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O jovem como sujeito social Juarez Dayrell Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Educação

musicais juvenis no Brasil, pelo menos aquelas a que tivemos acesso,2 percebi uma tendência na descrição e análise dos grupos em si mesmos, possibilitando o conhecimento da sua realidade cotidiana, a forma como constroem o estilo, os significados que lhe atribuem e o que expressam no contexto de uma sociedade cada vez mais globalizada. Esses estudos muito

Introdução Neste artigo tratamos de jovens ligados a grupos musicais, especificamente de rappers e funkeiros. Mas a discussão não será em torno dos estilos rap e funk em si mesmos, o que de alguma forma já discuti em artigos anteriores.1 Proponho um olhar sobre os jovens para além dos grupos musicais, buscando compreendê-los como sujeitos sociais que, como tais, constroem um determinado modo de ser jovem. Ou seja, a pergunta sobre quem são esses jovens que participam de grupos de rap e funk. Ao analisar a produção teórica sobre os grupos contribuíram para problematizar a cultura juvenil contemporânea, evidenciando, por meio dela, os anseios e os dilemas brasileira. vividos pela juventude

Contudo, apesar de suas contribuições, essa produção teórica apresenta uma lacuna. Ao construírem o seu objeto, tais investigações recortam de tal forma a realidade dos jovens que dificultam a sua compreensão como sujeitos, na sua totalidade. Podemos até conhecer o jovem como um rapper ou um funkeiro, mas sabemos muito pouco a respeito do significado dessa identidade no conjunto que, efetivamente, faz com que ele seja o que é naquele momento. Por outro lado, nos deparamos no cotidiano com

uma série de imagens a respeito da juventude que interferem na nossa maneira de compreender os jovens. Uma das mais arraigadas é a juventude vista na sua condição de transitoriedade, na qual o jovem é um “vir a ser”, tendo no futuro, na passagem para a vida adulta, o sentido das suas ações no presente. Sob essa 1 Ver Dayrell (1999, 2001, 2002a, 2002b). 2 Vianna (1987); Sposito (1993); Kemp (1993); Costa (1993); Abramo (1994); Guerreiro (1994); Guimarães (1995); Andrade (1996); Cechetto (1997); Silva (1998); Arce (1999); Herschmann (2000); Tella (2000).O jovem como sujeito social Revista Brasileira de Educação 41 perspectiva, há uma tendência de encarar a juventude na sua negatividade, o que ainda não chegou a ser (Salem, 1986), negando o presente vivido. Essa concepção está muito presente na escola: em nome do “vir a ser” do aluno, traduzido no diploma e nos possíveis projetos de futuro, tendese a negar o presente vivido do jovem como espaço válido de formação,

assim como as questões existenciais que eles expõem, bem mais amplas do que apenas o futuro. Uma outra imagem presente é uma visão romântica da juventude que veio se cristalizando a partir dos anos de 1960, resultado, entre outros fatores, do florescimento da indústria cultural e de um mercado de consumo dirigido aos jovens, que se traduziu, em modas, adornos, locais de lazer, músicas, revistas etc. (Leccardi, 1991; Abramo, 1994; Feixa, 1998). Nessa visão, a juventude seria um tempo de liberdade, de prazer, de expressão de comportamentos exóticos. A essa idéia se alia a noção de moratória, como um tempo para o ensaio e o erro, para experimentações, um período marcado pelo hedonismo e pela irresponsabilidade, com uma relativização da aplicação de sanções sobre o comportamento juvenil. Mais recentemente, acrescenta-se uma outra tendência de perceber o jovem reduzido apenas ao campo da cultura, como se ele só expressasse a sua condição juvenil nos finais de semana ou quando envolvido em atividades culturais.

Alguns autores vêm ressaltando que a família. bem como minha compreensão do jovem como sujeito social. existe uma tendência em considerar a juventude como um momento de distanciamento da família. pois. torna-se necessário explicitar meu olhar sobre a juventude. . uma fase difícil. constroem um determinado modo de ser jovem. dominada por conflitos com a auto-estima e/ou com a personalidade. rap e funk. estaria perdendo o seu papel central de orientação e de valores para as gerações mais novas (Morcellini. constroem as suas experiências. Juventude? Juventudes. quando arraigados nesses “modelos” socialmente construídos. enfatizando as características que lhes faltariam para corresponder a um determinado modelo de “ser jovem”. 1997.. Para isso tomaremos como foco jovens das camadas populares ligados a grupos musicais. principalmente porque os critérios que a constituem são históricos e culturais. 1997. me limitarei a explicitar a minha posição. baseados em seu cotidiano. corremos o risco de analisar os jovens de forma negativa. Abromavay et al. Torna-se necessário colocar em questão essas imagens. Zaluar.Essas imagens convivem com outra: a juventude vista como um momento de crise. apontando para uma possível crise da família como instituição socializadora.4 Neste artigo.1999). Dessa forma. principalmente se forem das camadas populares.. pretendo evidenciar neste artigo como os jovens. 3 Quem são esses jovens fora dos grupos dos quais participam? Como constroem um determinado modo de ser jovem no seu cotidiano? Para desenvolver tais questões. junto com o trabalho e a escola. Comecemos por essa discussão. não conseguimos apreender os modos pelos quais os jovens. trazendo importantes contribuições. no caso. ressaltando a dimensão da diversidade presente na mesma. Uma série de autores já se debruçou sobre o tema. Ligada a essa idéia. não sendo meu propósito aqui recuperar toda essa discussão.. Construir uma definição da categoria juventude não é fácil. enquanto sujeitos sociais. Com base nessas preocupações.

Nesse determinadas sentido. Peralva (1997). Nessa direção.Juarez Dayrell 42 Set /Out /Nov /Dez 2003 No 24 da faixa etária. Para ele. mas sim como parte de crescimento mais um processo de totalizante. no seu interior. dentre outros sinais corporais e psicológicos. dentre outros aspectos. a buscar a independência e a dar provas de autosuficiência. Dayrell (1999. ao mesmo tempo. 2001). quando começa a assumir responsabilidades. Essa diversidade se concretiza com base nas condições sociais (classes sociais). culturais (etnias. em um forma como cada identidades religiosas. 4 Para uma discussão mais aprofundada a respeito da noção de juventude. uma condição social e um tipo de representação. Feixa (1998). nas quais completa o seu desenvolvimento físico e enfrenta mudanças psicológicas. valores) e de gênero. em primeiro lugar. quando a pessoa dá sinais de ter necessidade de menos proteção por parte da família. tempo histórico determinado. considerá-la não mais presa a critérios rígidos. quando fisicamente se adquire a capacidade de procriar. 2000). cada grupo social vão lidar com esse momento e representá-lo. e também das regiões geográficas. muito menos como um momento de preparação que será superado com o chegar da vida adulta. cuja maturação biológica faz emergir potencialidades. . ver Pais (1993). como Peralva (1997).Entendemos. é muito variada a sociedade. Melucci (apud Melucci & Fabbrini. entre outros. Se há um caráter universal dado pelas transformações do indivíduo numa determina3 Os dados empíricos utilizados são parte da pesquisa que resultou na tese de doutorado intitulada A música entra em cena: o rap e o funk na socialização da juventude em Belo Horizonte (Dayrell. que a juventude é. 2001). que ganha contornos específicos no conjunto das experiências vivenciadas pelos indivíduos no seu contexto social. Significa não entender a juventude como uma etapa com um fim predeterminado. existe uma seqüência temporal no curso da vida. e. é possível marcar um início da juventude. 1992) nos propõe uma outra forma de compreender a adolescência e a juventude. Construir uma noção de juventude na perspectiva da diversidade implica. Sposito (1993.

entendida como a última meta da maturidade. ela assume uma importância em si mesma. na qual ocorra uma complexidade crescente. Assim compreendida. o que não significa.Mas. como a fase da crise ou de trânsito entre a infância e a vida adulta. de tal forma a cancelar as experiências precedentes. um momento cujo núcleo central é constituído de mudanças do corpo. mas que tem especificidades que marcam a vida de cada um. A juventude constitui um momento determinado. ao longo da vida. Todo esse processo é influenciado pelo meio social concreto no qual se desenvolve e pela qualidade das trocas que este proporciona. mas não se reduz a uma passagem. para enfatizar a diversidade de modos de ser jovem existentes. Os jovens como sujeitos sociais implica necessariamente uma evolução linear. Um . para o temporal não autor. no plural. entendemos a juventude como parte de um processo mais amplo de constituição de sujeitos. defende a idéia de que os fenômenos evolutivos presentes nas mudanças dos ciclos vitais são fatos que dizem respeito a cada momento da existência. os jovens pesquisados constroem determinados modos de ser jovem que apresentam especificidades. tornase necessário articular a noção de juventude à de sujeito social. É nesse sentido que enfatizamos a noção de juventudes. a adolescência não pode ser entendida como um tempo que termina. dos afetos. Melucci. que haja um único modo de ser jovem nas camadas populares. Assim. fazendo das mudanças ou transformações uma característica estável da vida do indivíduo. das referências sociais e relacionais. de algum modo. Dessa discussão. Mas representa o momento do início da juventude. ao contrário. Assim. porém. uma seqüência momento no qual se vive de forma mais intensa um conjunto de transformações que vão estar presentes. com a substituição das fases primitivas pelas fases mais maduras.

O jovem como sujeito social Revista Brasileira de Educação 43 além de estar em relação com outros seres humanos. o ser que é igual a todos como espécie. . Charlot (2000) lembra ainda que a essência originária do indivíduo humano não está dentro dele para outros. alguns pré- que ocupa um determinado lugar social e se encontra inserido em relações sociais. ou mesmo de ator social. Para alguns. mas uma construção. é produzido no conjunto das relações sociais no qual se insere. Outras vezes é tomada como sinônimo de indivíduo. ao mesmo tempo. igual a alguns como parte de um determinado grupo social e diferente de todos como um ser singular. o sujeito é um ser singular. sem a preocupação de defini-la. a noção de sujeito social é tomada com um sentido em si mesma. é portador de desejos. às suas relações com os outros. Nos limites deste artigo não cabe uma discussão que recupere a construção do conceito. e é movido por eles. age no e sobre o mundo. assumi a definição de Charlot (2000. p. como se fosse consensual a compreensão do seu significado. o sujeito é um ser social. para quem o sujeito é um ser humano aberto a um mundo que possui uma historicidade. o sujeito é ativo. no qual o ser se constitui como sujeito à medida que se constitui como humano. ou seja. eles também sujeitos. definindo-se requisitos para tal. assim me limitarei a assumir determinada posição. com o desenvolvimento das potencialidades que o caracterizam como espécie. A condição humana é vista como um processo. que interpreta o mundo e dá-lhe sentido. com uma determinada origem familiar. Charlot relaciona a noção de sujeito às características que definem a própria condição antropológica que constitui o ser humano. Ao mesmo tempo. que tem uma história. à sua própria história e à sua singularidade. Para o autor.Geralmente. Para efeitos desta análise. o ser humano não é um dado. própria do ser humano. e nessa ação se produz e. um constante tornarse por si mesmo. falar em “sujeito” implica uma condição que se alcança. é uma condição ontológica. 33 e 51). Finalmente. assim como dá sentido à posição que ocupa nele. Nessa perspectiva.

concordo com Charlot. Assim. Dizer que a essência humana é antes de tudo social é o mesmo que afirmar que o homem se constitui na relação com o outro. A possibilidade de o ser humano se constituir como tal depende tanto do seu desenvolvimento biológico. privado de desenvolver as suas potencialidades. histórica. a raça. Quando cada um desses jovens nasceu. a sociedade já tinha uma existência prévia. Não é que eles não se construam como sujeitos.mesmo. que se desenvolvem com base nas relações que estabelece com o outro. mas sim que eles se constroem como tais na especificidade dos recursos de que dispõem. Ao mesmo tempo. como foi possível constatar em grande parte dos jovens pesquisados. o fato . É essa realidade que nos leva a perguntar se esses jovens não estariam nos mostrando um jeito próprio de viver. vista nessa perspectiva. Mas temos de levar em consideração que existem várias maneiras de se construir como sujeito. nos quais o ser humano é “proibido de ser”. e uma delas se refere aos contextos de desumanização. quando afirma que todo ser humano é sujeito. dimensões totalmente interligadas. social e cultural. em especial do sistema nervoso. mostra que o ser humano se coloca no limite entre a natureza e a cultura: a dimensão biológica e a social influenciam-se mutuamente na produção humana. Assim. portanto. O homem se constitui como ser biológico. de viver plenamente a sua condição humana. no mundo das relações sociais. no meio social concreto em que se insere. quanto da qualidade das trocas que se dão entre os homens no meio no qual se insere. Podemos concluir desenvolvimento que o pleno ou não das potencialidades caracterizam o ser que humano vai depender da qualidade das relações sociais desse meio no qual se insere. em uma posição excêntrica. ou o sejam pela metade. não foi produzida por ele. a alteridade. mas sim fora. Trata-se da outra face da condição humana a ser desenvolvida: a sua natureza social. o gênero. cuja estrutura não dependeu desse sujeito.

não apenas durante o processo de pesquisa mas também em meu cotidiano como educador. Diz respeito a uma postura metodológica e ética. pais trabalhadores 44 Set /Out /Nov /Dez 2003 No 24 grande parte deles escolaridade. transformado em representações. que interpreta e dá sentido ao seu mundo e às relações que mantém. A experiência da pesquisa mostrou-me que ver e lidar com o jovem como sujeito. acredito que este artigo não apenas fala dos jovens. entram em um conjunto de relações e processos que constituem um sistema de sentidos. o que produz uma cultura própria. essa tríade que acompanha muitos dos jovens como uma maldição. É resultado de um modo de observar centrado nas relações. amam. preto e pobre”. é uma aprendizagem que exige um esforço de auto-reflexão. Acreditamos que é nesse processo que cada um deles vai se construindo e sendo construídoJuarez Dayrell como sujeito: um ser singular que se apropria do social. Meu contato com os jovens que pesquisei deixa muito claro o aparente óbvio: eles são seres humanos.de terem como desqualificados. É o nível do grupo social. Significa dizer que os jovens não são apenas objeto . dentre com pouca outros aspectos. pensam a respeito de suas condições e de suas experiências de vida. posicionam-se. A dificuldade ainda é maior quando o outro é “jovem. no qual os indivíduos se identificam pelas formas próprias de vivenciar e interpretar as relações e contradições. na vida cotidiana. mas fala dos jovens na sua relação com o pesquisador. possuem desejos e propostas de melhoria de vida. Da mesma forma. independentemente da ação de cada um. quem é o mundo. quem são os outros. Tomar os jovens como sujeitos não se reduz a uma opção teórica. sofrem. são dimensões que vão interferir na produção de cada um deles como sujeito social. aspirações e práticas. divertemse. que dizem quem ele é. e vice-versa. entre si e com a sociedade. capaz de refletir. Ao mesmo tempo. de ter suas próprias posições e ações. distanciamento e autocrítica.

evidenciando a importância que lhes atribui na sua formação. no rap. Flavinho é um funkeiro. estando atualmente aposentada por motivos de saúde. o faz com admiração. Todas as vezes que ele se refere à mãe ou ao irmão. essa história de podem fornecer melhor compreendê-los identidade como além da rappers ou funkeiros. até assunto de televisão. João considera que as relações familiares são muito importantes para a sua vida (“Eu gosto da minha mãe e do meu irmão pra caralho. assunto de sexo. diferente do clima de conflitos constantes quando mais novo.”). uma carreira possível. Agora lá em casa sempre rolou muita conversa.da observação. integrante do grupo Máscara Negra.. Sempre foi tudo aberto. optei por privilegiar dois jovens que serão os fios condutores da análise: João é um rapper. Acho que é isso que me ajudou muito a não ter um filho até hoje. sendo que João é o que menos contribui. com a consciência da distância que separa a interpretação da “realidade”.5 Não tenho o propósito de tratá-los como modelos. A sobrevivência da família é garantida pela contribuição de todos no orçamento doméstico. Tenho claro que construi um texto que se refere a fatos socialmente construídos. João enfatiza a importância atual da prática do diálogo e das negociações no interior da família no seu amadurecimento. singulares. A mãe trabalhava como cozinheira em bares e casas de família. cujas trajetórias de elementos para vida com experiências um irmão. revelando mundos próprios. numa estratégia de liberá-lo para investir na sua carreira musical. tudo rola. Isso mostra que sua família vê na música. assunto de música. Os dois jovens expressam experiências e momentos de vida diferenciados. Tem 22 anos. Os sujeitos da pesquisa Para desenvolver essa reflexão.. Eles são sujeitos concretos. é negro e mora com sua mãe e . João e a “correria” de um rapper João é um rapper. mas pessoas em relação com aquele que observa.

depois de uma série de passos metodológicos. João trabalha desde os 13 anos.O jovem como sujeito social Revista Brasileira de Educação 45 . serralherias do dirigindo-se às mar o olho na solda.00 por dia. o trabalho sendo encarado como uma obrigação necessária.. mas minha cabeça num aceitava. além de entrevistas em profundidade. Nas suas experiências no mundo do trabalho não esteve e não está presente a dimensão da escolha.. Ele não se sente um profissional na ocupação que exerce. lembra: Chegava dentro da firma e minha cabeça num era pra aquilo lá. ou pelo menos de alguma atividade em torno do mundo da cultura.”. era aquele trauma. No período em que o acompanhei não tinha um emprego fixo.não ter feito muita treta (malandragem). Convive com o conflito entre o tempo de trabalho e o tempo das atividades musicais. que é aquilo que gosta e que o faz se sentir produtivo. ver Dayrell (2001). e a escolha de seis grupos de rap e funk. muito menos gosta do que faz: “*A serralheria+ é um trampo que eu mais detesto. cara. Comentando sobre empregos fixos que já teve. o que que é ficar sem dormir por causa das vista queimada. eu tenho de fazer é música. o meu negócio é aquilo lá. ficava nervoso porque eu pensava: “Pô.. A gente sempre fala aberto. é nisso que eu tenho uma vontade. é só com isso que eu me entretenho. Com esses dois jovens mantivemos contatos intensos. cara! Se ocê soubesse o que que é quei5 A escolha desses jovens se deu na última fase da pesquisa. quando o primeiro restringe as possibilidades de investir na música.. entre eles a realização de uma pesquisa telefônica com 146 grupos musicais juvenis. sendo atualmente meio-oficial de serralheiro.. Para maiores detalhes da metodologia. é brabo. Eu vou te falar. trabalhei em muitos lugares.. ganhando R$10. cara!” O grande sonho de João é sobreviver da música. nos mais diferentes “bicos”. gastando boa parte do seu tempo procurando trabalho. Ele foi excluído da escola na 5a série do ensino um dos poucos bairro para ver se encontrava algum “bico” para fazer.

aí eu fui desinteressando pelo estudo. dizendo “*. Depois disso. Ele veio construindo a sua vida. com quem freqüentava os bailes. fiquei na maior empolgação com ela. havia a necessidade e o desejo de trabalhar. possibilitou-lhe uma ampliação do domínio do espaço urbano além do bairro. Além disso. não retomando os estudos desde então. era um saco. o que contribui para minar a sua auto-estima... pois passou a freqüentar festas em diferentes regiões da cidade.. além de participar dos rachas e competições na região onde morava. o hip hop. constituindo um estilo de vida. 6 cumpriu e ainda cumpre um papel significativo na sua vida. a única lembrança boa é de uma professora que mandou um bilhete para a sua mãe. Ao mesmo tempo. João aderiu ao hip hop desde a adolescência. ter concluído o ensino básico.”. para atender às demandas mínimas de consumo e lazer. e especificamente o rap.. né. não me despertava interesse.. Segundo ele. Segundo ele. distante dos seus interesses e necessidades: “A escola não me cativava. eu até me apaixonei com ela”.7 o que muito interferiu na forma representa. A escola é lembrada como um espaço que não o envolvia. na visão como ele se de mundo que possui e nos comportamentos e valores que expressa.+ que eu era carente e que eu precisava de carinho. inicialmente participando de gangues de break.. envolvido em brigas e discussões com as professoras. Lembra com mágoa das três reprovações. Que eu não era tão moleque como minha mãe imaginava. a adesão ao hip hop contribuiu para o aprimoramento do seu gosto musical e para a descoberta de suas potencialidades artísticas como produtor musical e cantor. da imagem de mau aluno que tinha. . a sua rede de relações e os seus projetos em torno desse estilo.fundamental. Atualmente reconhece que a falta de um diploma diminui suas possibilidades no mercado de trabalho arrependido de não e se diz No contexto em que João veio sendo socializado.

Onde achava que tinha alguma coisa.aumentando. Industrial. não. interferindo . trocando idéias sobre a vida pessoal e afetiva. o grafite. a gente ia. assim. Para maiores informações sobre o estilo. João enfatiza as relações existentes: podem de confiança contar uns com os outros. estando juntos praticamente todas as noites para ensaios. Eles apresentam-se em festas de rua e eventos de hip hop. Num tinha limite. 6 Rap.. o break e a discotecagem. Andrade (1996). Em 1995 formou o Máscara Negra junto com três amigos. 7 Estamos entendendo estilo como uma manifestação simbólica das culturas juvenis.Juarez Dayrell 46 Set /Out /Nov /Dez 2003 No 24 João se encontra com o grupo com muita regularidade. Tem uma festa em tal lugar? Rola? Vamo embora: bairro São Paulo. bairro Nacional. a dança. Para João. tudo que é canto. palavra formada pelas iniciais da expressão rhythm and poetry (ritmo e poesia) é a linguagem musical do movimento hip hop. a sua rede de relações. mas também individual. que expressa um conjunto mais ou menos coerente de elementos materiais e imateriais que os jovens consideram representativos da sua identidade individual e coletiva (Feixa. Silva (1998). 1998). Com o hip hop passei a andar pra tudo quanto é lado. ver Sposito (1993). estreitando as relações. no Eldorado. junto com os interesses comuns. Tella (2000). com os quais atua até hoje. o seu namoro é um dos fatores que o levam à transição para o mundo adulto. A amizade. o DJ. possuindo uma certa projeção no meio. mas vieram aprendendo a conviver com as diferenças.. produção de músicas ou para saírem juntos. faz do grupo uma referência importante para cada um deles. Outro esteio com o qual conta é a namorada. construindo uma identidade coletiva. numa relação valorizada pelo que ela significa de afirmação e estímulo para enfrentar as dificuldades e implementar os seus projetos. entre outros. um estilo juvenil que agrega outras linguagens artísticas como as artes plásticas. Ele admite que já tiveram e ainda têm muitos atritos entre si.

presente no meio popular. né. quase todos ligados ao movimento hip hop. porque assim meus amigos foi muito de zuera. o rap foi e é um dos poucos espaços. sempre com os amigos mais próximos. os finais de semana eram dedicados principalmente ao namoro. dos quais gosta muito. ocê entendeu? Hoje em dia meus amigos é pouco. A própria turma de amigos torna-se mais reduzida. ele mesmo se considerando um jovem adulto. Podemos constatar que. na escolha dos programas com os quais ocupava as horas livres. que vem coisa séria. pode . né. estava colocando em questão a sua opção pela música. vem o grupo. mas eu tive. Aí ocê passa a ficar um pouco mais sério. agora ele exige de si mesmo maior seriedade. com a noiva acompanhando-o aos shows nos quais o grupo se apresentava. Ocê fica mais sério. Outra referência. Nem todo mundo tem esse processo. fruto de um processo de seleção. ocê passa a olhar mesmo a situação sua dentro de casa e tudo. Além disso. mas menos intensa. e vai acabando esses tipo de amizade assim de zuera.nas suas opções. Nesse contexto ele expressa uma certa representação socialmente construída do adulto. a gente vai ficando adulto.. que apresenta algumas polaridades em relação ao jovem. Essa postura se concretizava na divisão de tempo. No momento das entrevistas. Diante dessas imagens. responsável x irresponsável. João já se defronta com os dilemas típicos da passagem para a vida adulta. há a exigência de uma nova postura. véio. em que encontra apoio. como: sério x zoador.. além da família. costumava freqüentar bares e festas de hip hop. são os colegas. no contexto no qual João veio se construindo. com os quais se encontra nos momentos de lazer. Mas não deixava de “dar um rolé” em bares ou rodas de samba. Se antes o que o mobilizava era a diversão. O aumento das responsabilidades em casa e o próprio noivado são sinalizações desse momento: Hoje eu tô preocupado em arrumar outras coisas. questionandose sobre as escolhas realizadas até então e as perspectivas de futuro. Nessa época. eu tenho noiva.

quero casar. Eu acho que a família de outros amigos são mais. Eu acho isso legal. com tempo livre para dedicar-se ao funk.. esses trens assim. a exemplo de outros jovens pesquisados. todos vivendo com a mãe. ser respeitado dentro do campo musical.. isso é lógico. O que João expressa por intermédio do rap éo desejo de realizar-se. Tudo muito simples.. relacionadas com eles.. Residem em casa própria. isso aí mesmo. né? Não sou de conversar com eles [os irmãos].. é minha idade. em certos pontos a família deles é mais legal do que a minha. coisas assim.. com quem conversa mais.. aos amigos e à namorada. Sou noivo.. quem viveu a vida inteira na pobreza é lógico que quer subir na vida. Flavinho: um funkeiro imerso no presente Flavinho é um funkeiro. É isso que eu quero. e ao mesmo tempo tão distante. [pausa]. ter uma vida digna para si e sua família.. Mas a minha mãe não conversa. ele elaborava um projeto de vida: Meu trabalho é a música e o que trampo que ela gera.. Implica ser um artista profissional. com um mínimo de condições financeiras. Flavinho. .. Ele tem 19 anos e é branco.estabelecer trocas e elabora projetos que dão sentido à sua vida no presente. considera-a mais fechada: Eu acho que aqui em casa o pessoal é mais fechado. Mas quando compara a sua família com a de outros amigos. Eu quero conseguir um poder aquisitivo. casar-se e ter sua própria família. Resumindo. Naquele momento.. diz ter uma relação mais estreita com a mãe.. O pai saiu de casa há sete anos e ele nunca mais o viu. um financeiro melhor. Dar à minha mãe o que ela não teve.. né? E ver minha mãe melhor.. em um conjunto habitacional localizado em um bairro da periferia norte de Belo Horizonte. como ele diz. É o filho mais novo entre quatro irmãos. que todo mundo pensa. Coisa simples. sou de conversar mais com minha mãe.. ser respeitado como um criador musical. participando de uma dupla com Leo.. uma operária têxtil. assim.. No mais. É um exemploO jovem como sujeito social Revista Brasileira de Educação 47 do jovem que vive plenamente a sua condição juvenil. é lógico. e nem eu procuro conversar com ela sobre sexo ou drogas. por exemplo.

com tempo livre e disponível. vivia uma certa preocupação diante das possibilidades reais de encontrar algum emprego: “De vez em quando eu paro pra pensar: ‘Né. Flavinho nunca havia trabalhado até o momento da entrevista. será que um dia eu vou trabalhar?’ É uma coisa que vem na cabeça assim. além de não sofrer pressões da família. vendo nela a evidência de um momento que iria passar quando mais velho. ficar em casa..”.. Nessa hora eu estou melhor. como a descoberta da sexualidade ou as drogas. sonhando sobreviver da atividade das críticas à sua considera que ela família. Ele expressa uma realidade comum a milhares de jovens que se encontram na expectativa do primeiro emprego. almoçar em casa.Para ele. pretende ser um cantor de funk. dormir a hora que for. mas se for olhar a situação depois eu acho que a minha é pior. porque posso ver os amigos todos os dias. cumprindo um importante papel na sua vida. Apesar disso. me divertir.. A mãe não interferia em sua escolha pela música funk.. sem enfrentar. existe o acordo de sua mãe sustentá-lo enquanto permanecer na escola. Apesar nos seus resultados de vida melhores do que daqueles que trabalhavam. como a escola. mas sem acreditar muito futuros. Flavinho constitui um núcleo de proteção e segurança. sem um desejo mais definido em relação a alguma ocupação.. Ele considera suas condições . sendo também uma estratégia familiar para garantir os seus estudos. por enquanto. de fato. A sua família assume uma postura permissiva em relação ao estilo. Segundo ele. envolvido com a música. como seu colega de dupla: Acho que minha situação é melhor que a de Leo. as coisas como estão aí fora. esses jovens têm canais de comunicação com o mundo adulto. ele tinha todos os motivos para permanecer numa certa inércia. ele pode comprar as coisas dele.. Flavinho. Mas naquele momento. porque é foda. Nem na família nem em outros espaços. a família não é o lugar no qual ele pode explicitar os dilemas da fase que vivencia. A sua condição de “caçula” lhe permitiu essa “regalia”. a labuta que é a procura de trabalho.

.artística e. um determinado jeito ressaltando a festa. Mas a escola não consegue envolvêlo.. que pouco contribui para a sua construção como sujeito. são sinais visíveis que funcionam como mecanismos simbólicos para demarcar a sua identidade como jovem. eles nem sabem que todos os alunos lá gostam do funk. . eu mesmo. o visual que passa a adotar e. as práticas de sociabilidade e os símbolos que se tornaram referência para estruturar uma condição juvenil que se inaugurava. nem a de Português. não acreditando nas possibilidades de intervir no seu futuro. Esse é o programa preferido de Flavinho. nenhum professor sabe que eu escrevo letras. em torno do qual se articula uma identidade própria.. tornando-se uma obrigação necessária que ele apenas suporta. adiando as preocupações com a sua sobrevivência. a freqüência aos bailes.. Flavinho lembra que “*. É também no baile que ele pode expressar os outros elementos do estilo: o encontro com os amigos. Flavinho cursa o 1o ano do ensino médio em uma escola estadual. o sair à noite.Juarez Dayrell 48 Set /Out /Nov /Dez 2003 No 24 Para ele. o gosto pela música funk.+ a escola tem muito funkeiro. Flavinho está ligado ao funk desde os 15 anos. Além disso.”. O estilo funk8 tem como epicentro os bailes. A escola é a única atividade fixa que ele tem no seu cotidiano. a de dançar. quase uma obrigação nos finais de semana.. porque assim. principalmente. a significados escola carrega poucos sob o aspecto de espaço de socialização. não alimenta outro sonho profissional. nessa expectativa. mas eu acho que os professores vão contra o funk. encontrando nesse estilo o som. A ligação com a galera do bairro.. a instituição não se mostra sensível à realidade vivenciada pelos alunos fora de seus muros. É uma experiência distante dos seus interesses. Vive imerso no presente.. além de ser a única instituição pública na qual pode ter acesso aos bens culturais e a um espaço de reflexão metódica sobre si mesmo e sobre o mundo..

além da exaltação das diferentes “galeras”. cantar em bailes é uma emoção muito grande. Com eles eu posso conversar. passa as tardes ouvindo os programas de funk de duas rádios comunitárias da região. Mas o baile é também a oportunidade de se mostrar como MC. Suas manhãs são curtas. promovendo a “agitação da galera”. sendo uma forma de tornarse conhecido. aí eu procuro os meus amigos. desabafar mesmo! Isso é legal. a música ocupa um lugar central. é Flavinho quem escreve as letras. O ponto de encontro é quase sempre em uma praça no bairro vizinho. a única da região. É ali que acontecem os encontros. as paqueras. as brincadeiras ou simplesmente o passar o tempo. principalmente os mais chegados: Eles [os amigos] ocupam o lugar de irmão mesmo. a descrição dos próprios bailes e sua animação. Geralmente os ensaios da dupla são realizados aos domingos. Além de uma ou outra obrigação doméstica. porque eu não tenho essa intimidade com os meus irmãos. resgatando o prazer e o humor que são tão negados no cotidiano desses jovens. é encontrar com os amigos. Fora isso. Na dupla. porque Leo . No cotidiano de Flavinho. uma outra referência central. Eles ocupam o lugar de irmão. nas quais é comum suas músicas serem tocadas a pedido de ouvintes. principalmente no bairro e pelas meninas.9 Para Flavinho. pois geralmente acorda tarde. se eu tô com raiva de alguma coisa posso conversar com eles.10 Esses temas são coerentes com o sentido que atribui a si mesmo como MC: ser mensageiro da alegria. é nela que ele investe a maior parte do seu tempo. além de ampliar seu círculo de relações no meio funk.fruição do prazer e a alegria de estarem juntos. Os finais de semana são preenchidos com a música. sendo comum também a abordagem de temas jocosos de situações ocorridas na cidade. caracterizadas por temas que abordam as relações afetivas.

É a “galera”: reconhecem-se no funk.. porque é repetitivo. sentindo-se parte de uma rede simbólica (Arce. É nesse dia que escutam músicas. trocam idéias sobre as apresentações que pretendem realizar. o que tem significado um aprendizado para ele. 8 Para maiores informações sobre o funk. para Flavinho. fica assim meio vazio. e aos domingos... Um dia é igual ao outro. o namoro é um momento de experimentação e descoberta do outro. dizendo que gostaria de ter mais coisas para fazer: Meu dia-a-dia é muito repetitivo. (2000). entre outros.. mas quando não tem nada pra fazer o meu dia é igual ao outro.. compartilham situações lúdicas.. antes de ir ao baile. ver Vianna (1987). e eu fiz mais amizades também. você tem de fazer as mesmas coisas porque não tem nada pra fazer. 10 No período da realização da pesquisa (entre 1998 e 2000) .. as músicas que eu faço. encontram-se nos bailes. tanto com os amigos mais próximos quanto com os conhecidos. mas uma coisa divertida que a gente tenta levar pro futuro. É uma diversão. O funk é o eixo em torno do qual Flavinho estrutura suas relações. Quando avalia o seu cotidiano. numa fase de transição para a vida adulta. O fato de ser um MC contribui para ampliar essa rede: “Com o funk hoje eu vivo pra fazer os outros mais felizes. ainda não havia surgido o chamado “funk coreografia”.”. Para João. vem mantendo um namoro de mais de um ano.O jovem como sujeito social Revista Brasileira de Educação 49 Nos finais de semana também namora. É interessante perceber o sentido do namoro nas diferentes fases da vida. Coisas que mudam é os bailes. discutem letras. principalmente no Vilarinho. o que faz nas noites de sábado. 9 MC ou mestre de cerimônia é a forma como os cantores de funk se autodenominam. monótono.. que ganhou sucesso na mídia por intermédio de grupos como o Tigrão. você tá no funk e tá rodeado de amigos. Herschmann Dayrell (2001). Flavinho o designa como um pouco vazio. o funk não é apenas um espaço de vivência de sociabilidades. mas também um espaço de produção de sociabilidades. 1999). Para Flavinho. Cechetto (1997). e isso é legal.trabalha durante a semana. o namoro é parte integrante do projeto de futuro.

Os modos de ser jovem As trajetórias de vida de João e Flavinho. Não significa que sejam alienados ou passivos. eles se centram no presente e nele vão se construindo como jovens. se mostram fluidos ou de curto alcance. que se resolve a cada dia. ou um certo “modelo” de juventude. É por meio desses estilos que constroem determinados modos de ser jovem. Eles os têm. Diante das incertezas próprias do nosso tempo e possibilidades de uma das reduzidas Uma primeira imagem que questionam é a juventude vista na sua dimensão de transitoriedade. com o que este puder oferecer de prazer. para eles. entre outras razões porque os horizontes do futuro estão fechados para eles. para um possível “vir-a-ser”. Esses jovens mostram que viver a juventude não é preparar-se para o futuro. o sonho relacionado à música é o que dá sentido ao seu cotidiano. mas também a esperança que sempre lhe aponta um rumo. localiza-se no aqui e agora. E nessa construção colocam em questão as imagens. No entanto. em qualquer atividade que lhe garanta um salário com o qual possa sustentar sua família. ou viver como um trabalhador pobre. No seu caso. sua opção é viver o presente. mas também de angústias e incertezas diante da luta da sobrevivência. E um presente vivido no que ele pode oferecer de diversão. que não nutram sonhos e desejos. mas com uma especificidade: quase sempre estão ligados a uma realização na esfera musical e à possibilidade de uma vida com mais conforto. Assim. esses sonhos e desejos não se concretizam projetos de vida. de forma a não se perder nas malhas do presente. bem como o nosso contato com os outros jovens pesquisados. principalmente para as mães. de encontros e de trocas afetivas. necessariamente em inserção social mais qualificada.Naquele momento colocava para si duas alternativas: a realização por intermédio da música. O tempo da juventude. não acreditando nas . de prazer. imersos que estão no presente. nos levam a constatar que os estilos rap e funk constituem um espaço e um tempo nos quais esses jovens podem afirmar a experiência da condição juvenil. e quando o fazem.

para a qual é dirigida a obrigação moral da retribuição. o que parece definir o grau de estruturação familiar é a qualidade das relações que se estabelecem no núcleo doméstico e as redes sociais com as quais podem contar. vistas no ângulo da estruturação x desestruturação. garantindo. Ao contrário: no caso desses jovens. com esforço. a qualidade das trocas. Não é de se estranhar que ambos contemplem a mãe nos seus projetos. desejando dar-lhe uma vida mais confortável. No nível de aproximação que conseguimos estabelecer com os rappers e funkeiros. foi possível constatar a existência de conflitos familiares. na qual o critério de definição é o modelo de família nuclear. esta cada um. e nem por isso se mostram “desestruturadas”. organizando-se em termos matrifocais. 1999). Outra imagem que esses jovens colocam em questão é a juventude vista como um momento de crise e distanciamento da família. Naquilo que nos foi possível apreender. os conflitos. Se existe uma crise. muito menos sinais de conflitos atribuídos tipicamente aos adolescentes.Juarez Dayrell . não evidenciamos a existência de uma crise na entrada da juventude.promessas de um futuro redentor. Os dados coletados no mínimo problematizam essa imagem. constituindo um filtro por meio do qual traduzem o mundo social e onde inicialmente descobrem o lugar que nele ocupam (Sarti. o núcleo familiar significou um espaço de experiências estruturantes. Grande parte das famílias desses jovens não contam com a presença do pai. As relações que estabelecem. a reprodução física e moral do núcleo doméstico. constituída por pai. mas em nenhum momento esse quadro conflitivo colocou em questão a família como o espaço central de relações. Mais do que a presença ou não do pai. É ela a referência de carinho. Essas experiências familiares vêm colocar em questão uma imagem muito difundida sobre as famílias das camadas populares. E nisso a mãe desempenha um papel fundamental. Outra imagem que os jovens colocam em questão é a da juventude como um momento de crise. de autoridade e dos valores. 1996. os arranjos existentes para garantir a sobrevivência e os valores predominantes são marcam a vida de dimensões que 50 Set /Out /Nov /Dez 2003 No 24 mãe e irmãos.

ou pelo menos de um trabalho autônomo ligado de alguma forma à área cultural. vivida sempre como tensão. mas na sua saída. diminuindo os espaços e tempos de encontro. p. na lógica do trabalho subalterno. a maioria deles vem investindo na possibilidade de sobreviver da atividade artística. de fato. reincluída nos padrões atuais do desenvolvimento econômico. que atinge principalmente os jovens pobres. Mas é também assumir uma postura “séria”. Uma crise vivida não na entrada da juventude. da alegria e das emoções que vivenciam no estilo. ser adulto implica ter de abrir mão do estilo. abrindo mão da festa. vivido como empecilho às atividades musicais. cria uma massa de população à margem. A relação desses jovens com o mercado expressa uma lógica presente na sociedade contemporânea. expressão da crise da sociedade assalariada. ganhar pouco. com pouca chance de ser. brasileira segundo Martins. como no caso do trabalho e da escola. de dificuldades . A realidade do trabalho aparece na sua precariedade. por isso sonham com um trabalho expressivo. Segundo ele. A concretas de sobrevivência. fazendo dessa passagem um momento de dúvidas e angústias. é um momento duro.foi constatada na passagem para a vida adulta. Vivendo de “bicos”. com uma moral baseada em valores mais rígidos. a trajetória desses jovens questiona a visão romântica realidade dos da juventude. A imagem de adulto que eles constroem é muito negativa. que. O trabalho aparece como obrigação necessária. Finalmente. 33). “o período da passagem do momento da exclusão para o momento da inclusão está se transformando num modo de vida. no qual possam realizar-se pessoalmente. Não que recusem ou neguem essa passagem. de tensões com as instituições. Ao contrário. Para muitos. está se tornando mais do que um momento transitório” (1997. Essa postura pode ser vista como expressão rappers e funkeiros pesquisados evidencia que a juventude para eles não corresponde a essa imagem. mas a vivenciam como uma crise. Ser adulto é ser obrigado a trabalhar para sustentar a família.

Nesse contexto. significaram umaO jovem como sujeito social Revista Brasileira de Educação 51 forte referência na elaboração e na vivência da condição juvenil dos jovens pesquisados. mesmo que provisória. Na gratuidade daquelas relações e nas atividades de lazer. relações e símbolos por meio dos quais se afirmaram com uma identidade própria. Podemos afirmar que o mundo do trabalho pouco contribuiu no processo de humanização desses jovens. através do rap ou do funk. Enfim. das condições que a sociedade lhes oferece para a sua inserção social. não lhes abrindo perspectivas para que pudessem ampliar suas potencialidades. A vivência do estilo possibilitou a esses jovens práticas. mostram-se descrentes do que o mundo do trabalho possa lhes oferecer. como jovens. 1997). vieram construindo formas de sociabilidade próprias. muito menos construir uma imagem positiva de si mesmos. conseguindo entender não apenas lhes abre perspectivas frágeis e insuficientes de inclusão (Martins. os estilos rap ou funk. esses jovens expressam um contexto de uma nova desigualdade social. mesmo com abrangências diferenciadas. É um dos espaços do mundo adulto que se mostra impermeável às necessidades dos jovens em construir-se como sujeitos. os jovens vivenciam a tentativa de alongar o período da nem responder às demandas que lhe são colocadas. representaram uma ampliação dos circuitos e redes de trocas.de uma recusa. num exercício de convivência social. sendo o meio privilegiado pelo qual se introduziram na esfera pública. numa sociedade que . pouco contribuindo também em sua construção como sujeitos. o estilo se coloca como mediador de um determinado modo de ser jovem. como Flavinho. Podemos dizer que. Enfim. aprendendo a conviver com as diferenças. Mesmo aqueles que vivem ainda as incertezas da expectativa do primeiro emprego. Para todos. Já as experiências escolares desses jovens evidenciam que a instituição se coloca distante dos seus interesses e necessidades.

se a cultura se apresenta como um espaço mais aberto é porque os outros espaços sociais . Vários deles. Ao mesmo tempo. o estilo torna-se uma opção provisória. criando modos próprios de ser jovem. o estilo possui limites. Para a maioria deles. a modernização cultural que influencia tanto a vida desses jovens não é acompanhada de uma modernização social. como profissionalização e sobrevivência. continuam a insistir. uma vez que não mais consegue conciliála com as necessidades de sobrevivência. oferecidas pela sociedade. mesmo que seja mais longa para alguns desses jovens. Mas não podemos esquecer que. mas curta. experienciando assim uma moratória. vê-se obrigada a abandonar o sonho com a carreira musical. Na prática. É o da idade e assumindo compromissos familiares como o noivado. Assim. no Brasil. sempre mediados pelo estilo. não resposta para as articulando uma questões centrais. Assim. experiências que tempos e rap ou com o funk que cria. a vivência da juventude é muito intensa. como geralmente é vista. quase sempre articulados em torno da cultura. abrindo espaços para sonharem alternativas de vida com outras que não aquelas restritas. de se permitirem uma relação mais frouxa com o trabalho. de investirem o tempo na sociabilidade e nas trocas afetivas que esta envolvimento com o possibilita. No contexto de transformações socioculturais mais amplas pelo qual passa o Brasil. Mas as perspectivas são muito reduzidas. mas de garantir espaços de fruição da vida. O sentido dessa tentativa não é tanto o de uma suspensão da vida social ou de irresponsabilidade. possibilitando espaços. possibilita e legitima a moratória como uma experiência válida.juventude o máximo que podem. Mas a grande maioria desiste. O mundo da cultura se apresenta mais democrático. parecem surgir novos lugares no mundo juvenil. Podemos constatar que os rappers e os funkeiros parecem reelaborar as imagens correntes sobre a juventude. mesmo com o passar permitem que esses jovens se construam como sujeitos. 1995). como João. o estilo de vida rap e funk possibilita a muitos desses jovens uma ampliação significativa das hipóteses de vida (Giddens. de não serem tão exigidos. principalmente durante a passagem para a vida adulta.

Dissertação de mestrado. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. p. Maria Regina. o trabalho ou aquelas ligadas à cultura –. CIDPA. (1993). 28.estão fechados para eles. Faculdade de Educação da USP. não podemos cair numa postura ingênua de supervalorização do mundo da cultura como apanágio para todos os problemas e desafios enfrentados pelos jovens pobres.br. violência e cidadania nas cidades da periferia de Brasília. José Manuel Valenzuela. . Organizou a coletânea Múltiplos olhares sobre educação e cultura. Bernard. é professor adjunto da Faculdade de Educação da UFMG. Helena. editado pela Editora da UFMG. no estudo de caso sobre jovens rappers de São Bernardo do Campo. Vida de barro duro: cultura popular juvenil e grafite. (1999). Chile. qualquer 18. e publicou diversos artigos sobre o tema da juventude. entre eles: O rap e o funk na socialização da juventude (Educação e Pesquisa. só – seja a escola. 117-136. 2003).Juarez Dayrell 52 Set /Out /Nov /Dez 2003 No 24 ABROMAVAY. No contexto em que instituição. (1997). jan. Cenas juvenis: punks e darks no espetáculo urbano. CHARLOT. ARCE.jun. pouco pode fazer se não estiver acompanhada de uma rede de sustentação mais ampla. com direito a viver plenamente a juventude. Departamento de Ciências Sociais da UERJ. 69-91. E-mail: juarez@fall. ANDRADE. JUAREZ DAYRELL. Petrópolis: Vozes. Dissertação de mestrado. (1999). chegados e rappers: juventude. São Paulo: Escrita. Os carecas de subúrbio: caminhos de um nomadismo moderno. v. (2000).) e Cultura e identidades juveniles (Revista Ultima Decada. Galeras funk cariocas: o baile e a rixa. abr. Rio de Janeiro: Garamond. Linha de pesquisa atual: Educação e Juventude. Miriam et al. galeras. Movimento negro juvenil: um (1996). Porto Alegre: Artemed. p. Elaine Nunes.ufmg. com políticas públicas que garantam espaços e tempos para que os jovens possam se colocar de fato como sujeitos e cidadãos. (1994). Referências bibliográficas ABRAMO. Fátima Regina. doutor pela Faculdade de Educação da USP. CECHETTO. COSTA. Portanto.. por si vivem. Da relação com o saber: elementos para uma teoria. Gangues.

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