A Cobertura Proibida - Ailim Oliveira 03-12-2008

A Cobertura Proibida

O Suicídio, o jornalismo e o caso Pátio Brasil

A Cobertura Proibida
O Suicídio, o jornalismo e o caso Pátio Brasil

Ailim Oliveira Braz Silva

Brasília, dezembro de 2008

– Brasília. II. 146p. Ailim Oliveira Braz. Título. Liliane Maria Macedo. Orientadora: Prof.: il. 2008. orient. Nenhuma parte desta publicação poderá ser armazenada ou reproduzida por qualquer meio sem a autorização por escrito do autor. 2008. 2. A cobertura proibida: o suicídio. Machado. Suicídio. Jornalismo.Revisão de Texto Liliane Maria Macedo Machado Editoração Eletrônica Siula Soares Valentim Almeida Capa Rafiza Varão Ficha catalográfica Silva.. . 3. Todos os direitos reservados. Comunicação. Liliane Maria Macedo Machado Livro (graduação) – Universidade Católica de Brasília. 24 cm. o jornalismo e o caso Pátio Brasil Shopping / Ailim Oliveira Braz Silva. 1. Dra.

por este trabalho que iniciamos juntos. pelo esforço e apoio durante todos esses anos. por fazerem da educação uma prioridade em minha vida.À minha irmã Adelina. e à minha amiga “Louis”. . aos meus pais.

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Sérgio de Sá. Cynthia Rosa. de fato. E por ter conseguido. Paulo Marcelo. ao Adamson e à minha nova irmã Elaine Daniele. relembra o menino “quietinho” de um primeiro semestre distante. Aylê-Salassiê.ª Liliane Machado. fizeram a diferença em minha vida nesses anos de universidade: Elen Geraldes. mesmo aos “45 minutos do segundo tempo”. faz o que for preciso que a gente e Deus vamos estar aqui para ajudar!”. À prof.  . Lunde Braghini. tiveram participação nesse produto. pelas contribuições ao livro e conversas que certamente aumentarão a saudade dos tempos da faculdade. Bernadete Brasiliense e Ana Beatriz. Aos meus amigos-irmãos Geyzon. Iasbeck. Mauro Giuntini.ª Rafiza. Milton Cabral. E a todos os demais professores que. “mãezona” que um dia mostrou-me as ferramentas e. por acreditar em meu futuro e estar sempre ao meu lado para dizer: “meu filho. Ana Lúcia Medeiros. À minha avó. Ana Galluf. a quem também agradeço. Às professoras e amigas Nádia Gadelha e Maria Cecília. dar sentido à palavra orientação. Janara Sousa. que sempre fizeram de tudo para ajudar e tornar possível esse momento. pelo exemplo. Newton Scheufler. Sanches. pelo conforto e incentivo nos momentos de desesperança e que. À Adelina. Ivany Neiva. empenho e pelo voto de confiança. Fred.AGRADECIMENTOS À prof. Lu e Mila. Gustavo de Castro. André Carvalho. assim como Diândria. hoje. Florence Dravet. pelo amor que nos ensina ter à profissão e por nunca deixar-me esquecer dos “remedinhos”. À professora Liliana Ribeiro. certamente.

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............. Pátio Brasil: dê um pulinho aqui!.................................... 24 2.. Definições para o tema..1 Aspectos gerais sobre o suicídio. 39 3.................. 19 1.............. 11 Parte I – O suicídio 1......................... ... ... 68 4.2 Grupos de risco e próximas etapas................................. 79 Parte III – Caso Pátio Brasil 1......... por que manda....................  Jornalismo: quem manda......... O suicídio na imprensa................... 70 5........................ ..................... 41 Parte II – O jornalismo 1................................ 85 1...........1 A classificação durkheiminiana..... 62 3......... 47 2................. 19 1.................1 Quando a imprensa fala.................. 29 3.....................................2 Reflexos sobre a economia... ................................................Sumário Introdução............................................ 56 3............... 86 . como manda... 11 Por que falar sobre o suicídio?....................................................... tem muito a ensinar.........1 Shopping: um conceito da vida moderna............... Para começo de conversa.. Manual para jornalistas: a cobertura é possível...................... O que pensam os jornalistas...... O suicídio no Correio Braziliense............1 Ações práticas e resultados.................... ................................................... ... O Ministério da Saúde e as ações anti-suicídios... 25 2......... 36 3..............................

.........................1 Ponto de partida...... ....... 121 Referências...........................................................................................1 Números inexpressíveis.. 89 2.................... 111 Considerações finais............................ Mortes no shopping................................................................ 106 5..... .................................................................................................................. Informações distorcidas................................................................ 138 Anexo Iv................................................................ 101 3............................... 131 Anexo Ii.. 134 Anexo Iii............................................................. 99 3.................................................................... 93 2...................2............... 139 .................. 105 4................................... 97 2................................................................................ 91 2................4 Uma última tentativa..................... Orkut: onde o caso repercute................................................................... “Estamos dentro das normas”..... 127 Anexo I..3 Um caso oculto..................2 A busca continua.............................

em contrapartida à sugestão. eu estava inscrito em Metodologia de Pesquisa em Comunicação. Bianca Fragoso vivia a situação inversa: procurava. mais um suicídio aconteceu no Pátio Brasil Shopping. os comentários corriam à solta. Aceitei a sociedade. conscientizar as pessoas para interferirem na possibilidade de novas ocorrências. em 1997. fazia o professor se descabelar. Ao mesmo tempo em que a ajudaria na apuração. um livro-reportagem talvez. Todos sabiam que aquele não era o primeiro caso. propôs uma parceria. Apresentei a idéia à Bianca. Tentar entender os motivos que levam alguém a tirar a própria vida e. Para variar.INTRODUÇÃO Por que falar sobre o suicídio? A idéia surgiu por acaso. E. dia em que cursava a disciplina. Diante daquele fato. quem sabe. tamanha era a minha indecisão em relação ao meu futuro tema de pesquisa. para uma amiga matriculada na disciplina de Jornalismo Público e Investigativo. apreensiva. Poderíamos transformar a investigação em nosso tema de trabalho de conclusão de curso (TCC). começaríamos a escrever nosso pré-projeto de TCC. identificar o número de vítimas. levantar hipóteses para as causas das mortes. um assunto que lhe rendesse uma ótima reportagem investigativa. Estávamos por volta do mês de março de 2007. apresentando as mais diversas propostas de estudo. Na época. Ela empolgou-se e. Se me sobravam alternativas. mas ninguém se arriscava a dizer quantas mortes. como sugestão de pauta. enquanto na grande imprensa nada se noticiava a respeito. E no primeiro dia daquele mês. teriam acontecido no estabelecimento desde a inauguração. tamanha era a complexidade. Toda segundafeira. a cada semana. de fato. imaginei que seria interessante descobrir algo mais aprofundado. E foi o que . Mas não imaginava que o assunto daria “tanto pano pra manga”. Entrevistar testemunhas. fazia-o ler um artigo diferente.

que sentíamos mais curiosidade e interesse em estudá-lo do ponto de vista da comunicação. Fomos a campo e. eram os impactos psicológicos e sociais sofridos pela família e pessoas próximas da vítima. ética e não sensacionalista poderia contribuir para conscientizar a população e evitar novos registros de mortes voluntárias. tão absurdas. As histórias que ouvíamos sobre o suicídio eram tão variadas e. a cada fonte consultada. evitava o assunto. Por isso mesmo. E até em meio aos colegas de profissão (repórteres ou jornalistas professores) encontrávamos resistência para discutir sobre o suicídio. as estimativas de suicídio evoluíam a cada ano. Em todo o mundo. nem a segurança nem a administração podiam ou queriam falar sobre o assunto. No Brasil. Durante as primeiras investigações. mantivemos nossa linha de pesquisa. O foco A cobertura proibida . descobrimos que o Ministério da Saúde. automaticamente quase todos diziam: “falar sobre o suicídio é antiético”. de fato. mantinha o mesmo posicionamento. o assunto demonstrava maior relevância social e acadêmica. Desse modo. descobrimos que tão graves quanto o elevado número de suicídios. Sabíamos que a imprensa. Quando apresentávamos nosso tema de pesquisa. Defendíamos a idéia de que a cobertura consciente. “se aparecer na mídia. embora os números fossem relativamente baixos em relação aos padrões internacionais (16 suicídios a cada 100 mil habitantes). um grande silêncio pairava sobre a questão. “o código dos jornalistas proíbe reportagens sobre isso”. em algumas regiões os índices ultrapassavam 30 casos em determinadas faixas etárias. os agentes e os delegados só divulgavam alguma informação depois de muita insistência. por meio da Estratégia Nacional para Prevenção do Suicídio. No Shopping. Mas por quê? Matérias sobre o suicídio não influenciariam da mesma forma que reportagens de crimes passionais? A partir desses questionamentos. em alguns casos.12  Ailim Oliveira Braz Silva fizemos. vai ser uma onda de suicídios por aí”. Na delegacia. assumimos o objetivo de estudar a possibilidade de veiculação de notícias sobre o suicídio e reunir os resultados em um livro-reportagem. Com o tempo.

mas direcionado a estudantes e profissionais de comunicação. Queríamos usá-los como exemplos de ocorrências não noticiadas e propor um modelo de cobertura para o assunto em uma grande reportagem. acrescentei a abordagem teórica sobre a definição e as possíveis causas do suicídio. no primeiro semestre de 2008. E desmistificar a idéia de que o suicídio deve. de fato. fazer um livro. Depois de apresentar meu projeto à banca de qualificação. em números. e mostrei. dentre as regras que regem o jornalismo. Às histórias dessas ocorrências específicas. Assim.Ailim Oliveira Braz Silva  13 de nosso trabalho seriam os casos registrados no Pátio Brasil Shopping e suas vítimas. me levou a repensar o formato do produto. Para isso. porém. os jornalistas. um livroreportagem não seria o meio mais adequado. enquanto eu me comprometi a finalizar A cobertura proibida. e que servisse para diminuir os preconceitos que rodeiam a relação jornalismo versus suicídio. Apresentei os diferentes tratamentos dedicados ao assunto ao longo da história. a situação das mortes voluntárias em nossa sociedade atual. Pesquisaria para saber até que ponto as ações e recomendações do Ministério da Saúde estão sendo implementadas. Portanto. ao mesmo tempo em que investigaria se há. para se evitar matérias sobre o assunto. inquestionavelmente. A separação. percebi que preferia fazer algo mais teórico e fragmentado. encaixariam-se no produto de uma forma diferente. Os casos registrados no shopping não deixariam de ser relatados. alguma orientação. nome que desde o primeiro momento estava definido para o livro. Resolvi. principalmente. no entanto. eu e Bianca continuamos juntos na pesquisa até o final de 2007. pudessem aprender e entender um pouco mais sobre as mortes voluntárias. Meus objetivos passaram a ser produzir uma ferramenta pela qual as pessoas e. apresentando vários aspectos do suicídio. Meu trabalho Introdução . ser abolido das páginas dos jornais. “Louis” retomou um estudo que começara anteriormente. quando a dificuldade em conciliar nossos horários de trabalho nos obrigou a desfazer a parceria. então. analisaria como o suicídio é abordado no Correio Brasiliense e se os registros acontecidos no shopping foram noticiados.

em especial. mas ainda na primeira parte do livro. Entrevistei funcionários e freqüentadores do Pátio Brasil Shopping. reunidos sob o título “Definições para o tema”. E cheguei a um produto no qual reúno. o shopping não estaria sendo omisso diante de tantas ocorrências no estabelecimento? Que medidas estariam sendo tomadas para evitar novos casos? Em relação ao jornalismo. No segundo. exponho a forma como o suicídio tem sido encarado pelos jornalistas e as dúvidas que grande parte dos profissionais de comunicação possui a respeito da relação imprensa versus suicídio. optei por dividir o livro em três partes temáticas. onde as mortes voluntárias são encaradas como uma questão de saúde pública. sobre os casos ocorridos no Pátio Brasil Shopping. Finalmente. debrucei-me sobre obras da sociologia. Analisei a temática em publicações diversas. Já o segundo trecho do livro é dedicado ao jornalismo. apresento a temática contextualizada à nossa realidade atual. No capítulo inicial. psicologia e comunicação. “Para começo de conversa”. recupero conceitos teóricos sobre o suicídio com base em ensinamentos deixados ao longo da história por diferentes estudiosos. e as ações que têm sido desenvolvidas junto às comunidades em todo o país. empreendida pelo Ministério da Saúde. socialmente responsável e não sensacionalista de abordagem? No intuito de responder a essas e outras perguntas.14  Ailim Oliveira Braz Silva também teria um tom de denúncia. algumas verdades sobre o suicídio e. apresento a Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio. passeio por algumas A cobertura proibida . Para tentar explicar aonde teria surgido a idéia ou o posicionamento de se barrar a cobertura de mortes voluntárias. A primeira é dedicada exclusivamente ao estudo e definição do suicídio. a desinformação causada por não se noticiar o suicídio não seria pior do que esclarecer as dúvidas e conscientizar a população sobre um problema que só faz crescer? E caso a imprensa decida se abrir mais ao assunto. entre os quais destacam-se Émile Durkheim. em um novo capítulo. Para facilitar a compreensão. Nele. afinal. Albert Camus e Roosevelt Cassorla. sob diferentes focos narrativos e linhas de abordagem. haveria uma forma correta.

recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e apresentadas no capítulo 2. opto por escrever na primeira pessoa. Boa leitura!  Introdução . Espero que gostem e aproveitem ao máximo os resultados desse estudo. permito a liberdade do leitor para refletir e chegar às suas próprias conclusões. descrevo cada passo dado. Assim.Ailim Oliveira Braz Silva  15 histórias e teorias da comunicação. cada detalhe percebido. São descritas as vítimas e parte dos relatos sobre as mortes. converso com um representante do Pátio Brasil.5. evito ser o dono de uma verdade única e absoluta. ainda. também. onde mantenho um discurso mais aproximado da linguagem jornalística. Na tentativa de buscar uma identificação com o leitor. É lá que as mortes voluntárias ocorridas naquele shopping ganham voz. conforme pudemos comprovar ao longo do estudo. É nesse espaço que apresento a repercussão do assunto na internet. E antes de chegar às dicas para cobertura de suicídio. analiso como o jornal Correio Braziliense se referiu à temática nas semanas em que foram registradas mortes no Pátio Brasil Shopping. o número de suicídios ocorridos dentro e fora do estabelecimento. Mas por apresentar-me como um interlocutor que. revelo a opinião das pessoas sobre os casos e. Não por achar que o modelo de apuração realizado por mim deva ser seguido como exemplo. tinha acesso a informações variadas e deparava-se com situações múltiplas. cada dificuldade enfrentada. E ao deixar algumas questões em aberto. Dessa forma. É a terceira parte. a cada etapa. Mas é a terceira parte do livro que talvez desperte mais a curiosidade do leitor.

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Parte I – O suicídio .

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aproximadamente hum milhão de pessoas no mundo puseram fim à própria vida. Para começo de conversa Brasília. é importante atentarmos para a definição do tema em questão e sobre a situação geral das mortes voluntárias na atualidade. O Correio Braziliense.who. Sigilo? Posição da mídia para se evitar o incentivo à retirada da própria vida? Atitude para se preservar a imagem do estabelecimento e os interesses dos proprietários do shopping? Ou posição para resguardar a intimidade da família da vítima? O que. naquele ano. Nesse caso. os números seriam 20 vezes maiores.pdf>. principal jornal da cidade. pela mídia.1 Aspectos gerais sobre o suicídio O crescimento do número de suicídios é um fato concreto. traz como manchete: “Lula jura que não vai disputar 3º mandato”. ao passo que as estimativas indicavam um aumento de 60% nas taxas de suicídio. Em 15 anos. Acesso em: 30 mai. um dos mais freqüentados da capital? O suicídio é apontado como uma das dez maiores causas de morte em todos os países. superan1 Disponível em: <http://www. antes de chegarmos aos casos específicos de suicídio registrados no Pátio Brasil Shopping. Os dados assustam. O mesmo estudo revelou que. desde 1962. 1. 02 de março de 2007. afinal.1. alheios a mais um suicídio ocorrido no dia anterior. Todos os outros periódicos também parecem indiferentes.int/mental_health/prevention/suicide/en/suicideprev_ media_port. Isso representa a ocorrência de um caso a cada 40 segundos. 2008. nenhuma foto. sem considerar as tentativas. Nenhum registro. de uma morte voluntária ocorrida em um local público. e uma das três principais na faixa etária de 15 a 35 anos. o número de casos cresceu 59% no Brasil. E considerando-se a complexidade do assunto. em todo o planeta. de 1990 a 2004. segundo levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicado em 20001. no Pátio Brasil Shopping. nenhuma informação oficial sobre o caso divulgada. . estaria por trás da não veiculação.

Acesso em: 30 mai.5 casos por 100 mil habitantes. Genebra: WHO Statement. existem lugares no Brasil. 2008. 3 FLEISCHMANN.20  Ailim Oliveira Braz Silva do o aumento do número de mortes no trânsito (17%) e até o de homicídios (55%). Em nosso país. é apontada como responsável por aproximadamente 60% dos casos de morte voluntária de todo o mundo.br/portal/saude/cidadao/ visualizar_texto. A cobertura proibida .saude. 2008. a taxa de suicídios gira em torno de 4.3 Mesmo assim. onde os índices chegam a 30. Alexandra. segundo revelou estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Há países onde são registrados cerca de 16 suicídios a cada 100 mil habitantes. 4 MINISTÉRIO da Saúde. O percentual é considerado baixo em relação aos padrões internacionais. acidentes de transporte e suicídios no Brasil Fonte: SIM/DATASUS.pdf>. de 7 de maio de 2007. Grupo de Estudo de Violência. World Suicide Prevention Day 2008.int/mental_health/prevention/suicide/ wspd_2008_statement. como o Rio Grande do Sul. onde mais da metade das mortes acontecem por envenenamento com pesticidas. Disponível em: <http://www.who. Ipea. 2008.2 Gráfico 1 – Homicídios.cfm?idtxt=25605>. Disponível em: <http://portal. na Índia e no Japão. por exemplo. Sendo a maioria dos registros (40%) realizados na China.4 2 Estudo citado na revista Época.2 casos em determinadas faixas etárias. edição n.468. A Ásia.gov. Acesso em: 03 nov.

Em 2002. só na 1ª Delegacia de Polícia (DP) da Asa Sul foram registrados 77 suicídios. Tanto no Sul como em todo o país. é onde observam-se os maiores índices de mortes voluntárias no Brasil. registrou entre dois e sete suicídios por 100 mil habitantes. O Rio Grande do Sul caiu para o quarto lugar no ranking. 2005. vinte e três novos casos de morte voluntária já haviam sido registradas em 12 Parte I – O suicídio 5 D’OLIVEIRA. Já entre as mulheres. de janeiro a março de 2008. em comparação com os números masculinos.Secretaria de Vigilância em Saúde. se considerados em amostras isoladas revelam a gravidade da situação. a região Sul manteve-se acima dos 85. Nordeste. o número sobe para 100 mortes quando observadas apenas em 2007. Sendo os estados da Bahia e do Maranhão os de menor número de registros: cerca de apenas três casos.pdf>. conforme indicou a Divisão de Estatística e Planejamento Operacional (Depo) da Polícia Civil6 (ver tabela 1). o Amapá e o Mato Grosso do Sul. com o registro de três a quatro mortes voluntárias por 100 mil habitantes. a média de suicídios em âmbito nacional foi de aproximadamente dois casos. 2008. Acesso em: 30 out.Ailim Oliveira Braz Silva  21 A região que o estado integra. ocuparam os primeiros lugares na lista.gov. tanto na relação masculina como na feminina. Carlos Felipe Almeida.br/portal/arquivos/pdf/Suicidios. A Bahia manteve-se na lanterna. Brasília: MS . Considerando-se toda a região do Distrito Federal. Sudeste e Centro-Oeste oscilaram na faixa de 2 a 6. entre os anos de 2000 e 2007. em 11/04/2008. respectivamente. O Distrito Federal. Perfil epidemiológico dos Suicídios: Brasil e Regiões. a maior incidência de suicídios acontece entre os homens. No período de 1996 a 2002. . enquanto as regiões Norte. Segundo dados da Polícia Civil. Disponível em: <http://portal. com o registro de um caso. no mesmo período. saude. 6 Dados obtidos diretamente da Divisão de Comunicação (Divicom) da Polícia Civil do Distrito Federal. a média nacional masculina era de aproximadamente sete suicídios em cada 100 mil habitantes.5 casos por 100 mil habitantes. Embora os números pareçam inexpressíveis quando apresentados dessa forma. juntamente com Santa Catarina e Paraná. Enquanto o Mato Grosso. Enquanto que.

Se o mesmo índice de ocorrência se mantivesse até o final do ano.Bco Millenium 583871 . chegar-se-ia ao total de 92 suicídios. Tabela 1 – Número de suicídios segundo as cidades do Distrito Federal. em 2007 RegiÃo Administrativa Brasília Gama Taguatinga Brazlândia Sobradinho I Planaltina Paranoá Ceilândia Guará Cruzeiro A cobertura proibida Samambaia Santa Maria São Sebastião Recanto das Emas Lago Sul Riacho Fundo I Lago Norte Águas Claras Riacho Fundo II Sudoeste Estrutural Sobradinho II TOTAL jan     1 2 1     2 1         1       1         9 fev 1 1 1   1             1                     5 mar 2                         1                 3 abr 2   1     1   2     1                   1   8 mai 2 1           2     1 1   1   1     1       10 jun 3 1 1 1   1   1     1 1   1     1         1 13 jul   1 3   1         1   2 1       1           10 ago     1   1 1           1   1 1     1         7 set 2 1 1                   1                   5 out 2     1 1     6 1                           11 nov 1   1       1 1     2 2         1   1       10 dez 1 1 1         1       1 1 1 1         1     9 TOTAL 16 6 11 4 5 3 1 15 2 1 5 9 3 6 2 1 3 2 2 1 1 1 100 Fonte: DEPO .22  Ailim Oliveira Braz Silva de 19 regiões administrativas do DF.

int/mental_health/ prevention/suicide/suicideprevent/en/>. e pouco mais de 600 femininas. As taxas refletem a predominância de suicídios entre idosos do sexo masculino. são eles o grupo em maior risco. no ano de 2002. familiar ou individual). Dentre as pessoas que viveram essa experiência em 2003. Disponível em: <http://www. agora. deixando seqüelas graves no indivíduo. houve mais de 750 internações masculinas. dentre as mortes voluntárias. 8 World Health Organization WHO.Ailim Oliveira Braz Silva  23 Se considerada a faixa etária dos suicidas. Parte I – O suicídio 7 D’OLIVEIRA. Mas entre os jovens os números têm aumentado de tal forma que. na maioria das vezes os suicídios acontecem depois de várias tentativas. por sexo. situava-se em dois pontos principais a maior incidência das mortes masculinas: dos 40 aos 54 anos e dos 70 aos 75. o método usado pela pessoa para tirar a própria vida. Naquele período. o Ministério da Saúde monitora. E embora o ato suicida resulte de uma série de fatores socioculturais e tenha maiores chances de ocorrer durante períodos de crise (socioeconômico. na faixa etária dos 20 aos 24 e dos 35 aos 39 anos (considerando-se os dois grupos separadamente). de jovens entre 15 e 19 anos. identificada entre os anos de 1996 e 2002. Além de manter um banco de dados sobre o número de mortes e quais delas foram realizadas por meio de suicídio. 2008. o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM)7 do Ministério da Saúde indica que. Porém. em um terço dos países. O gráfico abaixo apresenta a diferença. 2005. Enquanto o enforcamento e o estrangulamento foram os métodos mais freqüentes nos casos envolvendo mulheres. era na faixa a partir dos 75. Acesso em: 03 nov. . como veremos mais à frente. No caso das mulheres. foi predominante entre os homens o uso da arma de fogo. os distúrbios mentais estão associados a mais de 90% do total de casos8.who.

9 um grupo de pesquisadores do Ipea constatou que “a perda de vidas humanas representa [. 2007.ipea. em 2001. município de residência e grau de escolaridade – com as curvas médias 9 CARVALHO. E cruzaram informações do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) do MS – idade. 2008.2 Reflexos sobre a economia Além dos impactos sociais e psicológicos. de capacidade produtiva”.24  Ailim Oliveira Braz Silva Gráfico 2 1. Alexandre X.gov.br/sites/000/2/publicacoes/tds/td_1268. Brasília: Ipea. Disponível em: <http://www.. portanto. Ao investigarem os Custos das mortes por causas externas no Brasil. os pesquisadores mapearam o perfil das vítimas de mortes por causas violentas. Para obterem esse resultado. O estudo considerou as bases de dados de renda dos trabalhadores do IBGE e da de óbitos do Ministério da Saúde e concluiu que a perda de produção devido aos suicídios. chegou a R$ 1.3 bilhão. gênero. pdf >.. as mortes voluntárias provocam impactos também sobre a economia do país. Acesso em: 30 out. Custos das mortes por causas externas no Brasil.] enorme perda de investimentos em capital humano e. A cobertura proibida . et al.

o suicídio. o gênero e o estado de residência da vítima revelaram ter havido perda em torno de R$ 20. Entendido por Albert Camus como o único “problema filosófico realmente sério”10. de fato. separado por categoria.3 bilhão. a pesquisa considerou que nem todos viveriam até a idade delimitada. 3. R$ 5. Para cada indivíduo morto foi atribuída a renda de trabalho média possuída caso permanecesse vivo em todo o seu período produtivo (dos 15 aos 65 anos). Enquanto a perda apresentada pelos suicídios foi de R$ 1. os homicídios foram responsáveis por R$ 9. 2. o soldado atingido por um tiro por estar à frente do pelotão. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. Para evitar distorções. p. divergiam na forma de entender e tratar o assunto. Parte I – O suicídio . Émile Durkheim. Albert. estaria cometendo um suicídio da mesma forma 10 CAMUS. E estimou os rendimentos de acordo com o sexo e com a área geográfica do país. Definições para o tema Ao longo da história. O mito de sísifo: Ensaio sobre o absurdo. Considerado um dos precursores na abordagem do tema. o que representa R$ 163 mil perdidos ao ano. para cada vítima de morte voluntária. a partir dos microdados da Pnad. ele defendia a idéia de que as causas das mortes voluntárias são de natureza social. as estimativas de rendimento médio versus a idade do indivíduo. mas admitia ser difícil especificar o que é.1 bilhões na produção brasileira em 2001. e pelo pelotão. o suicídio ganhou reconhecimento por meio do trabalho do sociólogo francês. A complexidade do problema começava já em sua definição. Desse total. 1989. Para Durkheim.1 bilhões. vários estudiosos dedicaram-se à pesquisa sobre o suicídio e.4 bilhões. encontradas a partir da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (Pnad). Postas em tabelas.23. Os acidentes de trânsito. na maioria das vezes.Ailim Oliveira Braz Silva  25 de rendimentos. ed.

14 Ibid. psicológicos. Trata-se de um evento que ocorre como culminância de uma série de fatores que vão se acumulando na biografia do indivíduo. p.12 Ele explica que essa pulsão está presente em todos nós e manifesta-se individualmente ou em grupos. p. no entanto. Cassorla também apresenta uma discussão ampla sobre o assunto.14 11 DURKHEIM. são diferentes. pode acontecer que uma atitude puramente negativa ou uma simples abstenção tenham a mesma conseqüência. etc. 18. e o relaciona a “teorizações e derivações dos conceitos freudianos de pulsão de morte”.ed São Paulo: Papirus. 20. S/D. geralmente. no entanto. independentemente da forma escolhida para se suicidar. havendo sempre “uma luta constante entre vida e morte. essa última acaba sempre vencendo. No ser humano individual. as variáveis do que leva alguém a tirar a própria vida são tantas que não há uma causa específica para o suicídio.. As pessoas tanto se matam pela recusa de se alimentarem como pela destruição pelo ferro e pelo fogo. p. 2. O que se chama ‘causa’ é.. Do suicídio: estudos brasileiros. o elo final dessa cadeia. o sujeito é autor de sua própria morte.26  Ailim Oliveira Braz Silva que o comerciante que atirou-se pela janela para fugir da humilhação da falência. Embora de uma maneira geral o suicídio seja pensado como uma acção positiva e violenta que implica um investimento de força muscular. direta ou indiretamente. biológicos. culturais. As causas. Em Do Suicídio. 12 CASSORLA. 1998.13 Segundo Cassorla. . em termos de espécie. p. Émile. O suicídio: estudo de Sociologia. Roosevelt Moises Smeke. 13 Ibid. Genebra. em que entram em jogo desde fatores constitucionais até fatores ambientais.11 A cobertura proibida Émile Durkheim. 9. Mas. destaca para o fato de que. já que. a vida continua”. a natureza do fenômeno não se altera. 19.

segundo os padrões da psiquiatria tradicional”. p. Segundo ele. da mesma forma que uma grande obra. na maioria das vezes. 24. 17 CAMUS. Podemos. a indefinição do tema e suas causas acabam por refletiremse negativamente na sociedade. não encontraremos doenças mentais identificáveis clinicamente. não se matam necessariamente pelo mesmo motivo. estar certos de que há várias espécies de suicídios que se distinguem qualitativamente uma das outras15. a ponto de se poder evitar o pior. e “em mais de 50% dos casos dos suicídios. inidentificáveis. em muitos casos. Durkheim também assimila as causas de suicídio a fatores diversos e. p. “um gesto como este [o suicídio] se prepara no silêncio do coração. E apesar de viverem em uma mesma sociedade.Ailim Oliveira Braz Silva  27 De forma generalista. mas sim suicídios. o que se obtém. Sem dúvida que o suicídio é sempre o acto de um homem que prefere a morte à vida. 1998. um suicida agricultor e um suicida advogado.17 E por mais que se acredite conhecer a pessoa. Uma tarde. 16 CASSORLA. Para ele. encontramos em Camus. 1989. O próprio homem o ignora. 325. É “menosprezado e maltratado pelos seus próximos e por equipes de saúde despreparadas”. é impossível que a diferença das causas não incida sobre os efeitos. portanto. ele dá um tiro ou um mergulho”. “é provavelmente certo que um homem permanece para sempre desconhecido de nós e que para sempre haverá nele alguma coisa de irredutível que nos Parte I – O suicídio 15 DURKHEIM. são especulações. E. Ora. Se a falta de um consenso sobre o suicídio existe até mesmo entre os especialistas.16 A resposta para essa última questão. opõem-se mesmo. p. Mas nem sempre as causas que o determinam são da mesma natureza: por vezes. . por exemplo. possíveis causas levantadas por pessoas próximas à vítima. ainda hoje o indivíduo que opta por tirar a própria vida é tratado de forma inadequada. S/D. O fato de ser um autor contemporâneo permite a Cassorla comparar e situar seus estudos à realidade atual. 24. segundo ele. Não há suicídio.

“Começa”. a conseqüência: suicídio ou restabelecimento. bonde.30. Essa percepção. essa estrada se sucede facilmente a maior parte do tempo. Os jornais falam freqüentemente de “profundos desgostos” ou de “doença incurável”.18 Até porque. 20 CAMUS. nem sempre implica na busca por novos objetivos e práticas na vida. No extremo do despertar vem. 1989. Pois isso pode ser o suficiente para precipitar todos os rancores e todos os aborrecimentos ainda em suspensão. mas inaugura ao mesmo tempo o movimento da consciência.19 Também pode acontecer de os mesmos fatores que levam alguém a se matar poderem despertar a consciência da pessoa para a necessidade de mudança.. A rotina pode ser um desses fatores. esse “tiro” ou “mergulho” pode ter sido motivado por algum tipo de influência. em muitas das vezes. bonde. p. Um dia apenas o “porquê” desponta e tudo começa com esse cansaço tingido de espanto. . sexta e sábado no mesmo ritmo.20 18 Ibid. A continuação é o retorno inconsciente à mesma trama ou o despertar definitivo. quatro horas de trabalho. quinta. refeição. 19 Ibid. p. isso é importante.. tanto pode contribuir para um “despertar definitivo” e resultar no restabelecimento de determinada vivencia cotidiana.30. Ela.28  Ailim Oliveira Braz Silva escapa”. E podem resultar na pura e simples desistência do indivíduo. porém. quarta. O cansaço está no final dos atos de uma vida mecânica. p. A cobertura proibida Levantar-se. com o tempo. Ele a desperta e desafia a continuação. conforme explica Camus. Essas explicações são válidas. como pode acabar por induzir ao suicídio. terça. refeição. e segunda.25. Este é o culpado. sono. quatro horas de escritório ou fábrica. Mas seria preciso saber se no mesmo dia um amigo do desesperado não lhe falou em tom diferente.

S/D.1 A classificação durkheiminiana Com base em registros de mortes voluntárias ocorridas na Europa do século XIX. 23 CAMUS.Ailim Oliveira Braz Silva  29 Muitas vezes. acredito. Albert Camus acrescenta o exemplo das pessoas que “paradoxalmente se fazem matar pelas idéias ou as ilusões que lhes proporcionam uma razão de viver (o que se chama uma razão de viver é. “a morte é vista como a solução – não porque se deseja a morte. no caso dos homens-bomba. uma realidade. E nas sociedades capitalistas. sentimentos opostos a esses. como as apresentadas acima. o suicídio torna-se. 1989. também podem levar o indivíduo ao mesmo fim. ou mesmo quando sente-se satisfeito o bastante a ponto de não haver mais nada a conquistar. conforme observa Durkheim22. ao mesmo tempo. a vida na sociedade torna-se desigual. 22 DURKHEIM. Isso porque. 1998. outros nascem desprovidos dessa garantia. mas porque a vida se torna insuportável”21. como a satisfação plena das necessidades e as conquistas. p. 24. . inevitáveis na economia de mercado. Durkheim confrontou as estatísticas da época com as várias hipóteses aceitas para o suicídio até então. diante de situações de sofrimento. como acontece. 290. Parte I – O suicídio 2. diante das inúmeras crises e perturbações econômicas. Mas. Diferenciações causais para o suicídio. E concluiu ser impossível 21 CASSORLA. também. Isso os leva à necessidade de buscar a satisfação com o próprio esforço. conforme apresentaremos a seguir. A esse respeito. Ao perceber-se distante da realização de suas vontades. p. foram analisadas por Durkheim em O Suicídio. no capitalismo. p. e classificadas em grupos distintos. a pessoa passa a considerar a morte a única saída para o seu problema. uma excelente razão de morrer)”23. 22. Enquanto uns nascem com muitas de suas necessidades e vaidades capitais garantidas por herança.

. p. a fatores raciais. conforme acreditavam os estudiosos. Segundo esse autor. o que se transmite de pai para filhos é apenas um certo temperamento que pode predispor os sujeitos para o suicídio mas que não pode constituir uma explicação da determinação destes. ele reconhece a intensificação das relações humanas durante os dias mais quentes. ela convence-se de que teria o mesmo destino e. os índices variariam simultaneamente. cósmicos e psicopatológicos. Mas se. tenta matar-se. A tese. S/D. porém. E. seguido do de seu pai.83.30  Ailim Oliveira Braz Silva relacionar as ocorrências. de outro. por exemplo. Para descartar a possibilidade de hereditariedade do suicídio. como não poderia evitá-lo.25 A influência do clima na ocorrência de suicídios também era fortemente defendida pelos pesquisadores da época. além disso.76. enquanto diminuía no inverno (de julho a dezembro). Eles observaram que a incidência desse tipo de morte aumentava durante o verão europeu (de janeiro a junho). foi desmentida por Durkheim. A cobertura proibida 24 DURKHEIM. depois de vivenciar o suicídio de um tio. e não nos períodos mais quentes do ano. 25 Ibid. Diante dos fatos. Quando se diz do suicídio que é hereditário. se a temperatura fosse a causa das mortes. Mas a idéia de suicídio só escapa-lhe da mente quando a mãe revela que o pai da garota não é o suicidado. por um lado. p. hereditários. tentativa. pretende-se apenas dizer que os filhos dos suicidas são inclinos a conduzir-se como eles nas mesmas circunstâncias? Nestes termos a proposição é incontestável mas sem qualquer interesse. no entanto. Durkheim cita um exemplo dado por Luys24. Para o sociólogo.. visto que não é o suicídio que é hereditário. uma menina ficou abalada. Durkheim descarta a influência do clima nas ocorrências de suicídio. falha. o suicídio atingia o nível mais alto de incidência no mês de junho (considerado mais ameno).

. ser menos freqüente entre os solteiros e mais 26 DURKHEIM. Dessa forma. as atividades sociais acabam com o por do sol e as atividades agrícolas cessam durante o inverno. a luz artificial substitui a solar. religião e política. [. é natural que estes se tornem mais numerosos à medida que os dias crescem. prolongando as horas de atividades humanas e.] O dia favorece o suicídio porque é o momento em que se desenvolve uma actividade maior. porém.27 Parte I – O suicídio Convicto de que a inclinação para o suicídio se daria por fatores sociais. Na cidade. Este depende de condições sociais. analisa possíveis fatores de influência como família. As poucas informações que temos sobre a maneira como o suicídio se reparte entre as diferentes horas do dia ou entre os diferentes dias da semana confirmam esta interpretação. p.112-113.Ailim Oliveira Braz Silva  31 Se as mortes voluntárias se tornam mais numerosas de Janeiro a Junho. A preponderância dos suicídios diurnos é evidente. É claro que. portanto. também seria esse o motivo do descompasso entre o número de mortes por suicídio na zona rural e na zona urbana. é porque a posição do sol na eclíptica. debater e desqualificar as teorias até então defendidas. Mas não é o meio físico que a estimula directamente. o estado da atmosfera. 27 Ibid. apesar das relações humanas também diminuírem nos períodos frios.. Conclui haver maior incidência de mortes voluntárias entre os católicos que entre os protestantes.26 Dessa forma. Durkheim desdobra. No campo. é porque a vida social é mais intensa.. p. não é porque o calor exerce uma influência perturbadora nos organismos. Se portanto o dia é mais fecundo em suicídios que a noite. em que a vida social é mais intensa. lhe permitem desenvolver-se mais à vontade que durante o Inverno. sobretudo não é ele que afecta o andamento dos suicídios. S/D. . em que as relações humanas se cruzam e entrecruzam. etc.106. se adquire esta intensidade. aumentando as possibilidades de suicídio.se ao longo de seu livro para apresentar.

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entre os casados, além de afirmar que as pessoas com filhos também estão mais propensas se comparadas às pessoas sem filhos. Inclusive dentre os soldados de guerra, onde acreditava-se existir uma maior predisposição para o suicídio, Durkheim defende acontecer o inverso. Tendo em vista que a causa do suicídio, segundo o sociólogo francês, está na quebra de vínculos e laços de solidariedade entre os indivíduos, as chances de um combatente tirar a própria vida são bem inferiores comparadas às de civis.
Os grandes abalos sociais assim como as grandes guerras populares excitam os sentimentos colectivos, estimulam o espírito de partido. [...] Como obrigam os homens a unirem-se para enfrentarem o perigo comum, o indivíduo pensa menos em si e mais no objectivo comum28.

Desse modo, a busca pela vitória ou pela conquista torna-se um fator de integração entre os soldados, fortalece vínculos, e inspira o sentimento de dependência de uns para com os outros, enquanto sentem-se responsáveis pela sociedade que defendem.
A cobertura proibida

Quando a sociedade está fortemente integrada, mantém os indivíduos na sua dependência, considera que estão ao seu serviço e, por consequência, não lhes permite dispor deles próprios a seu bel-prazer... Com efeito, quando se sentem com responsabilidades perante um grupo que amam, para respeitarem interesses que se sobrepõem aos próprios, vivem com mais obstinação29.

Quando acontece o processo oposto e a pessoa é atingida pelo “individualismo excessivo”, conforme define Durkheim, as “ações suicidogêneas” são favorecidas. Isso porque

28 DURKHEIM, S/D, p. 233. 29 Ibid., p. 234-235.

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Quanto mais estão enfraquecidos os grupos aos quais pertence, quanto menos dependerá deles, tanto mais, por conseguinte, dependerá só dele e passará a reconhecer unicamente as regras de comportamento que se baseiam nos seus interesses particulares. Se assentarmos portanto em chamar egoísmo a este estado em que o eu individual se sobrepõe exageradamente ao eu social e o prejudica, poderemos dar o nome de egoísta ao tipo particular de suicídio que resulta de uma individualização excessiva30. Assim, Durkheim atenta para o fato de a vida do ser humano se “desabrochar” e “desenvolver” a partir de ações da sociedade. Dessa forma, os credos religiosos, políticos e morais que dirigem nosso comportamento, a cultura, o conhecimento e os hábitos da vida cotidiana são assimilados, por todos nós, por meio das interações sociais. E quando participar dos grupos da comunidade (família, igreja, trabalho, escola) já não faz mais sentido para o indivíduo, a vida para ele, da mesma forma, perde o valor. Segundo o sociólogo francês31, “a vida só é tolerável se tiver uma razão de ser”. Sozinho e sem identificar, em si próprio, algum motivo que o desperte para a vida, o egoísta entrega-se à morte. O que o leva a cometer o suicídio é a certeza de sua existência estar limitada no tempo e no espaço. E sendo o seu fim inevitável, por que não antecipá-lo?
Na medida em que se sente menos solidário do grupo religioso a que pertence e se emancipa dele, na medida em que o indivíduo se alheia da família e da sociedade, torna-se um mistério para si próprio, não conseguindo assim escapar à irritante e angustiante pergunta: para quê?32

Parte I – O suicídio

Do “suicídio egoísta” Durkheim separa outro tipo de suicídio: o altruísta. Se naquele o indivíduo era tomado pelo individualismo excessivo, nesse ocorre uma individualização insuficiente da pessoa em relação
30 DURKHEIM, S/D, p. 234.. 31 Ibid., p. 235. 32 Ibid., p.238.

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à sociedade. Dessa forma, o desprendimento e a renúncia, indicados pelo termo “altruísmo”, referem-se ao indivíduo em relação a si mesmo. E são os fatores externos que, diretamente, levam a pessoa a dar fim à própria vida. Ao apresentar essa classificação no livro Morreu na Contramão, Arthur Dapieve questiona se a morte de Jesus Cristo não teria sido um ato suicida altruísta: “ao caminhar para a morte certa, consciente de ser ela sua missão na Terra, seria o abençoado Jesus tão suicida como o amaldiçoado Judas?”.33. Como a crucificação de Cristo foi motivada por sua relação com a humanidade, a resposta para o questionamento de Dapieve poderia ser positiva. Afinal, “o termo altruísmo exprime bastante bem o estado [...] em que o eu não pertence a si próprio, em que se identifica com outra coisa que lhe é exterior, em que o pólo da conduta reside fora dele e se atua num dos grupos a que pertence”34. Acontece, porém, de a classificação como altruísta não abranger adequadamente todos os suicídios derivados da individualização insuficiente do indivíduo. As motivações podem possuir intensidades e objetivos diferentes. Tanto que contribuíram para a subdivisão dessa categoria de morte voluntária em três subgrupos: – Quando executado como dever, o suicídio é especificado como “altruísta obrigatório”. É o caso, por exemplo, de comunidades européias do século XVIII, nas quais considerava-se “uma vergonha o facto de morrer na cama, de velhice ou de doença”35, levando as pessoas enfermas a suicidarem-se para fugir dessa situação. Nesse caso, as pessoas matavam-se, de certa forma, por uma imposição social. – Quando não são impostos pela sociedade, mas apoiados, os suicídios altruístas classificam-se como “facultativos”. Nesse caso, matar-se não é uma obrigação. Mas “louva-se todo aquele que ao
33 DAPIEVE, Arthur. Morreu na contramão: o suicídio como notícia. São Paulo: Jorge Zahar, 2007, p. 35. 34 DURKHEIM, S/D, p.234. 35 Ibid., p.244.

como a doméstica.] as crises industriais ou financeiras fazem aumentar os suicídios. p. uma desregulamentação da rotina na vida do cidadão”38. Isso porque. 35 DURKHEIM. o “agudo”. ou inclusive. DAPIEVE. isto é. cit. 282.254.. Ibid. S/D. ele apresenta outros tipos de anomia. no entanto. sente-se desmotivado pela vida. ainda mesmo que dela resulte um bem-estar maior e uma maior vitalidade geral.39 Parte I – O suicídio Em seus estudos. não é porque elas façam empobrecer. dado que as crises de prosperidade têm o mesmo resultado.36 A morte é encarada socialmente como uma virtude por acreditar-se em “melhores perspectivas para além desta vida”. o homem mata-se mais facilmente. 2007. Mas além da desregulamentação econômica. .. é o “suicídio anômico”. situa-se o suicídio mítico e os praticados por fiéis ou mártires.. 36 37 38 39 DURKHEIM. O tipo de suicídio mais comum. sejam elas devidas a um súbito movimento de crescimento ou a um cataclismo inesperado. Todas as vezes que se produzem no corpo social graves modificações. Durkheim comprovou que o aumento da miséria e o aumento de situações felizes agem sobre o suicídio da mesma forma que os desastres na economia.37 – Já na terceira classificação do suicídio altruísta. 250-251. p. A anomia é “a ausência de lei ou de regra. op. quem imagina ser o suicídio anômico causado apenas por abalos ou transformações negativas. Se [.. é porque se tratam de crises. por simples exibicionismo. quando a desestruturação familiar eleva a predisposição do cônjuge sobrevivente à morte. Qualquer ruptura de equilíbrio.Ailim Oliveira Braz Silva  35 mínimo pretexto. Nessa classificação enquadra-se. se recusa a viver”. porém. p. desacostumado à nova situação. p. perturbações da ordem colectiva. por exemplo.. que acaba por atrair o indivíduo para a morte. Engana-se. os suicídios cometidos no início da viuvez. incita à morte voluntária.

E. deixando-as incapazes de se controlarem”. depois do aumento do número de registros. o sociólogo faz questão de explicitar a diferença entre cada uma delas: Nas nossas sociedades modernas. .40 Dessa forma. pouco mudou o tratamento dedicado ao assunto. a anomia é um factor regular e específico de suicídios [. No caso do suicídio egoísta ela “está ausente em relação à actividade propriamente coletiva.41 A cobertura proibida 3. p. enquanto o suicídio anômico “no mundo industrial ou comercial”. S/D. direta ou indiretamente. 299. cit. o suicídio egoísta é apontado como o mais freqüente “no seio das profissões intelectuais. Já no suicídio anômico. não pela maneira como os indivíduos estão ligados à sociedade. O suicídio egoísta provém do facto de os homens não encontrarem uma justificação para a vida. todas as classificações dadas por Durkheim ao suicídio relacionam-se a fatores sociais. 41 DURKHEIM. deixando-a deste mo do sem objectivo nem significado”. cuja existência acabámos de constatar.. Ambos caracterizam-se pela ausência da sociedade no espírito dos indivíduos. o terceiro tipo de suicídio. De crime e pecado mortal. as mortes voluntárias passaram a ser encaradas como um problema de 40 DURKHEIM.. O Ministério da Saúde e as ações anti-suicídios Mais de cem anos se passaram desde a publicação de O Suicídio. embora esta relação nem sempre se apresente claramente. provém do facto de a actividade dos homens estar desregrada e do facto de eles sofrerem com isso. o suicídio altruísta do facto de esta justificação lhes parecer estar para além da vida. “é em relação às paixões propriamente individuais que se sente a sua falta [da sociedade]. S/D. de forma geral. no mundo pensante”.36  Ailim Oliveira Braz Silva Como percebe-se.] Distingue-se (dos outros tipos de suicídio). mas. mas pelo modo como esta os regula. loc..

E. Grande parte dos casos de morte por suicídio. Acesso em: 30 mai. Sem contar o despreparo existente.Ailim Oliveira Braz Silva  37 saúde pública. Com o objetivo de mudar essa situação. inclusive. Disponível em: <http://www. e também das tentativas. Além disso. estão associados a pessoas com transtornos mentais ou que apresentam problemas em decorrência do uso de álcool e drogas. encarregou a Área Técnica de Saúde Mental do MS de criar um Grupo de Trabalho (GT) para implementar medidas de controle das mortes voluntárias. Tudo isso. dentre as equipes médicas. algum atendimento médico ou psicológico.who. considerando-se os impactos sociais e psicológicos sofridos pela família e pessoas próximas da vítima. e considere o tema um assunto delicado e proibido.int/mental_health/prevention/suicide/en/suicideprev_ gp_port. nas semanas anteriores ao ato. Para isso. segundo a Organização Mundial da Saúde. chegou-se à definição de um grupo43 que reúne: 42 De acordo com a OMS. ainda hoje há quem assimile o suicídio apenas a pessoas loucas. Essas ações tiveram início em 2004.pdf>. para promover uma série de medidas preventivas e conscientizadoras. Se as equipes de saúde estivessem preparadas. pelo menos. de 22 de dezembro de 2005. o Ministério da Saúde (MS) brasileiro tem se empenhado. 43 BRASIL. o Ministério da Saúde mapeou instituições e organizações de todo o Brasil que já vinham realizando pesquisas e ações de atenção ao suicídio. acabam por prejudicar o controle e estudo do suicídio e por reforçar o seu entendimento como um tabu. Institui Grupo de Trabalho com o objetivo de elaborar e implantar a Estratégia Nacional de Prevenção ao Suicídio Parte I – O suicídio . Desse modo. embora o suicídio seja um problema evitável42. a Área Técnica de Saúde Mental era a mais indicada para gerenciar a implantação de uma política específica. 2542/GM. Portaria n. Por quase um ano. estima-se que uma única morte voluntária afete. aliado à falta de especificações para o preenchimento dos atestados de óbito. A escolha por esse departamento não foi aleatória. Mesmo assim. quando o governo federal percebeu a necessidade de intervir na situação e colocar em prática acordos internacionais em defesa e valorização à vida. nos últimos anos. 2008. outras seis pessoas. grande parte das pessoas que cometem suicídio procuram. esse poderia ser um momento adequado para intervenção.

de 22 de dezembro de 2005.saude. de 14 de agosto de 2006. 44 O programa foi lançado em 1999. pela portaria45 1876. • um representante da Secretaria de Vigilância na Saúde (SVS).who. . • um representante da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). • um representante do Núcleo de Epidemiologia do Instituto Phillipe Pinel.int/mental_health/prevention/suicide/en/suicideprev_gp_port.br/sas/PORTARIAS/Port2005/GM/GM-2542. • e um representante do Centro de Valorização da Vida (CVV).br/sas/PORTARIAS/Port2006/GM/GM-1876. Com base nas experiências individuais de cada instituição representada.pdf>. • um representante do Núcleo de Estudos de Saúde Coletiva (Nesc). • um representante da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (Segets). Portaria n. Institui Diretrizes Nacionais de Prevenção do Suicídio. Acesso em: 30 mai. As regras e objetivos do GT seriam instituídos no ano seguinte. saude. O Grupo de Trabalho foi instituído pela portaria 2542/GM. 1876. Disponível em: <http://dtr2001. BRASIL.htm>. • um representante do Suicide Prevetion Program44 (Supre) da Organização Mundial da Saúde (OMS). organizar uma rede de atenção que atenda de for- A cobertura proibida Disponível em: <http://dtr2001.gov. teria como objetivo elaborar e implantar a Estratégia Nacional de Prevenção ao Suicídio e definir as diretrizes de atuação. respeitadas as competências das três esferas de gestão. do Rio de Janeiro. 2008. htm> Acesso em: 12 nov. 45 Ver anexo II. 2008. a ser implantada em todas as unidades federativas. de 14 de agosto de 2006.38  Ailim Oliveira Braz Silva • três representantes da Secretária de Atenção à Saúde. • um representante da Universidade de Brasília (UnB). Desde então. como uma iniciativa mundial para a prevenção do suicídio. 2008. melhorar a notificação dos casos de tentativa de suicídio. o grupo se comprometeu a promover a capacitação dos profissionais de saúde. • um representante da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS). Acesso em: 12 nov.gov. Disponível em: <http://www.

e recuperação”. “Temos de apresentá-lo para a sociedade de uma forma que 46 São exemplos dessas publicações o Manual de Prevenção do Suicídio para Profissionais das Equipes de Saúde Mental. em Montevidéu. os membros têm realizado entre uma e duas reuniões anuais. durante uma entrevista exclusiva realizada na sede do Ministério da Saúde. Tirar o suicídio das sombras sempre foi considerado um dos maiores desafios. Sobreviventes e Família. incluindo uma dirigida especialmente a profissionais da mídia. Parte I – O suicídio . 3. em Brasília.1 Ações práticas e resultados Embora ainda seja cedo para avaliar os resultados. 47 A entrevista foi concedida no dia 04/11/2008. Tudo isso orientado por uma “linha de cuidados integrais de promoção. Como se vê.Ailim Oliveira Braz Silva  39 ma preventiva.47 Segundo ela. e as Referências Bibliográficas Comentadas sobre Suicídio. Definido o grupo e as diretrizes de atuação. Milena Leal Pacheco. A desmistificação do assunto é uma delas. a Estratégia se mantém sempre em construção. no Uruguai. em Brasília. baseando-se nas experiências de entidades e grupos de todas as regiões do Brasil. entidades de todo o mundo se reunirão no Congresso Internacional de Prevenção do Suicídio. por meio da internet e de contatos telefônicos. o diálogo com a sociedade tem se tornado mais fácil. nas dependências da Área Técnica de Saúde Mental do Ministério da Saúde. além de várias outras cartilhas temáticas. publicar46 manuais e cartilhas. além de outros países. As edições foram desenvolvidas pela OMS. Mas a partir do momento em que o governo assumiu o problema como um caso de saúde pública. além de seminários e congressos temáticos sobre o suicídio. prevenção. o suicídio sempre foi “entendido como um assunto que não poderia ser falado” e isso precisava mudar. Foi como avaliou a assessora técnica da Área de Saúde Mental do MS. Os membros ainda participam de encontros regionais com instituições diversas. Em 2009. Mas as discussões acontecem durante todo o ano. como parte do Suicide Prevetion Program (Supre). sendo traduzidas e adaptadas às condições locais de cada país onde foram adotadas. em Genebra. tratamento. a Área Técnica de Saúde Mental do Ministério da Saúde já comemora algumas conquistas.

defendendo a idéia oposta. grande parte das mortes estaria sendo tipificada como sendo de “causa mal definida”. essa falha é comum durante o preenchimento dos atestados de óbito48 e. Segundo a Área Técnica de Saúde Mental do MS. ao analisarem-se informações referentes à mortalidade daquele ano. não ficarem chocadas e paralisadas. caso continuasse 48 A observação é comprovada pelo Departamento de População e Indicadores Sociais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).gov. Na maioria das vezes. Como integrante do GT.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/indicadoresminimos/indic_sociais2002. 2008. intensificou-se a comunicação entre o MS e as secretarias municipais e estaduais de saúde para a realização de oficinas e cursos capacitadores. discutir a temática entre si. O problema é que muita gente se depara com o assunto e pensa que não há nada a se fazer”. Essa prática poderia impossibilitar a identificação das verdadeiras causas mortis e. o departamento inseriu o tema nos módulos dos cursos e especializações oferecidos em âmbito nacional. Devido à precariedade dos recursos médico-assistenciais nos municípios brasileiros. Acesso em: 30 out. A SVS administra os dados sobre mortalidade no país. qualquer estudo sobre o suicídio.pdf>.4% no Nordeste. para implantar uma estratégia. além das cartilhas e manuais desenvolvidos. “Percebemos que. os casos de morte voluntária são sub-notificados. Só depois de traçar os passos a serem trilhados. também. ou ainda definidos como de causas não identificadas. comenta. O diálogo entre o Ministério da Saúde e os departamentos regionais foi favorecido ainda mais com a atuação da Secretaria de Vigilância na Saúde. o GT buscou. Disponível em: <http://www. era necessário. Diante desse fato e com o objetivo de dar maior visibilidade ao tema. antes. afirma Milena Pacheco. A cobertura proibida . primeiramente. confundidos com homicídios ou acidentes. qualificar os profissionais da área de saúde. os índices estavam abaixo de 10%. constatou-se a ocorrência de erros nos atestados de óbitos. No ano 2000. é que partiram para a abordagem com a sociedad e. mas sempre deparou-se com problemas em relação aos registros de suicídio. O levantamento destacou que a distorção dos atentados de óbito ocorria na seguinte proporção.ibge. em relação às regiões brasileiras: 28. ou seja. E era para isso que a Segets fazia parte do grupo”. Desse modo. 24% no Norte. A Segets é a secretaria do Ministério responsável pelo desenvolvimento de cursos e capacitações em saúde.40  Ailim Oliveira Braz Silva permita às pessoas se informarem. enquanto nas demais regiões.

A intenção é mobilizar as secretarias de esporte. como pessoas que sofrem de algum tipo de transtorno mental. podem contribuir para a melhoria da qualidade de vida da população. poderia prejudicar a ação do GT. Atualmente. a dificuldade de se trabalhar o suicídio em um país tão grande como o nosso. determinando a necessidade de referência direta ao suicídio. A complexidade aumenta quando incluímos na lista outros fatores e populações de risco. A participação da ANVISA no Grupo de Trabalho também foi definida por problemas. Do mesmo modo. no Brasil. quando fosse esse o motivo da morte do indivíduo. como a briga por terras e a dificuldade de adaptação a outra cultura. cultura. Parte I – O suicídio . vítimas de violência sexual. como a depressão. identificados no meio rural. Segundo a Área Técnica de Saúde Mental do MS. mas. tem crescido o número de mortes voluntárias entre os jovens das grandes cidades e. clínicas e hospitais psiquiátricos. 3. O motivo são as inúmeras questões de conflito social. presídios. Por isso a SVS intensificou o contato com os estados e municípios. Percebe-se aqui. E como pessoas depressivas são consideradas população de risco de suicídio. está aí o melhor remédio para combater o suicídio. dessa vez. como visto anteriormente. educação. a Estratégia Nacional se fundamenta na idéia de que só se alcançará maiores resultados no controle das mortes quando toda a sociedade e o governo estiverem integrados. internados de instituições. também. entre as populações rurais.Ailim Oliveira Braz Silva  41 a acontecer. a ANVISA poderia contribuir quanto à orientação e restrição do uso de algumas substâncias. que precisava orientar-se por dados concretos.2 Grupos de risco e próximas etapas Embora o suicídio seja entendido como uma questão relacionada á saúde. A utilização de produtos tóxicos nas lavouras pode desenvolver a depressão no agricultor. e todos os seguimentos da sociedade que. diante da variedade cultural e econômica brasileira. a população indígena é considerada uma das mais expostas a fatores de risco. de alguma forma.

embora a Estratégia Nacional possua diretrizes básicas para orientar a prevenção e o atendimento às vítimas. Ver anexo II. ela deve ser aplicada de acordo com a realidade específica de cada localidade. Elas têm permitido a implementação de medidas considerando-se as características sociais e culturais de cada grupo de risco.42  Ailim Oliveira Braz Silva usuários de álcool e outras drogas. p. [... o efeito é oposto.468. Por que evitamos falar em suicídio?. n.] No grupo de pacientes com mais de 65 anos. Mas análises estatísticas sugerem que a ocorrência de pensamentos suicidas e suicídio propriamente dito é ligeiramente mais elevada entre os jovens que tomam antidepressivos que entre os tratados com pílulas sem efeito terapêutico (placebo). 86-89. 2007. autoridades sanitárias norte-americanas determinarem que os antidepressivos trouxessem na embalagem “um alerta sobre o risco de suicídio em consumidores entre 18 e 24 anos. Isabel. A cobertura proibida Em 2007. 7 mai. 49 As Diretrizes Nacionais de Prevenção do Suicídio apresentam uma relação dos grupos e fatores de risco. FERNANDES. 50 CLEMENTE. Revista Época. É possível que a própria depressão e outras desordens psiquiátricas que acometem os consumidores dos remédios sejam a causa dos suicídios. (Trecho extraído da reportagem “Por que evitamos falar em suicídio”. de Isabel Clemente e Nelito Fernandes)50 Por esse motivo. Os estudos demonstram que o uso de antidepressivos reduz o risco de comportamento suicida”. Daí a importância dos convênios firmados com instituições regionais. São Paulo: Editora Globo. Nelito. . bem como pessoas que já tentaram se matar49. Ainda não está claro se os remédios podem ser culpados por tentativas de se matar dos jovens.

onde uma equipe formada por multiprofissionais (psicólogos. Na lista de atendimentos. onde os antigos internados passam a receber assistência. afirma a assessora técnica Milena Pacheco. estão previstos três manuais: um voltado para a mídia. Ela se refere aos Centros de Atenção Psicossocial (Caps). por exemplo. as taxas de suicídio podem ser reduzidas significativamente”. implementar políticas e compartilhar informações com entidades regionais. Depois de publicadas as cartilhas e manuais da OMS. o que se tinha como recurso de assistência a deficientes mentais eram apenas os hospitais psiquiátricos. que normalmente têm dificuldade de inserção no mercado. programas de inclusão social pelo trabalho. Levando-se em consideração a necessidade de melhorar a qualidade de vida das populações de risco. agora. sua própria coleção de publicações. também.Ailim Oliveira Braz Silva  43 É o caso. incluem-se indivíduos que apresentam quadro de transtornos mentais. Os Caps têm sido o principal dispositivo da reforma psiquiátrica brasileira. Atualmente existem mais de 1300 espalhados pelo Brasil. E. “Após a tentativa de suicídio. usuários de álcool e outras drogas. à disposição das pessoas. Para 2009. outro para Parte I – O suicídio . substituindo as antigas clínicas de internação. realizados por meio de parcerias. assistentes sociais e enfermeiros) oferece atendimento diário a crianças. ao segregar esses pacientes. terapeutas ocupacionais. isso tornava-se um fator de risco. adultos e idosos. Há alguns anos. pessoas com transtornos mentais. que está lá. adolescentes. o Grupo de Trabalho organiza. Enquanto o segundo tem tirado das instituições psiquiátricas pessoas que estavam internadas há muito tempo. a pessoa passa por um processo muito difícil. dos projetos “Comviver” e “De volta pra casa”. vêm sendo favorecidas pela criação de uma política específica para isso. O primeiro foi implementado no Rio de Janeiro e oferecia assistência às famílias das vítimas e aos sobreviventes da tentativa de suicídio. depois. psiquiatras. tem sido implementado. Na medida em que se tem uma rede de saúde mental extra-hospitalar. Desse modo. vir a tentar se matar novamente. A tendência é ela se isolar e.

De acordo com a Área Técnica da área de Saúde Mental do MS. Isso porque pessoas de vários municípios têm demonstrado interesse em participar e promover. em suas localidades. Elaborados a partir das experiências obtidas nos três primeiros anos do Grupo de Trabalho.44  Ailim Oliveira Braz Silva as equipes de atenção básica. servirão exclusivamente para os brasileiros. A idéia é fortalecer uma rede virtual de prevenção ao suicídio. eles agora serão mais específicos.  A cobertura proibida . A implantação dessa rede virtual também permitirá conhecer e expandir as ações isoladas – mas de resultados expressivos – que têm sido desenvolvidas ao longo do país. e o terceiro sobre a relação suicídio versus agrotóxico. ações com o mesmo objetivo. Mas a Estratégia Nacional não pára por aí.

Parte II – O jornalismo .

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A medida despertou a ira da população. 1 ed. no Rio de Janeiro. de forma geral. Mas ganham dimensão quando a sociedade. E considerando que “a mídia não é apenas uma cronista da realidade. 48. de não expor partes do corpo a estranhos. por exemplo.S. História. principalmente ligados às mulheres. Divalte Garcia. p. que muitas vezes preferem não mencionar a real causa da morte do filho suicidado. É o que assegura Marilisia B. quando coordenou a campanha de extermínio de ratos e de focos do mosquito transmissor da febre amarela. 2008. é o medo ou a vergonha de se falar sobre o suicídio um dos responsáveis pelos preconceitos que o rondam. Disponível em: <http://www. In: Do suicídio: estudos brasileiros.br/revista/numero20/artigo2. Além disso.cjf. “no Brasil. depois. não é possível avaliar com segurança as tendências dos riscos de mortalidade do país como um todo”. p. além de empreender a vacinação contra a varíola.3 1 “Em outubro de 1904. n. As mortes por suicídio no Brasil. O que pensam os jornalistas A desinformação sempre foi apontada como um empecilho para o desenvolvimento da humanidade. as dificuldades partem de possíveis erros durante o preenchimento dos atestados de óbito. mas se mantém alheia às ocorrências.pdf>. Série Novo Ensino Médio. prejudica o estudo e o levantamento dos casos. Além da aparente omissão da imprensa em relação às mortes voluntárias. 2. Brasília. 2003. Acesso em: 30 mai. Marilisia B. o Congresso aprovou uma lei que tornava obrigatória a vacinação contra a varíola. 20. Alberto Zacharias.2 Como vimos no capítulo anterior. Barros. A falta de esclarecimento da população levou Oswaldo Cruz. influindo. ela se torna. cada dia mais. Org. . A. a protagonista da realidade. 314) 2 BARROS. Único. interagindo com os autores da vida real a ponto de constituir uma outra realidade”. Hoje.: CARSOLA. jan. a enfrentar a Revolta das Vacinas.1 no início do século XX. São Paulo: Editora Ática. modificando e construindo os fatos. Roosevelt M. 1998.ed São Paulo: Papirus. devido a falta de cobertura e qualidade dos dados. Vol. porque a vacinação era feita de casa em casa. o silêncio dos pais.” (FIGUEIRA.1.jus. Imprensa instigativa ou investigativa? Revista CEJ.12. Segundo ela. não ignora. até então preservado pela família.A. 9-16. o que configurava ‘invasão do lar’. p. p. primeiro porque desrespeitava os costumes da época. 2002. havia a crença de que a própria vacina poderia fazer com que a pessoa desenvolvesse a doença./mar. 3 BASTOS apud TORON.

na qual um rapaz suicida-se depois de apaixonar-se platonicamente. Porém. o livro foi proibido em alguns países. escondidas em “pés de página. O livro abriu o romantismo na literatura européia.48  Ailim Oliveira Braz Silva os profissionais da imprensa poderiam assumir um papel bem mais ativo na prevenção do suicídio. 14. na tentativa de evitar novas ocorrências. numa espécie de “efeito Werther”. e chegou a influenciar muitos jovens na mesma situação do garoto. Desde então. a ponto de ser citado em cartas de despedida encontradas junto aos corpos das vítimas. se comparados aos de alguns anos atrás. conforme observa Arthur Dapieve. de Goethe. Diante dos fatos. ou a omissão de casos como os ocorridos no Pátio Brasil Shopping não contribuiria para a especulação por parte da população e. as reportagens ainda se apresentam de forma tímida.4 Mas haveria uma “receita” de abordagem para o suicídio? A não noticiabilidade do tema. de modo diferente dos mortos pelas mãos alheias ou por causas naturais”. De fato. e contribuir para a diminuição do número de mortes? Talvez sim. São Paulo: Jorge Zahar. Morreu na contramão: o suicídio como notícia. p. A sociedade o vê como resultado de uma anomalia psíquica e a mídia. conseqüentemente. Ainda hoje o suicídio é considerado um tabu. questionandose sobre o papel instigador ou preventivo que a imprensa pode assumir. 2007. O termo refere-se à publicação alemã Os Sofrimentos de Werther. . quando não sensacionalistas. se entre os jornalistas e os veículos de comunicação não fosse comum a idéia de que a divulgação de suicídios poderia desencadear uma série de novos casos. para a distorção dos fatos? Matérias sobre o assunto não poderiam servir para conscientizar as pessoas acerca do tema. prefere evitar a discussão. não podemos negar que existe uma abertura bem maior dos meios de comunicação atuais. Talvez até em decorrência da campanha empreendida pelo Ministério da Saúde. no fim do século XVIII. pouca coisa mudou em relação à forma como o assunto é tratado. Arthur. A cobertura proibida 4 DAPIEVE.

o fato de casos de homicídio. Segundo ele. Não se noticia suicídio no Brasil. assassinou a mulher a facadas. É porque a imprensa chegou à conclusão de que o noticiário de suicídios gera novos suicídios. vivemos a repercussão do caso Eloá Cristina Pimentel. dias depois da morte da menina Eloá. Com a morte de Eloá. a garota de 15 anos foi feita refém pelo ex-namorado. fez uma “auto-regulamentação” em relação ao suicídio e. No mês de outubro de 2008. Em decorrência de fatos como o descrito acima e da visível banalização da violência em nossa sociedade atual. de modo geral. E. uma reportagem sobre um homem que. O crime acabou em tragédia. dentro de sua própria casa. Talvez a cobertura realizada pela imprensa de todo o país tenha motivado atos parecidos. não teriam o mesmo poder de influência sobre o comportamento dos leitores? Se o marido traído lesse. os órgãos da menina foram doados. nos dias seguintes ao desfecho do caso. e não é por lei. momentos depois de descobrir o adultério de sua esposa. na mesma situação. Durante a invasão da polícia ao apartamento da vítima. é a influência positiva que a mídia pode empreender. da mesma forma. questionamentos parecidos com esses que estou formulando. independente do crime. Será que não é o momento de se fazer o mesmo em relação à violência como um todo? Será que o noticiário da violência exacerbada Parte II – O jornalismo . por exemplo. enquanto o suicídio mantém-se “proibido”. As matérias jornalísticas da editoria de polícia. Por mais de 100 horas. no entanto. Mas o que pretendo mostrar com esse exemplo.Ailim Oliveira Braz Silva  49 É curioso. a imprensa deveria fazer também com as notícias sobre crimes. mas isso não nos importa questionar no momento. não se sentiria ele influenciado a fazer o mesmo? Exemplos de possíveis influências midiáticas no comportamento das pessoas não faltam. no plenário. o que se via nos jornais eram notícias sobre a importância da doação e sobre a felicidade dos receptores dos órgãos. Eloá foi morta pelo seqüestrador. o senador Eduardo Azeredo (PSDB/MG) levantou. estupro e outros crimes passionais terem espaço garantido nos jornais. Pode ser que o novo foco das reportagens tenha sido assumido por um desencargo de consciência. a imprensa. não.

nas entrevistas que fiz com os acusados de delitos.. simplesmente. “não pode”. Veloso concluiu haver manipulação e certo incentivo.O&disc=93/2/S>. seqüestros e estelionatos. na ocorrência de novos crimes. como tema para a monografia.2.5 Aproveitei o “gancho” para meu estudo e recorri a uma repórter do jornal Tribuna do Brasil para saber a opinião dela sobre o assunto. nesse caso de São Paulo. 5 Disponível em: <http://www. o suicídio divulgado pela mídia pode.gov.br/sf/atividade/Plenario/sessao/disc/getTexto. E Veloso explica o porquê de seu posicionamento: “Durante os seis anos em que fui repórter policial. afirma. [.. que eles procuravam novidades sobre os crimes por meio de jornais.. Quando não se apóiam na justificativa da “possível influência”.53. [.50  Ailim Oliveira Braz Silva não faz com que novos crimes aconteçam? Será que essa divulgação. ter o mesmo resultado. a todo o momento.. Em seu estudo. 2008. A imprensa é livre. por parte da imprensa. tivemos este lado humano. mas estou comentando que a autoregulamentação em relação ao suicídio deve ser uma auto-regulamentação perseguida também em relação a outros tipos de violência que acontecem no País. que a imprensa peca ao passar os modus operandi dos criminosos e da Polícia.senado. e é bom que seja.. Patrícia Veloso foi repórter policial por seis anos e estudou. a influência dos jornais impressos no aumento do número de seqüestros-relâmpagos..] é muito bom nós vermos que. Acesso em: 12 nov. também. asp?s=195. defendendo nenhuma legislação de “pode”. em que. Deve-se ter cuidado na forma como se divulga”. percebi. muitos profissionais da comunicação se baseiam em leis que. Acredito que a divulgação de suicídios teria o mesmo efeito”. A cobertura proibida . “Assim como assaltos. a todo minuto. junto à tragédia. houve o aumento da utilização de órgãos transplantados.] Não estou. Segundo ela. não vai fazer com que novos reféns possam surgir? [. evidentemente. na faculdade. até mesmo com cenas de helicóptero. toda e qualquer notícia tende a influenciar o comportamento humano.] Assim como eu estou aqui colocando uma indagação em relação à divulgação excessiva da violência e dos crimes.

Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. Apenas alerta para a necessidade de sempre se atentar para a forma de apuração e divulgação da notícia.org. as responsáveis por aquela conduta de aversão ao suicídio. especialmente em cobertura de crimes e acidentes”. sensacionalista ou contrário aos valores humanos. Parte II – O jornalismo . 2008. de forma muito subjetiva – são os artigos 6º e 11º do Código de Ética. perpetuam-na em sua prática profissional. mesmo assim. Pelo fato de a suposta norma referir-se a uma conduta jornalística a ser seguida.cfm?id_conteudo=84>. pensei que pudesse ser o Código de Ética do Jornalista ou a Lei de Imprensa. Já o segundo artigo mencionado veta a divulgação de informações “de caráter mórbido. à privacidade. Disponível em: <http://www. E foi a eles que recorri em busca de respostas.sjpdf. de todas as regras. Portanto. mas sempre aceitou a não divulgação por acreditar na existência de um código proibitivo a esse tipo de cobertura. as únicas que se aproximam da cobertura de suicídios – e. Mas poucos se arriscam a dizer que lei é esta e muito menos onde ela estaria regulamentada. A regra é mencionada pela maioria das pessoas.Ailim Oliveira Braz Silva  51 não existem. Karina Dantas. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF) disponibiliza. à honra e à imagem do cidadão. Direito este que poderia ser violado durante uma investigação/apuração incorreta. sem nenhum questionamento. E. Acesso em: 13 nov. jornalista recém-formada e funcionária de uma agência de viagens no Pátio Brasil Shopping lembra-se de ter ouvido falar em vários casos de suicídio ocorridos no estabelecimento.6 O primeiro apresenta como dever do jornalista respeitar o direito à intimidade. Quase todos a aceitam e. Ao passo que as dimensões atingidas pelo suicídio e o seu entendimento como uma questão de saúde pública nos obriga a considerar uma outra garantia fundamental assegurada pela Constituição brasileira: o direito à vida e à informação. todos os códigos e normas referentes aos profissionais de jornalismo. 6 FENAJ.br/ internas/in_details. em sua página na internet. o Código de Ética do Jornalista não censura a noticiabilidade das mortes voluntárias.

52  Ailim Oliveira Braz Silva De todo modo. por acaso. A cobertura proibida 7 BRASIL. ou causa prejuízo a outrem”. Acesso em: 13 nov.cfm?id_conteudo=79>. impõe a obrigação de reparação àquele que. que condena reportagens que incitem “à prática de qualquer infração às leis penais” e façam “apologia de fato criminoso ou de autor de crime”. Depois de consultar à delegada. o suicídio é crime? A resposta para essa questão eu tive logo na primeira visita à delegacia responsável pelas ocorrências registradas na Asa Sul. É o caso do artigo 19. Ao mesmo passo em que o artigo 51 define penalidades para crimes de responsabilidade civil ao jornalista profissional que comete negligência.Lei nº 5. fui atendido por um dos agentes. Regula a liberdade de manifestação do pensamento e de informação. depois de localizar o artigo referente ao suicídio. Regula a liberdade de manifestação do pensamento e de informação.) do último caso registrado no shopping e dirigiu-se em nossa direção com um volume do Código Penal. 2008. alguns artigos da Lei de Imprensa7 poderiam servir de apoio à reprovação da cobertura jornalística. Acesso em: 13 nov. Disponível em: <http://www.O. Naquela ocasião.250de 9 de fevereiro de 1967. o agente imprimiu o boletim de ocorrência (B.250de 9 de fevereiro de 1967.cfm?id_conteudo=79>. Apresentamo-nos (eu e minha antiga parceira Bianca Fragoso) como estudantes de comunicação e dissemos que fazíamos um trabalho sobre os suicídios do Pátio Brasil.sjpdf. . no artigo 49.br/ internas/in_details.org. 8 BRASIL. Capítulo 1: Dos crimes contra a vida e. imperícia ou imprudência na publicação ou transmissão de notícias8. A mesma Lei.sjpdf. Para essas pessoas. viola direito.br/ internas/in_details. Lei de Imprensa . fez questão de ler e explicar cada linha da lei sobre aquele tema. 2008. com dolo ou culpa. ainda há quem pense ser o suicídio um crime.org. por volta do mês de abril de 2007.Lei nº 5. Lei de Imprensa . Mas. Disponível em: <http://www. no “exercício da liberdade de manifestação de pensamento e de informação. Abriu o livro no Título 1: Dos crimes contra a pessoa.

por que os profissionais de comunicação temem abordar o assunto? A justificativa do efeito Werther parece plausível.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848. constranger alguém a não fazer o que a lei permite.848. depois de uma rápida pesquisa na Intranet da Polícia Civil. tudo o que conseguimos na delegacia foi um único boletim de ocorrência e uma desculpa da delegada. a capacidade de resistência diminuída.Ailim Oliveira Braz Silva  53 De acordo com o agente9 e conforme pudemos verificar no artigo 122 do Código10. Mas todos os jornalistas estariam se guiando por essa regra? Se sim. no entanto. na Seção I. quando.htm>. . Acesso em: 13 nov. um suicídio poderia “dar lugar a casos indi- Parte II – O jornalismo 9 Naquele dia. Decreto-lei n. caso o suicídio se consuma. Acesso em: 13 nov. fornecido pelo agente foi impresso em questão de segundos. A penalidade é duplicada. Já o induzimento. Segundo o artigo 146. além da aula de Direito Penal. é crime. de 7 de dezembro de 1940. desde quando? E como teria se firmado esse consenso? Quando Durkheim estudou e defendeu a influência dos fatores sociais sobre os suicídios. por algum motivo. 10 BRASIL. nenhum impedimento à cobertura de suicídio. a instigação ou o auxílio a este ato estão sujeitos à reclusão de dois a seis anos. 2. ou a fazer o que ela não manda. e de um a três anos. quando depender disso para salvar-lhe a vida. mas com efeitos muito menos devastadores do que se acreditava.O. se o crime for praticado por motivo egoístico e se a vítima for menor ou tiver.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848. em algum outro lugar ao qual já não teriam mais acesso. Segundo ele. 2008. nas leis que regem o jornalismo.gov. 11 Ibid. o suicídio não é tipificado como crime. aborda-se os crimes contra a liberdade pessoal. sem o consentimento do paciente..planalto. periodicamente.gov. As mortes voluntárias voltam a ganhar espaço no Capítulo VI do Código Penal11. 2008. Disponível em: <https://www. Se não é crime e não há. Disponível em: <https://www. O sociólogo francês chegou até a confirmar a possibilidade do “efeito Werther”. caso a tentativa resulte em lesão corporal grave. a idéia de mortes voluntárias por imitação já existia.htm>. E dessa regra exclui-se apenas a coação exercida para impedir o suicídio e a intervenção médica ou cirúrgica. ela afirmou que os documentos eram arquivados. Código Penal Brasileiro. O B. Quando dissemos que precisávamos dos registros de todos os casos ocorridos no shopping.planalto.

Genebra. necessariamente. como também não é necessário que troquem serviços ou que falem 12 “Taxa social” era como Durkheim chamava o número mais ou menos estável de suicídios de cada sociedade. uma impulsão homicida. É também assim que a idéia homicida passa de uma consciência para outra. a nova ocorrência não se classificaria como uma cópia.14 A cobertura proibida Nesse processo. O suicídio – Estudo de Sociologia. a existência de um ato anterior a ser imitado é obrigatória.. não porque o julgamos útil. De outro modo. podem transferir-se de um sujeito para outro sem que haja entre eles mais que uma aproximação fortuita e passageira. . (Durkheim. não porque sigamos um modelo. sem qualquer outro intermédio mental”..) 13 Ibid. mas nada significativo o bastante para afetar a taxa social12 dos suicídios. 14 Ibid. Um movimento coreiforme. e a propagação imitativa não tem. 117-118. Não é necessário que haja entre eles qualquer comunidade intelectual ou moral. A representação que temos dele determina automaticamente os movimentos que de novo o realizam. 121. Pode acontecer que reproduzamos um acto que se passou diante de nós ou que é do nosso conhecimento.. mas simplesmente por copiar. Copiamo-lo. Em si mesmo. o acto não possui qualquer carácter intrínseco que constitua para nós uma razão de o reeditar.. Um homem pode imitar outro sem que seja solidário dele ou de um mesmo grupo de que dependa igualmente. p. Durkheim13 caracteriza a imitação como “um reflexo automático” que “resulta imediatamente da observação do acto. por si só.54  Ailim Oliveira Braz Silva viduais mais ou menos numerosos”. S/D. haja qualquer relação de aproximação entre as vítimas. caso a atitude suicida seja precedida de reflexão sobre a morte anterior. o poder de os solidarizar. Émile. Sem que. unicamente porque se passou na nossa frente ou porque ouvimos falar dele.

assim com a OMS faz hoje. portanto..] Não é o número dos periódicos. parece ter assolado o país”. Ibid..17 Quando estudou suicídios por imitação. Durkheim menciona a existência. 143. Parte II – O jornalismo 15 16 17 18 DURKHEIM. p. 303 pessoas além da taxa mensal norte-americana decidiram-se. O período refere-se ao mês do suicídio da atriz Marilyn Monroe.. 115-116. D. p. dever-se-ia vê-los variar segundo a importância que os jornais ocupam na atenção pública [. Neste caso. de autores defensores da proibição de notícias sobre crimes e suicídios nos jornais. S/D. já naquela época. p. 16. em agosto de 1962. Um fenómeno de contágio moral só pode produzir-se de duas maneiras: ou o facto que serve de modelo se espalha de boca em boca por meio daquilo a que se chama a voz pública. mas o dos seus leitores.16 Ao tratar desse aspecto. p. Se portanto a imitação tivesse alguma influência no desenvolvimento do suicídio. a idéia de que é “a maneira como se fala” e não “o facto de se falar deles” o que pode contribuir para o desenvolvimento do suicídio ou do crime.. então. E defende. PHILLIPS. Um ‘fator Marilyn’. ou são os jornais que o propagam.15 Seguindo por essa linha de raciocínio. Ibid. . E. que permite medir o alcance na acção daqueles. 2007. pela morte voluntária. David Phillips18 encontrou um aumento de 12% nos casos dos EUA.Ailim Oliveira Braz Silva  55 a mesma língua. “naquele momento. 138. apud DAPIEVE. e não se encontram mais ligados depois da transferência do que o estavam antes. Durkheim se aproxima de um ponto crucial para o nosso estudo: o da possível influência dos meios de comunicação sobre os casos de morte voluntária. geralmente consideram-se mais estes últimos e não há duvida que de facto constituem [os jornais] um poderoso instrumento de difusão.

Já as histórias impressas podem ser ‘guardadas. Se considerarmos. Ribeiro define21 o poder como a capacidade de influenciar o comportamento das pessoas que. Elas se esgotaram. em geral.51%. por que manda. o veículo utilizado para a divulgação das reportagens. a influência dos meios impressos seria 82% maior se comparada à dos meios eletrônicos. O poder. ed. em todas as formas de governo. aumentam a taxa de suicídio em apenas 2. mas o discurso empregado para o fim da dominação. por que manda. notícias sobre suicídios duram em média menos de 20 segundos e podem ser esquecidas ou até passar despercebidas. relidas. apud DAPIEVE. Não o discurso simplista do modo como conhecemos. conforme defende Foucault. em toda a sociedade a produção desse discurso seria ao mesmo tempo “controlada. em sucessivas edições. no entanto. estudadas’. p. p. jogando o dinheiro para dentro das caçambas” (DAPIEVE. S. João Ubaldo. Só a gráfica do Jornal Última Hora “imprimiu. rev. organização e. paralelamente. Desse modo. 16. para o poder.  Jornalismo: quem manda. deixando que pensem e ajam por elas. 1998.100). como manda. 800 mil exemplares. muitas vezes. como manda Na obra Política: quem manda.56  Ailim Oliveira Braz Silva Segundo Dapieve. por sua vez. 2007. onde se lia a célebre frase: “Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história”. frequentemente. tem relação com o discurso. de João Ubaldo Ribeiro. o autor aborda a política e questiona o poder e os sujeitos envolvidos não apenas na democracia. também. sem nem serem distribuídas às bancas: o povo as tirava direto dos caminhões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 3. ou como foi o do presidente Getúlio Vargas19. mas. preferem viver à margem da sociedade. como manda. 2. . selecionada. Segundo ele. 20 STACK. postas na parede ou no espelho das pessoas. 2007. casos bastante noticiados como o da atriz. recorde brasileiro na ocasião. por que manda. Política: Quem manda. 21 RIBEIRO. organizada A cobertura proibida 19 Horas após o suicídio. encontradas junto aos corpos de outros suicidas20. Cópias de tais notícias são. rádios e jornais começaram a reproduzir a carta-testamento de Getúlio Vargas. Isso porque: Na tevê.

em qualquer circunstância. Por esse motivo. Foucault afirma que toda sociedade é fundamentada em um discurso. as condições de vida não eram fáceis para a maioria da população. Dessa forma. pelo Catolicismo. Foucault chama a atenção para o fato de que. Nisto não há nada de espantoso. por volta do século IV. 23 Ibid. mas aquilo por que.22 com o objetivo de limitar a propriedade do discurso. Naquela época. acima do rei. optavam por se matar. Em outras palavras. pelo que se luta. as interdições que o atingem revelam logo. Ele pode se alterar de tempos e tempos e de uma sociedade para outra. ed. p. conseqüentemente. questionavamse: para que sofrer em vida se. 12.23 Parte II – O jornalismo Alterações do discurso teriam acontecido. o poder do qual nos queremos apoderar. quando a sociedade era orientada pelo discurso do império e. “em uma sociedade como a nossa”. São Paulo: Loyola. E todo discurso provem de quem detém o poder. Mas nenhum discurso é imutável. Por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa. Nem todos podem falar e ninguém tem o direito de dizer tudo. ou seja. Essa atitude. . e visto que – isto a história não cessa de nos ensinar – o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação. o paraíso me espera?. depois da morte.. depois de suas mortes. A ordem do discurso: Aula inaugural no collège de france. Assim. as pessoas acreditavam que teriam uma existência plena e feliz ao lado de Deus. no entanto. por influência da Igreja. uma vez que ambos estão obrigatoriamente atrelados. ninguém seja ouvido. também. visto que o discurso – como a psicanálise nos mostrou – não é simplesmente aquilo que manifesta (ou oculta) o desejo. aquilo que é o objeto do desejo. por exemplo. p. rapidamente. 10. 2005. 08. a interdição é o “mais evidente” e familiar “procedimento de exclusão” do discurso. para fugir do sofrimento e antecipar a felicidade. Então. E. Michel.Ailim Oliveira Braz Silva  57 e redistribuída por certo número de procedimentos” . é. resultou em uma espécie de surto 22 FOUCAULT. de evitar que todos tenham voz e. sua ligação com o desejo e com o poder. pronunciada em 2 de dezembro de 1970.

por fim.58  Ailim Oliveira Braz Silva de mortes voluntárias. o seu poder. inspiraram uma aversão natural ao tema por parte da população. as autoridades religiosas decidiram condenar a prática suicida. também. por respeito à dor dos parentes e amigos do suicidado. e. por exemplo. matar-se por desespero era desprezar o poder da penitência. Hoje. para o Estado. nossas vidas também são regidas por discursos. A partir dessa época. uma ordem que não existia anteriormente. a imprensa. do mesmo modo que favoreceu o Estado. Muitos deles são indispensáveis para tornar possível a vida em sociedade – o discurso político. E a alteração do discurso se deu para benefício próprio da instituição detentora do poder. ao longo da história. o econômico.36. . o religioso. a sociedade. a partir de fatos observados na realidade. p. matar-se era privar o império de novos súditos e soldados numa época em que a baixa natalidade romana favorecia a expansão bárbara24. instituindo sua proibição e transformando-a em um pecado mortal. A cobertura proibida 24 DAPIEVE. Como se percebe. Mas quem detém esse discurso? Para Dapieve. para a Igreja. de modo geral. as constantes mudanças de tratamento em relação ao suicídio. Seria isso o motivo pelo qual as pessoas se recusam a falar sobre o assunto: as famílias das vítimas. a condenação tanto religiosa quanto civil do suicida vai se tornando mais severa. a Igreja transformou o seu discurso ao introduzir. E como as mortes representavam prejuízo para a igreja e para a coroa. E alguns deles. que teria assimilado essa atitude e interiorizado em sua rotina de trabalho o sentimento demonstrado pela população. por envergonharemse ou mesmo por medo de especulações sobre a intimidade familiar. isto é. 2007. quando. são o que determina a não-cobertura de suicídios pela mídia. e. até atingir as sádicas penas impostas aos corpos dos suicidas durante a idade média.

Ou seja. mas como instancia social solidária ao tabu que a suplanta. A imprensa funciona como um espelho do real. não retorna ao meio. Dessa forma. Teoria do Jornalismo.. a imprensa se colocaria não como vetor do ‘contágio’. 125. E. dada a materialidade limitada dos jornais. Ou seja.. Não há reflexo perfeito.] que muito mais do que ser determinante do modo como os leitores encaram o suicídio. nem se propagando no meio.27 Desse modo. por último. . é determinada pela visão que os leitores têm da morte voluntária.25 A opinião de Dapieve exemplifica a Teoria do Espelho. Felipe. a imprensa. p. É absorvida. Parte II – O jornalismo Se é verdade que o jornalismo reflete os acontecimentos da realidade. p. É a famosa repercussão do caso na imprensa. as notícias são do jeito que as conhecemos porque a realidade assim as determina.. São Paulo: Editora Contexto. o trabalho jornalístico estaria livre da subjetividade do repórter e apresentaria somente os fatos conforme eles são. 26 PENA. e seu reflexo retorna ao meio sob novas formas. apresentando um reflexo claro dos acontecimentos do cotidiano”. a idéia de Dapieve – de que a não divulgação de suicídios pela imprensa é um reflexo do sentimento da sociedade – esbarra 25 DAPIEVE. Acontece. seria impossível refletir (noticiar) todos os acontecimentos da realidade. conforme destaca Pena. 2005. o fenômeno mais recorrente é o da absorção da luz. pois se o número de acontecimentos é muito maior do que o espaço que a imprensa tem para divulgá-los. também não seria falso concluir que a própria realidade acaba por se propagar pelas páginas dos jornais. a maioria deles acaba nem retornando. de essa teoria estar sendo rebatida há bastante tempo. Dentro dessa perspectiva. toma novos rumos. 127. p.Ailim Oliveira Braz Silva  59 Percebi [. As imagens refletidas por um espelho sempre são carregadas de distorção. 20. E. 2007. porém. a luz da maior parte dos fatos fica retida nas redações. sim. 27 Ibid.26 segundo a qual o “jornalismo reflete a realidade.

. mas. segundo os teóricos do Newsmaking. “que privilegia a ação pessoal [. E quem decide isso é uma espécie de porteiro ou selecionador (o gatekeeper). Nessa vertente. 29 Segundo a Teoria do Gatekeeper. Esse é o responsável pela captação de anúncios para sustentar o jornal. E eles interferem diretamente na produção das notícias [. Então. nessas o processo é complexificado: a imprensa ajuda a construí-la. construção da audiência e rotinas de produção”. Isso porque. É o caso do Newsmaking.] Diante de um grande número de acontecimentos. levando-se em consideração critérios subjetivos e arbitrários dos chamados gatekeepers. busca o lucro. constrangimentos organizacionais. da Teoria Organizacional. pois quanto maior a audiência. 128. 30 LEWIN apud WOLF. 129.. 2005. a produção de notícias na atualidade acontece seguindo uma rotina industrial. 28 PENA.29 Eles.60  Ailim Oliveira Braz Silva A cobertura proibida em algumas teorias contemporâneas.30 Mais do que a interferência do jornalista e das sistematizações. que é o próprio jornalista” (PENA. a partir de suas experiências. do Gatekeeper. p. maiores as receitas publicitárias. qual será o setor mais importante de uma empresa jornalística? Fácil: é o comercial. só viram notícia aqueles que passam por uma cancela ou portão (gate em inglês). e da agenda setting.. dessa vez. expectativas e atitudes teriam “o poder de decidir se deixa passar a informação ou se a bloqueia”.. haverá a falência da empresa e seus funcionários ficarão desempregados. a organização está fundamentalmente voltada para o balanço contábil. 2005. a seleção das notícias também seria empreendida. O jornalismo é um negócio. p. p. E a escolha das pautas e das matérias a serem veiculadas se daria a partir da sistematização28 de “critérios como noticiabilidade. na Teoria Organizacional é o tratamento do jornalismo como um negócio que determina a escolha de uma reportagem em detrimento de outra para ocupar o espaço no jornal. por exemplo. Se na teoria do espelho o jornalismo é influenciado pela “realidade”. Pela Teoria do Gatekeeper.] A lógica do veículo prioriza reportagens que atinjam o maior número de telespectadores. Por isso. 2005. valores-notícia. Do contrário. As receitas devem superar as despesas. 162. E como tal..

Não que essa variação de sentidos ocorra periodicamente.Ailim Oliveira Braz Silva  61 Poderíamos citar ainda a teoria agnóstica. Um exemplo teria sido a instituição do suicídio como pecado. que um dia ampliariam o boca-a-boca da comunidade. tanto a influência da imprensa na vida da sociedade como. e não a uma linha específica de raciocínio. o processo inverso. a teoria do agendamento31. pela igreja. Mas creio que a não cobertura de suicídios esteja ligada à união de vários conjuntos de idéias. Se por um lado o desenvolvimento da imprensa permitiu a democratização do conhecimento e da informação. 2007. no século XV. 32 Ibid. Poderíamos aceitar. que bastou o discurso de alguém de poder para influenciar as pessoas a não mais se matarem. entre os integrantes de um grupo. então. 142. Essas e várias outras teorias da comunicação seriam capazes de suscitar discussões intermináveis. que “defende a idéia de que os consumidores de notícias tendem a considerar mais importantes os assuntos que são veiculados na imprensa”. conforme a qual as notícias atenderiam32 a “determinados interesses políticos”. a morte voluntária – sem falar na publicação de jornais. a instrumentalista. de outro.65. anos depois de defendida uma mesma idéia – a de que a divulgação de suicídios motiva novos casos e que esse assunto não deve ser 31 PENA. Nota-se nesse fato. segundo a qual um conjunto de conhecimentos é compartilhado.. sobre o número de suicídios dentre a população letrada. Hoje. 146. Mais tarde. 2005. Mas é possível que ela tenha acontecido ao longo de diferentes períodos na história. Teria sido o caso da publicação de livros como “Os sofrimentos de Werther” e das cartas-testamento deixadas por vítimas ao longo da história e que foram divulgadas pelos periódicos. entre outras coisas. 33 DAPIEVE. depois de observar fatores de risco na sociedade. p. Parte II – O jornalismo . também. relatando casos de suicídio”33. p. de modo inverso. “involuntariamente também abriu caminho para a publicação de livros que fizeram circular as visões greco-romanas sobre. p. de forma própria. veríamos que a invenção de Gutenberg também exerceria influência.

3. as jornalistas apresentam “a história dramática do menino que transmitiu o próprio suicídio na internet”. ao passo que buscava na internet o refúgio que lhe faltava na vida real. para os amigos ele demonstrava seguir a rotina comum de qualquer adolescente. 16 anos. n. Ao longo de 11 páginas. Vinícius Gageiro Marques. São Paulo: Editora Globo. p. Estaria aí. Mas não tantas quanto as de homicídios. é desse meio que os suicidas tiram inspiração para suas mortes. As reportagens sobre o assunto existem. publicada na Revista Época. Suicídio. em alguns casos. E foi essa impressão que fez os pais do garoto saírem de casa naquele dia. A diferença percebemos logo ao folhear as páginas de cidades de um impresso. Se no ambiente virtual ele assumia uma nova identidade – Yoñlu –.62  Ailim Oliveira Braz Silva discutido – o discurso atingiu todas as esferas da sociedade. Filho único do casamento de um professor universitário com uma psicanalista. p. Revista Época. Aceitam a hipótese como regra e – como vimos.com. Ao contrário do que acontece na Internet. o suicídio é abordado sem pudor. 84. Vinícius apresentava quadro depressivo e cumpria internação domiciliar. se pararmos para analisar os telejornais.com”. 2008. 11 fev. De fato. por recomendação médica. 82-92. de 11 de fevereiro de 2008. Solange. E. estupros e roubos. em relação aos jornalistas – a aplicam em sua prática profissional. acredito. Lá. 35 Ibid.. 508. mencionada por Dapieve. Porém. a influência da sociedade sobre o jornalismo. Disse que faria um churrasco para os 34 BRUM. era descrito35 como “extraordinariamente inteligente” e “extremamente sensível”. não podemos generalizar. O suicídio na imprensa Talvez estejamos errados ao afirmar não haver cobertura de suicídios pela imprensa. É o que Eliane Brum e Solange Azevedo afirmam na reportagem34 especial “Suicídio. A cobertura proibida . Eliane. conforme definem na capa daquela edição. aí sim vai ser difícil encontrar referência ao tema. Alcançou tal grau de veracidade que poucos se questionam sobre a temática. AZEVEDO.

pedindo para que vocês saíssem de casa durante todo o dia. (. na verdade.. que estava no conserto. Vinícius foi buscá-lo. Mal sabiam eles que o “churrasco” era. Alguém pode me dizer se há carvão suficiente e quando eu posso entrar no banheiro e me deitar? Por favor. 86. Concentrações letais de monóxido de carbono”. quando na verdade era justamente o contrário”.) Essa medida fez com que o churrasco de hoje parecesse um grande progresso no que tange a minha condição psíquica. Depois de escrever uma carta de despedida. num banheiro. inventei a história do churrasco. os pais saíram do apartamento que ocupa três andares de um prédio da família.Ailim Oliveira Braz Silva  63 amigos e preferia estar sem os pais por perto. para sentir-se mais à vontade. sempre em inglês: “Estou fazendo esse método CO (suicídio por inalação de monóxido de carbono) neste momento e tenho duas grelhas queimando no banheiro. por favor. A foto mostra duas churrasqueiras portáteis com chamas. alguém diz: “Como você está se virando? Espero que você 36 Ibid. num bairro de classe média de Porto Alegre. Às 14h28. Aqui está a foto. Três horas depois. Parte II – O jornalismo . os pais leriam: “Para garantir uma margem segura de tempo. Lá dentro. na portaria do prédio. Acima dela. Às 14h42. uma ao lado da outra. um cartaz advertia: “Não entre. pendurou-a do lado externo da porta do banheiro. duas churrasqueiras em chamas o esperavam. Por volta de 11h15. ele postou num grupo de discussão. p. o “melhor método de suicídio” escolhido36 pelo garoto. Às 13 horas. os pais deixaram o violão. O que aconteceu depois foi gravado por Yoñlu no computador. Por volta das 12 horas Vinícius ligou para o celular da mãe. me ajudem! Eu não tenho muito tempo”... avisando que os amigos tinham chegado e que estava “tudo bem”.

foi às 15h02. como ele chamava causticamente Porto Alegre. ele teria dito aos policiais. amiga virtual de Yoñlu. soldado. Deu o endereço de Vinícius. Canali acionou a Polícia Militar. e Fernando Hermann Heck. está tremendamente quente naquele banheiro. Lindsey. no Canadá. numa festa”. O que eu devo vestir para se tornar mais suportável? Eu tomei uma ducha antes. por Deus?”. A zeladora do prédio demorou 15 minutos para deixá-los entrar. Às 15h45. Yoñlu escreve: “Ah. uma universitária canadense. assustada com a presença da polícia narrando uma história que soava absurda. No outro lado da linha estava o policial Ken Moore. Eu não consigo suportar o calor. Muito tempo depois. Os PMs Volmir da Silva Ramos. orientou Yoñlu a retirar as roupas. Só meu neto está aqui. O último post de Yoñlu. “Não é possível. de Toronto. que morava em outro apartamento do mesmo prédio. Talvez você volte daqui a pouco tossindo”. o policial federal Enrico Canali. de Gay Harbour. Eram 16h10. encharcar algum pano e se enrolar nele para suportar o calor até o momento de desmaiar. A cobertura proibida . já que ele não entrou mais em contato”. Um bombeiro aposentado de Chicago. Dois minutos depois. A cena que encontraram não precisa ser descrita. alguém escreveu: “Acho que funcionou. de Porto Alegre. mas não adiantou nada. O que eu posso fazer? E o que eu devo fazer para desmaiar. obtido com outro amigo virtual. foi chamado ao telefone porque era fluente em inglês. meu Deus. sargento. tentavam conter uma mulher em surto psicótico debaixo de um viaduto quando foram chamados pela central. procurou a polícia de sua cidade para avisar que alguém no sul do Brasil estava se suicidando. segundo o inquérito policial. e ele está com os amigos. Chamou o avô de Vinícius.64  Ailim Oliveira Braz Silva consiga o que quer.

Os pais nem precisariam ter lido a carta para entender: “Não houve churrasco. puxou o pai e a mãe do menino para que ficassem juntos – “porque agora só teriam um ao outro” – e foi embora. não havia colegas nem guria que eu goste. o serviço médico tentou reanimar Vinícius. acontecida em julho de 2006. No Japão. Quando o sargento constatou que estava tudo acabado.] adolescentes têm sido incentivados na internet a morrer sem que ninguém seja punido. os provedores passaram a ser obrigados a informar qualquer suspeita à polícia. Yoñlu foi a “primeira vítima conhecida no Brasil de um crime que tem arrancado a vida de jovens de diferentes cantos do mundo”. e se a pessoa é resgatada antes de morrer fica com graves lesões cerebrais e torna-se um vegetal”. desde 2005.. E a falta de uma divisão especializada em crimes cibernéticos em nosso país agrava a situação. No mundo todo [. Peço desculpas também pela maneira assustadora com que a notícia chegará a vocês. Os casos diminuíram. mas demora. é indolor e preserva o corpo intacto. 39 milhões de pessoas usam a internet. Foi a maneira que encontrei de garantir um dia inteiro sozinho a fim de conduzir o procedimento da maneira mais segura”. No Brasil. (Trecho extraído da reportagem “Suicídio..com”) Parte II – O jornalismo Apesar do enfoque da matéria estar voltado para a morte de Vinícius. Peço desculpas pela maneira trapaceira com que arranjei meu suicídio. a intenção das repórteres é chamar a atenção para o crescimento do número de suicídios estimulados e auxiliados por pessoas anônimas na internet. mas os provedores .Ailim Oliveira Braz Silva  65 Durante cerca de uma hora. Ele explicou aos pais na carta: “O método que escolhi foi intoxicação por monóxido de carbono. quando os suicídios ligados à rede aumentaram em 70%. Segundo Eliane Brum e Solange Azevedo.

37 Ao exemplo de Vinícius. p. freqüentados por Yoñlu.66  Ailim Oliveira Braz Silva não têm obrigação de preservar provas. Na lista dos dez países com maior número de internautas. 41 Mário Corso em entrevista a Eliane Brum. Eliane. Solange. o Brasil é o único que não tem uma divisão especializada em crimes cibernéticos. o texto. 2008.” Disponível em: <http://cvv. apesar do interesse da matéria em mobilizar as autoridades.. “O CVV é um trabalho humanitário que tem por objetivo a valorização da vida e a conseqüente prevenção do suicídio. Sua responsabilidade só começa depois de receberem a notificação de que um crime está ocorrendo. a riqueza de informações contidas na matéria. 85. p. Mário Corso. o Centro de Valorização da Morte. Ibid. 91. por vezes. “E essa voz [da internet] foi muito sedutora”. 2008. a reportagem apresenta outros três casos. Além de detalhar os procedimentos e sites consultados por vítimas suicidadas. cuja influência sobre a decisão de alguém se matar pode ser muito maior do que qualquer reportagem publicada em um jornal. Eliane. é sensacionalista. suicidado em 2007. Além de um quadro39 onde se aborda o aspecto filosófico do suicídio. se na vida real podemos contar com o Centro de Valorização da Vida40 (CVV). Para ele. Vinícius precisou de ajuda para suicidar-se. Tem apenas quatro pessoas. na internet temos um CVM. o de uma norte-americana e de outro brasileiro.41 A cobertura proibida 37 38 39 40 BRUM. A falta de estrutura somada ao caráter transnacional da rede garante a impunidade. Solange.br>. AZEVEDO. Ver anexo III. O projeto acumula poeira em Brasília desde 2005.org. . p. Acesso em: 16 nov. por meio de um personagem fictício Época “entra” em grupos de suicídio na internet. a reportagem é encerrada com uma entrevista do psicanalista de Vinícius.38 Não podemos negar. em que voluntários se dispõe 24 horas todos os dias a conversar com as pessoas que precisam. E. dentre os quais o de um adolescente inglês. no entanto. 88-89. AZEVEDO. Segundo Corso. e descreve parte dos diálogos mórbidos realizados com outros internautas. 2008. In: BRUM. A Unidade de Repressão a Crimes Cibernéticos da Polícia Federal é informal.

destinos e até a vida e a morte podem estar sendo decididos. Há um portal em que eles transitam. 43 Mário Corso em entrevista a Eliane Brum. Conversaram por “um bocado de tempo”43. Solange. lá onde somente vemos uma parede. mas. loc. tenha consciência do abismo que separa as gerações na forma de se relacionar com a internet. falta uma energia extra. Mas poucos chegam a se matar. Isso. sentou-se na beira da cobertura do prédio e ligou para o psicanalista. as pessoas acordam do seu transe mortífero e pedem ajuda. Ao contrário daquela vez. não houve outra voz dizendo para ele não pular. para os mais jovens. cit. Se você quer cuidar de seus filhos. AZEVEDO. Chegar à beira de se matar também ocorre mais do que se admite publicamente. 90.. Para dar esse último passo – suicidar-se –. no banheiro. In: BRUM. Essa diferença entre o real e o virtual não é tão radical para eles. O Vinícius estava num momento de muita 42 Mário Corso em entrevista a Eliane Brum. segundo o especialista.42 Vinícius já havia tentado se suicidar outras vezes. Para a nossa geração não está ocorrendo nada sério ali. agora. E. 2008. Isso tece uma rede que nos suporta na vida. Muitas vezes. Há uma força vital que nos segura no último momento. Na hora. quando o sangue aparece nos pulsos cortados. ao quanto os outros gostam da gente e ao quanto nós gostamos dos outros. Parte II – O jornalismo . até Corso convencer o menino de que valia a pena continuar a viver. Em uma delas. amores. é fantasia comum na adolescência. fez toda a diferença. Mário Corso adverte estar no diálogo e na aproximação a receita para se frear a motivação do suicídio na rede. considerando-se a importância da internet nos dias atuais e o fato da maioria dos jovens passarem o dia longe dos pais.Ailim Oliveira Braz Silva  67 O que a internet faz é dar suporte a uma idéia. fique perto deles. Namorar a idéia do suicídio é uma coisa que muita gente faz. Quem vai ficar mais exposto à internet é quem tem menos laços reais com o mundo. p. Essa força que nos prende ao grupo. Eliane. Procure dialogar com eles sobre o que ocorre também em seu mundo virtual. é preciso um desespero muito forte ou alguém que nos puxe para baixo.

com” fazem parte do encarte do CD Yoñlu. não existe um motivo específico para as mortes voluntárias. A cobertura proibida . nem pela descrição detalhada da morte de Vinícius. sob o título Por que evitamos falar em suicídio?. Eliane. da reportagem descrita anteriormente. desenhos e fotografias produzidos por ele mesmo. p. coordenador da Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio. a soma de uma série de fatores. O corpo não está ali. tem muito a ensinar A leitura. Na ocasião. inteligente. Isto é. a internet não funciona. Nelito. de fato. Mas a internet é um bom mundo para quem tem problemas com o corpo. 2008. In: BRUM. Por que evitamos falar em suicídio?. me deixou chocado.terra. Como apresentamos no início deste livro. br/yolu 46 CLEMENTE.468. talvez. Por isso. Para ele.1 Quando a imprensa fala. a vida também não era fácil no mundo virtual. muitas vezes. n.44 3. devemos estar atentos aos “sinais emitidos por potenciais suicidas antes de cometer o ato”. AZEVEDO. na íntegra. FERNANDES. Mesmo assim. Parte das 23 canções que compõem o álbum podem ser conferidas no site http://letras. pode acontecer de quem menos desconfiarmos optar por dar fim à própria vida. Isabel. 86-89. D’Oliveira. descreveu o fato das tentativas de suicídio serem vistas pelas pessoas como uma forma de chamar a atenção. conforme afirma o médico Carlos Felipe Almeida D’Oliveira. em fevereiro de 2008. 7 mai. 2007.68  Ailim Oliveira Braz Silva fragilização com o mundo. 44 Mário Corso em entrevista a Eliane Brum.com”. as tentativas acabam sendo menosprezadas quando deveriam ser percebidas como um aviso. 90. apresentou o plano do Ministério da Saúde à Revista Época.46 dos jornalistas Isabel Clemente e Nelito Fernandes. e talentoso45 desistir do futuro e antecipar a morte. Solange. quase um ano antes da publicação da matéria “Suicídio. São Paulo: Editora Globo. Para quem é só corpo. mas. ali é só a palavra. 45 Vinícius deixou um legado de cerca de 60 músicas. o suicídio nem sempre revela sua face. p.com. Não tanto pela gravidade dos casos de suicídios incitados pela internet. Todo o material usado para ilustrar a matéria “Suicídio. Revista Época. Mas pelo fato de um garoto jovem. Pareço estar sendo simplista. disco lançado pelo Allegro Discos. mas. Então ele se voltou para a internet. Foi ele quem.

é preciso levar a sério qualquer ameaça de suicídio. tentando mapear o perfil psicológico das pessoas. podem ser decisivas para impedir a morte voluntária de alguém. Poucos sabem que essas palavras podem atingir a família como se fossem flechas em seus corações. Na mesma reportagem. uma das coordenadoras do Projeto ComViver47. uma vez repassadas pela imprensa. depois de ler algo a respeito na mídia. afirma o médico. Ferrara aconselha impedir o acesso da pessoa a objetos e remédios que podem ser usados para se matar. Isabel. a imprensa informa. É preciso ouvir e ajudá-la a resolver seus problemas”. FERNANDES. Segundo ela. lidas nos jornais ou vistas na televisão. Como precaução mínima. Informações simples como essas. educa. Segundo a também coordenadora do ComViver.Ailim Oliveira Braz Silva  69 “Ninguém se mata se não estiver sofrendo. com características de inclinação para o suicídio. poderiam ajudar a identificar pessoas próximas a nós. pelo menos. Ao falar sobre o assunto. apresenta opinião parecida com a de D’Oliveira. p. 89. referindo-se aos possíveis sinais apresentados pela vítima dias antes da morte. Ou. Parte II – O jornalismo 47 Ver página 43. porque acredita que falhou em sua missão de cuidar dos seus”. . a psicóloga Ana Maria Ferrara. o suicídio ainda é muito estigmatizado por grande parte da sociedade. e conscientiza. Se a pessoa tenta chamar a atenção. e não a recebe. 2007. “a família se envergonha e se recolhe. Não que devamos sair por aí como salva-vidas e psicanalistas. como afirma Isabel Queltal48. “Não é possível que eles não perceberam nada diferente”. afirma. Mas informações desse tipo. Isso porque. ou ainda. “Se uma pessoa está dizendo que quer se matar é porque está precisando de ajuda. que é capaz de apontar para a família de uma vítima na rua e dizer: “Aquela é a mãe do suicida”. a entender melhor o assunto e evitar transtornos como os descritos por Isabel Quental. no Rio de Janeiro. 48 QUENTAL apud CLEMENTE. o risco de ela se matar aumenta”. Nelito. na reportagem de Clemente e Fernandes.

181-182.49 Mais à frente. E em alguns deles. como forma de manter um padrão de cobertura e de produção dos textos das reportagens. 3 ed. Alguns são amplos e complexos. também para que este não receba a informação pela metade. mais sintéticos. Nesses volumes. .. Eduardo. revista e ampliada. 1997. 4. menciona que “particularidades da vida íntima da pessoa” só devem ser descritas na reportagem “se estiverem diretamente relacionados com a causa ou as circunstâncias da morte”50. Se uma pessoa conhecida se suicidou. É o caso do manual de O Estado de S. Paulo. é possível encontrar até referência ao suicídio e à forma de tratar o assunto nos jornais. o mínimo que se quer saber é de que maneira ou em que circunstâncias ela ocorreu: Doença? Acidente? Suicídio? Por mais doloroso que seja o fato. são apresentados desde a forma correta de conjugar os verbos e utilizar os pronomes de tratamento. A cobertura proibida Tópico 11 — Suicídios. a de mobilizar a imprensa na prevenção do suicídio e na conscientização da população. que o Ministério da Saúde tem se empenhado para mudar a idéia de que o assunto não merece espaço nas coberturas jornalísticas. Em qualquer relato de morte.70  Ailim Oliveira Braz Silva E é em defesa dessa possibilidade. p. Outros. o termo “suicídio” ganha espaço no tópico 11. evite disfarçá-lo. 49 MARTINS. Paulo. No capítulo onde apresenta as “Instruções Específicas”. a notícia deve revelá-lo ao leitor. até aspectos sócio-histórico-demográficos das mais diversas regiões do mundo. a recomendação é reforçada no trecho onde se aborda a forma como tratar das mortes. Manual de Redação e Estilo de O Estado de S. São Paulo: O Estado de S. O suicídio no Correio Braziliense Muitos veículos de comunicação possuem o seu próprio manual de redação e estilo. Paulo. local onde se discute a ética interna daquele jornal. 50 Ibid. Além de especificar a importância de se dizer sempre a verdade..120.

53 SQUARISI. 126. 2005.53 na página 126. Cada uma dessas semanas refere-se aos sete dias subseqüentes à ocorrência das cinco mortes voluntárias realizadas no referido estabelecimento comercial e comprovadas por meio de boletins de ocorrência da Polícia Civil. cinco semanas específicas localizadas entre os anos de 2004 e 2007. São Paulo: Publifolha. mas como se “conjugar o verbo ‘suicídio’”. Dad. 181-182. Parte II – O jornalismo . As circunstâncias da morte também deverão sempre ser devidamente esclarecidas. a especificação não é sobre como abordar o assunto. Não há motivo para preconceito e o leitor merece a informação correta. Poupe o leitor. porém. diga efetivamente de que uma pessoa morreu. 2001. Delimitamos para isso. além de detalhes sobre a vítima e o relato das testemunhas. Diante da mínima referência feita à cobertura de suicídios. a leucemia ou outras. p. Nesses documentos constam os dias e horários das mortes. eventualmente. no entanto. Paulo. O manual dos Diários Associados é o que orienta o trabalho dos jornalistas do jornal Correio Braziliense. Essas informações poderiam ser confrontadas.51 Nos manuais da Folha de São Paulo e dos Diários Associados. seja a morte decorrente de suicídio. no caso de crimes violentos. por ser esse o jornal de maior destaque do Distrito Federal. que pouco ou nada acrescentem ao noticiário. Brasília: Fundação Assis Chateaubriand. Manual de redação e estilo dos Associados. com as possíveis matérias publicadas. como seria a abordagem desse assunto pelo veículo de comunicação? A fim de verificar a existência de reportagens impressas sobre as mortes voluntárias ocorridas no Pátio Brasil Shopping. No primeiro. a referência à cobertura de mortes voluntárias é bem mais limitada. o câncer. 99.Ailim Oliveira Braz Silva  71 Sem fazer estardalhaço ou sensacionalismo. empreendi a análise do Correio Braziliense.. 51 Ibid. seja de doenças como a aids. diz-se apenas para não omitir “o suicídio quando ele for a causa da morte de alguém”.52 Já no segundo. de detalhes escabrosos. 52 MANUAL da redação: Folha de S. p.

mas. a localização da notícia no jornal (se em local de destaque. E era a editoria Mundo o local onde estava localizada a maior parte delas – 16 reportagens. mencionava ataques terroristas/suicidas. ou não). as fontes consideradas pelo repórter. clínicas. também. Dessa forma. A intenção era analisar o teor das reportagens.72  Ailim Oliveira Braz Silva A pesquisa. conforme sugerido pelo Ministério da Saúde. os títulos. artigos e sinopses publicadas no período de análise. estudos científicos. as matérias distribuíam-se ao longo das seguintes editorias/cadernos do Correio Braziliense: 54 Como notícias. apresentadas abaixo com a respectiva quantidade de notícias54 identificadas no período: Tabela 2 De 13/06 a 19/06/2004 De 01/11 a 07/11/2006 De 02/03 a 08/03/2007 A cobertura proibida 10 notícias 7 notícias 8 notícias 7 notícias 4 notícias 36 notícias De 09/06 a 15/06/2007 De 24/10 a 30/10/2007 Total Das 36 notícias analisadas. a quaisquer outros registrados no Brasil e no mundo. não se delimitou apenas aos casos do shopping. Em sua maioria. disque-denúncia. Desse modo. defini todas as notas. chegamos à delimitação das seguintes datas. e a presença de elementos que auxiliem o leitor na prevenção do suicídio e na busca de tratamento para problemas psicológicos (telefones de hospitais. etc). nenhuma referia-se aos casos registrados no Pátio Brasil Shopping. no entanto. textos. núcleos de apoio. as imagens. .

de acordo com o número de menções ao suicídio: Mundo (18). Assim. as editorias assumiram a seguinte ordem. os cadernos Cultura. A data refere-se ao dia posterior à morte de uma mulher no Pátio Brasil. em 13 de junho de 2006. Fim de Semana. A partir da nova classificação. Política/Economia (5). capa da editoria “Brasil”. Brasil (3) e Cidades (2). As demais divisões observadas no jornal continuaram como antes. A primeira referência ao termo “suicídio” aparece na reportagem Arsenal escondido. totalizando oito notícias.Ailim Oliveira Braz Silva  73 Tabela 3 DistribuiÇÃo das matÉrias por editorias/caderno Mundo Cultura Política/Opinião Brasil Cidades Capa Caderno Fim de Semana Caderno Super! Caderno Pensar Economia 16 4 4 3 2 2 2 1 1 1 Parte II – O jornalismo Para facilitar o estudo. Considerando-se que as matérias mencionadas na capa do periódico referiam-se à editoria Mundo. Cultura/Educação (8). optei por agrupar os conjuntos por aproximação dos conteúdos. elas também passaram a ser entendidas como tal. . A reportagem de economia foi agrupada à de política. Super! e Pensar foram reunidos no grupo Cultura/Educação. somando agora cinco publicações sob esse título.

faz menção a serviços de apoio. Segundo o texto. em um box. era “socorrida pelo Corpo de Bombeiros ou pela Polícia Militar”. enquanto a ambulância os aguarda. na reportagem Caso de saúde. até aquele momento. agravada pela falta de água por causa da seca que atinge a região. quando uma pessoa tentava suicídio ou passava “por crises de epilepsia. A cobertura proibida . porém. ‘vem transformando a reserva em palco de violência’. Mas. realizada naquela semana em Aracaju. E para ilustrar a novidade. A reportagem ocupa três quartos da página. centralizada. página 18. e informa o número de atendimento do Samu. “As ambulâncias do serviço de atendimento emergencial são usadas atualmente para socorrer pacientes que sofrem infartos ou derrames”. uma ambulância hospitalar daria lugar às viaturas. A notícia ocupa uma página inteira. a menção às mortes voluntárias aparece apenas no final do texto. A referência às mortes voluntárias é feita sob o enfoque do jornalismo público.74  Ailim Oliveira Braz Silva A matéria aborda a situação dos índios xacriabás como detentores de armas de fogo e como responsáveis por uma série de conflitos armados com a polícia e outras tribos. A decisão foi uma das normas e diretrizes estabelecidas pela I Oficina Nacional de Atenção às Urgências e Saúde Mental. no chão. José Carlos do Nascimento: “Segundo ele. aliada à falta de meios de sustentação. mostra três socorristas a atender uma vítima deitada sobre uma maca. como aspas do secretário-geral da Prefeitura de Missões. e os problemas de saúde mental passariam a ser caso de saúde pública. A matéria trás como novidade o fato de o atendimento a pacientes com transtornos mentais passar a ser feito pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). A editoria volta a mencionar os suicídios seis dias depois. alucinação. não de polícia. na edição de 19 de junho. ao fundo da imagem. Segundo a legenda. (AM)”. em vez de ocorrência policial. uma foto. com registro inclusive de suicídio. até o final do ano. no Sergipe. os números relativos à situação das pessoas com crises nervosas e psicológicas no Brasil. depressão e delírio”. de portas abertas. Além de apresentar. a miséria que toma conta da aldeia.

Ailim Oliveira Braz Silva  75 A terceira menção da editoria ao suicídio acontece três anos depois. A vítima suicida teria se enforcado na frente da irmã. O crime aconteceu em Sobradinho e foi relatado em detalhes pela reportagem. a primeira publicação em Cidades acontece no dia 7 de novembro de 2006. “De acordo com a polícia. no dia 13 de junho de 2007. como afirma Durkheim. Se. noticia-se: “Ex-marido assassina jovem e depois se mata”. as semelhanças entre o caso noticiado e os fatos realizados no centro de compras eram nulas. E teve de ser medicada depois de presenciar a cena. Segundo consta. uma nota de 14 linhas. das vítimas suicidadas no Pátio Brasil Shopping. poderíamos supor que a editoria de Cidades seria a de maior influência sobre o comportamento dos brasilienses e. enquanto ele se preparava para se matar. A irmã tentou arrombar a janela para evitar o suicídio. em determinado momento. Pai é suspeito”. em seguida. por que não. anuncia como título “Garoto morre por veneno. a imitação se daria pelo método utilizado para se matar. Do material selecionado para análise. viu pela janela o corpo da cunhada caído e ensangüentado. logo descartei a possibilidade. depois de esfaquear a companheira e mãe de suas duas filhas. Dessa vez bem mais reduzida. Parte II – O jornalismo .” Por tratar de assuntos cotidianos. Mas ao analisar o conteúdo publicado sob essa divisão. mas não conseguiu. no meio da página 24. na casa vizinha. Acima dos quadros de obituário. o acusado saiu no portão pedindo que chamassem a irmã dele. e em cujo centro uma foto apresenta “curiosos” se aglomerando em frente a uma casa. mais próximos à realidade das pessoas. tentado suicídio. ele deixou uma mensagem no celular da namorada pedindo desculpa e dizendo que queria morrer ao lado das pessoas que mais amava. o pai de uma criança de quatro anos “teria dado mamadeira para o filho com o veneno de rato conhecido como chumbinho” e. O fato aconteceu em Minas Gerais. Quando ela chegou. localizada no canto superior direito da página 12. Testemunhas disseram ter ouvido o casal conversando dentro de casa e que.

a participação do cineasta na disputa prefere enfocar Suicídio Cidadão. Já nos cadernos de cultura não é de se estranhar a freqüência do suicídio em sinopses de filmes. Na ocasião da matéria. quase sempre referem-se às mortes propriamente ditas. visitaria a cidade para apresentar os “Desafios na cobertura de segurança pública: como o jornalismo pode contribuir para reduzir a criminalidade”. ou contra o governo. das cinco reportagens reunidas sob essa divisão do Correio Braziliense. conforme exemplificava quatro. seria a vontade de muitos eleitores. Segundo a nota. o filme de Back concorria ao prêmio de 10 mil reais. Rota Suicida é o nome escolhido para intitular a história de um “poli- A cobertura proibida . Mas a utilização dessa palavra em seu sentido restrito. ganhadora do Pulitzer em 1988. Curioso é o fato do grupo de matérias sobre Política/Economia ocupar o terceiro lugar no ranking de referência ao termo “suicídio”. no centro de uma coluna do canto direito da página 26. Na maioria das vezes. Lost Zweig. A jornalista Barbara Walsh. com o curta A diferença de Tati. É o caso. um outro filme dele. A história é inspirada em fatos reais e gira em torno do suicídio do escritor judeu austríaco Stefan Zweig. raramente é observada. ao contrário da situação anterior. no referido período de estudo. peças teatrais e resumos de livros. Na página 35. Em sentido metafórico o suicídio volta a ganhar espaço no jornal no caderno Fim de Semana de 18 de junho de 2004. essa. pobreza. do curta-metragem de Sylvio Back. no Festival do Minuto de Brasília. a palestrante se destacava “com matérias sobre prisões. o de tirar a própria vida. talvez. apresentado na edição do Correio de 15 de junho de 2004.76  Ailim Oliveira Braz Silva Já a segunda referência ao suicídio nas páginas de cidades indica a realização de uma palestra na Universidade de Brasília (UnB). também naquele dia. alcoolismo e suicídio [esta é a única aparição do termo naquela edição]”. E. página cinco. Nossos governantes se matariam tanto assim? Considerando-se a existência de tantos corruptos no parlamento. premiado no ano anterior. por exemplo. é usada como metáfora para definir alguma atitude do. Do mesmo festival participava o jornalista e diretor Iberê Carvalho. Mas a reportagem que anuncia.

no canto inferior da imagem.Ailim Oliveira Braz Silva  77 cial honesto e beberrão que é designado para escoltar prostituta de Las Vegas até Phoenix. ele acaba descobrindo que seu chefe é corrupto e tem planos para que nem ele nem sua protegida cheguem inteiros ao final da viagem”. a retranca “Guerra sem fim”. No terceiro parágrafo de uma matéria que ocupa o espaço de cinco colunas. seguida da chamada “Carros-bomba matam mais 41 no Iraque”. a professora relembra a história mitológica de Antígona. Mas é na editoria “Mundo” que acontece. lê-se: “Iraquianos se aproximam do local da explosão em Bagdá: alvos eram trabalhadores estrangeiros”. o Correio Braziliense apresenta o filme como constituído por “temas adultos e fortes para a época. Como legenda. que preferiu suicida-se a ser enterrada viva pelo tio. no caderno “Super!”. Três dias depois. mesmo que de forma sutil. em referência à re-exibição do longa Desejo Humano. com maior freqüência. se aproxima das chamas. como adultério e suicídio”. destaque para o suicídio. e desenvolve-se ao longo de quatro colunas de texto. introduz o assunto tratado na página 22. No caminho. para que ela deponha no julgamento de um chefão mafioso. ocupa a região central da foto. considerada de maior visibilidade por se tratar de uma página ímpar. de Fritz Lang. A reportagem localiza-se na página 21. Na reportagem Caminhão-bomba atinge comboio e mata 16. por exemplo. Logo na capa da edição de sextafeira. no canto inferior direito. apresenta-se a informação de que “Em Parte II – O jornalismo . Na mesma data. Isso quando Dad Squarisi não resolve dar à palavra um toque didático e lúdico. No espaço. localizada sobre as três últimas colunas. do dia 15 de junho de 2004. a população. trás o momento exato da explosão. em cores vivas. no qual ainda não se confirmara “se o carro-bomba estava sendo dirigido por um suicida ou se foi ativado a distância”. como acontece no box “Na ponta da língua”. Enquanto um clarão de fogo. a ocorrência da morte voluntária é apresentada de forma ainda indefinida. atentados terroristas voltam a invocar o suicídio nas páginas do Correio Braziliense. Trata-se de um atentado em Bagdá. do dia 19 de junho de 2004. Como ilustração.

Embora a predominância das referências a suicídios na editoria Mundo aconteça em matérias sobre ataques terroristas/suicidas (9 das 18 analisadas). cujos exemplos seriam o suicídio de Hitler (mencionado em uma matéria de 06/11/2006. também aparece em duas reportagens (uma de 03/11/2006 e outra de 27/10/2007). e o de personalidades. apresento a classificação das notícias conforme a abordagem realizada pelo Correio Braziliense. um suicida. Além de uma foto na qual um cadáver é recolhido para cima de um caminhão e cuja legenda informa “Policiais iraquianos removem o corpo de um dos 35 mortos na explosão de carro-bomba em Bagdá”. sobre a execução de Saddam Hussein) e a tentativa de Britney Spears (relatada em 06/03/2007). A seguir. também é possível notar outras situações bastante distintas.78  Ailim Oliveira Braz Silva Bagdá. em todas as editorias analisadas. em 30/10/2007) e a utilização como metáfora. em 11/06/2007. e outra referente ao caso da menina desaparecida Madeleine McCann. publicada em 28 de outubro de 2007. com as mãos amarradas ao volante” teria jogado o carro-bomba contra a base militar. O brasileiro Jean Charles. em uma matéria sobre o governo de Cristina Kirchner. A cobertura proibida . em 2005. morto pela polícia britânica no metrô de Londres. Alguns exemplos encontrados seriam os casos advindos a partir de crimes passionais (um na edição de 02/03 e outro na de 08/03/2007). a reportagem é enriquecida com a infografia detalhada do carro utilizado no atentado. onde mais de 100 iraquianos se enfileiravam “para incorporar-se ao novo exército ou para receber seu primeiro salário”. poderíamos acrescentar ainda as notícias que levantam a suspeita e a possibilidade do suicídio de civis (uma em referência a um caso nos EUA. Além dessas especificações.

56 Ibid. nem sempre o repórter opta pela melhor abordagem do assunto em sua reportagem e. p. Acesso em: 30 mai. por ocupar “um lugar central nas práticas políticas.who. 3. crenças e comportamentos da comunidade”. econômicas e sociais” e influenciar56 “fortemente as atitudes. 2000.. Em Prevenção do Suicídio: um manual para profissionais da mídia. Prevenção do Suicídio: um manual para profissionais da mídia. Disponível em: <http:// www. 2008. acaba por provocar novas mortes. ao invés de conscientizar. mesmo que não seja essa a intenção. 2. E reconhece que a imprensa.Ailim Oliveira Braz Silva  79 Gráfico 3 – Classificação das notícias conforme a abordagem 5.pdf>.int/mental_health/prevention/suicide/en/suicideprev_media_port. ao mesmo tempo em que indica “fontes de informação confiáveis” e Parte II – O jornalismo 55 OMS. pode ter um papel ativo nesse trabalho preventivo. Genebra: Departamento se Saúde Mental Transtornos Mentais e comportamentais. . a OMS investiga o impacto da “cobertura midiática” perante os suicídios. Manual para jornalistas: a cobertura é possível A Organização Mundial da Saúde (OMS) entende55 que “a disseminação apropriada da informação e o aumento da conscientização são elementos essenciais para o sucesso de programas de prevenção do suicídio”. p. No entanto.

segundo a publicação. variável entre 18 e 36 meses. A cobertura proibida . a Rede Clínico-Epidemiológica Internacional (inclen). a Interpol. o Departamento Australiano de Estatística. a Sociedade Internacional para a Prevenção da Negligência e Abuso Infantis (ISPCAN).au).edu.who. normalmente. dependendo do país em questão. a Associação Americana de Suicidologia (www. os números podem estar desatualizados. são as comparações feitas entre casos de suicídio registrados em países distintos. Por mais que os dados mencionados pelo repórter na matéria provenham de fontes legítimas.uni-wuerzburg.de/IASR/).flinders. uma vez que os dados mais recentes das agências oficiais referem-se.int/inango/ngo/ngo027. sem que as matérias caiam em “armadilhas”. Uma dessas emboscadas.. a Rede Australiana de Intervenção Precoce para Transtornos Mentais na Juventude (http://auseinet. e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Brasil). a um período anterior. que podem ser acessadas facilmente pela Internet. Dentre as fontes confiáveis. o Instituto Inter-Regional das Nações Unidas para Investigações sobre Criminalidade e Justiça (Unicri). o Departamento Estatístico da Comunidade Européia (Eurostat) e o Banco Mundial. 6. Além da Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio (www.80  Ailim Oliveira Braz Silva sugere formas de como se abordar as mortes voluntárias. por exemplo. 57 Ibid. a OMS destaca: o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Isso porque57 “alguns suicídios podem ser registrados como acidentes ou mortes por causa indeterminada”. associações nacionais e organizações voluntárias como. “estigmas.suicidology. Além disso.htm). o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem). o Centro Nacional para a Pesquisa e Prevenção do Suicídio da Suécia. o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (Estados Unidos).org). p. e a Academia Internacional para Pesquisa sobre Suicídio (www. fatores políticos e sociais e regulações de agências seguradoras” podem fazer com que o número de suicídios seja subestimado. e “não existem registros mundiais oficiais de comportamentos suicidas não-fatais (tentativas de suicídio)”. Também são consideradas idôneas várias agências governamentais.

.Ailim Oliveira Braz Silva  81 Porém. As pesquisas mostraram que a cobertura dos suicídios pelos meios de comunicação tem impacto maior nos métodos de suicídio usados do que na freqüência de suicídios. Ele nunca é o resultado de um evento ou fator único. 60 Ibid. 59 OMS. como forma “de dissuasão”. conflitos interpessoais e situações de vida estressantes. p. mais importante do que selecionar as fontes é saber escolher quais informações divulgar e como estruturar a reportagem.7. Parte II – O jornalismo 58 OMS. 2000. Normalmente sua causa é uma interação complexa de vários fatores. loc. cit. etc – tradicionalmente associam-se com suicídios. Mostrar o suicídio como solução para os problemas. abuso de substâncias. deve-se59 enfocar “o impacto do suicídio nos familiares da vítima e nos sobreviventes”. do método utilizado e reprodução de cartas de despedida servem apenas para acentuar o caráter sensacionalista da matéria e motivar a imitação da técnica usada. como transtornos mentais e doenças físicas. Segundo o manual da OMS. 8. da cena do suicídio. problemas familiares. Ao contrário. edifícios altos. Deve-se evitar exageros. a dor e o sofrimento também deve ser evitado. Publicidade adicional acerca destes locais pode fazer com que mais pessoas os procurem com esta finalidade58. fotografias do falecido. penhascos. O reconhecimento de que uma variedade de fatores contribuem para o suicídio pode ser útil60. Alguns locais – pontes. Devem ser evitadas descrições detalhadas do método usado e de como ele foi obtido. enfatizar o luto pela pessoa falecida e descrever as “conseqüências físicas de tentativas de suicídio não fatais”. . estradas de ferro. Manchetes de primeira página nunca são o local ideal para uma chamada de reportagem sobre suicídio. O suicídio não deve ser mostrado como inexplicável ou de uma maneira simplista. p.

13. de se sentir sem valor ou com vergonha 9. ainda. desesperança.  Uma perda recente importante – morte. quando for o caso.82  Ailim Oliveira Braz Silva Para ampliar o poder da mídia como agente “proativo” na prevenção do suicídio. Acesso em: 17 nov.pdf>.who. 2008. sentimento de culpa. pessimismo. História familiar de suicídio 11. Genebra: Departamento se Saúde Mental Transtornos Mentais e comportamentais. 12. 2000. etc. impotência. da lista de serviços de saúde mental disponíveis61 e a descrição dos sinais de alerta de comportamento suicida. etc.  Comportamento retraído. separação. Tentativa de suicídio anterior 8. Doença psiquiátrica 3. Menção repetida de morte ou suicídio 61 Ver anexo V. escrever um testamento. conforme apresentados abaixo. Ansiedade ou pânico 5. a relação do suicídio com a depressão. Cartas de despedida 14. a divulgação. 10. Doença física 15. inabilidade para se relacionar com a família e amigos 2. Prevenção do suicídio: um manual para profissionais da saúde em atenção primária. junto à matéria.int/mental_health/prevention/suicide/en/suicideprev_ phc_port. depressão ou apatia A cobertura proibida 6. Alcoolismo 4. Sentimentos de solidão. irritabilidade. COMO IDENTIFICAR UMA PESSOA SOB RISCO DE SUICÍDIO62 Sinais a serem observados na história de vida e no comportamento das pessoas: 1. já que este problema pode ser tratado.  Desejo súbito de concluir os afazeres pessoais. .  Odiar-se. Também é importante que se esclareça. 62 OMS.  Mudança na personalidade. Mudança no hábito alimentar e de sono 7. Disponível em: <http://www. divórcio. organizar documentos. a Organização Mundial da Saúde propõe.

Parte III – Caso Pátio Brasil .

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Usadas como nomes de comunidades virtuais no Orkut.500m². Os aspectos arquitetônicos e comerciais destacam o estabelecimento no cenário local. Aberto em outubro de 1997. além de mil vagas públicas externas. Ela. São mais de 200 lojas de diferentes especialidades. o Pátio Brasil Shopping ocupa. Localizado na avenida W3 Sul. próximo ao Setor Hoteleiro e na área de maior concentração de prédios de escritórios e estabelecimentos comerciais da cidade. 23 fast-foods. apresentações teatrais e da Feira do Livro – evento anual que proporciona o contato de autores e livrarias com o público – que garantem o diferencial do centro de compras. A parceria com empresas. quem sabe. A estrutura geral do shopping compreende. Pelo menos não da forma como estamos acostumados a ver.1. mas por motivos nada comerciais. Mas a frase que escolhi para intitular esse capítulo não faz parte de nenhum anúncio publicitário. e 550 mesas. um centro de diversão e jogos eletrônicos. localizado na praça central. Mas é a realização de shows. exposições. em uma área total construída de 65. tem chamado a atenção na internet. Tudo isso distribuído em cinco pavimentos. Pátio Brasil: dê um pulinho aqui! Pode até parecer propaganda ou. mantém-se entre os três maiores e mais populares shoppings do DF. de forma irônica. sendo um panorâmico. ao lado de outras como “Proteja-se no Pátio Brasil!” e “A maldição do Pátio Brasil”. aos casos de suicídio registrados no Pátio Brasil Shopping. desde a inauguração do estabelecimento. ainda. com capacidade para cerca de 1. O espaço conta com 12 elevadores. lugar de destaque entre os demais centros de compras do Distrito Federal. além de seis salas de cinema. hoje.800 veículos. e 14 escadas rolantes. o convite para um passeio. referem-se. uma torre de escritórios com 280 salas e uma garagem 24 horas. uma ala de serviços com 10 lojas e uma praça de alimentação com três restaurantes. ONGs e outras instituições também possibilita ao shopping desenvolver uma estratégia de marketing .

. O novo estilo de departamento de compras logo despertou a simpatia do consumidor. nada se noticiou na grande imprensa. de vacinação. Dinah Sonia Renault. Desde a inauguração do estabelecimento. o conceito de shopping centers representou um marco na história do capitalismo. 2001. Dentre as atividades já desenvolvidas. Shopping center. o Dia de Combate à Gagueira e o Dia de Fazer a Diferença. Rio de Janeiro. além de jogarem-se da praça de alimentação. Disponível em: <http://patiobrasilshopping. no quarto piso. Apesar de ser um local público e as mortes terem ocorrido no horário de funcionamento do shopping.ed. Isso porque. Principalmente. as pessoas tomaram conhecimento e as especulações foram inevitáveis. sobre a praça central. 3.1 Shopping: um conceito da vida moderna Criado na década de 1950.com. a diferentes produtos e serviços. 01. após a Segunda Guerra Mundial. localizado no Setor de Rádio e TV Sul. A cobertura proibida 1. 1 PÁTIO BRASIL SHOPPING. o desenvolvimento da indústria automobilística. por permitir o acesso. próximo a emissoras e redações. 2008. Mesmo assim. há vítimas que aproveitam a cobertura do shopping para lançarem-se na área externa. Mas se a preocupação social se mostra por um lado. Seu surgimento teve ligação com o “aumento do poder aquisitivo da população.86  Ailim Oliveira Braz Silva baseada na “valorização humana e cultural”1. em relação à prevenção e conscientização sobre o suicídio. Acesso em: 12 jul. RJ: Forense. 2 Ibid. destacaram-se as Campanhas do Sono.br>. a descentralização para as zonas periféricas. o shopping deixa a desejar. além de outros fatores”3. por meio de eventos que promovem “o bem-estar da população”2. 3 PINTO. p. nos Estados Unidos. estima-se que tenha havido cerca de oito mortes a partir das dependências do centro comercial. em um só lugar. da Melhor Idade e de Combate à Infecção Hospitalar.

Nessa arena. sociais e culturais’.. no que a psicóloga e consultora italiana Egeria di Nallo chama de meeting points (ponto de encontro). Meeting points: shopping centers de São Paulo. Casaqui acrescenta o de “lugar”.] de fluxos comunicativos”5. 37-46. Agora. 6 CASAQUI. o exemplo de um escape à essa “moldura”? Ao conceito de “meeting points” que Egeria di Nallo associa aos shopping centers. o suicídio. embora ainda dentro de uma moldura bem controlada”. cit. de trocar “decodificações” em um shopping. loc. por meio do ato de comprar e.. para definir a relação que os freqüentadores têm mantido com esses centros de compras. E faz com que. 2006. Compreendendo o shopping center como um espaço privilegiado de interações e fluxos comunicacionais. cit. de “ponto de encontro de consumidores..38. 5 NALLO apud CASAQUI. . p. 1º semestre 2006. de sistemas de produtos e [. n1. nele as trocas transcendem o mero caráter econômico: ‘definido o mercado como arena de trocas potenciais. p. v.Ailim Oliveira Braz Silva  87 Definido pela Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) como “um centro comercial planejado sob administração única e centralizada” e que assegura “a convivência integrada”4 das pessoas. Segundo ele. 38. os indivíduos descontrolem suas “emoções. os shoppings têm perdido.6 A definição apresentada por Casaqui é enriquecida pelo antropólogo Massimo Canevacci. Communicare: revista de pesquisa / Centro Interdisciplinar de Pesquisa. Parte III – Caso Pátio Brasil 4 PINTO. p. Faculdade Cásper Líbero. o consumidor comunica e é comunicado de sentidos do mundo em que vive. 6. esse caráter predominantemente mercantilista. ele assume uma funcionalidade mais ampla. Seria então. de produtos. pode-se admitir que o conceito de troca [. “a troca de mercadorias envolve a troca de imagens e de experiências corpo­ rais em um nível qualitativamente 7 dife­ rente em relação ao passado” . conseqüentemente. loc. 7 CAVENACCI apud CASAQUI. no entanto. Vander. São Paulo.] compreenda também valores simbólicos..

ao mesmo tempo. ao mesmo tempo em que inevitavelmente sofre situações derivadas desse cenário caótico da metrópole – as disputas por vagas nos estacionamentos. Apresenta-se como lugar idealizado. os shoppings. p.88  Ailim Oliveira Braz Silva Tendo como ponto de partida o entendimento dos shoppings centers como meeting points. e não-histórico. E Casaqui deixa brechas para esse questionamento ao reconhecer que o shopping “tem posição privilegiada” ao traduzir a tensão cotidiana da vida moderna. mas solidão. encravando-se no imaginário cotidiano. É lá que os jovens. o Shopping Center tem posição privilegiada. concretizam a vida social. a solidão na multidão. é em ambientes como esse que pessoas têm antecipado suas mortes. Mas. principalmente. um “não-lugar” seria um espaço não-identitário. Por oposição. presta-se ao atendimento de utilidades. relacional e histórico. não-relacional. como uma espécie de oásis em meio ao caos urbano. marcam encontros. o prazer e a necessidade caracterizam o espírito do consumismo de nossa época. A tensão entre sonho e realidade. motivando o suicídio. compreendemos a maneira como estes espaços se transformam em ‘lugares’. do provisório e do efêmero. de livre acesso. ao traduzir essa tensão. servindo ao entretenimento do fim de semana e ao escape da rotina semanal.38) A cobertura proibida Como se percebe. (Casaqui. acabaram por assumir características opostas às previstas inicialmente. ao mesmo tempo em que possui normas internas e prá- . Diante desse quadro. o Dia das Mães etc. e ao encontro e lazer das pessoas. passam os dias. 2006. No “não-lugar” seria experimentada e vivenciada a solidão na supermodernidade. seria o espaço da passagem. idealizados para exercerem a função de “não-lugares”. Como se o sentimento de “solidão na multidão” prevalecesse sobre o de identidade relacional. pois o “não-lugar” não cria nem identidade nem relação. quando abriga os trabalhadores da região em seu horário de almoço. Um ‘lugar’ se define como um espaço identitário. Insere-se no ambiente urbano como local público. a lotação de corredores e lojas na proximidade de datas comemorativas como o Natal.

Mas. mais do que isso. Desse modo. E. . em pouco mais de 20 minutos de entrevista. recebi o telefonema de Bianca Fragoso. uma terça-feira. não seria de se estranhar a escolha dele para a consumação das mortes voluntárias. fui atendido pela gerência de marketing do shopping.Ailim Oliveira Braz Silva  89 ticas de exclusão (simbólica e “real”) que o caracterizam como ambiente privado8. nos dias de ocorrência. Ela 8 CASAQUI. E mesmo depois de investigar junto à Polícia Civil. de o estabelecimento não possuir nenhum registro pelo qual fosse possível contabilizar o número de mortes. o estabelecimento deveria ser responsabilizado pelas mortes? Que medidas poderiam ser adotadas para impedir novas ocorrências. bem como a administração. Mortes no shopping Já estava no trabalho quando. tudo o que ouvi foi a garantia do shopping estar “seguindo todas as normas de segurança recomendadas pelos órgãos competentes”. dada a relação mantida pelo indivíduo com esse ambiente. por volta das 14h do dia 23 de outubro de 2007. Mas além das recomendações da Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio. da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal. restava-me ainda uma última esperança. Embora todos comentem. enfim. não obtive dados comprobatórios de todas as ocorrências. como o shopping consegue seguir normalmente suas atividades. Quando. ninguém sabe ao certo quantos suicídios foram cometidos no shopping. Os seguranças do estabelecimento. 2006. haveria algo mais a se fazer? No caso do Pátio Brasil Shopping. Os números nunca foram confirmados. p. sem interferir na estética do lugar e na relação que as pessoas têm com o ambiente? E. à Secretaria de Segurança Pública. Parte III – Caso Pátio Brasil 2. desconversam quando questionados. também. como se nada tivesse acontecido? Foram questionamentos como esses que nortearam o meu estudo de mais de 12 meses sobre o assunto.39.

de muitos amigos e sem problemas aparentes. Com a queda. Entre as 11h15 e 11h30 daquela manhã. o garoto foi levado para o Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF). uma amiga da catequese. a informação foi importantíssima. aos bombeiros. Jiuliano Dias era solteiro e morava em Sobradinho com os pais e os irmãos. enquanto o registro era de responsabilidade da Polícia Civil. Agentes da 1ª Delegacia de Polícia. Tanto que a notícia de sua morte. Porém. Voltamos a ligar para o HBDF e. como ela mesma definiu. O motivo para isso. em contato com a assessoria de comunicação. descartaram a suposição. em contato com pessoas de convívio do garoto. surpreendeu a todos que o conheciam. a polícia prolongou as investigações. informações sobre pacientes poderiam ser fornecidas apenas a parentes e. Por telefone. Cursava o Ensino Médio e sempre demonstrou ser uma pessoa tranqüila. no quarto piso. Apesar de pouca. Recorremos. recebemos a confirmação da morte do jovem.90  Ailim Oliveira Braz Silva acabara de saber sobre a ocorrência de mais um suicídio no Pátio Brasil Shopping e obtivera informações “preciosas”. da Asa Sul. mesmo assim. Segundo eles. caindo na via pública entre o estabelecimento e o edifício Venâncio 2000. Mas. Mais uma vez fomos infelizes na busca. A partir daquelas informações. Adiantaram-nos apenas o nome: Jiuliano Santos Dias. registrada às 14h30. então. Principalmente sua mãe. Após a assistência do Corpo de Bombeiros. Clevoneide Bertolino dos Santos chegou a acreditar na hipótese de homicídio. esse era o único dado que possuíam. A cobertura proibida . devido ao estado em que se encontrava. por suicídio. já que a corporação encarregava-se apenas do socorro à vítima. contatamos o hospital. só depois de informar à atendente o setor onde a pessoa estaria internada. além de várias fraturas nos membros inferiores. Diante da possibilidade de crime. era o fato de Jiuliano ter sido ameaçado pelo namorado de Morgana. um adolescente de 15 anos havia pulado da área externa. partimos em busca de maiores detalhes. era pouco provável que sobrevivesse. deslocaram-se até a cidade onde Jiuliano morava e. o garoto teria sofrido traumatismo craniano. segundo a senhora.

No quarto da vítima. Seja na área da sociologia. não haveria motivos para o ciúme de seu namorado e. Por vezes. Nos apresentaríamos como repórteres – ambos já trabalhávamos na área – ou estudantes? Gravaríamos a conversa ou apenas faríamos anotações? . pareceu que seria fácil. e outra digitada no computador. ou testemunha de algum caso real. fomos pensando no que diríamos.1 Ponto de partida Parte III – Caso Pátio Brasil Referenciais teóricos sobre o suicídio não faltam. 2. em busca dos boletins de ocorrência dos suicídios do shopping. Tudo começou seis meses antes da morte de Jiuliano. o difícil é escolher qual das fontes utilizar. melhor amigo da vítima. E foi esse o grande obstáculo que tive de enfrentar ao longo de toda a pesquisa. O suicídio de Jiuliano não foi o primeiro a acontecer no Pátio Brasil. depois da faculdade. para ele ameaçar Jiuliano. a dificuldade se torna preocupante. passava-se mais de um ano sem qualquer outra ocorrência registrada no estabelecimento.Ailim Oliveira Braz Silva  91 Morgana confirmou ser amiga de Jiuliano e disse nunca ter se relacionado com o rapaz fora da sala de aula. os pais encontraram duas cartas de despedida escritas pelo jovem: uma manuscrita. Pegamos um ônibus e. com medo do que estava por vir. em abril de 2007. a justificativa dada por uma das tias do garoto foi: “É tudo muito triste para a gente. até mesmo. muito menos. contou não ter notado variação no comportamento dele e afirmou desconhecer a suposta ameaça sofrida pelo colega. pouco mais de um ano depois da morte de Jiuliano. Já Renan. quando a necessidade é encontrar algum documento. Hoje. quando freqüentavam a catequese. Estávamos inseguros. No início. Porém. Só depois nos demos conta da complexidade do problema. da comunicação. marquei de encontrar-me com Bianca. Mas de outubro de 2007 até a data de publicação deste livro. Naquele dia. da psicologia e. Procurados por mim no mês de outubro de 2008. Não é bom ficar relembrando”. para irmos juntos à 1ª DP da Asa Sul. os familiares ainda evitam comentar o assunto. Talvez não seja o último. registro. no caminho. Dessa forma.

Mesmo assim. Leonardo Alves Neves. O fato foi comunicado à Central Integrada de Atendimento e Despacho (Ciade) da Polícia Civil que. com o bloquinho em mãos. outra agente facilitou o diálogo com a delegada e. Naquela manhã. informou à 1ª DP. tinha 27 anos e morava no Núcleo Bandeirante. para não deixar nenhum detalhe passar despercebido. observávamos tudo atentamente. Tanto que acabamos descendo na parada errada e tivemos de caminhar quase um quilômetro e meio para chegar ao lugar certo. acontece o inverso: as informações só são repassadas por causa dessa garantia. o agente que nos atendeu não sabia se poderia nos repassar os documentos. naquele momento. A vítima. nos garantiu alguma atenção especial9. tivemos acesso àquela que era a primeira confirmação de suicídio realizado no Pátio Brasil. Ele apresentava quando depressivo e tomava medicação controlada. cinco minutos depois. Dissemos o que queríamos e pretendíamos com os boletins de ocorrência (BO). Por sorte. A cobertura proibida 9 Diante da possibilidade de divulgação. entramos na delegacia.92  Ailim Oliveira Braz Silva Éramos verdadeiros “focas”. imediatamente. com um gravador MP3. porém. . responsável pelas ocorrências da Asa Sul. Era como se estivéssemos em uma grande missão. enfim. além de ter sido ética. suicidou-se do quarto piso. recentemente. aquele que despertou nosso interesse pelo assunto. os brigadistas já haviam constatado a morte da vítima. Quando os agentes chegaram ao estabelecimento. às 10h19. jogando-se sobre a praça central. O caso relatado no BO referia-se ao do dia 01 de março de 2007. e eu. Quando. passava por acompanhamento médico. Outras vezes. e. nem sempre as fontes querem contribuir com os jornalistas. Liguei o gravador discretamente. ele estacionou o carro no subsolo do shopping. nos sentíamos praticamente “Louis e Clark”. Segundo o pai de Leonardo. Decidimos nos apresentar como estudantes e essa atitude. Bianca. o filho. então. conforme registraram as câmeras do circuito interno de segurança. enquanto caminhamos em direção ao balcão de atendimento.

disse. Ela morreu por volta das 17h35 de um sábado. impresso com os últimos mililitros de tinta contidos na impressora. o registro referia-se ao caso mais antigo ao qual teria acesso: a morte de Tânia Regina Novelli. e caído na via pública entre o Pátio Brasil e o Venâncio 2000. a impressão que tivemos foi a de que não conseguiríamos mais nada ali. Um tio apresentou-me um amigo. fui até a unidade verificar o que ele podia fazer por mim. nem com quem conseguiu esses dados”. Já tínhamos como provar pelo menos um caso de suicídio ocorrido no Pátio Brasil Shopping. Por quase 30 minutos. que tinha tudo para ter sido romântico para Dimas Ferreira. possivelmente. ainda tínhamos um longo caminho pela frente. ele verificou o sistema da intranet e. Depois de combinarmos por telefone. Por fim. a aposentada do Banco do Brasil teria pulado da varanda externa do shopping. Divorciada e aos 45 anos. para facilitar na obtenção dos documentos. no quarto piso. para um jantar de dia dos namorados. mandou imprimir uma cópia do arquivo localizado. Namorado de Tânia. E apesar da disponibilidade em ajudar demonstrada pelos agentes na delegacia. oito casos. Em letras apagadas. Partimos em uma busca desenfreada por algum policial civil conhecido – os famosos QI (quem indica) –. Parte III – Caso Pátio Brasil . entregou-me apenas um BO.Ailim Oliveira Braz Silva  93 2. quase ilegíveis. Ele fazia plantão em um posto policial e ficava sozinho na maioria das vezes. e pediu off para repassar os boletins de ocorrência. ele me advertiu sobre possíveis processos que eu poderia enfrentar com aquela pesquisa. que deslocou-se para o local e solicitou a perícia ao Instituto de Criminalística. em 12 de junho de 2004. Preocupado com a situação – eu estava lidando com informações pessoais e confidenciais –. Mas se eram. “Não fale onde. O fato foi informado pela Central Integrada de Atendimento e Despacho (CIADE) ao delegado da 1ª DP. em seguida.2 A busca continua Aquele BO nos encheu de expectativas. quando recebeu a notícia do suicídio. ele a esperava em um restaurante.

consta que a carioca tinha crises constantes de depressão e violência. testemunhas confirmaram ter visto o momento em que a senhora saltou o parapeito da varanda. Aparentemente. estacionado na via por onde é feito o serviço de carga e descarga de mercadorias do shopping. Tânia sofria de problemas mentais progressivos e fazia tratamento desde os 15 anos de idade. Tânia Novelli atingiu um automóvel. dentro do shopping. sem possibilidade de intervenção. E só três semanas depois obtive alguma resposta. Ao cair. E foi o que fiz. a apresentar pessoalmente o meu projeto ao responsável pelos boletins de ocorrência. conseqüentemente. a fim de acompanhar o trâmite da solicitação. na prevenção do suicídio. mencionei a iniciativa do Ministério da Saúde e a importância da imprensa na conscientização da população e. Para isso. O primeiro contato aconteceu em 24 de março de 2008. Em contrapartida. respondi A cobertura proibida . e o de Tânia. inclusive. mas que foi tudo muito rápido. sem nenhuma relação entre si além de terem sido realizados a partir de um mesmo local. Liguei para a Divisão de Comunicação da Polícia Civil do Distrito Federal (Divicom/PCDF) e disseram-me ser preciso formalizar o pedido por email. No boletim de ocorrência. As outras seis mortes teriam sido inventadas pelas pessoas? Se nas delegacias era impossível conseguir outras informações além daquelas. razão pela qual foi aposentada do Banco do Brasil. Segundo os familiares da vítima. Alegaram ser antiético divulgar os dados pessoais e familiares das vítimas. apresentei-me como de costume e expliquei o objetivo do meu trabalho. teria de contatar a assessoria de comunicação. Na mensagem que enviei. Dispus-me.94  Ailim Oliveira Braz Silva Em depoimento à polícia. Ligaram-me dizendo ser impossível ter acesso aos boletins de ocorrência. decidi recorrer a alguma instância superior da Polícia Civil. Mas era preciso saber mais. a atendente me aconselhou a ligar periodicamente para o departamento. na área externa. Até então. para deixar clara a seriedade dedicada por mim ao assunto. antes. Além de enviar o email. Para reforçar o pedido. dois casos já estavam comprovados: o de Leonardo. mesmo para fins acadêmicos.

ocorrida em outubro. referentes às mortes voluntárias de 2007. por acompanhar o desenrolar daquele caso em específico. Mas o que despertou minha atenção foi o fato da morte de Jiuliano. a morte de Jiuliano não estivesse representada na tabela por ter sido efetuada do lado externo do estabelecimento. em relação aos suicídios de 2007.Ailim Oliveira Braz Silva  95 que essas informações não me importavam desde que pudesse verificar o relato dos casos e saber quantos tinham sido no total. A morte de Leonardo estava lá. tínhamos certeza de sua ocorrência. Pediram-me um número de fax e. não estar situada na célula relativa àquele mês. Mas não teve jeito. no mês de março. transmitiram-me três tabelas: uma com o número de suicídios cometidos no Pátio Brasil Shopping. mas. entre 2004 e 2008 (ver tabela 2). Tabela 4 – Suicídios ocorridos no Pátio Brasil Shopping (2004-2008) Ano jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez Total 2004 2005 2006 2007 2008 Total 1 1 1 1 1 1 1 2 1 1 1 4 Parte III – Caso Pátio Brasil Fonte: DEPO . Em fevereiro. Da mesma forma havia sido com Tânia Novelli e seu suicídio estava registrado no respectivo mês de . talvez. e outra onde constavam os casos ocorridos de janeiro a março de 2008 (23 mortes). Ainda não tínhamos posse do BO. Passei a cogitar a idéia de que.Bco Millenium 583871 Ao confrontar os dados da tabela referente ao shopping com os boletins de ocorrência até então conseguidos. observei que o caso de Tânia Novelli havia sido o único registrado em 2004. uma com os dados gerais do DF. Porém. Mas esse não era o caso. a tabela indicava a ocorrência de um suicídio anterior naquele ano. as informações apresentavam-se distorcidas. na tarde de 11 de maio.

para informarem se minha solicitação havia sido deferida. Agora. Me encaminhou para o departamento de requerimentos. publicou o conteúdo na internet10. E quando tentei contato com o setor. os dados da Divisão de Estatística e Planejamento Operacional (DEPO/PCDF). poderia obter o que queria. sendo que apenas um deles referia-se às mortes constantes na tabela fornecida pela Divicom. Dois dos quais ainda precisariam ser identificados. em outubro do mesmo ano. ele não pode ajudar. já me asseguravam a confirmação de quatro suicídios ocorridos no shopping. continuava desconhecido. sítio que permite aos seus usuários carregarem. não sabiam sequer onde estava o formulário que preenchi. então? Na pior das hipóteses. fornecidos pela Divicom. assistirem e compartilharem vídeos em formato digital. identificado como sendo de Georgina Diogo. fui reconhecido e atendido pelo mesmo agente da visita anterior.youtube. Isso porque um freqüentador do estabelecimento filmou a situação e. Além do dela. Com essa intenção. Mas. imediatamente anterior ao de Leonardo Neves. decidi fazer mais uma tentativa na 1ª Delegacia de Polícia. Enfim. e o do já mencionado Jiuliano Dias. o caso de fevereiro de 2007. Quando cheguei. onde localiza-se o Pátio Brasil Shopping. em junho de 2007. saberia que aquela tinha sido a morte voluntária com mais repercussão dentre as realizadas no Pátio Brasil Shopping. Onde estava o erro. obtive outros três boletins de ocorrência. A responsável pelo setor pediu que eu preenchesse um formulário a ser analisado pelo delegado-chefe. Meses depois.com/watch?v=4iGPwgYIEus) nos A cobertura proibida . o link de acesso à filmagem (http://www. Se nas outras unidades e departamentos da Polícia Civil não era possível conseguir as comprovações. dessa vez. Passaram-se dias e mais dias sem nenhuma resposta. 10 Menos de um mês após o suicídio. Porém. Era o de outubro de 2006. o vídeo já havia sido retirado do You Tube. somaram-se à lista de casos confirmados o suicídio de David Ayres de Paula. momentos depois. imaginei que somente na delegacia responsável pelas ocorrências da Asa Sul. Prometeram entrar em contato comigo depois. por sorte ou insistência.96  Ailim Oliveira Braz Silva ocorrência.

e o de Leonardo. enfim. no parapeito da praça de alimentação. sem que tivessem chegado ao conhecimento do remete apenas a uma página com a seguinte mensagem: “This video has been removed by the user” (Este vídeo foi removido pelo usuário). parecem não acreditar no que vêem. um internauta que divulgava possuir o vídeo. um brigadista tentava dialogar e impedir que ele se jogasse. conclui ser do caso anterior. no entanto. o jovem soltou as mãos e deixou-se cair. O vídeo não chega a mostrar o momento exato da queda. Imediatamente. passa a focalizar uma superfície vermelha estática. Parte III – Caso Pátio Brasil 2. disponibilizado por email. em março. Ouvese apenas os gritos dos espectadores que. por alguns segundos. A intervenção. brigadistas se aproximam da vítima. E tentam reanimar os seus sinais vitais enquanto a aproximação da multidão é impedida pelos seguranças. Não imaginava ter havido outro caso entre o de Jiuliano. a morte de David Ayres de Paula. Só ao final da pesquisa. A imagem. em uma comunidade do Orkut. na praça central. para ver o que acontecia. Somente em novembro de 2008 consegui uma cópia do material. Quando. De acordo com a filmagem publicada na rede. acreditava referir-se ao suicídio de Leonardo. foi em vão. em meio a movimentos inconstantes. no dia 08 de junho de 2007. E aquilo demonstrava a possibilidade de muitos outros registros terem ocorrido antes de 2004.Ailim Oliveira Braz Silva  97 Devido à má definição da imagem e considerando-se a data de postagem do vídeo (março de 2007). depois de localizar. Enquanto a multidão se amontoava. . em todos os andares do prédio. A menos de dois metros. a pessoa que manuseava a câmera parece se descontrolar. depois de confrontar os dados. mostra o corpo já caído no térreo. o rapaz manteve-se pendurado.3 Um caso oculto Embora estivesse atento a qualquer boato sobre suicídio ocorrido no Pátio Brasil Shopping. realizada enquanto o cinegrafista tentava mostrar a aglomeração dos curiosos. me pegou de surpresa. Ao se dar conta de que o rapaz havia mesmo pulado. apesar de esperarem pelo salto. a imagem é estabilizada. em outubro.

Não seria essa a prova de que a não divulgação só aumenta a especulação e. porém. Cristina Bugs. Mas. Na noite anterior. o rapaz foi visto chorando na praça de alimentação. no Sudoeste. é repleta de incertezas. E quando foi verificar. Somente às 20h10 sua ligação foi atendida. gritavam. ele teria pulado o parapeito próximo a um restaurante e se jogado em direção ao Pátio Brasil. contou que estava à procura de David desde as 9h daquele dia. Como ele não compareceu ao encontro. sem sucesso. a companheira da vítima. “O rapaz pulou. denunciava a ocorrência de forte impacto. A suspeita de atropelamento. como revelaram os dados da Divicom confrontados com os boletins de ocorrência. O ato foi acompanhado dos gritos de um grupo de jovens que passava por ali naquele instante e assustou-se com o que viu. por um enfermeiro do Hospital de Base que a surpreendeu com a notícia do falecimento de David. para o celular do namorado. mas a presença de manchas arroxeadas ao longo de toda a lateral esquerda do corpo e em algumas regiões da perna direita. conseqüentemente. por volta das 19h45 de uma sexta-feira. Cristina passou o resto do dia tentando ligar. onde sacariam uma quantia em dinheiro. Em depoimento à polícia. Ele estava deitado de bruços. como supúnhamos. A cobertura proibida . momentos antes do ocorrido. sem vestígios de sangue. Em seguida.98  Ailim Oliveira Braz Silva público. eles haviam combinado de se encontrar em uma agência da Caixa Econômica Federal. Segundo testemunhas. pulou!”. por volta do horário do almoço. segundo os bombeiros. logo foi descartada. com base na declaração da atendente de uma lanchonete do edifício Venâncio 2000. Ela teria ouvido o barulho do impacto de algo caindo no chão. a distorção dos fatos? A morte de David. por si só. no entanto. O corpo dele foi encontrado na via pública entre os shoppings Pátio Brasil e Venâncio 2000. só podíamos assegurar a confirmação de seis casos e não oito. percebeu o corpo de um homem estirado na avenida.

Georgina saiu de casa. Por volta das 15h. de frente para o Setor Hoteleiro Sul. Liguei para a antiga casa de Georgina e tive o telefone desligado na minha cara. entre os quais três receitas médicas para antidepressivos. guardava os óculos. Até pelo objetivo de explicar o propósito de meu trabalho e convencer as pessoas sobre a importância de se discutir o assunto.4 Uma última tentativa Naquela manhã de 31 de outubro de 2006 – uma terça-feira –. os brigadistas do Pátio Brasil Shopping tentavam reanimar. um aparelho MP3. A viatura havia sido chamada depois de a senhora de 36 anos ingerir medicamentos em excesso. E talvez sua família soubesse que não seria a última. pessoalmente. resolvi tentar pelo menos uma aproximação por telefone. de preferência. a experiência demonstrou-se um tanto quanto ineficaz. os sinais vitais de Georgina. minha intenção era tentar a aproximação. conforme imaginava. Nela. sabia que seria uma tarefa difícil me aproximar das pessoas comuns às vítimas. E. na tentativa de cometer suicídio. se fosse o caso. os documentos pessoais e vários outros papeis.Ailim Oliveira Braz Silva  99 Segundo consta no boletim de ocorrência. Como teste. Mas aquilo me serviu para entender – ou me acovardar – que nem todos querem falar sobre uma experiência de dor ou de perda. na 114 Norte. O que ninguém podia imaginar era que a próxima tentativa se daria naquele mesmo dia. Ela havia pulado do lado norte do sexto andar do prédio. Sem avisar a ninguém. Não era a primeira vez. 2. desde o início. Parte III – Caso Pátio Brasil . Levava consigo apenas uma bolsa de tecido. Cristina negou que ela ou o namorado passassem por problemas financeiros. David tinha 30 anos e trabalhava como técnico orçamentário em uma gráfica em Brasília. Desde o momento em que decidi estudar a não cobertura de mortes voluntárias pela imprensa. da forma como fiz para obter os boletins de ocorrência. tudo parecia estar resolvido depois que a ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) deixou a casa de Georgina Diogo de Assis. em direção à Asa Sul. tão breve se recuperasse do efeito dos remédios. sem êxito. E.

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Ailim Oliveira Braz Silva

Embora mais de dois anos separem a data do suicídio de Georgina Diogo da produção deste livro, a conversa transcrita abaixo demonstra que sua morte ainda pesa sobre os familiares:
Mulher: Ailim: Mulher: Ailim: Mulher: Ailim: Mulher: Ailim:

Alô! Boa noite, com quem eu falo? Quer falar com quem?  eu nome é Ailim Braz, sou da Universidade Católica de Brasília. M Não tenho certeza se liguei no número certo, mas...  h! Você trabalha com o Maurício? – pergunta, entusiasmada, uma A voz que aparenta ser de uma jovem por volta dos 17 anos. Não, não... Ah... então é sobre o vestibular?  ão. Também não. Como eu disse, sou da Universidade Católica de N Brasília, mas estou ligando para confirmar se esse número é de algum parente ou alguém que era ligado à senhora Georgina Diogo.  sim. É da casa de minha tia e minha avó - responde menos emÉ polgada, mas ainda curiosa em saber o porquê da ligação.  u estou ligando porque nós estamos realizando um estudo sobre E os suicídios ocorridos no Pátio Brasil, de modo a conscientizar as famílias e evitar novos casos. Quem poderia conversar comigo sobre isso?  lha, tem milhares de outras pessoas com quem você pode falar. O É só você ir à delegacia e pedir para um dos agentes, que eles te dão o boletim de ocorrência com os contatos das pessoas – responde, agora apreensiva.  im. Na verdade nós estamos contatando os familiares de todas S as vítimas. Inclusive a da Georgina. Alguém aí poderia falar sobre isso?  ão. Minha vó não se sente bem e, também, não gosta que a gente N fale sobre isso. Mas, além dela, não teria alguma outra pessoa? Não. A gente não quer se envolver com esse tipo de coisa, não.  Tum, tum, tum, tum...

Mulher:
A cobertura proibida

Ailim:

Mulher:

Ailim:

Mulher: Ailim: Mulher: Telefone:

Ailim Oliveira Braz Silva

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A partir aquele diálogo, passei a questionar se valeria a pena insistir para falar com as famílias das vítimas. Talvez devesse, para atender às necessidades de meu estudo. Talvez não, por realmente estar invadindo a particularidade dos outros. E, ao refletir sobre o tipo de jornalismo que gostaria de fazer na vida, optei por respeitar a vontade de não quererem pronunciar-se. A maioria das informações apresentadas aqui, sobre as vítimas de suicídios ocorridos no Pátio Brasil Shopping, foram baseadas nas declarações fornecidas pelos boletins de ocorrência.

3. “Estamos dentro das normas”
Uma das maiores expectativas ao longo da pesquisa era conseguir entrevistar algum representante do Pátio Brasil Shopping. Nas poucas reportagens veiculadas sobre o suicídio e nas quais os casos do estabelecimento eram citados, nunca a administração tinha se pronunciado. Na matéria Prevenir é o melhor remédio, de Karina Gomes Barbosa11, por exemplo, o shopping teria se limitado a dizer que os “casos isolados [...] são impossíveis de serem previstos e difíceis de ser impedidos”, mas que estavam tomando “todas as iniciativas cabíveis para restringir situações de risco pessoal ou coletivo”. Segundo a reportagem, uma sétima morte, além das que já mencionamos, teria sido registrada em novembro de 2006, sendo os dois suicídios posteriores – o de fevereiro e março de 2007 – resultados de imitação, conforme definiu o psicólogo Marcelo Tavares. Ele, que coordena um grupo de apoio na Universidade de Brasília (UnB) acusa o shopping de estar sendo um “coadjuvante omisso”, quando “deveria ter tido o comportamento exemplar de criar uma barreira [...] capaz de, se não impedir, desestimular o suicida”. Marcelo refere-se à recomendação feita pela Defesa Civil, durante uma consulta informal ao estabelecimento. Naquela ocasião, segundo a jornalista Karina Gomes Barbosa, os técnicos do órgão sugeriram a
11 BARBOSA, Karina Gomes. Prevenir é o melhor remédio. Jornal Hoje em Dia: Caderno Brasília. DF Nº 524, p. 10 e 11, 20 a 26 mai 2007.

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construção de uma parede de vidro sobre os parapeitos do vão central do shopping. A proteção teria “cerca de 1,80m e curva na ponta, capaz de impedir novas tentativas e, ao mesmo tempo, sem agredir a estética do Pátio. A administração pediu um mês para analisar o estudo e chamar novamente os técnicos”12. Porém, até o momento, nada foi feito. Embora achasse pouco provável ser atendido pelo shopping em relação àquele assunto, não desisti. Vinha tentado contato desde o início da pesquisa, mas só consegui uma entrevista depois de meses de espera. Na última tentativa, voltei ao Pátio Brasil e dirigi-me à administração. Perguntei onde funcionava a assessoria de comunicação, mas a atendente informou não ser ali e que o atendimento só poderia ser realizado por telefone. Sorridente, ela pegou um pedaço de papel reciclado onde anotou o número telefônico. Sobre ele, escreveu “acessoria”. “Você vai falar com o Cláudio”, disse, acrescentando o nome ao papel. Liguei para a assessoria no mesmo dia. Mas a imprecisão da atendente não era apenas no português. Cláudio, na verdade, não existia. Fui atendido por Cláudia, a quem, mais uma vez, apresentei-me e expliquei meus objetivos. Na verdade, ocultei a parte de que o Pátio Brasil era o foco dos meus estudos sobre suicídio. Disse apenas que analisava casos registrados em lugares públicos, o que não deixava de ser verdade. Depois de ouvir-me, a assessora falou aquele velho discurso: “divulgar suicídios é antiético. Tem uma lei que proíbe isso”. Concordei com ela, tentando uma aproximação, ao mesmo tempo em que afirmei ser justamente esse o meu objetivo: concluir porque seria impróprio tratar do assunto. No começo, ela tentou dar sugestões para minha pesquisa. “Por que você não aborda os suicídios da rodoviária? Também tem os da Torre de TV13, você sabe, não é?”, disse. De certo, sabia. Mas não me interessava.
12 Ibid., p. 10. 13 Segundo a reportagem Prevenir é o melhor remédio, de Karina Gomes Barbosa, “A Torre de TV gradeou o mirante depois de mais de 20 casos em 30 anos. Há outros locais públicos atingidos, mas segundo Luiz Villas, coordenador de divulgação do CVV [Centro de Valorização da Vida], ‘o mais vulnerável é mesmo o Pátio’”.

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A assessora também duvidava que alguém pudesse me atender para falar sobre os suicídios, mas se comprometeu a fazer o possível para ajudar. Antes, tive de formalizar o pedido por email. Em 20 linhas, resumi os objetivos de minha pesquisa, adiantei algumas perguntas e ainda apresentei um panorama da relação da imprensa com o suicídio e a necessidade de se conscientizar a população sobre o tema. Segundo a assessoria, a solicitação seria repassada para a administração do shopping. Em seguida, seria analisada pelo grupo proprietário da rede, em São Paulo, e só então, me dariam alguma resposta. Quinze dias depois – ligava todas as manhãs para saber se havia alguma novidade –, enfim, recebi um telefonema da assessoria agendando, para a manhã seguinte, uma entrevista por telefone com o gerente de marketing do shopping. Ele havia sido a pessoa indicada para atender-me. Liguei pontualmente às 11h, conforme combinado, sendo atendido por Renato Horne. Ele desculpou-se pela demora em agendar a conversa e negou a possibilidade de nos falarmos por outro meio. O ideal seria pessoalmente, no próprio Pátio, mas o gerente disse estar tomando as providências para o shopping receber uma certificação14 e que, por isso, não teria muito tempo. Funcionário desde a inauguração do centro de compras, em 1997, Horne afirmou desconhecer o número exato de mortes ocorridas no Pátio Brasil. Segundo ele, o assunto é “febre” na internet, entre os adolescentes, e, na maioria das vezes, é transformado em lendas urbanas. Não que ele quisesse desmentir os suicídios, mas afirmar que a repercussão na web acaba por multiplicar o número de casos que realmente aconteceram. “As pessoas passam a impressão de que existe um número absurdo de suicídios. Mas isso não é verdade. E em termos percentuais, comparado ao fluxo de freqüentadores do shopping, o número de ocorrências é uma coisa ínfima”, disse.

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14 Segundo Horne, tratava-se da certificação ISO 14001, referente a ações de consciência ecológica promovidas pelo shopping.

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Embora a distorção dos fatos possa ser encarada como uma conseqüência da não divulgação oficial das mortes, o gerente dá “graças a Deus” pelo assunto não ser abordado pela imprensa. Segundo Horne, a estimativa de público visitante é de 50 mil pessoas por dia. E isso, por si só, já descarta qualquer necessidade de cobertura jornalística. “Esse número é maior que a audiência de muitas rádios e do que a tiragem de muitos jornais por aí. Querendo ou não, os comentários se espalham. E todas as autoridades que consultamos disseram para não levantarmos esse assunto mais do que já é levantado. Tem pessoas perturbadas que podem ser sensibilizadas a seguir o exemplo das outras”, afirmou, exemplificando com o que chamou de “efeito da Marilyn Monroe”. Para Horne, o fato de o estabelecimento estar localizado em uma das regiões centrais e mais movimentadas de Brasília, acentua a possibilidade de suicídios por imitação e, conseqüentemente, a responsabilidade do estabelecimento em relação à segurança das pessoas. “Os shoppings, hoje, podem ser entendidos como as praças públicas da vida moderna. E são em lugares como esse que as pessoas tentam tornar públicas as suas decepções, as suas frustrações. Supostamente, elas querem repercussão para os seus sentimentos”, afirma o gerente, tentando explicar o motivo da escolha do Pátio Brasil como palco de suicídios. Durante toda a entrevista, Horne fazia questão de frisar que o shopping estava de acordo com as normas de segurança e seguia todas as orientações fornecidas por especialistas e departamentos, como a polícia e o corpo de bombeiros. A atitude de não se falar sobre o assunto, teria sido uma delas. Porém, quando questionado sobre a recomendação da Defesa Civil, de se erguer a parede de vidro sobre os parapeitos, ele não soube responder direito. “Já foi tudo pensado, tudo estudado. Nós seguimos quem entende e quem manda no assunto. Eu não sei dizer se tem previsão. O que eu posso dizer é que tudo é feito de acordo com o que tem de ser feito”, disse. Embora tenha insistido na afirmação de que o shopping segue todas as normas técnicas, estruturais e de segurança, Horne não soube especificar que normas seriam essas, nem detalhar as atitudes que estariam sendo adotadas para impedir novas ocorrências. Perguntado sobre o

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2008. como forma de fiscalizar e identificar pessoas com comportamento suspeito de inclinação ao suicídio. Além disso.ig.unb@gmail. em novembro de 2008. Alegou não poder dizer.Ailim Oliveira Braz Silva  105 número efetivo de brigadistas. Disse apenas que os homens foram remanejados para os pontos mais críticos. questionei sobre os números de suicídios ocorridos nesse tipo de estabelecimento. a assessoria de imprensa do estabelecimento afirmou: “‘A estrutura física está de acordo com a legislação aplicável. Em cinco anos.com. Acesso em: 20 nov. 17 VIANNA. Mônica. do jornal cearense O Povo. como sede do último caso que tivera conhecimento. . justamente. E em resposta ao jornalista Plínio Bortolotti. In: Observatório da Imprensa. Horne mencionou o Eldorado. 16 A Abrasce é a entidade que representa oficialmente o setor no País. o gerente não respondeu. Recorri à entidade por ela trabalhar com o “levantamento e análise de informações referentes ao setor”17 e monitorar “os grandes números da indústria de shopping Parte III – Caso Pátio Brasil 15 BORTOLOTTI.ultimosegundo. 2005. em São Paulo. Em contato com a Associação Brasileira de Shopping Centers16 (Abrasce). Pedido de entrevista [mensagem pessoal]. registrou quatro casos. no Ceará. Mensagem recebida por <ailim.br/artigos. Disponível em: <http://observatorio. periodicamente. treinamento de seus fiscais de piso. choro ou mesmo tristeza. contrariedade. Plínio. De fato. 3. mortes em centros comerciais têm sido cada vez mais freqüentes.Voz dos ouvidores. identificação feita com auxílio de um sistema interno de TV’”15. 2008.asp?cod=356VOZ003>. vigias e câmeras do centro de compras. em 2005. 22 nov.com> em 23 out. o shopping Aldeota realiza.1 Números inexpressíveis Como forma de descentralizar o foco do Pátio Brasil para outros shoppings onde o suicídio também é realizado. que estão orientados a abordar pessoas que demonstrem algum sinal de transtorno. e se a quantidade de seguranças havia sido ampliada depois dos primeiros suicídios. reunindo 367 centros de compras associados. o shopping Aldeota Expansão. por colocar em risco a seguridade do shopping e de seus freqüentadores.

disse que o tema de minha pesquisa tinha “números inexpressíveis” e que. no Pátio Brasil Shopping e na Universidade Católica de Brasília. A confirmação eu obtive de depois de aplicar questionários de opinião junto aos freqüentadores do centro de compras. não eram do conhecimento da organização. Em segundo lugar na pesquisa. vídeos e comunidades do Orkut e do You Tube foram mencionados em 19% das respostas válidas. a gerente de relacionamento da Abrasce. Mônica Vianna. A pesquisa foi realizada entre os dias 10 e 24 de outubro de 2008. na seguinte proporção: Gráfico 4 – Faixa etária dos entrevistados A cobertura proibida 18 Ibid. Informações distorcidas Embora os suicídios do Pátio Brasil Shopping sejam bastante abordados na internet. por isso. é por meio dos comentários informais.106  Ailim Oliveira Braz Silva centers”18. A pesquisa ouviu cem pessoas (58 mulheres e 42 homens). Mas nem por isso a repercussão do assunto na web deve ser desconsiderada. . conforme afirma o gerente de marketing Renato Horne. Em resposta enviada por e-mail. 4. com pessoas de idade entre 13 e 59 anos. que o assunto chega ao conhecimento da população. e mais da metade disse ter sabido das ocorrências por meio de amigos.

a pesquisa mostrou que as cidades de Águas Claras. os Lagos e Asas Norte e Sul. Riacho Fundo e Samambaia. juntas. As demais eram abertas. Enquanto isso. E embora se acreditasse ser do Plano Piloto e regiões vizinhas os freqüentadores mais constantes do estabelecimento. das quais 15 consideravam respostas objetivas e de múltipla escolha. referente ao ensino fundamental. 42% disseram ir ao Pátio Brasil Shopping com muita freqüência (pelo menos uma vez por semana). Ceilândia e Taguatinga. 36% afirmaram ir de uma . permitindo ao entrevistado expor a opinião da forma que melhor entendesse. foi utilizado um questionário de 17 perguntas. seguidos dos moradores do Recanto das Emas. 48% possuíam ensino superior completo ou em curso. Dos entrevistados. Gráfico 5 – Distribuição por cidades Parte III – Caso Pátio Brasil De todos eles. o Sudoeste e o Cruzeiro correspondiam a 20% dos entrevistados. com 15% de representação. eram responsáveis por 30% da amostra. 42% o ensino intermediário (Ensino Médio completo ou em andamento) e apenas 10% enquadravam-se no nível básico. Brazlândia. A análise dos dados revelou a participação de entrevistados das diferentes regiões administrativas do Distrito Federal.Ailim Oliveira Braz Silva  107 Para a coleta das informações.

apenas 7% dos entrevistados não sabiam da ocorrência das mortes e ficaram surpresos com o estudo. Entre os 93% restantes. Dessas. com 28% dos votos. com 19%. notas rápidas em telejornais locais. Quanto aos prováveis motivos que teriam levado as pessoas a suicidarem-se no centro de compras. o Pátio Brasil teria sediado até duas mortes voluntárias. E somente 35% dos ouvidos chegaram perto do número real de casos. teriam informado apenas que “por volta de certo horário. Já a internet. Segundo os relatos. As demais opiniões sobre as causas das mortes voluntárias dividiram-se conforme apresentado do gráfico a seguir. seguidos dos problemas amorosos. só perdeu para os comentários informais. Conforme esperávamos. A mídia impressa e audiovisual também foi mencionada em 12% das marcações. 11% alegaram ter visto pessoalmente a vítima suicidando-se ou. as formas de acesso à informação sobre os suicídios variavam. no dia de algumas ocorrências. Como para esta questão era permitido selecionar mais de uma opção de resposta. Não há consenso. de uma a duas vezes por ano. e de que forma eles tiveram conhecimento das ocorrências. citados como a principal fonte de divulgação dos suicídios por 52% das respostas. sem apresentar os detalhes ou mencionar qualquer serviço de apoio às populações de risco. Os resultados tornam-se curiosos quando analisamos o que as pessoas sabem ou imaginam sobre as pessoas suicidadas no shopping. a movimentação dos bombeiros e brigadistas em socorro aos suicidados. chegamos ao total de 140 válidas. A cobertura proibida . Para 35% dos entrevistados. Nos jornais não teria sido diferente. Trinta por cento acreditavam estar entre três e quatro o número total de vítimas. e os outros 22% contaram freqüentar o estabelecimento raramente.108  Ailim Oliveira Braz Silva a duas vezes por mês. ao estimarem em mais de quatro o número de registros suicidas. Mas o objetivo principal da pesquisa era identificar o que os freqüentadores do shopping sabem e pensam sobre os suicídios cometidos no estabelecimento. determinada pessoa havia se suicidado do Pátio Brasil Shopping”. pelo menos. a depressão e os distúrbios mentais foram apontados por 38% do total de respostas.

sendo que 47 delas (ou 66%) optaram pela primeira alternativa. consideramos o total 71 como hum inteiro (100%). As demais respostas dividiram-se entre os 22% que citaram as mulheres como protagonistas dos casos e os 28% que afirmaram haver um equilíbrio de sexo entre as mortes. ao passo que seriam os homens (com 41%) os responsáveis por grande parte das ocorrências. este local foi indicado por 66% das respostas19. 71 dividiram-se entre as opções “apenas dentro do shopping” ou “apenas fora do shopping”.Ailim Oliveira Braz Silva  109 Gráfico 6 – Motivos pelos quais as pessoas suicidaram-se A pesquisa também levantou o perfil das vítimas imaginado pelo público freqüentador do Pátio Brasil Shopping. 20 Considerando-se o total de 100 entrevistados. Em relação à faixa etária. Enquanto apenas duas das seis mortes comprovadas ocorreram dentro do Pátio Brasil Shopping. a maioria das opiniões (54%) situou em menos de 20 a idade das pessoas suicidadas. . A distorção do que as pessoas sabem em relação ao que realmente aconteceu também é percebida na definição do local de onde as pessoas teriam se jogado. sendo que apenas 26% dos entrevistados20 consideraram a hipótese de ter havido suicídios tanto dentro como fora do estabelecimento. Parte III – Caso Pátio Brasil 19 Das 100 respostas pesquisadas. além dos 9% que preferiram não opinar. Nesse caso.

e a água. Alguns relatos afirmaram. é em relação ao tempo de socorro às vítimas. Outra teria se jogado. uma pessoa teria caído sobre a pista de patinação no gelo. Isso quando. Depois da vítima pendurar-se do lado de fora do parapeito e despertar a atenção do público. A maioria dos entrevistados situou entre cinco e 30 minutos o tempo de atendimento dos brigadistas e bombeiros. afirmando que a garota se jogou depois de encontrar o namorado com outro homem. Ela teria se jogado da área externa do shopping e. continuou sendo jorrada durante boa parte do dia. caindo sobre o toldo de uma tenda instalada no hall de entrada do estabelecimento. a maioria dos relatos praticamente descreve o vídeo publicado no You Tube. Segundo os depoimentos. no qual algum funcionário do shopping teria se desequilibrado durante a manutenção das escadas rolantes. além da gravidez e da doença. mas. Mas é em torno do suposto suicídio de uma mulher grávida e com câncer que as histórias assumem variações. sofreu apenas ferimentos leves. um brigadista teria tentado dissuadi-la. E ainda há quem distorce ainda mais a versão. sua morte teria sido motivada por uma briga com o namorado. Enquanto outros descreveram os casos de morte voluntária no shopping como sendo uma “prática comum” dos emos. sendo que o final da tarde e o início da noite foram citados como o período do dia de maior incidência das mortes. Uma das vítimas teria caído sobre a fonte próxima do elevador panorâmico. Mas se tem um aspecto no qual as opiniões sobre as mortes foram quase um consenso. questionavam como teriam ocorrido os suicídios no shopping. As respostas foram das mais variadas. Alguns completam. por vezes. vermelha de sangue. surpreendentes. dizendo que o desentendimento da vítima com o namorado teria sido pelo fato do rapaz ser casado e não querer assumir a paternidade.110  Ailim Oliveira Braz Silva As perguntas subjetivas. ter ouvido comentários sobre “suicídios acidentais”. por sua vez. ainda. e por que a veiculação de notícias relacionadas ao assunto deveria ou não ser proibida. A cobertura proibida . E as versões para as mortes não param por aí. Já em relação aos casos registrados no interior do Pátio Brasil. não foi o pai da criança que teria se jogado após comprovar a traição da companheira. segundo os depoimentos.

pela maioria das pessoas ouvidas. É lá que. resumidamente. bem como muitos dos preconceitos que rondam o assunto. é que a informação é publica e qualquer proibição à imprensa seria uma demonstração de censura. em meio a comunidades virtuais como as mencionadas no início do capítulo 3.Ailim Oliveira Braz Silva  111 Como a tentativa teria fracassado. fazia o possível para afastar os curiosos. já caído no térreo. ao mesmo tempo. A seguir apresento.1. Orkut: onde o caso repercute Não poderia terminar o livro sem antes voltar a discutir a repercussão dos suicídios do Pátio Brasil Shopping na Internet. Além disso. E não é difícil encontrar algum . 76% dos entrevistados demonstraram-se contrários à idéia. embora 54% afirmem que a divulgação do suicídio pode motivar a ocorrência de novos casos. o corpo. como uma forma de conscientizar a população. alguns dados sobre os casos de suicídio registrados no Pátio Brasil Shopping. a distorção das informações é ampliada. Sobre a proibição da veiculação de notícias sobre as mortes voluntárias. segundo eles. confirmados pelos boletins de ocorrência confrontados ao vídeo postado na internet e aos relatos obtidos ao longo da pesquisa: Tabela 5 Número de casos confirmados de 2004 a 2007: Homens 4 Idade Abaixo de 20 anos: Entre 20 e 40 anos: Acima de 40 anos: Idade não identificada: 6 Parte III – Caso Pátio Brasil 1 3 1 1 Sexo Mulheres 2 Local da ocorrência em relação ao estabelecimento: Área externa: 4 Área interna: 2 5. foi coberto pelos seguranças que. a noticiabilidade do assunto é entendida. A justificativa.

] Bater é altamente reprovável entre os emos. loc. RIGO. Paula. Josiany F. que “misturam roupas pretas com estampas de desenho animado. In: CONGRESSO DE ESTUDANTES DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO DO RIO DE JANEIRO. meninos e meninas agem e comportam-se de forma parecida. Acesso em: 24 nov. para denominar bandas com batidas pesadas.] Meninos e meninas se beijam. Ser emo é. .com. aceitarem a “opção sexual do outro sem preconceitos”25 e agirem sem diferenciação de comportamento por sexo.. Revista Época. além das hipóteses mais surpreendentes levantadas para relatar os suicídios. 21 “O nome vem de emotional hardcore. São Paulo: Editora Globo. Meninas e meninos usam rosa [. cit.6993. colar de bolas. Além de não se importarem de ser emotivos.112  Ailim Oliveira Braz Silva exemplo. Aletéia. 24 COTES. Paloma. 1. loc. camisas justas. Basta digitar “suicídio no Pátio Brasil” em qualquer sítio de busca ou de relacionamento. Foi o que fiz no Google. Emos: o Resgate da Moda Romântica através dos Blogs.html>. botas punk. 2008. VIEIRA.. p.. Paula. VIEIRA. 2006. mas com letras introspectivas que falavam de sentimentos. Acesso em: 24 nov. Eles também têm como diferencial a linguagem.tamanduadesign. Josiany F .” (FERREIRA.]. seja com pessoas do sexo oposto..br/publicados/emos. 25 Ibid. A cobertura proibida Os emos choram ouvindo músicas que falam de amores perdidos e rejeição dos pais [.00. se abraçam em público... RIGO. 4. ou seja. E em todos eles. Disponível em: <http://revistaepoca..globo. A palavra “emo” é usada atualmente para denominar a tribo de adolescentes entre 11 e 20 anos. Esse gênero intitulado de emocore surgiu em Washington. no Orkut e no You Tube. RIGO. possuem longas franjas e pintam os olhos”22. nos Estados Unidos. vertente do punk que mescla som pesado com letras românticas.. Rio de Janeiro: UFRJ. na década de 80.pdf>. seja com as do mesmo sexo [. 2008.) 22 FERREIRA.com/Epoca/0. que uma lista enorme de citações aparece na tela do computador. cit. darem “demonstrações explícitas de carinho”24. VIEIRA.EPT1124406-1664-3. “Esses adolescentes falam sempre no diminutivo. 23 FERREIRA. como sendo eles as únicas vítimas suicidadas naquele shopping... era comum identificar referências discriminatórias aos Emos21. Aletéia. Paula. Disponível em: <http://www. Josiany F. tênis rosa. Aletéia. trocam letras em conversas via Internet e chamam as amigas de ‘maridas’”23.

29 Ato de saltar de um lugar elevado preso por um cabo elástico de segurança.com. são eles que continuam a receber a má fama de “suicidas”. Disponível em: <http://www. Emo Jump Pátio Brasil. 28 ORKUT. ironiza os saltos realizados a partir do quarto piso como sendo uma versão do bungee jump29.orkut. É o caso da comunidade “Patio Brasil. Só no Orkut.com. Dessas. Acesso em: 24 nov. mas com a possibilidade da pessoa ficar famosa e ganhar “varios [sic] videos [sic] na net”. aspx?cmm=32386583>. 2008. logo os emos passaram a ser “metralhados” em vários depoimentos divulgados na internet. A primeira chega a afirmar a ocorrência de uma morte por dia no estabelecimento. existem 46 comunidades virtuais dedicadas ao Pátio Brasil Shopping. oito fazem referência aos suicídios em seus nomes.orkut. Usadas somente de um lado.Ailim Oliveira Braz Silva  113 cabelos lisos com enormes franjas no rosto.br/Main #Community. Patio Brasil. denotam certa ambigüidade sexual26. E embora o perfil das vítimas – pelo menos as identificadas na pesquisa – seja completamente diferente do assimilado aos emos. sendo que duas delas mencionam os emos em sua descrição. A descrição define a prática como “geralmente” realizada “por EMOS” e adverte para o fato de poder ser feita uma única vez. Emos e SuicidasXD. Disponível em: <http://www. Acesso em: 24 nov. Emos e SuicidasXD”27 e da “Emo Jump Pátio Brasil”28. Parte III – Caso Pátio Brasil 26 Ibid.aspx?cmm=29804931>. . 2008.br/Main#Community. Enquanto a outra. Desse modo e por constituírem parte do público freqüentador do shopping. 27 ORKUT. Juntas elas reúnem 55 membros.

E entre o cômico e o dramático. todos dizem o que querem. . em meio a verdades e mentiras. dando a impressão de que os suicídios são uma banalidade.114  Ailim Oliveira Braz Silva Em um dos comentários publicados na página. os comentários são os mais variados. uma internauta responde à outra: A cobertura proibida Devido ao anonimato permitido na internet.

2008. Disponível em: <http://www.Ailim Oliveira Braz Silva  115 Embora a maioria das comunidades e dos depoimentos seja irônica. Dona da “Proteja-se no Pátio Brasil30”. onde é colocado à venda um “super guarda-chuva” denominado “ultra plus mega advance guarda-chuva anti suicidas pationais”.br/Main#Community. Proteja-se no Pátio Brasil. É o caso da estudante Juliana Ferreira. ela alega ter criado o espaço por estar indignada com a situação. Há maneiras melhores de resolver os problemas”. . Quero mostrar a quem quer se suicidar que isso é uma idiotice. Tratase de um guarda-chuva em cuja estampa aparece os dizeres: “Por favor. afirma.com. de 19 anos. não pule aqui”. Para isso. Acesso em: 24 nov. ela lança as enquetes: Parte III – Caso Pátio Brasil 30 ORKUT. admito. desenvolveu uma comunidade baseada em anúncio publicitário.orkut. Para completar a “brincadeira”. Mas acho que por uma boa causa. comunidade de maior número de participantes no Orkut. “Foi uma forma de protesto com um pouquinho de humor negro. aspx?cmm=29764405>. é possível encontrar quem defenda os fóruns de discussão como uma forma de chamar a atenção para o problema e para conscientizar a população.

32 Ibid.116  Ailim Oliveira Braz Silva A estudante acredita que a divulgação pode influenciar na decisão da pessoa em se matar. Segundo ela. Tanto quanto a suposta omissão do estabelecimento. Pátio Brasil – Basta de Suicídio!. desabafa. 2008. que eu digo.orkut. o que se deve fazer é tratar o tema com seriedade e colocar em práticas ações concretas de prevenção às mortes no shopping. “Muita gente fala de um jeito muito preconceituoso e sempre relacionando os suicídios aos emos. Acesso em: 24 nov. Nada foi feito para promover a segurança lá. Mas para quem não estava lá. Porque só colocar seguranças que ficam olhando para as meninas passando não adianta muita coisa”. indigna-se. Dedicada a quem “não agüenta mais a notícia de que mais um se suicidou” 31 e diz “temos que lutar para q tomem providencias”32. vira piada”. 33 Seria esse o suicídio de Leonardo Alves Neves. mas nem por isso é a favor da proibição de notícias sobre o assunto.aspx?cmm=28513117>. Isso é um equívoco. Para quem presencia o fato deve ser traumatizante. um depoimento anônimo chega próximo à verdade de um dos casos33: A cobertura proibida 31 ORKUT. as especulações também incomodam a criadora da comunidade. é esteticamente falando.com. O que a gente sabe é sempre fofoca. Juliana Ferreira encontra apoio na comunidade “Pátio Brasil – Basta de Suicídio!”. Disponível em: <http://www.br/Main #Community. Ninguém sabe como eram as pessoas que pularam. Em meio a tantas hipóteses fantasiosas. especulação. em março de 2007? . Nada. “A administração deveria se sentir mais preocupada com o assunto.

que iria se matar. mais do que ser motivado por problemas mentais e depressão. Mas ao ver a multidão se amontoando. Acesso em: 24 nov. os suicídios ocorridos no shopping estão relacionadas a uma vontade da vítima em aparecer ou. quem quer se matar mesmo não vai para o meio de um shopping”.orkut.br/Main# Community. de ser ouvida. Ao contrário de Juliana Ferreira. A maldição do Pátio Brasil. afirma Emanuel Santos. soltou-se. pelo menos. Em determinado momento.Ailim Oliveira Braz Silva  117 Para o estudante Emanuel Santos. a vítima teria gritado. pareceu até ter se arrependido de pular o corrimão. Mas ficam envergonhadas pelo alarde que provocam e acabam se jogando. dono da comunidade “A maldição do Pátio Brasil”34. repetidas vezes. a curiosidade em saber mais sobre os casos foi o único motivo que o levou a criar a comunidade. Disponível em: <http://www. “Acho que muitas das vítimas chegam a pensar em voltar atrás.aspx?cmm=27839118>. 21 anos. .com. 2008. A irmã de Emanuel presenciou uma das ocorrências e. segundo ela. Considerações finais  34 ORKUT. Em minha opinião.

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Considerações finais .

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Para que desistir se posso enfrentar? Para que dar fim. As pessoas. os nossos pensamentos. E se algum dia. em fechar os olhos para nunca mais abrir. Que o mundo existe. por mais que os problemas me sobrecarreguem. E nada pode ser mais eficiente para evitar a morte de alguém do que dar-lhe atenção. a nossa imaginação. por vezes. mas que. Seus problemas. E que. Quebrando as barreiras do silêncio. todos diferentes. agora. Fazer a pessoa sentir-se importante para ela. Dificilmente sabemos o que se passa na cabeça das pessoas. E ao encontrá-las. as pude encontrar. para nós. mais do nunca. mas. Fazendo as pessoas se atentarem aos sinais. também. Passageira como pode ser a felicidade. para o mundo. apresentam sinais. A acordar pela manhã e saber que eu existo. por acaso. as causas do suicídio podem ser entendidas como a junção de uma série de fatores. Somos todos iguais e. como podem ser as tristezas. sociais. econômicos. dei sentido ao viver. Estaria sendo simplista e de nada teria me valido este estudo se encarasse o viver e o morrer basicamente como uma decisão livre da pessoa. Passageiros somos nós nessa vida. Divulgando os centros e serviços de apoio. de tudo e de todos. Apresentando alternativas para o tratamento. se me abrindo posso abraçar? Abraçar e ser abraçado por pessoas que antes não faziam parte de minha vida vazia. emocionais. O suicídio pode ser evitado. mas não . e justamente por poder ter vivido e não desistido.Amor e gosto pela vida. ao mesmo tempo. sei que nada se compara a poder viver. É com esses sentimentos que chego ao final deste livro. Como vimos. E essa diferença aumenta ainda mais quando consideramos a nossa mente. é dando voz ao assunto. Ouvir suas angústias. Ouvir o que a pessoa tem e quer nos dizer. sejam psicológicos. eu pensei em parar de respirar. em desistir dos sonhos. tudo é passageiro. mas podemos fazer o possível para tentar entendê-las. ou todos me batam à porta para cobrar. todos me virem as costas. se posso recomeçar? Para que me fechar. Pelo contrário. mas como parceiros. agora. E não é deixando de ler ou escrever sobre o suicídio nos jornais que iremos reduzir as taxas de mortes voluntárias. É preciso entender. Mostrar-nos não como intrusos. assim como a vida.

sim. se as pessoas também precisam saber a quem recorrer em situações de risco? O suicídio. é preciso evitar exageros. a influência ocorre apenas sobre quem já está decidido a se matar. ou talvez mais. Mas. é doloroso para quem fica. sem que as taxas de suicídio sejam alteradas.122  Ailim Oliveira Braz Silva aceitar que os suicídios existem e são inevitáveis. O que faz do suicídio. aceitar que eles têm prevenção. estupros roubos deixaram de ser veiculados pela mídia? Crimes como esses não envergonham e revoltam a sociedade? Então por que eles continuam a ocupar espaço nos noticiários. se a justificativa é o fato de reportagens sobre o suicídio poderem resultar na ocorrência de mortes voluntárias por imitação. Agora. a vida pode falar-lhe mais alto e fazê-lo desistir da morte. o que a pessoa copiaria seria o método utilizado no suicídio anterior. Já a referência aos serviços de apoio. Ou seja. até Durkheim estaria de acordo. Ao ver o sofrimento deixado por uma vítima suicida à sua família e aos seus amigos. nos filmes. não existem. não há lei ou código de conduta que impeça a abordagem do assunto pelo jornalista. Devemos. essa sim é fundamental e obrigatória. A descrição detalhada do suicídio deve ser evitada. As cartas de despedida só aumentam o sensacionalismo. Mas para isso. um assunto não noticiável. 1 Os termos apresentam-se entre aspas por serem considerados impróprios pela Organização Mundial da Saúde (OMS). conforme o sociólogo afirma. Motivos suficientemente concretos que proíbam a noticiabilidade de suicídios. o telefone do disque denúncia. nas músicas? Reportagens sobre roubos são acompanhadas de dicas de segurança e do número da polícia. Mesmo assim. sem que se possa temer uma espécie de “surto ou epidemia”1 de mortes voluntárias. Quantos casos de violência contra a mulher e contra as crianças já vimos noticiados nos jornais? Quantos homicídios. assim como uma morte por acidente. pelo menos. então. A cobertura proibida . Reportagens sobre abuso sexual apresentam. Ao contrário do que muitas pessoas alegam. Mas essa dor pode ser usada pela imprensa para conscientizar as pessoas com inclinação à morte voluntária. nas novelas.

não foram implementadas para evitar os suicídios. Por outro lado. Medidas estruturais. A informação é livre. conscientiza e também educa. Mas percebemos uma maior fiscalização por parte dos seguranças que. O acesso à área externa do Pátio Brasil. a forma como se noticia. abordam as pessoas quando elas permanecem próximas e inclinadas sobre os parapeitos.Ailim Oliveira Braz Silva  123 Desse modo. continua fácil. porém. Nada justifica a omissão da imprensa. Sendo possível sair para a varanda do estabelecimento sem ser percebido pelos homens e câmeras da segurança. diante do número de casos registrados no shopping. Afinal. entenderíamos o cuidado da administração ao evitar levantar o assunto. de fato. o problema não é noticiar. a desinformação continua sendo um problema. agora. e sim.  Considerações finais .

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Referências e anexos .

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outras instituições e  na sociedade brasileira. nas escolas. tais como: indivíduos que já realizaram tentativas de suicídio. Considerando a importância epidemiológica do suicídio em populações vulneráveis. usuários de álcool e outras drogas. gestantes e/ou vítimas de violência sexual.  indivíduos portadores de HIV e Aids. sem distinção de faixa etária ou gênero. e Considerando que o fenômeno do suicídio é um grave problema de saúde pública. indivíduos portadores de doenças crônico-degenerativas (neoplasias. que afeta toda a sociedade e que pode ser prevenido. hospitais. trabalhadores rurais expostos a determinados agentes tóxicos e/ou com precárias condições de vida. Institui Grupo de Trabalho com o objetivo de elaborar e implantar a Estratégia Nacional de Prevenção ao Suicídio. adolescentes moradores de rua. populações residentes e internadas em instituições específicas (clínicas.Ailim Oliveira Braz Silva  131 ANEXO I PORTARIA Nº 2. escolaridades diversas e em todas as camadas sociais. entre outras. capitais e municípios brasileiros. nas famílias. nos locais de trabalho. Considerando a importância epidemiológica do registro do suicídio e das tentativas de suicídio em estados. Considerando o impacto e os danos causados pelo suicídio e tentativas nos indivíduos. e populações jovens de etnias indígenas e de descendência negra. no uso de suas atribuições. presídios e outros). Referências e anexos . O MINISTRO DE ESTADO DA SAÚDE.542/GM DE 22 DE DEZEMBRO DE 2005. Considerando a relevância do quadro de co-morbidade  e transtornos associados ao suicídio e suas tentativas. Considerando o aumento observado na freqüência no comportamento suicida entre jovens entre 15 e 25 anos. transtornos mentais e outros). como a depressão e o uso indevido de álcool e outras drogas. de ambos os sexos.

e Considerando a necessidade de desenvolver a Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio. como os Centros de Crise e outros.três representantes da Secretaria de Atenção à Saúde . .132  Ailim Oliveira Braz Silva Considerando a possibilidade de intervenção nos casos de tentativas de suicídio e que as mortes por suicídio podem ser mortes evitáveis por meio de ações de promoção e prevenção em todos os níveis de atenção à saúde. Considerando a necessidade de organizar uma rede de atenção à saúde que garanta uma linha de cuidados integrais no manejo dos casos de tentativas de suicídio.SEGETS/MS. II . quando necessário.ANVISA. com vistas a reduzir o dano do agravo e  melhorar o acesso dos pacientes ao atendimento especializado. III . Considerando a importância do suporte oferecido pelas organizações da sociedade civil na área de prevenção do suicídio. no âmbito do Ministério da Saúde.SAS/MS. com a participação de outras instituições. Art. R E S O L V E: A cobertura proibida Art. Grupo de Trabalho com o objetivo de elaborar e implantar a Estratégia Nacional de Prevenção ao Suicídio.Área Técnica de Saúde Mental: I . IV . 1º  Instituir.um representante da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde . no âmbito do Ministério da Saúde.um representante da Secretaria de Vigilância na Saúde .um representante da Agência Nacional de Vigilância Sanitária .SVS/MS. 2º  Definir que o Grupo de Trabalho de que trata o artigo 1º desta Portaria será representado pelas instituições/órgãos a seguir  relacionados e atuará sob a coordenação da Secretaria de Atenção à Saúde/ Departamento de Ações Programáticas Estratégicas .

um representante do Centro de Valorização da Vida . VII . VIII . 3º  Estabelecer  que o Grupo de Trabalho terá  60 (sessenta) dias.UnB.CVV. Art. da Universidade Federal do Rio de Janeiro . 4º  Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação.um representante do Núcleo de Estudos de Saúde Coletiva.NESC/UFRJ.um representante da Universidade de Brasília .um representante do Programa SUPRE-OMS.PUC-RS. X .Ailim Oliveira Braz Silva  133 V . a contar da publicação desta Portaria. do Rio de Janeiro. do Rio Grande do Sul . Art.um representante do Núcleo de Epidemiologia do Instituto Phillipe Pinel. para apresentar proposta para implantação da Estratégia Nacional de Prevenção ao Suicídio. VI . IX .um representante da Pontifícia Universidade Católica. SARAIVA FELIPE Referências e anexos .

O MINISTRO DE ESTADO DA SAÚDE. indivíduos portadores de doenças crônico-degenerativas. de 19 de setembro de 1990. Considerando a importância epidemiológica do registro do suicídio e das tentativas de suicídio em todo o território nacional. presídios e outros). populações residentes e internadas em instituições específicas (clínicas. tais como: indivíduos com transtornos psíquicos. gestantes e/ou vítimas de violência sexual. no uso de suas atribuições. Considerando que o fenômeno do suicídio é um grave problema de saúde pública. A cobertura proibida .876 DE 14 DE AGOSTO DE 2006. e nº 8. indivíduos que já tentaram suicídio. a ser implantadas em todas as unidades federadas. Considerando o aumento observado na freqüência do comportamento suicida entre jovens entre 15 e 25 anos.142. hospitais. Institui Diretrizes Nacionais para Prevenção do Suicídio. usuários de álcool e outras drogas. de 28 de dezembro de 1990. trabalhadores rurais expostos a determinados agentes tóxicos e/ou a precárias condições de vida. especialmente as depressões.134  Ailim Oliveira Braz Silva ANEXO II PORTARIA Nº 1.080. que afeta toda a sociedade e que pode ser prevenido. e   Considerando a Constituição Federal. respeitadas as competências das três esferas de gestão. escolaridades diversas e em todas as camadas sociais. de ambos os sexos. Considerando a importância epidemiológica e a relevância do quadro de co-morbidade  e transtornos associados ao suicídio e suas tentativas. no capítulo saúde. indivíduos que convivem com o HIV/AIDS e populações de etnias indígenas. em seus artigos 196 a 200 e as Leis Orgânicas da Saúde nº 8. entre outras. adolescentes moradores de rua. em populações vulneráveis.

em suas três dimensões: Pela Vida. nos locais de trabalho. de 2006 e a recomendação da Organização Mundial da Saúde de que os Estados-Membros desenvolvam diretrizes e estratégias nacionais de prevenção do suicídio. Considerando o papel importante dos meios de comunicação de massa por intermédio das diversas mídias no apoio à prevenção e no tratamento humanizado dos casos de tentativas. Considerando a importância do suporte oferecido pelas organizações da sociedade civil na área de Prevenção do Suicídio. nas famílias. nas escolas e em outras instituições. Considerando a necessidade de promover estudos e pesquisas na área de Prevenção do Suicídio. a ser implantadas em todas as unidades federadas. Considerando a necessidade de organizar uma rede de atenção à saúde que garanta linha de cuidados integrais no manejo dos casos de tentativas de suicídio. e Considerando a Portaria nº 2. Considerando os Pactos pela Saúde. estabelecidos pela Portaria nº 399/ GM/MS. 1°  Instituir as Diretrizes Nacionais para Prevenção do Suicídio. Considerando a possibilidade de intervenção nos casos de tentativas de suicídio e que as mortes por suicídio podem ser  evitadas por meio de ações de promoção e prevenção em todos os níveis de atenção à saúde. com vistas a reduzir o dano do agravo e melhorar o acesso dos pacientes ao atendimento especializado. como os Centros de Crise e outros. de 22 de dezembro de 2005. respeitadas as competências das três esferas de gestão. Considerando os custos elevados dos procedimentos necessários às  intervenções após as tentativas de suicídio.Ailim Oliveira Braz Silva  135 Considerando o impacto e os danos causados pelo suicídio e as tentativas nos indivíduos. que instituiu Grupo de Trabalho com o objetivo de elaborar e implantar a Estratégia Nacional de Prevenção ao Suicídio. R E S O L V E: Art. em Defesa do SUS e de Gestão. quando necessário. Referências e anexos .542/GM.

desenvolver estratégias de informação. as instituições acadêmicas. a disseminação das informações e dos conhecimentos. dos serviços de saúde mental. A cobertura proibida . tratamento e recuperação) em todos os níveis de atenção. garantindo o acesso às diferentes modalidades terapêuticas. sem excluir a responsabilidade de toda a sociedade. inclusive do Programa Saúde da Família. de acordo com os princípios da integralidade e da humanização.contribuir para o desenvolvimento de métodos de coleta e análise de dados. permitindo: I . eficácia e qualidade.desenvolver estratégias de promoção de qualidade de vida.136  Ailim Oliveira Braz Silva Art. IV .fomentar e executar projetos estratégicos fundamentados em estudos de custo-efetividade. permitindo a qualificação da gestão.identificar a prevalência dos determinantes e condicionantes do suicídio e tentativas. VII . bem como em processos de organização da rede de atenção e intervenções nos casos de tentativas de suicídio. nacionais e internacionais. implementando e aperfeiçoando permanentemente a produção de dados e garantindo a democratização das informações. as Secretarias de Estado de Saúde. V . 2°  Estabelecer que as Diretrizes Nacionais para Prevenção do Suicídio sejam organizadas de forma articulada entre o Ministério da Saúde. II . III . os organismos governamentais e os não-governamentais.organizar linha de cuidados integrais (promoção. de educação. de comunicação e de sensibilização da sociedade de que o suicídio é um problema de saúde pública que pode ser prevenido. VI . de proteção e de recuperação da saúde e de prevenção de danos. prevenção. as Secretarias Municipais de Saúde. assim como os fatores protetores e o desenvolvimento de ações intersetoriais de responsabilidade pública. as organizações da sociedade civil. das unidades de urgência e emergência.promover intercâmbio entre o Sistema de Informações do SUS e outros sistemas de informações setoriais afins.promover a educação permanente dos profissionais de saúde das unidades de atenção básica. e VIII .

Ailim Oliveira Braz Silva  137 Art. a ser instituído por portaria específica. em conjunto com outras áreas e agências do Ministério da Saúde. Art. 3°  Determinar à Secretaria de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde (SAS/MS).CIT. 4° Determinar à Secretaria de Atenção à Saúde que constitua um Grupo de Trabalho. que adote as providências necessárias para a estruturação das Diretrizes Nacionais para Prevenção do Suicídio instituídas por esta Portaria. Art. para propor a regulamentação dessas diretrizes no prazo máximo de 120 (cento e vinte) dias. 6º  Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação. Art. JOSÉ AGENOR ÁLVARES DA SILVA Referências e anexos . 5°  Determinar que a regulamentação dessas diretrizes seja apresentada e pactuada no âmbito da Comissão Intergestores Tripartite .

se mata mesmo. Verdade. A maioria dos que pensam em se matar. Pensamentos suicidas podem retornar.138  Ailim Oliveira Braz Silva ANEXO III Suicídio – Fato e ficção1 FICÇÃO Pessoas que ficam ameaçando suicídio não se matam. Nem todos os suicídios podem ser prevenidos.who.int/mental_health/prevention/suicide/en/suicideprev_ phc_port. 2008. . mas a maioria pode-se prevenir. 1 Disponível em: <http://www. quando a pessoa tem a energia e a vontade de transformar pensamentos desesperados em ação autodestrutiva. Acesso em: 17 nov. Uma vez suicida. FATO A maioria das pessoas que se matam deram avisos de sua intenção. Quem quer se matar. mas eles não são permanentes e em algumas pessoas eles podem nunca mais retornar. Suicídios ocorrem sem avisos. Muitos suicídios ocorrem num período de melhora. Suicidas freqüentemente dão ampla indicação de sua intenção. A cobertura proibida Melhora após a crise significa que o risco de suicídio acabou.pdf>. têm sentimentos ambivalentes. sempre suicida.

Conj. 364.Ailim Oliveira Braz Silva  139 ANEXO IV SERVIÇOS DE SAÚDE MENTAL Centro de Valorização da Vida – 141 Centros de Atenção Psicossocial (caps). da Silva . Km 04. Ed. 1269 Bairro: Rodolfo Teófilo CEP: 60430-370 Telefone: (85) 3443-2568 Avenida Borges de Melo. 297 Bairro: Massejana CEP: 60864-600 Telefone: (88)03488-3312 • BRASÍLIA (DF) EPNB. Área Especial. Compp Bairro: Asa Norte Referências e anexos . Bloco A. S/Nº Bairro: Riacho Fundo I CEP: 71800-000 Telefone: (61) 3399-3453/3359-3388 SMHN. de algumas capitais brasileiras • ACRE (Rio Branco) Rua Luiz Z. Conjunto 01. Manoel Julião Bairro: Estação Experimental CEP: 69912-000 Telefone: (68) 3227-5134 • CEARÁ (Fortaleza) Rua Capitão Francisco Pedro. Quadra 501. 201 Bairro: Jardim América CEP: 60345-020 Rua Paulo Setúbal.

435 Bairro: Freguesia. Bloco C.br Área Especial SIN. Subsolo Bairro: Guará II CEP: 71010-006 • ESPIRITO SANTO (Vitória) Rua João Caetano. ramal 241/2446-7437 Av. Paranapuã. Presidente Vargas. Ed.140  Ailim Oliveira Braz Silva CEP: 70710-100 Telefone: (61) 3325-4953 compp. 404 Bairro: Ilha de Santa Maria CEP: 29040-530 Telefone: (27) 3132-5111 Rua Álvaro Sarlo Bairro: Ilha de Santa Maria CEP: 29051-100 Telefone: (27) 3132-5104 • MARANHÃO (São Luiz) Rua Raimundo Corrêa. Ilha do Governador A cobertura proibida . 3400 Bairro: Jacarepaguá CEP: 22713-370 Telefone: (21) 2446-5177. 2º Andar Bairro: Centro CEP: 29016-200 Telefone: (27) 3381-3320 Rua José Carvalho. QE 23. 107 Bairro: Monte Castelo CEP: 65031-510 • RIO DE JANEIRO (Rio de Janeiro) Estrada Rodrigues Caldas. 33.com.ses@bol.

224 Bairro: Santa Cruz CEP: 23520-020 Telefone: (21) 3157-5723 capsbacamarte@pcrj.Taquara Bairro: Jacarepaguá CEP: 22713-560 Telefone: (21) 2446-5731 Fax: (21) 2456-7324 capsiesrosa@rio.br Av.br Praça Major Vieira de Melo.gov.gov. 571 Bairro: Bangu CEP: 21870-170 Telefone: (21) 3331-8500/3331-0556 – ramal 256 capslbarreto@rio.Vila Comari Bairro: Campo Grande CEP: 23045-400 Telefone: (21) 2415-3405 cappellegrino@prrj.br Rua Dirceu. 231 Bairro: Irajá CEP: 21220-660 Telefone: (21) 2481-4936 Referências e anexos Rua Senador Camará.gov.rj.gov.br Rua Capitão Aliatar Martins. Fundos Bairro: Jardim Sulacap CEP: 21740-440 Telefone: (21) 3357-7299 .rj.rj.gov.Ailim Oliveira Braz Silva  141 CEP: 21910-001 Telefone: (21) 3396-5602 alaborges@pcrj. 42. S/Nº . Ribeiro Dantas.rj.br Rua Sampaio Corrêa S/Nº .rl.

56 Bairro: Vila Prudente CEP: 03138-030 Telefone: (11) 6347-0886 Rua Clovis Monteiro de Carvalho Júnior. 287 Bairro: Caxingui CEP: 05516-050 Telefone: (11) 3727-1819 Rua Paula Cruz.gov. 71. 71 Bairro: Jardim Dom Bosco CEP: 04757-120 Telefone: (11) 5686-6076 Praça Santa Helena. 849 Bairro: Inhoaiba CEP: 23063-90 Telefone: (21) 3402-8132 caps52@rio.rj. Venceslau Brás.br • RONDÔNIA (Porto Velho) Av. Fundos Bairro: Botafogo CEP: 22290-140 Telefone: (21) 2275-1166 Estrada de Inhoaiba. 3822 Bairro: Industrial CEP: 78905-160 Telefone: (69) 3216-5771 • SÃO PAULO (São Paulo) Rua Oscar Pinheiro Coelho.142  Ailim Oliveira Braz Silva Av. 22 Bairro: Jardim Tietê CEP: 03946-060 Telefone: (11) 6962-3464 A cobertura proibida . Governador Jorge Teixeira.

1910 Bairro: Jardim Nélia CEP: 08142-180 Telefone: (11) 6572-1948 Referências e anexos . Pedro II CEP: 01020-030 Telefone: (11) 3241-0901 Fax: (11) 3257-5155 farmacodep@ig.br Praça Barão de Japura. Anexo B Bairro: Parque D.Ailim Oliveira Braz Silva  143 Rua Frederico Alvarenga.com. 259. 01 Bairro: Vila Guarani CEP: 04313-160 Telefone: (11) 5011-1583 Rua São Benedito. Ivirapema. 41 Bairro: Parque Bologne CEP: 04941-010 Telefone: (11) 5833-2838 Rua Domingos Mertins Pacheco.com.br Rua Sampei Sato. 444 Bairro: Ermelino Matarazzo CEP: 03814-000 Telefone: (11) 6943-9276 Av. 5° Andar. 92 Bairro: Vila Clementino CEP: 04020-050 Telefone: (11) 5571-9476 Fax: (11) 5572-8433 quixote@psiquiatria. 2400 Bairro: Santo Amaro CEP: 04735-005 Telefone: (11) 5523-2864 Rua Professor Francisco de Castro.

50 Bairro: Jardim Lídia CEP: 05860-070 Telefone: (11) 5513-9560 Rua Paulo Lincoln Valle Pontin. 590 Bairro: Itaim Bibi CEP: 04538-082 Telefone: (11) 3078-6886 A cobertura proibida Rua Gutemberg José Ferreira. Augusto do Amaral. Zelina. 203 Bairro: Jardim Felicidade CEP: 05143-000 Telefone: (11) 3835-2903 Av. Horacio Lafer. 222 Bairro: Brasilândia CEP: 02831-030 Telefone: (11) 3921-8924 Fax: (11) 3921-8676 Av. 369 Bairro: Mandaqui CEP: 02406-040 Telefone: (11) 6979-0923 . 323 Bairro: Jaçanã CEP: 02273-010 Telefone: (11) 6242-9399 Rua Roma. 446 Bairro: Lapa CEP: 05050-090 Telefone: (11) 3675-5648 Rua Dr. Luis Lustosa da Silva.144  Ailim Oliveira Braz Silva Rua Lino Pinto dos Santos. 322 Bairro: Vila Zelina CEP: 03143-000 Telefone: (11) 6341-9570 Rua Dr.

549 Bairro: Mooca – CEP: 03166-000 Telefone: (11) 6694-4628 . 149 Bairro: Santo Amaro CEP: 04708-040 Telefone: (11) 5181-1122 Rua Bernardino Prudente. 90 Bairro: Pirituba CEP: 02933-140 Telefone: (11) 3976-7581 Rua São João Lopes de Lima. 616 Bairro: Perdizes CEP: 05004-000 Telefone: (11) 3672-2000 Rua Urutinga. 87 Bairro: Itaquera CEP: 08210-100 Telefone: (11) 6205-0460 Referências e anexos Praça Br Japura. 86 Bairro: Itaquera CEP: 08255-020 Telefone: (11) 6521-1162 Rua Taquari. 1151. 01 Bairro: Vila Guarani CEP: 03413-000 Telefone: (11) 50111583 Rua Senador Miltom Campos.Ailim Oliveira Braz Silva  145 Rua Cândido Espinheira. A Bairro: Jardim Sapopemba CEP: 03976-020 Telefone: (11) 6119-7080 Rua Ken Sugaya.

76 Telefone: (11) 3576-4522 unifesp@epm. 3° Andar Bairro: Santo Amaro CEP: 04752-010 Telefone: (11) 5687-4511 Rua Itapeva. 1448 Bairro: Sumaré CEP: 05438-100 Telefone: (11) 3862-1385 Rua Pauloeiró.146  Ailim Oliveira Braz Silva Rua Conselheiro Saraiva. 700 Bairro: Cerqueira Cesar CEP: 01332-000 Telefone: (11) 3289-2555 Fax: (11) 3289-2585 A cobertura proibida Rua Morcote.br Rua Prates. 165 Bairro: Bom Retiro CEP: 01121-000 Telefone: (11) 3227-3871 Rua 11 de Fevereiro. 411 Bairro: Santana CEP: 02037-020 Telefone: (11) 6973-9434 Rua Heitor Penteado. 23. 318 Bairro: Cidade Vargas CEP: 04319-020 Telefone: (11) 5021-8005 .

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