BORDADO DA MADEIRA

BORDADO DA MADEIRA
Alberto Vieira

Funchal, 2006

TÍTULO

O Bordado da Madeira

1ª Edição Dezembro de 2006 AUTOR EDIÇÃO: ©Alberto Vieira

Bordal-Bordados da Madeira Lda Rua Doutor Fernão Ornelas 77,1º 9050-021 Funchal - Madeira Portugal Telef.+351 291222965 Fax.+351 291227754 Webpage: http://www.bordal.pt TIRAGEM: 3000 exemplares PAGINAÇÃO: Gonçalo Mendes FOTOGRAFIAS: Bordal, Alberto Vieira, Gonçalo Mendes, Museu de Photographia Vicentes. IMPRESSÃO: Tip. Peres, SA (http://www.tipografiaperes.com) ISBN: 978-989-20-0416-7 Depósito Legal: 249553/06

Índice

Apresentação ..................................................................9 O Bordado no Mundo ......................................................19 Do Bordado Caseiro ao Bordado industrial .........................27 A Crise ou mudança do Bordado ......................................45 As Casas de Bordado ......................................................53 As Técnicas e os Materiais ...............................................75 O Processo de Fabrico do Bordado Madeirense ...................81 Os pontos do Bordado Madeira ........................................93 Os Mercados do Bordado Madeira ...................................107 Os Estrangeiros e o Bordado ..........................................117 Conclusão....................................................................131

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Apresentação

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bordado faz parte da cultura e História dos madeirenses. E, a exemplo do vinho, é uma das marcas que os identifica. A sua presença suplanta as barreiras naturais do arquipélago para se postar em mesa ou cama rica em todas as partes do mundo. Executado em meio pobre, mas quase sempre solicitado para mesa ou cama nobre. O bordado madeirense não é uma criação do século XIX, pois está presente na ilha desde os inícios do povoamento. A partir da segunda metade do século XIX tivemos apenas a afirmação como mercadoria com peso significativo no sistema de trocas da ilha com o exterior e na economia familiar de muitos madeirenses. É também considerado como uma iniciativa de Miss Elizabeth Phelps(1820-1893). Mas, na verdade, esta ter-lhe-á aberto o caminho do mercado britânico. Foi a partir de então que o bordado, considerado um produto para uso e consumo caseiro, assumiu a dimensão de produto mercantil, de grande procura e valorização pelo mercado estrangeiro. Isto motivou uma profunda transformação. Apareceram as casas e os exportadores especializados no comércio, responsáveis por uma mudança radical no sector produtivo. A garantia e continuidade do processo de
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Bordadeiras.
Bilhete Postal de 1950

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fabrico e circulação da mercadoria foram asseguradas pelas casas de bordados. Ao mesmo tempo aprimorou-se tecnicamente o produto e regulamentou-se o trabalho da agulha de acordo com as exigências da nova clientela e a moda de cada época. O acto de bordar deixou de ser uma forma de lazer para se transformar numa actividade de subsistência, por vezes, exercida a tempo inteiro. Antes que o forasteiro oitocentista descobrisse o bordado madeirense ele manteve-se reservado ao consumo familiar e à actividade caseira. Bordava-se para fruição própria ou para presentear familiares e amigos. Para a donzela a tradição do enxoval de casamento era muitas vezes o motivo de tão paciente dedicação ao trabalho da agulha. Raras eram as peças fora deste circuito. Estávamos perante um bordado ancestral que seguia uma tradição familiar, adequando-se, de quando em vez, a novos pontos e desenhos a gosto do criador. A partir de meados da centúria oitocentista o aparecimento das Casas de Bordados e o interesse cada vez maior de estrangeiros, nomeadamente ingleses, alemães, norte-americanos e sírios, pelas peças bordadas, conduziram à passagem do processo artesanal para o industrial. Aqui os clientes passaram a definir o tipo de encomendas, ficando às casas a função de coordenar o trabalho, definir as técnicas e os materiais. O bordado deixou de ser livre criação da bordadeira, entrando num processo de laboração que começava com o traçado dos desenhos ajustados à solicitação do mercado ou da exigente clientela. A criação passou para a mão do desenhador, ficando a forma final dependente da maestria das mãos da bor13

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Bordadeiras

dadeira. Por ser um trabalho eminentemente feminino a concretização ocorria em casa de forma a poder conjugar-se a azáfama caseira diária com o trabalho da agulha. Para a maioria dos madeirenses o bordado foi a tábua de salvação em face da situação difícil da agricultura da ilha desde meados do século XIX. A crise económica, provocada pela situação da viticultura, obrigou à procura de novas formas de sobrevivência alternativas, de que o bordar terá sido uma delas. O quotidiano da ilha transformou-se levando a que a mulher se prendesse cada vez mais à casa e ganhasse importância social.
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As lides caseiras passaram a ser companheiras da arte de bordar. A presença do bordado no quotidiano ficou evidenciada por todos os estrangeiros que visitaram a ilha e até o próprio madeirense tem consciência disso. A jovem bordadeira era alguém de prestígio na sociedade rural que, rapidamente se afirmou pela ostentação dos lucros fruto do novo labor. Por outro lado o acto de bordar tornou-se comum e, não apenas para o sexo feminino, pois segundo a quadra popular: Borda o pai, borda a filha e borda a mãe. No meio rural o contacto entre a bordadeira e as casas fazia-se através dos agentes e caixeiros que calcorreavam todas as localidades à descoberta das ágeis mãos capazes de dar forma e relevo aos desenhos estampados nas peças de linho e cambraia. Na cidade do Funchal as casas de vinhos cederam lugar às de bordados e a animação comercial transferiu-se para novos cenários e arruamentos. No porto os navios, nomeadamente os passageiros dos chamados vapores do Cabo, passaram a ser assediados por minúsculas embarcações onde os bomboteiros exibiam enormes toalhas bordadas. A primeira metade do século XX foi um período difícil para todo o mundo. As guerras mundiais (1914-19 e 1939-45) foram um forte travão ao progresso e ao comércio. Perderam-se mercados, encerram-se muitas casas, emigraram as bordadeiras e a concorrência do bordado doutras regiões, nomeadamente oriental, não deu tréguas aos madeirenses. Mesmo assim o bordado manteve-se na economia local com o vinho como a marca indelével que identifica a ilha. E enquanto houver quem valorize o trabalho da agulha o bordado madeirense não morrerá, ficando na memória dos visitantes como a recordação perdulária da
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Mulheres bordando.
Fotografia de Museu Vicentes

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visita e descoberta deste trabalho manual que teima em persistir na era post-industrial. Ainda hoje, passados os momentos de fulgor da produção e comércio do bordado, a ilha continua a ser identificada por este e pelo vinho. Apenas mudaram as possibilidades de acesso a estas autênticas obras de arte, que no dizer do escritor madeirense, Horácio Bento de Gouveia, são as nossas Lágrimas correndo mundo.

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Pormenor da toalha apresentada no Pavilhão da Madeira da Expo-98 em Lisboa.
Desenho de Leandro Jardim.

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O bordado no mundo
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o contrário do que possa parecer a História do bordado não se esgota na Madeira e tão pouco se resume ao período decorrente da afirmação a partir de finais do século XIX. Tudo isto porque o bordado não é criação madeirense e o trabalho da agulha ocupou sempre o sexo feminino nos quatro cantos do Mundo. Segundo a tradição o berço do bordado situa-se no Oriente, Médio Oriente e Rússia. E parece que esta actividade se perde nos anais da História. Em 1964 o achado arqueológico de um caçador do “CroMagnon”, datado de cerca de 30.000 AC revelou-nos o primeiro registo fossilizado de um pano bordado com pontos à mão. O primeiro bordado que se preserva em pano é chinês e data de 3500 AC. A China foi um dos espaços de afirmação da arte de bordar, que remonta à dinastia Shang (1766-1122 AC.) e tornouse muito popular na dinastia Ming (1368-1644). No Mediterrâneo a divulgação do bordado esteve a cargo dos assírios, egípcios, gregos e romanos. Os gregos consideravam o bordado invenção da deusa Minerva. São inúmeros os registos arqueológicos onde é possível testemunhar a importância do bordado para as civilizações do Mediterrâneo. O Cristianismo,
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Bordadeiras.
Bilhete Postal. 1909

por força da necessidade dos trajes de culto litúrgico bordados a ouro, defendeu e divulgou a arte de bordar em todo o mundo sob a sua influência. Roma, como sede do papado, transformou-se a partir do século XVI num dos mais importantes centros do trabalho da agulha, por força da exigência das vestes de cerimónia do papa e cardeais. O Cristianismo encarregou-se de divulgar a arte em todo o lado e os conventos femininos foram centros de relevo no incentivo da tradição de bordar. Em toda a Europa, cristã ou não, era conhecido o trabalho da agulha, popularizando-se o bordado no século XVIII. Os séculos XVII e XVIII são considerados a época de ouro do bordado europeu, numa vasta área que vai desde a Itália à Holanda, passando pelos países eslavos. A segunda metade do século XIX foi
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marcada por profunda transformação fruto da mecanização do trabalho com a máquina de bordar, considerada uma séria ameaça para o bordado à mão de regiões como a Madeira. Em 1913 causou alvoroço no Funchal a notícia de que fora autorizada a importação de máquinas de coser para o bordado. Foi nesta época que se procedeu a uma maior divulgação dos motivos através dos desenhos em revistas, contribuindo para o estabelecimento de padrões que em diversos momentos foram moda. A divulgação de desenhos impressos terá começado no século XVI com a publicação dos primeiros livros sobre o tema. O bordado aplicado nas peças de vestuário era uma tradição desde a Idade Média e estava ligado à realeza e nobreza. Os bordados em seda e ouro eram o adorno principal das peças de vestuário, alcançando, por isso, elevado preço. A tradição diz-nos que as peças bordadas estavam reservadas para a oferta a reis, imperadores e príncipes. Em Portugal a arte de bordar está presente desde tempos muito recuados afirmando-se em algumas regiões como Viana do Castelo, Guimarães, Castelo Branco, Nisa, Caldas da Rainha e Tibaldinho. A presença na Madeira de povoadores oriundos das diversas regiões do país, mas de forma especial do norte, áreas de grande tradição do bordado, deverá ter contribuído para que esta arte se alargasse aos novos espaços de ocupação no Atlântico. Um dos grupos mais significativos de povoadores do arquipélago era oriundo de Viana do Castelo. Deste modo o bordar é tão antigo quanto o povoamento da ilha, uma vez que os primeiros portugueses que pisaram o solo madeirense foram dignos representantes de uma tradição cultural que projectou a terra de origem.

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Camponesa, litografia da
Colecção Palhares, 1842.

Mulher moendo cereal em moinho de mão.
Litografia de P. Springett, 1843.

O bordado está directamente ligado ao vestuário e desde o momento que o Homem sentiu a necessidade de cobrir o corpo surgiram os tecidos, elaborados com diversos produtos e o recurso a técnicas de confecção, com aplicações de bordado. Na Madeira as formas de vestir obedeceram ao padrão dos locais de origem dos colonos e às disponibilidades de artefactos oferecidas pelo meio e mercado. Por força disso cultivou-se o linho e o pastoreio de ovelhas foi também uma actividade significativa do mundo rural pelo fornecimento de lã para a indumentária local. Em 1862 temos 559 teares de linho e lã. A maior incidência ocorria em Santana e Calheta, com 160 e 165 teares respectivamente. No Funchal a concentração era menor, pois o porto abrialhe a possibilidade de acesso aos panos de importação. A riqueza aliada à oferta de tecidos de importação, de preços excessivamente elevados, conduzia ao luxo nos diversos estratos
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Fiar o linho.
Litografia de J. Gellaty de 1840

sociais. A coroa interveio no sentido de travar a ostentação no vestuário. Em 1686 D. Pedro fez publicar uma pragmática contra isso. Aqui o principal alvo era “todos os bordados que chamam de seda”, que não podiam levar prata ou ouro, e “todas as rendas que se chamam bordados”. Já em 1749 D, João V condescendia com algumas peças de vestuário bordadas: “poderá usar-se roupa branca bordada de branco ou de cores, contudo porém que seja bordado nos meus domínios, não de outra manufactura.”. As leis sumptuárias, ao proibirem as peças de vestuário bordadas, evidenciam que era tradição comum a todo o reino e que abrangia muitas das peças de vestuário masculino (camisas, calções, etc.) e feminino (saia, colete, manto, capa, etc.). A partir da Revolução Liberal o comércio de venda a retalho dos tecidos tornou-se livre das peias sumptuárias, o que deverá ter contribuído para uma reafirmação do bordado nas peças de vestuário.
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A Bordadeira.
Monumento escultórico de Anjos Teixeira, inaugurado em 30 de Junho de 1986 nos Jardins do IVBAM

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Do bordado caseiro ao bordado industrial
Pormenor de barra antiga

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Miradouro do Largo das Cruzes com o Convento de Santa Clara.
Gravura de Frank Dillon, 1850.

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bordado está presente na ilha desde os primitivos tempos da ocupação. A tradição de bordar, do local de origem dos povoadores, acompanhou-os na travessia atlântica e instalou-se no novo espaço. Borda-se na ilha desde o início do povoamento. Bordava-se em linho, algodão, seda e organdy para se fazerem toalhas de mesa, peças decorativas, jogos de cama e peças de vestuário, nomeadamente feminino. Muitas das peças de vestuário passavam de pais para filhos, não apenas pelo valor sentimental que detinham, mas também, pela raridade e riqueza do bordado. O mais antigo testemunho sobre o bordado madeirense surge em finais do século XVI no volume das “Saudades da Terra” que Gaspar Frutuoso dedicou à Madeira. A propósito do casamento de Isabel de Abreu, da Calheta, com António Gonçalves, o autor refere que as delicadas mulheres da ilha da Madeira, que (além de serem comummente bem assombradas, muito formosas, discretas e virtuosas) são estremadas na per29

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Peças de vestuário antigas

Peças de vestuário antigas

feição deles e em todalas invenções de ricas coisas, que fazem, não tão somente em pano com polidos lavores.... Daqui resultará que o bordado Madeira se manteve por muito tempo no segredo das arcas das criadoras. Era trabalho de inestimável valor que, por isso mesmo, não podia ser vendido, sendo apenas de usufruto familiar, prenda de enxoval ou legado por morte. Por muito tempo o bordado foi considerado um produto não vendável, que raramente saía do circuito familiar. Os estrangeiros que escreveram sobre a ilha até meados do século XIX não fazem referência ao bordado. Aquilo que mais lhes chamava a atenção eram as flores artificiais feitas pelas freiras do Convento de Santa Clara. No relato das três viagens (1768, 1772, 1776) de James Cook não surge qualquer indicação do bordado mas sim às ditas flores. O Convento de Santa Clara foi uma referência para a maioria dos estrangeiros que visitaram a ilha entre os séculos XVII e XIX. Era local de romagem obrigatória. Aqui, para além da doçaria, realçava-se as flores de penas. Para muitos dos visi30

Peças de vestuário antigas

tantes o principal “souvenir” da Madeira. A juntar a tudo isto temos em princípios do século XIX uma verdadeira atracção para os visitantes, a madre Maria Clementina. Nos conventos femininos, como o de Santa Clara, o bordado foi também uma actividade que ocupou as freiras nos momentos de lazer, mas a maioria dos estrangeiros apenas se detém nas flores artificiais e na doçaria. Até meados do século XIX não existem referências à venda ou exportação do bordado Madeira. E, nas diversas descrições das actividades artesanais, não aparece o bordado. Foi, na verdade, com a exposição das indústrias madeirenses realizada no Palácio de S. Lourenço a partir de 1 de Abril de 1850 que se descobriu o bordado, como mercadoria salvadora da economia familiar. A partir daqui procedeu-se ao aproveitamento capitalista, assumindo-se as peças bordadas como um produto de grande rentabilidade económica. A exposição industrial foi organizada pelo então Governador Civil, José Silvestre Ribeiro, com o
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objectivo de promover junto dos madeirenses e visitantes, as diversas indústrias e artesanato do arquipélago. A escolha do mês de Abril deveu-se ao facto de ser o mês em que havia maior número de estrangeiros na ilha. O sucesso parece que se ficou pela valorização comercial das obras de artesanato expostas, nomeadamente o bordado. Graças ao empenho pessoal do Governador a exposição foi um sucesso e a mais completa amostra das potencialidades sócio-económicas do arquipélago. No caso dos bordados o relatório sobre a exposição não podia ser mais elogioso: ...bordados em seda a matiz com guarnições de froco, de mastro, e de ouro, em diferentes quadros, tudo feito com muito asseio e beleza. Bordados de passe em filó, bem acabados e de bom gosto. Bordados brancos diversos de muito merecimento. Como forma de incentivo aos expositores distribuíram-se medalhas e louvores. No sector dos bordados e lavores tivemos duas medalhas a premiar os bordados brancos de Luísa e Carolina Teives. O interesse britânico por esta exposição foi enorme, recebendo a Madeira convite para estar presente em Londres na Exposição Universal que decorreu no ano seguinte de 1851. Mais uma vez, sob o impulso do Governador Civil, José Silvestre Ribeiro, a Madeira apresentou um rico bordado feito pela senhora Breciano com reprodução de flores da Madeira, flores de penas das freiras do Convento de Santa Clara. Os comentários às peças presentes foram auspiciosos: bordados a branco que foram geralmente aplaudidos e considerados de uma perfeição inexcedível. Ambas as exposições foram um marco decisivo na afir32

José Silvestre Ribeiro (1807-1891). Governador Civil da Madeira entre 1846 a 1852

Pormenor de bordado antigo

mação do bordado no mercado local e londrino. O primeiro registo referenciado das exportações é de 1849 e dá conta do envio para Lisboa de esguião de linho bordado, mas foi nas exportações para o mercado britânico, a partir de 1854, que começou a delinear-se o primeiro e promissor mercado para o bordado Madeira. As primeiras exportações aconteceram por iniciativa de Miss Elizabeth Phelps, filha de Joseph Phelps, um destacado mercador de vinhos que se havia instalado no Funchal em finais do século XVIII. Ela foi responsável pela propaganda do bordado madeirense junto de algumas famílias e teve também uma activa intervenção no ensino do trabalho da agulha. Em meados da centúria, a mesma, com outras senhoras funchalenses criou uma escola lancasteriana feminina. Aqui, para além do ensino básico, sem recurso à palmatória, ensinava-se as jovens a trabalhar com a agulha. O ensino das técnicas do bordado inglês influenciou de forma decisiva o bordado Madeira nos primeiros anos, de tal forma que Émile Bayard afirmava que era conhecido como bordado inglês. A ligação de Miss Elizabeth Phelps, filha de Joseph Phelps (1791-1876) e Elizabeth Dickinson (1795-1876), ao bordado
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madeirense tem dado lugar a alguma confusão. É comum dizer-se que foi esta donzela britânica que introduziu o bordado na ilha. Pelo que atrás ficou dito parece estar demonstrado que o bordado já existia na ilha muito tempo antes da sua chegada e que o contributo mais significativo foi o de o divulgar à sociedade britânica, abrindo as portas para um promissor mercado. A partir de meados do século XIX os visitantes ingleses passaram a dar atenção ao bordado. Assim, entre 1853-54, Isabella de França, no diário da visita que fez à ilha, dá conta de forma clara da presença do bordado na indumentária madeirense. Na romagem de Santo António da Serra, em Outubro, refere um homem com casaca azul recamada de magníficos bordados a ouro. Quanto ao vestuário feminino destaca um corpete de fustão amarelo ou material semelhante muito bem bordado a ponto branco. E na inevitável visita a Maria Clementina no convento de Santa Clara desperta-lhe de novo a atenção o bordado da camisa:...tinha um peitilho franzido em volta do pescoço, de cassa tão fina e clara que mostrava a extremidade bordada da camisa a despontar por baixo [...]. Na mão sustinha um lenço bordado, da mesma casa,... À medida que o produto foi ganhando mercado em Inglaterra surgiram os primeiros intermediários. Robert e Frank Wilkinson foram os primeiros ingleses envolvidos no negócio. As relações comerciais entre a Madeira eram assíduas desde o século XVII, fruto da ligação madeirense ao processo de afirmação colonial britânica, onde o porto do Funchal foi um dos centros de apoio no Atlântico. A presença de ingleses era frequente no Funchal e a actividade alargava-se a todos os produtos com valor mercantil. Os britânicos, por força destas circunstâncias, foram
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Joseph Phelps (1791-1876) e Elizabeth Dickinson (1795-1876)

os primeiros a interessar-se pelo comércio do bordado. A valorização do bordado como mercadoria de exportação teve implicações directas no processo de fabrico. Primeiro assinala-se a necessidade de recrutamento de cada vez mais mãode-obra de forma a atender às solicitações. Em 1862 temos mais de mil bordadeiras em toda a ilha. Paulatinamente o bordado conquistou novos mercados, fruto da divulgação que fizeram os britânicos, nomeadamente nos roteiros e literatura de viagens. A fama ultrapassou as fronteiras e chegou à Alemanha. As primeiras peças de bordado foram para aí conduzidas em 1881 por iniciativa de Otto von Streit, que havia fixado morada no Funchal em Novembro de 1880, na busca da cura para a tísica pulmonar. A presença marcou o início da intervenção alemã que perdurou até 1916, altura em que Portugal entrou na primeira Guerra Mundial. A intervenção dos industriais e comerciantes alemães foi um marco importante na História do bordado madeirense. A partir da década de oitenta provocou uma verdadeira revolução no processo de fabrico do bordado. A primeira alteração ocorreu ao nível dos tecidos e linhas. A linha azul, usada até então, foi substituída pela linha branca. Ao mesmo tempo introduziu-se uma nova técnica de aplicação directa dos desenhos sobre o tecido, acabando-se com os desenhos alinhavados por baixo. Sucede,
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Bordadeiras.
Colecção de Photrographia Museu Vicentes

Bordadeiras.
Painel de Azulejo na Avenida Arriaga. Funchal. 1932

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ainda, que os desenhos eram até então criação das bordadeiras, mas com esta nova técnica os desenhos passaram a ser feitos e estampados no tecido antes de serem entregues às bordadeiras. Para facilitar o processo introduziram-se as máquinas de picotar. A técnica obrigou ao estabelecimento de casas comerciais no Funchal com a função de proceder ao trabalho de preparação e à distribuição do tecido e linhas pelas bordadeiras. Junto destas actuavam os caixeiros que procediam à distribuição pelas bordadeiras dos panos e que depois os recolhiam já bordados. Toda a tarefa de engomar e embalar os bordados estava reservada à casa, com sede no Funchal. A cada vez maior procura de bordado implicou as necessárias inovações técnicas devidas aos alemães, o aumento da mão-de-obra no bordado e o aperfeiçoamento da rede de agentes de distribuição e recolha. O facto de os panos a bordar serem apresentados às bordadeiras já estampados com os desenhos facilitou a adesão de muitas mulheres a esta actividade que poderia ser partilhada com a vida diária.

Os industriais e as casas alemães
Os alemães intervieram no comércio do bordado a partir da década de oitenta do século XIX, fazendo-o entrar no circuito internacional através do porto franco de Hamburgo. A Casa Grande de Otto Von Streit começou por enviar os bordados em bruto para Hamburgo, onde eram depois preparados para a exportação com destino aos Estados Unidos da América, facultando-lhes um fácil controlo dos ciclos produtivo e comercial. Assim, se por qualquer motivo o trabalho das bordadeiras não satisfizesse os seus interesses, procuravam outros mercados de mão-de-obra, uma vez que eram detentores dos padrões usados. A situação de 1916, fruto das represálias da guerra, foi duplamente prejudicial para a ilha, pois a fuga não impediu de conti38

nuarem o comércio de bordado, mas apenas desviou a atenção para novos mercados. A presença da comunidade alemã a partir das duas últimas décadas do século XIX era importante, disputando mano a mano com os ingleses o domínio da Madeira. A ilha era um espaço aberto de acolhimento de inúmeros europeus, incluídos os alemães, que procuravam no clima ameno a cura para a tísica pulmonar. E foi do seio do grupo que surgiu muitas vezes os empreendedores comerciantes e industriais. No sentido de melhorar o serviço de acolhimento aos doentes avançou-se com o projecto de construção de sanatórios. Em 1903 o príncipe Frederico Carlos de Hohenlohe foi o promotor da iniciativa. Mas o Governo Português, por influência dos britânicos, foi forçado a rescindir a concessão outorgada à dita companhia dos Sanatórios, mediante uma indemnização pesada, travando-se definitivamente a plena implantação no Funchal. O afrontamento das comunidades, britânica e alemã, deverá ter pesado na pronta fuga dos alemães em 1916 e nos dois bombardeamentos à cidade do Funchal, a 3 de Dezembro de 1916 e 12 de Dezembro de 1917. Não obstante a animosidade britânica, os alemães conseguiram firmar uma posição de destaque no comércio do bordado entre 1890 e 1914. A hegemonia tornou-se notória a partir de 1895, altura em que a Alemanha recebeu 33173 Kg de bordados, contra os 2751 Kg da Inglaterra. Os valores não reflectem a realidade das exportações uma vez que estavam

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Desenho humorístico de ReNhau-Nhau

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Pormenor de Bordado antigo

excluídos os bordados enviados para o porto franco de Hamburgo, um dos principais destinos das exportações. A intervenção da comunidade alemã no comércio do bordado só foi possível com a presença de um influente grupo directamente implicado no fabrico e exportação do bordado. Em 1912 o negócio era assegurado por seis casas: Wilhelm Marum (1898), Georg Wartenberg, R. Kretzschomar, Otto von Streit, Dutting & Gaa, Wolflenstein & Horwitz. A saída dos alemães em 1916 foi compensada pela chegada dos sírios que rapidamente dominaram o bordado madeirense até 1925. Aqui, o mercado norte-americano, que desde 1910 vinha adquirindo importância, domina as exportações. Mas o século XX, uma esperança segura para o comércio do bordado, trouxe à ilha mercadores franceses, ingleses e americanos. Os primeiros anos do século XX foram ainda marcados pela concorrência desenfreada. Internamente envolveu os industriais
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Pormenor de Bordado antigo

envolvidos no fabrico e comércio do bordado, enquanto externamente a Madeira teve que competir com os mercados produtores da Boémia, Alsácia, Irlanda e Suiça. No caso da Suiça, o processo de mecanização em curso desde a década de sessenta do século XIX, trazia vantagens acrescidas, uma vez que reduzia drasticamente os custos de produção. As inovações tecnológicas no sentido da mecanização do processo de fabrico do bordado, que ocorreram a partir da segunda metade do século XIX, não impediram a Madeira de manter a procura do bordado, não só, pela qualidade do trabalho, mas acima de tudo, pelo baixo custo da mão-de-obra que foi durante muito tempo a garantia concorrencial face ao processo de mecanização do processo noutras regiões.

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Desenho para toalha de Leandro Jardim

A crise

ou mudança do bordado
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situação da economia mundial na primeira metade do século XX, muito marcada pelas duas guerras mundiais (1914-19, 1929-35), condicionou a evolução do mercado do bordado. A guerra isolou a ilha, impedindo-a de contactar com os mercados fornecedores de matéria-prima e consumidores de bordado. Pior que isso foi a crise económica que lhe andou associada e que condicionou o poder de compra dos potenciais clientes. E, como o bordado madeirense era considerado um produto caro, não era fácil encontrar saída. Ao mesmo tempo sucederam-se entraves em alguns mercados. A Inglaterra estabeleceu em 1917 a proibição de importação do bordado Madeira, sendo secundados no ano

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Aspecto da Igreja de Santa Clara depois do bombardeamento alemão de 12 de Dezembro de 1917.
Colecção de Photographia Museu Vicentes.

As represálias fizeramse sentir ao nível económico no sector dos bordados.

imediato pelos Estados Unidos da América A primeira guerra mundial afugentou os alemães e trouxe os sírios que consolidaram as exportações para o mercado americano, que se afirmou como a principal esperança. Sucedeu, entretanto em 1929 o golpe fatal com o “crush” da Bolsa de Nova York que arrastou os Estados Unidos para uma das piores crises da História. Tudo isto abalou fortemente o comércio do bordado Madeira. A crise do mercado norte-americana foi contrabalançada com a valorização do mercado brasileiro, que se manterá até 1956. O movimento autonomista dos anos vinte manteve-se atento aos bordados e nos planos dedicava espaço ao debate e defesa do bordado regional, que continuava a ser considerado uma indústria fundamental, que mais não seja na preservação da identidade regional. A verdadeira autonomia tardou muito tempo a ser alcançada, privando os madeirenses a possibilidade de encontrar soluções para o problema desta actividade.
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Desenho humorístico de Re-Nhau-Nhau.

Bordadeiras

Perante tais condições de crise do bordado o Governo da ditadura, saído da Revolta de 28 de Maio de 1926, estabeleceu algumas medidas de apoio. A 9 de Setembro o Governo permitiu a importação de tecidos de seda e linho para o bordado em regime de drawback. A mesma medida alargou-se em 1928 aos fios de tecido. Os anos trinta foram muito complicados para a sociedade madeirense e para a sobrevivência do bordado. Deste modo o governo saído da Revolta da Madeira de 4 de Abril de 1931 procurou intervir na salvaguarda do sector abrindo a 20 de Abril uma linha de crédito de mil contos a favor da indústria. Em 1935 o bordado continuava a ser um sector sob a vigilância e especial protecção do governo, tal como o refere Salazar em carta que escreveu ao Dr. João Abel de Freitas, Presidente da Junta Geral. Assim, à criação do Grémio para o sector em 1936, juntou-se no ano imediato a isenção de direitos de importação e das imposições locais sobre a matéria-prima necessária à indústria do bordado.

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KASSAB.
Desenhos humorísticos de Re-Nhau-Nhau.

Documento da firma KASSAB.

Nos anos quarenta, de novo o período da guerra provocou redobradas dificuldades ao sector dos bordados e à economia familiar, uma vez que as mulheres estavam quase por completo entregues ao bordado e os homens ao vime. Ao mesmo tempo a emigração para o Brasil, Venezuela, África do Sul e Austrália veio a dar o golpe mortal na indústria. Primeiro saíram os homens, deixando todos os afazeres do casal a cargo da mulher que passa a dispor de menos tempo para bordar. Depois, foi a restante família a se juntar, fazendo diminuir drasticamente a mão-de-obra disponível. No post-guerra tudo fazia indicar que o mercado do bordado da Madeira estava definitivamente perdido e que dificilmente retornaria aos tempos dourados de princípios da centúria. Nos anos sessenta surgiram novas dificuldades provocadas pela instabilidade económica dos principais mercados: Estados Unidos da América, África do Sul e Rodésia. A tudo isto havia que juntar a concorrência dos bordados à mão da China, Filipinas, Tailândia
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Edifício do IVBAM.

Aspecto do Núcleo Museológico do IVBAM.

e Coreia, e aquele feito à máquina oriundo da Suiça e Hong Kong. A Revolução do 25 de Abril de 1974 aconteceu num dos momentos mais difíceis da História do bordado da Madeira e apenas o processo autonómico a partir de 1976 conduziu à definição de uma política para o sector. Em 1978 foi criado o Instituto do Bordado e Tapeçarias e Artesanato da Madeira (IBTAM) com o objectivo de intervir no sentido da valorização, preservação e promoção do artesanato madeirense. Das actividades do IBTAM nos últimos anos destacam-se a criação da marca Bordado Madeira, o Núcleo Museológico do Bordado e o Centro de Moda e Design. Finalmente em 2006 o Governo Regional fundiu este instituto com o do Vinho da Madeira, criando uma entidade comum para a defesa e promoção dos bordados, artesanato e vinho da Madeira, ficando conhecido como Instituto do Vinho e do Bordado e Artesanato da Madeira (IVBAM).

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Interior casa de bordados. Colecção de Photographia Museu Vicentes.

As casas de bordado
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Os Caixeiros.
Colecção de Photographia Museu Vicentes.

Casa de Bordados Emil Marghab Cª Lda Sucr.
Arquivo do Museu Photographia Vicentes

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O

mercado do bordado da Madeira foi marcado ao longo dos últimos cento e cinquenta anos por uma elevada instabilidade, que denuncia a fragilidade da indústria no mercado mundial. Para isso contribuiu, não só, a conjuntura internacional, mas também, a precariedade das casas de bordados criadas por estrangeiros, nomeadamente ingleses, alemães e sírios. A cada grupo correspondeu uma forma de intervenção e mercados distintos. Os ingleses foram os primeiros a intervir no processo. Mas foram os alemães que deram o impulso decisivo na diversificação dos mercados. O avanço foi travado apenas por influência dos ingleses e acabou por ser interrompido com a Primeira Guerra Mundial. Estes, forçados a sair por força da represália política, permitiram que os sírios assumissem o comando dos negócios. A partir de 1890 processou-se uma profunda transfor55

Arquivo de antiga Casa de Bordados. 56

mação, com a afirmação das casas de bordado em detrimento dos exportadores. A diferença estava em que os últimos se limitavam a adquirir o bordado às bordadeiras, enquanto os segundos passaram a intervir directamente no processo produtivo dando às bordadeiras o tecido já com os desenhos estampados. Para isso montaram uma rede de agentes em toda a ilha, que procedia à distribuição dos panos e depois recolhia-os já bordados. A mudança incrementada pelos alemães conduziu à afirmação das chamadas Casas de Bordados. No primeiro quartel do século XX são referenciadas as seguintes casas: A. J. Fróes, Casa Bradwil, Casa Grande, Casa Hougas, Casa Maru, Casa Suiça, Companhia Portuguesa de Bordados, H. C. Payne, Hamú, José Clemente da silva, Mallouk Bros, M. R. Silva Diniz, Wagner, Schinitzer, União Madeirense de Bordados, Casa Americana. Em 1923 são referenciadas 100 casas de bordado, o que atesta a vitalidade da indústria no período entre as duas guerras. O peso das pautas aduaneiras levou a partir de 1924 à saída dos sírios que entregaram as casas aos madeirenses, que passaram a controlar o sector. Nos anos seguintes manteve-se o número elevado de empresas do sector. Na década de quarenta, Orlando Ribeiro (1949) refere a actividade de 91 casas empenhadas no comércio e exportação do produto. Em 1953, um relatório do Grémio do sector anota a existência de 103 casas, mas sucede que 61 destas não ultrapassam os 50 contos de exportações mensais, sendo casas de pequena dimensão. Apenas 12 casas facturavam mensalmente mais de sete mil contos. Em 1969 são referenciadas 88 casas de bordados. A política de associação e classe do Estado Novo também atingiu a indústria dos bordados. Assim pelo decreto-lei nº. 25643, de 20 de Julho de 1935 foi criado o Grémio dos industriais de Bordados da Madeira, com a missão de orientar a indústria no campo da produção e comércio. Tal como enuncia um folheto publicitário do Grémio de 1958 a defesa dos interesses do
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Escola de bordado.
Arquivo do Museu Photographia Vicentes

sector estava assegurada, pois não se repetiram na vigência do grémio, as crises periódicas que, no passado, tanto afligiram a economia da indústria e dos seus trabalhadores. De acordo com a portaria 8337 foi estabelecida uma taxa sobre o valor das exportações e as vendas locais para acudir às despesas da agremiação. Foi com os fundos resultantes desta taxa que se construiu a sede, o actual edifício do IVBAM, inaugurado nos anos cinquenta. O grémio dispunha de armazéns para reserva de tecidos e linhas para abastecer o sector, situação que é ainda hoje garantida no mesmo edifício, apenas para a reserva dos tecidos. O grémio, para além da função reguladora do sector, actuava no sentido da defesa, promovendo o ensino do bordar às jovens, com as escolas criadas em Câmara de Lobos e Machico. Ao mesmo tempo estabelecia os preços mínimos da mão-de-obra baseada numa unidade de medida conhecida como pontos industriais. Entre 1935 e 1958, houve uma melhoria significativa na
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Lavandaria de casa de bordados.

Selo holográfico.

valorização do trabalho da bordadeira, passando-se de 35 centavos por 100 pontos para 2420 em 1958. Esta melhoria atingiu também as 750 operárias das Casas que em 1935 recebiam entre 3$00 a 6$00 de salário e passaram a auferir em 1958 entre 11$00 e 20$00. Para isso contribuiu também a criação em 1 de Março de 1937 do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Bordados da Madeira. Esta agremiação sindical passou a chamarse em 1974 de Sindicato Livre da Indústria de Bordados da Madeira, integrando também as bordadeiras de casa. O 25 de Abril de 1974 destronou o regime e as estruturas económicas criadas pelo Estado Novo e consideradas como seu sustentáculo. Os grémios do regime deram lugar às Associações, surgindo no caso do Bordado Madeira a Associação de Produtores de Bordado Tapeçarias e Artesanato e Obra de Vimes da Madeira. A defesa do bordado foi uma das atribuições do Grémio dos bordados desde 1935. Para isso criou-se por decreto-lei de 8 de
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Publicidade

Bilhete antigo da Bordal (1968) 61

Bordadeiras.
Painel de Azulejo na Avenida Arriaga. Funchal.1932

Dezembro de 1938, a obrigatoriedade de o bordado para venda dispor de um selo de garantia. A criação por decreto regional do IBTAM em 1977 veio a atribuir uma nova dinâmica e intervenção do Governo Regional no sector. A defesa da qualidade do bordado continuou a ser uma aposta definindo-se a partir de 2000 o uso do selo holográfico como forma de evitar falsificações. Por outro lado a aposta na inovação levou o Governo Regional a criar o Centro de Moda e Design. Dos objectivos fazem parte a aposta na criação de novos produtos, servindo-se das tecnologias de ponta, com a introdução do Design, Imagem e Marketing. A partir daqui abriu-se uma nova oportunidade para o sector do bordado. E hoje é evidente que o bordado Madeira conquistou um lugar cativo na moda, surgindo vários estilistas madeirenses que apostaram com sucesso na utilização do bordado no vestuário.
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A BORDADEIRA

Minha Madeira ou meu encanto Por ti quanto e sou profano Jóia que Deus num dia santo Deixou cair no oceano

Como tu não há nenhuma E nas noites sonhadoras Bordam das ondas a espuma Os dedos das bordadouras.
(canção de MAX (1918-1980)

A bordadeira
Em todos os momentos da História do bordado a referência mais comum prende-se com o labor da bordadeira. É ela, que com mãos de fada, dá o toque de beleza aos pontos do bordado. A destreza, dedicação e sacrifício são motivo de constante panegírico e admiração por todos os que descobriram o bordado. Preservou na ilha a ancestral tradição de bordar e, antes que em meados do século XIX, interviessem os estrangeiros a dominar o circuito de produção, foi ela que criou os desenhos que tão graciosamente esculpia à linha sob o pano. O labor incansável da bordadeira, em delongas noites, está testemunhado nas peças bordadas que encantam os naturais como visitantes, embelezam quem veste as peças de vestuário,
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Desenhos humorísticos de Re-Nhau-Nhau

engrandece as recepções e repastos e enriquece o aconchego dos lençóis e travesseiros. A marca indelével do trabalho está presente em todo o lado. O quadro típico da bordadeira sentada em frente do casebre que a abriga durante a noite foi uma imagem frequentemente mantida na retina dos visitantes desde finais do século XIX. A este labor isolado juntou-se outra imagem dos grupos de mulheres que se juntam à beira de caminhos e atalhos. Por toda a ilha era habitual os ajuntamentos de mulheres casadas, donzelas, idosas e crianças, cujas mãos bordavam mas o pensamento está no quotidiano próprio e alheio. Bordava-se mas também se conversava sobre a vida de um e de outro. Raras vezes alguém entoava uma cantiga popular, daquelas que andam de boca em boca, ou se ouvem na rádio. O bordado é o testemunho da arte da mulher madeirense, como também das dificuldades quotidianas. Bordava-se, não por prazer, mas por necessidade de forma a garantir-se o magro sus-

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Bordadeiras.
Bilhete Postal

tento da casa. A sobrevivência do bordado continua ainda hoje a depender do seu paciente labor. Durante muito tempo foi uma actividade garantida pelo seu trabalho e dedicação. Ela tinha liberdade de escolha dos tecidos, linhas e padrões a bordar. Concluído o trabalho calcorreava a cidade ou ia de porta em porta a oferecer o lavor por alguns tostões que garantissem a sobrevivência da família. Muitos estrangeiros, cativados por estas autênticas obras de arte, testemunham que era aqui que se encontrava o melhor bordado feito na ilha. As exigências das exportações conduziram ao aparecimento de novos agentes no processo, implicando uma mudança radical na confecção do produto. A bordadeira perdeu o controlo do processo, passando a actuar como mero executante do bordado sobre tecidos já estampados. Em troca receberá uma magra recompensa contabilizada em pontos. Embora o trabalho da bordadeira seja ancestral a primeira referência ao número de mulheres dedicadas ao bordado surge

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Acabamentos na produção do bordado.

só em 1863 no relatório de Francisco de Paula Campos e Oliveira sobre as indústrias do arquipélago. Aqui considera-se o bordado já como uma indústria caseira muito importante que ocupa 1029 mulheres em toda a ilha. Não obstante esta ser uma actividade caseira usual era na cidade e freguesias vizinhas do recinto urbano que se notava uma maior incidência de mulheres dedicadas a esta actividade. Apenas o Funchal e Câmara de Lobos totalizam mais de 97% do total. Isto resulta certamente da proximidade do local de venda e de ainda não estar montada a rede de distribuição e recolha organizada pelas casas comerciais. O Norte da ilha não assumia ainda qualquer importância. O período que decorre entre a segunda metade do século XIX e meados do seguinte foi marcado por um movimento ascendente de mão-de-obra feminina indispensável para a afirmação do bordado. O relatório das indústrias feito por Vitorino Santos para o ano de 1906, em plena época de afirmação da indústria, evidência esta realidade, apresentando um total de 32.000 bordadeiras. O Funchal e Câmara de Lobos, com 58% continuavam a dominar, mas as bordadeiras estão presentes em todos os concelhos. Durante o século XX o número das bordadeiras foi crescendo. Diz-nos Orlando Ribeiro (1949), citando um relatório de 1940, que eram 50.000 as bordadeiras rurais, que junto com as da cidade e as empregadas das lojas faziam elevar a mão-deobra ligada ao bordado para 70.000. O número mais elevado destas que conhecemos é de 1950 com a presença de 60.000 mulheres dedicadas ao bordado, o que representa 21,2 % da população. Os últimos dados de 1983 apontavam para 33.000 e no primeiro ano do novo milénio o valor rondava apenas as 6.000. A distribuição geográfica das bordadeiras nas décadas de setenta e oitenta do século XX demonstra que houve uma mudança na configuração geográfica dominante em épocas anteriores. Assim o Funchal e C. de Lobos perdem em favor de concelhos como a Ribeira Brava e Machico.
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Bordadeiras.
Bilhete Postal

Em plena euforia da indústria do bordado, que ocupava mais de trinta mil mulheres, o aparecimento de epidemias como a cólera morbus em 1911 teve reflexos evidentes na indústria. Em 1910 a despesa com a mão-de-obra havia sido de 760.000$00, descendo no ano imediato para 480.000$00, o que reflecte uma diminuição acentuada da mão-de-obra disponível, uma vez que não se assinalou qualquer alteração no valor dos pontos pagos e tão pouco houve uma quebra da procura. No primeiro registo da mão-de-obra relacionada com o bordado de 1862 surgem apenas dados sobre as bordadeiras, mas em 1906 diferenciava-se dos demais trabalhadores das casas de bordados, que neste momento eram 2000. Aqui incluía-se todos os profissionais necessários para a última fase do processo de preparação do bordado a exportar e os que se ocupavam da preparação dos desenhos e tecidos a entregar às bordadeiras. Isto quer significar que a instalação e pleno funcionamento das casas de bordados ocorreu apenas a partir da década de sessenta do século XIX. A técnica de produção de bordado, imposta pelos alemães a partir da década de oitenta do século XIX, retirou à bordadeira o
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domínio exclusivo do processo de fabrico. Entrou-se num ciclo de produção em que intervêm diversos agentes, como os desenhadores, estampadores, agentes, verificadoras e engomadeiras. Ao lado da bordadeira caseira surgiu a profissional que trabalha nas casas de bordados. A estas juntam-se ainda outros trabalhadores que intervinham no processo. Todavia este grupo é diminuto. Em 1922 eram 2500 que trabalhavam nas 70 casas, enquanto em 1968 as 88 casas empregavam apenas 450 e estavam servidas de 1500 agentes. A forma de pagamento do trabalho às bordadeiras sofreu alteração a partir dos anos vinte do século XX. Até então o trabalho era pago ao palmo, passando desde esta data a ser feito ao ponto, fazendo-se a contagem industrial com o curvímetro. Um dos aspectos que chama à atenção de todos que descrevem esta indústria e elogiam o trabalho primoroso das bordadeiras é o baixo preço do trabalho. Já em 1863 a bordadeira era entre, todas as actividades que se ocupavam as mulheres, a mais mal paga sendo apenas de 100 reis no Funchal, enquanto as demais recebiam salários médios superiores a 300 reis. Nos anos vinte a concorrência de novos mercados fez reverter de novo o ónus da situação para a bordadeira. As autoridades conscientes da realidade ordenaram em 1929 o estabelecimento de uma comissão para estudar a possibilidade do aumento do preço do trabalho da bordadeira, através da fixação de um preço mínimo. A tudo isto juntava-se a necessidade de socorrer as mesmas na doença e invalidez. A razão da resignação da bordadeira resultava do facto de este ser um trabalho executado nos intervalos das lides caseiras ou nas longas noites, não sendo, em
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Desenho humorístico de Re-Nhau-Nhau

muitos casos uma actividade que as ocupasse o dia inteiro. Os centavos dos pontos eram sempre bem vindos. Em 1952 os 47.252 contos contemplavam mais de cinquenta mil famílias em toda a ilha, o que representava 18% do total da população. A protecção aos profissionais do sector aconteceu já em 1894 com a criação da Sociedade José Júlio Rodrigues de Protecção às Bordadeiras Madeirenses. Sobre esta associação de beneficência pouco se sabe. A partir de Dezembro de 1907 por iniciativa dos alemães tivemos iniciativas semelhantes. Nesta data as casas Wilhelm Marum, R. Kretzchan, George Wartenberg criaram uma Caixa de Socorros para os cerca de dois mil trabalhadores que empregavam. Todos passam a usufruir de assistência médica e de medicamentos gratuitos, sendo os fundos para a manutenção deste serviço resultantes do desconto mensal de 50 réis por trabalhador, feito por cada casa. O alargamento deste sistema de protecção social só sucedeu a partir de 1946 com a criação da Caixa de Previdência. O Grémio dos Industriais dos Bordados, criado em 1935, teve também uma acção de relevo no apoio ao sector e às bordadeiras. Em Câmara de Lobos e Machico criaram-se escolas

Bordadeiras. Bilhete Postal 71

Pormenor de Bordado antigo

infantis que permitiram o ensino do trabalho da agulha a mais de 691 crianças. E, mais tarde em 1961, apoiou-se as bordadeiras através da construção de um bairro residencial com 30 moradias. O século XX foi marcado pela dispersão dos madeirenses por diversos destinos de acolhimento. A crise e as dificuldades provocadas pelas guerras mundiais e pela situação de abandono e subdesenvolvimento conduziram à forte pressão da emigração, nomeadamente nos anos cinquenta e sessenta. Muitos saíram rumo ao Brasil, Venezuela e África do Sul em busca de melhores condições de vida. Primeiro os homens, mas depois acompanham-nos os restantes elementos do casal. A todo o lado onde chegou a mulher madeirense chegou também o bordado. A arte e tradição do bordado são-lhe inseparáveis. No caso do Brasil é conhecido o facto de, nos anos cinquenta, existir um apelo e promoção da imigração das bordadeiras
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madeirenses para o Brasil. No Rio de Janeiro, S. Paulo, Santos e Ceará é notória a presença do bordado madeirense. No morro de São Bento, em Santos o bordado já não tem a qualidade dos anos sessenta e está em vias de desaparecimento. Em Itapajé, no Ceará em Fortaleza, mantém-se vivo. Aqui a cidade é conhecida como a capital do bordado, porque o mesmo é uma das principais actividades económicas. Na Venezuela, os testemunhos de muitas das mulheres madeirenses que saíram da ilha nos anos cinquenta revelam que não se perdeu o hábito de bordar, havendo casos em que se enviavam as peças desde o Funchal e que depois eram devolvidas já bordadas. A homenagem ao trabalho da bordadeira, insistentemente louvado por todos os que conheceram o seu trabalho, só aconteceu a 30 de Junho de 1986 com a inauguração da estátua do escultor Anjos Teixeira nos jardins do IVBAM.

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Material para estampagem dos desenhos. Núcleo Museológico do IVBAM

As técnicas e os materiais

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Máquina de estampar desenhos.
Núcleo Museológico do IVBAM

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A

segunda metade do século dezanove foi marcada por profundas alterações nas técnicas usadas no bordado, nos tecidos e nos padrões bordados, ajustando-os nos padrões mais solicitados pelos mercados de destino do bordado. Primeiro os ingleses, através de Miss Phelps e, depois, os alemães deram o contributo mais significativo para a revolução do bordado e a afirmação no mercado externo. Os tecidos mais comuns para bordar eram o algodão de cassa, cambraia, linho, seda natural, sendo aplicada a linha branca baça e raramente a azul e vermelha. O bordado em algodão e seda foi promovido pelos alemães que também apostaram na linha branca. Mas a introdução do bordado em seda é considerado um contributo da senhora Counis. Quanto ao tecido usado, temos algumas referências: em 1849 enviou-se para Lisboa o bordado em esguião de linho. E no ano imediato, na exposição organizada pelo Governo Civil peças de bordado apresentadas em seda, matiz e de “passe em filó”(uma espécie de renda). A maior parte dos tecidos com que se bordavam eram de importação. Da Inglaterra e da Holanda importava-se linho, enquanto da Alemanha chegava o algodão. A presença do algodão foi promovida de forma clara a partir de 1897 pelo governo
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Memória histórica do bordado, vendo-se a máquina de picotar e alguns desenhos enrolados.
Bordal.

Desenho humorístico de Re-NhauNhau

alemão com o sistema aduaneiro conhecido como drawback, isto é, os tecidos de algodão saídos do país e que retornassem valorizados com o bordado para depois serem reexportados estavam isentos de direitos. Esta situação persistiu até 1906. A generalização do uso do linho, importado de Inglaterra, levou as autoridades alemães a aumentarem desde 1 de Março de 1906 os direitos que oneravam os bordados de linho. Os direitos cobrados na alfândega do Funchal sobre os bordados de algodão e linho eram motivo de polémica apelando-se à intervenção do governo no sentido de uma redução dos direitos sobre os panos importados para bordar, apontando-se inclusive a necessidade de seguir o exemplo da Alemanha, introduzindo o sistema de drawback. As dificuldades sentidas nos anos sessenta resultam de medidas aduaneiras prejudiciais. Em 1967 o bordado Madeira não beneficiava das regalias da EFTA, desde que o tecido não fosse expedido de um Estado membro, sendo tributado com as taxas da pauta mínima dos tecidos sem obra, estabelecida em 1953. A partir do momento que o bordado passou a ser feito por encomenda e o processo de fabrico comandado pelas casas, as mudanças foram evidentes em todos os sentidos. Miss Phelps
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Oficina de desenho e picotar.

trouxe os motivos do bordado inglês, como os ilhós e cavacas. Já nos anos vinte do século XX a crise do sector levou os industriais a procurar uma alternativa, que se revestiu numa adequação ao bordado doutras regiões europeias. Deste modo o bordado apresenta-se como uma mistura do francês (com o Richelieu), suíço e veneziano. Nos anos cinquenta os italianos impõem os seus desenhos e aqui é notória uma aproximação a motivos bordados com tendências artísticas, como a arte “nouveau” e ”deco”. Daí para cá tem-se mantido este tipo subordinando-se a uma criadora arte de imaginação e de bom gosto. Neste processo de transformação do bordado madeirense ocorrido no século XX enquadra-se a policromia dos trabalhos, por apelo dos mercados consumidores. Neste momento, nos bordados para exportação, bem como para venda no mercado local, são usados essencialmente o algodão, linho e o organdy. Os pontos mais comuns continuam a ser o ponto francês, sombra, bastido, ponto chão e richelieu, sendo este último pouco usado para exportação devido à imitação dos mercados orientais. O bordado no século XXI tem ainda uma faixa de mercado, mais pequena é claro, do que há 100 anos atrás e mais virada para as personalização e não para quantidades.
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Máquina de picotar.

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O processo de fabrico do bordado madeirense
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O processo de fabrico do bordado Madeira pode ser dividido em cinco fases, descritas a seguir por Maria da Soledade.
[Bordados da Madeira (Viagem numa Fábrica de Bordados), Funchal, 1957, 7-13]

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É

O desenho do bordado

desacertado classificar de artífice o desenhador, pois a sua função não é, como se possa julgar, copiar, ampliar, decalcar, etc; ele é, antes, um artista criador de inesgotáveis recursos.

Desenhar
Ele começa por esboçar, a carvão, o motivo que a sua imaginação idealizou; lançada a ideia, o carvão volta ao papel a traçar novas linhas e aperfeiçoar as primeiras; a fase definitiva é traçada a “crayon”, e finda esta operação o papel, ainda há pouco virgem de traços, apresenta-se-nos com os mais diversos motivos, onde, geralmente, predominam as flores, fantasiadas ou em felizes e fiéis reproduções. Em geral o desenhador “não sabe” o que vai traçar. Salvo raras excepções em que lhe é pedido determinado género, a sua mão vai riscando o que o cérebro concebe e ordena. Tal como o poeta escreve os seus versos dominado pelo poder divino das musas, assim o desenhador transmite ao papel o que a inspiração lhe segreda compondo, a maior parte das vezes, verdadeiros primores; não é desatinado, portanto, colocá-lo no primeiro plano dos bons e imprescindíveis
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Curvímetro

Contagem dos pontos com o curvímetro

contribuintes para o engrandecimento desta preciosa indústria. Mas, caso curioso, sendo o desenho um verdadeiro trabalho de Arte, é quase sempre mandado executar, prosaicamente, sob a determinação e limite do factor “verba”, porque será vendido. Exemplificando: o industrial encomenda o “risco” para uma toalha de determinada dimensão que terá de ser vendida por X escudos. Apenas com este ponto orientador, e dentro desta vaga indicação, o desenhador faz verdadeiros milagres de precisão. Os que têm prática, e bastante desenvolvida a faculdade de cálculo, raramente se enganam; eliminando uns traços, aumentando umas folhas, simplificando uns “pontos”, o resultado é exacto. Há, por vezes necessidade de transpor o desenho para formato maior ou menor; é ainda o desenhador que o interpreta, esteticamente nas proporções exigidas. E as mãos não param! A inspiração nunca se esgota! Mimosas flores, delicadas figuras, as mais estranhas alegorias, linhas geométricas das mais díspares configurações, e tantos outros motivos de inconfundível beleza, tudo brota da fonte
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inesgotável que é a imaginação deste artista ao qual não foi ainda reconhecido todo o real mérito. Mas, vamos continuando a “nossa viagem”. O desenho passa em seguida para a secção da “contagem” dos pontos a fim de se apurar a verba a pagar à bordadeira. Os preços outrora eram feitos por cálculo mediante o critério, dos industriais, adquirido com a prática. Ainda há pouco ouvimos uma referência ao assunto, reportando-se há vinte anos atrás, em que “ilhós” e “grega” eram pagos a X centavos... por palmo... Os pontos são classificados e, feito a média, apura-se o preço. Há que medir todos os traços do desenho (incluindo as brides do “richelieu”) para achar o total exacto. A medição faz-se com o curvímetro – aparelho para medir o comprimento de linhas curvas- que vai registando as medidas perante as quais o encarregado da contagem “acha” o número de pontos que a ela corresponde: “Xis” metros de “caseado” equivale a “Ipsilon” de pontos, (...) O curvímetro tem um pequeno cabo onde se pega para o manejar, e é provido dum mostrador, redondo, com a circunferência de 9,5 cm., aproximadamente. Um pequeno rodízio vai deslizando por todos os traços e o ponteiro do mostrador acusa a medida – cada volta equivale a um metro.- O empregado, com a mão livre, vai anotando os metros e assinalando a vermelho, levemente, os traços já percorridos pelo curvímetro, para que não haja falhas ou repetição. (...) Quando o formato da peça e o modelo do desenho se prestam, tanto este, como a medição refere-se apenas a uma quarta parte, fazendo-se depois o desdobramento. Feita a “contagem dos pontos” o desenho vai para a secção de picotagem.
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Máquina de picotar.

Picotagem do desenho

Picotar
Esta fase é também de muito interesse. A máquina de picotar tem a função de perfurar o papel desenhado, seguindo fielmente os riscos traçados a fim de facilitar a estampagem no tecido. A máquina é accionada por um pedal enquanto as mãos guiam, simultaneamente, o papel, e a agulha que o vai perfurando em orifícios de fracção de milímetro. É um trabalho muito delicado e que requer muita prática para se conseguir a sincronização entre o pedal e a agulha. São precisos muitos anos para atingir firmeza na mão e golpe de vista, necessários para um resultado perfeito, além de muita atenção e paciência, pelo que a pessoa que o executa, a contento, merece ser devidamente apreciada. A picotagem pode ser feita em uma ou mais folhas de papel, ao mesmo tempo, mas nunca além de quatro. Podem-se aplicar à mesma máquina agulhas de várias espessuras, as quais são relacionados com a delicadeza do desenho e modalidade de “pontos”.
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Estampagem.

Estampar
A estampagem ou estresido (passar o desenho para o tecido) faz-se em largas mesas pondo o papel, bem estendido, em cima da peça que se pretende bordar, fixando-o com pesos para que não deslize. Depois as operárias passam, em toda a superfície, picotada com uma “boneca” de algodão embebida em anil desfeito com petróleo e uma mistura de cera, e imediatamente o desenho passa para ao tecido.

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Desenho pintado para a bordadeira 88

Bordadeiras. Arquivo do Museu Photographia Vicentes

Bilhete-Bordal

Bordar
Dali vamos para a secção onde se procede ao registo, se põem as etiquetas de controle, se marcam os coloridos a lápis de cor, se o trabalho o requer, seguindo depois para o local da expedição, que é também do recebimento. As “agentes” dos campos – das várias freguesias rurais – vêm buscar e trazer as encomendas. Essas “agentes” por sua vez é que distribuem o trabalho pelas bordadeiras e recebem, dos industriais, uns tantos por cento sobre a totalidade do preço que é pago à bordadeira. Para o expediente da entrega e recepção dos bordados, há em todas as fábricas uma dependência “recebedoria” com um balcão onde as “agentes” são atendidas. Recebido o trabalho, este passa às mãos da “verificadora” para analisar se há imperfeições. Se existem, volta para trás para serem remediadas. (...)
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Lavar e engomar
Agora, dirigimo-nos para a lavandaria, onde todas as peças são lavadas manualmente como qualquer roupa vulgar – quer se trate de uma enorme e rica toalha de mesa, de um mimoso vestido para bebé, em seda ou organdi, ou ainda minúsculos lenços. As peças, mal escorridas, passam para a engomadeira onde grandes mesas as esperam; começa então a árdua tarefa das engomadeiras, se atendermos que a maioria dos bordados é feito em linho, quanto este é rebelde ao ferro de engomar, e à perfeição que verificamos, depois, ao vê-los nos estabelecimentos do género. Peças muito grandes e bastante bordadas, requerem várias operárias; umas esticam, outras engomam, e eis às vezes oito mulheres em torno da mesma mesa, às voltas com uma toalha enorme, onde pouco tecido ficou por bordar. Os fios eléctricos que se ligam aos ferros descem do alto, de uma instalação própria, para não embaraçarem. Mas outras operárias esperam ainda os bordados para os recortar, e “consertar” pois sucede, como é natural, a tesoura cortar, inadvertidamente, alguns pontos, percalço que outras mãos logo remedeiam; outras ainda ajeitam as folhas abertas e ilhós com um furador a que popularmente chamam “furalhó”. E só então é engomado definitivamente, dobrado e preparado para

Lavagem do bordado.

Engomar o bordado 90

Remates finais do bordado.
Arquivo do Museu Photographia Vicentes

Recorte de uma peça bordada.

figurar em exposição nos salões de venda das próprias fábricas, em estabelecimentos comerciais, (...) ou para a exportação. Referimo-nos de uma maneira geral ao bordado propriamente dito, porque os trabalhos de confecção de vestidos, camisas, etc., é feito por costureiras que trabalham em sua casa e vão, ou mandam, buscá-los às fábricas. Há também especialistas em filetar (bainha finíssima enrolada de pontos invisíveis a rematar lenços). Esta palavra em geral, emprega-se estropiadamente e de várias formas: “filitrar”, “filhetar”, “filtrar”, “flitrar”. [...]

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Os pontos do bordado madeira

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H

oje, os bordados feitos na nossa ilha abrangem, praticamente, quase todas as modalidades em voga em todo o país, quer em configuração quer nos “pontos” e por esse motivo é vasta a denominação dos mesmos, que vamos apontar tanto quanto possível: Granitos “garanitos” – pequenas circunferências, a cheio, pouco maiores que cabeças de alfinetes; Ilhó; Folha Aberta e Folha Bastida (bastido é o bordado a cheio e aplica-se em várias formas e formatos); “Richelieu” e Oficial (o desenho é do mesmo género, mas o “oficial” é todo feito em cordão, incluindo as brides, ao passo que, como se sabe, o “richelieu” é caseado; Ponto francês, (no continente, ponto Paris) singelo ou duplo para aplicações de tecido simples ou sobreposto; Grega (ilhós contor95

Pontos do Bordado Madeira

nando uma peça), feito a cordão na parte interior e caseado na orla fazendo recorte); Arrendado (crivo); dentro deste género há vários modelos que têm por sua vez outras designações: “latadinha” “olho de passarinho” etc. Cavaca não é positivamente um “ponto”; o que lhe dá o nome é o formato do desenho; Pesponto (ponto de areia) para encher superfícies lisas sombreando o tecido; Caseados (ponto de recorte) que comporta ainda: caseado bastido e caseado bastido de “unhas” Ponto de Sombra ou revés que se emprega só em tecidos transparentes; “Viúvas” (espécie de trevo de cinco folhas, bastidos). Temos ainda o cordão, Ponto de corda (pé de flor) Ponto Ana e de Escada, são o vulgar ponto aberto com fios previamente tirados. No ponto escada os fios são
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Toalhas de bordado madeira, Bordal

apanhados pela agulha no mesmo sentido, de um e outro lado; ponto Ana os fios são apanhados desencontradamente. Quando o desenho o exige para que o efeito resulte da melhor forma, empregam o matiz, ponto de cruz, e tantos outros que à nossa memória não ocorrem, embora não façam parte dos pontos classificados e tabelados pelo Grémio. [...] [Maria da Soledade, Os Bordados da Madeira (Viagem numa fábrica de Bordados), Funchal, 1957, pp.7-13]

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MATIZ E PONTO CHÃO
Ponto chão - ponto não urdido um pouco inclinado e não apertado. Matiz - Os fios bordados, dispostos como no ponto chão, sendo uns mais curtos e outros mais longos, interpenerando-se assim as cores.

ARRENDADOS, ponto de crivo
É um dos pontos mais dificeis de executar, quer pela tiragem dos fios, quer pelo remate dos que permanecem. De acordo com a estrutura resultante pode ser designado de cruzinhas, latadinha e olho de passarinho.

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BASTIDOS ou ponto cheio
O bastido é um ponto produzido em alto relevo devido à "urdidura" ou linha deitada" e depois coberto com "ponto de cetim". Os granitos com mais 6 mm de diâmetro são conhecidos como granitos bastidos, o mesmo sucede com as folhas fechadas com mais de 8 mm que são folhas bastidas.

CASEADOS
«Como o cordão do qual deve ser derivado, o caseado é feito sobre urdido (linha deitada) e a dois tempos. Mas no segundo tempo, a agulha passa por cima da linha a ser puxada e produzindo uma lançada que, ao ser apertada cria um rebordo reistente e apto a ser recortado (o pano aderente)sem desfazer o ponto.» [Leandro F. Jardim, Elucidário dos Pontos Mais Usuais nos Bordados da Madeira, texto policopiado). É normalmente usado para rematar os extremos das peças bordadas. Temos a variante do caseado bastido, que é mais cheio e às "unhas" em vez de recto.
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CAVACAS
Vários círculos divididos em quatro meios semi-círculos cujo centro é geralmente bordado com um garanito ou ilhó. Este ponto deriva do ilhó e das folhas abertas.

GRANITOS ou garanitos
Pequenos pontos cheios separados uns dos outros. São seguidos quando o espaço entre eles é pequeno (3 mm) e passam de um para outro sem cortar a linha e rematados quando o espaço é superior a 3mm. Quando se usa “bastidinhos” em vez de garanitos em forma de miosótis, essa composição toma o nome “malicioso” pelo povo rural de viúva ou solteira.
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ILHÓS
«os ilhós devem ser feitos um de cada vez. Quando mínimos e em tecidos leves, fazse a cobertura do círculo desenhado no pano, forçando os fios e abrindo-o-buraco forçado pela passagem da agulha e da linha pela primeira abertura; e, assim, circulando-a. Há quem use o fura-ilhó para tal. Não são urdidos quando mínimos (fazem-se com 1 mm de diâmetro). Porém, a partir de um certo diâmetro, as bordadeiras que os fazem bem-feitos, deitam linha; isto é, cobrem a ponto cordão o círculo desenhado do ilhó sobre a linha deitada (urdida)» [Leandro F. Jardim, Elucidário dos Pontos Mais Usuais nos Bordados da Madeira, texto policopiado] Reporta-se à tradição continental do bordado de Tibaldinho, aparecendo nas mais antigas representações do bordado da ilha.

Ponto Escada

É um ponto feito entre dois fios retirados paralelamente. Entre os dois fios que marcaram a largura retiram-se todos o outros, ficando assim somente os fios descendentes (ou ascendentes). Então, em quantidades exactamente iguais, estes fios são apanhados e presos com pontos simples: e vai surgindo como que uma escada simples. Daí o nome. Prende muito bem baínhas e “barras”. [Leandro F. Jardim, Elucidário dos Pontos Mais Usuais nos Bordados da Madeira, texto policopiado]
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PESPONTO ou ponto de areia
Tem a finalidade de sombrear o espaço. É um ponto que exige perícia e paciência da bordadeira de forma a que os pespontos surjam bem distribuídos e iguais no tamanho e densidade pela área a preencher.

RICHELIEU E OFICIAL
O Richelieu, vindo de França, abriu as portas à criatividade do desenhador, deixando de parte o aspecto formal, para se tornar numa autêntica obra de recorte e bordado. O oficial compõe-se a partir do cordão, como o Richelieu que se compõe de caseado liso. O oficial é, contudo, um ponto mais antigo no bordado Madeira.

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Ponto Cordão ou pau
“É deitada uma linha que depois é envolvida em espirais unidas e uniformes. Chamam também este ponto de pau, porque as composições que sugerem caules e troncos ou ramos, as bordadeiras entendem por pau.” [Leandro F. Jardim, Elucidário dos Pontos Mais Usuais nos Bordados da Madeira, texto policopiado]

PONTO FRANCÊS E PONTO SOMBRA
Ponto francês-este ponto serve especificamente para prender o tecido onde o desenho a ser aplicado está desenhado (estampado) sobre o tecido -fundo onde o bordado se desenvolve. Ponto sombra - é feito sob tecidos leves (cambraia, organdy etc.), transparentes e pelo avesso. Produz, naturalmente um efeito perfeito de sombra. [Leandro F. Jardim, Elucidário dos Pontos Mais Usuais nos Bordados da Madeira, texto policopiado]

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Tabela de Contagem de Pontos de Bordar
Aprovada por Despacho Ministerial de 9 de Janeiro de 1946 Modalidade (A) Descrição ILHÓS Ilhó aberto até 6mm de diâmetro Ilhó fechado (bastido) até 6mm de diâmetro, Ilhó aberto de grega até 6mm de diâmetro;
NOTA: Por cada 3rnrn de diâmetro a mais ou fracção, aumenta 50% dos pontos industriais respectivamente.

Pontos industriais Um Um Dois

(B)

FOLHAS Folha aberta até a area de 25mm2 e até o comprimento de 8mm Folha fechada (bastida) até a are a de 25mm2 e até o comprimento de 8mm..
NOTA: Por cada 10mm de área e 2mm de comprimento a mais ou fracção aumenta 50% dos pontos industriais respectivamente As Cavacas serão medidas e contadas como ponto de corda.

Um Um

(C)

GRANITOS Granitos seguidos até a área de 3mm2, por cada 6 granitos Granitos rematados até a área de 3mm2 por cada quatro granitos Granitos seguidos até a área de 3mm2 em forma de estrela, por cada seis granitos Granitos bastidos até área de 3mm2 em forma de viúva, por cada cinco granitos
NOTA: Granitos de área superior a 3mm2 até 5mm2 e superior a 5mm2 até 7mm2 (área máxima de granitos) aumenta-se respectivamente 100% dos pontos industriais.

Um Um Um Dois

(D)

RICHELIEU E OFFICIAL Richelieu por cada metro, Oficial por cada metro,
NOTA: Não é permitido fazer-se buracos de richelieu ou de oficial de áreas superiores a: Para Richelleu , 2cm2 Para Oficial, O,5 cm2

Setenta Setenta

(E)

DIVERSOS Pesponto, por cada 1cm2 Bastido-Matiz, por cada lcm2 Ponto de sombra (reverso) por cada 1cm2 Ponto Chão

Quatro Quatro Dois Três

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(E)

ARRENDADO Até a area de 5cm2, por cada Cm2 Superior a 5Cm2 até a area de 15cm2 por cada Cm2 Superior a 15cm2 até 25cm2 por cada Cm2 Superior a 25cm2, por cada Cm2 PONTOS DIVERSOS Ponto cordão, por cada metro Ponto Francês, por cada metro Ponto Francês duplo, por cada metro Ponto Francês: quando prendendo o contorno de aplicações que não estejam alinhavadas, aumento de 1OO% dos pontos industriais ou seja 50 pontos por cada metro Ponto Corda,por cada metro Ponto de Remendo, por cada metro Ponto Ana: até o comprimento de 10cm, por cada metro Ponto Ana, de comprimento superior a 10cm, por cada metro Ponto Escada, até o comprimento de 10 cm, por cada metro Ponto Escada, de comprimento superior a 10cm, por cada metro
NOTA: Todos os pontos destas modalidades quando prendendo o contorno da aplicação ou bainha aumenta de 50 % os pontos industriais respectivamente.

Dez Oito Seis Cinco Cinquenta Vinte e cinco Sessenta

(G)

Vinte e cinco Vinte e cinco Setenta Cinquenta Cento vinte Oitenta

(H) (I)

BAINHA FILETE Por cada metro de filete CAZIADOS Caziado liso até 4mm, de espessura por cada metro Caziado bastido ate 4mm de espessura, por cada metro Caziado: prendendo o contorno de aplicação ou bainha (excepto na orla da bainha quando o caziado seja para recortar) aumento de 50% dos pontos industriais.
NOTA: Os caziados serão medidos e contados na sua extensão, rectos se são direitos, e pelas curvas se são curvos ou aos bicos: nas combinações de caziados medir-se-há cada qualidade por si. Os caziados superiores a 4mm de espessura contar-se-ão por mais 50 % por cada 4mm a mais ou fracção.

Vinte Sessenta Oitenta

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Bomboteiros.
Colecção de Photographia Museu Vicentes

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Os mercados do bordado madeira
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Funchal. Século XIX

Casa de Bordados Alexander I Hamrah Inc - Lavadeiras, 1919.
Arquivo do Museu Photographia Vicentes

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O

mercado do bordado Madeira em pouco mais de século e meio evoluiu de acordo com as contingências da conjuntura internacional, apresentando-se como um produto vulnerável face às mudanças no mercado de destino, pelo simples facto de ser um produto de luxo. Ao longo deste período foi evidente a fixação quase exclusiva em determinados momentos em quase só um mercado, o que veio a condicionar a evolução desta indústria. Primeiro tivemos os ingleses, seguiram-se os alemães, os norte-americanos, o Brasil e, finalmente a Itália. A tudo isto acresce que desde o século XIX o mercado europeu do bordado era extremamente competitivo, não dependendo apenas da existência da ilha da Madeira, uma vez que em várias regiões da Europa esta indústria artesanal existia e passou por um lento processo de transformação. O processo de mecanização do trabalho desde meados do século XIX e, depois, a concorrência do mercado oriental foram fortes entraves à afirmação do bordado artesanal da Madeira. O bordado Madeira começou primeiro por ser um produto alheio ao sistema de trocas. Bordava-se para uso pessoal ou para oferta a familiares e amigos. Só muito tardiamente se descobriu
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o seu valor comercial nas trocas locais e depois na exportação para distintos mercados. Em meados do século XIX, antes que chegasse ao mercado britânico, vendia-se porta a porta aos inúmeros estrangeiros de visita ou de passagem pelo Funchal. Durante muito tempo o mercado local de souveniers foi alimentado por estas vendas feitas pelas próprias bordadeiras. Vários testemunhos de estrangeiros que visitaram a ilha no decurso da segunda metade do século XIX corroboram a importância deste comércio local do bordado. Em 1854 a governanta Auguste Werlich refere as vendas porta a porta, destacando o caso de Madame Harche que encomendara lenços de assoar para enviar à Alemanha. Os padrões foram escolhidos pela própria numa revista, sendo o trabalho executado por uma bordadeira. Já Rudolfo Schultze em 1864, diz-nos que o bordado era um dos muitos souveniers que se ofereciam à chegada dos visitantes ao porto. De acordo com E. Taylor (1882) foi Miss Phelps quem a partir de 1856 promoveu o comércio com o Reino Unido. Estas trocas foram asseguradas por Franck e Robert Wilkinson. Depois tivemos o mercado e mercadores alemães. Não dispomos de dados completos sobre a exportação do bordado para os primeiros anos, surgindo apenas a partir de 1878 alguns dados soltos que atestam a dimensão do bordado no conjunto dos artefactos. A predominância do bordado é evidente, perdendo importância para os demais artefactos a partir do ano seguinte,

Peça de Vestuário bordada. 110

Funchal. Século XIX.

o que denúncia uma crise do bordado que será superada com a presença dos alemães a partir dos anos oitenta. Depois só voltamos a dispor de dados a partir de 1890, que assinalam uma mudança no mercado de destino do bordado. Os alemães, desde 1881 passaram a intervir localmente e de imediato assumiram uma posição dominante, desviando o rumo das exportações para a Alemanha. A viragem foi significativa a partir de 1895 e manteve-se até 1911, altura em que começou a perder importância. O mercado inglês foi sempre muito reduzido nunca ultrapassando as 3,5 toneladas, enquanto o alemão desde 1895 suplantou as 30 t, atingindo mais de 50 em 1907. Nos primeiros anos do século XX o bordado assumiu uma posição de relevo nas exportações, sem conseguir suplantar o vinho. A primeira Guerra Mundial provocou a saída dos alemães, não se reflectindo esta situação nas exportações como seria previsível. Os reflexos da fuga fizeram-se sentir apenas no ano de 1916, tal como nos informam os valores da exportação. Em 1915 as receitas da exportação do bordado foram de apenas 201 contos, passando para apenas 29 no ano seguinte, mas subiram no ano imediato para 702 contos. Em 1912 voltará a sentir-se outra quebra momentânea, mas esta foi provocada pelos colera-morbus que alastrou a toda a ilha em 1911 e dizimou muitas das bordadeiras.

Casa de Bordados Alexander I. Hamrah Co. Inc, 1920.
Arquivo do Museu Photographia Vicentes

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Os dados disponíveis sobre a exportação para o período da guerra provam precisamente o contrário do que é comum afirmar-se. A guerra não provocou qualquer crise no bordado que continuou a ter mercado garantido e encontrou nos sírios os perfeitos substitutos dos alemães. Aliás, o período foi de prosperidade para o bordado, sendo os anos vinte o momento de plena afirmação nas exportações. As vendas que em 1906 não suplantavam os 6 contos atingem em 1924 os 100.000 contos. Em 1923 o bordado ocupava mais de 70.000 madeirenses e o comércio era garantido por 100 casas que o exportavam para a América do Norte, Canadá, Inglaterra, França. As dificuldades começaram a surgir apenas a partir de 1924, altura em que os sírios começaram a abandonar a ilha. A perda nas exportações de 100.000 contos, sendo de 30.000 no bordado. A situação de crise, agravada com o crush da bolsa de Nova York em 1929, repercutiu-se na indústria conduzindo para o desemprego mais de 30% da mão-de-obra do sector. Mas, rapidamente a ilha recuperou mesmo no período da segunda Guerra Mundial. O debate em torno da autonomia tinha também na mira a crise do bordado, estabelecendo-se uma relação directa entre a solução da crise do sector e atribuição de mais autonomia.
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Pormenor de Bordado antigo

A guerra atingiu de forma directa alguns mercados concorrentes do bordado na Europa e Pacífico, deixando espaço aberto para o da Madeira. Em 1936 a Madeira continuava a exportar o bordado para distintos destinos, como a Inglaterra, Estados Unidos da América, Austrália, Canadá, França, União Sul Africana, Brasil, Alemanha, Bélgica, Holanda, Peru, Malta, Noruega e Singapura. Em 1952 a ilha exportou 259.165 Kg de bordados, sendo dominado pelos Estados Unidos da América do Norte. Em 1956 a Madeira perdeu o mercado do Brasil ao mesmo tempo que se afirmava um espaço concorrente nos morros da cidade de Santos. Muitas das bordadeiras e empregados madeirenses do sector do bordado que emigraram para o Brasil não deixaram de parte o trabalho que se ocupavam na ilha. Nos anos sessenta o bordado Madeira chegava a novos e tradicionais mercados como os Estados Unidos da América, Suiça, Suécia, Dinamarca, Alemanha, França, Inglaterra, Espanha, Austrália e África do Sul. Nesta década mais precisamente nos anos de 1966 e 1967, foi notória a quebra nas exportações, fruto da crise interna de alguns mercados, como os dos Estados Unidos da América e África do Sul e a concorrência do bordado à mão do Oriente e à máquina da Suiça e Hong Kong.
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Funchal Princípios século XX

Funchal hoje. 114

Casa Portuguesa de Bordados.
Arquivo do Museu Photographia Vicentes

Casa de bordados Perestrellos.
Arquivo do Museu Photographia Vicentes

Mesmo assim o mercado norte-americano continuará a dominar as exportações até princípios dos anos setenta. A Itália é um novo mercado que surge apenas a partir de 1967 e só conseguirá suplantar os EUA a partir de 1974, assumindo uma posição dominante nos anos oitenta. Nos anos setenta o peso do bordado nas exportações era assinalável e só começou a perde-lo a partir de 1974, não obstante o volume de negócios do bordado ser ascendente. A partir dos anos setenta é evidente a concentração das exportações em apenas cinco mercados: Itália, Estados Unidos da América, República Federal da Alemanha, Suiça, Grã-Bretanha e França. O mercado nacional continua a deter alguma importância na venda do bordado, mas nunca ultrapassou um quarto do total do volume de negócios.

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Bomboteiros no Porto do Funchal.

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Os estrangeiros e o bordado
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Pormenor de Bordado antigo.

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P

Lenço antigo.

ara além das informações referentes aos dados do comércio e exportação importa saber como os locais e forasteiros viam e valorizavam esta actividade. Através dos guias turísticos e dos diários de viagem é possível medir a importância que assumia o bordado para os forasteiros que visitaram o Funchal entre meados do século XIX e princípios da centúria seguinte. O relatório não sendo exaustivo é revelador da atenção que despertava tanto para os nacionais, como estrangeiros. Até mesmo o próprio madeirense não se alheou desta realidade, dando conta disso em prosa e em verso.

OS ALEMÃES
A valorização do alemão no mercado do bordado reflecte-se de forma evidente na literatura de viagens da mesma proveniência, que está desperta para esta realidade. A senhora Auguste Werlich (1822-1892), que esteve na Madeira entre 17 de Novembro de 1854 e 4 de Julho de 1855, dá especial relevo ao bordado, que considera tão rico e magnífico. As madeirenses são excelentes bordadeiras em linha branca. Em 1857 o Prof. Schacht
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Pormenor de toalha.
Núcleo Museológico do IVBAM

apresenta a mulher madeirense das classes baixas como indolente mas exímia na arte de bordar, pois apresentam bordados finos de toda a espécie. Já em 1864 o médico Rodolfo Schultze ficou impressionado com o movimento de chegada de navios ao porto do Funchal, em que os estrangeiros compram obras de vimes, bordados, trabalho de croché e flores artificiais para presentear familiares e amigos. Em 1909 Boedecker ficou maravilhado com os produtos da indústria caseira, destacando o bordado que era especialmente exportado por firmas alemães. E no ano imediato Meyer notou que as raparigas e mulheres dedicavam-se ao bordado.

OS INGLESES
A partir de meados do século XIX o bordado Madeira passou a ser uma referência assídua nos roteiros turísticos e diários de viagem. Mesmo assim, em 1901, Ellen M Taylor refere a ignorância que existe sobre o superior trabalho realizado na ilha pelas
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bordadeiras. Todavia, isto não era impedimento para que as exportações fossem elevadas chegando a 25 toneladas. Ainda no mesmo ano o norte-americano Anthony J. Drexel Biddle afirmava que a Madeira era famosa pelo bordado, ocupando a indústria o sexo feminino na cidade e no campo. O trabalho de Miss Phelps, na promoção da actividade a partir de 1856 é motivo de orgulho para os britânicos.

Pormenor de Bordado antigo.

OS PORTUGUESES
Os portugueses foram também atraídos pela beleza do bordado madeirense, presente nas roupas que vestem os locais ou em peças separadas que se vendem aos visitantes. Em 1864, Vilhena Barbosa, na descrição do arraial do Monte chama a atenção para as roupas com “bordados de retrós ou de missungas” e as camisas com guarnições de rendas. Já o feiticeiro do Norte, Manuel Gonçalves (1858-1927), dedicou um dos livros de quadras às
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Aspecto de toalha. Núcleo Museológico do IVBAM

Peças de quarto de dormir.
Núcleo Museológico do IVBAM

“Raparigas do Bordado”, pondo a ridículo a pretensa riqueza. Raparigas que tem luxo São aquelas dos bordados Põe nos pobres rapazes Daqui pr’a rua digradados A poesia popular, transmitida de geração em geração pela via oral, foi enriquecida entre finais do Século XIX e princípios do século XX com versos alusivos ao bordado que as mulheres cantavam enquanto davam à agulha. Se eu fosse mulher herdava Uma agulha e dois dedais Com fui homem só herdei As enxadas de meus pais Vai um dia a minha noiva A casa dumas bordadeiras Onde estavam metidas Mais de vinte bilhardeiras
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Ai borda Rica Filha borda borda Ai borda rica filha borda bem Em casa rica filha todos bordam E borda o pai e borda a filha e borda a mãe. Em 1901 José Cupertino Faria aclamava o bordado como a principal riqueza da ilha: Os bordados da Madeira, conhecidíssimos no estrangeiro, de um trabalho dificílimo e de uma perfeição inexcedível no seu acabamento, são uma das principais indústrias da Madeira. Rivalizando, se não excedendo em fino gosto e primoroso trabalho todas as indústrias congéneres do estrangeiro como por exemplo, as famosas rendas d’Alçon; e no país, os afamados bordados de Peniche, a indústria dos bordados na Madeira, ainda há pouco, limitada ao trabalho de uma ou outra bordadeira, tem tido ultimamente um largo desenvolvimento e numerosas mulheres se ocupam simplesmente neste mister. Em 1924 Raul Brandão no périplo pelas ilhas, que reportou em Quarto de Dormir. As Ilhas Desconhecidas, apresenta o fadário da bordadeira insular: As Núcleo Museológico do mulheres bordam. É a grande indústria feminina dos Açores e da IVBAM. Madeira. Em quase todas as cabanas se vêem raparigas atentas sobre o linho de dedal enfiado no dedo. A América leva tudo. O negociante fornece-lhes o pano estampado e elas compram as linhas. Pouco ganham. Mas criam hábitos de trabalho. Tornam-se atentas e delicadas. Desde que bordam que no campo se fala mais baixo. A imagem do bordado está sempre presente na memória dos muitos que tiveram a felicidade de visitar a ilha ou de fazer escala no porto. A imagem dos bomboteiros fazendo um mostrador sob o mar com as toalhas bordadas ou a forma delicada da sua exposição nas casas de bordados era algo que
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Saiote.
Núcleo Museológico do IVBAM

Peça de Vestuario bordada.

impressionava qualquer um. Em 1929 Alberto Mário de Sousa Costa em Ilha das Três Formosuras é exemplo do que acabamos de referir: ainda tenho na retina toda a sinfonia em branco das lojas de bordados—sinfonia executada por mãos pacientes de raparigas que corporizaram no linho as variações das espumas no desabrochar da ressaca. Entre 1932 e 1933 o contacto de Ferreira de Castro com a ilha impressionou o escritor que escolheu-a para a ambiência do romance Eternidade. Aqui, um dos personagens, o Álvaro, é um negociante de bordados. Esta casualidade é motivo para uma breve referência ao bordado e aos principais interventores. O mesmo noutro texto de viagens [Pequenos Mundos, os Velhos, A Civilização (1938)] refere que (...) a economia da Madeira assenta nos seus vinhos, nos bordados, nos lacticínios, no turismo, nas bananas, nos produtos da horta. Os bordados, porém, entraram em crise, já pela concorrência de outras terras na mesma indústria especializadas, já pela moda de os ter quase abandonado como enfeite, já por (..) a
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adaptar-se aos modernos desenhos. Para António Montes (Terras de Portugal, 1939) o que mais o comoveu na visita foram os ajuntamentos de mulheres que bordam: Das indústrias regionais madeirenses, é, no entanto, a dos bordados, a mais notável, e, por isso, mesmo, a que constitui factor económico apreciável.(...). Quem percorrer a ilha da Madeira encontra em todas as freguesias grupos de mulheres, junto de choupanas humildes, silenciosamente dobradas sobre bordados caprichosos, que nos claustros tranquilos dos conventos ensinaram a suas avós os bordados graciosos, que transmitidos de geração em geração, chegaram ao nosso tempo, constituindo lembrança apetecida para quem visita a Madeira. Luís Chaves exalta também o bordado em A Arte Popular em Portugal. Ilhas Adjacentes e Ultramar (1968): Quem desembarque admirará os bordados e as rendas nas lojas da cidade e no mercado ambulante. Ficará conhecendo, se a não conhece já, uma das riquezas artísticas de tradição madeirense, o seu melhor cartaz de propaganda etnográfica e turística. Quem continua viagem tem oportunidades palpitantes no barco para admirar a imaginação, a destreza e o sentimento estético de composição dos bordados, largamente expostos ao tombadilho. Maria Lamas, uma assídua presença na Madeira dos anos cinquenta, deixou-nos um verdadeiro poema à terra de exílios em Arquipélago da Madeira Maravilha Atlântica (1956.), em que faz uma referência histórica ao bordado. Em As mulheres do meu País (1948) não se esquece de prestar homenagem à bordadeira madeirense: Elas próprias sabem apenas que aprenderam com as mães e as irmãs mais velhas, a quem sucedeu o mesmo desde remotas gerações, como se o bordado fizesse parte das coisas essenciais da sua vida.(...) O que era pois o primitivo bordado da ilha ou a broderie Madère, como é conhecido no estrangeiro? Um bonito bordado a branco, quase todo feito com ilhós, executado
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Pormenor de Bordado Pormenor de Bordado antigo Peça de Vestuario bordada.

com linha ligeiramente anilada e pertencendo ao conhecido género de bordado inglês, que fez furor no princípio do século, e que dava tanta frescura às toilettes de verão das elegantes da belle époque. O madeirense Horácio Bento de Gouveia dedicou também um dos seus romances do quotidiano madeirense à vida da Bordadeira. Lágrimas Correndo Mundo (1959) pode ser considerado um livro de homenagem à bordadeira madeirense da primeira metade do século XX. O convívio com a vida difícil das bordadeiras de Ponta Delgada leva-o a concluir que as peças de bordado são lágrimas que correm mundo, transformadas em regalo dos olhos por mãos pacientes de ignoradas artistas. Calvet de Magalhães, num magistral texto sobre Bordados e Rendas de Portugal (1963), dedica espaço largo aos segredos do bordado Madeira: A indústria de bordados mais bem organizada é a da ilha da Madeira. Aos nove, aos dez anos, as pequenitas das aldeias lá estão às portas das toscas casas, de agulha na mão, curvadas sobre o tecido, realizando com perícia a parte mais fácil do
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Peças de Bordado com selo holográfico 127

bordado e deixando para a mãe ou para a avó a parte mais difícil. São 70.000 operárias recrutadas em todas as idades, desde as que começam a espigar até às velhas simpáticas de óculos encavalitados no nariz. Trabalham muito, lutam heroicamente pela vida. A indústria dos bordados é a primeira das exercidas no distrito do Funchal. Rara é a mulher da Madeira que não sabe bordar e que não aproveita o tempo que lhe sobra das lides da casa para ganhar algum dinheiro por essa forma.(...) A fama e importância do bordado manteve-se na década de sessenta e continuou a despertar a atenção dos visitantes. De novo em A. Lopes Oliveira (Arquipélago da Madeira-Epopeia Humana, 1969) a exaltação da arte do bordado e do paciente labor das bordadeiras: O bordado da Madeira, corre mundo, entra nas mesas dos palácios dos grandes senhores de oiro e da sociedade, no vestuário íntimo das damas da alta roda e no guarnecimento de enxovais para bebés. Um mundo de sonho e de beleza! O bordado- como a espuma que o mar oceânico faz rebentar nas agrestes penedias madeirenses- é a mais representativa mensagem artística de um povo voltado, sem se aperceber, para a consumação de um ideal de arte. Uma arte que esteve escondida algum tempo nas dobras de montanha e nas arenosas terras de beira-mar. As mãos delicadas das madeirenses que nas horas vagas deixam o testo ao lume, a faina dos campos, a luta pela sobrevivência, para ele, um golpe, se aplicarem na feitura de bordados que são autênticas maravilhas (...). No bordado não há idades nem, às vezes, sexos. Há corpos todos inclinados sobre um grande pano de lençol, de uma toalha de mesa, ou de outras peças mais simples, como lenços e outros mimosos arranjos domésticos. (...) o bordado é o título de honra do madeirense, que passa de geração em geração, revitalizado de vida e, para cada vez mais atraente e mais apetecido para quem o adquira para regalo dos olhos e contemplação da alma.

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Bordadeira.
Gravura de Max Romer, 1925

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Conclusão
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Peças de Cama. Bordal.

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O

bordado como mercadoria de exportação com peso evidente na economia da ilha tem pouco mais de cento e cinquenta anos, mas está presente desde os tempos do povoamento do arquipélago na casa dos madeirenses. Durante este silêncio de mais de trezentos e cinquenta anos a madeirense bordava de portas adentro para compor o seu enxoval ou para presentear os parentes e amigos. A assiduidade da presença de estrangeiros na ilha, de passagem ou em actividade de negócios e o seu interesse evidente pelos usos e costumes propiciou a revelação do quotidiano madeirense e a valorização do trabalho artesanal, como as flores, as rendas e o bordado. A partir do século XVIII a assiduidade dos europeus aumenta e prolonga-se o período de estadia. Aos aventureiros e mercadores, juntam-se agora os cientistas e, acima de tudo, os doentes da tísica pulmonar que buscam no clima ameno da ilha na época invernal o alívio para a doença. Ao Funchal acodem muitas personalidades de destaque na sociedade europeia de então. Os registos de entrada da alfândega e, por vezes, os jornais referem-nos a presença de aristocratas, príncipes,
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Toalha de Mesa. Bordal 134

escritores, cientistas. Foram estes que, em estâncias demoradas em casas e quintas dos madeirenses, descobriram o segredo dos lavores guardados portas adentro, apaixonando-se pelo lavor das mulheres que os fizeram. A notícia correu de boca em boca e rapidamente o bordado saiu do casulo familiar para se transformar numa forma de apoio à economia de muitas famílias. As bordadeiras retiram das arcas os desenhos das peças herdadas e fazem delas autênticas obras de arte, que vendem à chegada dos estrangeiros ao porto ou de porta em porta das casas e quintas onde estes se alojam. A fama do trabalho da agulha das madeirenses encantou aristocratas e burgueses europeus e rapidamente se entendeu que estava aqui uma mais-valia para os negócios. Por mão de uma mulher, Miss Phelps, o bordado singrou no mercado britânico. Não foi esta donzela britânica quem descobriu ou criou o bordado madeira a partir de 1856. A ela apenas se deve a promoção do bordado no mercado londrino e o facto de ter procurado adaptar os padrões bordados ao gosto dos clientes. O Funchal de meados do século XIX era uma cidade cosmopolita. Nas suas ruas cruzam-se cidadãos de diversas nacionalidades, nomeadamente britânicos e alemães. A disputa entre as duas potências pelo domínio do Atlântico passa também pela Madeira. Até então os britânicos dominavam quase por completo o mercado madeirense, que começaram a perder com a independência dos Estados Unidos da América. A estes seguiramse os alemães a partir de 1880 que passaram a intervir de forma directa no comércio e produção do bordado. A entrada foi o élan necessário para a completa renovação e afirmação do bordado não apenas no mercado alemão, mas também no norte-americano. Os alemães trouxeram as mais significativas inovações tecnológicas para o sector e alteraram por completo o processo de
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Peças de bordado. Bordal Bordadeira.

produção do bordado. A bordadeira passa a assumir apenas a função de bordar, sendo-lhe impostos os panos, os linhos e os desenhos. A mudança implicou o aparecimento de novos intervenientes no processo e à afirmação das imponentes casas de bordados na cidade. As vetustas casas de vinho e até mesmo alguns hotéis mudaram de inquilino e de funções. A partir do último quartel do século dezanove o bordado é uma das principais riquezas, enquanto o vinho agonizava vítima do oídio e filoxera. O século XIX anunciou-se como a época dourada do bordado madeirense. Apenas os conflitos mundiais e a concorrência de outras áreas fez perigar esta esperança dos madeirenses. A primeira Guerra Mundial afugentou os alemães mas trouxe os sírios que contribuíram, ainda que por pouco tempo, para o reforço do mercado norte-americano. As dificuldades dos anos vinte afugentaram os sírios, mas não acabaram com o bordado. Isto foi o princípio do retorno do bordado às mãos dos madeirenses.

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Pormenor de bordado

O bordado Madeira, perante as dificuldades evidentes de um mercado limitado e exigente, não agonizou, antes pelo contrário soube vencer as dificuldades, diversificando os mercados e ajustando-se às exigências dos clientes. A inovação esteve sempre presente no historial do bordado a partir dos anos oitenta. Esta situação continuou até aos dias de hoje e as novas tecnologias e o Design entraram na tradição de bordar no novo milénio. Em todo o processo foi fundamental o trabalho do desenhador, que traça de forma primorosa os motivos florais e a composição, bem como a bordadeira, que qual mãos de fada, lhe dá forma e relevo. A história regista dois produtos que ontem como hoje, são a imagem de marca do arquipélago. A Madeira identifica-se pelo vinho e bordado, que correram mundo. Foram, e continuam a ser, produtos de grande interesse económico.

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Toalhas de Mesa Bordal

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