso revela sobre “consentimento informado”? Whitaker: Nós estamos falando sobre a história em que você vê um grupo de pessoas de modo algum tratadas de acordo com os valores que nós habitualmente acreditamos. Primeiro, a discinesia tardia não é somente uma inaptidão motora. Isto é como parece; você percebe o movimento rítmico da língua constantemente se movendo em suas bocas e você verá desfigurantes tiques faciais, além de outros movimentos como tiques constantes das mãos e pés. Então isso se parece com sintomas físicos, mas muitos estudos verificaram que você está realmente tendo uma ampla e generalizada deficiência orgânica cognitiva, um tipo amplamente difundido de deficiência orgânica permanente no cérebro. Isto é a coisa mais horrível que pode acontecer com um ser humano. Agora me deixe falar sobre a história de como nós advertimos as pessoas sobre isso. Os primeiros sinais disso surgiram nos anos 1950. Os estudos e correspondências começaram a aparecer sobre este estranho acontecimento. Aproximadamente cinco por cento das pessoas colocadas sob essas drogas começavam a desenvolver a discinesia tardia ainda o curso do primeiro ano de uso.

George Crane, um psiquiatra e pesquisador do Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH), começou a tentar dar o sinal de alarme sobre isso no final dos anos 1960. Ele comparava isso a doenças como doença de Huntington, que é uma doença horrível, uma enfermidade devastadora. Crane dizia que nós estávamos vendo aquele tipo de deficiência orgânica. Bem, a psiquiatria não queria ouvir sobre isto, o FDA não queria ouvir sobre isto. Eles não queriam nem mesmo colocar essa advertência nas embalagens desses medicamentos. Mas Crane continuou a bater nessa tecla, e finalmente você começou a ver o FDA disposto a colocar essa advertência. Mas agora a Associação Psiquiátrica Americana não está disposta a reconhecer isto; porque reconhecer isto é para reconhecer que seus populares medicamentos, dos quais eles são tão orgulhosos, estariam causando este abominável dano. E, claro, você tem processos judiciais prontos para criarem asas na espera de que eles admitam isso. Isso remonta até aos anos 1980s quando a APA decide enviar uma correspondência que adverte aos seus próprios membros. Eles estudam isto e promovem forças tarefa, mas eles continuam adiando e se escamoteando. Até que os processos começam a serem instalados de forma que a APA finalmente libera esse rótulo de advertência. Spirit: Naquela altura, o senso comum acreditava que as drogas neurolépticas eram seguras e muito efetivas. Os psiquiatras e a mídia popular reportavam isso, repetidas vezes, por décadas. Whitaker: Pense sobre o engodo sob o qual estamos conversando. E você sabe que consegue os piores resultados em crianças e nas pessoas de idade avançada, que pareceram ser as mais vulneráveis para a discinesia tardia. Spirit: E mesmo assim eles estavam dando estas drogas para os delinqüentes juvenis e assim criando adolescentes inválidos? Whitaker: Realmente, reflita sobre isto. E eles recebiam uma droga que numa certa porcentagem acabaria criando uma forma permanente de deficiência orgânica cerebral. E você também estava observando mortes precoces com estas

drogas, morte súbita. A deslealdade com os seres humanos nesse momento é inominável. Spirit: Políticos soviéticos dissidentes confinados em instalações psiquiátricas daquele país descrevem que estiveram sendo involuntariamente medicados com neurolépticos, e que tinham nisso a pior forma de tortura. A mídia dos Estados Unidos e oficiais do governo ficavam horrorizados com esse tratamento e denunciavam isto como abuso aos direitos humanos, agora fica óbvio que fizemos exatamente aquilo que clamávamos contra pacientes aqui nos Estados Unidos. pois os neurolépticos seriam terrivelmente prejudiciais. Como nós falhamos em fazer essa conexão, de que a mesma coisa estava acontecendo por aqui? Whitaker: A capacidade que os poderosos têm em qualquer país, e para um grupo médico como os psiquiatras, de iludir a si mesmos é infinito. O poder governante e os médicos vêem a si mesmos como fazendo o bem, e é mais fácil ver pessoas em um país estrangeiro fazendo coisas ruins. Como você classifica isto? O New York Times, em reportagens com as audições relacionadas ao tratamento de dissidentes soviéticos, disse que dar essas drogas neurolépticas tornavam as pessoas vegetativas. O New York Times dizia que isso era uma forma de “câmara de gás mental.” Mas eles encobriram a pesquisa sobre o tratamento forçado com medicamentos às pessoas mentalmente doentes nos Estados Unidos e eles divulgarão sobre como as drogas são reconhecidas em serem amplamente eficazes. Como você pode dizer que o uso de neurolépticos como o Haldol® seria uma forma de tortura para dissidentes soviéticos, e ao mesmo tempo há pessoas nos Estados Unidos sendo tratadas sob uma forma sob as quais se poderiam fazer exatamente as mesmas acusações? Uma mesma droga, quando é dada para uma pessoa soviética, nós afirmamos que é uma tortura; mas quando essa droga é oferecida para alguém em nosso país, nós afirmamos que é uma benesse. É ultrajante. Então se diz que um enfermo mental “não sabe que isso é conveniente para ele.” Então eles são submetidos a ficarem uma vez mais sem voz! Nós respeitamos a visão

de um dissidente, de como ele percebe essa questão, mas nós não respeitamos uma pessoa mentalmente enferma. Nós negamos seu ser. Nós negamos sua realidade subjetiva. Como uma sociedade, nós mentimos para nós mesmos. Nós nos iludimos de uma forma ou de outra, e a nossa capacidade de nos iludir é notável. Spirit: Seu livro relata como os psiquiatras deram mescalina, LSD, e anfetaminas para pacientes não informados, o que deliberadamente piorava seus sintomas, mas mesmo assim não os informando desse perigo. Por que você acusa que tais experiências violam o Código de Nuremberg, que foi criado em resposta às experiências médicas nazistas? Whitaker: Isto foi minha iniciação em toda essa história. Eu cheguei acidentalmente a estas experiências projetadas para tornar as pessoas piores. Eu não poderia acreditar nisto. Aquilo não fazia sentido. O Código de Nuremberg emergiu frente às terríveis experiências nazistas realizadas naquela época na Alemanha. Basicamente, você não deveria causar qualquer dano a um paciente em tratamento médico; e mesmo que você o colocasse em perigo, a premissa fundamental é que deve ser permitido que eles tenham pleno conhecimento do que está acontecendo, e da forma mais honesta possível, você tem que informá-los de quaisquer riscos. Você não pode mentir para eles sobre o propósito de experiências, e você não pode mentir para eles sobre os riscos! Spirit: Ainda hoje, e em repetidas vezes, tem sido isso o que psiquiatras dos Estados Unidos têm feito para com seus pacientes. Eles conduziram experiências muito arriscadas com drogas e lobotomias sem alertá-los sobre os riscos. Whitaker: Nenhuma dúvida que sobre essa questão. Eles diriam para si mesmos que eles só estavam tornando seus pacientes “um pouquinho piores” uma vez que lhes administrassem LSD, mescalina ou anfetaminas, na expectativa de que eles aprenderiam algo a mais sobre a química da doença, e isso valeria a pena. E eles ainda afirmariam que, de qualquer forma, estas pessoas são loucas, então como poderia ser possível informar-los o que o

médico vai fazer? Foi assim que eles racionalizaram sobre isto em suas próprias mentes. Logo você percebe que você não está tratando tais pessoas como seres humanos. Você não está dando a eles os mesmos direitos ou aplicando o mesmo sistema de valor. Então está errado, está terrivelmente errado. Isso viola o Código de Nuremberg. Então você vê este padrão de exploração, nesse momento percebe o quão grotesco isso se tornou. Eles poderiam enumerar qual a porcentagem de pessoas já psicóticas que se tornaram ainda muito piores por usarem anfetaminas. Supostamente, isso poderia ensinar algo sobre o sistema de neurotransmissor. Isso ainda assim não seria a verdade, mas era isso que continuavam dizendo a si mesmos. Spirit: Você descreveu um homem diagnosticado como um neurótico, não um psicótico, cujos sintomas eram tensão e inabilidade para relaxar. Ele recebeu mescalina deliberadamente para ativar as alucinações e o pânico, após isso ele foi lobotomizado e novamente dado mescalina. Isso é absolutamente chocante. Whitaker: Paul Hoch [diretor de pesquisa do Instituto psiquiátrico do Estado de Nova Iorque] descobriu que você poderia tomar uma pessoa neurótica e levá-las à psicose com LSD e mescalina. Então ele decidiu lobotomizar esses indivíduos para ver se eles ainda poderiam ficar psicóticos. Então ele os lobotomizou, e então deram a eles mescalina e LSD. Se ele não pudesse torná-los psicóticos, então ele confirmaria que uma psicose pode ser localizada em algum lugar do cérebro que você inutilizou. Reflita sobre isto! Ele acabou de sacrificar aquelas pessoas! Aquelas pessoas ficavam neutralizadas, como um honroso sacrifício para a pesquisa, tanto quanto você sacrificaria um gato. E ninguém se importaria. E você sabe o que é mais interessante? Após o livro ser publicado, imaginei que aconteceria algo junto a imprensa sobre isto. Mas ninguém se importou. Eu já dei muitas, muitas entrevistas, e você é uma das primeiras pessoas a me perguntar sobre isto. Spirit: Você verificou que esses tipos de experiências continuaram por 50 anos?

Whitaker: Em 1998, você podia ainda encontrar experiências onde eles tomariam pessoas agitadas em quartos de emergência, um primeiro episódio. Então vamos dizer que você tem uma criança, e ela está em grande dificuldade, e eles fariam uma experiência nela, ao invés de fazer algo que pudesse dar suporte e auxílio à sua perturbação afetiva. Pelo contrário, eles dariam a ele anfetaminas ou Ritalina®, para observar se isso o tornaria ainda pior. Imagine isto! Então, no final de contas, quando você olhar para o "consentimento informado" (informação de ficha de atendimento), às vezes eles diriam aos pacientes que eles estavam administrando medicamentos. Mas você nunca iria ver no "consentimento informado" de que eles estariam administrando um agente medicamentoso cuja expectativa é torná-los pior. Então esta pesquisa está sendo feita em uma arena de mentiras, a única maneira de fazer isso. É um sistema de crenças que não reconhece este grupo das pessoas como seres humanos. Spirit: Este tratamento dados aos pacientes de saúde mental como humanos inferiores nos leva em sua pesquisa à eugenia. A filosofia da eugenia levou a Alemanha nazista a decidir que, certas raças ou grupos de indivíduos eram biologicamente inferiores, o que conduziu à eutanásia tanto os pacientes com doença mental tanto como indigentes, junto com indivíduos judeus e poloneses. Mas não teria sua pesquisa demonstrado que o movimento da eugenia na América desempenhou um papel importante na segregação do mentalmente inválido em instituições e promovendo uma esterilização contra a vontade deles, pois assim eles não podiam procriar? Whitaker: A história da psiquiatria leva você a uma história social surpreendente nos Estados Unidos propriamente, uma história que nós não discutimos muito entre nós mesmos. Então se você for a uma escola Americana, e eles lhe aborrecem ao ensinar sobre eugenia, isso será informado em associação com a história da Alemanha nazista. Você não ouvirá nada sobre isso em associação com os Estados Unidos. De fato, eu aposto que você pode perguntar a umas 100 pessoas nas ruas, e muito poucas terão qualquer noção de que os Estados Unidos tiveram seu período eugênico.

Spirit: É verdade que foi o movimento eugênico dos Estados Unidos que influenciou profundamente a Alemanha nazista? Whitaker: A eugenia efetivamente iniciou aqui mesmo nos Estados Unidos, não foi na Alemanha nazista. Ela foi iniciada como uma “ciência”. Foi aqui onde foram criados os primeiros passos das políticas sociais baseados na eugenia. Nós começamos ao dizermos que um doente mental não podia casar. Nós divulgamos que um doente mental teria um gene defeituoso, e que a doença mental seria um distúrbio causado por um gene recessivo, como os olhos azuis. Eles diziam que para manter esse "gene da loucura" aprisionado, além de evitar que eles se casassem, nós precisamos prendê-los. Então os asilos foram modificados, deixando de ser lugares onde, teoricamente, haveria abrigo e refúgio para que as pessoas pudessem ser cuidadas e retornar de volta à saúde, o que seria a idéia original dos idos dos anos 1800. Eles se tornaram lugares onde nós trancaríamos os doentes mentais porque nós não os queríamos nas ruas, onde eles poderiam ter filhos e legar seu "gene de loucura." Como parte disto, nós começamos a por as pessoas em asilos e não permitindo mais que eles saíssem de lá. Como nós fizemos isto? Nós começamos a acreditar que você não podia melhorar de uma doença mental. Considere que nos anos 1800, você veria que mais de 50 por cento das pessoas que entravam em um asilo mental seriam liberados nos próximos 12 meses, e muitos nunca mais voltariam. De repente você identifica que na primeira metade do século 20, as pessoas seriam colocadas em asilos e não seriam largados por anos ou décadas, até que eles ultrapassassem sua “idade reprodutiva”. E quem nós estamos prendendo? Bem, seriam os imigrantes os mais prováveis de serem postos nos asilos, são os pobres, são os afro-americanos. Então, em outras palavras, é quase todo mundo exceto a classe dominante, basicamente, que seria mais provável de ser rotulado e diagnosticado e ser preso nesses asilos por anos. Assim, seguindo essa linha para a frente e verificando como a eugenia absolutamente moldou e, de algum modo, continua a moldar nosso modelo de tratamento, sempre desvalorizando essas pessoas. Sob as políticas da eugenia nós dissemos, “Eles são uma ameaça

para nós.” Nós começamos a falar sobre o doente mental como um câncer social que precisa ser cortado fora do organismo político. De fato, foi aqui, neste país, onde os médicos pela primeira vez começaram a conceber a hipótese de matar um enfermo mental, uma morte por benevolência. Spirit: Sim. Morte por clemência "com gases adequados" em "instituições eutanásicas" como um médico americano declarou. Whitaker: Sim, com gases apropriados. No longíquo 1921, a legislatura de Connecticut viaja a um asilo, e um homem que era algemado em uma cama de ferro foi exibido como um caso de "matar por clemência." E isto foi reportado no New York Times como absolutamente compreensível. Não existiria nenhuma afronta. Isto parecia ser plenamente correto antes de Hitler chegar ao poder. Spirit: E psiquiatras proeminentes imitaram essa linha eugênica de que os pacientes mentais eram geneticamente deficientes e defendiam a esterilização compulsória? Whitaker: Exatamente! Com certeza essas esterilizações forçadas teriam muito apoio entre populares psiquiatras. Eu diria o seguinte, como o movimento da eugenia começou a tomar lugar nos anos 1920, e realmente deslanchou, você vai reconhecer que houve um grupo dissidente de psiquiatras que começa a dizer que aquilo era terrível. Então você realmente vê a psiquiatria se dividir entre as décadas de 1920 e 1930, e alguns começavam a protestar contra aquilo. Mas em geral, existiam certamente muitos psiquiatras que estavam dando suporte para esta idéia, de esterilização forçada, e efetivamente faziam isso. Spirit: Algumas destas práticas foram então emuladas na Alemanha nazista por seus psiquiatras e executadas com extrema energia. Whitaker: Sim, exatamente. Você percebe os dominós caírem adiante. O que aconteceu foi que o movimento nazista chega ao poder em 1933 e os eugênicos, que participam do governo de Hitler, mantém estreitas relações com os eugênicos Americanos. Eles até mesmo falavam sobre ir para a escola aprender com o programa de esterilização da Califórnia e - isto é fascinante - os nazistas

alemães diziam que a Califórnia estava fazendo um bom trabalho de esterilização em seus doentes mentais, mas não existia suficiente proteção, não existia suficiente proteção legal no modo como a Califórnia fazia isto! Eles queriam ter certeza que existiria algum tipo de processo legal na Alemanha nazista. Eles realmente disseram que eles iriam fazer seu programa de esterilização, mas somente, com mais justiça. Ou seja, eles imaginaram que eles poderiam colocar em prática um programa mais humanitário e mais legal para a esterilização forçada. E finalmente eles começam a esterilizar pessoas em larga escala. Bem, no final os eugênicos americanos começaram a reclamar que os alemães estão nos ganhando em nosso próprio jogo. Spirit: Nossos eugênicos realmente invejaram os nazistas pela sua eficiência em esterilizar os pacientes psiquiátricos? Whitaker: Realmente. Nossos eugênicos aqui estariam reclamando que eles estavam nos ultrapassando. Por isso nós acabamos por enviar pessoas para lá para estudar o quão a Alemanha nazista estava progredindo em seu processo de esterilização. Qual é o primeiro grupo que a Alemanha nazista finalmente mata? É o grupo dos mentalmente enfermos. Foi onde a eutanásia foi iniciada. Então, evidentemente, eles expandiram isso para judeus e outros, mas isso começou com os doentes mentais. Então você segue essa história adiante, e o que você tem aqui é a criação americana de um sistema de crenças que, terrivelmente, desvalorizava o mentalmente doente. E a partir daí você vê políticas sociais surgirem sobre essa desvalorização - esterilização forçada e segregação social. Então você vê a Alemanha nazista promover e implementar essas questões. E nos anos iniciais do Nazismo, 1933, '34, '35, você não vê a América dizendo que é horrível. Os eugênicos da América estavam dizendo que nós precisamos acompanhar os alemães! Outra coisa muito inquietante. Quando as esterilizações tiveram o apogeu neste país? Nos anos 1940 e 1950s. Como nós lutamos contra os nazistas nos anos 1940, nós não examinamos nosso próprio quintal e não percebemos que nossos próprios programas de esterilização eram parte integrante da mesma ideologia.

Spirit: Parte do mesmo sistema de valor que tratava com desprezo os pacientes mentais como se fossem seres inferiores? Whitaker: Exatamente. Então nós continuamos com nossas esterilizações depois que os alemães pararam. E, de fato, esta terapêutica prejudicial ao cérebro - eletro-choque forçado, terapia convulsiva com metrazol e lobotomia - eles definitivamente surgem dentro da era da eugenia onde você desvalorizava aquelas pessoas. Bem, os alemães, depois que a Segunda Guerra Mundial terminou, estavam tentando lutar contra seu passado nazista, e muitos alemães consideravam a lobotomia com um horror, porque eles viam isto como algo consistente daquele passado eugênico. Mas enquanto isso, nós estávamos tratando isto como uma forma medicinal de cirurgia cerebral. Nós estávamos ainda violentamente esterilizando pacientes, impondo eletro-choques, lobotomias - nós não examinamos nosso próprio passado eugênico, desgraçadamente. Spirit: Você também documenta como os psiquiatras nos Estados Unidos têm um precário registro de acompanhamento que é desproporcionalmente maior nos diagnósticos de doença mental severa para americanos que fossem pessoas muito pobres ou africanas. Whitaker: Quando você conversa sobre diagnosticar alguém como esquizofrênico, por exemplo, um elemento subjetivo pode entrar em jogo porque você tem um médico com uma determinada visão de mundo, geralmente um branco, julgando outra pessoa. É muito claro ao longo do século 20 que a maioria daqueles que foram diagnosticados como esquizofrênicos seriam americanos pobres ou afros descendentes. Eles teriam feito um estudo onde eles teriam a descrição de um grupo de sintomas que seria mostrado para médicos, e a única coisa diferente na informação seria a cor da pele da pessoa. Quando eles fizeram isto, e o sujeito é um homem preto, é diagnosticado um esquizofrênico, entretanto se fosse um homem de pele branca é fornecido um diagnóstico mais aprazível. Um mesmo conjunto de sintomas, porém se for um indivíduo branco, que eles imaginam que eles estão avaliando, o diagnóstico se torna mais favorável. Existe muito elemento subjetivo no diagnóstico, e claramente existe

um elemento político também, porque nós tendemos a dizer que aqueles que não compartilham nossas visões são insanos! Spirit: E o pobre e sem teto, que pode perceber e agir diferentemente de nós, e estando lidando com estresse que nós não compreendemos exatamente, pode acabar parecendo um “alucinado”. Whitaker: Lógico. Às vezes se você examinar para aqueles diagnosticados como esquizofrênicos, o que você vê é que, muitas vezes, um rótulo é colocado em pessoas que possivelmente não sejam fisicamente atraentes. É incrível reconhecer isso. E se você for pobre, e você tem estresses e você não tem um abrigo, como você vai agir? Pense sobre isso. Como você vai agir se você tivesse uma criança para criar, mas você não tem qualquer trabalho, não tem qualquer lugar para ficar, não tem bons relacionamentos - você pode ser arruinado pelo estresse. Qualquer um sob tais circunstâncias poderá não conseguir se arranjar muito bem. Spirit: Estressado, deprimido, hostil, são todas situações muito compreensíveis dadas às condições que eles enfrentam na rua, mas não talvez seja plenamente compreensível para alguém da classe alta, um psiquiatra branco que está à procura de sinais de doença mental. Whitaker: Exatamente, então você entra com roupas sujas ou algo assim e isso se adiciona negativamente ao quadro. E finalmente neste tópico, o que está acontecendo com crianças sob tutela hoje? Se você é colocado numa instituição infantil você no mínimo consegue um diagnóstico de doença mental. Em um estudo, 80 por cento das crianças sob cuidados institucionais estavam sendo medicados com antidepressivos, Ritalina® e anti-psicóticos. Neste país, nós praticamos chegamos à situação de que os pobres, ou egressos de famílias dissolvidas, onde você tem que ser colocado em um albergue, significa que você é, ao final, um doente mental. Você está obtendo esse diagnóstico que se anexa a você. É por isso que nós estamos vendo crianças com dois de idade sendo diagnosticados como psicóticos. Spirit: E então a profecia se torna auto-infligida porque a medicação prenderá você neste padrão disfuncional.

Whitaker: Dez anos atrás, as companhias farmacêuticas divulgaram que elas precisariam expandir seu mercado para as drogas psiquiátricas, e quem eles buscaram? As crianças, porque é mercado em aberto. E eles têm sido muito bem sucedidos nisto. Se você desenhar fizer um gráfico sobre o uso de drogas em crianças, verá que é explosivo. E o que nós temos hoje? Nós temos uma "crise" de crianças loucas, de enfermidades psiquiátricas no meio das crianças. Em outras palavras, 10 anos mais tarde, o uso de medicamentos em crianças não levou a menos problemas entre elas, pois existe uma grande demonstração de que os problemas psiquiátricos estão explodindo entre as crianças. O que só faz sentido se você entender que as drogas realmente causam anormalidades nas funções dos neurotransmissores, e quando você fizer eles usarem essas drogas, você fica com sérios problemas psicológicos e sentimentais. Então nós, de forma muito clara, conseguimos com este difundido uso de medicamentos psiquiátricos, criar uma população continuadamente em expansão de crianças que são psiquiatricamente transtornadas – e isso é conseguido a partir dos tratamentos. Spirit: Vamos examinar esses novos anti-psicóticos atípicos que estão sendo chamados de drogas maravilhosas. Por décadas, a história oficial era que o eletro-choque e a lobotomia não causariam dor para os pacientes e melhoravam suas vidas. Só depois que se passaram muitos anos que o público reconheceu a extensão das amplas seqüelas que aquilo causou. Posteriormente o mesmo tipo clamor mundial foi feito contra os medicamentos nerolépticos, o que se seguiu à revelação dos seus terríveis efeitos colaterais. Você está preocupado que o mesmo padrão esteja agora sendo aplicado a partir das declarações de que os atípicos - drogas como Zyprexa®, Clozaril® e Risperidal® - sejam drogas maravilhosas? Whitaker: Claro que estou. Está óbvio que eles têm efeitos colaterais. Alguns pontos que nós precisamos saber sobre essas novas drogas, os atípicos. Em primeiro lugar, os testes clínicos que os examinaram foram totalmente falsos. Eles foram projetados para fazer as drogas antigas parecerem ruins e as novas drogas parecem boas. Isto está vindo à tona agora, pelo fato de que esses estudos pintaram um retrato

exageradamente bom dos atípicos. Eles podem não ser tão eficazes; e eles parecem ter, por outro lado, tantos efeitos colaterais quanto o mais antigo dos neurolépticos. Dessa forma pode-se dizer que existe bastante razão para se preocupar. Agora que nós já os temos há oito ou dez anos, nós já estamos descobrindo todos os tipos de problemas. A boa notícia é que em algumas circunstâncias, em que estão sendo usadas dosagens mais baixas destes atípicos, e uma vez continuando com dosagens mais baixas, tais substâncias parecem ser menos problemáticas. Eles não subjugam de forma tão extrema o sistema da dopamina como as drogas mais antigas. Isso é bom e esperançoso. A parte negativa é o seguinte: eles claramente mentiram sobre que estas drogas fazem. Elas são drogas poderosas e elas trabalham em vários sistemas de neurotransmissores. E eles claramente são problemáticos. Com olanzapine [comercializada como Zyprexa®], você vai perceber isto. Tanto quanto a discinesia tardia, que acaba se instalando com o uso normal dos tradicionais neurolépticos, a diabete, em muitas vezes, está lá com o olanzapine. E a diabete é uma ameaça à vida, e reduz a expectativa de vida. Então você dá aquela droga para uma criança de 12 anos de idade, ou de 15 anos de idade, ou de 18 anos de idade e todos eles desenvolvem diabetes e ganham uns 40 quilos de sobrepeso - isto é uma coisa muito perniciosa. Spirit: Eu ouvi advogados de saúde mental dizer que o imenso ganho de peso é um grande problema, mas eu não sabia que o Zyprexa estava ligado com a diabete e as altas taxas de açúcar no sangue antes de ler seu livro. Whitaker: Isto é demais. Deixe-me dizer a você o quão grave isto pode ser. Você percebe este ganho de peso de 40 quilos e, em um estudo recente, em seis semanas, três por cento inicia uma diabetes, o que é demais. É por isso que eu digo que isso está a sua espreita. Em primeiro lugar, ao ganhar 40 quilos em seis meses ou algo em torno disso, isto é um sinal de perturbação orgânica metabólica; você tem algo profundamente errado, algo em seu metabolismo que foi horrivelmente enlouquecido. Agora, a diabete que se desenvolve em seis semanas, isto é um problema real, certo?

Agora, de forma muito curiosa, quem começou a divulgar isso? Seus competidores, pessoas que trazem novas drogas para comercializar, estão agora reunidas e diziam que com a olanzapina (Zyprexa) você está conseguindo um problema enorme como a diabetes (risos). Então, por exemplo, em Boston há pouco tempo atrás, ocorreu um destes jantares de fantasia onde os médicos vão ser treinados. Bem, era patrocinado por um dos competidores da Eli Lilly, e se levantava o problema da diabetes com olanzapina. Se você conversar com os psiquiatras que são honestos sobre isso, eles dirão que o problema com diabete e olanzapina é enorme. Agora nós temos um problema duplo. Uma vez que nós nos convencemos que a olanzapina é uma droga tão importante, e nós estamos dando isso para muitas pessoas, nós estamos agora expondo pessoas a uma deficiência orgânica metabólica, ganhos enormes de peso e diabete que claramente não são a "doença" ou a base dos problemas psíquicos que estavam se iniciando. Olhe para como nossa sociedade está abraçando a olanzapina, dando isto para crianças com dois anos de idade. Você pode conceber isso, dar a uma criança de dois anos um antipsicótico que pode torná-lo diabético e obeso? Bem, nós estamos fazendo isto! Spirit: Esses são efeitos colaterais que podem encurtar em muito a expectativa da vida... Whitaker: Oh, claro! Quarenta quilos? Diabetes? Você está falando sobre uma sentença de morte. Sem dúvida. Existiria outro estudo sobre o qual ninguém quer conversar, em que as crianças submetidas ao olanzapina terminam com uma atrofia no córtex cerebral. Agora os pesquisadores disseram que isso seria um sinal do processo da doença. Bem, eu diria que, se você examina tais estudos o que você tem, não é nada menos que a mesma coisa que já conhecíamos com os antigos neurolépticos - você tem mudanças cerebrais, neste caso a perda de córtex cerebral que é associado ao inicio do uso de tais medicamentos. Spirit: Da mesma forma que os competidores do Zyprexa® estão assinalando seus defeitos, a mesma coisa aconteceu anteriormente com os neurolépticos. Os psiquiatras ignoraram as reclamações dos pacientes a respeito do uso

de neurolépticos por quatro décadas, e até ignoraram as audiências do senador Birch Bayh, que em 1975 alertou a tais efeitos terríveis. Demorou até os anos 1990s quando finalmente se admitiu que dois terços dos pacientes sob uso de neurolépticos tinham "sintomas persistentes de Parkinson." Seu livro assinala que eles só admitiram isso porque os novos atípicos estavam sendo lançados e eles quiseram mostrar como eles eram superiores aos neurolépticos antigos. Whitaker: Certo. De repente se torna um incentivo econômico admitir o fracasso das drogas velhas. E é isso que estaria acontecendo novamente. Agora outros médicos estão sendo pagos para elogiar em demasia as novas drogas, e essas companhias claramente querem ter uma droga que é competitiva ao olanzapina, então existe um incentivo econômico para reconhecer que ela é associada com a diabetes. E eu garanto a você, o que quer nós dissermos sobre os riscos atuais, nós sabemos que é menosprezado. Spirit: Novas terapias podem ser tomadas como maravilhosos tratamentos porque eles não têm os efeitos ruins semelhantes aos antigos tratamentos; mas freqüentemente, o fato é que os efeitos colaterais são diferentes e levam anos para emergir. Naquele período anterior aos novos efeitos colaterais ficarem evidentes, as companhias farmacêuticas estariam livres para reivindicar que eles não têm qualquer efeito deletério. Whitaker: Você sabe o que mais, eu acredito honestamente que de certa maneira as novas drogas são piores. O que você está vendo são alguns benefícios sob dosagens mais baixas. Você poderia supor que eles seriam mais problemáticos porque eles estão agindo em um número maior de sistemas de neurotransmissores. Eles estão prejudicando a transmissão de serotonina, a transmissão de dopamina, eles afetam outros neurotransmissores. Elas são realmente drogas com uma ampla atuação. Pelo menos tão problemático é que a tentativa de sair do uso desses novos atípicos parece ser, talvez, mais difícil do que com as drogas mais velhas. Uma vez que estamos falando sobre múltiplos sistemas metabólicos sendo afetados, você tem que se perguntar se você vai passar por momentos ainda mais decisivos para uma morte precoce.

Por outro lado, as pessoas estão sendo submetidas ao uso de quatro ou cinco drogas concomitantes. A razão de elas estarem sob quatro ou cinco drogas é porque uma primeira droga está causando tantos problemas, que eles precisarão receber um segundo, e prescreverão outros mais para mascarar ou antagonizar os efeitos ruins. Então, se torna comum nas prescrições atuais o uso de um antidepressivo e um atípico. Então o atípico derruba sua atividade da serotonina e o antidepressivo eleva essa atividade. Parece bizarro. É como prender um indivíduo em duas direções opostas. Spirit: Clozaril é outro novo atípico extremamente elogiado, porém eu também já ouvi relatórios de que ele tem perigosos efeitos colaterais. Whitaker: Claro que quando o Clozaril® (no Brasil: Leponex®, NT), ou clozapina, foi desenvolvido inicialmente por volta dos anos 1970, eles não iriam destacar isto, porque ele era visto apenas como muito perigoso. O interessante com clozapina é, algumas pessoas dizem que essa substância parece produzir a melhor mudança em termos de agilidade mental e comportamento mental em um reduzido subgrupo de pessoas, embora se trate de uma droga terrivelmente sedativa. Você obtém ganho de peso com a clozapina, o que é claramente um problema. É profundamente sedativa. Você tem os mesmos sinais da olanzapina (Zyprexa®) de perturbação metabólica. Adicionalmente, você pode fazer uma depleção potencialmente fatal das células brancas do sangue (leucócitos). Ironicamente (rindo) - e isso mostra o grau de desenvolvimento que temos com as droga antipsicóticas você podia redigir um artigo divulgando que a clozapina ainda é o melhor medicamento, a despeito de todos aqueles problemas! Spirit: Parece que a psiquiatria ainda é um campo de estudos que precisa se transformar para se tornar em uma ciência real. Não produziu nadas exceto vários modos de tranqüilizar e transformar pessoas em vegetais. O “insight” verdadeiro não foi alcançado, as reais terapias não foram alcançadas. Não conseguiu ir além da capacidade de danificar o cérebro para aquietar certos sintomas.

Whitaker: E finalmente, alguns dos homens fortes de certos jornais científicos estão dizendo exatamente isto. Eles admitem que desde a introdução das drogas psicotrópicas nos anos 1950, os resultados realmente não melhoraram; e em segundo lugar, os resultados à longo prazo (outcomes) realmente não melhoram mais do que eles já eram há 100 anos atrás. Em terceiro lugar, eles admitem que nós, de fato, não temos a menor idéia de por quais razões se inicia a esquizofrenia. Isto é realmente renovador, porque ao admitir que você não sabe nada, isso é um começo. Spirit: Você documentou como a indústria farmacêutica, altamente lucrativa, corrompeu a independência do processo de testes com drogas, mesmo nas universidades. Whitaker: O dinheiro das empresas farmacêuticas flui para as universidades, ele financia aqueles que fazem pesquisa e aqueles que estudam sobre as drogas e emitem relatórios. Aqueles que recebem o dinheiro sabem que o jogo é mexer com a história para refletir positivamente essas drogas. E você distorce isto em todos os passos do processo, desde os passos iniciais de planejamento desses testes, o que resulta em completa corrupção do sistema. Spirit: Sua pesquisa verificou que as companhias farmacêuticas exaltam em demasia os benefícios e ignoram os efeitos colaterais dos medicamentos em suas apresentações e anúncios publicitários? Whitaker: Sim. O que leva a uma falsa história. Leva a uma história que exagera ou engana a eficiência das drogas e esconde os problemas. Isso só pode levar a uma medicina ruim, porque não dá um retrato acurado do medicamento. Spirit: Um dos poucos momentos entusiasmantes do seu livro é a prática do "tratamento moral" em instalações humanitárias operadas por certos religiosos (Quakers) na Inglaterra e na Pennsylvania nos anos 1800. O que nós ainda podemos aprender nos dias de hoje com esse tipo de tratamento moral? Whitaker: Existem duas lições do tratamento moral. Uma é que simplesmente se tratando pessoas de um modo humanitário, tratando aqueles que nós chamamos de "mentalmente doentes" da mesma maneira que nós

trataríamos qualquer outra pessoa, implicará em um benefício. As pessoas respondem positivamente para a afabilidade, ao exercício, e a boa comida. As pessoas respondem positivamente para um ambiente onde elas são estimadas. Então essas posturas são terapêuticas, e isso não deveria deixar-nos assombrados. No momento em que você diz que o "doente mental" é simplesmente parte da humanidade, eles são como nós, então, é óbvio que você espera que eles respondam favoravelmente, porque todos nós respondemos bem para esse tipo de situação - tendo um lugar para ficar, amizade e amor. De fato, se você não tiver aquelas coisas, pessoas "normais" começam a ficar doentes. A segunda coisa que você aprende com tratamento moral do passado, é que nossa visão moderna de enfermidades mentais classificadas como sérias - "uma vez esquizofrênico, sempre um esquizofrênico" – ou seja: que isso é de alguma forma uma desordem física permanente, no final não é verdade. Muitas pessoas podem cair a uma psicose e melhorar, e ficando bem para o resto de suas vidas. Por isso você consegue esta diversidade de resultados nos anos 1800 que mostram que a história nós estamos contando para nós mesmos de que a esquizofrenia é uma perturbação permanente para qualquer pessoa - isto é uma mentira. Não é verdade. É uma mentira que remove a esperança de forma desnecessária das pessoas que caem a esse momento difícil, e isto é cruel. Spirit: Qual tem sido a reação do “establishment” psiquiátrico para com seu livro? Whitaker: A reação dos psiquiatras, de seu poder, tem sido hostil. Eu tenho sido menosprezado em diferentes publicações. Porém, tem sido ataques pessoais. Eles disseram que eu era um "bom jornalista que fiz bobagem," ou coisas do gênero. Eles não atacaram o que eu publiquei, os fatos, a verdade. Não houve ninguém que assinalou uma citação errônea ou um abuso do estudo - nada disto. Zero. Ponto. Nem mesmo quando eu escrevi sobre os testes corruptos com as medicações - nada. Nenhum desafio a isso. Zero. Então o fato é que eles me atacam, pessoalmente, mas não contestam o que eu escrevi propriamente e não dizem: "ele estava errado aqui." Isto é bastante esclarecedor.

Existem alguns psiquiatras que são críticos da psiquiatria que se sentiram encorajados pelo livro. Mas isso tem sido uma minoria distinta de psiquiatras que reagiram desse modo (risos). Mas o que existe realmente é uma hostilidade. Spirit: Foi uma experiência assustadora ser tratado com desprezo pelos poderosos? Whitaker: Não, tem sido absolutamente a experiência jornalística mais recompensadora da minha vida, sem dúvida. A razão é porque aqueles que haviam ficado sem voz, por assim dizer, com quem nós conversamos sobre isso, têm sido gratos e maravilhosos em deixar-me conhecê-los e apreciaram que alguém contasse suas histórias. Isto é uma coisa maravilhosa que aconteceu. É um privilégio ser capaz de poder contar essa história. Eu me sinto honrado por isto. É uma instância de fazer jornalismo onde você está afligindo o confortável e confortando o afligido. Finalmente, você conhece grandes pessoas. Pessoas que passaram por essas situações e retornam do outro lado da sanidade, com sua dignidade intacta, sendo surpreendentes seres humanos - e corajosos acima de tudo. Spirit: Qual tem sido a reação da imprensa popular para seu livro? Whitaker: A reação da imprensa popular foi de mudez. A imprensa recebe realmente como legado um pouco de crítica em meu livro. As revisões nos jornais foram discretas, como: "Ele fez alguns bons pontos, porém ele foi longe demais." Spirit: Como todos os profetas que foram longe demais. Whitaker: (Risos) O que você vê nessas revisões dos jornais é geralmente uma defesa do “status quo”. Spirit: Não balance o barco. Whitaker: Você pode balançar isto um pouco, mas não balance demais. E realmente não balance esta história, este paradigma que nós nos convencemos de chamar de progresso. Os revisores não ousariam tratar os estudos da OMS; eles simplesmente não tratam disso em suas revisões. Isso mostra que eles tiveram uma necessidade de filtrar o

que a história pode nos contar, e eles fazem isso não reportando qualquer evidência maldita.

Tradução: José Carlos Brasil Peixoto

Nota original do editor: Essa entrevista se foca no livro de Robert Whitaker “MAD IN AMERICA (Louco na América)”, e esclarece a história não contada de técnicas psiquiátricas de tortura e de crueldade, e mostra como aquelas técnicas anteriores evoluíram para o atual arsenal psiquiátrico. Essa é uma entrevista anterior que pré-dataria essa nova entrevista do Street Spirit com Whitaker sobre suas pesquisas mais recentes, intitulada "Drogas Psiquiátricas: Um Assalto à Condição Humana." Ambas as entrevistas foram divulgadas na edição de agosto de 2005 do Street Spirit porque, tomada juntas, elas fornecem uma avaliação completa de práticas de tortura da psiquiatria do passado e sua arriscada super confiança nas perigosas e tóxicas drogas da atualidade.
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Link http://www.thestreetspirit.org/August2005/madinterview.htm

original:

AGUARDE: "Drogas Psiquiátricas: Um Assalto à Condição Humana." Nas próximas semanas nesse site! Retorna à página Saúde Mental
Fonte: http://www.umaoutravisao.com.br/madinamerica.htm

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