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Do lado de cá

Daniel Luporini de Faria

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Para Lena: amor eterno

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Introdução

Do lado de cá os muros são altos, verdadeiras muralhas que não deixam sequer meus pensamentos vagarem livremente. Do lado de cá, realidade e fantasia se confundem, se entrelaçam como num tango bem ensaiado. Do lado de cá, não há distinção entre lixo e luxo, útil e inútil, feio e belo, normal e patológico, justo e injusto. Aqui, existe uma única lei: não perder de uma vez o meu “eu”, aquilo que faz com que eu seja o que sou. Nas “cartas ao jovem poeta”, Rainner Maria Rilke ensina ao garoto que só se deve escrever por necessidade, por um instinto primitivo, animal, como se não escrever quando se tem necessidade, perder-se-ia o “eu”, perder-se-ia a identidade, a vida. E é nesse sentido que lhes convido para conhecer o lado de cá, o lado de um Daniel que anseia por vida, por fogo, esperança. O lado de um Daniel que, tido como esquizofrênico, transformou-se num ser institucionalizado, que se sente mais à vontade enclausurado num sanatório, a viver uma vida “normal”, uma vida de namoro, passeios, consumismo, enfim, uma vida “comum”. Àqueles que “vivem” como eu, talvez este livro não traga nada de novo, nada de realmente edificante, talvez àqueles que se identifiquem comigo, estes escritos pareçam frugais, inócuos como uma reunião com assistente social. Isto porque do lado de cá, o sentido da vida é completamente outro do de um trabalhador chefe de família que paga suas contas do mês. O sentido da vida de uma pessoa considerada “louca”, como disse anteriormente, é não desagregar-se, fragmentar-se, esvair-se, perder sua identidade pessoal. Do lado de cá, talvez aconteçam coisas que causem certo mal estar aos leitores não habituados com meu universo, de modo que, caso não se queira aprofundar nos horrores de um sistema psiquiátrico falido, e uma mente doente como a minha, de coração aconselho que se interrompa a leitura deste pequeno livro por aqui. Aos que continuaram, sejam bem vindos, bem vindos a um universo particular que, querendo ou não, ou seja, por exemplos ou contra exemplos, algumas lições podem lhes ser tiradas. Bem vindos a um universo singular que, infelizmente, também pertence a muitos outros como eu.
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Escrever um livro de memórias aos trinta e três anos de idade talvez cause certa estranheza a alguns leitores mais atentos, entretanto, penso que a vida, desde que é vida, vale a pena ser colocada no papel e partilhada irrestritamente. Assim, desejo-lhes boa viagem ao meu universo particular, ao lado de cá da existência humana.

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Me chamo Daniel Luporini de faria, nasci em São Paulo, no dia 23 de dezembro de 1978, na maternidade São Paulo. Nasci prematuro e tive de ficar por cerca de um mês numa incubadora. Minha mãe costuma dizer que eu parecia um ratinho de laboratório na incubadora: branquinho e sem cabelo. Desde a mais tenra infância, tive uma saúde muito precária. Tive bronquite asmática até os 12 anos, de modo que, quando criança, vivia no hospital tomando inalações, o que devia ser um suplício para meus pais e muito mais para mim. Lembro que, para a inalação acabar logo e eu voltar logo para casa, eu tombava (quando ninguém estava olhando) a máscara para trás e bebia todo o soro com xarope. Eu morava com meus pais no conjunto dos bancários, alto do Mandaqui, zona norte de São Paulo, perto do horto florestal. Era inebriante passar as tardes de verão brincando no horto com meu pai. Homem de temperamento estranho esse meu pai. Quando as finanças iam bem, ele se apresentava docemente amável; porém, quando as finanças não iam lá muito bem, haja saco para ficar perto dele, pois ele descontava e ainda desconta toda sua ira nas pessoas que o circundam, ou seja, em sua família. Minhas primeiras recordações não são lá muito agradáveis. Me escondia debaixo da cama quando chegavam visitas ao apartamento de meus pais em São Paulo. Tanto é que aos nove anos, cheguei até a repetir de ano, por faltas, na terceira série porque não gostava das pessoas de minha escola, enfim, a timidez e o isolamento marcam minha vida desde muito cedo. Minha mãe costuma dizer que eu fui uma criança “levada da breca” quando interagia com meus amiguinhos e extremamente bonzinho quando estava sozinho, brincando com meus bonequinhos dos comandos em ação. Ela diz que eu falava sozinho enquanto brincava, e falava mesmo. Era como se meus bonequinhos fossem meus melhores amigos ou inimigos. Não me sai da memória uma ocasião em que todos da minha rua saíram à rua para ver algo cintilante no céu. Era uma espécie de bolha que ficava mudando de cores e que se movimentava muito rápido no céu. Como o céu estava sem nuvens e estrelado, deu para ver muito bem aquele “óvni”. Eu, na minha inocência de um garoto de seis ou
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sete anos, morri de medo daquela aparição. Temi ser abduzido ou coisa do gênero enquanto dormisse. Lembro perfeitamente que nesse dia tive de dormir entre meu pai e minha mãe. Até aqui, penso que minha vida não tenha nada de anormal ou diferente da infância que qualquer pessoa. A única situação preocupante de minha infância se deu quando eu tinha cerca de seis anos de idade. Eu e um amiguinho subimos no teto da sacristia da igreja do bairro para apanhar uma pipa. As telhas não suportaram nosso peso e caímos de uma altura de cerca de oito metros. Eu quebrei o braço e fiz um grande corte na perna, ao passo que o meu amigo fraturou a bacia e teve algumas escoriações. Quando cheguei em casa, todo ensanguentado e com o braço torto, minha mãe ficou desesperada e, desde esse dia, minha irmã ficou gaga por um bom tempo, talvez pelo trauma, diziam os médicos. Eu e esse meu amiguinho éramos vizinhos de apartamento e não parávamos de nos meter em confusões. Certa vez, no campinho do fim da rua, empinando pipa, só porque eu “cortei” e “aparei” a pipa de um moleque da rua de baixo, ele subiu à minha rua e, enquanto eu enrolava o carretel de linha com cortante, obviamente olhando para cima, o moleque me deu uma pedrada no supercílio que sangrou muito. Meus amigos imediatamente partiram para cima de meu agressor e lhe deram uma verdadeira surra, chegando ao extremo da barbárie de enfiar um pedaço de madeira no ânus do garoto. Quando me lembro desse episódio me conscientizo o quão brutal pode ser o ser humano, não importa a idade: somos todos uns brutos e covardes quando colocados em situações de extremo estresse (estou convencido de que nem o Papa foge a tal regra). A primeira situação insólita de que me recordo se deu ainda em São Paulo quando eu contava apenas sete anos de idade. Eu estava comendo um doce no sofá assistindo televisão com minha mãe (teoricamente estávamos só nós dois em casa) quando ouvi da cozinha alguém me chamar. Fui até lá e, mesmo não vendo ninguém, ouvi a voz de um garoto chamado Gabriel, com quem travei um curto diálogo. Não me lembro ao certo sobre o que conversamos, tudo o que sei é que ele pediu para eu quebrar a cristaleira de minha mãe e, com um caco, cortar o meu pulso. Achei tudo isso estranho demais, mas fiz o que ele mandou. Ao ouvir o barulho da cristaleira quebrando, minha mãe correu à cozinha e me viu todo ensanguentado, com uma artéria do pulso esquerdo cortada.
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Depois dessa experiência no mínimo estranha, minha vida mudou radicalmente. De vez em quando, eu ouvia “fora de minha cabeça” meus bonequinhos falando comigo. Numa média de três em três meses, via sombras se projetando ao meu lado. Era como se eu visse gatos pretos passando muito rapidamente ao meu lado, e isso me assustava. Mais tarde, já fazendo tratamento psiquiátrico, descobri que aqueles gatos negros eram vultos, como se diz em psiquiatria. Essas vozes e esses vultos apareciam muito esporadicamente. Tão

esporadicamente, que eu, na minha inocência, achava perfeitamente natural aquelas coisas estranhas acontecerem. Pensava, no fundo, que todos tinham aquilo, portanto eu não me preocupava com esses pequenos episódios psicóticos. Com cerca de doze anos mais ou menos, eu cheguei à conclusão de que aquelas vozes e vultos só apareciam em situações de estresse, ou seja, quando meu pai me batia, quando eu tinha de fazer as provas finais, pois eu sempre ficava de recuperação (que eu me lembre, só na sétima série do fundamental eu consegui “passar direto”). Enfim, se com doze anos eu cheguei a essa conclusão é porque o meu modus operandi era e é muito nítido. Uma coisa que eu não entendia direito era os sumiços de minha mãe. Só fui descobrir mais tarde que esses “sumiços” se deviam a internações psiquiátricas, pois minha mãe possui transtorno bipolar. Era muito chato ficar longe dela sendo cuidado por babás. Lembro que, às vezes, minha mãe ficava de fato “esquisita”. De temperamento muito contido e afetuoso, de vez em quando ela ficava agressiva, falava alto, dizia impropérios que eu, mesmo muito novo, entendia muito bem. E era justamente quando minha mãe ficava desse jeito “esquisito” que ela “sumia”, “tirava umas férias”, como dizia meu pai. Era aterrador quando minha mãe voltava das “férias”. Completamente robotizada, falando arrastado, com movimentos lentos e tremedeira nas mãos, às vezes babando e sempre um pouco ainda esquisita. Seus carinhos e gestos pareciam antinaturais, forçados sabe-se lá por que. Às vezes a via chorando pelos cantos e, quando me via, tratava de enxugar as lágrimas e fingir que está tudo OK. Desde muito novo eu sempre fui muito apegado a minha mãe. Ela era e ainda é um genuíno poço de humanidade, generosidade, afeto e carinho. Lembro que meus olhos brilhavam e ainda brilham quando ela pega no violão. Ela não toca lá muito bem, mas sua voz...ah sua voz é simplesmente celestial. Um grave bonito e gostoso de se
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ouvir. Definitivamente, mamãe tem muito talento para cantar, e olha que ela fuma desde os onze anos de idade! Em toda a sua vida, ela compôs uma única canção, uma canção muito animada, que se chama o “gato”, e é assim:

“Um gato bacana, um gato educado, Anda pelas ruas, soltando seus miados. Miau, miau, o gato não é lobo mau. (2 X) Gosta das loirinhas, adora as moreninhas, de sainha curta e boa cinturinha. Miau, miau, o gato não é lobo mau. (2 X)

Não é atrevido, é muito cavalheiro, Tem olhinhos claros, e é universitário. Miau, miau, o gato não é lobo mal. (2 X) Gatinha solitária, preste atenção, Você que não tem gato, não perca esse não. Miau, miau, o gato não é lobo mau. (2 X)”

Não sei por que, mas acho que essa singela canção ficaria muito bonita na voz da Dolores Duran. Na escola as coisas não iam muito bem, em verdade, nunca foram bem. Como disse antes, repeti de ano na terceira série por faltas. Enquanto meus pais achavam que eu estava na escola, eu ficava no barranco do campinho em frente ao Gastão Moutinho (onde estudava), vendo a molecada jogar bola e empinar pipa. Como eu era ruim de
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bola e não levava muito jeito com pipas, eu ficava só observando ou lendo alguma coisa. Foi nessa época que eu li meu primeiro livro, que se chamava (acho) “as aventuras de narizinho”, do Monteiro Lobato. A literatura, nessa época, não chegou a me encantar, já que o que eu gostava mesmo de fazer era brincar sozinho com meus brinquedos, mas despertou em mim a possibilidade de me instruir e fantasiar cores e paisagens que eu nunca vira antes. Esse meu comportamento antissocial que manifesto desde a mais tenra infância e que perdura até hoje me envergonhava e me envergonha até hoje. É estranho o ser humano constituir-se num bicho gregário, que vive em bando e eu ser relutante quanto a isso. A bem da verdade, o fato é que eu nunca gostei de gente, especialmente de pessoas desconhecidas. É mais ou menos aquela coisa de não ir com a cara das pessoas, ou seja, mesmo sem conhecer o indivíduo, a sensação que tenho é que esse indivíduo deseja o meu mal. Nunca soube lidar com isso, infelizmente, e sofro muito com isso até hoje. No final de mil novecentos e oitenta e oito (quando eu tinha nove anos), minha mãe diz (eu não me lembro) que uns moleques tentaram me estuprar na frente dela. Isso foi um tremendo choque para minha mãe e o estopim para que mudássemos para Jaguariúna, interior de São Paulo, onde mora grande parte de minha família por parte de mãe. Não gostei muito da ideia, pois eu já conhecia Jaguariúna quando ia à casa de meus avós para passar as férias, mas fazer o quê? Eu era apenas uma criança sem qualquer voz ativa dentro de casa. Nessa época de transição, lembro-me de ter feito um pacto de sangue com meu melhor amiguinho. Pegamos uma gilete velha e, cortamos os dedos e nos unimos. Foi engraçado ver a cara de dor de meu amigo. Ele, que era moreninho, ficou pálido, quase desmaiou. Esse garoto era o único amigo de verdade que eu tinha. Com ele eu não era antissocial, talvez porque minha mãe foi ama de leite dele, de modo que, desde bebês, eu e ele disputávamos as tetas de minha mãe. Mas infelizmente tive de me mudar. Em Jaguariúna, conheci um universo completamente diferente da solidão paulistana. Por alguns anos consegui deixar meu comportamento antissocial de lado e Fiz alguns amiguinhos, bem como passei a fazer coisas que nunca havia feito antes, tais como subir em árvores, comer frutos no pé, nadar em rios, pular de pontes, etc. até algumas pequenas “maldades” eu fiz, como quando eu matei a pauladas um gatinho filhote. Não sei ao certo porque matei aquele gatinho, dado que eu sempre gostei muito
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de animais, mas penso que só fiz o que fiz, para me enturmar com meus novos amigos, é difícil teorizar sobre esse tipo de coisa. Acho que é mais ou menos aquilo que disse antes: em situações de estresse (como a pressão de meus novos amigos), surge a barbárie, a maldade pura e gratuita, mas enfim, não sou muito bom em teorizar sobre esse tipo de coisa, mas o fato é que eu fui mau, extremamente mau e cruel ao extremo. Quando nos mudamos para o interior, moramos, no início, na casa de minha avó, enquanto meu pai construía a casa onde vivo até hoje. Era muito bom morar com minha avó, ela trabalhava no sindicato rural e de vez em quando eu ia junto com ela ao serviço. Era muito nojento o trabalho de minha avó. De hora em hora chegavam aqueles sujeitos da roça com feridas imensas e purulentas causadas por foice, enxadas, etc. Eu ajudava minha avó a limpar aquilo e fazer curativos. Lembro de um sujeito que, certa vez, chegou ao funrural com uma ferida enorme na panturrilha e cheia de bichos. Eu não aguentei o fedor e quando tudo acabou minha avó disse que retirou cerca de vinte vermes da perna do coitado. Lembro de uma visão que tive na casa de minha avó que me deixou extremamente assustado. Eu estava brincando com meus bonequinhos na saleta, quando de repente, a sombra que o relógio fazia na parede começou a aumentar e aumentar e começar a vir em minha direção. Eu saí correndo, derrubando tudo pelo caminho até que, quando cheguei à cozinha onde estavam meus pais a avós, eu mal podia respirar. Minha mãe perguntou o que houve e eu me recusei a dizer, temendo que eles me achassem bobo. Até hoje tremo de pavor quando vejo relógios antigos de parede. Em Jaguariúna, continuava não gostando da escola, mas ia mesmo assim (porque era obrigado, é lógico). Estudar de manhã é uma crueldade para uma criança. Mas mesmo odiando ter de acordar cedo, sinto muita saudade da minha avó fazer ovo quente para mim e me dar amendoim com carunchos, uma simpatia que se faz para curar a bronquite. No início achei meio bizarro comer pequenos besouros vivos com amendoim, mas logo me acostumei e essa simpatia não deu muito certo, pois minhas crises asmáticas pioravam cada vez mais. Outra coisa que não me sai da cabeça é uma sensação proustiana que me acompanha até hoje quando tomo banho com o sabonete Phebo de rosas. Isso porque minha avó usava esse sabonete e, quando sinto seu cheiro, parece que sou transportado para um universo infantil que ainda está lá, um paraíso perdido que talvez não esteja tão
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perdido assim, basta procurá-lo no ovo quente, no Phebo de rosas, na cadeira de balanço que foi de meu avô (que saudade de meu avô). Desde já devo dizer que eu sempre gostei de aprender coisas novas. Sempre gostei muito de ler, meter o bedelho em conversas de adultos, enfim, me instruir. Só que ir à escola, para mim, sempre foi uma enorme dificuldade. Ter de ficar tanto tempo sentado ouvindo uma velha ou um careca barrigudo falar, sem contar as brincadeiras de mal gosto que a molecada fazia comigo pelo meu sotaque paulistano, tudo isso era demais para a minha cabeça. Eu pura e simplesmente odiava ir à escola. Desejava, no meu íntimo, que todas aquelas pessoas: alunos, diretora, professoras, cozinheiras morressem de fato, de uma morte lenta e dolorosa. Às vezes me envergonho por pensar naqueles pensamentos infames, mas fazer o quê? É preciso encarar os demônios, não se deve varrer para debaixo do tapete toda a sordidez da condição humana; condição esta que, nem os religiosos mais fervorosos estão imunes, tampouco os psicólogos de orientação psicanalítica. Os anos foram passando e uma nova fase de minha vida se iniciou. Foi quando eu comecei a me interessar pelo basquete e fazer parte de um círculo de amizades genuínas que conservo até hoje. Eu jogava basquete o dia inteiro. Com quatorze anos eu já era da seleção adulta da cidade e, com os rapazes mais velhos, aprendi muito sobre o valor do esporte. Na escola, as coisas melhoraram, pois meus colegas de basquete estudavam todos em minha escola (primeiro no Amâncio e depois no Tozzi). É realmente incrível como o esporte pode mudar a vida de uma pessoa. Aquele moleque tímido, antissocial e com um único amigo, agora era querido por muita gente. Em vez de ficar no banquinho lendo qualquer besteira no mais completo isolamento, agora eu estava na quadra, protagonizando jogadas que ia aprendendo com os mais velhos dia após dia. O primeiro bom treinador que eu tive foi um coronel reformado que dava-nos um treinamento extremamente puxado na parte física e psicológica. Ele despendia grande parte de seu tempo em “fazer a minha cabeça”, ou melhor, ele insistia para que eu deixasse minha timidez fora da quadra e, dentro dela, me sentisse como um leão, ávido por estraçalhar meus adversários. Não sei ao certo se sua preocupação comigo rendeu, para ele, o resultado esperado, mas, para mim, foi um prazer enorme ter sido treinado por aquele sujeito durão.
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Lembro como se fosse hoje o dia em fomos jogar contra a seleção de Espírito Santo do Pinhal. Era meu primeiro jogo oficial e, obviamente, eu ficaria no banco por ser muito jovem. O ginásio estava completamente lotado. Quando chegamos ao ginásio, fomos recebidos às gargalhadas, pois o cara mais alto do nosso time tinha um metro e oitenta e cinco mais ou menos. Lembro que as pessoas apontavam para mim e diziam que o jogo era de adulto e não de dente de leite. Depois de nos trocarmos no vestiário, quando entrei em quadra para aquecer, senti um calafrio percorrer todo o meu corpo, pois era tanta gente gritando que parecia que o ginásio ia explodir. Ao olhar para o aquecimento do time adversário, não pude acreditar no que vi. Quase todos os atletas tinham mais de dois metros. O menorzinho, armador, devia ter um metro e noventa e cinco mais ou menos. Quando a bola subiu, logo no primeiro ataque deles o pivô dos caras deu uma dunk que quase quebrou a tabela. Sinceramente, eu não sabia o que estava fazendo ali no meio daqueles gigantes bombados. O jogo foi transcorrendo e, faltando cinco minutos para o término da partida, com o time adversário tendo aberto mais ou menos uns noventa pontos, o coronel falou para mim: “a hora de você virar homem é agora. Está disposto?” Com o corpo todo tremendo eu topei o desafio e na primeira bola que peguei em condições de arremesso eu tomei um toco absolutamente inacreditável. O ginásio veio abaixo, nunca me senti tão humilhado em toda a minha vida. Vendo minha total desorientação dentro de quadra, o sujeito mais experiente do meu time (e que era quem mais me ensinava sobre o esporte e que veio a falecer pouco tempo depois) encostou em mim e disse no meu ouvido “o mais difícil já foi, agora divirta-se!” E não é que deu certo o conselho dele? As pernas pararam de tremer, meus ouvidos já não ouviam as piadinhas da torcida adversária e não é que eu consegui fazer duas cestas! Uma, nos últimos segundos, foi de três pontos e absolutamente sensacional. Ao término do jogo, a torcida começou a gritar treze, treze, treze ... que era o número do meu uniforme. Todos os atletas adversários vieram me cumprimentar e o treinador deles conversou bastante comigo. Perguntou minha idade e disse se eu pretendia seguir carreira no esporte. Eu não lembro o que eu disse, pois estava muito excitado, e assim se deu minha primeira experiência num jogo oficial. Como eu comecei a crescer demais depois dos quinze anos e desenvolver minhas habilidades no esporte, passei a vislumbrar a possibilidade de seguir carreira no
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basquete, coisa que meu pai apoiava incondicionalmente. Assim, fiz um teste na Hípica de Campinas e, mesmo tendo sido aprovado, não quis continuar treinando por lá. Meu comportamento antissocial aflorou novamente e eu não me dava bem com aqueles “playboys”, como costumava dizer. O que eu gostava, em verdade, era “brincar” de basquete, me divertir em quadra com meus amigos sem qualquer responsabilidade ou obrigação. Adorava jogar basquete com meus verdadeiros amigos que até hoje convivem comigo. Minha vida desde que cheguei à Jaguariúna até os dezessete anos foi muito feliz, e totalmente voltada à prática esportiva (mesmo que esporadicamente eu ouvisse algumas vozes que eu não sabia de onde vinham). Com dezessete anos, numa festa de rodeio tradicional da cidade, bebi álcool (vinho) pela primeira vez em minha vida. Foi realmente mágico. Aquele garotão enorme, tímido e desengonçado se transformou radicalmente. Nesta festa, dei meu primeiro beijo numa menina cujo nome e feição nem lembro mais. Foi insólito ter de chegar numa garota bonita e cortejá-la, pois eu nunca havia feito isso antes. E, nesta festa, bêbado, eu fiz. E muito bem. Contudo, eu mal imaginava que o álcool seria uma pedra no meu sapato futuramente, e uma pedra das grandes.

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Depois daquela festa, eu e meus amigos passamos a beber regularmente, ou melhor, todos os finais de semana. Éramos (eu pelo menos) de uma ingenuidade tremenda, não havia malícia ou interesse em nossas amizades. Não saíamos da casa dos pais de meu melhor amigo. O pai e a mãe desse meu amigo nos recebiam muito bem, quase como se fossemos irmãos desse meu amigo. Nossa turminha era conhecida em Jaguariúna como a “turma do basquete”, uma turma extremamente pacífica e querida pela rapaziada mais velha e muito admirada pelos moleques mais novos. Quando jogávamos nossa pelada na quadra da pracinha Mogi Mirim, tanto a molecada quanto os caras mais velhos paravam para assistir ao espetáculo. Como eu era o maior da turma, quando eu pegava na bola todos gritavam para eu enterrar. Eu não gostava muito de enterrar, pois meu basquete era de “branco” como se diz na gíria, um basquete pragmático, eficiente, mas de vez em quando, para animar, eu dava umas enterradas só para tirar aplausos dos moleques mais novos. Uma experiência estranha que tive nessa época foi um entrevero com o meu melhor amigo. Estávamos numa chácara para passar o final de semana e, enquanto ele e outros de nossos amigos cozinhavam, eu, que estava deitado no sofá vendo TV, ouvi claramente o meu amigo me insultar da cozinha com palavrões extremamente chulos e ofensivos. Revoltado, perdi o controle e fui para cima dele e só não o agredi porque todos disseram que ele não havia dito absolutamente nada. Fiquei muito constrangido com essa situação no mínimo estranha. Pensei que meus amigos passariam a me achar maluco ou coisa do gênero, mas, felizmente, nada disso ocorreu, nossa amizade não foi nem um pouco abalada por esse “mal entendido”. Ainda com dezessete anos, comecei a namorar uma garota muito bonita e maluca. Ela tinha vinte e três anos e ainda era virgem como eu. Seu nome era engraçado, e eu estava pela primeira vez na vida realmente apaixonado. De tanto forçar a barra para transar com ela, ela terminou o namoro comigo, o que foi uma lástima, pois eu gostava muito dela. Por causa dela, eu arrumei um emprego de caixa num supermercado da cidade, pois ela falava que eu me vestia como um moleque (e ela tinha

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razão). Esse meu primeiro emprego durou apenas dois dias, e a razão de minha demissão foi hilária. Estava eu fechando a conta de uma senhora e, como eu não dispunha de dez centavos em meu caixa, eu entreguei o troco da velhinha com duas balas. Ela se revoltou completamente e exigiu que eu a desse uma moeda de dez centavos. Fui aos outros caixas e nada de alguém ter dez centavos. Cheguei com muito jeito na velha senhora e expliquei que nenhum caixa dispunha de dez centavos. Completamente fora de si, ela começou a me xingar de tudo quanto era nome e eu não fiz por menos, ou seja, também comecei a xingar aquela velha até que um moleque (neto dela, soube mais tarde) da minha idade mais ou menos, surgiu sabe-se lá de onde e veio para cima de mim. Trocamos alguns sopapos até que o segurança do supermercado contornou a situação. Na mesma hora, eu tirei meu jaleco de trabalho e atirei aos pés do dono do mercado. Esse foi meu primeiro emprego e, como não pude comprar “roupas de adulto”, foi-se também minha primeira namorada. Mas eu estava determinado a perder a virgindade, afinal, todos os meus amigos haviam perdido, porque eu não podia? Assim, comecei a namorar uma garota de Amparo que jogava vôlei no clube onde eu, à época, treinava basquete. Outra frustração. Ela se negava a entregar-se para mim, levando-me a terminar o namoro. Lembro perfeitamente que quando terminei com ela, ela entrou numa depressão suicida tremenda. Ficou dias sem comer ou sair do quarto, até que sua mãe me implorou para voltar a namorá-la, pois sua filha faria o que eu quisesse. Lembro que aquela situação foi estranha demais para mim. A mãe de uma menina de quinze anos implorando para eu transar com sua filha! Isso sim é insanidade. Mas como bom cavalheiro, eu fui à casa da garota para ver se ela aceitava nossa separação. Quando me viu, seus olhinhos de jabuticaba brilharam tremendamente. Mas quando eu disse que estava ali para pôr um ponto final naquela história maluca, ela caiu em pranto e tudo o que fiz foi sair daquela casa sombria para nunca mais voltar. Só sei que, como ela tinha potencial e talento de sobra para se profissionalizar no voleibol, coisa que, parece-me, que depois de se recuperar da depressão que eu causei a ela, de fato ocorreu. Mas não tenho certeza, tudo o que sei é que ela tinha talento de sobra para se profissionalizar no voleibol, e também tinha vontade de sobra para tanto.

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Toda essa história com essa garota me incomoda muito porque posteriormente, eu viria a passar algo não só semelhante a isso, mas num contexto bem pior e mais tenebroso. Nessa época, eu estava completamente envolvido com o basquete. Jogava praticamente todos os dias em Jaguariúna, Pedreira e em Amparo. Como houve um campeonato na cidade de Pedreira, e todos os jogos se realizavam à noite, eu, que estava de recuperação no segundo colegial, deixei de ir à escola e, obviamente, repeti novamente de ano. Meu pai ficou louco comigo, mas não me proibiu de continuar com o basquete, pelo contrário, parece que ele insistia cada vez mais para que eu me aplicasse mais e mais aos treinamentos. Meus amigos acharam que eu enlouqueci de vez por perder um ano de estudos por um campeonato medíocre de basquete. Mas na minha cabeça isso se processou de modo tão natural, tal como ir à feira comer pastéis. Só me arrependo de não ter parado de estudar antes, quando soube, em agosto, que o campeonato seria disputado nos dias de recuperação escolar, disso eu me arrependo tremendamente. Às vezes fico me perguntando o porquê de eu ter, em minha infância e adolescência, uma repulsa tão grande pelas escolas em que estudei. Acho difícil teorizar sobre isso. A explicação mais coerente a este respeito creio que seja a minha índole antissocial de ter de ficar obrigatoriamente perto das outras crianças e adolescentes. Mas isso pode ser refutado porque na adolescência, em Jaguariúna, eu já estava enturmado, pois estudava com meus amigos de basquete e bebedeiras. Deixa para lá, melhor não teorizar mais sobre isso. Devo confessar que perder a virgindade sem ser com uma prostituta virou uma verdadeira obsessão para mim. Até que, aos dezoito anos, num natal na casa de praia de meu pai em Ubatuba, conheci uma garota simplesmente lindíssima com quem fiz amor na areia da praia. Acho que realmente valeu a pena esperar tanto tempo para transar porque o que eu aprendi naquele natal eu carrego comigo até hoje. Penso que nunca mais vou me esquecer das estrelas brilhando no céu e o barulho das ondas batendo nas pedras enquanto eu atingia o orgasmo, tudo aquilo foi espetacular, coisa de outro planeta.

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Devo confessar que minutos antes de eu transar com aquela garota eu estava muito receoso. Imagino que tão receoso quando, certa vez, levamos um amigo nosso para uma zona para que ele finalmente perdesse a virgindade. Foi o “presente” que demos a ele em seu aniversário de dezoito anos. Eu só não ganhei esse “presente” porque eu mentia para meus amigos dizendo que perdi a virgindade com aquela maluca da minha primeira namorada que, à época, contava vinte e três anos. Nesta época, após perder a virgindade, eu e meus amigos começamos a frequentar ambientes GLS. Íamos sempre ao The Club, uma boate GLS muito badalada na região. Lá, tive minhas primeiras relações homossexuais. Fiquei completamente encantado em descobrir esse meu lado gay, digamos assim. O estranho dessa história é que praticamente todos os gays ou bissexuais que conheço não ficam encantados em descobrir esse lado, pelo contrário, eles sofrem demais, tentam recalcar tais sentimentos, já eu não, quando ia ao The Club, eu me soltava de tal forma que parecia que aquilo era algo perfeitamente comum em minha existência, e talvez tenha (tem) sido mesmo. Nessa época do The Club, eu namorei por um bom tempo um travesti lindíssimo. Namoramos por cerca de um ano. “Ela” recusava-se a me dizer seu nome de batismo, bem como não aparecia para mim desmontada, ou seja, sem estar produzida de mulher. Amei muito esse traveco, e nosso namoro só não foi adiante porque eu era muito moleque, me envolvia com qualquer rabo de saia, inclusive com amigos da minha própria “namorada”. Hoje reconheço o quão idiota fui àquela época. Por namorar um homem vestido de mulher, passei por vários constrangimentos, especialmente quando saíamos para dar uma volta pelo centro de Campinas, onde havia o barzinho do The Club. Cheguei a ser hostilizado na rua por andar de mãos dadas com ele. Sinceramente, não entendo até hoje a homofobia. Isso porque para mim é mais do que óbvio que todo ser humano tem ou já teve tesão por pessoas do mesmo sexo. Para mim e, tendo em vista minhas experiências homossexuais, considero isso um fato. Meus amigos mais próximos não sabem até hoje que eu namorei esse travesti por tanto tempo. Eles pensam que tudo o que rolava era de nós “ficarmos” quando íamos ao The Club. Parece-me que ir ao The Club era uma espécie de catarse ou algo do tipo. Era como se só lá se podia extravasar toda a libido homossexual. Fora de lá não. Fora de lá éramos os gigantes jogadores de basquete másculos, viris e heterossexuais.

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Sinto muita falta desse meu primeiro namorado do sexo masculino. Em verdade, nós nos conhecemos num tipo de início de estado psicótico pelo qual eu passei quando fui ao The Club pela primeira vez. Todo aquele som altíssimo, de estourar os tímpanos, aquelas luzes insanas que não paravam de faiscar, aquele aperto e esfrega-esfrega uns nos outros, tudo aquilo começou a deixar estranho, comecei a sentir um mal estar tremendo, uma vontade de gritar e sair esmurrando todo mundo. E foi justamente quando eu estava para explodir, eu senti as mãos delicadas dele me pegando pelo braço e me tirando daquela balbúrdia. Fomos ao motel que existe dentro da própria boate e só lá consegui me acalmar e foi quando fizemos amor pela primeira vez. Com a morte de meu avô, quando eu contava dezenove anos, tudo ficou muito cinza. Eu e meu avô éramos muito apegados. Só para ele e meus amigos eu contei o que se passou na praia naquele natal iluminado. Devo ter ficado mais ou menos uns dois meses em depressão pela perda de meu avô. Não parava de lembrar-me da pescaria que fizemos uma vez, bem como quando ouvíamos pelo rádio os jogos do palmeiras (time de meu avô) e do São Paulo, meu time de coração. Poucos dias depois da morte de meu avô, fumei maconha pela primeira vez. Todos os meus amigos fumaram junto comigo também pela primeira vez. Foi uma experiência coletiva das mais excitantes. Nunca ri tanto em minha vida. Depois dessa experiência com a maconha, incluímo-la em nosso cardápio de fim de semana. Agora o nosso barato era jogar basquete a semana inteira e beber muita cerveja e fumar muita maconha aos finais de semana. Foi nessa época que eu e mais dois amigos fomo à Ubatuba na casa de praia de meu pai. Foi um final de semana excelente em termos de diversão, mas foi também a ocasião em que tive minha primeira bad trip com a maconha. Num de nossos passeios à noite pelo centro da cidade, depois de fumar maconha eu comecei a ficar muito paranoico. Parecia que todos estavam olhando ameaçadoramente para mim, foi terrível, eu não tinha forças para dizer uma única palavra a meus amigos e tudo o que sentia era medo, um medo aterrorizante. Nessa época (aos dezenove), fiz um teste no Tênis Clube de Campinas que era para durar uma semana, mas eu fui aprovado logo no primeiro treino. Essa era a chance de eu me profissionalizar no basquete, de realizar o sonho de meu pai e meu também, por que não? Mas eu não quis, pipoquei. Não gostei do ambiente, consegui fazer amizade com só um rapaz que eu já conhecia do The Club. Não sei, mas a partir dessa
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época eu fiquei extremamente paranoico mesmo sem fumar maconha, parecia que todos tramavam um complô contra mim, é difícil explicar, mas no Tênis eu não me sentia à vontade e não conseguia fazer amizade com ninguém (a não ser com o rapazinho homossexual do The Club). Só me sentia à vontade jogando com meus amigos de Jaguariúna ou de Amparo e Pedreira. Este foi o período em que meu melhor amigo começou a estudar educação física na UFScar, e eu fiquei completamente perdido, sem saber o que fazer da vida. Como eu havia acabado de completar o segundo grau, entrei num acordo com meu pai e, em mil novecentos e noventa e nove, pedi as apostilas do objetivo para o meu amigo (que havia feito cursinho) e comecei a estudar por conta própria, tendo como guia somente o programa Vestibulando, da TV Cultura. Nesse ano, eu praticamente não saí de casa, parei com o basquete e só estudava para recuperar os anos de ociosidade que eu havia levado na escola. Mas deu tudo certo. Como autodidata, passei em sexto lugar no vestibular da UNESP de Marília para cursar filosofia. Mas por que filosofia? É difícil dizer. Penso que foi devido à leitura do “julgamento de Sócrates”, de Platão, que eu ler a por volta dos dezesseis anos, livro esse que me mostrou que rebeldia também pode ser uma virtude. Além disso, sempre tive uma queda especial por ciências humanas. Quando passei no vestibular, uma nova fase de minha vida estava por começar. Em primeiro lugar, eu já não seria mais da turminha do basquete. Em segundo lugar, eu teria de controlar minha paranoia e tratar de fazer novas amizades, pois era meu futuro que estava em jogo, uma carreira e profissão estavam em jogo e eu não poderia mais correr para a barra da saia da mamãe alegando não me adaptar a uma cidade a quinhentos quilômetros de Jaguariúna. Em resumo: era mais do que hora do menino pacato, antissocial e paranoico transformar-se num homem. Além disso, também tive de bater de frente com meu pai que não queria que eu fosse estudar tão longe de casa e vivia me enchendo o saco para eu fazer ciências sociais na USP ou na UNICAMP, que (na cabeça dele) além de serem melhores universidades, era perto de casa, de modo que daria para, aos fins de semana, eu ficar debaixo de sua asa. Foi complicada essa minha ida para a UNESP. Tive de tecer milhões de argumentos para que meu pai e também minha mãe não ficassem preocupados comigo, tive de convencê-los de que eu já era um homem e que já estava mais do que na hora de
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eu bater asas e caminhar com minhas próprias pernas, enfrentar desafios e assim por diante.

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Chegando a Marília, a primeira coisa que me chamou a atenção foi o cheiro de bolacha que existe na entrada da cidade, devido a uma fábrica desse produto que há por lá. O trote foi muito tranquilo e, de cara (não sei como, pois sou extremamente paranoico), simpatizei com várias pessoas. Não apenas com colegas de classe, mas com inúmeros veteranos que me receberam muito bem. À época, eu tinha o cabelo comprido, chegando quase à cintura, e confesso que temi de tê-lo raspado, mas nada disso se deu. O que aconteceu foi que tive o rosto pintado e fomos todos ao bar. Bebemos dionisiacamente, e eu, inicialmente, passei a morar numa pensão paga por meu pai, pois à época, achei que se eu morasse na moradia estudantil, eu desandaria a beber e fumar maconha, deixando os estudos de lado. E eu estava muito focado em estudar para valer, para recuperar todos os anos de aversão às escolas pelas quais eu passei. Nessa pensão, tudo era engraçado. Primeiro porque a dona dela era uma velha extremamente porca, que chegava a feder, e mesmo assim tive de comer de sua comida simplesmente horrível porque o dinheiro que meu pai me mandava era muito escasso, só dava para xerocar as apostilas. E segundo, porque os rapazes que moravam comigo eram todos da UNESP e eram engraçadíssimos, sendo um completamente gago e o outro um total CDF, porém, extremamente limitado intelectualmente. Esse garoto lia o dia inteiro e não conseguia absorver uma única ideia de tudo o que lera (desconfio que ele fosse disléxico). Eu me divertia muito com esses garotos, seja pregando peças, como esconder as cuecas deles, seja imitando o gaguinho. Sinto saudade daquela pensão. Foi nessa época que fiz uso de LSD pela primeira vez e simplesmente adorei o barato que essa droga proporciona. Mais tarde, por volta dos vinte e quatro anos, quando adoeci, voltei a ter “iluminações” (sem usar drogas) parecidas com a “onda” do ácido lisérgico. Essa minha experiência com o LSD se deu numa festa na moradia estudantil, onde eu tomei meia cartela de “doce”. O bem estar que aquilo me causou é simplesmente inenarrável. As cores das paredes grafitadas pareciam saltar aos meus olhos. A impressão que eu tinha era de que tudo no universo parecia fazer sentido, era como se eu fosse o demônio de Laplace que numa visão escalar, consegue entender tudo o que se passou e prever todos os instantes futuros do universo. Não sei ao certo
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explicar. Meus amigos que tomaram doce comigo diziam que sentiram apenas um bem estar sensorial, não tendo nenhum tipo de iluminação intelectual significativa, tal como se tem quando se cheira cola, por exemplo. Mas o fato é que eu tive uma iluminação muito grande, algo difícil de se colocar em palavras. Como a porquice da pensão em que eu morava estava começando a me incomodar, eu passei a morar numa república só com garotos da minha turma. Essa ideia foi muito boa porque estudávamos muito, coletivamente, um incentivando o outro quando as coisas ficavam difíceis. Além disso, eu ganhei uma bolsa destinada a alunos carentes, o que me possibilitou depender o mínimo de meu pai, ademais, minha madrinha se comprometeu a me enviar cem reais todos os meses, o que ajudou mais ainda. Sendo assim, posso dizer que, por volta da metade do primeiro semestre, eu era praticamente independente de meu pai, só recorrendo ao dinheiro dele quando eu tinha de comprar um livro caro ou extrapolava na bebedeira, gastando muito dinheiro com cerveja. Com essa bolsa, chamada bolsa PAE (programa de auxílio ao estudante), tive de ter minha primeira orientadora, uma Dra. extremamente competente de filosofia política, especialista no que diz respeito à escola de Frankfurt. Com ela, passei a estudar os Frankfurtianos, em especial Marcuse, que era o filósofo preferido dessa minha primeira orientadora. Me dediquei por completo aos frankfurtianos, e a lição que tirei dessa minha primeira orientação é a de que política e vida são uma única coisa, ou seja, o ser humano é um animal essencialmente político, um animal essencialmente gregário que, mediante troca de ideias e medida de forças, organiza seu plano social e político. Além disso, estudando com afinco os frankfurtianos, pude entender melhor minha rebeldia ingênua e infantil com relação ao status quo. Em resumo, estudando sob a supervisão dessa minha primeira orientadora, pude me conhecer mais a fundo, consegui caracterizar com maior pormenor minhas tensões mais arraigadas, profundas. Com a ajuda dessa minha primeira orientadora, me politizei um pouco mais, passei a ser mais cético com relação a fórmulas mágicas em matéria de política e economia. Meu primeiro contato com os estudos na faculdade foi realmente traumático, isso porque, logo de cara, o professor de estética nos mandou ler a fenomenologia do espírito, de Hegel. Pode parecer brincadeira, mas o fato é que nenhum aluno da turma conseguia entender uma vírgula do texto, alguns chegaram até a abandonar o curso por
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achar que filosofia é coisa para louco. Mas no fim do primeiro semestre deu tudo certo. Mesmo não entendendo muito de Hegel, tirei nota dez no curso não sei como, não entendo como pode uma pessoa tirar nota máxima numa disciplina ininteligível. Nesse primeiro semestre de filosofia, eu conseguia fazer uma coisa que poucos conseguem, que é levar uma rotina extremamente pesada de estudos, e uma vida boemia das mais agitadas. Nunca me esqueço da festa da cola, que eu e meus amigos de república organizamos. Essa festa entrou para a história de Marília. Nunca baforei tanta cola em toda a minha vida. A casa ficou simplesmente arruinada e foi difícil pôr as coisas em ordem porque a ressaca da cola dura uns dois dias, mas que a festa foi das melhores, isso não resta a menor dúvida. Mas voltando a falar dessa minha capacidade de manter uma pesada rotina de estudos e uma vida boemia maluca, acredito que isso se dava porque eu quase não tinha ressaca. Não sei se é porque eu sempre fui esportista e tinha um certo vigor físico por isso, não sei. Mas que era estranho chegar completamente bêbado às cinco horas da manhã em casa e lá pelas dez já estar lendo, lúcido, Hegel ou Marcuse a todo vapor é algo no mínimo estranho e até inconcebível para alguns. O saldo do meu primeiro semestre em Marília foi muito positivo. Fechei o semestre com boas notas e fiz grandes amigos. Estudei para valer e bebi e fumei maconha demais. Em verdade, o fato é que depois daquela bad trip que tive no litoral antes da faculdade, eu não apreciava muito os efeitos da maconha, de modo que, eu só fumava, para me integrar, para fazer parte das “rodinhas”, mas isso foi legal, isso fez com que minha timidez e paranoia reduzissem praticamente a zero. Quanto à minha vida sexual, só posso dizer que nesse primeiro semestre eu transei com mais mulheres e homens do que a soma de todas as relações amorosas de toda a minha vida até hoje. Falando de sexo, era incrível como era fácil transar em Marília. Era uma promiscuidade divertida o que se passava por lá. As meninas de minha sala eram verdadeiras bacantes. Não só porque celebravam a vida com muito álcool e sexo, mas eram bacantes porque caso não fossem, parece que o curso de filosofia para elas não teria a menor graça. Lembro de uma ocasião em que, no intervalo, algumas meninas de minha sala mais algumas das ciências sociais fizeram uma performance no gramado para
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comemorar a lua cheia. Todas elas ficaram nuas e, num torvelinho lésbico, todas começaram a se beijar e esfregar umas nas outras, confesso que fiquei muito excitado com aquela performance, deu vontade de tirar a roupa e pular em cima delas, fazer parte daquele bololô comemorativo ao luar. Voltando para Jaguariúna para passar as férias de meio de ano, conheci uma garota muito especial em minha vida. Começamos a namorar rapidamente e nosso namoro foi extremamente sadio e gostoso. Como ela tinha uma motocicleta, vivíamos “roletando” para cima e para baixo, sem nos preocuparmos com nada. Namoramos por cerca de quatro meses, mas esses quatro meses foram, talvez, os melhores de minha vida. A garota se parecia muito comigo. Adorava beber, fumar um baseado e transar muito. Ela sempre ia à Marília no segundo semestre e sempre levava uma cota boa de maconha que vendíamos para os camaradas e o lucro obtido era o suficiente para ela retornar de ônibus à Jaguariúna. Como ela era muito expansiva, o oposto de mim, ela logo pegou amizade com todos os meus amigos e amigas. Acho que esse foi um dos melhores momentos de minha vida. Nosso namoro se deu no segundo semestre do meu primeiro ano de filosofia, e só acabou quando eu fui preso. Explico: Certo dia, eu e meus amigos de república passamos por uma experiência no mínimo inusitada. De “cara limpa”, ou seja, sóbrios, começamos a quebrar tudo na rua: orelhões, vidros das casas, para brisas de automóveis, inclusive nossa própria casa. É difícil explicar, mas o nome que demos para esse ataque de fúria foi “surto coletivo”. No meio de tanta arruaça, obviamente fomos presos e passamos alguns dias no CDP de Marília. Contratamos um desses advogados de porta de cadeia e ele nos tirou de lá, mas mesmo assim, fomos julgados e condenados a assinar carteirinha por dois anos. Assinar carteirinha consiste em, uma vez por mês, ir ao fórum assinar um documento, e, é claro, justificar previamente qualquer saída da cidade e não ficar de bobeira na rua depois das dez da noite. Quando a minha namorada de Jaguariúna soube dessa minha prisão, ela ficou completamente louca comigo. Discutimos por telefone e terminamos um namoro que tinha tudo para dar certo se eu não tivesse estragado tudo. Senti muita falta dela, mas consegui tocar minha vida adiante. Me apeguei mais ainda aos estudos, até a fatídica festa “vinte e quatro horas no ar”, quando quase aconteceu uma verdadeira tragédia.

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Nessa festa, que consistia em dois dias de música e performances ininterruptas, logo na primeira noite, vários “manos”, ou seja, garotos da periferia que curtem hip hop foram à festa (no campus da UNESP) e começaram a roubar todo mundo. Pelo fato de eu estar muito bêbado, não me recordo ao certo o porquê, mas sei que tive uma faca encravada em minhas costas. Meus amigos disseram que, após a facada (com ela ainda enterrada em minhas costas), eu subi ao palco, peguei no microfone e intimei todos os alunos da UNESP a reagirem ao saque que estava havendo. Imediatamente a festa tornou-se um caos. Amigos meus pegando pedaços de pau, quebrando garrafas, em suma, uma verdadeira guerra campal instaurou-se no campus. Só não pude participar da pancadaria porque sorrateiramente (enquanto o circo pegava fogo), alguns amigos me levaram, contra minha vontade, ao hospital, já que eu mesmo tirara a faca das costas e estava perdendo muito sangue. Como a facada não atingiu nenhum órgão vital, depois de costurado, eu fugi do hospital e voltei à festa, que, mesmo depois de toda aquela confusão, ainda continuava. Só fiquei triste por não ter podido ajudar meus amigos na “guerra”, pois quando eu cheguei ao campus a confusão já havia terminado, com um saldo negativo para os “manos”. Minha recuperação da facada se deu muito rapidamente, graças aos cuidados de uma garota completamente apaixonada por mim e que viria a se transformar num grande “tormento” ao longo de todos os anos que permaneci em Marília. Digo “tormento”, em virtude de sua perseguição implacável em relação a mim. Perseguição esta que fez com que várias garotas se afastassem de mim por medo dessa garota maluca. Mas eu não reclamo, pois se ela me perseguia, é porque eu dava brechas para isso, ou seja, de vez em quando, quando eu estava muito bêbado, eu transava com ela. Além disso, ela me ajudou e cuidou muito bem de mim, só tenho a agradecer o carinho e às maluquices dessa garota. E assim o ano dois mil acabou. Um ano muito atribulado e excitante, mas posso dizer que, pelo menos, o saldo geral foi positivo, isso porque consegui fechar o ano letivo com excelentes notas e muito aprendizado intelectual e de vida. Além disso, por intermédio de um grande amigo, eu aprendi muito sobre o candomblé. Li muito sobre essa religião simplesmente celestial, mas só não fui ao terreiro com ele àquela época por medo de “pirar”, de me envolver com forças que vão além de meu entendimento, de
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minhas crenças mais arraigadas. Não que eu achasse que havia um plano superior (dos orixás), que interferia em nossas vidas. Eu gostava e ainda gosto do candomblé porque eu admiro muito a cultura afro e, estudar e praticar os ritos e costumes desse povo faz com que a cultura afro permaneça viva. Só por isso eu cultuo, aprecio e estudo o candomblé.

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Férias é sempre algo agradável, mas até certo ponto. Foi legal rever meus amigos, contar a eles minhas peripécias daquele meu primeiro ano atribulado, mas positivo, mas chega uma hora que cansa, não via a hora de voltar à Marília para rever meus novos amigos e continuar a estudar intensamente. É estranho constatar que, ao rever meus amigos de Jaguariúna, as coisas já não eram mais as mesmas. Sei lá, parece que eles pararam no tempo ao passo que só eu “evoluí”. Mas evolução não é bem a palavra apropriada para esse descompasso em relação aos meus amigos. Acredito que eu mudei mesmo, sei lá, me tornei mais politizado, mais polido, já não achava tanta graça no basquete, enfim, tudo o que posso dizer é que, depois de um único ano em Marília, eu mudei, não sei para melhor ou pior, mas mudei, e muito. Quando voltei à Marília, logo na semana dos “bixos”, me apaixonei por uma caloura de filosofia e posso dizer que foi amor à primeira vista. Transamos logo no primeiro dia em que nos conhecemos e namoramos até o meu quarto ano, que foi dois mil e três. Não posso negar que esses foram os melhores anos de minha vida. A esta altura, eu já havia saído da república e ido morar com essa garota na moradia estudantil da faculdade. Eu e ela éramos como marido e mulher, quer dizer, morávamos na mesma casa (casa três), dormíamos na mesma cama, cozinhávamos juntos, estudávamos juntos, saíamos sempre juntos, enfim, éramos uma família, eu daria minha vida por ela. Só brigávamos quando o assunto era política, pois ela era comunista, membro da UJS e eu, à época, tinha uns ideais anarquizantes, talvez até apocalípticos. Com ela fui ao Fórum Social Mundial, ampliei meu círculo de amizades e, infelizmente, comecei a adoecer. Antes de falar sobre como adoeci, devo dizer que com essa minha namorada, eu pude me conhecer melhor, tanto minhas virtudes quanto meus defeitos. Com ela, descobri que sou um sujeito extremamente carinhoso e afetuoso. Prestativo em me doar para ela e até mesmo cafona, de tão romântico. O que me atraía nessa garota, não era tanto sua inegável beleza e charme, mas sim seu senso de humor. Ela, quando queria, transformava-se numa verdadeira palhaça,

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o que era muito divertido. Eu ria demais com ela. Quando estávamos a sós no quarto da moradia, fumávamos um baseado e ela logo começava a fazer coisas que me matavam de rir. Ela imitava a Xuxa como ninguém. Era hilário vê-la imitar diversas personalidades e também pessoas do nosso círculo de amizades. Quando fomos ao Fórum Social Mundial, fomos de carona até Curitiba e empacamos por lá. Não conseguíamos carona de jeito nenhum, de modo que eu tive de sacar um dinheiro para completarmos a outra metade do percurso de ônibus mesmo. Lá no Fórum, parece que as coisas já não iam muito bem entre nós. Mesmo participando juntos de várias atividades, inclusive de uma dinâmica com o Augusto Boal (minha namorada era louca por teatro), o clima entre nós já não era o mesmo. Não sei dizer, mas quando voltamos para Marília, parece que nosso relacionamento estava desgastado. Acredito que esse desgaste se deu mais por minha culpa, pois eu a questionava muito politicamente, bem como a questionava em seu gosto musical e estético, em suma, eu virei um tremendo de um chato de galochas, que não via mais graça nem nas imitações, antes tão hilariantes, que ela fazia. No início de dois mil e um, eu comecei a passar por períodos de extrema agitação psicomotora. É estranho dizer, mas parece que um cavalo selvagem se “apossava” de mim. Eu ficava dias sem dormir ou me alimentar e tinha o pensamento extremamente acelerado, pensando em inúmeras coisas ao mesmo tempo. Era difícil manter o foco de minha atenção numa única coisa. Minha atenção ficava “pulando” de um pensamento para o outro numa velocidade estonteante, chegando ao ponto de me fadigar completamente, e, neste estado de esgotamento, eu caía na cama e dormia por umas dezoito horas seguidas, quando tudo “normalizava-se”. Quando eu passava por tais períodos de agitação, meus amigos próximos, bem como a minha namorada, que moravam comigo na moradia estudantil, me diziam que não parecia fazer sentido as coisas que eu dizia, era como se eu delirasse; mas, objetivamente, meus trabalhos acadêmicos e minhas investigações como bolsista saíam com uma qualidade muito elogiada pelos meus ex-professores e minha ex-orientadora (nessa época, eu já não estudava filosofia política, mas sim filosofia da mente e ciências cognitivas). Estudava o problema da identidade pessoal numa perspectiva sistêmica, calcada nos princípios da Teoria da Auto-Organização (TAO), legada por Michel Debrun.
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Esse “cavalo” que se apossava de mim era algo agradabilíssimo de sentir. Eu me sentia forte, vigoroso, capaz de discursar sobre todos os assuntos com quem quer que fosse. Meus músculos se enrijeciam. Eu falava, falava e não conseguia me tocar que minha verborragia incomodava as pessoas ao meu redor, me masturbava bastante. Minha própria namorada irritava-se comigo. Dizia que não conseguia me acompanhar em nada: nas ideias, no sexo, na disposição para os afazeres domésticos, ou seja, eu era um chato quando me encontrava nesse estado de coisas. Nas minhas investigações em filosofia da mente e ciências cognitivas, eu ia muitíssimo bem. Lia compulsivamente e era extremamente participativo nos grupos de estudo. Além disso, nas próprias aulas de lógica (que eu adorava) e história da filosofia antiga (que, à época, era ministrada por minha orientadora), eu ia muitíssimo bem, tão bem, que, às vezes, quando eu pedia a palavra, parecia que eu era o professor, e não os reais professores. Nesta época de efervescência intermitente de ideias, conheci a cocaína numa festa da moradia estudantil e foi paixão à primeira vista. Isso porque agora eu podia “soltar” o cavalo. Era só beber um pouco e usar cocaína que lá estava o cavalo me convidando a montá-lo e seguir viagem sem um rumo aparente. Em geral, esse rumo que meu “cavalo” me conduzia era quase sempre um rumo autodestrutivo, um rumo de bebedeiras, confusões e degradação. Permaneci neste estado de coisas até o último ano de graduação: agitando-me para fazer um trabalho ou relatório de bolsa e me acalmando com chás e maconha quando fosse conveniente, ou quando meu corpo não suportava mais tanta agitação. Eu ficava tão fadigado, que as coisas que eu dizia não faziam mais sentido nem para mim. Depois de certo grau de agitação, não dava mais para ler ou participar coerentemente das aulas, e era nesse ponto que eu precisava dormir, desligar o motorzinho que me fazia vibrar. Nesta época, com vinte e quatro anos, depois de voltar de uma festa ligeiramente bêbado, eu comecei a ouvir os pensamentos (ou sonhos) de minha namorada que estava dormindo em nossa cama. Ela dizia ou eu pensava que ela pensava coisas horríveis sobre mim. Coisas sobre o meu desempenho sexual e qualidade intelectual. Ao “ouvir” tais impropérios, eu comecei a quebrar a casa três toda, e, quando ela acordou assustada, eu desferi um soco muito forte na janela do quarto. O resultado desse meu primeiro
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surto psicótico foi que eu amanheci amarrado no hospital da cidade com 23 pontos na mão direita. O médico que me atendeu sugeriu que eu me internasse, mas meus amigos, para minha sorte, não permitiram. Era inconcebível tanto para mim quanto para meus amigos que eu tivesse algum transtorno mental. Quando eu “acelerava”, e chegava ao ponto de delirar, meus amigos e minha namorada pensavam que isso era apenas o efeito da cocaína ou do álcool, em momento algum (que eu me lembre), tive minha sanidade mental contestada seja lá por quem fosse, e esse episódio do surto com um direto no vidro, todos pensaram que isso se deu porque eu bebi demais e cheirei muito, nada além disso. Saindo do hospital e retomando minha vida normal, é claro, já sem o amor de minha vida, os surtos passaram a ser frequentes. Cheguei ao ponto de não mais precisar beber ou usar cocaína para psicotizar, pois agora o cavalo estava solto, sempre se apossando de mim. Ouvir vozes passou a ser algo constante. Ouvia vozes sempre “fora” da minha cabeça, raramente “dentro” dela. Vozes ameaçadoras de meu falecido avô materno, de crianças sem nome que gritavam o tempo todo, e de uma pessoa que se dizia ser Descartes. No senso comum existe a máxima que diz que “um louco não sabe que é louco”, mas isso, no meu caso e naquela época era algo completamente disparatado, pois quando eu fantasiava, algo dentro de mim dizia que aquilo era loucura. Algo dentro de mim tentava se apegar desesperadamente à razão, ao passo que meus sentidos não podiam deixar de temer o que se me apresentava aos olhos e ouvidos. Mas nem tudo era tenebroso nessa época. Havia ocasiões em que eu passava por uma espécie de “despertar espiritual”, uma coisa muito boa, sentia-me beijado por Deus, as cores ficavam mais reluzentes, vibrantes, meu olfato parece que melhorava, e parece também que sentia minha pele mais sensível, como numa viagem de ácido, é difícil explicar. Com esses surtos constantes, dei muito trabalho para meus amigos. Eu vivia arrebentado e costurado. Cortes na cabeça, por dar cabeçadas em vidros, cortes nas mãos, por desferir socos em vidros. Mesmo machucando unicamente a mim mesmo, era perigoso ficar perto de mim quando eu estava surtado, pois as atitudes de um cara de dois metros e quatro centímetros de altura em pleno surto psicótico era, no mínimo, algo completamente assustador e perigoso.

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Esse período de minha vida, depois de ter perdido a namorada dos sonhos de qualquer homem e a sanidade mental, foi muito difícil para mim. A maioria das pessoas do campus me temiam, outras me ridicularizavam. Minha orientadora tentava me ajudar dando bons conselhos, mas tudo era em vão, eu já não conseguia controlar meus instintos, parecia um animal selvagem que decide tudo na base da porrada em janelas e portas. A coisa ficou realmente incontrolável. Meus amigos, que antes riam da suposição de que eu fosse louco, agora já não tinham a menor dúvida de que eu era um doido varrido. O estigma de ser tachado de louco é algo realmente muito doloroso. Um louco não tem voz ativa em qualquer discussão. As coisas que eu aventava publicamente nas aulas ou nas reuniões dos grupos de estudo, por mais sensatas que fossem, já não eram levadas a sério pelos meus colegas. Eu havia virado motivo de chacota na universidade, um bobalhão que fala sozinho e faz coisas estranhas. Lembro que, certa vez, andando pela cidade a esmo, eu comecei a encanar com “sinais” que me levariam sabe-se lá para onde. O fato de um menino de camiseta vermelha com uma chave pendurada ao pescoço foi um sinal de que eu deveria encontrar a “chave mágica”, que tudo abre, tal qual Exu que abre os caminhos. Eu saí desvairado andando pela cidade até que, ao avistar um vira latinha numa construção, eu peguei esse cachorrinho e, com um grande caco de vidro, abri a barriguinha do coitado, estando ele ainda vivo. Só me lembro de revirar suas entranhas à procura da tal chave mágica e, obviamente, nada encontrei. Voltei desolado para a moradia completamente coberto de sangue e fezes do cachorrinho, mas ninguém ligou, pois de um louco pode-se esperar de tudo. Essas encanações com “sinais” me atormentam até hoje. Tendo conseguido (não sei como) encontrar outra namorada que, na verdade, era uma espécie de enfermeira de plantão, convenci-me de que precisava de ajuda, pois meus surtos estavam ficando cada vez mais frequentes e perigosos. Deste modo, tendo em vista meu relato e levando em consideração o histórico de problemas mentais em minha família por parte de mãe, o psiquiatra recomendou que eu parasse de beber e usar drogas imediatamente, bem como procurar por uma internação caso os episódios permanecessem, e, é claro, me receitou alguns medicamentos. Do que ele me sugeriu, só segui o conselho de não mais usar drogas ilícitas, coisa que faço até hoje. Quanto ao álcool, diminuí noventa por cento o uso que fazia e, quanto aos remédios, eu não tentei
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fazer uso, pois me recusava a ser tratado como doente. Em minha cabeça, tomar lítio e anti-psicóticos são coisas para pessoas que perderam completamente a razão. Eu sabia que tinha um problema, porém, lá no fundo, eu achava que aquela loucura era só uma fase, uma espécie de transição na vida adulta, me recusava a ser tratado como um enfermo, definitivamente, para mim, era ridículo ter de tomar remédios. Mesmo sem drogas e praticamente nada bebendo, os surtos não cessaram. A telepatia (Chamo de “telepatia” a minha capacidade de “ouvir” os pensamentos dos outros) passou a ser uma constante em minha atribulada vida. Era aterrorizante andar pelas ruas e ficar o tempo todo ouvindo impropérios de transeuntes. Arrumei muita confusão por conta disso. Certa vez, fui espancado por uma turma de playboys da UNIMAR, uma universidade ao lado da UNESP. Eu estava jogando basquete na quadra da UNIMAR e comecei a ouvir todos dizendo que eu perdi a namorada anterior porque eu era brocha. Imediatamente parti pra cima de vários colegas que me deram uma surra. Só recobrei a consciência no hospital, onde eu estava algemado na maca. Não me lembro que colega foi ao hospital e à delegacia para aliviar a minha barra. Também não me recordo o que fiz para ser algemado a uma maca de hospital. Tudo o que lembro foi o espancamento que sofri daqueles playboys. Saindo do hospital e tendo sido liberado pela polícia, minha vida transformou-se num verdadeiro horror, pois os vultos negros que via passando por mim adquiriram contornos humanos de pessoas que eu nunca vi antes. Eles conversavam comigo, sempre dando voz de comando, conselhos tenebrosos como matar meu pai, estuprar minha mãe, esquartejar minha namorada e me suicidar. Agora sim, parece que “o louco não sabe que é louco”, pois toda essa fantasia era muito real, aterrorizantemente real. Quando essas “pessoas” apareciam, eu me desesperava de tal forma que tudo o que eu podia fazer para que essas pessoas e vozes sumissem era auto mutilar-me, coisa que faço até hoje quando psicotizo. Ao me mutilar, percebo que as vozes e as visões desaparecem momentaneamente. É como se meu princípio de realidade fosse despertado pela dor física. É estranho dizer, mas o fato é que a dor física além de me dar prazer, me acalma, tranquiliza, coloca minhas ideias em ordem, agregam o meu “eu” que, às vezes, parece fragmentado. Adoro me cortar com facas, vidros, me queimar com cigarros, fazer tatuagens (nem ligo para os desenhos), em resumo: o que os cristãos

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chamam de paixão de Cristo, para mim é uma dádiva, adoraria passar (doente) pelo calvário enfrentado por Jesus de Nazaré.

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Terminei minha graduação em filosofia em dois mil e três. Ao final desse ano, apresentei minha monografia que tratava da identidade pessoal tendo em vista a caracterização uma nova concepção de sujeito metafísico. Na minha defesa, que foi uma das últimas de minha turma, só estavam na sala eu, minha orientadora, os dois pareceristas (ou será que era só um? Não me lembro), um hippie analfabeto cheirador de cola completamente louco que se instalou na moradia para fugir da polícia, e um dos cachorrinhos da moradia. A defesa foi tranquila, talvez tranquila até demais, porque talvez os pareceristas estavam com medo de pegar pesado comigo e eu enlouquecer de novo, mas enfim, independente do que se passava na cabeça dos pareceristas, o fato é que eu tirei dez e voltei à Jaguariúna com a sensação de dever cumprido. Confesso que foi um alívio ter de voltar para casa por alguns dias. Digo por alguns dias porque, em verdade, eu optei por passar um tempo na casa dos pais de minha namorada, no Cambuci. A família dela era colombiana, com um astral super positivo. Era delicioso comer os quitutes que a mãe de minha namorada fazia. Naquelas férias tudo ia muito bem, minha mente estava apaziguada, eu não estava bebendo, estava realmente curtindo de verdade o agito cultural de São Paulo. Ia à museus, teatros, cinemas, me diverti para valer. A única coisa que estava me incomodando era a falta de dinheiro, pois com o término de minha graduação, obviamente cessara minha bolsa do CNPq, bem como os cem reais que minha madrinha mandava mensalmente, mas tudo estava bem, pois a bolsa de minha namorada e um dinheirinho que meu pai começou a me dar davam para tocar a vida sem muitos problemas. Essas férias de dois mil e três para dois mil e quatro que passei em São Paulo foram realmente revigorantes. Eu e minha namorada nos curtíamos muito e quase nunca brigávamos. Se brigávamos, era por motivos tão fúteis que nada além de um sexo gostoso não resolvesse a querela. O único probleminha desse período foi que eu quase não conseguia me conter de tesão pela mãe de minha namorada. Ela era uma colombiana muito gostosa e expansiva, uma mulher que não se vê dando sopa por aí. Apesar de transar muito com minha namorada, eu me masturbava demais pensando na mãe dela. Transando com minha namorada, cheguei a pensar diversas vezes em sua mãe
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quando estava para gozar. Para mim era muito difícil controlar essa situação. Ainda bem que as férias não duraram muito, pois se elas se prolongassem mais eu teria feito uma grande besteira. Quando dois mil e quatro começou, eu retornei à Marília para fazer o mestrado. Passei com relativa facilidade pelos exames e tive de fazer uma coisa chamada “nivelamento”. Como o programa era interdisciplinar com ênfase em filosofia, a ideia desse nivelamento era fazer com que alunos de outras áreas do conhecimento adquirissem um background em filosofia. Confesso que fiquei chateado por ter de fazer esse nivelamento porque eu já era formado em filosofia, mas tudo bem, fazer o que, não? Esse nivelamento estava programado para durar apenas o primeiro semestre, mas como houve uma longa greve na UNESP, o nivelamento durou o ano todo. Foi muito difícil levar esse curso por um ano inteiro devido à falta de recursos financeiros. Assim, além do dinheiro da minha namorada e de meu pai, eu complementava minha renda fazendo alguns “bicos”, tais como os de segurança de barzinho, servente de pedreiro, dentre outras coisinhas que foram aparecendo, tais como fazer ou digitar trabalhos, etc. Nesses bicos que eu fazia, eu me divertia bastante. Como segurança de um barzinho, eu mais bebia do que apartava brigas. Bebia escondido, a noite inteira. Quando o bar fechava, o dono logo percebia que eu estava completamente bêbado, mas ele não me dava uma dura tão dura assim. Tudo o que ele fazia era me conduzir ao banheiro para eu vomitar, e como eu vomitava ... Como servente de pedreiro, eu trabalhei por algum tempo de madrugada, num shopping da cidade. Trabalhava de madrugada porque durante o dia e parte da noite o shopping funcionava normalmente. Nessa época, eu trabalhava com uns caras completamente malucos. Uns pedreiros e serventes totalmente brutos e ignorantes. Eu ria muito das piadas que esses caras contavam. Mas o legal mesmo era tirar uma onda dos travestis que faziam ponto em frente ao local onde trabalhávamos. Todo sujo de areia, tinta e cimento, eu dava uma escapadinha do serviço e ia até eles para dar uns beijinhos, passar mão no traseiro deles, conferir os peitinhos de silicone ou hormônios mesmo, enfim, eu adorava aquelas madrugadas frias e silenciosas do inverno de Marília. Quando acabava o trabalho lá pelas cinco da manhã, eu, todo imundo e cansado, ia vagarosamente para a moradia tiritando de frio, mas muito feliz.
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Lembro que, certa noite, fui antecipadamente ao trabalho no shopping só para bolinar um travesti que há dias estava me tirando do sério. Sua vulgaridade era perfeitamente proporcional à sua gostosura. Quando a encontrei, logo nos agarramos aos beijos e, num cantinho bem camuflado, ela fez sexo oral em mim. Foi maravilhoso, nunca gosei tão gostoso em minha vida. Ofereci a ela dez reais pela xupeta, mas ela não aceitou, disse que estava morrendo de tesão por mim, o que era compreensível, pois travestis e também as mulheres costumam sentir-se atraídas por caras sujos, com a barba por fazer, vestidos com algum tipo uniforme, etc. Quanto à minha saúde mental, parece que eu estava estabilizado, mesmo sem medicação. Ora ou outra eu via alguns vultos e ouvia algumas vozes, mas nada que necessitasse de uma internação. De vez em quando eu passava por períodos de agitação psicomotora, mas o cavalo doido já não parecia estar tão doido assim. Não sei se era devido às inúmeras ocupações que eu tinha, tendo de, além de estudar pesado no nivelamento, conciliando com meus bicos noturnos, mas o fato era que em verdade eu não tinha tempo para enlouquecer. Eu vivia fadigado, sempre com sono e um milhão de coisas por fazer, de modo que não dava para enlouquecer, eu simplesmente, naquela fase de minha vida, não podia endoidar. Dois mil e quatro foi um ano difícil, um ano de muito trabalho e estudos. A única coisa legal que ocorreu foi uma viagem que fizemos à Salto, no Uruguai, viagem esta que eu fiz só para curtir, pois eu não apresentei trabalho nenhum, eu simplesmente aproveitei uma vaga do ônibus da UNESP e embarquei com pouquíssimas roupas. Nunca me diverti tanto com minha namorada, foi nossa lua de mel. Lá no Uruguai, nunca bebi tanta cerveja em minha vida. Ficamos num mosteiro abandonado, acampados com todas as demais delegações. Havia nesse mosteiro colombianos, paraguaios, chilenos, peruanos, mexicanos, equatorianos, bolivianos e, é claro muitos, argentinos. O almoço era por conta dos organizadores do evento, e consistia basicamente em churrasco e uma massa. Já no jantar, fazíamos uma vaquinha e, cada noite, uma delegação fazia um prato típico de seu país. Não me lembro se deu tempo de nós, brasileiros, fazermos uma feijoada (por que eu vivia bêbado), mas se houve essa feijoada, eu a perdi para a cerveja e o vinho barato. Houve uma noite muito constrangedora para mim. Eu e mais vários amigos brasileiros e chilenos, com quem
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simpatizamos muito, fomos a um posto de conveniência e, como estava muito frio, eu coloquei uma garrafa de vinho dentro do casaco para poder liberar as mãos e metê-las no bolso. Entrei na fila e, quando estava quase na minha vez de pagar, um cara da conveniência começou a me chamar de ladrão aos berros, eu tirei a garrafa do casaco e expliquei que eu não estava na fila à toa, pois obviamente eu iria pagar pelo vinho. Mas minhas explicações foram em vão. Como ele não parava de me xingar eu também comecei a xingá-lo em espanhol, e a coisa só não terminou mal porque os chilenos que estavam conosco conseguiram controlar a ira daquele sujeito. Para minha sorte e também para meu sentimento de culpa, no dia seguinte àquele entrevero com o uruguaio da conveniência, ele, mais uns brutamontes foram ao mosteiro onde estávamos acampados e bateram num amigo meu que é quase da minha altura e também é loiro de olhos claros. Eu só não apanhei porque eu não estava no mosteiro naquele instante, de modo que eles confundiram meu amigo comigo. Mas o pau que ele levou foi muito leve, quase nem machucou (acho que enquanto batiam nele eles se tocaram que era o cara errado). Mas enfim, pedi mil desculpas para meu amigo e comecei a andar com uma faca que roubei da cozinha do mosteiro. Outro fato interessante que ocorreu nessa viagem maluca ao Uruguai se deu quando nós, brasileiros (na verdade éramos quatro), fomos descobertos dando comida que sobrava do jantar aos mendigos com quem fizemos amizade lá em Salto. Um argentino, que estava ajudando na organização do evento, veio nos dizer que não era para darmos comida aos mendigos. Argumentamos que, já que tudo ia para o lixo mesmo, não custava nada dar as sobras para eles. O clima esquentou, pois uns chilenos punks e alguns colombianos malucos se colocaram do nosso lado e tudo só não acabou em pancadaria porque os argentinos “boludos” chamaram a polícia. No meio daquela confusão, os mais exaltados foram presos: eu, mais três amigos brasileiros. Na delegacia, eu e mais dois amigos fomos liberados rapidamente, pois os policiais tiveram o bom senso de entender que não cometemos crime nenhum. Apenas um de nossos amigos permanecia preso porque, segundo os policiais, ele estava muito bêbado e exaltado. Em questão de minutos, juntou-se uma verdadeira multidão em frente à delegacia entoando gritos de guerra para que saíssemos de lá, em especial esse meu amigo exaltado. De fato, todo o mosteiro estava lá na porta da delegacia, com exceção dos argentinos, é claro. Quando nós quatro saímos da delegacia, foi uma festa
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tremenda, saímos pela cidade entoando canções e parando de bar em bar para encher a cara de vinho e cerveja. Depois dessa confusão, o clima ficou meio pesado no mosteiro. Isso porque houve um racha lá dentro. Eram os argentinos contra todo o resto das demais delegações. O clima era tenso, qualquer provocação ou olhar ofensivo era o suficiente para desencadear uma verdadeira guerra campal. Mas para o bem de todos, o evento estava para acabar, e, como de fato, findou-se. Fomos embora de cabeça erguida, com a convicção de que agimos corretamente em todas as situações insólitas ocorridas no Uruguai. Ao término de dois mil e quatro, fui aprovado com facilidade no nivelamento, e iniciaria meu mestrado. Fui contemplado com uma bolsa da CAPES e meus problemas financeiros finalmente acabaram. Confesso que eu já não aguentava viver do dinheiro de minha namorada e da boa vontade de meu pai. Também já não aguentava mais fazer bicos extremamente desgastantes. Logo no início de dois mil e cinco, fui apresentar um trabalho em São Luis do Maranhão, e é aqui que minha vida vira de pernas para o ar, é aqui que “o lado de cá” apresenta-se como algo tenebroso e doentio. Quando voltei de viagem, que antecipei em um dia para fazer uma surpresa à minha namorada, eu a flagrei saindo do banheiro masculino com um grande amigo meu (aquele que ficou mais tempo na cadeia do Uruguai). Foi um choque muito grande ser traído por uma pessoa que se ama. Imediatamente, corri para a moradia e arrumei minhas roupas aos prantos. Quando ela chegou, eu nem precisei dizer o que havia visto, ela chorou e pediu desculpas, mas palavras não poderiam apaziguar o que sentia. Só posso dizer que passei a madrugada chorando e, pela manhã, em desespero, procurei a minha ex-orientadora e disse tudo a ela. Ela aconselhou-me que eu fosse para a casa de meus pais até a poeira baixar, e foi o que fiz. Fiquei tão louco que fui andando (aos prantos) até a cidade de Bauru, onde, por não aguentar mais andar, peguei um ônibus para Jaguariúna. Na casa de meus pais, contei detalhadamente o que houve e, na mesma noite, Descartes sugeriu que eu tomasse raticida e todos os medicamentos psiquiátricos de minha mãe, coisa que eu fiz. Não havia mais o que fazer, naquele momento, só a morte poderia dar cabo da dor que sentia. Ouvindo seguidamente a Patética de Beethoven no meu computador, me entreguei à morte por completo. Depois de tomar toda sorte de medicamentos e veneno,
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devo ter feito algum barulho que acordou os meus pais. Não me lembro ao certo o que fizeram comigo, só me lembro de recobrar parte da consciência numa cama de hospital vomitando muito, muito mesmo. Devo ter ficado uns vinte dias internado no hospital municipal de Jaguariúna só vomitando e vomitando. Foram os piores dias de minha vida. Quando melhorei um pouco, ou seja, quando parei de vomitar, de lá mesmo, fui encaminhado para um sanatório de Espírito Santo do Pinhal. E foi nesta internação que “o lado de cá” pode ser definido como o lado sombrio de uma mente à busca de organização, de sanidade, de fé e de esperança.

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Chegando ao sanatório, não pude acreditar no que via. Farrapos humanos se esgueirando pelo chão, pessoas aparentemente conscientes falando sobre as vantagens de se estar internado visando benefícios do INSS, enfermeiros truculentos me mandando ir daqui para ali, dali para aqui. No ar, aquele cheiro horroroso de fezes e creolina. No convívio, ou seja, no pátio, ao entrar no banheiro pela primeira vez, flagrei um senhor comendo fezes dentro da privada, em desespero, chamei um enfermeiro e contei o que vi, ele simplesmente olhou para mim, riu, e disse que aquilo era normal, disse para eu não me assustar, pois tudo ali dentro era perfeitamente “normal”. Mas como não me assustar se, olhando ao meu redor, tudo o que via eram muros enormes que sequer deixavam meus pensamentos vagarem pelo mundo? Como não me assustar se, ao meu redor, não havia seres humanos, mas sim arremedos de gente; criaturas saídas de um desses filmes de Romero sobre zumbis! Quanto ao meu estado físico, posso dizer que todo meu corpo estava travado. Não conseguia mexer a coluna, os braços, e não conseguia parar de marchar. Hoje sei que tais efeitos colaterais se devem ao haloperidol, mas, à época, pensava que meu corpo estava se deteriorando, mas mesmo robotizado, eu não parava de infernizar os enfermeiros, as psicólogas e a assistente social. Tudo o que eu fazia era tentar transformar aquela loucura num ambiente sadio, organizado, a despeito de minha própria mente estar desorganizada, confusa. O desespero pelo qual passava era aterrorizante. Se não fosse por um interno adicto com mais de quarenta internações me ajudar e tranquilizar, creio que teria me matado naquele inferno. Eu não parava de pensar em minha namorada. A imagem dela saindo daquele banheiro sórdido me aterrorizava, me fazia sentir calafrios, e tudo o que eu fazia era gritar, gritar e gritar quando pensava nela. O problema era que quando eu gritava, enfermeiros trogloditas me amarravam à maca e me davam mais e mais injeções de haloperidol, de modo que, por volta do sétimo dia de internação, eu parei de gritar e, nesse mesmo dia, recebi minha primeira visita. Eram dois colegas de faculdade. Não me lembro ao certo o que disse a eles, se é que eu disse algo, por minha língua estar enrolada e meu maxilar travado. Só me lembro que chorei muito nesse dia. Chorei como
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uma criança, pois pensava ser a maior injustiça do mundo eu estar naquele lugar infame e horroroso. Como eu havia parado de “dar trabalho”, penso que passei a ser menos medicado e até conseguia jogar um basquetinho na quadra. Mesmo um pouco travado e ainda marchando, comecei a agir de forma “inapropriada”, quer dizer, comecei a fazer abaixo assinados para melhorias na clínica, organizei uma panelinha visando “virar” o recinto, até que, certo dia, uma psiquiatra me chamou de canto e disse que eu estava agindo como uma espécie de líder, e que isso só viria trazer drásticas consequências contra mim. Achei muito estranho ela me chamar de líder. “Como assim?” – disse a ela – “Líder de um exército de zumbis?”. Acho que ela não entendeu minha piada e mandou que me colocassem na camisa de força. Definitivamente, ser colocado na camisa de força é pior que as sete pragas do Egito. Quanto mais você de mexe, tentando tirá-la ou simplesmente para respirar melhor, mais ela aperta. E aperta de tal forma que a sensação que se tem é a de que se vai morrer asfixiado. Isso sem falar do calor, pois era verão e aquilo esquentava de tal forma que eu pensei que fosse morrer. Quando meus colegas descobriram que eu estava na “força”, a clínica quase “virou”. Vidraças, portas, encanamentos foram destruídos para que me tirassem da força. E não é que deu certo essa rebeldia coletiva? Meu exército de zumbis, mediante uso da força, conseguiram fazer com que me libertassem, e o que é melhor: a maioria das exigências arroladas no abaixo assinado foram atendidas. Agora podíamos ver televisão até mais tarde, a comida deu uma melhorada, alguns técnicos de enfermagem truculentos passaram a ser mais “carinhosos”, enfim, com organização e um pouco de ousadia pode-se fazer tudo (ou quase tudo) nessa vida. Conforme os dias passavam, minha inquietação aumentava mais e mais. O tempo num sanatório não anda, o processo do tempo é muito lento quando se está enclausurado. O desespero crescia. Crescia cada vez mais. Até que no décimo sétimo dia de internação, pelo telefone, eu intimei minha irmã a vir de moto me visitar para me ajudar a fugir daquele lugar bizarro. Na hora da visita, não pude acreditar no que vi. O amigo que me traiu entrou pelo portão juntamente com minha irmã. Juro que não soube o que pensar. Tudo o que
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fiz foi falar para ele, pelo menos, me ajudar a fugir daquele lugar. E foi o que ele fez. Minha irmã saiu, encostou a moto do lado de fora do muro e, quando nenhum enfermeiro estava olhando, meu amigo me “jogou” por cima do muro. Montei na moto de minha irmã e não pude acreditar que estava livre. A cada reta que minha irmã pegava, eu olhava para o céu que estava lindo e abria os braços como se quisesse voar. Talvez essa tenha sido a ocasião em que pude entender de verdade o real valor da liberdade. Entretanto, como viria a descobrir posteriormente, a liberdade é muito mais um estado mental subjetivo que propriamente a condição de ir e vir. O lado de cá, não se restringe a muros e grades; o lado de cá é o sentir-se no mundo; o lado de cá é a solidão completa mesmo estando cercado de amigos; o lado de cá é gritar e gritar em público e ninguém lhe dar atenção. Fui deixado por minha irmã numa cidade vizinha cujo nome não me lembro, ela me deu dinheiro e, sem saber ao certo para onde ir, fui à São Paulo, mais especificamente, ao Cambuci, na casa dos pais de minha (ex) namorada. Lá eu fui muito bem recebido e reatei o namoro com ela. Não julgo o que ela fez comigo. Ela era apenas uma menina, tinha à época apenas dezenove anos, estava no primeiro ano de ciências sociais e imagino que estava com os hormônios à flor da pele. Se ela fez o que fez, foi porque ela tinha lá suas razões. Não a julgo e nem a condeno. Talvez até mesmo minhas próprias atitudes tenham levado ela a fazer o que fez, e o que está feito, está feito, é bobagem cair em prantos pelo leite derramado. Enquanto estive em São Paulo com ela e sua família, tudo o que sentia era um ódio muito grande de meu pai por ter me internado naquele inferno. Me sentia traído, aviltado por uma pessoa que, em vez de me amar, espezinhava meus sentimentos, me tratara como um louco. Mas agora era tarde demais, pois uma vez internado, se está internado para sempre, do lado de cá, mesmo sem muros, muralhas mentais se constroem, se impregnam na mente. E o ódio que nutria por meu pai só fazia esse muro crescer e crescer cada vez mais. O ressentimento pelas ações de meu pai me corroia por dentro. Na casa de minha namorada, eu ficava andando de um lado para o outro, fumando um cigarro atrás do outro, como um leão enjaulado, ou como um pugilista fica quando está prestes a entrar em combate. Nos dias que passei no Cambuci, minha mente deteriorou-se. Passei a ouvir vozes o tempo todo, vivia agitado, sem dormir e fumando o tempo inteiro. De uma hora
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para outra, caí em depressão, uma depressão suicida pesadíssima que nem todo o amor da minha namorada e família fazia desaparecer. Neste estado de coisas, a mãe da minha namorada optou (com a minha permissão) por me internar novamente. Sinceramente, não sei por que assenti em ser internado novamente. Penso que só assenti mais essa barbaridade para parar de molestar a família de minha namorada, além dela própria, é claro. Não sei onde fui internado, não me recordo o nome da clínica, só sei que fica na zona leste de São Paulo, e, chegando lá, a primeira coisa que fiz quando me vi sozinho no banheiro foi me enforcar com minha própria cueca num caibro que havia no banheiro. Quando acordei, tudo o que vi foi a face de um enfermeiro que me dava uns tapinhas no rosto e dizia que aquilo foi por muito pouco, por muito pouco não morri. Fui medicado, amarrado e, no dia seguinte, ao receber a visita da mãe de minha namorada, pedi a ela que me tirasse de lá. E foi o que ela fez. Essa minha segunda tentativa de suicídio até hoje me apavora. Isso porque, na primeira, eu queria mais uma ajuda do que propriamente morrer. Já nessa do banheiro da clínica, eu estava decidido a morrer. Penso que se eu tivesse um revólver nas mãos naquele momento, eu não hesitaria em meter uma bala em minha cabeça. A dor psicológica que sentia é algo completamente inefável. Só quem se matou sabe que dor é essa, mas infelizmente, essas pessoas não estão mais aqui para contar o que sentiam, e se estivessem, creio que fariam tudo de novo porque a dor psicológica de um psicótico suicida é indizível. Como não havia mais clima para permanecer na casa dos pais de minha namorada, eu e ela decidimos voltar à Marília. A esta altura, ainda deu para efetivar algumas disciplinas do mestrado, mas sempre oscilando, fazendo minha namorada de babá, tendo surtos esporádicos e períodos de sanidade. Nesta época, eu bebia muito pouco, mas o pouco que eu bebia fazia-me transtornar, surtar. Nestas condições, minha namorada fez muito bem em afastar-se de mim e reatar o namoro com o amigo que me “traiu”. Obviamente eu fiquei transtornado com essa situação, mas hoje entendo que foi uma decisão acertada dela, não guardo rancores quanto a isso. O único pequeno ressentimento que guardo consiste no porquê dela ter voltado a ficar comigo se ela não me amava mais, mas tudo bem, o que passou, passou. Penso que, no fundo, ela queria mesmo é ficar com os dois. Confesso que se ela tivesse feito essa sugestão eu toparia na
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hora, porque eu não sou um sujeito possessivo e ciumento. Eu só pirei com aquela traição devido às mentiras, não suporto ser enganado. Tenho certeza de que se ela me pedisse para dar uma transadinha com ele, eu toparia na hora, sem maiores problemas ou ressentimentos. Sozinho, e já morando na casa oito da moradia estudantil, meus amigos já não davam conta de me conter. Eram socos e mais socos em vidros, vozes a todo o instante, visões extremamente assustadoras. Eu via e ouvia meu avô me dizer que eu não era um Luporini, que eu havia sido encontrado no lixo, e que meu desempenho sexual não dava conta nem de “amarrar” uma garotinha de dezenove anos. Quando não era meu avô me perturbando, eram crianças sem rosto e vestidas de preto que me cercavam e me ameaçavam com facas. Eram horríveis essas visões, me perturbavam demais, faziam com que eu me mutilasse, pois a dor física fazia com que tais aparições “dessem um tempo”, tempo esse que era o suficiente para eu tentar pegar no sono e acordar bem. Foi nessa época, depois de um surto muito perigoso, que a minha ex-namorada, mesmo não sendo mais minha namorada, me internou novamente no HEM (hospital espírita de Marília). O lugar era horrível, o pior sanatório pelo qual passei. Lá sim eu pude ver o que é a degradação a que um ser humano pode chegar. Odor de fezes por todos os cantos, enfermeiros brutamontes espancando quem quer que fosse, ociosidade completa, comida terrível, enfim, posso dizer com plena certeza que aquilo sim é um depósito de gente, pessoas como eu, que possuem sentimentos, qualidades e defeitos de caráter. Fiquei poucos dias naquele inferno, pois fiz a cabeça de minha ex-namorada para me tirar de lá, mas pelo menos tomei a decisão de fazer tratamento ambulatorial, ou seja, fazer uso de medicamentos, coisa que faço até hoje, ininterruptamente. Depois que saí do HEM, as crises diminuíram bastante, só não desapareceram por completo porque eu ainda insistia em beber esporadicamente. Bebia pouco, é verdade, mas bebia. Deste modo, as crises não cessaram, diminuíram em quantidade apenas, mas parece que, quando elas vinham, elas vinham com mais vigor, vinham mais violentamente, o que fez com que a minha ex-namorada me internasse novamente no HEM. Não sei quantas internações tive no HEM. Talvez umas cinco ou seis, todas elas ao longo do meu mestrado. Uma ressalva positiva que devo fazer dessa época extremamente turbulenta, foi ter conhecido e ter tido um breve romance com uma garota muito especial que
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estudava letras na UNESP de Assis. Como eu estava passando por um período muito difícil, o romance foi muitíssimo breve. Mas a vida é tão louca e o mundo dá tantas voltas que hoje, sete anos depois, ela é minha atual namorada (no último capítulo falo mais sobre essa preciosidade que apareceu em minha vida). Voltando ao que estava falando acerca de internações, digamos que cinquenta por cento de minha dissertação de mestrado foi escrita no sanatório, pois minha exnamorada e amigos me levavam livros, papel e caneta para eu estudar e escrever. Para ler era tranquilo, pois no meio daquela bestialidade horrenda, eu me transportava dali para o universo da filosofia da mente, para as indagações filosóficas acerca do estatuto ontológico da mente, do problema das outras mentes, das experiências de pensamento de Thomas Nagel, Frank Jackson, Hilari Putnam, enfim, lendo, o tempo passava mais rápido. O problema era escrever, pois uma simples caneta nas mãos de um psicótico se tornava uma arma. Assim, para escrever, eu me escondia. Ora em lugares ermos do hospital, ora no banheiro, enfim, eu sempre dava um jeitinho para escrever minha dissertação. A impressão que eu tinha, e que tenho até hoje, é que quando estou entretido com meus estudos, sou um sujeito completamente “normal”, ou seja, dócil, criativo e feliz. Digo isso porque numa das internações no HEM, a loucura parecia algo distante de mim enquanto estudava. Enquanto estava lendo algo no pátio, todo aquele fedor, aquelas brigas sem sentido, aqueles idiotas de branco (técnicos de enfermagem, enfermeiros, psicólogos e psiquiatras), pareciam não perturbar meu universo mental sadio, minha serenidade. É realmente incrível o papel que um bom livro pode desempenhar na vida de uma pessoa. Não importa se essa pessoa está confinada num verdadeiro inferno, cercada de imundície e podridão, degradação humana e babacas de branco dizendo o que é o certo e o errado. As razões dessas internações são praticamente todas iguais, ou seja, o meu modus operandi consiste em ficar extremamente agitado psicomotoramente e começar a ouvir e ver coisas tenebrosas que me lavem a me auto-agredir. É sempre assim, sempre a mesma coisa. Quando não me queimo com cigarros (o que é o mais comum), eu me corto com facas, vidros ou latas de cerveja ou refrigerante cortadas ao meio. Como disse antes, a dor física parece ser o único alento que tenho para extravasar toda a energia psíquica que possuo.
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É claro que tal energia psíquica é extravasada de um modo doentio, no mínimo “diferente”, mas os outros métodos de extravasamento não surtem efeito sobre mim. Fazer sexo, me masturbar, jogar basquete ou futebol, pular corda, encher bexigas com o ar dos pulmões ou simplesmente correr ou gritar, nada disso segura meu ímpeto; assim, tudo o que me resta é a automutilação, a dor física pura. Ver meu sangue escorrendo me trás um benefício que nenhum anti-psicótico pode trazer. Meu único pesar com relação a esse modo insano de extravasamento é com relação à minha família, que sofre muito quando me vê machucado, especialmente minha mãe, que chega a chorar quando me vê todo queimado ou costurado.

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Quando se está do lado de cá, seja cercado por muros, ou simplesmente perturbado mentalmente, a prioridade é não desagregar-se, é não perder a identidade pessoal. Sendo assim, o que mantinha meu “eu” agregado eram os estudos, eram os livros que me levavam ao sanatório e as coisas que escrevia sobre minha dissertação ou disciplinas a cumprir. Como disse antes, calculo que pelo menos cinquenta por cento de minha dissertação se dera internado. Internado não apenas no HEM, mas em outras instituições pelas quais passei quando vinha para a casa de meus pais. Voltar à Jaguariúna, ao mesmo tempo em que era um alento, por ser bem cuidado, tratado carinhosamente pela minha mãe, era também um martírio, pois minhas ideias não batiam mais com as ideias de meus familiares e antigos amigos, pois eu havia mudado, e muito. Os surtos não paravam, só pioravam, o que me levou a novas internações, todas elas contra minha vontade. No Bairral, de Itapira, escrevi muito, li muito, e odiei meu pai mais ainda. Não aceitava ser internado contra minha vontade. Para se ter uma ideia de como se davam meus surtos, ainda em Marília, ao ver minha ex-namorada e seu namorado se beijando, eu surtei tão violentamente, que, com um soco, quebrei a porta de vidro do saguão da faculdade e, “rodeado de crianças sem rosto”, invadi um ônibus da UNIMAR, e quebrei várias janelas. Só fui contido quando os seguranças da UNIMAR me deram uma surra e quando tive o rosto queimando pelo gás de pimenta da polícia. Mas como vinha dizendo, mesmo com tanta atribulação, meu “eu” permanecia incólume devido aos estudos. Ler e escrever para mim são uma necessidade, um lastro ou âncora que, mesmo tendo tudo agitado dentro e ao redor de mim, me acalmam, me fazem lembrar quem eu sou. Me chamo Daniel, tenho CPF e carteira de identidade, adoro cachorros, abomino sujeira, amo política, filosofia da mente e literatura russa. Adoro basquete, boxe e futebol, tenho sentimentos e amo meus pais e toda a minha família, enfim, eu existo e minha existência consiste numa série de gostos e aptidões que conferem minha idiossincrasia.

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Voltando ao relato dos fatos de minha vida, só posso agradecer de coração a minha orientadora de mestrado, que, com muita paciência e carinho, permitiu que eu conseguisse concluir minha dissertação. Mesmo com tantos problemas, em dois mil e seis fui o primeiro aluno de minha turma a defender a dissertação, o que me rendeu um mês a mais de bolsa por produtividade. Ademais, aprendi muito com o estágio docente que fiz em dois mil e cinco, na própria UNESP, aos cuidados de minha orientadora. Esse estágio, que consistia em expor algumas ideias em sala de aula, bem como ajudar minha orientadora a corrigir provas e trabalhos, além de organizar os seminários, manteve minha mente completamente ocupada com coisas saudáveis. Era delicioso quando minha orientadora me levava para aulas de yoga com ela. Devo admitir que uma boa sessão de yoga funciona melhor que diazepan ou clonazepan, dando-me extrema sensação de bem estar e tranquilidade. Ainda no estágio (que consistia em ajudar minha orientadora a lecionar teoria do conhecimento ao primeiro ano e história da filosofia contemporânea ao quarto ano), Lembro-me de uma ocasião em que tive de dar um seminário sobre Ryle ao primeiro ano e, extremamente gripado, comecei a ouvir os pensamentos dos alunos que passivamente olhavam para mim. Fiquei completamente atordoado e não sei como não desmaiei. Pouco depois de começar o seminário, minha orientadora que me conhecia muitíssimo bem interrompeu a coisa alegando que eu não estava bem. Fiquei muito frustrado por não ter concluído aquele seminário, pois eu havia me preparado muito para executá-lo com maestria. A única coisa esquisita desse estágio que fiz, foi ter de continuar morando na moradia estudantil junto com boa parte de alunos para os quais eu ajudava minha orientadora a lecionar. Vira e mexe alguns camaradas pediam para eu dar uma “forcinha” na correção de uma prova ou trabalho. Eu dizia que iria ajudar, mas não ajudei coisa nenhuma. Eu estava completamente focado nos meus estudos e estágio, sentia que se as coisas não dessem certo daquela vez, não dariam nunca mais. Na minha defesa, fizeram parte da banca, além da minha orientadora, um professor da USP, bem como a minha segunda orientadora: aquela que me introduziu no delicioso universo da filosofia da mente e ciências cognitivas e que tanto me ajudou nas minhas crises na UNESP. Confesso que fiquei extremamente nervoso na defesa, mas tudo saiu muito bem. A defesa se deu em São Paulo, no prédio da editora da UNESP e eu fui aprovado. À época, eu julgava que meu texto estava um lixo, porém, hoje,
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analisando atentamente o que produzi naqueles dois anos, julgo que me saí razoavelmente bem com meu texto, tendo em vista as circunstâncias em que foi produzido. Pode parecer loucura, mas a impressão que tive na hora de minha defesa foi que aquilo não era real, é como se eu estivesse sonhando, tendo um pesadelo, mesmo com o clima humano e caloroso com que fui tratado pelos meus avaliadores. Também não posso me esquecer de minha recém-falecida avó, que, quando eu estava em Jaguariúna, pagava uma psicóloga particular para que eu conseguisse dar um desfecho à minha dissertação e concluir todas as disciplinas. Sinto muita falta de minha estimada avó. Em verdade, nunca entendi por que as pessoas devem morrer um dia. Nunca aceitei o fato de a natureza produzir consciências que interagem umas com as outras e, com o tempo, ir eliminando cada uma delas. Isso só me faz pensar que a natureza é uma senhora extremamente cruel; tão cruel, que também levou o Cabeça, um rapaz com quem morei numa república nos quatro meses que antecederam minha defesa. O Cabeça foi um amigo completamente descabeçado viciado em crack que se suicidou logo após minha saída definitiva de Marília. Guardo tristes recordações desse rapaz. Mas sendo a natureza cruel ou não, o fato é que, quando voltei para Jaguariúna, me afundei de cabeça no álcool. Isto porque como eu havia defendido minha dissertação no meio do ano letivo, eu não consegui, de imediato, emprego na minha área, e ter de ficar na casa de meu pai (meus pais separaram-se em dois mil e cinco), aparentemente sem nada para fazer, me entediaram profundamente. Como meus amigos de Jaguariúna (a maioria deles) haviam se mudado, tomando cada qual um rumo na vida, me vi completamente só e desamparado, só restando o boteco perto de casa para me aliviar. Penso que não existem motivos para afundar-se no álcool, de modo que o tédio que sentia àquela época não serve de justificativa para o que fiz, mas o fato é que eu comecei a beber demais. Bebia cerveja e cachaça todos os dias. Desempregado e sem dinheiro, manipulava ora meu pai, ora minha mãe, para conseguir alguns trocados e ir para o bar. Tomando remédios para meu transtorno e bebendo terrivelmente, Inchei como um porco, chegando aos 125 quilos. Cheguei ao cúmulo de não conseguir colocar um tênis direito porque a barriga atrapalhava tal operação. Minha autoestima que sempre fora baixa, afundou mais ainda com meu estado físico e a depressão que o álcool trás em seu bojo.
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Devo ter ficado nesse estado de coisas por cerca de três meses, até que comecei a surtar novamente. Um desses surtos se deu dentro do ônibus que liga Campinas à Jaguariúna. Fui deixado pelo motorista no posto da polícia rodoviária e levei uma tremenda surra e encaminhado ao hospital municipal de Jaguariúna, mas não fui internado. Em outro surto, eu quebrei com um soco a vidraça da portaria de uma fábrica ao lado da casa de meu pai. Foi muito triste ter de ver as lágrimas de minha mãe e minha tia ao me verem algemado e todo ensanguentado no hospital de Jaguariúna. Obviamente fui internado novamente só que dessa vez no Cristália, em Itapira. Nesse sanatório, passei por uma experiência no mínimo macabra. Eu não consegui distinguir as pessoas por cerca de uma semana. Todos me pareciam terrivelmente iguais, as feições, o jeito de andar, as cores da pele e das roupas, tudo era igual. No desespero, comecei a bater a cabeça na parede, pois não era possível que todos fossem iguais, pensava que estava ficando louco de vez, foi terrível. De tanto bater a cabeça, fiquei desacordado por algumas horas ou dias e, quando acordei, estava amarrado à maca recebendo soro com haloperidol na veia. Quando dois enfermeiros vieram me ver, pude constatar que eles não eram mais iguais. Cada um tinha um rosto, uma cor, um brilho no olhar diferente. Pensei que estava curado, que tudo voltara ao normal, que tudo não passara de um sonho tenebroso. Ledo engano esse meu. Fiquei no Cristália por cerca de quarenta e cinco dias, o suficiente para pôr a cabeça no lugar e tentar levar uma vida melhor. Mas quando saí, tudo voltou ao que era. Voltei a beber compulsivamente, num ritmo ainda mais insano de antes, como se eu quisesse recuperar as bebedeiras perdidas. E o resultado disso foi uma nova internação, só que desta vez no Bairral. Essa internação parece ter colocado um pouco de juízo em minha cabeça, pois eu realmente consegui “dar um tempo” com meus porres homéricos. Não que eu não sentisse vontade de beber. Vontade eu até tinha, só que eu estava consciente o suficiente para saber que os riscos de uma bebedeira não valem a pena de serem corridos. Sendo assim, me afundei em literatura russa. Li a obra completa de Dostoievski e algumas coisas de Puchkin e Turgueniev. A esta altura, já era fevereiro de dois mil e sete, época em que consegui, por meio da ajuda de um colega de faculdade, um emprego numa faculdade de Vilhena, Rondônia. Criei muitas expectativas com essa possibilidade de lecionar na Amazônia.
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Acho que por que sempre imaginei a Amazônia como os gringos (especialmente os americanos) a imaginam, ou seja, um lugar inóspito, selvagem, com índios, cobras e jacarés por todos os lados, formigas assassinas e aranhas do tamanho de minha mão se esgueirando por todos os lados.

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Como eu nunca havia voado foi maravilhoso voar até Cuiabá observando do alto a paisagem que se insinuava aos meus olhos. De Cuiabá, peguei um ônibus até Vilhena e, chegando lá, fui recepcionado pelo meu colega com um forte abraço. Fazia quase um ano que eu não abraçava um amigo. Logo que lá cheguei, fomos a um churrasco no sítio do vizinho, não dando tempo nem de desfazer minhas malas. Nesse churrasco eu bebi para valer, de sorte que só fui conhecer mesmo as pessoas que moravam comigo só no outro dia. Morávamos numa república. Eu, o meu colega e três alunos da faculdade em que eu iria lecionar. A princípio, achei meio estranho morar com alunos meus. Mas fazer o quê? Eu tinha de aceitar esse fato. Lecionava filosofia para a turma do primeiro ano de psicologia e economia política para a primeira turma de serviço social. Dar aulas de filosofia para alunos de psicologia foi muito bom, pois eu pude montar um curso de filosofia da mente que foi muito bem acolhido por meus alunos. Já lecionar economia política foi meio complicado, pois eu tinha de estudar demais por ser filósofo e não entender muito da área de economia política. Mas valeu a pena, cada aula que eu dava imagino que aprendia mais que meus alunos, ou alunas, já que noventa e cinco por cento do pessoal de serviço social consistia de mulheres. No tempo em que permaneci em Rondônia, estudei muito para preparar minhas aulas. Definitivamente, foi muito legal ler os clássicos da economia política: Adam Smith, Ricardo, Marx, dentre outros. Confesso que, quando ia para a faculdade lecionar economia política minhas pernas tremiam, pois eu não tinha certeza que rumo a aula iria tomar. E se um aluno perguntasse algo técnico sobre economia, como iria me sair dessa? Não, definitivamente, eu não me sentia seguro, no início, para lecionar economia política. Vilhena era uma cidade muito agradável de viver. Costumava dizer para o meu colega que a água daquela cidade era o suficiente para que em Vilhena eu vivesse. Muito arborizada e completamente plana, Vilhena me lembrava o Horto Florestal, onde passei grande parte de minha infância na zona norte de São Paulo. Bebi muita pinga em Rondônia. Bebia diariamente, mas raramente percebia alguma alteração mental. Não sei
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se porque eu estava feliz, o fato é que, enquanto estive em Rondônia, eu nunca surtei. De vez em quando batia uma certa paranoia, principalmente quando tive meu projeto de montar um grupo de estudos em filosofia da mente malogrado sabe-se lá porquê. Na minha cabeça, sentia que a chefe do departamento de psicologia não ia muito com a minha cara, daí o boicote ao meu projeto que foi tão elogiado pelos alunos. Não sei se fantasiava, mas em meu âmago sentia que os professores da faculdade (exceto o meu colega) “faziam a minha caveira”, ou melhor, empenhavam-se em boicotar tudo o que eu tinha de bom a oferecer para a comunidade acadêmica. Neste sentido, com exceção do meu colega, eu não conversava com nenhum professor da faculdade. Era entrar no campus, dar minha aula e sair com os alunos para beber, nada além disso. E foi justamente nessas bebedeiras que eu pude notar o quão miserável professor eu era. Afinal, induzir jovens de dezessete, dezoito anos a encher a cara não condizia com o papel de um professor que se preze. Em verdade, lamento dizer que nunca fui um bom professor. A despeito de meus alunos elogiarem meus cursos, sempre tive a autoestima extremamente baixa. Pensava, em meu âmago, que eu era um lixo de professor, e talvez tivesse razão. Em Vilhena, nunca passei por aquela agitação psicomotora que mais parecia um cavalo tomando conta de mim (talvez em virtude de fazer correto uso dos medicamentos que meu pai me enviava por sedex). Em verdade, vivia de ressaca, com o raciocínio lento, as pernas flácidas, só me agitava um pouquinho quando ministrava meus cursos, quando a atenção de todos estava voltada para mim, só assim me sentia forte, vigoroso, loquaz e inteligente. Somente lecionando me sentia eu mesmo, o Daniel com CPF e RG, idiossincrasias e autoestima elevada. Só lecionando sentia o sangue ferver em minhas veias (talvez por ser tímido), sentia que possuía alguma utilidade, era alguém de verdade e não um arremedo de gente, um alcoólatra inveterado oco ou vazio mentalmente. Tudo isso, mesmo me achando um péssimo professor, talvez por isso mesmo eu me esmerava ao máximo em minhas aulas. Lecionava para provar para mim mesmo que eu era capaz de ser um bom professor, capaz de atrair a atenção de meus alunos e incutir neles o desejo pelo conhecimento. Lamento dizer, mas Aristóteles estava errado ao dizer logo no início de sua Metafísica que todo ser humano tem o desejo inato de conhecer. Digo isso porque nem todos queriam saber de estudar. Alguns alunos estavam lá apenas para comprar o diploma, nada além disso, o que era muito triste, pelo menos para mim.
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Era estranho lecionar para os colegas de república. Parecia que as aulas nunca tinham um fim, isso porque, após as aulas, em casa, as discussões levantadas em sala de aula continuavam madrugada adentro, e amanheciam também. Parecia que eu era uma espécie de Sócrates tupiniquim, um filósofo vinte e quatro horas no ar, filosofando ininterruptamente, especialmente às refeições. Nem para assistir aos jogos do meu tricolor eu tinha sossego. Era um perguntando sobre o sentido da vida, outro sobre os mistérios da consciência e todos querendo sugar tudo o que eu podia oferecer. O único que me dava uma folga era o meu amigo de UNESP, um professor que sabia muito bem separar o pessoal do profissional. Com ele sim, com ele eu conseguia descontrair, tirar a “água podre da cabeça”, como costumávamos dizer. Saíamos para beber e nos divertíamos à vontade, sem preocupações ou sofismas insolúveis. Permaneci por cerca de quatro meses em Vilhena. Só saí de lá por razões que escapam ao meu entendimento. Como aventei, me sentia uma espécie de Sócrates tupiniquim perseguido por todos os professores e especialmente pela chefe do departamento de psicologia. Somente por essas razões penso que já não havia mais “clima” para permanecer em Rondônia. Mas o estopim de minha “fuga” se deu numa noite em que, ao cozinhar, e, após beber muito vinho, coloquei muita água no feijão, o que fez com que um dos rapazes que morava comigo (aluno meu de psicologia) estressasse profundamente comigo. Batemos boca e, no dia seguinte, peguei minhas tralhas e voltei de ônibus à Jaguariúna. É claro que o meu amigo insistiu para que eu ficasse. Disse que poderíamos perfeitamente arrumar outra casa para morar, mas não houve jeito. A paranoia apossouse de mim por completo, via sombras projetando-se ao meu redor e crianças malditas me chamando de verme, verme fujão. Não cheguei a dar baixa na minha carteira profissional e, como um rato fugindo do gato, embarquei para a casa de meu pai. Um último ponto a ser ressaltado neste capítulo, é que a melhor coisa que me aconteceu em Vilhena foi conhecer o candomblé por meio de alguns alunos meus. Foi realmente incrível a sensação de colocar pela primeira vez os pés num terreiro iluminado. É indescritível a alegria e o êxtase de tal experiência. Cantei e dancei muito nesse meu primeiro dia, parece que o candomblé foi feito para mim, me sentia e ainda me sinto como se fosse negro, africano.

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Após alguns dias de frequência no terreiro, a ialalorixá jogou os búzios para mim, e deu que eu sou filho de Exu, ou seja, sou filho daquele que abre os caminhos, que possui o temperamento forte e não escolhe qualquer filho; assim, fiquei realmente emocionado e lisonjeado com tal notícia. O que me incomoda é que, depois que voltei de Vilhena, poucas vezes pude pisar num terreiro santo, isso porque minha família é extremamente católica e não admite que eu faça “trabalhos” ou pise em terreiros; mas a verdade é que até hoje, mesmo não frequentando regularmente terreiro algum, ainda faço trabalhos às escondidas.

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Chegando em Jaguariúna, meus pais não entenderam nada do que aconteceu. Disse a eles somente que a faculdade não estava me pagando, o que foi o suficiente para que todos acreditassem em mim. Novamente ocioso, voltei a beber como um louco. Bebia todos os dias. Certa vez, bebi tanto que, ao chegar transtornado em casa, caí e bati a cabeça na parede. Só me lembro de acordar amarrado no hospital da cidade e ser encaminhado novamente ao Cristália. Não sei quanto tempo fiquei por lá, mas desta vez a internação foi tranquila, nada de significativo ocorreu. É sintomático quando falo de internações “tranquilas”, onde nada de “significativo” ocorreu, enfim, digo que isso é sintomático porque na verdade, eu já estava me acostumando a ser internado, estava virando um bicho institucionalizado, que não vê mais sentido na vida levada fora dos muros altos de um sanatório, o que é muito triste, pois aquele garoto que jogava basquete, que entrou na universidade e curtiu a vida talvez até demais, agora não via mais graça e sentido em mais nada, transformara-se num niilista dos mais abjetos e o que é bem pior, com perfeita saúde física e na flor da idade, na idade de escolhas, de tomar um rumo na vida, enfim, de se transformar num homem de verdade. De volta à minha cidade, parei de beber. Com grande esforço, fugia de meus “amigos” de bar e evitava ao máximo sair de casa. Mas não teve jeito. Logo comecei a ouvir vozes aterrorizantes de pessoas sofrendo, via imagens tenebrosas de cachorros me cercando e latindo ferozmente para mim. Fui internado de novo, só que desta vez no Bairral. Nesta internação, o que fez com que o tempo corresse um pouco mais rápido foi um namorico que tive com uma interna dependente química. Conversávamos sobre obscenidades de todos os tipos e até conseguimos nos beijar algumas vezes. Saí do Bairral em dezembro de dois mil e sete com a cabeça muito boa e poucas histórias para contar. Quando digo que não tinha histórias para contar é por que a rotina do Bairral é muito monótona. Não havia brigas, cheiro de fezes, enfermeiros e técnicos de enfermagem truculentos, nem muitos surtos psicóticos. Os poucos que tinha eram abafados rapidamente. Não é à toa que o Instituto Américo Bairral é uma referência em
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psiquiatria no Brasil. O que mais me chamava a atenção no Bairral era a qualidade da comida servida por lá. Além de muito bem feita, podia-se repetir o quanto quisesse, para quem está de dieta, não recomendo o Bairral. Fiquei bem até fevereiro de dois mil e oito, quando o colégio Objetivo ofereceu algumas aulas para mim. Tinha de lecionar filosofia e história geral aos três anos do ensino médio. Estava feliz nessa época, ávido por voltar a lecionar e voltar a sentir aquela adrenalina gostosa que senti em Rondônia enquanto lecionava. Entretanto, tudo deu errado novamente. Nos dois primeiros dias de trabalho, só lecionei filosofia, o que foi muito bom, porém, no terceiro dia (era uma quarta), ao lecionar história geral, mesmo tendo preparado com muito carinho as aulas, percebi que não agradava aos alunos. Tanto é assim que, na minha terceira aula de história do dia, o diretor do colégio entrou na sala de aula e me chamou a atenção na frente de meus alunos. Aquilo foi o fim da picada para mim. Saí da sala de aula antes do horário previsto e fui direto ao bar afogar minhas mágoas. Bebi só um pouco, mas o suficiente para surtar muito feio quando à casa de meu pai retornei. Não me lembro do teor deste surto, só sei que lá estava eu novamente amarrado à maca do hospital e, desta feita, fui encaminhado para uma clínica de recuperação de dependentes químicos e alcoólatras onde se trabalhava com o programa de doze passos de narcóticos anônimos. Para mim foi uma calamidade passar por aquele lugar. A clínica era de contenção e ficava ao lado da casa de minha mãe. Lá, fazíamos laborterapia pela manhã, assistíamos “palestras” o dia todo e, à noite, partilhávamos nossas experiências. Fiquei nessa clínica por vaga social, conseguida por minha irmã e meu cunhado, de modo que eu era um dos poucos, digamos, “pobres”, que lá estavam. A comida era uma nojeira, consistia em arroz com feijão e uma gororoba inominável à base de chuchu e abobrinha (raramente comíamos carne). A hora das refeições eram as piores para mim. Era terrível ter de ficar esperando no sol a fila andar, para, ao final, ser contemplado com um lixo alimentar. O clima dessa clínica era de completo terror. O dono era um “psicopata” que, com seus “capangas”, espancavam quase que diariamente quem andasse um pouquinho fora da linha. Ligações para a família se davam quinzenalmente e num clima de completo terror, isso porque a ligação era no viva voz, e ficava um capanga ao lado ouvindo a conversa para evitar que se pedisse para sair ou se falasse mal da clínica. Mas
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o que mais me aterrorizava naquele lugar eram as “avaliações” que os técnicos faziam conosco. O interno ao ser avaliado deveria ficar numa roda de cerca de oitenta internos e era inquirido sobre questões técnicas de doze passos e também sobre o comportamento apresentado no convívio diário. Era realmente constrangedor ver aquele monte de playboys lavando roupa suja nas avaliações, sempre um querendo ver a caveira do outro. Era deprimente ver aqueles ratinhos de clínica (playboys com vinte, trinta internações em casas de recuperação), fumando Marlboro, comendo coisas caríssimas e, ainda assim, metendo o pau na família por se sentirem “largados” ou não internados numa clínica melhor. O “tratamento” deveria durar seis meses, mas o dono da clínica sempre dava um jeitinho de “segurar” os internos mais abastados. Devo ter ficado lá por cerca de dois meses, quando comecei a surtar. Inicialmente, vi “carpas” e cobras nadando na piscina da clínica, e, após minha avaliação de segundo passo (que fui aprovado), não resisti a tanta pressão psicológica e meti o rosto no vidro do refeitório. Dias depois fui convidado a me retirar da clínica sob a alegação de que meu problema maior era de ordem psiquiátrica, sendo a adicção um problema secundário. Foi um verdadeiro alívio sair daquele lugar. A sensação que tive, pode parecer exagero, foi a de ter saído de um campo de concentração. Finalmente eu pude tomar café preto, comer muita carne, andar pela casa de minha mãe (agora eu passara a morar com minha mãe) e pelas ruas sem ser vigiado. Agora eu finalmente podia falar o que penso sem ser espancado ou aviltado, em suma, passar pelo inferno me fez ver a vida com novos olhos, olhos mais racionais e críticos, olhos de uma pessoa que viu toda a podridão humana, desde a infâmia de pessoas sem família que moravam em sanatórios, até a bestialidade de boyzinhos que nada querem da vida, que são institucionalizados e até gostam daqueles chavões esdrúxulos de narcóticos anônimos. A despeito de todo o horror daquela clínica (em 2010 ela foi fechada pela polícia), eu me interessei pelos doze passos de narcóticos anônimos. Passei a frequentar quase que diariamente o grupo de NA de Jaguariúna, bem como grupos de Campinas e região. O programa de NA baseia-se no de alcoólicos anônimos e não tem nenhuma complexidade. O difícil é praticar os passos corretamente (coisa que quase ninguém faz). Fiz boas amizades frequentando os grupos, amizades sadias, verdadeiras. Mas é estranho dizer, para mim, parece que tudo o que é demais me cansa. Aos poucos fui me
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afastando do grupo cada vez mais e mais. A esta altura, eu já devia estar cerca de seis meses “limpo” fora da clínica, até que tive uma recaída violenta. Não sei ao certo o que me levou a beber; é difícil para um alcoólatra definir com precisão as razões que o fazem beber, mas o fato é que recaí feio, com surtos psicóticos e tudo mais e fui internado novamente naquela clínica infame. Desta vez, parece que a internação foi mais suave para mim, mesmo eu tendo feito o “tratamento” completo, ou seja, de seis meses. Por já conhecer o terreno, “robotizei-me” guardando todas as minhas genuínas ideias só para mim. Montei um personagem, uma espécie de professor em recuperação. Só me “desrobotizava”, sendo o verdadeiro Daniel, quando conversava com um grande amigo que fiz lá, e que estava fazendo o mesmo papel que o meu. Com ele, eu não perdia minha identidade, minha personalidade. Parece que quando estava conversando com ele o Daniel verdadeiro aflorava, ganhava vida, inflamava-se. Com ele, sempre às escondidas, ríamos muito daquela situação dantesca pela qual estávamos passando. Falávamos de música, literatura, política, religião, sexo, questões existenciais de todos os tipos e, é claro, dos doze passos. Era divertidíssimo, em meio àquele terror, cantarolar com esse meu amigo velhas canções do Velvet Underground, dos Ramones, do Dead Kenedy’s, dos Rolling Stones, relembrar trechos da literatura de Júlio Cortázar, Dostoievski, Poe, Nietzsche, Kerouac, Aristóteles, Vitor Hugo, Tolstoi, enfim, coisas que estavam do lado de lá, não no de cá. Se devo alguma coisa a alguém nessa vida, com certeza noventa por cento do que devo é desse grande amigo que fiz, o verdadeiro lastro de sanidade em meio a tanto terror. Só a ele devo agradecer por ter conseguido manter minha sanidade mental, minha identidade. Até hoje, sinto saudade das intermináveis questões filosóficas nas quais nos metíamos e quase sempre tudo acabava em aporia. Não tenho boas histórias a dizer sobre essa minha segunda internação nessa clínica. Penso que tudo foi dito nas linhas acima. Os personagens que eu e meu amigo criamos foram muito bem sucedidos, e a vida é tão louca que eu e ele saímos daquele inferno no mesmo dia, com uma mínima diferença de horas. Mas devo confessar que o meu personagem funcionou melhor que o dele. Isso porque ele sofreu bem mais do que eu naquele lugar. Às vezes ele tinha uns acessos de “ser verdadeiro”, dando ensejo para

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que fosse castigado, seja lavando louças e banheiro, seja carpindo e cavando buracos em pleno sol do meio dia. Por tais coisas eu não cheguei a passar, felizmente.

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Ao sair dessa internação, peguei verdadeiro nojo de narcóticos anônimos. Nunca mais fui ao grupo e permaneci limpo por um bom tempo. Penso que esta internação foi um divisor de águas em minha vida. Digo divisor de águas porque eu simplesmente perdi o prazer em beber, o que permanece até hoje. É claro que voltei a beber após a internação, mas o álcool já não me diz nada, coisa que permanece até hoje. Não sei se foi o trauma pelo qual passei naquele lugar, mas o fato é que, após aquela internação, e, até hoje, esporadicamente bebo de teimoso, bebo simplesmente para matar o tempo e não mais por necessidade. Desde aquela internação, só bebo quando estou psicotizado, com a intenção de “jogar” minha mente para outro plano (mais “sadio”) e dormir, desligar o motor insano que tenho em minha cabeça; o que é um tremendo erro, pois invariavelmente psicotizo ainda mais. Mas prazer mesmo em beber, isso já não possuo, o que se configura num grande avanço. Não sei dizer, mas parece que o gosto, o cheiro e as sensações de estar alcoolizado impregnaram em mim de tal forma que não há mais o porquê de eu beber. Eu já sei melhor que ninguém todas as etapas da embriaguês. Primeiro vem aquela euforiazinha, depois o sistema nervoso central vai se deprimindo, deprimindo e deprimindo, até chegar ao ponto de eu não saber mais o que estou fazendo e, com o raciocínio lento, não mais conseguir distinguir bem as coisas ao meu redor. Então é vomitar e ir para casa dormir e, invariavelmente, acordar urinado, o que é muito constrangedor, principalmente, quando durmo na casa de alguém. Quando dois mil e nove iniciou-se, consegui algumas aulas no Tozzi, escola pública onde fiz meu segundo grau. Inicialmente, ou seja, no primeiro semestre, lecionei apenas como professor eventual ou substituto. Já no segundo semestre, consegui efetivar-me e lecionar filosofia às três turmas do colegial. Devo admitir que não sentia mais prazer em lecionar. Não porque quase ninguém prestava atenção no que eu dizia (eu mesmo não levava os estudos a sério em minha adolescência), mas, sobretudo, porque eu precisava aprender mais, me reciclar, voltar a me colocar na posição de aluno e parar de uma vez de tentar expor meus pontos de vista a terceiros. Daí surgiu a ideia de fazer doutorado (que permanece até hoje), de me colocar novamente na posição de
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aluno e ouvir mais e falar menos, bem como desenvolver uma tese instigante. Porém, devido às internações futuras, nunca deu certo de eu colocar esse plano em ação, pois, como veremos, minha vida degringolou ladeira abaixo, não tendo meios de eu doutorarme. Que eu me lembre, o ano de dois mil e nove foi o único ano em que não estive internado desde que adoeci; e, com certeza, esse foi o pior ano de minha vida. O que era para ser motivo de orgulho e esperança, na realidade, foi uma grande desilusão, pois ao final de dois mil e nove, pude constatar, tristemente, que eu era um animal institucionalizado, um ser que só conseguia esboçar um sorriso estando internado, enclausurado, um ser que só se reconhece enquanto um “eu”, atrás de muros e grades. O lado de cá pode parecer feio e sombrio no início, mas quando nos habituamos a ele, nele nos apegamos com tanta força que é só ele que existe, só ele confere sentido à própria existência, à minha existência. Desconheço uma explicação psicanalítica para esta constatação, mas percebo que só me sinto à vontade entre meus iguais, entre pessoas que, como eu, estão do lado de cá da existência humana, estão num plano de realidade que, para muitos, carece de sentido, de significado. O lado de cá, à rigor, não chega a ser propriamente belo, mas há nele uma estética que extrapola às teorizações convencionais. O lado de cá é reconfortante, macio, suave, é o terror com leveza, uma espécie de humor negro bem arquitetado, esteticamente perfeito. O lado de cá, ao contrário do que muitos pensam, não é um universo carente de sentido, de significado. Young, bem como a maravilhosa Nise da Silveira sabiam muito bem disso. Talvez esses tenham sido os teóricos sãos que melhor compreenderam a loucura do lado de cá. Há muito sentimento mal resolvido e criatividade atrás dos muros de qualquer clínica psiquiátrica, bem como na mente dos que estão “soltos”, mas presos ao lado de cá da existência. Divagações à parte fui internado no Seara, de americana, em meados de dois mil e dez. As razões dessa minha internação eu não me recordo ao certo, creio que foi devida a uma das minhas agitações psicomotoras acompanhadas de visões aterrorizantes, não sei. Nessa internação, pude explorar um lado de meu ser que eu sequer sabia que existia, que é a agressividade gratuita contra terceiros. No Seara, fiz amizade com uns rapazes extremamente violentos e, junto deles, lamento dizer, banquei
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o covarde. Nesta internação, pela primeira vez em minha vida, agredi pessoas que não fossem eu mesmo. Não me mutilei em Americana, mas machuquei seriamente muita gente, e o que é pior e me envergonha: eu gostei daquilo! Quem me conhece de perto sabe que sou um sujeito extremamente pacífico, talvez pacífico demais. Entretanto, não hesitei em entrar no clima de terror que havia no Seara. A cena mais marcante dessa internação foi o talho que eu abri com a canela na cabeça de um ladrãozinho de cigarros, ou um “ratinho de mocó”, como se diz na gíria. Confesso que nunca vi tanto sangue em toda a minha vida. Por sorte ele não teve traumatismo craniano, mas ficou desacordado por um bom tempo. Não sei por que fiz aquela barbaridade, confesso que se arrependimento matasse, eu já estaria morto desde aquela época. Quando saí do Seara, entrei numa depressão muito profunda por conta de me ver como um covarde. Não conseguia sair da cama ou comer direito por ficar o tempo inteiro me lembrando das barbaridades que cometi em Americana. Acho que fiquei uns dez dias sem fazer a barba ou escovar os dentes por vergonha de me ver no espelho. Me assustava pensar que aquele Daniel que gosta de animais, aprecia comportamentos cordiais, preocupa-se com questões ambientais etc. na realidade, não passava de um monstro oco por dentro e truculento, covarde. Conforme os dias foram passando, fui aos poucos superando aquele baque. Voltei a me olhar no espelho, receoso no início, mas voltei a escovar os dentes e me barbear. Parece que, aos poucos, minha nova faceta estava sendo assimilada pelo meu Eu profundo. Aos poucos fui percebendo que minha mente era muito mais complexa do que eu podia imaginar. E, quando a ficha realmente caiu, pude perceber que o Daniel também era um monstro, dentre tantas outras coisas, o que acarretou a recaída numa nova crise depressiva. Assim, fui internado novamente, só que, desta vez, no sanatório Palmeiras, em Amparo. No Palmeiras, pude me olhar mais de perto, assimilar meu lado desumano, doentio, covarde. No Palmeiras, recebi um excelente tratamento psiquiátrico, amparo psicológico e apoio afetivo, já que, lá mesmo, comecei a namorar uma garota muito especial de Pinhalzinho. Namoramos às escondidas por toda a minha internação, bem como alguns meses após eu ter recebido alta médica.

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Nossa relação foi muito sadia no início. Eu ia à casa dela aos finais de semana ou ela vinha à casa de meu pai, também aos finais de semana. O namoro só não foi para frente porque ela era evangélica fervorosa, queria que eu frequentasse sua igreja, coisa que até fiz algumas vezes, mas com muito desgosto, só para agradá-la. Fazíamos planos insanos de morar juntos e educarmos nossos filhos com uma moral cristã fervorosa, parecia que eu estava ficando louco, mas, para minha sorte, caí na real e me afastei dessa garota, quando fui internado novamente, no sanatório Ismael, de Amparo, depois de um surto violento em que quebrei vários vidros da casa de minha mãe. Esse surto que me levou ao sanatório Ismael se deu de madrugada, quando acordei ouvindo barulhos vindos debaixo de minha cama. Foi aterrorizante ouvir o ruído de garras arranhando o estrado de minha cama. Apavorado, pulei da cama e corri para a cozinha para apanhar uma faca visando me defender, mas aí veio uma voz gutural dizendo que queria meu sangue, que eu precisava sangrar se não minha família seria destruída. Imediatamente, fiz um corte muito longo e profundo no meu antebraço direito. Não sei se foi devido à movimentação estranha na casa, ou outra coisa que o valha, mas só sei que meu pai, logo depois que me cortei, tirou a faca de minha mão e me abraçou aos prantos. Sinto muito remorso quando me lembro da tristeza de meu pai naquela madrugada.

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Cheguei ao sanatório Ismael no dia vinte e cinco de outubro de dois mil e dez. Inicialmente, pensei que esta seria só mais uma das incontáveis internações que tive, mas estava enganado, muito enganado. No décimo quinto dia de internação, minha psiquiatra me deu a triste notícia de que chegara do fórum de Jaguariúna uma carta de internação compulsória pedida pelo meu pai. Fiquei completamente transtornado quando soube de tal notícia, afinal, uma internação compulsória, segundo me explicaram, significava que eu só sairia do sanatório quando a juíza liberasse, coisa que podia acontecer rapidamente, ou demorar muito. Fiquei extremamente depressivo nos primeiros meses, mas com o tempo, o que era tristeza, foi gradativamente transformando-se em conformismo. Já que eu deveria ficar por lá por um bom tempo, antes matar o tempo do que deixá-lo me matar. Assim, passei a me enturmar mais, conversar mais com os técnicos de enfermagem, psicólogas, psiquiatra, pacientes, etc. passei a ver aquele pátio não apenas como uma quadra circundada de doentes se esgueirando pelo chão e muretas; passei a ver aquilo tudo como meu lar. Um lar deveras tenebroso é óbvio, mas mesmo assim, meu lar. Acostumar-se com uma internação num lugar tão imundo parece coisa de filme de terror. E, de fato, era mesmo. Aquele sanatório era uma verdadeira imundície. Vômito e fezes por toda a parte, surtos a todo o instante, brigas e mais brigas a todo o momento, enfim, eu estava no inferno e, o que é desastroso, eu estava começando a gostar daquela podridão inumana e sem sentido. Uma coisa que me ajudou muito foi ter conhecido uma garota bipolar e epilética muito especial. Começamos a namorar logo no primeiro dia em que ela chegou ao sanatório e, posteriormente, quando saí, a vi uma única vez, quando fui a sua casa em Jundiaí. Ela, quando chegou, estava muito depressiva, não aceitando aquela sua primeira (e estimo que última) internação. Logo em nossa primeira conversa fui “duro” com ela, falei para ela deixar de auto-piedade a tratar de “se mexer” um pouco. Parece que a dura que dei nela rendeu resultados, pois ela passou a se animar um pouco mais,

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conversar com as enfermeiras e demais pacientes e ser mais sarcástica e bem humorada ao namorarmos às escondidas. Nos quatro primeiros meses, estive onde deveria estar, ou seja, no setor dos psicóticos, o setor três. Contudo, começou a rolar um boato no sanatório de que eu estava espancando os pacientes mais regredidos, o que é mentira, afinal, já havia espiado minhas barbaridades cometidas no Seara e, sinceramente, sentia e sinto nojo de todo e qualquer tipo de violência física. Mas como quem pode mais chora menos, infelizmente tive de ser retirado do convívio com meus iguais do terceiro setor para ir ao primeiro setor, reservado exclusivamente aos alcoólatras. À esta época, eu havia feito grande amizade com um paciente muito legal. Conversávamos sobre praticamente tudo o que há para se falar dentro de um sanatório. Nos conhecemos ainda no terceiro setor, já que ele também é psicótico, e ele me acompanhou para a descida ao primeiro setor, já que ele também foi acusado (injustamente) de espancar os mais regredidos. No primeiro setor, fiquei cerca de dois meses entre os alcoólatras, o que foi péssimo para minha recuperação, já que praticamente todos eles estavam lá somente para “dar um tempo”, ganhar uns quilinhos, receber o benefício do INSS e, com prazer e mais saúde, voltar às bebedeiras. Isso, definitivamente, não entrava na minha cabeça, pois com tanta gente precisando de verdade de uma internação e aqueles velhos imbecis ocupando vaga e gastando o dinheiro dos contribuintes. Não, definitivamente, algo podre estava no ar. O fato que me levou a ser expulso, também do primeiro setor, foi um bate boca muito feio que travei com a psiquiatra do setor. Ela vivia mexendo na minha medicação, e eu estava regredindo cada vez mais, até que, numa consulta, eu “soltei os cachorros” para cima dela e disse que o negócio dela era ficar receitando vitaminas à alcoólatras, não sabendo lidar com casos complexos como o meu. Saí da sala dela completamente transtornado e quebrei três vidros com socos e cabeçadas, se não fosse pelo técnico em enfermagem (muito amigo meu) para me acalmar, as coisas teriam sido bem piores. Se eu estava certo ou não na discussão que tive com a psiquiatra, não me cabe julgar, mas o saldo dessa inflamada discussão foi que eu fui expulso do primeiro setor e acabei no segundo setor, o setor dos dependentes químicos. Acho que fui o único paciente na história do Ismael a passar pelos três setores que lá existem.
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A esta altura dos acontecimentos, eu já possuía uma advogada que, para falar a verdade, mais atrapalhou do que ajudou na minha saída do Ismael. Isso porque ela escreveu um documento ridículo alegando que eu estava convivendo com psicopatas e serial killers, não, não dava para entregar minha vida nas mãos de uma advogada como aquela. Quando fui para o segundo setor, eu já contava cerca de seis meses de internação e, mudando de psiquiatra, só posso dizer que minha vida mudou para melhor. O doutor do setor dois, com certeza, foi o melhor psiquiatra que tive em minha vida. Uma consulta com ele durava de vinte a quarenta minutos, falávamos sobre tudo, absolutamente tudo que era pertinente à minha recuperação. Quando ele entrou de férias, confesso que fiquei muito triste. Entretanto, a substituta dele também era muito boa. Uma psiquiatra muito séria e que diz somente o necessário, o que também é muito bom. Como a esta altura eu já somava nove meses de internação, a Dra. sugeriu que eu enviasse ao fórum de Jaguariúna uma carta escrita à mão pedindo para que meu caso fosse avaliado, pois o tempo de minha internação já extrapolava a medida do bom senso. Fiz e enviei essa carta e, faltando duas semanas para completar dez meses de clínica, finalmente tive alta, fui liberado pela juíza. De minha passagem pelo Ismael, guardo boas e más recordações. As boas consistem na lembrança dos admiráveis técnicos e técnicas em enfermagem, bem como dos enfermeiros que lá trabalhavam. Guardo também boas recordações das psicólogas, terapeutas ocupacionais e dos doutores e doutoras. Quanto às más recordações, só posso dizer que não vejo com bons olhos as bordoadas que tive de dar num paciente extremamente agressivo que, certa vez, partiu para cima de uma técnica em enfermagem grávida. Todos os pacientes e funcionários elogiaram meu “heroísmo”, mas o fato é que me senti e ainda me sinto muito mal por ter partido às “vias de fato” com um paciente que, ao certo, não sabia o que estava fazendo. Quando saí do sanatório, estava completamente “domesticado”. Parecia que, no mundo, só havia o lado de cá, o lado da insanidade esteticamente ímpar. Eu estava tão familiarizado com os muros e as feições dos moradores e funcionários da clínica que, sinceramente, eu sentia muito medo do que iria encontrar do lado de fora. Não que ficar internado no Ismael tenha sido algo propriamente bom, tanto é assim que, dos cento e dez quilos de massa corporal de quando eu cheguei, só me restaram míseros oitenta

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quilos de carcaça. Além disso, já não aguentava mais olhar para aquele pátio com aquela quadra idiota ao centro. No dia em que saí da clínica, a primeira coisa que fiz foi ligar para a minha namorada, pois não aguentava mais de saudade daquela figurinha sarcástica e admiravelmente bela. Depois disso, saí para dar uma volta e ver o mundo real, fora dos tristes muros da clínica. Entretanto, a paranoia voltou a cavalo. Enquanto andava pelo centro de Jaguariúna, eu ouvia os pensamentos de todos os transeuntes que passavam por mim. Pensamentos macabros, aterrorizantes, hostis contra mim. Voltei correndo para a casa de minha mãe completamente transtornado e, além de continuar a ouvir os pensamentos de minha mãe, logo comecei a sentir “bichos” andando sob minha pele, foi aterrorizante. Neste estado de espírito, tudo o que pude fazer foi pegar um galão de um produto inflamável (não sei o que era), fiquei nu, ensopei todo o meu corpo com ele e, ao tentar pôr fogo em minha pele no fogão, minha mãe apareceu, me segurou e evitou que eu me imolasse. Depois disso, não me lembro de mais nada, pois foram chegando pessoas em casa (polícia, enfermeiros, meu pai), e todos aqueles pensamentos que eu ouvia me deixaram completamente atordoado, confuso, não sei, só me lembro de acordar amarrado novamente no hospital de Jaguariúna para uma nova internação.

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Fui internado no Bairral novamente, no terceiro andar, dos psicóticos, para ser mais preciso. Não parava de pensar na minha namorada, minha namorada virtual, já que havia cerca de seis meses que só nos falávamos ao telefone, pois ela saiu do Ismael bem antes de mim. No Bairral, tive de ficar por seis dias na “especial”, tendo em vista minha instabilidade emocional e falta de vagas no terceiro andar. A especial consiste numa espécie de unidade clínica intensiva, onde o cigarro é racionado e somos vigiados vinte e quatro horas por dia. É realmente muito entediante ter de ficar na especial, mas para mim, naquele momento de minha vida, foi uma boa, pois eu pude dormir demais durante esses seis dias. E, dormindo, eu não podia pensar nos absurdos que ouvi no surto extremamente forte que me levou ao Bairral. Quando subi ao convívio, no terceiro andar, e pude ir à praxiterapia ou pátio, por mais estranho que possa parecer, eu me senti em casa, me senti como parte de um todo, uma espécie de filho querido que à velha casa torna. A única preocupação que tive com o “mundo real”, foi com relação à minha namorada, que, por telefone, disse que estava extremamente gorda e com hipotireoidismo, além de todos os seus problemas habituais. Tirando isso, tive uma internação muito tranquila, era paciente de uma extraordinária (e gostosa) doutora, bem como paciente da ainda mais gostosa psicóloga que já vi na vida. Quando ressalto que essas duas excelentes profissionais, além de ótimas no que fazem, são “gostosas”, é porque naquela fase eu me encontrava extremamente carente em termos sexuais, já que minha última relação sexual se dera com aquela crente que namorei anteriormente. Tive alta do instituto Américo Bairral com 45 dias de internação, e só posso dizer que de lá saí com a cabeça muito boa. Ao sair, digitalizei uma série de contos que escrevi à mão no sanatório Ismael e tentei publicar pela editora Porto de Ideias, uma editora especializada em “lançar” no mercado editorial novos escritores. Os avaliadores dessa editora gostaram do material que apresentei, porém, cobraram uma taxa elevada para a publicação. Por não dispor de dinheiro para bancar essa minha primeira obra, bem como tive alguns entreveros com meu pai, recaí novamente na insanidade ouvindo
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vozes de comando e toda aquela coisa de sempre, e fui, depois de cerca de vinte dias, internado novamente no Instituto Américo Bairral, com a mão toda queimada de cigarros, já que para essas vozes pararem eu necessito da dor física. Nesse retorno prematuro ao Bairral, fui novamente muito bem tratado pela mesma equipe de “gostosas” que atende o terceiro andar. Nada de muito importante ocorreu nessa internação, exceto o fato de que parei de telefonar para a namorada, pois sempre fora só eu quem ligava, de modo que passei a pensar, e ainda penso, que ela, na verdade, não quer nada comigo. Outra coisa interessante que ocorreu nessa minha curta passagem pelo Bairral, foi o namorico que tive com o Alexandro, um dependente químico do quarto andar, com quem dei alguns amassos e nada mais, nada de muito relevante aconteceu entre nós, tudo foi apenas uma questão de carência e excitação. Ao sair do Bairral, o velho problema em publicar meu livrinho de contos voltou a me incomodar, bem como a rabugice de meu pai. Assim, voltei a fazer uma coisa que não fazia há muito tempo, que é beber. E assim eu fiz: bebi cerveja com cachaça e, ao retornar para casa de minha mãe, tive um surto psicótico muito sério. Não cheguei a quebrar vidros ou me cortar com facas, mas disse inúmeros impropérios para minha mãe e irmã. O teor desses impropérios eu não me recordo, já que, quando bebo, perco completamente a memória, mas a julgar pelo que aconteceu depois, penso que devo ter dito e feito coisas abomináveis. Não sei como fui parar no hospital municipal de Jaguariúna, só me recordo de conseguir me desamarrar das ataduras que me prendiam, e de voltar à casa de minha mãe. Quando estava no portão, ainda bêbado e muito sedado, não sei o que disse que desencadeou um violento ataque de fúria em meu cunhado. Ele me espancou violentamente, de modo que só me recordo de ser algemado pela polícia e de acordar no Seara, em Americana, aquele sanatório em que fui tão covarde na minha primeira passagem. Desta última internação até o presente momento, não guardo boas recordações. Em primeiro lugar porque a comida de lá era simplesmente horrível, indigesta ao extremo. E, em segundo lugar porque o psiquiatra que me atendia era simplesmente péssimo em seu ofício, me receitou medicações que me fazem extremamente mal, além, é claro, dele não saber clinicar, acho que ele sequer viu o meu rosto nas consultas que duravam cerca de um minuto.

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A única coisa boa que me ocorreu nesta última internação no seara foi ter conhecido, e namorado, um travesti lindíssimo chamado Danny. Me afastei dele porque já que a Danny é dependente do crack e, a julgar pelas últimas informações de sua mãe, a Danny estava consumindo drogas novamente. E já que ela não consegue parar com o crack, lamento dizer, mas tive de me afastar dela, pois, hoje, não possuo estrutura psicológica para lidar com casos tão complexos. Quanto ao meu histórico médico, devo ressaltar que nos primeiros anos de minha doença, as atenções se voltavam para minha instabilidade de humor, de modo que os diagnósticos provisórios que prevaleciam eram o de psicose maníaco-depressiva (PMD), ou simplesmente transtorno bipolar (um eufemismo para PMD).

Posteriormente, com as visões e as vozes que ouvia, os diagnósticos provisórios voltaram-se para algum tipo de esquizofrenia de ordem desconhecida. Mas em algumas internações já tive como diagnósticos provisórios o transtorno esquizoafetivo e transtorno borderline. Atualmente, com o psiquiatra que cuida de mim há quase oito anos, o diagnóstico provisório é de esquizofrenia paranoide, além de distúrbio de impulsividade e transtorno de ansiedade. Hoje, sigo morando em Jaguariúna ora com minha mãe, ora com meu pai, e me sinto muito bem de saúde. Não bebo mais, porém esporadicamente ouço vozes vindas de dentro das paredes, bem como debaixo de minha cama; o que faz com que, às vezes me mutile. Venho me queimando com cigarros e cheguei até a fazer uma escarnificação com faca quente em minha perna direita, o que fez com que, além de tomar regularmente meus remédios psiquiátricos, eu fizesse uso também de anti-inflamatórios e antibióticos. Venho tendo pelo algumas intercorrências, tendo de ir ao hospital para tomar haloperidol na veia e fenergan. Estou fazendo terapia com uma psicóloga muito competente (além de linda) regularmente. Meu livrinho de contos está ao encargo de meu tio, que se dispôs a tentar publicá-lo, e estou namorando aquela garota especial com quem tive um breve romance no período mais turbulento de minha vida. Nos reencontramos pelo facebook e estou extremamente feliz por namorar seriamente uma garota tão inteligente, linda, sensível e especial. Ademais, venho contando, nos últimos meses, com o auxílio de um extremamente humano e atencioso doutor da USP; professor que, com muito tato e carinho, me incentivou a escrever minha história, e com quem pretendo fazer, quem sabe algum dia, meu doutorado em filosofia da mente.

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