Fascismo Canada

O fascio, a suástica e a maple leaf: o fascismo no Canadá do entreguerras

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João Fábio Bertonha
Resumo: O objetivo deste artigo é discutir a presença de movimentos fascistas no Canadá, nos anos 30, com ênfase na figura de Adrien Arcand e nas particularidades do caso canadense em confronto com outros países de língua inglesa. Por isso, é especialmente focalizada a questão do Quebec e dos movimentos fascistas baseados na região. Ainda que sejam mencionadas questões gerais em relação aos países anglosaxões e ao mundo todo, enfatiza-se o contexto canadense e as especificidades desse país, no que tange ao fascismo e à sua capacidade de angariar adeptos e apoios, como também a seu fracasso em atingir o poder. Palavras-chave: extrema direita; fascismo; Adrien Arcand. Abstract: The main purpose of this article is to discuss the presence of Fascist movements in Canada in the period between the two world wars, with special focus in the Canadian fascist leader Adrien Arcand and in the Quebec case. Although general discussions regarding the fascism in the Anglo-Saxons countries are present, the Canadian context is stressed. Key words: extreme right wing; fascism; Adrien Arcand. Résumé: Cet article propose une réflexion sur la présence de mouvements fascistes au Canada dans les années 30, et notammentet sur la figure d’Adrien Arcand et les particularités du cas canadien par rapport à d’autres pays anglophones. Bien que le texte mentionne des situations communes aux pays anglo-saxons et à d’autres régions du monde entier, la question centrale qui est mise en relief est celle du contexte canadien et des spécificités de ce pays en ce qui concerne les mouvements fascistes et leur fortune dans cette région. Mots-clés: extrême droite; fascisme; Adrien Arcand.
* A pesquisa bibliográfica para o presente artigo foi realizada no Canadá (Toronto, Ottawa e Montreal) em 2000 e, novamente, em 2008. Agradeço ao International Council for Canadian Studies, que me concedeu uma bolsa de pesquisa de curta duração para que eu pudesse pesquisar em Toronto e Montreal, em agosto e setembro de 2000 e em setembro e outubro de 2008. Agradeço também a meus amigos canadenses e brasileiros (especialmente a Alexandre Valim e Bruno Ramirez), que muito me auxiliaram em minhas viagens. Roberto Perin é particularmente inesquecível por sua hospitalidade.

INTERFACES BRASIL/CANADÁ, RIO GRANDE, N.11, 2010

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Introdução
Nos anos 20 e 30, movimentos de caráter fascista espalharam-se por todo o mundo ocidental, incluindo a Europa, a América (tanto a do Norte como a do Sul) e mesmo países geograficamente mais distantes, porém dentro da cultura ocidental, como a Nova Zelândia, a Austrália e a África do Sul. É claro que, muitas vezes, movimentos conservadores ou autoritários de vários tipos acabaram por ser confundidos e chamados de fascistas, mas, independentemente desse gênero de confusão, não há realmente dúvida de que grupos fascistas se tenham difundido por todo o mundo ocidental naquele período. Normalmente, associa-se “fascismo” às figuras de Hitler e de Mussolini e, por tabela, à Alemanha e à Itália. Historiadores dos mais diferentes prismas teóricos trabalharam por anos a fio para demonstrar que o fascismo nesses dois países, casos especiais no mundo ocidental, seria uma “tara” à qual estariam imunes nações realmente civilizadas, como as anglo-saxãs. Não é verdade, no entanto, que esses países tenham ficado isentos do fascismo. Pois, embora os movimentos fascistas no mundo de fala inglesa tenham sido muito limitados e não tenham chegado a exercer grande influência, eles, de fato, existiram, e esses países fazem parte da família fascista. Em artigo anterior1, tracei alguns esboços a respeito da presença do fascismo nos países anglo-saxões, com vistas a uma comparação com o caso brasileiro. O que estava em foco eram as experiências fascistas nos diferentes países anglo-saxões e, especialmente, a comparação com experiências semelhantes no Brasil. Do mesmo modo, publiquei outros artigos comparativos entre o Brasil e o Canadá (Bertonha, 2002b; 2004, ambos também em Bertonha, 2008), mas com um enfoque diverso, a saber, na presença do fascismo e do antifascismo italianos nas comunidades italianas presentes nos dois países. No presente texto, a ideia é fugir do foco comparativo com
1

Ver Bertonha (2002a). Este artigo foi republicado, a convite, em espanhol (Bertonha, 2003) e também figura em meu livro sobre a direita, recentemente publicado (Bertonha, 2008).

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É desejo do autor que esta discussão sobre o fascismo canadense não apenas seja uma colaboração interessante para os estudos gerais sobre o fascismo. INTERFACES BRASIL/CANADÁ. mas também sirva para trazer a público um aspecto da história dos países anglo-saxões que. as experiências da Inglaterra. até por se tratar de uma face pouco conhecida da história daquele país.11. mas procurando aprofundar e avançar em relação ao que escrevi anteriormente. pareceu-me indispensável proceder em alguns momentos a um relato de caráter mais factual. tanto em inglês quanto em francês. parece justificar-se a escolha de tal foco. a seus movimentos fascistas e a suas singularidades e semelhanças frente ao restante do universo anglo-saxão e do mundo ocidental. é muito pouco conhecido. Posto isso. então. a ideia de reunir as informações disponíveis e de apresentar ao algumas reflexões sobre o tema deve ser de interesse do leitor brasileiro. meu foco se transfere imediatamente ao Canadá. Dada a singularidade da experiência fascista nesse país e a escassa informação disponível. recuperando dados sobre partidos. além de outros que são pouco conhecidos fora do Canadá e. Inicialmente. até mesmo lá. Devido à escassez de informações disponíveis sobre o tema.193 o Brasil e restringir a análise aos fascismos e aos fascistas dos países anglo-saxões. Por isso. Essa lacuna no conhecimento histórico disponível no Brasil sobre o Canadá merece ser sanada. RIO GRANDE. 2010 . N. publicações e jornais. é o Canadá o verdadeiro centro de minha análise. da Austrália. voltarei a tecer algumas observações gerais sobre o fascismo nos países anglo-saxões. embora de grande importância. da África do Sul e da Nova Zelândia serão utilizadas para se compreenderem os dilemas dos partidos e movimentos fascistas na área cultural de língua inglesa no entreguerras. A informação sobre o tema é realmente limitada. Em português. na verdade. Nesse sentido. Mais do que isso. as possibilidades de um leitor encontrar bibliografia são virtualmente nulas. dos Estados Unidos.

pode-se afirmar que o New Party representou um marco na história do fascismo britânico. acabando por absorvê-los. etc. Para Lewis (1987). Efetivamente. a maior parte dos movimentos “fascistas” britânicos do período encontravam-se mais próximos das diversas “ligas nacionalistas” ultrarreacionárias que. harmonia social – se aproximavam muito mais claramente do universo fascista do que as dos grupos anteriores. com mais que algumas centenas de adeptos. finalmente. quando Oswald Mosley criou o New Party. Kensington Fascist Party. 2010 .) que os tornavam mais conservadores sob uma roupagem fascista do que propriamente fascistas. na realidade. Outros estudiosos discordam. os movimentos fascistas tiveram um desenvolvimento bem menor do que nos países da Europa continental. 1971). como a Itália. Ainda assim. Esse grupo político. Em 1932. nitidamente inspirados no exemplo italiano. mas suas ideias – união nacional. como tais grupos mantinham certas características (elitismo. maior interesse em fazer propaganda reacionária do que em atingir efetivamente o poder. o fascismo praticamente inexistiu nos anos 20. a conversão se INTERFACES BRASIL/CANADÁ. RIO GRANDE. a razão de seu insucesso em mobilizar as massas. restauração da ordem. provavelmente. surgiram no mundo para combater o movimento operário do que do fascismo. com alguns autores (Lewis. Pequenos grupos – British Fascisti. no total. medo das massas. depois do fracasso da greve geral de 1926. Não apenas estavam por demais divididos. essa situação só se alterou na década de 30.11. É interessante observar. British Empire Fascists. Na Inglaterra. mas não contavam. Imperial Fascist League e outros – apareceram naqueles anos. e apresentam traços de continuidade entre aqueles movimentos e o futuro movimento de Mosley (Shermer. já não existia (Sykes. a Alemanha e mesmo a França e a Espanha. ainda não era um partido fascista. Esta foi. 1987). 2005: 45-46).194 O fascismo no mundo anglo-saxão Nos países de fala inglesa. N. como se organizavam para enfrentar uma ameaça – o movimento operário – que. na época.

Já na Austrália surgiram. com o estado de guerra entre o Reino Unido e a Alemanha. a partir de 1933. sendo famosas as batalhas de rua (Olympia’s meeting). 2010 . mas caminhando cada vez mais em direção ao nazismo. finalmente. o que se reflete na maior quantidade de material bibliográfico disponível sobre ela2. na verdade. Spoonley. como The South African National Party. por via de conselhos locais. As ideias antissemitas da BUF – de defesa da ordem e de renovação do império a partir de uma aliança com a Alemanha e a Itália e a destruição da URSS – chegaram a angariar algum apoio popular (especialmente nos anos de 1934 e 1935). incluindo Mosley. Nos domínios britânicos.195 completou. e Thurlow (1987).11. Cross (1961). N. De qualquer forma. e. 2001: 446). a BUF foi perdendo força e credibilidade no decorrer da década de 1930. grandes choques de rua com grupos de esquerda (especialmente ligados ao comunismo inglês e ao Labour independente). que. o conflito entre fascistas. não foi suficiente para anular a hostilidade da esquerda e dos grupos dirigentes. a partir de 1923. Mason. a BUF foi a mais importante organização fascista do mundo anglo-saxão. várias ligas de 2 Ver. Para se manter em evidência. em 1934. 1980). sobretudo entre a classe média baixa (Rawnsley. Oscilando entre a Itália e a Alemanha. porém. INTERFACES BRASIL/CANADÁ. enquanto o artigo de Coupland (1998) traz extensa bibliografia extra sobre Mosley e a BUF. Na África do Sul. O mesmo pode ser dito da Nova Zelândia (Harcourt. foram encarcerados. o fascismo conseguiu sucessos ainda menores. surgiu a British Union of Fascists (BUF). por toda a Inglaterra. chegaram a impedir suas reuniões em vários pontos do território inglês. 1972. em seu lugar. o New Party se dissolveu e. mas a população de língua inglesa. o movimento foi dissolvido e seus principais líderes. de modo geral. não aderiu às ideias fascistas (Guy. 1981). antifascistas e polícia no bairro judeu de Londres (Kusher. Em 1939. 2000). em 1936. entre outros. Valman. O livro de Shermer (1971) é mais informativo. RIO GRANDE. Cronin (1996). Isso. a BUF protagonizou. Skidelsky (1975). foram instaladas sessões do partido de Mosley nos anos 30 e surgiram pequenos partidos fascistas.

de Art Smith. no entanto. Os descendentes de alguns grupos imigrantes. as tentativas de criar um partido fascista local (como o National Party. Moore. em 1933) estacionaram no estágio embrionário (Cannistraro. como os bôeres INTERFACES BRASIL/CANADÁ. 1965). o fascismo foi geralmente mais popular entre os deserdados e os abalados pela grande depressão e. 1952). de William Pelley. Mas essa não foi uma regra geral. MacDonnel. N. Quem. 1971. O fascismo foi mais popular também entre grupos nativos que se sentiam minoritários e desfavorecidos. de um sistema que normalmente os ignorava. os khaki shirts. entre as minorias e os outsiders do sistema. Amos. Warren. Dentro do mundo anglo-saxão. no âmbito político. criado em 1931. de Detroit. em 1934. ou a Silver Shirt Legion.11. contando com uma milícia uniformizada e mantendo contatos com Mosley. embora sem muito sucesso. mas essencialmente conservadoras. Starace e Rosenberg. Na Austrália. já que a adesão dependia muito do sistema político local e de sua capacidade em cooptar os imigrantes e seus filhos. 1976. o fascismo continuou a ser visto como algo exótico. na Pensilvânia. especialmente. com ideias e simpatias abertamente fascistas (ainda que pouco antissemitas). Tampouco nos Estados Unidos o fascismo logrou grande popularidade. simpatizantes do fascismo. por exemplo. Apesar da força da depressão econômica nos anos 30. 2001. liderado por Eric Campbell. para manifestar seu apreço aos ideais das nações de origem dos seus pais (no caso de ítalos e germânicos) e para participar. alemã ou russa emigrada (Cresciani. 1989. 1979. normalmente associado à coletividade italiana. com alguns grupos de italianos e alemães na Austrália e na África do Sul.196 direita. Isso se deu. como o Social Credit. a League of National Security e a Khaki Legion. 1995. militaram muitas vezes nos fascismos locais para reafirmar sua lealdade e sua identidade como australianos ou americanos. por exemplo. a Black Legion. Outros movimentos posteriores. Janowitz. de Philip Johnson. Moore. como a Old Guard. Campbell. 2001. representou realmente o fascismo no país foi o New Guard. Perkins. RIO GRANDE. assumiram tons mais abertamente fascistas. 2010 . efetivamente.

contudo. mas de nacionalistas locais ultraconservadores.197 da África do Sul. Isso. Na maioria dos casos. Bloomberg. da mais alta importância. o primeiro país do mundo a ser fascista deveria ter sido os Estados Unidos. Tradicionalmente. não significa esquecer. atribui-se aos efeitos da crise econômica mundial de 1929 e às tendências autoritárias de certos países europeus um papel-chave para explicar o pipocar de movimentos fascistas (antes inexpressivos fora da Itália) em vários países ocidentais nos anos 30 e a ascensão de Hitler ao poder. de pessoas do East End londrino. pelo contrário. com simpatias. como também os católicos eram super-representados (Rawnsley. 1989. por motivos óbvios. no entanto. 1991. Discutir as razões dessa incapacidade dos movimentos fascistas em atingir o poder no mundo anglo é questão de real importância se quisermos entender a própria gênese do processo que. se ignorarmos esses casos específicos. Sani. 2001. Em linhas gerais. Com efeito. RIO GRANDE. o que não ocorreu. Guy. ao menos no mundo britânico. 1980: 161-162). anticomunismo. por várias razões. isoladamente ou em bloco com a direita tradicional. a importância que tiveram as tradições liberais nos Estados INTERFACES BRASIL/CANADÁ.11. Simsom. mas que se revelam insuficientes quando confrontados com a situação dos países de língua inglesa. em tantos países do mundo. antissemitismo e racismo nunca foram valores desconhecidos. segundo. 2010 . nos anos 30. evidentemente. primeiro. São elementos. não se tratava de fascistas. racistas e antissemitas. se seguirmos roteiros determinados unicamente pelo econômico ou pelo cultural. conceitualmente falando. movimentos simpáticos ao nazismo e ao fascismo não foram desconhecidos entre eles. N. os efeitos econômicos e sociais da crise de 1929 foram tão devastadores quanto na Alemanha. os efeitos da crise de 1929 foram superados com relativa brevidade. pelo fascismo e pelo nazismo (Furlong. 1990). Assim. Na própria BUF de Mosley. o fato de que. por exemplo. Nos Estados Unidos. e. a palavra fracasso pode ser usada sem receio para qualificar os fascismos no mundo anglo-saxão. 1980. não apenas havia uma participação desproporcional. levou o fascismo ao poder. evidentemente.

também contava. necessariamente. Hitler. vistos cada vez mais como vendidos e traidores (Benewick. conforme já mencionado. etc. um crescente sentimento antifascista e. A estrutura do sistema político. Do mesmo modo. Um fator de importância. 1989). No sistema bipartidário americano. em alguns contextos. capaz de articular os vários movimentos fascistas e de reunir forças para a conquista do poder. forças tradicionais de direita (os grupos nacionalistas dos bôeres da África do Sul. começou a estabelecer entre os fascismos locais. movimentos ultraconservadores cristãos em vários países. o que aliviava a pressão sobre o sistema político. a partir da segunda metade dos anos 30. No mundo anglo-saxão. Oswald Mosley.11. de que existiam. foi se desenvolvendo. aliás. por exemplo. nem outros souberam dar conta dessa tarefa. Nem o mais bem-sucedido e carismático dentre eles. 1980: 57-59). anticomunistas e racistas sem. essencial para a criação de um partido de massas.198 Unidos e no império britânico. e seria ilógico ignorar esse elemento. nem Pelley. quer nos Estados Unidos. de fato. nos países anglo-saxões. Tenho a impressão. quer na Austrália. na Inglaterra e nos domínios. foi a inexistência de um líder carismático do porte de Hitler. 2010 . o equilíbrio partidário era relativamente fechado para outsiders como os fascistas. antinazista. Combater os direitos individuais e as liberdades civis pregando o uso da violência era. Thorpe. muito mais difícil em países de democracia liberal consolidada. outrossim. a Ku Klux Klan nos EUA. RIO GRANDE.) com condições para canalizar os sentimentos antissemitas. desembocar em um partido fascista. Nem Campbel. conseguiu unificar completamente a direita radical a seu redor (Morell. também ajudou a solapar os esforços dos fascistas desses países. Não espanta. especialmente. devido à cada vez maior agressividade da Itália e da Alemanha (voltada basicamente contra as democracias ocidentais) e à associação que a opinião pública. que os partidos fascistas tenham cativado justamente as minorias étnicas e os grupos politicamente insatisfeitos dessas sociedades. 1969. N. um partido fascista teria imensas dificuldades para se afirmar. por sua vez. com certeza. INTERFACES BRASIL/CANADÁ.

em Londres. esteve sempre presente nas mangas da elite dominante. as dos países anglo-saxões (assim como as escandinavas. como demonstram as batalhas de rua dos partidos de esquerda (o Labour e os comunistas. as classes dirigentes. porém. 1989): um “Plano B”. assustadas por uma crise nacional sem precedentes e temendo por sua própria sobrevivência. as argentinas e outras) sentiam-se suficientemente fortes para dispensar tal alternativa. 1981). fascistas ou semifascistas. N. mantiveram-se firmemente no poder. 1976. no Canadá. Moore. portanto. Na Austrália. por exemplo.11. foi a capacidade das elites dirigentes em manter as rédeas do poder e oferecer alternativas à sociedade. mas que poderia tê-lo sido em caso de necessidade. Essa alternativa. as manifestações do Cooperative Commonwealth Federation e do Communist Party of Canadá. como a democracia se manteve naquele momento em todos os países de fala inglesa. principalmente) contra Mosley. porém. por exemplo. quando necessário. não dando margem – ao contrário do que ocorreu na Itália e na Alemanha – à ascensão dos fascistas ao governo. que nunca precisou ser posto em prática. as guardas brancas. RIO GRANDE. Mais importante do que tudo. do mesmo modo. as francesas. o fascismo local. permaneciam constantemente de prontidão para o caso de a esquerda ou os estrangeiros representarem uma ameaça (Amos.199 Além disso. Enquanto as classes dirigentes italianas e alemãs. o que revela as limitações do “liberalismo” anglo-saxão. houve espaço para a esquerda se organizar e combater. INTERFACES BRASIL/CANADÁ. Nos países do império britânico. pode-se dizer que a liderança progressista de Franklin Delano Roosevelt e seu New Deal foi o melhor antídoto para anular quaisquer riscos de fascismo nos Estados Unidos. 2010 . com vários graus de eficiência. No caso americano. e as frentes de esquerda australianas contra os fascistas (Menghetti. preferiram apostar no fascismo. embora conservadoras.

porém. Foi. etc. N. que os adeptos da ideologia fascista no Canadá resolveram se organizar em busca de maior influência na sociedade através dos Swastika Clubs. obtendo uma resposta tímida em Ontário e na British Columbia (Sher. razão pela qual cederei menos espaço aqui aos movimentos fascistas sediados em Roma ou em Berlim. 1983). Bertonha. pequenos grupos fascistas se formaram já nos anos 20. promovendo manifestações conjuntas. todavia. a partir da ascensão de Hitler ao poder. para passar imediatamente àqueles com base no Canadá. Não é. 1981).200 O fascismo no Canadá Quando nos referimos ao fascismo no Canadá. proclamando solidariedade. 2002b). 1977. defensores da supremacia anglo-saxã em Ontário. em 1933. INTERFACES BRASIL/CANADÁ. a presença dos imigrantes era elemento central para o sucesso ou o fracasso dos fascismos nativos. em Alberta.11. Tampouco mencionarei a experiência do Social Credit Movement. Os fascistas europeus foram realmente muito ativos no país. este o momento para estudar os referidos contatos (o que espero fazer em artigo futuro). Os italianos agiam nas comunidades originadas da Itália (Liberati. 1984. por considerá-lo antes um grupo demagogo da direita que um movimento propriamente fascista (Warren. grupos nacionalistas ucranianos. RIO GRANDE. Em alguns casos. geralmente inspirados pelo exemplo do fascismo italiano. pois o foco do presente texto é o fascismo canadense. provenientes da baixa classe média. No Canadá de fala inglesa. 1988). abertamente racistas e antissemitas. 2001: 665-670). devemos estabelecer uma distinção entre os vários movimentos fascistas com base europeia que ali se instalaram no seio das comunidades imigrantes e os diversos grupos fascistas nativos. atuavam no oeste canadense (Prymak. Seus raros militantes eram normalmente de origem britânica. reacionários ou próximos ao fascismo. Fascistas europeus e canadenses mantinham contatos estreitos. Mesmo a Ku Klux Klan americana abriu seções no Canadá. 2010 . e o Deutscher Bund Canada tentava atingir a população teuta (Wagner. São os movimentos realmente fascistas canadenses o foco de minha exposição.

foi um católico ultraconservador. e mesmo se evitarmos imaginar o Quebec como total e completamente fascista. 1978: 45-75). surgiu em 1933 um partido de características fascistas. Esta província. 2010 . defendiam o antissemitismo e o corporativismo. já existia no Quebec uma cultura de extrema direita. aliás. o principal polo fascista do país. tomarmos o cuidado de não classificar como fascistas pessoas e movimentos tais como Maurice Duplessis e a Union Nationale. é difícil não ver nesta província uma das regiões em que o fascismo teve maior apelo dentro do território do império britânico. O Padre Lionel Groulx (1878-1967). mas declinou depressa e praticamente desapareceu no final dos anos 30. A partir de mais ou menos 1935. passou a ser. 1992: 193). não necessariamente fascista. copiava muitas matérias para seu jornal. o que seria absurdo. seguindo o alerta de Roberto Perin (1982. que formavam sua base social (Betcherman. 1978: 76-84. liderado por William Whittaker. RIO GRANDE. mesmo se. Com efeito. os passos do original inglês. de cujos jornais. em Winnipeg. onde o sentimento conservador e antissemita. 1984). The Thunderbolt. denominando-a de Canadian Union of Fascists (CUF). Ainda no oeste. seguindo claramente.11. Robin. já era forte mesmo no período anterior. Howard Simpkin liderou um racha do CNP e abriu uma filial do grupo fascista de Mosley. Fervorosos nacionalistas. o centro do fascismo canadense transferiu-se de Ontário e do oeste para o Quebec. Apelavam aos veteranos de guerra canadenses e aos imigrantes. que passou a canalizar para si o pouco apoio disponível (Betcherman. devido tanto à falta de liderança quanto à ascensão de Adrien Arcand. em 1934. corporativista e não antissemita. naquele momento. etc. N. defensor do INTERFACES BRASIL/CANADÁ. expunham a Union Jack e apregoavam a monarquia. a partir daquele momento.201 No oeste do país. o Canadian Nationalist Party (CNP). Esta pretendia-se mais fascista que nazista. Isso requer que abordemos com redobrado cuidado os meandros do fascismo na província canadense em questão. por exemplo. Conseguiu algum apoio entre os anglos da região. Havia muito. Queriam um Canadá centralizado.

os dois líderes procuraram conferir uma feição mais política a seu antissemitismo.202 nacionalismo quebequense e. A Ordem organizou encontros e campanhas antissemitas e. como não contasse com uma real base popular a lhe dar sustentação e enfrentasse na Justiça vários processos de judeus. de 1915 a 1949. os quais encetaram em Montreal uma campanha sistemática contra os judeus. Uma das características do pensamento da extrema direita do Quebec era seu extremo antissemitismo. Entre 1917 e 1928. Arcand. Nos anos 30. era semelhante à do fascismo italiano. liderada por Paul Bouchard e seu jornal La Nation.11. foi fundada a Fédération des Clubs Ouvriers. No início dos anos 30. até ser resgatado por Ménard. Arcand já estava em contato com fascistas e nacionalistas estrangeiros. e defendia a identidade latina. de quem recebeu recursos financeiros e apoio. mas sem apoio popular consistente. Le Miroir (1929) e Le Chameau (1930) –. professor de História na Universidade de Montreal. Apesar de similaridades ideológicas. No entanto. que eles admiravam. Sua estrutura. 2010 . Ainda em 1933. RIO GRANDE. N. Adrien Arcand e Joseph Ménard fundaram uma série de jornais – Le Goglu (1929). e influenciado por Groulx. Já em novembro de 1929. jornalista. pela ação do patrão. com alguma força em Montreal. movimento nacionalista muito semelhante às ligas patrióticas que então apareciam na Europa. seus jornais foram fechados em março de 1933. publicou várias obras e jornais que difundiam as ideias nacionalistas e antidemocráticas de Charles Maurras. por volta de 1932. Ao mesmo tempo. manteve ligações com grupos e com jornais (como Action Nationale e Le Devoir) que defendiam os direitos dos francocatólicos frente aos anglos e que também eram próximos do fascismo (Delisle. lançaram a Ordre Patriotique des Goglus. iniciara sua carreira no La Presse. de onde foi demitido por haver liderado uma greve. a ordem e a hierarquia. 1998: 212). já se detectam na região alguns traços desse sentimento. que precisava de alguém como ele para comandar sua campanha. Bouchard jamais conseguiu entender-se com INTERFACES BRASIL/CANADÁ. contudo. Permaneceu no ostracismo. No período pré1930.

2010 . pois o jornal quase faliu já em seus primeiros números e o movimento contava com público reduzido em suas reuniões. o Ontario Nationalist Party. por ocasião de uma convenção em Toronto. em 1942. O movimento de Bouchard. ainda em 1933. Em 4 de julho de 1938. O sucesso de ambas as iniciativas foi limitado. professor de História da América Latina em Montreal (Robin. O sucesso desse esforço foi moderado. mas nunca chegou a ser realmente forte e popular. No ano seguinte. tais como ordem. Le Patriote. o socialismo e o liberalismo e associando todos esses “males da humanidade” à sua fonte: os judeus. e com um minúsculo novo grupo de Ontário. conseguiu fundir seu grupo com o CNP. Arcand procurou estreitar laços com os fascistas locais em 1937. não avançou. 1978: 99-112). por razões que veremos a seguir. família. os referidos grupos formaram o National Socialist Unity Party. Este proclamava abertamente que haveria de destruir o sistema liberal após conquistar o poder e enfatizava os valores caros aos conservadores.203 Arcand. mas Arcand indubitavelmente havia conseguido superar seus rivais do Canadian Union of Fascists e INTERFACES BRASIL/CANADÁ. tornando-se. de Whittaker. 1992: 183-184). porém com uma bandeira nazista. Com o tempo. RIO GRANDE. e ele acabou fugindo. etc. no oeste. Arcand e Ménard não apreciaram a concorrência e. Também fundaram. um novo movimento. de qualquer forma. Muita propaganda antissemita vinha diretamente da Alemanha para ser divulgada no Quebec por via de Arcand (Betcherman. além do anticomunismo e do antissemitismo. Acreditando que chegaria ao poder e estimando que Toronto (onde o antissemitismo e o medo irracional do comunismo cresciam) poderia servir para ampliar sua base além do Quebec. lançaram um novo jornal. o PNSC cresceu. que misturava racismo nazista com corporativismo fascista.11. atacando o comunismo. patriotismo e livre empreendedorismo. o Parti National Social Chrétien (PNSC). N. para a América do Sul. após sua volta. 1978: 85-98). Assumiu cada vez mais a estética fascista e adotou tropas de choque e uma organização semelhante à do fascismo italiano. em 1934. de Joseph Farr (Betcherman. com uniformes. suásticas. A Ordem dos Goglus evoluíra para um verdadeiro partido nazista.

1992. Seria um equívoco. ao explorar o sentimento antiguerra dos francos no Quebec. no período em questão. porém sem sucesso. No final dos anos 30. Sanders. é. também no Canadá. acabou preso quando do início da guerra. Seus sonhos de poder ruíram. Especificidades e diferenciais do fascismo canadense dentro do mundo de língua inglesa Se examinarmos as razões pelas quais o fascismo canadense teve algum sucesso. a de língua francesa do Quebec. novamente através do antissemitismo. o fascismo foi mais feliz ao tentar atrair os outsiders do sistema político. depararemos com inúmeras variáveis. assim como os fatores que o impediram de alcançar o poder. em 1939. A partir desse momento. No caso canadense. dizer que.11. conseguiu ainda alguma sobrevida. portanto. como já ressaltado. Uma visão mais positiva a respeito de Arcand e. no entanto. como os deserdados pela crise econômica. ver as informações constantes nos vários artigos reunidos em Hillmer (1988) e Perin (2000). e procurou mobilizar. A cultura católica do Quebec. N. com certeza. todo o Quebec era fascista. 1998. Uma das semelhanças a ressaltar é que. O fascismo canadense. uma chave para explicar essa 3 Com relação às prisões. sem dúvida. mais crítica a respeito de sua prisão encontra-se em Cote (1994). 2002. com seu antissemitismo e seu conservadorismo. entre as minorias mencionadas. INTERFACES BRASIL/CANADÁ. seus aliados do Nationalist Party em Ontário. a exemplo de outros militantes dos partidos fascistas canadenses e estrangeiros. tanto de convergência quanto de divergência. pelo menos em sua versão clássica. figura. e ele. referentes ao universo dos países de língua inglesa como um todo. e seria incorreto tentar esconder isso (Delisle. 1996).204 outros movimentos menores e assumido o posto de líder nacional do fascismo no Canadá. RIO GRANDE. e viu sua organização dispersada pela polícia3. mas o fato é que a cultura da direita ou da extrema direita era bem disseminada. chegava ao final. 2010 . a carreira política de Arcand praticamente estagnou e ele caiu no ostracismo. exmilitares ou minorias que se sentiam pouco representadas.

como mencionado acima. Outra similaridade canadense com os demais domínios britânicos (e. fornecer alguns indícios de suas motivações para entrar no movimento. mas a oposição dos franco-canandenses ao sistema político anglo certamente também foi relevante para dar força aos outsiders do sistema dentro do Quebec. o que dificulta qualquer conclusão mais sólida. a atração exercida pelo fascismo entre imigrantes europeus e seus descendentes no Canadá foi similar àquela verificada em outros países. Por outro lado. Segundo consta. RIO GRANDE. como a Austrália. já que nos permitiria entender melhor a questão nacionalista em relação a eles. no oeste do Canadá. Por outro lado. embora os dados disponíveis permitam apenas análises impressionistas. N. uma forma de participação política e de questionamento de um sistema político dominado por anglos e francos. Isso não vale como regra geral para todo o mundo (como o já mencionado caso dos italianos nos EUA). 1978: 62-65). sem dúvida. especialmente na Canadian Union of Fascists. não temos dados sólidos sobre a base de recrutamento dos fascismos canadenses entre as comunidades imigrantes. não dispomos de muitos dados para avaliar a resposta dos italianos e filhos de italianos aos apelos dos fascistas canadenses. porém. com todo o mundo ocidental) foi a INTERFACES BRASIL/CANADÁ. mas a constatação não deixa de ser válida. uma informação-chave. na verdade. o Brasil ou a Argentina. ainda que a liderança fosse angla (Betcherman. Infelizmente. nesse sentido. o núcleo central da participação dos italianos ou de seus filhos no fascismo canadense. mas é difícil estabelecer qualquer quantificação. pode. imigrantes e filhos de imigrantes da Ucrânia e outros de língua alemã formavam a base dos movimentos fascistas locais. já que esse partido estava mais próximo do fascismo que do nazismo.205 força especial da extrema direita na província. Saber se os militantes nesses movimentos eram imigrantes ou canadenses filhos de imigrantes seria. havia italianos ao redor de Arcand. Com efeito. Uma hipótese a considerar é se a participação de filhos de italianos. O fato de a CUF ser. alemães ou ucranianos não seria também. sendo a situação canadense típica. aparentemente.11. 2010 .

Os conservadores de Bennett. aliás. quando Duplessis se tornou primeiro-ministro do Quebec. tendo Ménard até sido incorporado ao governo. Fica evidente que o objetivo dessas ligações. instrumental. a influência de ambos cresceu. de Arcand. O firme controle da máquina política canadense por parte das elites políticas foi realmente essencial para não dar espaço aos fascistas locais e a seu desenvolvimento. N.000 entre 1929 e 1936. deram 18. que objetivava evitar um crescimento exagerado do movimento de Arcand e. Arcand o ajudasse a enfraquecer os liberais em Quebec e para que este pudesse contar com um apoio mais consistente da imprensa em Montreal. 1983: 63). e mais 27. o que indica uma relação muito próxima à estabelecida pelo governo australiano com o movimento de Eric Campbell. bem como o efeito desastroso que a suspensão desse apoio teve sobre a possibilidade de desenvolvimento e de sobrevida de tais partidos. de um apoio dosado. Sob esse aspecto. para o caso de alguma eventualidade. O movimento contou com fontes de recursos que o sustentaram em momentos cruciais. para que. com esses arranjos. Arcand e Ménard encontraram novos padrinhos na conservadora Union Nationale.000 dólares aos jornais de Arcand em 1930. nos anos 30. era. RIO GRANDE. por parte dos conservadores. Tratava-se. por serem limitados. mantê-lo vivo. servia como órgão semioficial do grupo e. o qual rompeu seus vínculos com a direita radical tão logo se deu conta de que isso o prejudicaria frente a seu eleitorado (Betcherman. mas. Arcand chegou a ser contratado como diretor de publicidade em uma das campanhas eleitorais de Bennett no Quebec (Sher. no caso de Benett.206 importância do apoio recebido das elites dirigentes para a ascensão e a manutenção de vários partidos fascistas (e. do de Arcand). por exemplo. porém. pressionaram Bennett nesse sentido (Betcherman. ao mesmo tempo. especialmente. O jornal L’Illustration Nouvelle. 1978: 25-27 e 85-98). 2010 . Ademais. em 1936.11. O mesmo pode ser dito da relação de Arcand e de Ménard com Duplessis. INTERFACES BRASIL/CANADÁ. 1978: 25-27). de Maurice Duplessis. contribuíram para obstaculizar seu crescimento posterior. em essência. Vários líderes conservadores.

a rivalidade entre francos e anglos. igualmente já mencionado. No final dos anos 30. No caso canadense.11. o qual passou a se denominar apenas National Unity Party (Betcherman. Não foi à toa que. a maré foi se voltando realmente. Campbell e outros revelaram-se bastante incompetentes na tarefa de reunir os diferentes grupos da direita radical e de abrir negociações com as forças conservadoras.207 novamente. 1978: 119). como os de Arcand. RIO GRANDE. No entanto. havia uma especificidade no mínimo curiosa. Até a Igreja Católica do Quebec. e seu poder de aglutinação da direita radical é comprovado. Outro problema grave para a extrema direita nos países anglo-saxões. contudo. Whittaker. Adrien Arcand era um líder carismático. embora sua simpatia pelo fascismo italiano ou por grupos de extrema direita franceses ainda tenha persistido por um bom tempo. Arcand não tinha como remover completamente de sua própria imagem a associação com o nazismo. Adrien Arcand decidiu remover a suástica da bandeira e a expressão “Nacional Socialista” do nome de seu partido. e grupos como os veteranos de guerra passaram a se afastar do que viria a ser o inimigo. de que a crescente agressividade nazista significaria a guerra e que. assustada com o paganismo nazi. portanto. começou a repensar suas relações com grupos abertamente pró-nazistas. 2010 . ele tinha que lidar com um obstáculo típico da estrutura da política e da própria sociedade canadenses. além dos problemas gerais acima citados. O radicalismo e o excesso de chefes desejosos do poder supremo constituíam. o que foi danoso para seus sonhos de poder. foi a dificuldade em resolver o problema da liderança. pelos povos ocidentais. aos poucos. Hitler e seus amigos representariam inimigos também contribuíram para enfraquecer o fascismo no Canadá. INTERFACES BRASIL/CANADÁ. e não somente nesses países. qual seja. O Estado e a polícia aumentaram sua vigilância sobre eles. com efeito. entraves difíceis de superar. As alterações nas relações internacionais ocorridas nos anos 30 e a tomada de consciência. Mesmo assim. a situação canadense não difere muito da dos outros países de língua inglesa e mesmo do restante do Ocidente. N. contra os fascistas no Canadá. em 1939.

Arcand tentou resolver o impasse fazendo oscilar seu discurso de região para região. pois seu nacionalismo quebequense moderado e sua defesa do império e da unidade do Canadá o indispunham com os nacionalistas que queriam a Laurentia. por exemplo. no restante do Canadá. Mas. Betcherman (1978: 109) observa que ele tentava. este líder em um impasse. se ele enfatizasse demais os valores franceses e católicos quebequenses. indubitavelmente. Todos os grupos da direita radical apreciavam seu discurso destruidor do sistema liberal. Quando. era especialmente crítico em relação às ideias imperialistas e de unidade canadense defendidas por Arcand. não aceitavam seu flerte com a pagã Alemanha e sua posição pró-império e de aproximação com Mosley (Betcherman. A tal ponto que. enquanto. enfatizava seu respeito pela monarquia e pelo império. ele se aproximava mais de Groulx e de seus seguidores.11. 1978: 88). a unanimidade em torno dele terminava e os conflitos começavam. conciliar os dois principais grupos da política canadense. Arcand deveria tentar conciliar coisas inconciliáveis. 2010 . em seu esforço para se tornar líder de porte nacional. a rigor. INTERFACES BRASIL/CANADÁ. o que. se tratava de definir os contornos nacionalistas dessa nova ordem. e isso enfraqueceu enormemente seu potencial político. e favorável à implantação de uma nova ordem. portanto. N. RIO GRANDE. não havia como resolver o dilema. O grupo de Paul Bouchard. perderia apoio no restante do país. ao mesmo tempo em que sua recusa em romper totalmente os vínculos com o quebecanismo o tornava uma figura pouco confiável em setores anglos.208 Na verdade. Os jovens católicos e nacionalistas do Quebec. tem constituído uma eterna dificuldade para uma política nacional neste país. sem sucesso. Encontrava-se. da “ameaça judia” e do comunismo. porém. Em Montreal ou na cidade de Quebec. por exemplo.

ao mesmo tempo em que facilitaram o crescimento dos movimentos fascistas no Quebec. mas não mais que parcialmente. em geral. 2010 . porém. e sua disputa com o establishment anglo deu uma sobrevida ao fascismo na região. desagregaram-se e foram eliminados pela repressão nos anos 40. Por fim. porém. as disputas de poder entre anglos e francos. em que pesem as imensas diferenças de contexto. no pós-1945. pelo fato de as elites de todos esses países terem encontrado uma opção mais conveniente e menos perigosa do que a entrega do poder aos fascistas para a resolução dos problemas da época. só se reconstituindo. há algumas semelhanças relevantes. Houve. Divididos. grupos étnicos minoritários) e conseguiram mobilizar um apoio razoável entre os setores conservadores da sociedade. imigrantes e outros outsiders.209 Conclusões Em linhas gerais. Estes receberam algum apoio de conservadores como Bennett e Duplessis. é que. A opção fascista. identificados com o inimigo e sem grande potencial. a grande especificidade do fascismo INTERFACES BRASIL/CANADÁ. devido à falta de capacidade e aos erros dos líderes da extrema direita. O Quebec tinha uma cultura católica conservadora que propiciou um terreno fértil para o desabrochar de movimentos fascistas na província. com movimentos fascistas de relativa importância. pelo fato de os sistemas políticos terem conseguido bloquear a ascensão desta e. algumas especificidades de monta. RIO GRANDE. mas muito pouco frente ao que seria necessário para chegar ao poder. Os movimentos fascistas.11. setores da classe média. dificultaram a articulação de uma liderança nacional em torno de Arcand. atraíram os desajustados que não logravam ter o espaço desejado no sistema político (descendentes de imigrantes. O Canadá manteve-se quase completamente dentro desse padrão. especialmente. que atraíram grupos minoritários. mesmo depois de ele estar quase totalmente desacreditado no restante do país. não se concretizou. Em resumo. N. a conclusão a que chegamos. ao analisar o fracasso do fascismo nos países anglo-saxões.

London: Allen Lane. Sobre a Direita: estudos sobre o fascismo. p. ______. Centro Cultural Canadá. 20. Keith. 169-193. Robert.210 canadense em relação aos demais países de fala inglesa foi a presença do Quebec e da cultura francesa e católica na região. 1. Political violence and Public order: a study of British Fascism. Referências AMOS. Whittaker e Plínio Salgado: Interfaces entre el Universo Fascista de Brasil y del mundo Anglosajón. naquele período. 129-144. n. digamos. para o bem e para o mal. International Journal of Canadian Studies. Antifascistas italianos en los extremos de América: las experiencias de Brasil y Canadá. Melbourne: Melbourne University Press. p. Evidentemente. ______. The New Guard Movement. 2. v. Centro Cultural Canadá. em última instância. Entre Mosley. 1969. o grande elemento cultural que identifica o Canadá frente. Mas ela constituiu. 79-90. n. 2010 . a grande especificidade canadense no universo maior dos países predominantemente de língua inglesa. Como a presença da província francesa é. 1931-1935. Córdoba. mas colaborou. p. 19. Whittaker e Plínio Salgado: interfaces entre o universo fascista do Brasil e do mundo anglo-saxão. 2002a. como este texto procurou demonstrar. a simples existência do Quebec não é a única razão para os sucessos e os fracassos do fascismo no Canadá do entreguerras. ______. 2004. n. 2003. aos Estados Unidos e à Austrália. BENEWICK. João Fábio. ______. p.11. RIO GRANDE. N. 25. para obstaculizar a implantação de um fascismo nacional mais forte. Entre Mosley. esta é uma conclusão que faz todo sentido dentro da história canadense como um todo. Fascism and the Italian Immigrant Experience in Brazil and Canada: A Comparative Perspective. na verdade. Córdoba. n. Interfaces Brasil/Canadá. 2002b. BERTONHA. o nazismo e o INTERFACES BRASIL/CANADÁ. 57-68. Essa presença favoreceu a formação de um fascismo local e de uma cultura fortemente conservadora na região. 1976.

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