“Deus não morreu.

Ele tornou-se Dinheiro” | Entrevista com Giorgio Agamben
Publicado em 31/08/2012 | 10 Comentários

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Confira abaixo matéria publicada no site do Instituto Humanitas Unisinos.

“O capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro”, afirma Giorgio Agamben, em entrevista concedida a Peppe Salvà e publicada por Ragusa News, 16-08-2012. Giorgio Agamben é um dos maiores filósofos vivos. Amigo de Pasolini e de Heidegger, foi definido pelo Times e pelo Le Monde como uma das dez mais importantes cabeças pensantes do mundo. Pelo segundo ano consecutivo ele transcorreu um longo período de férias em Scicli, na Sicília, Itália, onde concedeu a entrevista. Segundo ele, “a nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governabilidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas”. Assim, “a tarefa que nos espera consiste em pensar integralmente, de cabo a cabo, aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”, afima Agamben. A tradução é de Selvino J. Assmann, professor de Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC [e tradutor de três das quatro obras de Agamben publicadas pela Boitempo]. ***

da sua . pseudo-religiosa) podem ser feitas afirmações tão evidentemente absurdas e desumanas. trata-se. o fato de o capitalismo ser hoje uma religião. e a mais feroz. governando o crédito (até mesmo o crédito dos Estados. Isso mesmo. ele. incerta confiança – que o nosso tempo ainda traz consigo. entretanto exteriores e disponíveis. Deus não morreu. apenas um patrimônio de bens e de tradições. que docilmente abdicaram de sua soberania). de cada vez. que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. sob este ponto de vista é exemplar) têm com relação às suas cidades. pois me parece que. mas é antes de mais nada uma crise da relação com o passado. mas como palavras de ordem. europeus”. O conhecimento do passado é o único caminho de acesso ao presente. às suas obras de arte. para quem a história e o passado têm um significado completamente diferente – pode ter acesso à sua verdade unicamente através de um confronto com o passado. se admitirmos que a palavra “Europa” tenha um sentido. porque não conhece nem redenção nem trégua. mas também e sobretudo um componente antropológico essencial do homem europeu. da própria realidade da Europa. É procurando compreender o presente que os seres humanos – pelo menos nós. nem religioso e menos ainda econômico. não pode ser nem político. A crise econômica que ameaça levar consigo parte dos Estados europeus pode ser vista como condição de crise de toda a modernidade? A crise atravessada pela Europa não é apenas um problema econômico. pois. que só pode ter acesso ao presente olhando.O governo Monti invoca a crise e o estado de necessidade. europeus – são obrigados a interrogar o passado. isso sim. Além disso. servir de pretexto para impor uma séria limitação às liberdades democráticas? “Crise” e “economia” atualmente não são usadas como conceitos. “salvar” é um termo religioso. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional. a Sicília. nada o mostra melhor do que o titulo de um grande jornal nacional (italiano) de alguns dias atrás: “salvar o euro a qualquer preço”. como se gostaria que fosse vista. manipula e gere a fé – a escassa. realmente. unicamente fazendo as contas com a sua história. para o que ele foi. pelo contrário. ou melhor. dos asiáticos e dos americanos. por exemplo. ou poderia. Para entendermos o que está acontecendo. O passado não é. no fato de que o homem europeu – à diferença. é preciso tomar ao pé da letra a ideia de Walter Benjamin. de memórias e de saberes. “Crise” hoje em dia significa simplesmente “você deve obedecer!”. O Banco – com os seus cinzentos funcionários e especialistas – assumiu o lugar da Igreja e dos seus padres e. uma religião. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro. à sua paisagem: não se trata de conservar bens mais ou menos preciosos. implacável e irracional religião que jamais existiu. Creio que seja evidente para todos que a chamada “crise” já dura decênios e nada mais é senão o modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. mas o que significa “a qualquer preço”? Até ao preço de “sacrificar” vidas humanas? Só numa perspectiva religiosa (ou melhor. Eu disse “nós. mas talvez consista nisso. ele se tornou Dinheiro. como hoje aparece como evidente. segundo o qual o capitalismo é. A convocação de Monti era a única saída. e parece ser a única saída tanto da catástrofe financeira quanto das formas indecentes que o poder havia assumido na Itália. Daí nasce a relação especial que os países europeus (a Itália.

A nova ordem do poder mundial fundase sobre um modelo de governamentalidade que se define como democrática. As formas da política . que podem ser desfrutados economicamente e talvez vendidos. mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas. Qual é o ponto de mediação possível entre os dois pólos? Minhas investigações mostraram que o poder soberano se fundamenta. Neste sentido. Tal separação atinge sua forma extrema na biopolítica moderna. em última análise. sobre o que é uma vida humana e sobre o que ela não é. desde a sua origem. A vida nua foi excluída da política e. afirmava que o homo sapiens havia chegado ao fim de sua história e já não tinha nada diante de si a não ser duas possibilidades: o acesso a uma animalidade pós-histórica (encarnado pela american way of life) ou o esnobismo (encarnado pelos japoneses. A própria expressão “bens culturais” é enganadora. na qual o cuidado e a decisão sobre a vida nua se tornam aquilo que está em jogo na política. A sua obra mais conhecida. mesmo depois do fim da história. a saber. porque é capaz de confrontar-se com a sua própria história na sua totalidade e capaz de alcançar. esvaziadas. porém. ao mesmo tempo. que. os especuladores não nos privam apenas de um bem. a Europa poderia oferecer a alternativa de uma cultura que continua sendo humana e vital. de qualquer significado histórico). um filósofo que também era um alto funcionário da Europa nascente. na separação entre vida nua (a vida biológica. a partir deste confronto. Alexandre Kojève. foi incluída e capturada através da sua exclusão. e evidencia as dificuldades presentes nos dois termos. a vida nua é o fundamento negativo do poder. como se fosse possível liquidar e por à venda a própria identidade. E que este modelo seja. com as autopistas e a Alta Velocidade. do ponto de vista do poder. Homo Sacer. O que está acontecendo é uma transformação radical das categorias com que estávamos acostumados a pensar a política. a paisagem italiana. É mais simples manipular a opinião das pessoas através da mídia e da televisão do que dever impor em cada oportunidade as próprias decisões com a violência. encontrava seu lugar na casa) e vida politicamente qualificada (que tinha seu lugar na cidade). O que aconteceu nos estados totalitários do século XX reside no fato de que é o poder (também na forma da ciência) que decide. mas destroem a nossa própria identidade. pergunta pela relação entre poder político e vida nua. de uma vida que nunca seja separável da sua forma. uma nova vida. Há muitos anos. que continuavam a celebrar as suas cerimônias do chá. ao destruírem. para usar um eufemismo. Neste sentido. O mal-estar. Contra isso. mais econômico e funcional é provado pelo fato de que foi adotado também por aqueles regimes que até poucos anos atrás eram ditaduras. na Grécia. Entre uma América do Norte integralmente re-animalizada e um Japão que só se mantém humano ao preço de renunciar a todo conteúdo histórico. com que o ser humano comum se põe frente ao mundo da política tem a ver especificamente com a condição italiana ou é de algum modo inevitável?
 
 Acredito que atualmente estamos frente a um fenômeno novo que vai além do desencanto e da desconfiança recíproca entre os cidadãos e o poder e tem a ver com o planeta inteiro. se trata de pensar numa política das formas de vida. pois sugere que se trata de bens entre outros bens. que jamais seja vida nua. com o cimento.indisponível sobrevivência.

os partidos políticos. mas a política tem hoje a forma de uma “economia”. exatamente assim como acontece na economia em que a crise se tornou a condição normal. como acontece nos templos do absurdo que são os museus de arte contemporânea. pelo contrário. a saber. a participação democrática. A grande autoridade que muitos atribuem a estudiosos que. o modelo normal de governo. a arte se encontra premida entre a Cila do museu e a Caribdis da mercantilização. como o senhor. enquanto outros viram nela uma indicação de como sair do xeque-mate no qual a arte contemporânea está envolvida. O único lugar em que o passado pode viver é o presente. a soberania. investigam a natureza do poder político poderá trazer-nos esperanças de que. E certamente ele não dispunha das possibilidades de controle (dados biométricos. as duas coisas coincidem. logo depois que assumiu o poder. E os crimes contra a humanidade cometidos durante o nazismo foram possibilitados exatamente pelo fato de Hitler. o futuro será melhor do que o presente?
 
 Otimismo e pessimismo não são categorias úteis para pensar. Poucos sabem que as normas introduzidas. Como escrevia Marx em carta a Ruge: “a situação desesperada da época em que vivo me enche de esperança”. dizendo-o de forma banal. Uma cidade cujas praças e cujas estradas são controladas por videocâmeras não é mais um lugar público: é uma prisão. Isso não pode senão piorar e tornar impossível aquela participação na política que deveria definir a democracia. A situação da arte hoje em dia é talvez o lugar exemplar para compreendermos a crise na relação com o passado.por nós conhecidas – o Estado nacional. celulares. O estado de exceção. de um governo das coisas e dos seres humanos. E muitas vezes. É possível atenuar esta sensação? Vivemos há decênios num estado de exceção que se tornou regra. de resto pouco clara em si mesma. de cabo a cabo. pequena cidade em que moram alguns dos mais importantes pintores vivos. . em matéria de segurança.
 
 Trata-se de uma homenagem a Piero Guccione e a Scicli. cartões de crédito) próprias dos estados contemporâneos. “vida política”. Podemos fazer-lhe uma pergunta sobre a aula que o senhor deu em Scicli? Houve quem lesse a conclusão que se refere a Piero Guccione como se fosse uma homenagem devida a uma amizade enraizada no tempo. ter proclamado um estado de exceção que nunca foi revogado. A tarefa que nos espera consiste. Em uma sociedade que já não sabe o que fazer do seu passado. o direito internacional – já chegaram ao fim da sua história. O estado de exceção – que deveria sempre ser limitado no tempo – é. videocâmeras. se tornam lugares problemáticos. Poder-se-ia afirmar hoje que o Estado considera todo cidadão um terrorista virtual. em pensar integralmente. e se o presente não sente mais o próprio passado como vivo. e isso precisamente nos estados que se dizem democráticos. mas os cidadãos ficam perdidos perante a incerteza na qual vivem cotidianamente. portanto. depois do 11 de setembro (na Itália já se havia começado a partir dos anos de chumbo) são piores do que aquelas que vigoravam sob o fascismo. o museu e a arte. que o senhor vinculou ao conceito de soberania. de que acabamos de falar. hoje em dia parece assumir o caráter de normalidade. aquilo que até agora havíamos definido com a expressão. Elas continuam vivas como formas vazias. que daquele passado é a figura eminente.

O que faz Duchamp quando inventa o ready-made? Ele toma um objeto de uso qualquer. fechada entre o museu e a mercantilização. e. assim como o dinheiro. enchendo com não-obras e performances em museus. se muito. produção – e nem sequer o artista. destinados a acelerar a circulação de mercadorias. ou. porque não há de forma alguma uma poiesis. afastando-se da carreira docente no final . Em todo caso. É um dos principais intelectuais de sua geração. por exemplo. que. mas. de hábeis especuladores e de “vivos” transformou o ready-made em obra de arte. como “alguém que respira”. Esta é a contradição da arte contemporânea: abolir a obra e ao mesmo tempo estipular seu preço. Mais recentemente ministrou aulas de Iconologia no Instituto Universitario di Architettura di Venezia (Iuav). Vocês sabem: o que de fato aconteceu é que um conluio. certamente ele não queria produzir uma obra de arte. Deu cursos em várias universidades europeias e norte-americanas. Naturalmente – a não ser o breve instante que dura o efeito do estranhamento e da surpresa – na realidade nada alcança aqui a presença: nem a obra. que são meros organismos do mercado. mas desobstruir o caminhar da arte. recusando-se a prosseguir lecionando na New York University em protesto à política de segurança dos Estados Unidos. já alcançaram o estado de liquidez e querem ainda valer como obras. E a chamada arte contemporânea nada mais faz do que repetir o gesto de Duchamp. nem a operação artística. produzido industrialmente.Duchamp talvez tenha sido o primeiro a dar-se conta do beco sem saída em que a arte se meteu. infelizmente ainda ativo. como filósofo ou crítico. pois se trata de um objeto de uso qualquer. porque aquele que assina com um irônico nome falso o vaso sanitário não age como artista. o força a apresentar-se como obra de arte. um vaso sanitário. introduzindo-o num museu. um simples ser vivo. autor de muitos livros e responsável pela edição italiana das obras de Walter Benjamin. *** ! Sobre o autor Giorgio Agamben nasceu em Roma em 1942. Foi diretor de programa no Collège International de Philosophie de Paris. conforme gostava de dizer Duchamp.

Entre seus principais livros destacam-se Homo sacer (2005).com. poesia e. Profanações (2007). O que resta de Auschwitz (2008) e O reino e a glória (2011). fundamentalmente. política.de 2009. centra-se nas relações entre filosofia. os quatro últimos publicados no Brasil pela Boitempo Editorial. Sua obra. Estado de exceção (2005). influenciada por Michel Foucault e Hannah Arendt.br/2012/08/31/deus-nao-morreu-ele-tornouse-dinheiro-entrevista-com-giorgio-agamben/ . literatura. ebooks Todos os livros de Giorgio Agamben publicados pela Boitempo Editorial estão à venda em versão eletrônica (ebook): Estado de exceção | PDF | R$22 (confira prévia no Google Books) Profanações | PDF | R$13 (confira prévia no Google Books) O que resta de Auschwitz | PDF | R$25 (confira prévia no Google Books) O reino e a glória | ePub | R$36 Publicado em: http://blogdaboitempo.