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Fundação Escola Superior

do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios
ANASTÁCIA DE BARROS BARBOSA


As Relações Contratuais Bancárias
e
O Direito do Consumidor


BRASÍLIA
2009


ANASTÁCIA DE BARROS BARBOSA


As Relações Contratuais Bancárias
e
O Direito do Consumidor

Monografia apresentada à Fundação
Escola Superior do Ministério Público do
Distrito Federal e Territórios como
requisito básico para certificação do curso
de Pós-Graduação Ordem Jurídica e
Ministério Público sob a orientação do
Professor MSc. Paulo R. Roque A. Khouri.



Brasília
2009



ANASTÁCIA DE BARROS BARBOSA

As Relações Contratuais Bancárias
e
O Direito do Consumidor
Monografia apresentada à Fundação
Escola Superior do Ministério Público do
Distrito Federal e Territórios como
requisito básico para certificação do curso
de Pós-Graduação A Ordem Jurídica e O
Ministério Público sob a orientação do
Professor MSc. Paulo R. Roque A. Khouri.

Aprovado pelos membros da banca examinadora em ____/____/____, com
menção_____ (__________________________________________).



















Aos meus pais pelo exemplo de
perseverança, e por terem me
ensinado que o verdadeiro sentido da
vida é realizar nossos sonhos.

Ao meu namorado Max pela paciência e
atenção e colaboração dispensadas.

Aos meus irmãos, amigos e colegas de
trabalho pelo apoio e incentivo.





















Ao orientador do presente trabalho pelos
ensinamentos que despertaram o
interesse em abordar o tema.

À Fundação Escola Superior do Ministério
Público do Distrito Federal e Territórios
pela oportunidade de obtenção de novos
conhecimentos intelectuais e de
relacionamento.



















Há apenas quatro questões na vida. O
que é sagrado? De que é feita a alma? O
que vale a pena ser vivido e qual é o
motivo pelo qual vale a pena morrer? A
resposta é a mesma para todas: apenas o
amor.
Don Juan



RESUMO
BARBOSA, Anastácia de Barros. As relações contratuais bancárias e o direito do
consumidor. 2009. 91 f. Trabalho de conclusão do curso de especialização Ordem
Jurídica e Ministério Público – FESMPDFT – Fundação Escola Superior do Ministério
Público do Distrito Federal e Territórios.


Trata-se de tema relevante em função dos reflexos que as relações contratuais
bancárias têm na sociedade e da celeuma resolvida por meio do julgamento da ADI
2591. A ação foi julgada improcedente o que resultou no entendimento de
aplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor às instituições financeiras. Para
demonstrar a relevância e desdobramentos do tema, primeiramente foram
abordados aspectos gerais da teoria geral dos contratos, da teoria geral das
relações de consumo e do direito bancário. A seguir empreende-se análise dos
instrumentos legais e normativos de defesa do consumidor bancários, que de forma
geral positivam o instituído por meio do Código de Defesa do Consumidor. O
trabalho é finalizado com abordagem do posicionamento favorável e contrário à
aplicabilidade do indigitado código às relações bancárias, os fundamentos do
julgamento da ADI 2591 e o posicionamento consolidado pelo Superior Tribunal de
Justiça por meio da edição das súmulas de números 379, 380 e 381.

Palavras-chave: Direito do Consumidor. Instituições Financeiras. Contratos.





ABSTRACT
BARBOSA, Anastácia de Barros. The bank contractual relationships and the
consumer’s right. 2009. 91 f. Conclusion work of the Public Prosecution Service and
Juridic Order Specialization (latu sensu) Course – FESMPDFT – “Fundação Escola
Superior do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios”.


It deals about relevant theme because of the reflexes that the bank contractual
relationships impose in the society and the discussion solved by the ADI 2591
judgment. The action was judged unfounded what resulted in the understanding of
the Consumer Defense Code applicability to the financial institutions. To show the
theme consequences and relevancy, firstly were approached general aspects of the
contractual general theory, the general theory of the consumption relationship and
the banking law. In a second moment, it is undertaken the analysis of the legal and
normative instruments of the banking consumer’s defense, that in a general way
render the established by the Consumer’s Defense Code. This work is concluded
with the favorable and contrary positioning approach to the applicability of the
mentioned code to the bank relationships, with the foundations of the ADI 2591
judgment and with the consolidated positioning by the Superior Court of Justice
through the statement edition numbers 379, 380 and 381.

Key words: Consumer’s Right. Financial Institutions. Contracts.



SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ................................................................................................ 11
CAPÍTULO 1 ................................................................................................... 15
TEORIA GERAL DOS CONTRATOS ......................................................... 15
1.1. A Teoria Contratual Clássica ......................................................... 15
1.2. O Estado Liberal e O Estado Social .............................................. 17
1.3. Princípios Contratuais Liberais ..................................................... 20
1.4. Princípios Contratuais Sociais ...................................................... 23
CAPÍTULO 2 ................................................................................................... 27
TEORIA GERAL DAS RELAÇÕES DE CONSUMO .................................. 27
2.1. Noções.............................................................................................. 27
2.2. Fundamentos................................................................................... 32
2.3. Princípios ......................................................................................... 34
2.4. O Contrato de Adesão..................................................................... 38
CAPÍTULO 3 ................................................................................................... 42
DIREITO BANCÁRIO.................................................................................. 42
3.1. Noções.............................................................................................. 42
3.2. Origem Histórica.............................................................................. 44
3.4. Sistema Financeiro Nacional ......................................................... 46
3.4. Operações Bancárias...................................................................... 50


CAPÍTULO 4 ................................................................................................... 53
INSTRUMENTOS LEGAIS DE DEFESA DO CONSUMIDOR BANCÁRIO53
4.1. As Resoluções CMN nº 2878/01 e nº 3.694/09 e a Lei nº 8.078/90
.................................................................................................................. 53
4.2. Direitos e não direitos do cliente bancário................................... 55
4.3. Cláusulas contratuais abusivas..................................................... 57
4.4. Medidas a serem adotadas pelas instituições financeiras e
demais instituições autorizadas pelo Banco Central do Brasil para
adequação de seus procedimentos à Lei n º 8.078/90........................ 63
CAPÍTULO 5 ................................................................................................... 67
A APLICAÇÃO DAS REGRAS CONSUMERISTAS ÀS INSTITUIÇÕES
BANCÁRIAS................................................................................................ 67
5.1. Noções.............................................................................................. 67
5.2. Correntes defensoras da não aplicação do Código de Defesa do
Consumidor nas relações entre bancos e clientes............................. 70
5.3. Correntes defensoras da aplicação do Código de Defesa do
Consumidor nas relações entre bancos e clientes............................. 74
5.4. A ação direta de inconstitucionalidade 2591 - ADI 2591 e as
Sumulas STJ 379, 380 e 381.................................................................. 80
CONCLUSÃO.................................................................................................. 83
BIBLIOGRAFIA............................................................................................... 88


11
INTRODUÇÃO
No mundo contemporâneo, o sistema creditício bancário ocupa ponto de
destaque. Tendo em vista que no sistema econômico tal sistema tem função não
apenas de atender necessidades de crédito de pessoas físicas e jurídicas, mas
também, e principalmente, fomentar o desenvolvimento da nação, através da
circulação de riquezas que move o sistema produtivo e, conseqüentemente, viabiliza
o modelo de sustentação para a economia.
Diante de tal área de abrangência e das conseqüências diretas e indiretas
que proporciona, o interesse geral pela matéria fica evidente.
O legislador constituinte de 1988 demonstrou preocupação a respeito do
tema, o que resultou em diretrizes para assegurar em todas as relações contratuais,
a observância da equivalência entre as partes contratantes com o intuito de fomentar
o equilíbrio, e afastar a preponderância de interesses de uma parte sobre a outra.
No tocante às relações de consumo, estabeleceu a necessidade de proteção estatal
por meio de disposição da defesa do direito do consumidor no Artigo 5º, Inciso XXXII
e da necessidade imperativa de elaboração de um código de defesa do consumidor
no Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, hoje a Lei nº 8.078/90.
Na relação bancária há de se observar a presença de pessoas físicas e
jurídicas e o evidente interesse público em tal relação diante da dimensão dos
efeitos da distribuição de crédito, tendo em vista que fomenta o desenvolvimento das
atividades de consumo e produtivas. No que se refere ao crédito bancário, o cidadão
se encontra em posição altamente vulnerável, fato este decorrente do
desenvolvimento do setor bancário, devidamente estruturado e planificado com a
moderna técnica de atuar; da linguagem específica das operações de crédito e da
necessidade de tal crédito. Desta forma, a instituição financeira impõe, em tal

12
relação, a sua vontade, e o consumidor, sempre demandante por valores para
utilização, não tem condições de impor ou exigir igualdade no tratamento.
Em tais condições não há espaço para o tratamento igualitário estabelecido
constitucionalmente. Nestes contratos, há inclusive a ausência de participação de
um dos pólos interessados – o tomador – na elaboração da peça contratual que, em
regra, vem pronta e impressa. É suficiente a aceitação ou anuência do tomador do
crédito, por meio de adesão as cláusulas ali postas sem qualquer possibilidade de
discussão referente aos seus limites e conseqüências.
Esse contratante ou tomador de crédito, conforme qualificado, figura como a
parte fraca no relacionamento contratual bancário o que dá ensejo, portanto, à
possibilidade de atuação abusiva do fornecedor do crédito, o que demanda proteção
por parte do Estado.
Ao que se observa, embora o texto constitucional vise o bem estar social,
com todos os seus valores e princípios, certo é que, de modo contrário a tal linha de
desenvolvimento, os entes bancários atuam com fundamento na concepção do
Estado Liberal onde, efetivamente, o Estado não interferia na relação entre os
particulares, e o contrato prevalecia como lei entre as partes.
Tal divergência decorre, conforme já apontamos, em razão da força
demonstrada por uma parte – as instituições financeiras, intervenientes de crédito - e
a fraqueza da outra - os tomadores de crédito - que, pela circunstância da
necessidade, se apresentam de forma isolada e sem qualquer outra garantia em
relação aos eventuais desmandos do contratante.
A situação resulta do fato de que o acesso ao crédito é essencial para o
próprio consumo. E o crédito, antes reservado ao consumo de algumas classes – as
denominadas elites – popularizou-se e tornou-se, em conseqüência, um produto
para as massas. Em momento pretérito, quando era destinado a alguns, a
contratação, de menor volume, era realizada em condições mais próximas de
igualdade no tocante a imposição das cláusulas. De modo contrário, ao surgirem a
massificação e o correspondente crescimento dos consumidores do crédito, as
instituições financeiras cuidaram de simplificar o atendimento, por meio da imposição
de condições, ou seja, oferta de contratos prontos, sem qualquer possibilidade de

13
discussão sobre as cláusulas, nos quais resta ao tomador apenas a anuência de que
assume riscos e conseqüências não negociadas.
Essa chamada massificação do consumo de crédito teve, conforme já
apontamos, crescimento quantitativo e qualitativo. No primeiro aspecto, a sociedade
consumidora, com o intuito de alcançar o bem estar, motivou o crescimento da
procura do crédito para a compra de diversos bens, geralmente, com o
comprometimento de recursos futuros diante preços elevados dos objetos
desejados. No segundo aspecto, por sua vez, em razão da venda a prazo, sistema
tradicional de financiamento do consumo e que era, geralmente, proporcionado pela
própria vendedora, ter sido transferida às instituições financeiras através da criação
de diversas linhas de financiamento.
Aqui, cabe ressaltar, que a intervenção do Estado se faz necessária não no
sentido de inviabilizar a relação entre as partes, mas sim, de operar condições
motivadoras de respeito e consideração contratual, de forma a tornar equivalentes
as posições das partes envolvidas no negócio dentro do limite do princípio da
igualdade. Pois o crédito motiva o consumo que, por sua vez, motiva a produção, e
traz como conseqüência a circulação de riquezas, tão desejada para uma situação
econômica favorável.
E para isso há, efetivamente, a necessidade da edição de regras básicas
que irão regular as relações de consumo. O crédito deve ser tratado como produto
ou serviço conforme momento e condição que circule, e assim resta caracterizada a
relação de consumo e, por conseqüência, incidente a regra de controle a que
estarão sujeitos todos aqueles que se envolverem em tais limites.
O presente trabalho tem o intuito de esclarecer diversos aspectos no tocante
às relações jurídicas estabelecidas entre usuários, clientes e instituições financeiras,
por meio de enfoque na necessidade de regulamentação das relações contratuais
bancárias de modo a buscar a igualdade da relação. Para tanto, utilizou-se de fontes
doutrinárias, da lei e da jurisprudência dispostos no decorrer dos capítulos que
integram este trabalho.
No Capítulo I estão abordados os aspectos relevantes da teoria geral dos
contratos, de forma a esclarecer seu conceito e desenvolvimento. Segue-se com

14
enfoque na evolução do Estado Liberal para o Estado Social e nos princípios
referentes a cada estágio, na relação entre a autonomia da vontade e no dirigismo
contratual público.
O Capítulo II trata da teoria geral das relações de consumo, noções gerais,
fundamentos e princípios, de modo a esclarecer o que é uma relação de consumo, o
porquê e de que forma deve ser protegida. Além de seu desenvolvimento histórico o
qual, devido à amplitude de tais relações no mundo contemporâneo, culminou na
utilização desregrada dos contratos de adesão.
O Capítulo III, por sua vez, enfoca o direito bancário, sua origem, evolução
histórica, a formação do Sistema Financeiro Nacional e em que consistem as
operações bancárias. A submissão do direito bancário ao cumprimento da política
econômica estatal, e o cumprimento do objetivo central das instituições financeiras,
realizado através das operações bancárias, qual seja: o lucro.
O Capítulo IV aponta para o centro das questões refletidas neste trabalho,
em que consistem os direitos dos clientes e usuários das operações efetuadas pelas
instituições financeiras tratados de forma exemplificativa, as práticas abusivas
exercidas no âmbito destas instituições e as medidas que devem ser adotadas para
evitar incorrência em abusividade.
Finalizamos com o Capítulo V, que trata dos diferentes argumentos expostos
pelas correntes que defendem a submissão das instituições financeiras ao Código
de Defesa do Consumidor e pelas correntes que detêm posição contrária, além de
resumidamente tratarmos da Ação Direta de Inconstitucionalidade ADI 2591,
denominada vulgarmente “ADI dos Bancos” e jurisprudência dos tribunais superiores
sobre o tema.
Desta forma, estão tratados os principais elementos que se fazem presentes
na relação entre instituições financeiras e clientes, suas peculiaridades e o
tratamento legislativo e jurisprudencial a eles dado, que compõe interessante
material de apoio no estudo desta tão discutida relação.

15
CAPÍTULO 1
TEORIA GERAL DOS CONTRATOS
1.1. A Teoria Contratual Clássica
A concepção contratual tradicional ou clássica foi herdada do Século XIX,
caracterizado como o período das grandes codificações e, ao mesmo tempo, a era
de construções doutrinárias fundamentais, como as que trataram de direito subjetivo,
pessoa jurídica e negócio jurídico. A base desta concepção está resumida em três
princípios fundamentais: liberdade contratual, obrigatoriedade do contrato e
relatividade subjetiva. A liberdade contratual está expressa na autonomia privada,
enquanto a obrigatoriedade vincula as partes ao estipulado
1
.
Nas grandes codificações do Século XIX, o contrato era a própria expressão
da autonomia privada, às partes era reconhecida a liberdade de estipulação do que
lhes conviesse, o que serviu desta forma como instrumento eficaz da expansão
capitalista. Considerando, o contrato, um acordo de vontades através do qual as
partes se obrigam por meio de um vínculo jurídico, pode-se visualizar a ideologia
individualista dominante à época e a consolidação do regime capitalista
2
.
Assim, a idéia basilar pregada no liberalismo econômico de que todos são
iguais perante a lei e devem ter tratamento igualitário e a concepção de liberdade de
funcionamento para o mercado de capitais e de trabalho favoreceram a dominação

1
N0R0NlA, Ferrardo. D o|re|ro oos conrraros e seus µr|nciµ|os lunoamenra|s. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1991, p 11-13.
2
Nas pa|avras de 0r|ardo 0ores, '0 processo ecoròr|co caracler|zado erlao pe|o deservo|v|rerlo das lorças produl|vas
ex|g|a a gerera||zaçao das re|açoes de lroca delerr|rardo o eslorço de aoslraçao que |evou a corslruçao do regóc|o
jurid|co coro gèrero de que o corlralo é espéc|e. 0 corlralo surge coro ura calegor|a que serve a lodos os l|pos de
re|açao erlre suje|lo de d|re|lo e qua|quer pessoa |rdeperderlererle de sua pos|çao ou cord|çao soc|a|. Nao se |evava er
corla a cord|çao ou pos|çao soc|a| dos suje|los, se perlerc|ar ou rao a cerla c|asse, se erar r|cos ou pores, rer se
cors|deravar os va|ores de uso ras sorerle o paràrelro de lroca, a equ|va|èrc|a das rercador|as; rao se d|sl|rgu|a se o
oojelo do corlralo era ur oer de corsuro ou ur oer esserc|a|, ur re|o de produçao ou ur oer vo|upluár|o: lralava-se
do resro rodo a verda de ur jorra|, de ur aparlarerlo, de açoes ou de ura erpresa¨. 00VE3,0r|ardo. 0onrraros.
R|o de Jare|ro: Forerse, 19Z9, p Z-8.

16
de uma classe econômica que utilizou o contrato como instrumento jurídico por
excelência
3
.
O liberalismo econômico teve base em alguns dogmas: oposição entre o
indivíduo e a sociedade, o que refletiu na restrição máxima das atividades estatais;
princípio da autonomia da vontade onde as deliberações privadas são o elemento
essencial na organização estatal; princípio da liberdade econômica firmado pela
expressão “laissez faire, laissez passer”. Do somatório de tais dogmas extrai-se que
os homens eram livres e iguais em direitos, sem, no entanto, efetuarem a
observação sobre as condições concretas do exercício de tais direitos, fato este que
os prejudicava diretamente
4
.
Tal modelo implodiu pelas desigualdades e danos dele decorrentes. Firmou-
se um novo contexto determinado pela política de intervenção do Estado na
economia, com a finalidade de impedir que os desprovidos economicamente fossem
esmagados pelos detentores do capital, como também com a pretensão de
assegurar o predomínio dos interesses sociais sobre os privados
5
.
Evoluíram então os contratos, no sentido de, através da política interventiva
estatal, dar-se o ajuste necessário para a consecução de direitos de forma igualitária
a partes que estejam em situações desiguais na negociação. O Estado passa a
dirigir o contrato, não tanto de acordo com a vontade comum e provável dos
contratantes, mas, sobretudo, em atenção às necessidades gerais da sociedade
6

A modificação do enfoque de contratação de fruto da autonomia privada
para negócio submetido à função social, ante ao dirigismo estatal e à prática cada
vez mais freqüente dos contratos de adesão, teve como conseqüência o
enfraquecimento da ideologia contratual como reflexo da liberdade individual.
Embora já se tenha afirmado o declínio e até mesmo a morte do contrato, na

3
00VE3,0r|ardo. 0onrraros. R|o de Jare|ro: Forerse, 19Z9, p 11.
1
N0R0NlA, Ferrardo. D o|re|ro oos conrraros e seus µr|nciµ|os lunoamenra|s. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1991, p ê1.
5
00VE3,0r|ardo. 0onrraros. R|o de Jare|ro: Forerse, 19Z9, p 1Z.
ê
8E330NE, 0arcy. 0o 0onrraro - Teor|a Sera|. 3ao Pau|o: 3ara|va, 199Z, p 33-3ê.

17
realidade o que ocorreu foi sua transformação para atender a novas realidades e
desafios vividos pela sociedade
7
.
1.2. O Estado Liberal e O Estado Social
O Estado Liberal e o Estado Social expressam fases de evolução do modo
de governo em seus aspectos econômico, político e social, entre outros. Em um
primeiro momento, o direito privado dos contratos - das obrigações - não estava
definido com muita clareza em relação ao Estado. Somente na segunda fase do
Estado moderno, que é o Estado Liberal, ocorrida ao longo do Século XIX e início do
Século passado, que o contrato assume o modelo tido como clássico, anteriormente
exposto
8
.
Em tal período, definem-se os contornos do contrato com fundamento na
autonomia individual. No campo constitucional, voltou-se essencialmente para a
organização do Estado, para a delimitação do poder político, e para os direitos e
garantias individuais, com enfoque principalmente no que é negado ao Estado fazer.
O contrato passou a ser o instrumento, por excelência, de realização dos interesses
individuais, e a atuação estatal esteve restrita
9
.
A ordem econômica e social voltou-se a delimitar o poder econômico.
Portanto, a primeira fase do constitucionalismo e do chamado Estado Liberal, é a
preocupação em delimitar o poder político. O mais amplo espaço para a atuação dos
indivíduos, da autonomia privada, da liberdade contratual, da exaltação da ação livre
das pessoas. O Direito público surgiu nessa época de forma diferenciada da
contemporânea, não voltado ao interesse público, mas sim ao interesse individual
10
.
No Estado Liberal foram construídos três grandes princípios em relação à
teoria contratual, que são: o princípio da autonomia da vontade, o princípio da
obrigatoriedade dos contratos e o princípio da relatividade subjetiva, ou seja, para
celebrar contratos, as pessoas são livres, o que se acorda vincula as partes; e o
acordado não ultrapassa as pessoas das partes do negócio jurídico. Na época atual,

Z
8E330NE, 0arcy. 0o 0onrraro - Teor|a Sera|. 3ao Pau|o: 3ara|va, 199Z, p 39.
8
L080, Pau|o Lu|z Nello. 0|re|ro conrrarua| e consr|ru|çáo WWW.uj.cor.or, er 19/03/2009 21:59
9
N0R0NlA, Ferrardo. D o|re|ro oos conrraros e seus µr|nciµ|os lunoamenra|s. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1991, p ê1-ê8.
10
3lLvA, José Alorso da. 0urso oe o|re|ro consr|ruc|ona| µos|r|vo. 3ao Pau|o: Va|re|ros, 1999, pp.Z98-Z99.

18
tais princípios não mais conseguem ser respostas adequadas. O atual estágio de
complexidade das relações negociais leva à afirmação de outros princípios, ao lado
destes ou em contraposição a estes, que melhor possam explicar os fenômenos
negociais contemporâneos
11
.
O Estado Social avançou no sentido de delimitar o poder econômico e
conseqüentemente regular o contrato e, sobretudo, a propriedade. Seu objetivo era
a regulação da atividade econômica, pois a atividade negocial está inserida na
atividade econômica, isto porque é nesta atividade que se encontra a propriedade
dinâmica, como objeto de circulação de bens e riquezas. As Constituições passaram
a estabelecer as garantias do direito de propriedade individual, observadas as
limitações que nela estão consignadas e que a lei prescreve; do mesmo modo o
contrato
12
.
A característica fundamental do modelo contemporâneo se expressa através
dos contratos de massa, despersonalizados, contratos que não mais defluem de
manifestações de vontade livres, e não se originam da igualdade formal das partes.
Distanciado, desta maneira, da liberdade e da igualdade formal das partes, seria
outra categoria ou talvez o contrato renascido, a partir de pressupostos diferentes. A
impessoalidade da relação se dá em face daquele que necessita do serviço e não
pode realizar o contrato que, segundo o modelo que as grandes codificações haviam
estabelecido, pressupõe a livre manifestação de vontade, a liberdade de escolher o
contratante, o tipo contratual e o conteúdo contratual
13
.
O contrato contemporâneo está distanciado dos princípios clássicos,
particularmente do princípio da autonomia da vontade, regra de ouro da
interpretação dos contratos na vigência do Código Civil de 1916
14
, baseada na
primazia da vontade ou da intenção comum que o intérprete há de extrair da
declaração
15
.

11
N0R0NlA, Ferrardo. D o|re|ro oos conrraros e seus µr|nciµ|os lunoamenra|s. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1991, p 11-ê0.
12
3lLvA, José Alorso da. 0urso oe o|re|ro consr|ruc|ona| µos|r|vo. 3ao Pau|o: Va|re|ros, 1999, pp.Z98-Z99.
13
8lTTAR, Car|os A|oerlo. Ds conrraros oe aoesáo e o conrro|e oe c|ausu|as aous|vas. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1991, p ê-9.
11
'Arl|go85. Nas dec|araçoes de vorlade se alerderá ra|s a sua |rlerçao que ao serl|do ||lera| da ||rguager.¨ Cód|go C|v||
191ê
15
8lTTAR, Car|os A|oerlo. Ds conrraros oe aoesáo e o conrro|e oe c|ausu|as aous|vas. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1991, p 9.

19
Na atualidade não mais encontramos o Estado Social da forma como surgiu,
em função da transformação em sua essência, sobretudo a partir da década de 90
para os dias atuais, por meio da conversão do Estado empreendedor em Estado
regulador. Tal transformação não afasta a sua natureza de Estado Social, que é; o
Estado que se caracteriza justamente pela intervenção legislativa, judiciária e
administrativa onde há o controle de forma acentuada do mercado. Tal situação se
mostra incompatível com o discurso neoliberal, que aponta para o Estado mínimo.
São identificados os chamados interesses difusos e coletivos, que, sem serem
públicos ou privados no sentido tradicional da palavra demandaram uma nova
definição da legitimação ativa para sua defesa
16
.
O fenômeno próprio do Estado Social é a tutela da parte mais fraca da
relação, é dizer, o contratante que a lei presume mais fraco. Por isso que, ao invés
de consentimento, o Direito aponta para outras categorias, tais como: o dever de
informar, que gera responsabilidade pré-contratual, que os nossos Códigos
tradicionais não cuidam
17
.
Novos princípios marcam fortemente a natureza e a essência dos contratos,
são eles: o princípio da função social, da boa-fé objetiva e da equivalência material
contratual. O plano do contrato liberal baseado na abstração dos sujeitos, ou seja,
na igualdade formal foi superado, agora o direito contratual se volta para verificar,
efetivamente, qual a força ou o poder de cada parte contratante
18
.
Assim o princípio da função social supera a função individual que esteve
presente no modelo liberal. Além deste parâmetro há de se observar que nenhum
contrato poderá ser admitido pelo Direito, se lesar os interesses e valores
constitucionalmente estabelecidos. Nenhuma atividade negocial pode ser realizada
em afronta ao princípio da justiça social, que contém necessariamente conceitos
indeterminados, a serem preenchidos em cada momento pela mediação


ALVEl0A, Joao 8al|sla de. A µroreçáo ¡urio|ca oo consum|oor. 3ao Pau|o: 3ara|va. 2002. p 2-5
1Z
00VE3,0r|ardo. 0onrraros. R|o de Jare|ro: Forerse, 19Z9, p 1Z-18.
18
L080, Pau|o Lu|z Nello. Pr|nciµ|os soc|a|s oos conrraros no coo|go oe oelesa oo consum|oor e no novo coo|go c|v||, |r
Rev|sla de 0|re|lo do Corsur|dor, r° 12, Rev|sla dos Tr|oura|s, pp 18ê-195.

20
concretizadora do julgador, apto a captar os valores de uma determinada sociedade,
em um determinado momento
19
.
Por equivalência material entende-se a preservação do equilíbrio real dos
direitos e deveres no contrato, durante e após sua execução. É uma mitigação do
preceito “pacta sunt servanda”, onde apesar de os contratos continuarem a ter sua
observância obrigatória, tal máxima só tem valor nos limites do equilíbrio dos direitos
e deveres entre as partes. Contratos que imponham onerosidade excessiva a uma
das partes, seja porque assim foi contratado, ou porque a situação político-
econômica em que se encontra difere daquela na qual firmou-se, não podem ser
respeitados, deverão ser reformulados para que seja restabelecido o equilíbrio
contratual
20
.
O princípio da boa fé objetiva, por sua vez, exprime a regra de conduta dos
indivíduos nas relações contratuais, importa em conduta honesta, leal, correta.
Devemos ressaltar que a boa-fé não pode ser entendida em seu sentido subjetivo,
pois não se resume à simples crença de que a conduta está correta, mas sim em
seu sentido impositivo, ou seja, regra de conduta que impõe às partes determinado
comportamento
21
.
1.3. Princípios Contratuais Liberais
A concepção clássica dos contratos tem como base três princípios
fundamentais, que são: o da autonomia privada, o da obrigatoriedade do contrato e
o da relatividade subjetiva, onde se estabelecem a oferta e a aceitação, o livre
consentimento e a igualdade formal dos contratos
22
.
Deve-se observar a autonomia privada como uma soma de várias
liberdades: a de contratar ou deixar de contratar, a de escolher com quem contratar,

19
N0R0NlA, Ferrardo. D o|re|ro oos conrraros e seus µr|nciµ|os lunoamenra|s. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1991, p Z3.
20
L080, Pau|o Lu|z Nello. Pr|nciµ|os soc|a|s oos conrraros no coo|go oe oelesa oo consum|oor e no novo coo|go c|v||, |r
Rev|sla de 0|re|lo do Corsur|dor, r° 12, Rev|sla dos Tr|oura|s, pp 18ê-195.
21
VARTlN3, P|ir|o Lacerda. D aouso nas re|açóes oe consumo e o µr|nciµ|o oa ooa-le. R|o de Jare|ro: Forerse, 2002, pp
Z5-ZZ.
22
00NNlNl, Rogér|o Ferraz. A rev|sáo oos conrraros no coo|go c|v||. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1999. p 3-9.

21
a de determinar o contrato a ser celebrado, se típico ou atípico, a de negociar seu
conteúdo, e também a de adotar a forma pela qual contratar
23
.
O homem rege seus próprios interesses e vincula-se com autonomia,
segundo seu livre querer, eis que sujeito de direito, qualidade que não depende de
sua posição específica no grupo social, mas sim do fato de ser homem, livre e igual
a todos os homens, igualmente qualificados como sujeitos de direito. Se a soberania
política residia na “vontade geral”, também o contrato seria governado, por um
similar poder soberano que seria a “vontade individual”
24
.
Pode-se dizer o quê significa a faculdade de livremente convencionar. É a
liberdade, que têm as partes, na estipulação de normas destinadas a regular os seus
interesses. O ilustre doutrinador Washington de Barros Monteiro explica: “...têm os
contratantes ampla liberdade para estipular o que lhes convenha, fazendo assim do
contrato verdadeira norma jurídica, já que o mesmo faz lei entre as partes”
25
. Ao
Estado cabe assegurar o efetivo cumprimento dos pactos livremente assumidos, por
meio do zelo para que a vontade criadora da obrigação seja livre de vícios ou
defeitos, conforme estabelecido na lei civil
26

Ao princípio da autonomia privada costuma-se vincular o princípio da força
obrigatória dos contratos, baseado na máxima de que a obrigação de cumprir o
contrato está associada ao dever, ao respeito da palavra dada. No entanto, devemos
observar que ligados à autonomia da vontade, estão a tutela da confiança e o
princípio da boa-fé como reflexos da função social do contrato, que não eliminam a
autonomia privada, mas delimitam seu alcance, em um segundo momento da
evolução do direito dos contratos
27
.
A vinculatividade contratual torna as partes obrigadas ao cumprimento do
estipulado, tal se expressa no brocardo “pacta sunt servanda”, onde está
estabelecido que o contrato faz lei entre as partes. Desta forma, o contrato não

23
N0R0NlA, Ferrardo. D o|re|ro oos conrraros e seus µr|nciµ|os lunoamenra|s. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1991, p 12.
21
8lTTAR, Car|os A|oerlo. Ds conrraros oe aoesáo e o conrro|e oe c|ausu|as aous|vas. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1991, p 29.
25
V0NTElR0, wasr|rglor de 8arros. 0urso oe o|re|ro c|v||, 5o. vo|., 3ao Pau|o: 3ara|va, 1999.

Nesle serl|do exp|ara C|áud|a L|ra Varques: '0o dogra da auloror|a da vorlade, coro e|ererlo cr|ador das re|açoes
corlralua|s, rel|ra-se o poslu|ado que só a vorlade ||vre e corsc|erle, rar|lesla ser |rl|uèrc|as exlerras coaloras.¨
VAR0uE3, C|áud|a L|ra. 0onrraros no coo|go oe oelesa oo consum|oor, vo| l, Rev|sla dos Tr|oura|s, 2002 pp-50-51.
2Z
N0R0NlA, Ferrardo. D o|re|ro oos conrraros e seus µr|nciµ|os lunoamenra|s. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1991, p 11ê.

22
poderia ser objeto de revisão por qualquer das partes, e nem mesmo pelo judiciário.
É o princípio segundo o qual o que foi pactuado deve ser cumprido. Significa o
cumprimento fiel e obrigatório do que for estipulado pelas partes de comum acordo.
O eventual descumprimento submete o patrimônio do devedor à pronta execução.
Somente uma nova manifestação de vontade conjunta, ou em decorrência de caso
fortuito ou força maior, poderia acarrear a modificação das cláusulas contratadas
28
.
Quanto à relatividade subjetiva, é tida como efeito da autonomia da vontade,
pois, se as partes somente podem se submeter ao que contrataram, tal acordo de
vontades não pode se estender a outrem, o contrato faz lei entre as partes, mas
apenas entre as partes contratantes. Os efeitos do contrato somente atingem a
esfera das partes contratantes, não criam direitos ou obrigações para terceiros, visto
que lhes falta requisito essencial, o qual seria a ausência absoluta de manifestação
de vontade destes
29
.
Aparece o princípio da autonomia privada, como tradução jurídica da
liberdade de iniciativa econômica. Ao sujeito é atribuída a possibilidade de criar
situações de direito subjetivo, pessoais ou reais. A autonomia privada é vista como
um poder, que lhe é reconhecido, de regulamentar os próprios interesses, dentro de
determinados parâmetros. Tal auto-regulamentação manifesta-se, precipuamente,
no campo do direito contratual. O contrato tornou-se, por excelência, o instrumento
da iniciativa privada
30
.
Atravessada invariavelmente pela idéia de livre determinação, a autonomia
privada é tida como o fundamento da obrigatoriedade dos contratos, por ser
expressão da liberdade individual. Em torno do conceito de autonomia privada toda
a dogmática do contrato se estrutura, e dela decorrem os demais princípios
norteadores da teoria contratual clássica. O contrato aparece como o instrumento
dessa autonomia, o meio pelo qual ela se manifesta e se realiza.

28
N0vAl3, A||re Arquelle Le|le. A reor|a conrrarua| e o novo coo|go oe oelesa oo consum|oor. 3ao Pau|o: Rev|sla dos
Tr|oura|s, 2001, p. 59.
29
N0R0NlA, Ferrardo. D o|re|ro oos conrraros e seus µr|nciµ|os lunoamenra|s. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1991, p 13.
30
8E330NE, 0arcy. 0o conrraro - Teor|a Sera|. 3ao Pau|o: 3ara|va, 199Z, p 25-28.

23
1.4. Princípios Contratuais Sociais
O direito, por sua natureza, não é estanque; e como reflexo desta
característica era esperável que houvesse necessidade de restringir a atuação dos
princípios admitidos na teoria clássica contratual. Com o avanço das relações
interpessoais e internacionais, o desenvolvimento científico e tecnológico, a
globalização da economia, a necessidade de contratar entre as pessoas, sejam
físicas ou jurídicas, se multiplicou de tal forma que se tornou necessário repensar os
princípios gerais dos contratos e os mecanismos para garantir sua revisão judicial
31
.
A base teórica contratual passou e continua a passar por sensíveis
modificações causadas pela evolução social, política e filosófica na qual o centro da
proteção jurídica migrou do individual para o coletivo, o que faz prevalecer a função
social dos contratos sobre as vontades particulares acordadas entre partes. A
obrigatoriedade dos contratos continua a ser observada, desde que o pactuado não
fira o bem social e não proporcione onerosidade excessiva a uma das partes, dentre
outras limitações
32
.
Assim, quanto à autonomia da vontade a ação do Estado foi fortificada o que
possibilitou a imposição de restrições à negociação pelas partes, por meio do
desenvolvimento de um processo denominado dirigismo contratual. Em
conseqüência chegou-se a um consenso em que a liberdade contratual teria como
limite a ordem pública, estabelecido novo princípio na teoria dos contratos: o da
supremacia da ordem pública
33
.
Quanto ao princípio da obrigatoriedade dos contratos, a realidade econômica
e social também levou à imposição de restrições, aplicadas através de institutos
como a teoria da imprevisão e a resolução por onerosidade excessiva. A revisão
contratual é ampliada, de forma a abranger fatores diversos e não mais apenas se
houver concordância de ambas as partes, ou nas hipóteses de caso fortuito e força
maior.

31
N0R0NlA, Ferrardo. D o|re|ro oos conrraros e seus µr|nciµ|os lunoamenra|s. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1991, p 13.
32
3ao vedadas vár|as prál|cas e |rposlas oulras coro o seguro oor|galór|o, c|áusu|as de gararl|a e ass|slèrc|a lécr|ca
oor|galór|a. 8lTTAR, Car|os A|oerlo. Ds conrraros oe aoesáo e o conrro|e oe c|ausu|as aous|vas. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1991,
p Z-9.
33
N0R0NlA, Ferrardo. D o|re|ro oos conrraros e seus µr|nciµ|os lunoamenra|s. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1991, p 13.

24
Por criação dos canonistas e glosadores, foi implementada a cláusula “rebus
sic stantibus”, abreviação da fórmula original “contractus qui habent successivum et
dependentiam de futuro rebus sic standibus intelliguntur” ou teoria da imprevisão;
cuja tradução se resume no entendimento de que nos contratos de trato sucessivo
ou a termo, o vínculo obrigatório, entende-se subordinado à continuação daquele
estado de fato vigente ao tempo da estipulação
34
.
Segundo esta cláusula, a interpretação dos contratos sempre deve
considerar a situação vigente ao tempo da celebração do pacto. Assim, não é
conveniente impor sanção àquele que não cumpre o pactuado não por seu arbítrio,
mas por fator a ele superveniente. Atualmente, a possibilidade de revisão judicial dos
contratos está prevista nos artigos 6º, V do Código de Defesa do Consumidor
35
e
artigo 479 e 480 do novo Código Civil
36
.
O mundo contemporâneo impõe uma noção pós-moderna de contrato, na
qual o princípio da autonomia da vontade e o "pacta sunt servanda" têm valor
relativo e ditames novos, tais como: a relatividade dos contratos, a boa fé objetiva, a
equidade das prestações, a defesa do vulnerável, a justiça contratual e a finalidade
do contrato que devem ser obrigatoriamente observados
37
.
As transformações decorrentes do progresso trazido pela industrialização,
pelo avanço tecnológico e o comércio virtual, com o surgimento dos contratos de
massa, põem por terra os princípios que consagraram a autonomia da vontade, o
que possibilita a exploração do economicamente mais fraco pelos que detêm o
poder econômico e político, "desmentindo a idéia de que se assegurando a liberdade
contratual, estaríamos assegurando a justiça contratual"
38


31
00NNlNl, Rogér|o Ferraz. A rev|sáo oos conrraros no coo|go c|v||. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1999. p 10.
35
'Arl|go ê°. 3ao d|re|los oás|cos do corsur|dor:
(...)
v - a rod|l|caçao das c|áusu|as corlralua|s que eslaoe|eçar preslaçoes desproporc|ora|s ou sua rev|sao er razao de
lalos superver|erles que as lorrer excess|varerle orerosas.¨ Le| rº 80Z8/90

'Arl|go 1Z9. A reso|uçao poderá ser ev|lada, olerecerdo-se o réu a rod|l|car equ|lal|varerle as cord|çoes do corlralo.
Arl|go 180. 3e ro corlralo as oor|gaçoes couoerer a aperas ura das parles, poderá e|a p|e|lear que a sua preslaçao seja
reduz|da, ou a|lerado o rodo de execulá-|a, a l|r de ev|lar a oreros|dade excess|va.¨ Le| rº 10.10ê/02
3Z
00NNlNl, Rogér|o Ferraz. A rev|sáo oos conrraros no coo|go c|v||. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1999. p 3-9.
38
VAR0uE3, C|áud|a L|ra. 0onrraros no coo|go oe oelesa oo consum|oor, vo| l, Rev|sla dos Tr|oura|s,1999 pp-19Z-20ê.

25
Outro princípio a ser observado nos negócios jurídicos contemporâneos é o
da boa fé entre os contraentes. Tal princípio é peculiar por possuir contornos de
subjetividade e abstração, o que dificulta sua delimitação nos casos concretos. Pode
ser de duas naturezas: a boa-fé subjetiva e a boa-fé objetiva, o direito pátrio optou
pelo acolhimento de sua forma objetiva, presente nos artigos 4º, III do Código de
Defesa do Consumidor
39
e 422 do novo Código Civil
40
.
A boa-fé subjetiva tem como característica a atitude de consciência por parte
do agente de atuar com ciência de que não viola a lei ou qualquer direito de terceiro,
ou convencido de que o faz devidamente amparado pelo Direito, é um aspecto
baseado no senso ético e moral das partes contratantes. A boa-fé objetiva, por sua
vez, tem conotação diferenciada e não se trata da consciência da prática de nenhum
ato contrário ao Direito, mas sim, da lealdade e da cooperação entre as pessoas
envolvidas nas relações obrigacionais. Deste modo, sua essência resume uma regra
de comportamento e atitudes que serão valoradas de acordo com os parâmetros da
lealdade, da probidade e da honestidade
41
.
A boa-fé objetiva incluiu nas cláusulas gerais dos contratos conceitos
revolucionários e inimagináveis nas antigas teorias contratuais, o que realça a
necessidade de as partes envolvidas interagirem, com a busca da finalidade do
contrato com os predicados acima tratados. Desta forma, foi ampliado o campo para
revisão judicial dos contratos, relegada ao segundo plano a autonomia da vontade,
pois, como cláusula geral do contrato, a boa-fé objetiva, busca alcançar o fim do
contrato
42
.

39
'Arl|go 1º. A Po|il|ca Nac|ora| das re|açoes de Corsuro ler por oojel|vo o alerd|rerlo das recess|dades dos
corsur|dores, o respe|lo a sua d|gr|dade, saude e segurarça, a proleçao de seus |rleresses ecoròr|cos, a re|ror|a da
qua||dade de v|da, oer coro a lrarsparèrc|a e rarror|a das re|açoes de corsuro, alerd|dos os segu|rles pr|rcip|os:
(...)
lll - rarror|zaçao dos |rleresses dos parl|c|parles sas re|açoes de corsuro e corpal|o|||zaçao da proleçao do
corsur|dor cor a recess|dade de deservo|v|rerlo ecoròr|co e lecro|óg|co, de rodo a v|ao|||zar os pr|rcip|os ros qua|s
se lurda a order ecoròr|ca (arl|go 1Z0, da Corsl|lu|çao Federa|), serpre cor oase ra ooa-lé e equ||ior|o ras re|açoes
erlre corsur|dores e lorrecedores.¨ - Le| rº 8.0Z8/90
10
'Arl|go 122. 0s corlralarles sao oor|gados a guardar, ass|r ra corc|usao do corlralo, coro er sua exceçao, os
pr|rcip|os da proo|dade e ooa-lé.¨ - Le| rº 10.10ê/02
11
VARTlN3, P|ir|o Lacerda. D aouso nas re|açóes oe consumo e o µr|nciµ|o oa ooa-le. R|o de Jare|ro: Forerse, 2002. pp
Z5-Z8.
12
ALVEl0A, Joao 8al|sla de. A µroreçáo ¡urio|ca oo consum|oor. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2002. p 1ê.

26
Inquestionável que todos os contratos têm uma finalidade precípua sobre a
qual forem firmados. Quando tal finalidade não é atendida, deve o contrato ser
revisto, mesmo contrário a "pacta sunt servanda". Assim, não só devem ser revistos
os contratos com base nas hipóteses de caso fortuito e força maior. Mas também
devido a mudanças durante sua execução, que venham a impossibilitar o alcance de
sua finalidade
43
.
Com a prevalência dos interesses públicos sobre os privados, deu-se início a
uma transformação onde, normas imperativas passaram a regular algumas avenças,
o que motivou o surgimento dos contratos de consumo, e representou um dos
primeiros avanços na noção da função social do contrato. Ficou então estabelecida
por meio do Código de Defesa do Consumidor a mudança dos princípios da
autonomia da vontade e da força obrigatória dos contratos, revogada tacitamente a
doutrina anterior da primazia da "pacta sunt servanda"
44
.
Os fenômenos de massificação e despersonalização das relações
contratuais tornaram imprescindível a atuação estatal no sentido de garantidor da
igualdade real dos contratantes, o que proporciona a realização da justiça contratual
e social. O Estado passa a intervir nas relações contratuais por meio da imposição
de condutas, tal fenômeno exprime o dirigismo contratual público
45
.
O advento do CDC, por fim, delimitou a autonomia da vontade, de forma que
as partes não prevaleçam uma sobre a outra, e os contratantes estejam em um
forçoso equilíbrio. Neste momento também, priorizou o legislador, o princípio da boa
fé objetiva e da equidade, o que possibilita uma ampla gama de argumentos nas
revisões contratuais.

13
00NNlNl, Rogér|o Ferraz. A rev|sáo oos conrraros no coo|go c|v||. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1999. p 3-9
11
00NNlNl, Rogér|o Ferraz. A rev|sáo oos conrraros no coo|go c|v||. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1999. p 9
15
N0vAl3, A||re Arquelle Le|le. A reor|a conrrarua| e o novo coo|go oe oelesa oo consum|oor. 3ao Pau|o: Rev|sla dos
Tr|oura|s, 2001, p. 89-91.

27
CAPÍTULO 2
TEORIA GERAL DAS RELAÇÕES DE CONSUMO
2.1. Noções
Relações de consumo são aquelas estabelecidas a partir do binômio
fornecedor/consumidor, onde o desenvolvimento da atividade negocial há muito
deixou sua condição de incipiente, e projetou-se em uma estrutura sólida e eficiente
que evidencia o profissionalismo existente na área, nos dias atuais
46
.
A atuação do Estado mostra preocupação constante em relação ao processo
de consumo, no intuito de disciplinar o confronto entre os dois pólos da relação, de
forma a proteger não apenas o consumidor, mas a relação em si, com o objetivo de
torná-la viável e contínua
47
.
A relação de consumo é relação jurídica marcada por fundamental diferença
das relações contratuais comuns, vez que nestas pressupõe-se a igualdade das
partes, enquanto nas de consumo existe a presunção legal da superioridade de uma
das partes sobre a outra. Desta forma, conclui-se que o direito do consumidor é
direito protecionista, o que reflete a intervenção do Estado, pois dada a presunção
de superioridade do fornecedor frente ao consumidor, há de se proteger o último por
sua clara condição de vulnerabilidade. Assim, a relação de consumo é um conjunto
de normas imperativas, de ordem pública e interesse social, e, portanto,
inderrogáveis pela via negocial, e de aplicação irrenunciável
48
.
O Código de Defesa do Consumidor em função da extensão da matéria não
conseguiu alcançá-la em sua totalidade, como, por exemplo, não trata de vícios


R03A, Jos|rar 3arlos. Re|açóes oe consumo. 3ao Pau|o, Ed|lora Al|as, 1995, pp. 19-3Z
1Z
0LlvElRA, Ce|so Varce|o de. 0oo|go oe 0elesa oo 0||enre 3ancar|o. Carp|ras: LZN, 2002, pp. 13-52.
18
8uL0ARELLl, wa|dir|o. Duesróes conrrarua|s no coo|go oe oelesa oo consum|oor. 3ao Pau|o: Al|as, 1999, pp. 25-32.

28
redibitórios, compra e venda e outros institutos tradicionais, dispositivos regulados
pelo Código Civil
49
.
No entanto, a Lei nº 8.078/90 procurou dar nova roupagem a alguns dos
institutos do direito civil e comercial de modo a torná-los mais modernos e
consentâneos com a evolução tecnológica e de mercado, de forma aliada à
produção de massa. O Código criou institutos de defesa, por meio da sistematização
de leis esparsas existentes no ordenamento brasileiro
50
.
A amplitude dos temas afetos ao direito do consumidor torna a matéria por
demais extensa, questões como consumo sustentável, livre concorrência e o abuso
do poder econômico, qualidade-produtividade e globalização da economia permeiam
o campo em inserções nas áreas correlatas, os quais não serão tratados neste
trabalho em razão da abordagem tomada.
Os pólos da relação de consumo estão preenchidos pelas figuras do
consumidor e do fornecedor, ambos merecedores de proteção legal em suas
demandas, pois em uma relação obrigacional o ônus é estabelecido para os dois
pólos, de forma que se atinja o objetivo em torno do qual a relação se efetivou
fundada nos princípios do equilíbrio contratual, da boa-fé objetiva, da tutela do
hipossuficiente, da transparência, do dirigismo contratual público, entre outros que
serão abordados oportunamente.
Conforme dispõe o artigo 2
o
, do Código de Defesa do Consumidor,
"Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou
serviço como destinatário final".
Nesta definição legal estão estabelecidos, dois conceitos básicos: a relação
de consumo e o destinatário final. Conseqüentemente, a Lei nº 8.078/90 somente se
aplicará quando caracterizada a situação de consumo, isto é, o produto ou serviço
objeto da relação entre fornecedor e consumidor e as obrigações desta decorrentes,
excluídas as demais
51
.

19
FlL0VEN0, José 0era|do 8r|lo. Vanua| oe o|re|ros oo consum|oor. 3ao Pau|o, Al|as, 2001, p ê1
50
FlL0VEN0, José 0era|do 8r|lo. Vanua| oe o|re|ros oo consum|oor. 3ao Pau|o, Al|as, 2001, p ê1
51
R03A, Jos|rar 3arlos. Re|açóes oe consumo. 3ao Pau|o, Ed|lora Al|as, 1995, p. êZ-80.

29
Segundo Plácido e Silva, "no sentido amplo, consumidor designa a pessoa
que consome uma coisa. Mas, no sentido do Direito Fiscal, possui o vocábulo
significado próprio: entende-se como consumidor toda pessoa que adquire
mercadoria de um comerciante, para seu uso ou consumo, sem intenção de
revendê-la", salientando, por outro lado, que "consumível, em tal circunstância, é
tomado em sentido realmente de destrutível pelo primeiro uso, ou deteriorável, pelo
uso continuado. Entretanto, na acepção jurídica, há consumo não somente quando a
coisa se destrói, como quando é adquirida para uso, mesmo permanente, isto é, sem
imediata destruição. Daí é que vem, então, a idéia do consumo absoluto e do
consumo relativo, em que se distinguem as duas modalidades do sentido de
consumo, isto é, tanto o gasto da coisa utilizada, como a aquisição para uma
utilidade de"
52
.
A exata compreensão da figura do consumidor enseja muitas discussões.
Abstraídas todas as conotações de ordem filosófica, psicológica e outras que
porventura sejam efetuadas, entende-se como consumidor qualquer pessoa física
ou jurídica que, isolada ou coletivamente, contrate para consumo final, em benefício
próprio ou de outrem, a aquisição ou locação de bens, como também a prestação de
um serviço
53
.
O CDC adotou o conceito de consumidor baseado no caráter econômico,
isto posto, consumidor é aquele que adquire bens e serviços como destinatário final,
com fins a atender necessidade própria e não para desenvolver atividades de
intermediário na cadeia negocial
54
.
Por ser a caracterização de destinatário final o elemento de maior
importância na definição de consumidor, devemos esclarecer quais os parâmetros
que permeiam tal conceito, no intuito de delimitar a quem as regras consumeristas

52
3lLvA, 0e P|ác|do e. vocaou|ar|o ¡urio|co. R|o de Jare|ro, RJ: Forerse, 1998, p210.
53
FlL0VEN0, José 0era|do 8r|lo. 0oo|go oe oelesa oo consum|oor. comenraoo µe|os aurores oo anreµro¡ero. R|o de
Jare|ro: Forerse ur|vers|lár|a, 2001, p. 28
51
FlL0VEN0, José 0era|do 8r|lo. 0oo|go oe oelesa oo consum|oor. comenraoo µe|os aurores oo anreµro¡ero.. R|o de
Jare|ro: Forerse ur|vers|lár|a, 2001, p. 2ê-2Z.

30
visam proteger. Há duas correntes sobre o tema: a dos finalistas e a dos
maximalistas
55
.
A corrente finalista defende que destinatário final é o fático e econômico do
bem, que poderá ser pessoa física ou jurídica; destacado que não basta retirar o
produto da cadeia produtiva, mas sim não adquiri-lo com fins de revenda ou uso
profissional. Tal posição evoluiu com o entendimento de dever ser adotada posição
mais branda na interpretação, pois, tendo em vista que se deve enfocar a
vulnerabilidade do adquirente, a corrente defende estarem enquadrados nesta
posição as pequenas empresas e os profissionais liberais
56
.
Já os maximalistas entendem que as normas se voltam para a sociedade de
consumo com a função de protegê-la, desta forma a definição do artigo 2º da Lei nº
8.078/90 deverá ser interpretada da forma mais extensa possível, entendendido
como destinatário final, o fático
57
.
Toda relação de consumo envolve basicamente duas partes bem definidas:
de um lado, o adquirente de um produto ou serviço, denominado consumidor; e, de
outro, o fornecedor aquele que disponibiliza produtos e/ou serviços. Tal relação está
baseada na satisfação das vontades humanas, e vem a gerar produção, circulação
de mercadorias e riqueza.
Com enfoque no outro pólo da relação de consumo, onde se encontra o
fornecedor que, vislumbramos a definição do Código de Defesa do Consumidor,
artigo 3
o
: "é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou
estrangeira, bem como os entes despersonalizados, que desenvolvem atividades de
produção, montagem, criação, construção, transformação, importação, exportação,
distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços".

55
VAR0uE3, C|áud|a L|ra. 0onrraros no coo|go oe oelesa oo consum|oor, vo| l, Rev|sla dos Tr|oura|s, 2002, pp-252-2ê3.

VAR0uE3, C|áud|a L|ra. 0onrraros no coo|go oe oelesa oo consum|oor, vo| l, Rev|sla dos Tr|oura|s, 2002, pp-252-2ê3.
5Z
VAR0uE3, C|áud|a L|ra. 0onrraros no coo|go oe oelesa oo consum|oor, vo| l, Rev|sla dos Tr|oura|s, 2002, pp-252-2ê3.

31
Tal definição demonstra que o legislador pretendeu dar amplitude máxima
ao conceito de fornecedor, considerado, em tal condição, todo aquele que provisione
o mercado de consumo de produtos ou serviços, independentemente do objetivo
58
.
O lucro em tal fornecimento não precisa ser direto, pode estar expresso por
meio de atitudes proporcionadoras de ganhos futuros ou geradoras de outras
atividades em função das quais será auferido. Havemos de ressaltar que o elemento
caracterizador da qualidade de fornecedor é a remuneração, e não a
profissionalidade de quem o efetua, tal remuneração pode ser direta ou indireta,
pode inexistir a obrigação de pagamento, pois o pagamento é apenas uma das
formas de remuneração
59
.
Toda relação essencialmente jurídica pressupõe a existência de dois pólos
de interesses, no caso da relação de consumo: o consumidor e o fornecedor; e um
terceiro elemento a “coisa”, no caso produtos e serviços, objeto de interesse das
partes. Há de se destacar ainda que na relação de consumo há um quarto elemento
caracterizador do tipo: a finalidade.
O Código de Defesa do Consumidor conceitua produto no §1º de seu artigo
3º como qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial
60
. Assim, para fins do
Código, produto é qualquer objeto de interesse em uma relação de consumo,
destinado a satisfazer necessidade do adquirente como destinatário final. São bens
móveis ou imóveis, materiais ou imateriais, e melhor teria definido o CDC se
houvesse feito referência a bens ao invés de produtos, como objeto da relação de
consumo, por ter o primeiro termo maior abrangência que o segundo
61
.
Serviços, por sua vez, são atividades, benefícios ou satisfações que são
oferecidos à venda, conceituados no CDC como qualquer atividade fornecida no
mercado de consumo, mediante remuneração, inclusive as de natureza bancária,

58
TRuJlLL0, E|c|o. A oelesa oo consum|oor, a re|açáo conrrarua| oancar|a e o emµresar|o l|nance|ro |r
rllp://WWW.oo|el|rjur|d|co.cor.or/doulr|ra/lexlo.asp?|d=123 er 11.01.2009 21:52..
59
0LlvElRA, Ce|so Varce|o de. 0oo|go oe oelesa oo c||enre oancar|o. Carp|ras: LZN, 2002, pp. 13-52
ê0
R03A, Jos|rar 3arlos. Re|açóes oe consumo. 3ao Pau|o, Ed|lora Al|as, 1995, pp. 23-29.
ê1
FlL0VEN0, José 0era|do 8r|lo. 0oo|go oe oelesa oo consum|oor. comenraoo µe|os aurores oo anreµro¡ero. R|o de
Jare|ro: Forerse ur|vers|lár|a, 2001, p. 12.

32
financeira, de crédito e securitária, salvo as decorrentes das relações de caráter
trabalhista
62
.
2.2. Fundamentos
Numa relação contratual há de ser respeitar as peculiaridades de cada parte.
Quando se trata de relação de consumo as discrepâncias são mais acentuadas. O
consumidor é notoriamente a parte mais fraca da relação, dada a posição de
vulnerabilidade que ocupa. Desta forma, a ele é disponibilizada tutela especial por
meio do Estado
63
.
Tal assertiva justifica-se pelo fato de que para satisfação de suas
necessidades, o consumidor submete-se ao poder dos titulares dos meios de
produção. Os fornecedores discordam de tal fundamento, rebatem a assertiva, com
o entendimento de que, em tempos atuais, não mais ditam as normas do mercado,
pois a concorrência e o esclarecimento por parte dos consumidores, além da
proteção por parte do Estado reverteram a situação de outrora; os detentores do
capital pulverizado, ou seja, os demandantes de produtos e serviços, seriam os
verdadeiros condutores dos moldes das relações de consumo, pois adquirem se
quiserem, quando, como e na quantidade que quiserem.
Isto não traduz a realidade, de fato a vulnerabilidade e a hipossuficiência dos
consumidores foram reconhecidas em âmbito internacional, por meio de Resolução
da ONU
64
, refletida no texto da Magna Carta de 1988, inciso XXXII, artigo 5º
65
, onde
o constituinte assegurou que o Estado promoverá a defesa do consumidor.
Tal vulnerabilidade tem sido explorada através das estratégias de marketing,
as quais estão baseadas na exploração das necessidades existentes, explicitadas
na antiga, mas ainda atual, teoria da hierarquia das necessidades de Maslow
66
. No

ê2
FlL0VEN0, José 0era|do 8r|lo. Vanua| oe o|re|ros oo consum|oor. 3ao Pau|o, Al|as, 2001, p 53
ê3
ALVEl0A, Joao 8al|sla de. A µroreçáo ¡urio|ca oo consum|oor. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2002, p 22.
ê1
Trala-se da Reso|uçao r 39/21Z8, de 10 de aor|| de 1985, das Naçoes ur|das, soore Proleçao ao Corsur|dor, adolada
pe|a Assero|é|a 0era|, ra 39³ 3eçao.
ê5
'Arl|go 5º, XXXll. 0 Eslado proroverá, ra lorra da |e|, a delesa do corsur|dor.¨ Corsl|lu|çao Federa| 1988
êê
Aorarar l Vas|oW (1908-19Z0), doulr|rador ra área da ps|co|og|a, pa| da leor|a da rol|vaçao, aulor da larosa e
serpre alua| p|ràr|de das recess|dades calegor|zou as recess|dades ruraras segu|rdo ura r|erarqu|a, poslu|ardo que
as recess|dades sorerle sao rol|vadoras quardo |rsal|sle|las, desla lorra as pessoas eslar|ar corpe||das ao corsuro
sorerle se er order r|erárqu|ca suas recess|dades esl|vesser alerd|das, segu|rdo a orderaçao a segu|r:

33
entanto, mais do que atender a uma necessidade, as estratégias e produtos atuais
tendem a desencadear necessidades de novas aquisições, por meio da busca não
só da satisfação do cliente, de suas necessidades e desejos, mas de sua superação.
Para que tais práticas não sensibilizem significativamente o público
consumidor, e o deixem à mercê do marketing selvagem, o Estado atua no cenário
como regulador da situação, com a função de mantenedor do equilíbrio das relações
contratuais consumeristas. Tal papel é fruto de evolução histórica, conforme já
tratado neste breve ensaio; onde destacamos que o Estado passou do status de
mero espectador, onde sua intervenção era a mínima possível, para a posição de
regulador na qual estabelece que, em primeiro lugar, devem ser respeitados
interesses coletivos e difusos, e o interesse particular deve ocupar segundo plano
67
.
Respeitado tal enfoque, se conclui que os interesses decorrentes das
relações de consumo não se limitam às partes contratantes, seus efeitos superam
tais barreiras, são fruto dos interesses da comunidade, classificam-se assim, como
interesses difusos ou coletivos, tutelados pela Constituição Federal de 1988 e pelo
Código de Defesa do Consumidor entre outros diplomas legais
68
.
Vale a pena esclarecer a distinção entre interesses coletivos e difusos:
interesses coletivos são interesses afetos a vários sujeitos não considerados
individualmente, mas sim por sua qualidade de membros de comunidades, enquanto
interesses difusos não estão ligados a determinada comunidade ou associação e
alcançam, desta forma, uma cadeia abstrata de pessoas
69
.
O somatório dos enfoques, ora descritos, resulta na busca pelo equilíbrio,
pois se há reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor nas relações de
consumo, do que resulta a intervenção estatal, observa-se que o interesse não é

recess|dades l|s|o|óg|cas;
recess|dades de segurarça;
recess|dades de propr|edade e aror ou soc|a|s;
recess|dades de alelo ou recorrec|rerlo;
recess|dades de aulo-rea||zaçao.
lAN0Y, Crar|es 8. 0omo comµreenoer as organ|zaçóes. 1³ ed. R|o de Jare|ro: Zarar Ed|lores, 1988, p 30-31.
êZ
N0vAl3, A||re Arquelle Le|le. A reor|a conrrarua| e o novo coo|go oe oelesa oo consum|oor. 3ao Pau|o: Rev|sla dos
Tr|oura|s, 2001, p. 85-89.
ê8
80NATT0, C|áud|o e V0RAE3, Pau|o va|ér|o 0a| Pa|. Duesróes conrroverr|oas no coo|go oe oelesa oo consum|oor.
Porlo A|egre: Ed|lora ||vrar|a do Advogado, 1999, p 150-152.

34
apenas particular, mas sim coletivo e até mesmo difuso como acima considerado.
Assim, pode-se dizer que o final último é o alcance do equilíbrio da relação de forma
a garantir o fornecimento de bens e serviços por parte dos produtores e prestadores
de serviços e atender as necessidades verdadeiramente geradas pelo mercado
consumidor
70
.
Assim, cabe ressaltar que a atuação estatal é no sentido de conciliar as
partes, consumidor/fornecedor, tendo em vista a importância da manutenção de tal
relação, pois é fonte geradora de produção, circulação de mercadorias e
conseqüentemente riquezas
71
.
2.3. Princípios
A política nacional das relações de consumo visa harmonizar as relações de
consumo, pois, de um lado se preocupa com o atendimento das necessidades
básicas do consumidor, de outro visa de forma igualitária, a existência de tais
relações fundadas na livre concorrência, livre mercado, tutela de marcas e patentes,
programas de qualidade e produtividade, de forma a igualar a relação
consumidor/fornecedor, e também consumidor/consumidor, fornecedor/fornecedor
72
.
Resultado da mitigação do princípio da autonomia privada como máxima
estabelecida no Estado Liberal surge a tutela do hipossuficiente como princípio
constante da nova teoria contratual, ou seja, àquele que se encontra em posição de
inferioridade na relação jurídica contratual será prestada tutela por parte do Estado.
Obedece ao princípio constitucional da igualdade entre as pessoas, consagrado no
artigo 5
o
. da Carta Constitucional de1988
73
.
Assim, a ordem proveniente da Carta Constitucional, artigo 5
o
, inciso
XXXII
74
, determina ao Estado promover a defesa do consumidor, o que foi o primeiro

ê9
ALVEl0A, Joao 8al|sla de. A µroreçáo ¡urio|ca oo consum|oor. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2002, p 29-33.
Z0
ALVEl0A, Joao 8al|sla de. A µroreçáo ¡urio|ca oo consum|oor. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2002, p 33.
Z1
FlL0VEN0, José 0era|do 8r|lo. 0oo|go oe oelesa oo consum|oor. comenraoo µe|os aurores oo anreµro¡ero. R|o de
Jare|ro: Forerse ur|vers|lár|a, 2001, p. ê0-ê2.
Z2
FlL0VEN0, José 0era|do 8r|lo. 0oo|go oe oelesa oo consum|oor. comenraoo µe|os aurores oo anreµro¡ero. R|o de
Jare|ro: Forerse ur|vers|lár|a, 2001, p. 53-51.
Z3
N0vAl3, A||re Arquelle Le|le. A reor|a conrrarua| e o novo coo|go oe oelesa oo consum|oor. 3ao Pau|o: Rev|sla dos
Tr|oura|s, 2001, p. êZ-Z1.
Z1
'Arl|go 5º, XXXll. 0 Eslado proroverá, ra lorra da |e|, a delesa do corsur|dor.¨ Corsl|lu|çao Federa| 1988

35
passo no sentido de consagrar em nosso ordenamento jurídico o princípio da tutela
do hipossuficiente.
Com efeito, ao se posicionar na defesa de uma das partes contratantes, a
economicamente mais fraca na relação contratual, o Estado interfere nas relações
contratuais por meio de atuação em determinada direção, qual seja a tutela do
hipossuficiente, limitação da liberdade de contratar e consideração do negócio
jurídico como instrumento de justiça social. Desta atitude, decorre uma
caracterização cada vez maior de posições políticas e filosóficas na teoria dos
contratos
75
.
Tal ação governamental estabeleceu-se como corolário do Estado Social,
com o objetivo de harmonização dos interesses dos consumidores e fornecedores,
pois o processo produtivo gera riqueza, trabalho, estabilidade econômica para o
país; de forma a incrementar o consumo e suprir as necessidades do mercado
consumidor.
Efetivamente a intervenção estatal se dá através de instrumentos como
educação e informação, controle da qualidade e mecanismos de atendimento pelas
próprias empresas, resolução de conflitos de consumo, coibição e repressão de
abusos no mercado, racionalização e melhoria dos serviços públicos e estudo das
modificações de mercado
76
.
Especificamente na área de contratos, o Código de Defesa do Consumidor
estabeleceu princípios básicos a serem seguidos, abaixo relacionados de forma
resumida. Vejamos:
a) Princípio da transparência: consta do artigo 4º, caput
77
, mas apresenta
reflexos em vários pontos do CDC, como no dever de informar quando da oferta
78
e

Z5
L080, Pau|o Lu|z Nello. Pr|nciµ|os soc|a|s oos conrraros no coo|go oe oelesa oo consum|oor e no novo coo|go c|v||, |r
Rev|sla de 0|re|lo do Corsur|dor, r° 12, Rev|sla dos Tr|oura|s, pp 190-192.

ALVEl0A, Joao 8al|sla de. A µroreçáo ¡urio|ca oo consum|oor. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2002, p 1ê-20
ZZ
'Arl|go 1º. A Po|il|ca Nac|ora| das re|açoes de Corsuro ler por oojel|vo o alerd|rerlo das recess|dades dos
corsur|dores, o respe|lo a sua d|gr|dade, saude e segurarça, a proleçao de seus |rleresses ecoròr|cos, a re|ror|a da
qua||dade de v|da, oer coro a lrarsparèrc|a e rarror|a das re|açoes de corsuro, alerd|dos os segu|rles pr|rcip|os:¨ -
Le| rº 8.0Z8/90

36
elaboração do contrato
79
. Tal princípio consagra que o consumidor tem o direito à
informação sobre todos os aspectos do produto ou serviço que tem a intenção de
consumir e traduz desta forma o dever de informação por parte do fornecedor. Em
caso de omissão relevante para o consumidor, este poderá recorrer ao judiciário
visto ter sido lesado em seus direitos
80
.
Todos os termos dos contratos devem ser submetidos previamente aos
consumidores, destacadas, com clareza, as cláusulas que imponham
responsabilidades e penalidades aos consumidores. Os termos utilizados nos
contratos devem ser claros, especialmente em relação à taxa de juros, comissão de
permanência, prazo, multa por atraso de pagamento e quaisquer outros encargos. O
cliente tem o direito de receber, após assinado, uma cópia do contrato e
comprovante de todo e qualquer pagamento realizado.
b) Principio da boa-fé objetiva: O CDC exige que os agentes da relação de
consumo, fornecedor e consumidor, estejam predispostos a atuar com honestidade e
firmeza de propósito. A boa-fé objetiva traduz a necessidade de adequação das
condutas sociais a padrões aceitáveis de procedimento que não induzam a qualquer
resultado danoso para o indivíduo. Não cabe questionamento a respeito da
existência de culpa ou dolo, pois a relevância é para os aspectos de atitudes
comissivas ou omissivas que possam refletir na manifestação de vontade ou na
posterior execução das relações estabelecidas
81

c) Princípio da Publicidade: Ficam as instituições financeiras obrigadas a
cumprir todas as informações ou publicidades que veicularem por qualquer forma ou
meio de comunicação. As promessas feitas nessas publicidades devem constar dos
contratos que vierem a ser celebrados. Fica proibida de vez a utilização de
publicidade enganosa ou abusiva.

Z8
'Arl|go 30. Toda |rlorraçao ou puo||c|dade, sul|c|erlererle prec|sa, ve|cu|ada por qua|quer lorra dou re|o de
corur|caçao cor re|açao a produlos e serv|ços olerec|dos ou apreserlados, oor|ga o lorrecedor a que a l|zer ve|cu|ar ou
de|a se ul|||zar e |rlegra o corlralo que v|er a ser ce|eorado.¨ Le| rº 8.0Z8/90
Z9
'Arl|go 1ê. 0s corlalos que re|açoes de corsuro rao oor|garao os corsur|dores, se rao |res lor dada a oporlur|dade de
lorar correc|rerlo prév|o de seu corleudo, ou se os seus respecl|vos |rslrurerlos lorer red|g|dos de rodo a d|l|cu|lar a
corpreersao de seu serl|do e a|carce.¨ - Le| rº 8.0Z8/90
80
VARTlN3, P|ir|o Lacerda. D aouso nas re|açóes oe consumo e o µr|nciµ|o oa ooa-le, R|o de Jare|ro: Forerse. 2002, pp
101-105.

37
É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação capaz de
induzir ao erro, o cliente ou o usuário. É abusiva, dentre outras, a publicidade que
contenha discriminação de qualquer natureza ou que caracterize imposição ou
coerção. Ficam as instituições financeiras obrigadas a dar aos clientes e usuários
todas as informações necessárias relativas à publicidade que fez
82
.
d) Princípio da equidade: deve haver equilíbrio entre direitos e deveres dos
contratantes, como objetivo de alcançar a justiça contratual e impedir a onerosidade
excessiva de uma das partes. No caso de ocorrência de desequilíbrio entre as partes
aplica-se o brocardo “rebus sic standibus”, de forma a voltarem as partes ao estado
no qual foi firmada a obrigação, pois não basta a relação de consumo ser
estabelecida nos moldes do equilíbrio, zela o Estado por sua manutenção na mesma
equidade
83
.
e) Princípio da tutela do hipossuficiente: este princípio está baseado no texto
constitucional, artigo 5º, onde está garantido que todas as pessoas devem ter
tratamento igual sem discriminação. Tal princípio, de forma positiva, revela que a
sociedade está repleta de contrastes e desigualdades sociais e econômicas, não
havendo possibilidade de se considerar que as pessoas se encontram em situação
idêntica, no momento de celebração de um contrato. Baseado nestes elementos, o
Estado promove a defesa do consumidor, considerado a parte mais frágil nas
relações contratuais
84
. Tal está estabelecido em diversos dispositivos legais, dentre
eles no texto constitucional: artigo 5º, XXXII; artigo 24, VIII, artigo 170 § 5º
85
.

81
80NATT0, C|áud|o e V0RAE3, Pau|o va|ér|o 0a| Pa|. Duesróes conrroverr|oas no coo|go oe oelesa oo consum|oor.
Porlo A|egre: Ed|lora ||vrar|a do Advogado, 1999, p 150-152.
82
N0vAl3, A||re Arquelle Le|le. A reor|a conrrarua| e o novo coo|go oe oelesa oo consum|oor. 3ao Pau|o: Rev|sla dos
Tr|oura|s, 2001, p. 101.
83
NERY Jr, Ne|sor. 0oo|go oe oelesa oo consum|oor. comenraoo µe|os aurores oo anreµro¡ero. R|o de Jare|ro: Forerse
ur|vers|lár|a, 2001, p. 1Z9.
81
N0vAl3, A||re Arquelle Le|le. A reor|a conrrarua| e o novo coo|go oe oelesa oo consum|oor. 3ao Pau|o: Rev|sla dos
Tr|oura|s, 2001, p. 82-90
85
Arl|go 5º, XXXll. 0 Eslado proroverá, ra lorra da |e|, a delesa do corsur|dor.¨
'Arl|go 21. Corpele a ur|ao, aos Eslados e ao 0|slr|lo Federa| |eg|s|ar corcorrerlererle soore:
(...)
vlll - resporsao|||dade por daro ao re|o aro|erle, ao corsur|dor, a oers e d|re|los de va|or arlisl|co, eslél|co, r|slór|co,
lurisl|co e pa|sagisl|co.¨
'Arl|go 1Z0. A order ecoròr|ca, lurdada ra va|or|zaçao do lraoa|ro ruraro e ra ||vre |r|c|al|va, ler por l|r assegurar a
lodos ex|slèrc|a d|gra, , corlorre os d|lares da jusl|ça soc|a|, ooservados os segu|rles pr|rcip|os:
(...)
v - delesa do corsur|dor¨

38
e) Princípio do dirigismo contratual público: resultado da evolução do Estado
Liberal para o Estado Social, o dirigismo contratual surgiu da necessidade de
garantir a igualdade nas relações contratuais, após conclui-se que a plena liberdade
de contratar não era suficiente para garantir a justiça contratual
86
.
Percebeu-se que a igualdade econômica estava comprometida com a
prática sem controle da liberdade política, o que obsta a efetivação da almejada
justiça social, caracterizada ilusória a concepção de igualdade de condições dos
contratantes. Por outro lado, observou-se que as circunstâncias imprevistas e
estranhas à vontade das partes, tais como inflação e variação do câmbio, por
exemplo, interferiam na oportunidade da execução dos contratos, modificando as
bases em que inicialmente foram firmados – teoria da imprevisão
87
.
Contemporaneamente, a força estatal em decorrência da modificação dos
valores sociais manifesta-se tanto na formação do contrato, através da imposição de
certas cláusulas, mesmo contra a vontade das partes, quanto na supervisão da
execução, por meio de disponibilização ao judiciário de instrumentos capazes de
restabelecer o almejado equilíbrio contratual.
2.4. O Contrato de Adesão
Em virtude do desenvolvimento das relações comerciais, da produção em
escala de bens, bem como do fornecimento de serviços para o público em geral,
surgiu a necessidade de uniformização na contratação de bens e serviços. O que
resultou em contratos compostos por cláusulas gerais, predefinidas pela parte
contratada com o intuito de vender seus produtos ou prestar seus serviços em
escala a consumidores indeterminados
88
.
O contrato de adesão é instrumento amplamente adotado nas relações de
consumo. A análise da denominação deste tipo contratual leva à conclusão de que,
o contrato de adesão deveria se chamar contrato por adesão, assim entendido

Corsl|lu|çao Federa| 1988

N0vAl3, A||re Arquelle Le|le. A reor|a conrrarua| e o novo coo|go oe oelesa oo consum|oor. 3ao Pau|o: Rev|sla dos
Tr|oura|s, 2001, p. 91.
8Z
00NNlNl, Rogér|o Ferraz. A rev|sáo oos conrraros no coo|go c|v||. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1999. p 3-9.
88
8lTTAR, Car|os A|oerlo. Ds conrraros oe aoesáo e o conrro|e oe c|ausu|as aous|vas. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1991, p 59.

39
“...aquele que não resulta do livre debate entre as partes, mas provém do fato de
uma delas aceitar tacitamente as cláusulas e condições previamente estabelecidas
pela outra
89
.”
De forma semelhante, pode-se tratar contrato de adesão como aquele no
qual uma das partes tem que aceitar, em bloco, as cláusulas estabelecidas pela
outra. Resulta em uma situação contratual que se encontra definida em todos os
seus termos e é concretizada pela adesão, a totalidade das disposições está pré-
determinada, e a relação contratual é firmada através da simples anuência do
consumidor
90
.
Quanto à natureza jurídica do contrato de adesão, temos duas teorias: a
anticontratualista e a contratualista. A primeira diz que é um negócio jurídico
unilateral, com base justamente na inexistência de liberdade contratual, as cláusulas
são impostas por uma das partes, já a segunda afirma que a natureza jurídica é
contratual, por sua manifestação de vontade, esta é a teoria dominante na doutrina e
nos tribunais.
A escola anticontratualista desenvolveu-se principalmente na Alemanha, e
entende que o contrato de adesão não é detentor de natureza contratual, baseados
os argumentos em dois fatores: a falta de discussão de preliminares entre as partes,
e a forma abstrata das cláusulas, que se assemelha a uma lei
91
.
De acordo com a segunda corrente, ora exposta, é incontestável a
participação do aderente, indiscutível é então que se trata de contrato bilateral,
apesar de na realidade o aderente pouco ou nada influenciar na elaboração do
conteúdo normativo
92
.
O contrato de adesão não admite negociações preliminares entre as partes,
nem modificação das cláusulas pré-estabelecidas, é um contrato de massa. No

89
PERElRA, Ca|o Vár|o da 3||va. lnsr|ru|çóes oe o|re|ro c|v|| - 0onrraros, vo|. lll. R|o de Jare|ro: Forerse, 1989, p 120.
90
00VE3, 0r|ardo. 0onrraros. R|o de Jare|ro: Forerse, 1998, p. 109-119.
91
R03A, Jos|rar 3arlos. Re|açóes oe consumo. 3ao Pau|o, Ed|lora Al|as, 1995, pp. 28.
92
8lTTAR, Car|os A|oerlo. Ds conrraros oe aoesáo e o conrro|e oe c|ausu|as aous|vas. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1991, p ê1.

40
entanto, cabe ao consumidor contratar ou não, onde está estabelecida sua
manifestação de vontade
93
.
Conforme leciona Orlando Gomes, o contrato de adesão tem três traços
característicos fundamentais: a uniformidade, a predeterminação e a rigidez. A
uniformidade é conseqüência da massificação contratual, onde não há espaço para
discussão das cláusulas contratuais, de forma particularizada. A predeterminação
reflete o pré-estabelecimento, por uma das partes, das cláusulas dos contratos a
serem firmados em série. Quanto à rigidez, é o desdobramento de outras
características, vez que as cláusulas são rígidas porque devem uniformes e estão
pré-estabelecidas
94
.
Quanto à praticidade, como já salientado, o contrato de adesão é muito
utilizado, haja vista a sociedade capitalista crescente. A padronização de tratamento
dado à relação contratual em aspectos jurídicos e administrativos, a pormenorização
no que tange à forma de cumprimento das obrigações recíprocas e a diminuição dos
custos operacionais são, dentre outras, vantagens para a contratação de massa
95
.
A Lei nº 8078/90, artigo 54, traz: “Contrato de adesão é aquele cujas
cláusulas tenham sido aprovadas pela autoridade competente ou estabelecidas
unilateralmente pelo fornecedor de produtos ou serviços, sem que o consumidor
possa discutir ou modificar substancialmente seu conteúdo.”
Ocorre que, com o decorrer do tempo foram vislumbradas muitas
arbitrariedades por parte de quem faz o contrato, através da inclusão de cláusulas
abusivas, que podem lesar o consumidor. Já na sua forma, verifica-se que este
contrato era impresso em letras minúsculas, o que dificultava a compreensão por
parte do consumidor
96
.

93
N0vAl3, A||re Arquelle Le|le. A reor|a conrrarua| e o novo coo|go oe oelesa oo consum|oor. 3ao Pau|o: Rev|sla dos
Tr|oura|s, 2001, p. 101.
91
00VE3, 0r|ardo. 0onrraros. R|o de Jare|ro: Forerse, 1998, p. 118-119.
95
8lTTAR, Car|os A|oerlo. Ds conrraros oe aoesáo e o conrro|e oe c|ausu|as aous|vas. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1991, p 59.

8lTTAR, Car|os A|oerlo. Ds conrraros oe aoesáo e o conrro|e oe c|ausu|as aous|vas. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1991, p Z2.

41
Em tal sentido também está disposto no artigo 54 § 4º
97
que toda estipulação
que implicar qualquer limitação de direito do consumidor ou indicar desvantagem ao
aderente, deverá ser destacada do ponto de vista físico, no contrato de adesão, em
nome da boa-fé. Tal poderá ser efetivado de qualquer forma que chame a atenção
do contratante, grifo, caracteres em tamanho maior ou negrito, são algumas das
possibilidades
98
.
Nesta direção, a Lei nº 11.785/08, recentemente, promoveu alteração no
artigo 54, §3º do CDC com o objetivo de ampliar a proteção ao consumidor,
especificamente, contra abusos praticados pelo fornecedor de produto ou serviço na
confecção de formulários impressos utilizados para a celebração de contratos de
adesão. Vejamos:
Art. 54. Contrato de adesão é aquele cujas cláusulas tenham sido
aprovadas pela autoridade competente ou estabelecidas unilateralmente pelo
fornecedor de produtos ou serviços, sem que o consumidor possa discutir ou
modificar substancialmente seu conteúdo.
(...)
§ 3º Os contratos de adesão escritos serão redigidos em termos
claros e com caracteres ostensivos e legíveis, cujo tamanho da fonte não será
inferior ao corpo doze, de modo a facilitar sua compreensão pelo consumidor.
(Redação dada pela nº 11.785, de 2.008)
Em síntese, concluímos que o contrato de adesão é o instrumento pelo qual
o fornecedor estipula regras unilateralmente, e resta ao consumidor somente o ato
de apor sua assinatura, e manifestar, desta forma, sua concordância. Tem-se como
vantagem a rapidez para contratação, mas por outro lado prepondera aspecto
negativo, pois há margem para o cometimento de abusos, por parte do fornecedor é
sensivelmente alargada.

9Z
'Arl|go51, Ç 1º As c|áusu|as que |rp||carer ||r|laçao de d|re|lo do corsur|dor deverao ser red|g|as cor deslaque,
perr|l|rdo sua |red|ala e lác|| corpreersao.¨ Le| rº 8.0Z8/90
98
NERY Jr, Ne|sor. 0oo|go oe oelesa oo consum|oor. comenraoo µe|os aurores oo anreµro¡ero.. R|o de Jare|ro: Forerse
ur|vers|lár|a, 2001, p. 5ê9-5Z0.

42

CAPÍTULO 3
DIREITO BANCÁRIO
3.1. Noções
Direito bancário é ramo do direito comercial, inserido no tronco do direito
privado, pelas características das partes que regula, mas, que por outro lado tem
forte conotação púbica, devido à sua repercussão no interesse coletivo, do exercício
da atividade bancária, que atualmente se encontra sob controle estatal
99
.
O Estado mantém hoje órgãos encarregados de formular a política da
moeda e do crédito, com objetivo de proporcionar o progresso econômico e social do
País
100
.
Desta forma, o direito bancário está submetido às normas de direito privado
e, também, às normas do direito público, representado pelo direito econômico. Tal
conjunto de regras diz respeito às operações de banco e a quem as pratica de modo
reiterado ou eventual, dentro de um plano de prestação de serviços
101
.
Como as operações efetuadas pelas instituições bancárias são processadas
em massa, em série, ou seja, têm público geral, tais atividades revestem-se de
tecnicismo, mecanicidade, formalismo e repetitividade, o que atribui ao direito
bancário, características de direito técnico
102
.
Assim, direito bancário é ramo do direito comercial que regula as operações
de bancos e a atividade daqueles que a praticam em caráter profissional. Banco, por

99
A8RA0, Ne|sor. 0|re|ro oancar|o. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2000, p 01
100
A8RA0, Ne|sor. 0|re|ro oancar|o. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2000, p 02
101
A8RA0, Ne|sor. 0|re|ro oancar|o. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2000, p 02
102
A8RA0, Ne|sor. 0|re|ro oancar|o. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2000, p 02

43
sua vez, é espécie do gênero instituição financeira, definida na Lei nº 4595/64, artigo
17, como pessoa jurídica pública ou privada, que tenha como atividade principal:
coleta, intermediação ou aplicação de recursos financeiros próprios ou de terceiros,
em moeda nacional ou estrangeira, e a custódia de valores de propriedade de
terceiros. Os bancos distinguem-se das demais instituições do mesmo gênero pela
capacidade de criação de moeda escritural, é a instituição que, com fundos próprios
ou de terceiros, faz da negociação de créditos sua principal atividade
103
.
A profissionalidade inerente às atividades bancárias requer regulamentação
eficaz, uma vez que a descoberta tardia de eventuais irregularidades após longos
anos da respectiva ocorrência, configura situação, no mais das vezes, insanável,
fere o mercado e a confiabilidade do consumidor no segmento, e conseqüentemente
abala a liquidez financeira dos bancos
104
.
Por regulamentar, fundamentalmente, a atividade praticada pelos bancos, o
direito bancário tem sua maior importância no que concerne aos reflexos que tal
atividade gera na comunidade sócio-econômica. Os bancos desempenham papel
primordial de intermediários nos pagamentos, agem como sujeitos das operações e
contratos que realizam, procuram obter capital disponível para aplicação, em seu
próprio nome, com o objetivo final, de geração de lucro
105
.
No entanto tal situação está em evolução, o Direito Bancário ampliou sua
área de atuação primeiramente resumida à atividade-fim das instituições financeiras:
a captação de recursos com objetivo, sempre, de lucro. Em tal situação, os contratos
de adesão são a principal modalidade contratual oferecida ao tomador de recursos
bancários para o suprimento de sua necessidade de crédito, em que pesem
estipularem vantagens, no mais das vezes, apenas para os bancos
106
.
A situação é agravada pelo fato de que a especificidade do assunto impõe
dificultadores na negociação, pois o cliente bancário não é conhecedor das
peculiaridades das operações deste leque, tais operações possuem linguagem e
desencadeamento particulares e de difícil entendimento. O pressuposto para uma

103
A8RA0, Ne|sor. 0|re|ro oancar|o. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2000, p 02.
101
A8RA0, Ne|sor. 0|re|ro oancar|o. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2000, p 05.
105
A8RA0, Ne|sor. 0|re|ro oancar|o. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2000, p 0Z.

44
negociação igualitária é o conhecimento do objeto da relação, como o cliente poderá
negociar algo que lhe é desconhecido? Cláusulas que tratam de amortização,
capitalização, garantias, são contratadas sem o menor conhecimento por parte do
contratante, que para seu entendimento haveria de ter um mínimo conhecimento de
matemática financeira e de mercado financeiro de forma a possibilitar a apreciação
daquilo que se pretende contratar.
3.2. Origem Histórica
A partir do Século VI a.C., na Babilônia, Egito e Fenícia, o empréstimo em
dinheiro já era realizado com freqüência, desta forma certas práticas bancárias já
eram conhecidas. Foi, porém, no mundo greco-romanas, que as operações, hoje em
uso no banco moderno, se tornaram conhecidas. A exemplo, aceitação de depósitos
de moeda e valores; concessão de empréstimos a juros, garantidos ou a descoberto;
interporsição nos pagamentos também sobre praças distantes; etc
107
.
Conforme explana Nelson Abrão
108
, “embora tais operações não fossem
praticadas em série, devido às condições econômicas de um mundo no qual a
poupança decorria dos investimentos dos proprietários de terras e modesto era o
porte industrial, tendo sido os templos dos deuses o verdadeiro berço das operações
bancárias, como o atestam os negócios em Delos, Delfos e Ártemis”.
Na Grécia, tais atividades foram inerentes aos denominados “trapezistas” e
em Roma aos “argentarii”, os quais angariaram fortunas e se tornaram árbitros na
circulação de valores monetários, por meio de execução das funções de trocadores,
depositários e emprestadores de moeda
109
.
Na Idade Média, com o florescimento do comércio, surgiu a figura dos
“campsores” ou “cambiatores”, que praticavam primeiramente a troca manual de
moedas. Com o aperfeiçoamento de suas atividades, evolui-se da simples troca de

10ê
A8RA0, Ne|sor. 0|re|ro oancar|o. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2000, p 08.
10Z
A8RA0, Ne|sor. 0|re|ro oancar|o. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2000, p 10.
108
A8RA0, Ne|sor. 0|re|ro oancar|o. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2000, p 10-12
109
A8RA0, Ne|sor. 0|re|ro oancar|o. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2000, p 10.

45
moedas para a troca creditícia propriamente dita, e a figura passou a ser
denominada como banqueiro
110
.
Na Itália, também foi marcante o papel desempenhado pelos “montes”, que
eram instituições encarregadas do recebimento de contribuições compulsórias em
favor de órgãos públicos – os empréstimos forçados, que os reaplicavam com juros,
e resultavam assim em efeito multiplicador sobre as quantias arrecadadas. A mais
antiga delas foi o Banco de Veneza, fundado no ano de 1.171 funcionou até 1797.
Outra atuação importante foi a dos templários, que financiavam as Cruzadas e a da
Casa di San Giorgio, fundada em Gênova, em 1408, que se constituiu na primeira
sociedade anônima conhecida
111
.
Tais experiências, somadas à formação de capitais e articulações do mundo
medieval, firmaram as raízes mais propícias ao surgimento das grandes instituições
que se desenvolveram na técnica de constituição de empresas, com atuação em
áreas locais em um primeiro momento e a sua ampliação parte da Revolução
Industrial
112
.
Com a descoberta de novos territórios através das expedições marítimas, e
a conseqüente intensificação do tráfico mercantil, a multiplicação das feiras, a
abundância de metais preciosos e o aumento da demanda por crédito a função dos
bancos foi alterada de mera cobrança, pagamento e câmbio para intermediação do
crédito, já com características do banco moderno, cuja função essencial é tomar a
crédito os depósitos efetuados pelos poupadores e distribuí-los aos investidores.
Ocorreu então a multiplicação das instituições bancárias na Itália, França e
Alemanha
113
.
O pleno desenvolvimento dos bancos se deu no Século XIX com o advento
da Revolução Industrial, que consolidou o capitalismo liberal marcado pelo

110
0eror|raçao que surg|u ro sécu|o Xll, e que depo|s se corlurd|u cor os grardes rercadores lerdo la|s rores
perrarec|do ra r|slór|a.
111
A8RA0, Ne|sor. 0|re|ro oancar|o. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2000, p 10
112
A8RA0, Ne|sor. 0|re|ro oancar|o. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2000, p 10
113
A8RA0, Ne|sor. 0|re|ro oancar|o. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2000, p 11

46
aparecimento de grandes banqueiros e pela extensão de seus serviços ao nível
internacional
114
.
O Direito Bancário é ainda pouco explorado pelos profissionais que atuam
no judiciário brasileiro, diferentemente da Europa e Estados Unidos. A evolução do
direito bancário é notória no campo contratual. Nos últimos anos, constatou-se a
prevalência dos direitos dos consumidores, que, de forma ordenada, vêm
conseguindo reverter ou reduzir os abusos constantes a que eram submetidos.
É o resultado de uma atuação estratégica da sociedade organizada, que
passou a reclamar seus direitos, inicialmente nos PROCON’s, posteriormente nas
instâncias iniciais das Justiças Estaduais e Federal, de modo a formar opinião com
base em decisões proferidas nos processos judiciais em todas as instâncias, e apoio
da imprensa.
3.4. Sistema Financeiro Nacional
Ao conceituar Sistema Financeiro Nacional podemos objetivamente dizer
que é o conjunto de instituições e instrumentos financeiros que possibilitam a
transferência de recursos dos ofertadores para os tomadores proporcionando, desta
forma, liquidez no mercado.
115

O Sistema Financeiro Nacional está baseado na necessidade de
organização dos intermediários financeiros que efetuam a intermediação entre
agentes econômicos que têm renda superior a seu consumo – os poupadores - e
aqueles que estão na situação inversa, os chamados investidores. Tal necessidade
decorre do fato da inexistência de coincidência das expectativas de ambas as
partes, no que tange a valor, prazos e garantias. Desta forma, os intermediários
financeiros se interpõem entre poupadores e investidores, e efetivam transformações
quanto ao volume monetário, prazo e risco, de acordo com as necessidades das
partes
116
.

111
A8RA0, Ne|sor. 0|re|ro oancar|o. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2000, p 11
115
vAL0RE3, Cor|ssao Nac|ora| da 8o|sa de, lnrroouçáo ao mercaoo oe açóes.R|o de Jare|ro RJ, CN8v, pp-30-31
11ê
3ANT03, José Evar|slo. Vercaoo l|nance|ro oras||e|ro. 3ao Pau|o: Al|as, 1999, pp. 22-23

47
O texto constitucional de 1988, artigo 22
117
, retrata inicialmente que compete
privativamente à União legislar sobre: sistema monetário (inc. VI); política de crédito,
câmbio, seguros e transferência de valores (inc. VII); sistema de poupança,
captação, e garantia da poupança popular (inc. XIX).
O artigo 48, por sua vez, caput e no inc.XVIII estabelece que cabe ao
Congresso Nacional, com a sanção do Presidente da República, não exigida esta
para o especificado nos artigos. 49, 51 e 52, dispor sobre todas as matérias de
competência da União, especialmente sobre: matéria financeira, cambial e
monetária, instituições financeiras e suas operações.
Constitucionalmente estão regulamentados dois sistemas financeiros: o
público que envolve questões referentes aos problemas das finanças e orçamentos
públicos relacionados nos artigos 163 a 169 do mencionado texto e o parapúblico,
denominado Sistema Financeiro Nacional, artigo 192, que envolve, por sua vez, as
instituições financeiras creditícias, públicas ou privadas, de seguro, previdência
privada e capitalização.
118

As atribuições do Sistema Financeiro Nacional, com enfoque em sua
estrutura formada com o intuito de promover o desenvolvimento equilibrado do país
e de servir aos interesses da coletividade
119
, devem ser reguladas em lei
complementar, conforme artigo 192
120
.

11Z
Arl|go 22. Corpele pr|val|varerle a ur|ao, |eg|s|ar soore:
vl - s|slera rorelár|o e de red|das, lilu|os e gararl|as dos rela|s;
vll - po|il|ca de créd|lo, càro|o, seguros e lrarslerèrc|a de va|ores;
XlX - s|sleras de pouparça, caplaçao e gararl|a da pouparça popu|ar.
118
3lLvA, José Alorso da. 0urso oe o|re|ro consr|ruc|ona| µos|r|vo. 3ao Pau|o: Va|re|ros, 1999, pp.Z98-Z99.
119
V0RAE3, A|exardre de. 0|re|ro consr|ruc|ona|. 3ao Pau|o: Al|as, 1999, p-599.
120
'- aulor|zaçao para o lurc|orarerlo das |rsl|lu|çoes l|rarce|ras, assegurardo as |rsl|lu|çoes oarcár|as ol|c|a|s e
pr|vadas acesso a lodos os |rslrurerlos do rercado l|rarce|ro oarcár|o, serdo vedada a essas |rsl|lu|çoes a parl|c|paçao
er al|v|dades rao prev|slas ra aulor|zaçao a e|as corced|da;
- aulor|zaçao e lurc|orarerlo dos eslaoe|ec|rerlos de seguro, prev|dèrc|a e cap|la||zaçao, oer coro do órgao
ol|c|a| l|sca||zador e do órgao ol|c|a| ressegurador;
- a aulor|zaçao reler|da, ros do|s |lers arler|ores, será |regoc|áve| e |rlrarslerive|, perr|l|da a lrarsr|ssao do
corlro|e da pessoa jurid|ca l|lu|ar e corced|da ser òrus, ra lorra da |e| do 3|slera F|rarce|ro Nac|ora|, a
pessoa jurid|ca cujos d|relores lerrar capac|dade lécr|ca e repulaçao |||oada e que corprove capac|dade
ecoròr|ca corpalive| cor o erpreerd|rerlo;
- as cord|çoes para a parl|c|paçao do cap|la| eslrarge|ro ras |rsl|lu|çoes a que se relerer os |lers arler|ores,
lerdo er v|sla espec|a|rerle os |rleresses rac|ora|s e os acordos |rlerrac|ora|s;
- a orgar|zaçao, o lurc|orarerlo e as alr|ou|çoes do 8arco Cerlra| e dera|s |rsl|lu|çoes l|rarce|ras puo||cas e
pr|vadas;os requ|s|los para a des|graçao de reroros da d|relor|a do 8arco Cerlra| e dera|s |rsl|lu|çoes
l|rarce|ras, oer coro seus |rped|rerlos após o exercic|o do cargo;

48
No âmbito da legislação infra-constitucional, por sua vez, as normas
regentes do Sistema Financeiro Nacional que têm maior relevância são as Leis nº
4.595/64, 4.728/65, 7.102 e 9.017. A Lei nº 4.728/65 disciplina o mercado de capitais
e estabelece medidas para seu desenvolvimento. As Leis nº 7.102/83 e 9.017/95
regem a segurança bancária
121
.
A Lei nº 4595/64, intitulada Lei da Reforma Bancária dispõe e organiza o
Sistema Financeiro Nacional, atribui ao Conselho Monetário Nacional a finalidade de
formular a política monetária e atribui ao Banco Central do Brasil o poder de baixar
Resoluções com efeito político e financeiro em relação às instituições financeiras,
dentre elas foi de importância relevante a de nº 2.878/01
122
,atualmente revogada
pela de nº 3.694/09.
Também é importante a apreciação da Lei nº 9.069/95 que criou o Plano
Real
123
, e as comissões consultivas
124
para a reorganização da economia e as

- a cr|açao de lurdo ou seguro, cor o oojel|vo de proleger a ecoror|a popu|ar, gararl|rdo créd|los, ap||caçoes e
depós|los alé delerr|rado va|or, vedada a parl|c|paçao de recursos da ur|ao;
- os cr|lér|os reslr|l|vos de pouparças de reg|oes cor rerda |rler|or a réd|a rac|ora| para oulras de ra|or
deservo|v|rerlo;
- o lurc|orarerlo das cooperal|vas de créd|lo e os requ|s|los para que possar ler cord|çoes de operac|ora||dade
e eslruluraçao própr|as das |rsl|lu|çoes l|rarce|ras;
- os recursos l|rarce|ros re|al|vos a prograras e projelos de caráler reg|ora|, de resporsao|||dade da ur|ao, serao
depos|lados er suas |rsl|lu|çoes reg|ora|s de créd|lo e por e|as ap||cados;
- as laxas de juros rea|s, re|as |rc|uidas cor|ssoes e qua|squer oulras rerureraçoes d|rela ou |rd|relarerle
reler|das á corcessao de créd|lo, rao poderao ser super|ores a 12º ao aro; a coorarça ac|ra desle ||r|le será
corce|luada coro cr|re de usura, pur|do, er loas as suas roda||dades, ros lerros que a |e| delerr|rar¨
Corsl|lu|çao Federa| 1988
121
0LlvElRA, Ce|so Varce|o de. 0oo|go oe oelesa oo c||enre oancar|o. Carp|ras: LZN, 2002. p-20
122
Reso|uçao rº 2.8Z8. 0|spoe soore proced|rerlos a serer ooservados pe|as |rsl|lu|çoes l|rarce|ras e dera|s |rsl|lu|çoes
aulor|zadas a lurc|orar pe|o 8arco Cerlra| do 8ras|| ra corlralaçao das operaçoes e ra preslaçao de serv|ços aos c||erles
e ao puo||co er gera|.
123
Le| rº 9.0ê9 de 29/0ê/1995 - 00u 30/0ê/1995. 0|spoes soore o P|aro Rea|, o 3|slera Vorelár|o Nac|ora|, eslaoe|ece
as regras e cord|çoes de er|ssao do rea| e os cr|lér|os para corversao das oor|gaçoes para o Rea|, e dá oulras
prov|dèrc|as.
121
Arl|go 11 Furc|orarao, laroér, jurlo ao Corse|ro Vorelár|o Nac|ora|, as segu|rles Cor|ssoes Corsu|l|vas:
l. de Norras e 0rgar|zaçao do 3|slera F|rarce|ro;
ll. de Vercado de va|ores Voo|||ár|os e de Fuluros;
lll. de Créd|lo Rura|;
lv. de Créd|lo lrduslr|a|;
v. de Créd|lo lao|lac|ora|, e para 3arearerlo e lrlra-Eslrulura uroara;
vl. de Erd|v|darerlo Puo||co;
vll. de Po|il|ca Vorelár|a e Caro|a|.

49
medidas provisórias
125
do Governo Federal que envolvem o Sistema Financeiro
Nacional.
A estrutura do Sistema Financeiro Nacional está dividida em um órgão
deliberativo, qual seja o Conselho Monetário Nacional, e os demais órgãos
desempenham função fiscalizadora nas diversas áreas de atuação, são eles: Banco
central do Brasil, Comissão de Valores Mobiliários, Superintendência de Seguros
Privados e a Secretaria de Previdência Complementar.
O CMN – Conselho Monetário Nacional é órgão superior, deliberativo, do
Sistema Financeiro Nacional. Foi criado pela Lei nº 4595/64 que estabelece sua
política de atuação. Esse diploma legal, com valor de lei complementar, confere ao
Conselho Monetário Nacional competência para “regular a constituição,
funcionamento e fiscalização dos que exercem atividades subordinadas a esta lei,
bem como a aplicação das penalidades previstas
126
”.
É um órgão de cúpula que, segundo as diretrizes estabelecidas pelo
Presidente da República, deve formular a política da moeda e do crédito. Ao CMN
não cabe nenhuma função executiva, vez que é órgão exclusivamente
deliberativo.
127

A fiscalização no Sistema Financeiro é efetuada através dos seguintes
órgãos: Banco Central do Brasil - BACEN; Comissão de Valores Mobiliários - CVM;
Superintendência de Seguros Privados - SUSEP; Secretaria de Previdência
Complementar - SPC
128
. Sobre os quais estão dispostas as noções gerais a seguir.
O BACEN foi criado pela Lei nº 4.595/64, é órgão central regulador
fiscalizador das instituições financeiras, administrado por uma Diretoria Colegiada,
composto de até nove membros, um dos quais o Presidente. A Diretoria é nomeada
pelo presidente da República, com aprovação pelo Senado Federal, por voto secreto

125
Ved|da Prov|sór|a rº 1.ê01-38 de 22/10/1998 - 00u 23/10/1998. 0|spoes soore red|das de lorla|ec|rerlo do 3|slera
F|rarce|ro Nac|ora|.
Ved|da Prov|sór|a rº 1.925-9 de 2ê/0ê/2000 - 00u 2Z/0ê/2000. 0|spoe soore a Cédu|a de créd|lo oarcár|o.
Ved|da Prov|sór|a rº 1.911-1ê de 2ê/0ê/2000 - 00u 2Z/0ê/2000. Cr|a o Prograra de Arrerdarerlo Res|derc|a|, |rsl|lu| o
arrerdarerlo res|derc|a| cor opçao de corpra e dá oulras prov|dèrc|as.
12ê
8arco Cerlra| do 8ras||, WWW.oco.gov.or, er 20/01/2009 21:10
12Z
vAL0RE3, Cor|ssao Nac|ora| da 8o|sa de, lnrroouçáo ao mercaoo oe açóes.R|o de Jare|ro RJ, CN8v, p ê1

50
após argüição pública. A Diretoria Colegiada é o órgão de deliberação que exerce a
administração superior é responsável pela formulação de políticas e diretrizes
destinadas a permitir ao Banco Central o cumprimento de seus objetivos
3.4. Operações Bancárias
As atividades realizadas pelos bancos, com a finalidade de obtenção de seu
objetivo último – o lucro, são denominadas operações bancárias. Nas palavras de
Orlando Gomes: “os negócios realizados pelos bancos, no exercício de sua atividade
mercantil, chamam-se operações bancárias, se a função é creditícia.”
129

Preliminarmente, há de se ressaltar que bancos são mais do que meros
intermediários, são mobilizadores comerciais de crédito, mediante recebimento de
capital de terceiros e empréstimo deste capital, em seu próprio nome, aos que dele
necessitarem
130
.
Pode-se sintetizar o conceito de banco como uma empresa comercial que
capta poupança e a distribui de forma sistemática através de operações de crédito.
Ou seja, a instituição utiliza recursos de terceiros ou próprios, na atividade creditícia
de tomar e proporcionar empréstimos
131
.
O Banco Central do Brasil – BACEN, em seu manual normativo, define os
bancos como intermediários financeiros que recebem o dinheiro do público e o
emprestam àqueles que dele necessitam com o fim de multiplicar a circulação da
moeda, de forma a proporcionar o chamado efeito multiplicador
132
.
Os bancos desempenham importante papel social, pois a eles é atribuída a
função de industrialização do crédito, a intensificação da circulação das riquezas, e a
concentração das poupanças individuais, exercem atividade monetária, de crédito e
de investimento
133
.

128
8arco Cerlra| do 8ras||, WWW.oco.gov.or, er 20/01/2009 21:10
129
00VE3, 0r|ardo. 0onrraros. R|o de Jare|ro, RJ, 1981, p-Z-8.
130
VARTlN3, Frar. 0onrraros e oor|gaçóes comerc|a|s. R|o de Jare|ro: Forerse,19Zê
131
0LlvElRA, Ce|so Varce|o de. 0oo|go oe oelesa oo c||enre oancar|o. Carp|ras: LZN, 2002
132
8arco Cerlra| do 8ras||, WWW.oco.gov.or, er 21/01/2009 20:52
133
A8RA0, Ne|sor. 0|re|ro oancar|o. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2000, pp 15-19.

51
As operações bancárias, por sua vez, são as atividades negociais efetuadas
pelos bancos em relação a seus clientes, revestem-se de dois aspectos: o
econômico e o judicial. Economicamente, há que se considerar a prestação de
serviços no setor creditício que reflete em favor do banco e do cliente, enquanto
juridicamente, a operação bancária resulta de um acordo de vontades entre o cliente
e o banco, razão pela qual se insere na matéria contratual
134
.
Interessantes colocações foram feitas por Nelson Abrão
135
sobre a utilização
dos conceitos: “Das duas expressões, a econômica – operação, e a jurídica –
contrato, a primeira é a mais usual, dado não só o seu caráter dinâmico, como
também o fato de os contratos bancários serem por adesão, isto é, daqueles em que
a margem de discussão das cláusulas contratuais pelo cliente é bastante reduzida,
uma vez que, destinando-se a grande número de pessoas, feitos em série são
padronizados”
Desta forma, abstrai-se que o conteúdo econômico está refletido pelo fato
das operações bancárias promoverem a circulação de riquezas de forma organizada
e habitual, e o aspecto jurídico está presente nas diversas características contratuais
principalmente
136
.
Tais operações bancárias podem ser classificadas em essenciais ou
acessórias, onde nas primeiras os bancos efetuam operações de crédito e por meio
das segundas prestam serviços. São operações essenciais: o depósito, o
redesconto, a conta corrente, o empréstimo, o desconto, a antecipação, a abertura
de crédito, etc. Por sua vez, exemplos de operações acessórias são: a custódia de
valores, o serviço de cofres de segurança, a cobrança de títulos, a prestação de
informações, etc
137
.
O momento não é adequado para adentrar nas particularidades de cada
operação, no entanto devo ressaltar que na multiplicidade de sua atividade os
bancos têm como objetivo alcançar o lucro, o que é perseguido de todas as formas.

131
Cód|go Corerc|a|. Arl|go 120 'As operaçoes de 8arco serao dec|d|das ju|gadas pe|as regras gera|s dos corlralos
eslaoe|ec|dos resle Cód|go...¨
135
A8RA0, Ne|sor. 0|re|ro oancar|o. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2000, p 12-13.
13ê
A8RA0, Ne|sor. 0|re|ro oancar|o. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2000, p 12-13
13Z
A8RA0, Ne|sor. 0|re|ro oancar|o. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2000, p 15-1Z

52
O desenvolvimento tecnológico e de recursos humanos de tais instituições
associado ao refinamento e ao aumento da exigibilidade da clientela fizeram ampliar
o leque de serviços oferecidos ou mudar a roupagem de serviços já disponibilizados
anteriormente
138
.
É notório que a oferta de serviços que não proporcionam lucro imediato
aparece como instrumento mediador na captação de clientes utilizadores das
modalidades de serviço essencial bancário, ou seja, aquele que gera lucro
139
.
Tal ocorrência é clara, por exemplo, no caso do serviço de custódia de
cheques, sobre o valor custodiado não incidem juros. No entanto, no caso de
eventual necessidade de crédito, a operação se transmuta, passa de mera custódia,
sobre a qual incide apenas tarifa para desconto de cheques, para antecipação de
recebíveis do cliente, com a incidência de tarifas e demais encargos financeiros.
Desta forma, uma operação desencadeia a outra, pelas facilidades oferecidas pela
instituição financeiras.

138
VAR0uE3, C|áud|a L|ra. $oc|eoaoe oe |nlormaçáo e serv|ços oancar|os. µr|me|ras ooservaçóes, |r Rev|sla de 0|re|lo
do Corsur|dor, rº 39, ju|ro/seleroro 2001, Rev|sla dos Tr|oura|s, pp-19-53
139
A8RA0, Ne|sor. 0|re|ro oancar|o. 3ao Pau|o: 3ara|va, 2000, p 15-1Z

53

CAPÍTULO 4
INSTRUMENTOS LEGAIS DE DEFESA DO CONSUMIDOR
BANCÁRIO
4.1. As Resoluções CMN nº 2878/01 e nº 3.694/09 e a Lei nº 8.078/90
A defesa do consumidor adveio de expressa determinação constitucional,
onde o poder constitituinte originário a inseriu em várias passagens do texto
constitucional artigo 5º, XXXII
140
, artigo 24, VIII
141
, artigo 170, V
142
e no Ato das
Disposições Constitucionais Transitórias, artigo 48
143
, com o objetivo de prestar
atendimento às necessidades dos consumidores, o respeito a sua dignidade, saúde
e segurança, a proteção de seus interesses econômicos, a melhoria de sua
qualidade de vida, Omo também a transparência e a harmonia das relações de
consumo, o que foi efetuado na forma da Lei nº 8.078/90
144
.
Ao Conselho Monetário Nacional foi atribuída a finalidade de formular a
política monetária e ao Banco Central do Brasil o poder de baixar resoluções com
efeito político e financeiro em relação às instituições financeiras, através da Lei nº
4.595/64, intitulada Lei da Reforma Bancária
145
.

110
Arl|go 5º, XXXll. 0 Eslado proroverá, ra lorra da |e|, a delesa do corsur|dor.¨ Corsl|lu|çao Federa| 1988.
111
'Arl|go 21. Corpele a ur|ao, aos Eslados e ao 0|slr|lo Federa| |eg|s|ar corcorrerlererle soore:
(...)
vlll - resporsao|||dade por daro ao re|o aro|erle, ao corsur|dor, a oers e d|re|los de va|or arlisl|co, eslél|co, r|slór|co,
lurisl|co e pa|sagisl|co.¨ Corsl|lu|çao Federa| 1988
112
'Arl|go 1Z0. A order ecoròr|ca, lurdada ra va|or|zaçao do lraoa|ro ruraro e ra ||vre |r|c|al|va, ler por l|r assegurar
a lodos ex|slèrc|a d|gra, , corlorre os d|lares da jusl|ça soc|a|, ooservados os segu|rles pr|rcip|os:
(...)
v - delesa do corsur|dor¨ Corsl|lu|çao Federa| 1988.
113
'A0CT Arl|go 18. 0 Corgresso Nac|ora|, derlro de cerlo e v|rle d|as da proru|gaçao da Corsl|lu|çao, e|aoorará cód|go
de delesa do corsur|dor¨. Corsl|lu|çao Federa| 1988.
111
0LlvElRA, Ce|so Varce|o de. 0oo|go oe oelesa oo c||enre oancar|o. Carp|ras: LZN, 2002, p 3ê.
115
0LlvElRA, Ce|so Varce|o de. 0oo|go oe oelesa oo c||enre oancar|o. Carp|ras: LZN, 2002, p 23

54
O Código de Defesa do Cliente Bancário ou Código de Defesa do
Consumidor Bancário, instituído através da Resolução nº 2.878 do Banco Central do
Brasil, regulamentou os preceitos ora expostos pelo Código de Defesa do
Consumidor, com ênfase ao Capítulo III – Dos Direitos Básicos do Consumidor, ao
Capítulo V – Das Práticas Comerciais e aos artigos do Capítulo VI que envolvem a
prática contratual. Tal Resolução conferiu forma regulamentadora aos preceitos
positivados na Lei nº 8.078/90, com observância do estabelecido e pormenorização
do tema no que se refere às instituições submetidas ao BACEN
146
.
Desta forma, sendo a atividade bancária sujeita à normatização do Código
de Defesa do Consumidor e em particular à Resolução nº 2.878/01, a relação
jurídica estabelecida entre cliente bancário e banco é propriamente de consumo, e
estariam delimitados os poderes das instituições financeiras e administradoras de
cartões de crédito através destes instrumentos
147
.
Cabe ressaltar que por longo período houve resistência da submissão das
instituições financeiras ao Código de Defesa do Consumidor. Atualmente, superada
a celeuma por meio do julgamento da ADI 2591 que consolidou entendimento no
sentido de aplicabilidade do Código aos bancos. Assim o Conselho Monetário
Nacional revogou a Resolução nº 2.878/01 em sua totalidade e editou a de nº
3.694/09.

11ê
Er v|rlude da prev|sao da Le| rº 1.595/ê1 (arl|go 1Z c/c arl|go 18, Ç1º) sao |rsl|lu|çoes l|rarce|ras e aulor|zadas pe|o
8arco Cerlra| do 8ras|| :
- os Eslaoe|ec|rerlos 8arcár|os 0l|c|a|s e Pr|vados,ou seja, 8arcos Corerc|a|s, 8arcos de lrvesl|rerlo, 8arcos
de 0eservo|v|rerlo e 8arcos Vu|l|p|os cor Carle|ra Corerc|a|;
- as 3oc|edades de Créd|lo, F|rarc|arerlo e lrvesl|rerlo -F|rarce|ras;
- as Ca|xas Ecoròr|cas;
- as Cooperal|vas de Créd|lo e Cooperal|vas que possuer 3eçao de Créd|lo.
E laroér de acordo cor as Le|s rºs 1.380/ê1 (arl|go 8º), 9.511/9Z (arl|go 1º), e da Reso|uçao rº 1.980/93 (arl|gos. 1º e 2º),
do Corse|ro Vorelár|o Nac|ora|:
- os 8arcos Vu|l|p|os cor Carle|ra de Créd|lo lroo|||ár|o;
- as 3oc|edades de Créd|lo lroo|||ár|o;
- as Assoc|açoes de Pouparça e Erprésl|ro;
- as Corparr|as de lao|laçao;
- as Furdaçoes lao|lac|ora|s;
- os lrsl|lulos de Prev|dèrc|a, exc|us|varerle cor re|açao a 3eçao de Créd|lo lroo|||ár|o;
- as Corparr|as l|polecár|as;
- as Carle|ras l|polecár|as dos C|uoes V|||lares;
- os Vorlep|os Esladua|s e Vur|c|pa|s, exc|us|varerle cor re|açao a 3eçao de Créd|lo lroo|||ár|o;
- as Erl|dades e Furdaçoes de Prev|dèrc|a Pr|vada, exc|us|varerle cor re|açao a 3eçao de Créd|lo lroo|||ár|o.
11Z
0LlvElRA, Ce|so Varce|o de. 0oo|go oe oelesa oo c||enre oancar|o. Carp|ras: LZN, 2002, p 39

55
Devemos expor que a Resolução nº 3.694/09 traz enfoque diverso da
revogada. Apesar de ambas estabelecerem procedimentos a serem observados
pelas instituições financeiras na contratação de operações e na prestação de
serviços e ao público em geral. A vigente dispõe acerca da prevenção de riscos na
contratação de operações e na prestação de serviços por parte de instituições
financeiras, enquanto a anterior tratava de forma detalhada acerca da forma de
concretização dos direitos dos consumidores nas atividades financeiras.
Em que pese o enfoque diverso, a Resolução nº 3.694/09 continua a impor às
instituições financeiras a adoção de procedimentos na contratação de operações e
prestação de serviços que assegurem a prestação de informações claras e
completas aos clientes e usuários de serviços.
4.2. Direitos e não direitos do cliente bancário
Em uma relação obrigacional há direitos e deveres estabelecidos para os
dois pólos da relação, a relação consumerista tem como peculiaridade a
desigualdade da partes, o que demanda a intervenção estatal para o
restabelecimento do equilíbrio contratual. Desta forma, observaremos que no rol de
obrigações há determinação em maior grau e quantidade ao fornecedor, enquanto
as garantias referem-se ao consumidor, efetuando a concretização do princípio da
tutela do hipossuficiente nas relações de consumo. A seguir, trataremos de forma
resumida a respeito do que é e não é direito do cliente bancário.
De início vejamos o que não é direito do cliente bancário:
Quanto ao atendimento diferenciado, cabe ressaltar que a lei somente
estabelece prioridade para pessoas com idade superior a 65 anos, portadores de
deficiência física permanente ou temporária, gestantes, lactantes, e pessoas com
criança de colo.
As instituições financeiras não são obrigadas a aceitar o pagamento de
qualquer conta que não seja para pagamento em suas agências, o que pode ser
verificado no próprio documento de pagamento, boleto bancário, ficha de

56
compensação, onde estão determinadas quais instituições aceitam o pagamento,
respeitada a data de vencimento
148
.
O banco somente é obrigado a receber contas de serviços públicos com os
quais tenha firmado convênio. Não há obrigatoriedade de recebimento de cheque
em nenhuma transação comercial.
Também não é cabível a exigência de concessão creditícia a todos os que a
pleiteiam, pois o crédito é estabelecido através de uma relação de confiança entre
credor e devedor, o que, se estabelecido de forma adversa, ensejaria em gestão
temerária.
No tocante aos direitos dos usuários de serviços e produtos bancários, o rol
é bem mais extensivo. São direitos dos clientes bancários, segundo a Resolução nº
2.878/01, que continuam a vigorar em que pese revogação do instrumento:
- ter afixado em local visível ao público, nas agências, uma relação
dos serviços cobrados com seus respectivos valores e
periodicidade da cobrança, quando for o caso;
- ser avisado com antecedência de no mínimo 30 dias do início da
cobrança de um serviço ou seu aumento;
- ser informado sobre quais tarifas, serviços, índices serão cobrados,
por todos os serviços, no momento da abertura da conta corrente;
- ser resguardado do fornecimento de serviços e produtos não
solicitados;
- ser resguardado da venda casada, isto é, vincular a prestação de
um serviço à compra de outro;
- o cliente tem assegurado o direito à liquidação antecipada de
débitos, total ou parcial, mediante a redução proporcional dos juros
- atendimento diferenciado a deficientes;

118
0LlvElRA, Ce|so Varce|o de. 0oo|go oe oelesa oo c||enre oancar|o. Carp|ras: LZN, 2002, p 128

57
- livre acesso às áreas de atendimento ao público;
- solicitação de autorização prévia do banco para efetuar qualquer
débito em conta, ou prestação de serviço, e alteração nos
contratos anteriormente firmados;
- encerramento de conta a qualquer tempo, desde que quitados os
débitos.
4.3. Cláusulas contratuais abusivas
No contexto da Lei nº 8.078/90
149
a abusividade é caracterizada como a
ação do fornecedor no intuito de prevalecer-se perante o consumidor e obter
vantagens indevidas, por meio de proveito de uma dada situação estabelecida em
uma relação de consumo
150
.
Prática abusiva é a desconformidade com os padrões mercadológicos de
boa conduta em relação ao consumidor. São aquelas que afetam o bem-estar do
consumidor, que nem sempre se mostram como atividades enganosas; mas que,
apesar de não ferirem a veracidade, têm conteúdo de imoralidade econômica e de
opressão, podem dar causa ou não a danos contra o consumidor, pois têm como
característica a presunção absoluta de ilicitude. Manifestam-se através de
procedimentos no âmbito da contratação e também alheias a esta, seja através do
armazenamento de informações sobre o consumidor, ou mediante a utilização de
procedimentos vexatórios de cobrança de dívidas
151
.
É importante ressaltar que a pretensão do legislador não se resume apenas
a punir as práticas abusivas, tem pretensão também educativa, pois as hipóteses
descritas no artigo 39 da Lei nº 8.078/90 dizem respeito aos comportamentos
abusivos do fornecedor na relação de consumo independentemente da ocorrência
de dano para o consumidor. Assim, o legislador quer alterar a conduta do fornecedor

119
' Arl|go 39. E vedado ao lorrecedor de produlos ou serv|ços, derlre oulras prál|cas aous|vas:¨ Le| rº 8.0Z8/90. 0 ro| é
rerarerle exerp||l|cal|vo, caoerdo oulras r|póleses rao e|ercadas.
150
EFlN0, Arlòr|o Car|os. 0onrraros e µroceo|menros oancar|os a |uz oo coo|go oe oelesa oo consum|oor. 3ao Pau|o: Ed
RT, 1999. p 9ê.
151
8ENJAVlN, Arlor|o lerrar de vascorce||os e. 0oo|go oe oelesa oo consum|oor. comenraoo µe|os aurores oo
anreµro¡ero. R|o de Jare|ro: Forerse ur|vers|lár|a, 2001, p. 318-319.

58
por meio de disposições acerca de circunstâncias que poderiam vir a causar dano ao
direito individual, em particular, e aos direitos coletivos e difusos da categoria
consumidora
152
.
As práticas abusivas não estão regradas apenas no artigo 39 da Lei nº
8.078/90, estão, na verdade, dispersas por todo a lei. Como decorrência do artigo 7º
caput
153
, são também consideradas práticas abusivas comportamentos empresariais
que afetem o consumidor de forma direta, mesmo que previstos em legislação
diversa do CDC. E, deve-se ressaltar que o rol do artigo 39 é meramente
exemplificativo, pois, o mercado consumidor é altamente dinâmico, desta forma ao
legislador não seria possível listar exaustivamente as práticas abusivas
154
.
Não é diferente a situação, no que se refere à relação entre instituições
financeiras e clientes, pode-se dizer até mesmo que a situação é agravada, pois as
peculiaridades das operações efetuadas por tais instituições são desconhecidas
pelos clientes, e de difícil compreensão, devido à linguagem específica utilizada.
As práticas abusivas, no âmbito das instituições financeiras, estão refletidas
principalmente em disposições contratuais excessivamente onerosas, diferenciação
entre clientes e não-clientes, estabelecimento de encargos e indexadores de
financeiros e tarifas de forma obtusa, remessa não solicitada de produtos e venda
casada.
O excesso de onerosidade imposto ao consumidor, como conseqüência do
pactuado entre a instituição financeira e os usuários de seus serviços e produtos, é
causa de declaração de nulidade das cláusulas contratuais que o geraram,
submetido ao princípio da inversão do ônus da prova em benefício do consumidor,
conforme estabelecido na Lei nº 8.078/90.

152
EFlN0, Arlòr|o Car|os. 0onrraros e µroceo|menros oancar|os a |uz oo coo|go oe oelesa oo consum|oor.3ao Pau|o: Ed
RT, 1999. p 98.
153
Arl. Zº - 0s d|re|los prev|slos resle Cód|go rao exc|uer oulros decorrerles de lralados ou corverçoes |rlerrac|ora|s de
que o 8ras|| seja s|gralár|o, da |eg|s|açao |rlerra ord|rár|a, de regu|arerlos exped|dos pe|as aulor|dades adr|r|slral|vas
corpelerles, oer coro dos que der|ver dos pr|rcip|os gera|s do d|re|lo, ara|og|a, coslures e equ|dade. Le| rº 8.0Z8/90.
151
8ENJAVlN, Arlor|o lerrar de vascorce||os e. 0oo|go oe oelesa oo consum|oor. comenraoo µe|os aurores oo
anreµro¡ero. R|o de Jare|ro: Forerse ur|vers|lár|a, 2001, p. 319-320.

59
Sob a ótica da Resolução nº 2878/01, as cláusulas de cunho abusivo
155

contidas nos contratos bancários deveriam ser declaradas nulas de pleno direito, vez
que refletem aquelas que colocam o consumidor em desvantagem exagerada como
também as que sejam incompatíveis com a boa-fé ou equidade
156
.
Conforme posicionamento ultrapassado pelo STJ, tais cláusulas deveriam
ser repelidas de ofício
157
. No entanto, o tribunal recentemente sumulou o tema de
maneira diversa ao que hodiernamente decidia. Vejamos: Súmula 381 - “Nos
contratos bancários, é vedado ao julgador conhecer, de ofício, da abusividade das
cláusulas”.(05.05.09)
No contrato bancário as cláusulas financeiras devem estar estabelecidas de
forma clara, de modo a propiciar ao consumidor a possibilidade de acompanhamento
da evolução financeira da dívida. A posição majoritária do STF aponta para a não
submissão à Lei da Usura – Súmula 596
158
, sobre os contratos celebrados pelas
instituições financeiras
159
.

155
Exerp||l|cal|varerle:
- C|áusu|a-rardalo: cord|çao orde o l|rarc|ado oulorga ura procuraçao a |rsl|lu|çao l|rarce|ra ou erpresa a e|a
co||gada, cor poderes para c|lar e dar ace|le er lilu|o de créd|lo er rore do l|rarc|ado e seus gararl|dores,
pe|o va|or que a |rsl|lu|çao prelerde coorar.
- E|e|çao de loro: cord|çao orde o oarco |rpoe coro loro, para d|r|r|r jud|c|a|rerle as duv|das decorrerles do
corlralo, aque|e que re|ror |re alerde os |rleresses. 0 devedor sorerle pode derardar ro loro da ralr|z do
oarco, resro que eslaoe|ec|do er oulro |oca|.
- lrdexadores a|lerral|vos: poss|o|||dade de esco|ra ur||alera| por parle da |rsl|lu|çao l|rarce|ra do |rdexador que
re|ror alerda seus |rleresses.
- F|uluaçao de laxas: poss|o|||dade da rajoraçao per|ód|ca de juros pacluadas er ur corlralo, ser qua|quer
|rlerlerèrc|a do l|rarc|ado, a|lerardo, dessa lorra c|áusu|a esserc|a| do corlralo.
- 0eslao de corla correrle e corla v|rcu|ada: poss|o|||dade do oarco deo|lar, reler ou apropr|ar, ao seu exc|us|vo
cr|lér|o e ser av|so prév|o ao l|rarc|ado, os va|ores cred|lados er suas corlas.
15ê
0LlvElRA, Ce|so Varce|o de. 0oo|go oe 0elesa oo 0||enre 3ancar|o. Carp|ras: LZN, 2002, pp. ê1-ê5
15Z
RE3P 901ê2 / R3 ; RECuR30 E3PEClAL199ê/00151Zê-8 Forle 0J 0ATA:21/0ê/199ê P0:22ZZ1
Re|alor V|r. RuY R03A00 0E A0ulAR (1102) Ererla C0NTRAT0. NuLl0A0E 0E CLAu3uLA. 0ECLARAÇA0 0E
0FlCl0. CE0uLA 0E CRE0lT0 RuRAL.ANTE3 0A vl0ENClA 00 C00l00 0E 0EFE3A 00 C0N3uVl00R, 0uE vEl0
0EFlNlR C0V0 NuLA3 0E PLEN0 0lRElT0 A3 CLAu3uLA3 C0NTRATuAl3 A8u3lvA3 (ARTl00 51), ERA vE0A00
A0 JulZ 0ECLARAR 0E 0FlCl0 A NuLl0A0E NA0 RE0uERl0A PELA PARTE (ARTl00 128 00 CPC).RECuR30
C0NlECl00 E PR0vl00 PARA EXCLulR 00 AC0R0A0 A 0ECLARAÇA0 0E NuLl0A0E 0E CLAu3uLA.
0ala da 0ec|sao 28/05/199ê 0rgao Ju|gadorT1 - 0uARTA TuRVA
158
3uru|a 59ê 0ec|sao 15/12/19ZêPuo||caçao 0J 0ATA:03-01-ZZ A3 0l3P03lÇ0E3 00 0ECRET0 22.ê2ê 0E 1933 NA0
3E APLlCAV A3 TAXA3 0EJuR03 E A03 0uTR03 ENCAR003 C08RA003 NA3 0PERAÇ0E3 REALlZA0A3 P0R
lN3TlTulÇ0E3 Pu8LlCA3 0u PRlvA0A3, 0uE lNTE0RAV 0 3l3TEVA FlNANCElR0
NACl0NAL
159
RE3P 219159 / R3 ; RECuR30 E3PEClAL2000/001Z882-9 0J 0ATA:12/03/2001 P0:00115 Re|alor V|r. AL0lR
PA33ARlNl0 JuNl0R (1110) Ererla C0VERClAL. C0NTRAT0 0E A8ERTuRA 0E CRE0lT0. JuR03. LlVlTAÇA0
(12º AA). LEl 0E u3uRA (0ECRET0 N. 22.ê2ê/33). NA0 lNCl0ÈNClA. APLlCAÇA0 0A LEl N. 1.595/ê1.
0l3ClPLlNAVENT0 LE0l3LATlv0 P03TERl0R. 3uVuLA N. 59ê-3TF. CAPlTALlZAÇA0 VEN3AL 003 JuR03.

60
Em relação aos indexadores cabe ressaltar que, não são parcelas que se
agregam ao capital, mas sim como recomposição do valor e poder aquisitivo do
capital. Mecanismo consagrado através da edição da Lei nº 6423/77, criadora de
indexador oficial visando recompor a perda de substância da moeda, a extinta
ORTN. A ela seguiram um rol de siglas BTN, IPC, IGPM, TR, além de índices
alternativos, como as taxas divulgadas pela ANDIMA, CETIP, ANBID e médias de
CDB’s e/ou CDI’s, etc
160
.
Atualmente não há um indexador padrão, são utilizados de acordo com as
linhas de crédito negociadas, no entanto há normas que deverão ser aplicadas a
todos eles, como a proibição de capitalização de juros e a não utilização de forma
cumulativa, onde sobre o mesmo saldo devedor incidirão diversas correções
161
.
As tarifas, por sua vez, são o preço dos serviços prestados pelos bancos
definido pelas próprias instituições, de acordo com parâmetros fixados pelo CMN.
Assim há serviços que, por determinação do Banco Central não podem ser
cobrados, e os moldes da cobrança também estão por ele fixados. Nos casos de
alteração na cobrança de tarifas, faz-se necessário aviso prévio e anuência do
consumidor
162
.
Segundo o Banco Central, a cobrança de uma nova tarifa ou o aumento de
tarifa já existente deverão ser informados ao consumidor com, no mínimo, 30 dias de
antecedência. Porém, para o Código de Defesa do Consumidor, o aumento ou a
mudança de tarifa de forma unilateral são ilegais. O que se permite é o reajuste das
tarifas de acordo com índice definido em contrato.

vE0AÇA0. LEl 0E u3uRA (0ECRET0 N. 22.ê2ê/33). lNCl0ÈNClA. 3uVuLA N. 121-3TF. C0RREÇA0 V0NETARlA.
TR. PREvl3A0 C0NTRATuAL. APLlCAÇA0.
l. Nao se ap||ca a ||r|laçao de juros de 12º ao aro prev|sla ra Le| de usura aos corlralos de aoerlura de créd|lo oarcár|o.
ll. Nos corlralos de ruluo l|rrados cor |rsl|lu|çoes l|rarce|ras, a|rda que expressarerle acordada, é vedada a
cap|la||zaçao rersa| dos juros, sorerle adr|l|da ros casos prev|slos er |e|, r|pólese d|versa dos aulos. lrc|dèrc|a do
arl|go 1º do 0ecrelo r. 22.ê2ê/33 e da 3uru|a r. 121-3TF.
lll. Ausèrc|a de vedaçao |ega| para ul|||zaçao da TR coro |rdexador de corlralo de créd|lo oarcár|o, desde que ||vrererle
pacluada.
lv. Recurso espec|a| correc|do e parc|a|rerle prov|do.0ala da 0ec|sao 0ê/02/2001 0rgao Ju|gador T1 - 0uARTA TuRVA.
1ê0
V0TTA. Joao Arlòr|o. Ds oancos no oanco oos reus.R|o de Jare|ro: Arér|ca Jurid|ca, 2001, p ê3.
1ê1
V0TTA. Joao Arlòr|o. Ds oancos no oanco oos reus.R|o de Jare|ro: Arér|ca Jurid|ca, 2001, p ê3.
1ê2
EFlN0, Arlòr|o Car|os. 0onrraros e µroceo|menros oancar|os a |uz oo coo|go oe oelesa oo consum|oor. 3ao Pau|o: Ed
RT, 1999. p 181.

61
O preço cobrado pela prestação de serviços, quando debitado em conta,
deverá ser claramente identificado no extrato de conferência. E todo banco é
obrigado a afixar quadro, em local visível, com a relação dos serviços sobre os quais
se cobram tarifas e os respectivos preços. A Resolução nº 2303 determina quais
serviços é vedada a cobrança pelos bancos
163
.
Portanto, todo débito promovido pela instituição financeira deve,
obrigatoriamente, possuir um lastro jurídico que o faça existir, ou seja, basta a
simples autorização dos correntistas. No entanto, as instituições financeiras usurpam
seu mandato de gestão contratualmente concedido pelos clientes, e debitam valores
indevidos nas suas contas-correntes, sem a respectiva autorização. Com o intuito de
dirimir as situações decorrentes foi, recentemente, editada a Resolução nº 3.695/09
que expressamente veda a realização de débitos em contas de depósitos
desprovida de prévia autorização pelo cliente
164
.
O artigo 158 do Código Civil Brasileiro de1916
165
, bem como disposições do
Decreto nº 22.626/33 e do Código de Defesa do Consumidor, determinam a
restituição a todo aquele que pagou algo com base em cláusula contratual nula, de
forma a impedir a eternização de uma injustiça com o conseqüente enriquecimento
sem causa da parte que recebeu o que não lhe era devido.

1ê3
- ur carlao ragrél|co ou ur la|ao rersa| cor 10 lo|ras de creques, corlorre opçao do c||erle. E perr|l|do ao
oarco rao lorrecer rovos creques ao correrl|sla que l|ver ra|s de 19 lo|ras rao ||qu|dadas ou que rao l|ver ||qu|dado 50º
das lo|ras a e|e lorrec|das ros u|l|ros lrès reses;
- 3uosl|lu|çao do carlao ragrél|co para c||erle que oplou pe|o carlao gralu|lo, excelo por perda, rouoo ou
dar|l|caçao;
- Varulerçao de corlas de pouparça cor sa|do super|or a RS 20,00. lá de ressa|lar que ras corlas de pouparça
|ral|vas - ser saques ou depós|los por prazo super|or a se|s reses e cor sa|do |rler|or a RS 20,00 - os oarcos
poder coorar rersa|rerle RS 1,00 ou 30º do sa|do;
- Pe|a rarulerçao de corlas de pouparça aoerlas a order do Poder Jud|c|ár|o e de depós|los er cors|graçao de
pagarerlo;
- Exped|çao de docurerlos desl|rados a ||oeraçao de gararl|as de qua|quer ralureza;
- 0evo|uçao de creques pe|o 3erv|ço de Corpersaçao, excelo por |rsul|c|èrc|a de lurdos, cuja lar|la deverá ser
coorada do er|lerle;
- Forrec|rerlo de ur exlralo rersa| cor loda a rov|rerlaçao do rès;
- Rerovaçao de suslaçao, corlra-order ou carce|arerlo de creques.
1ê1
Arl. 3º E vedada as |rsl|lu|çoes l|rarce|ras a rea||zaçao de déo|los er corlas de depós|los ser prév|a aulor|zaçao do
c||erle. Ç 1º A aulor|zaçao reler|da ro capul deve ser lorrec|da por escr|lo ou por re|o e|elròr|co, cor esl|pu|açao de prazo
de va||dade, que poderá ser |rdelerr|rado, adr|l|da a sua prev|sao ro própr|o |rslrurerlo corlralua| de aoerlura da corla
de depós|los. Ç 2º 0 carce|arerlo da aulor|zaçao reler|da ro capul deve surl|r ele|lo a parl|r da dala del|r|da pe|o c||erle
ou, ra sua la|la, a parl|r da dala do receo|rerlo pe|a |rsl|lu|çao l|rarce|ra do ped|do perl|rerle.
1ê5
Aru|ado o alo, resl|lu|r-se-ao as parles ao eslado, er que arles de|e se acravar, e rao serdo possive| resl|lui-|as,
serao |rder|zadas cor o equ|va|erle.

62
A par destas ilegalidades, os correntistas devem requerer ao judiciário a
revisão de toda a movimentação financeira desde o seu nascedouro, com o objetivo
de apurar a origem de débitos indevidos.
O artigo 39, III, por sua vez destaca como abusivo o ato de enviar ou
entregar ao consumidor, sem solicitação prévia, qualquer produto, ou fornecer
qualquer serviço. A regra do CDC é de que o produto ou serviço só pode ser
fornecido ou efetuado desde que haja prévia solicitação do consumidor, uma vez
fornecido sem preceder de solicitação considerar-se-á gratuito, não cabendo
qualquer pagamento ou ressarcimento ao fornecedor
166
.
A Lei nº 8.078/90 está regulamentada, neste aspecto, pelo Decreto nº
2.181/97, o qual reconhece como prática abusiva a remessa de produto ou serviço
sem prévia solicitação, o art. 12, IV dispõe que tal produto pode ser considerado
como amostra grátis (art 23), o que desonera qualquer pagamento, ressarcimento ou
reembolso.
A questão se agrava, no caso de remessa sem solicitação de cartões de
crédito, tendo em vista que o extravio e a clonagem são práticas comuns. Assim, o
cartão remetido poderá se usado de modo fraudulento, o que gerará débitos pelos
quais o consumidor não responderá, além de eventual condenação do remetente por
perdas e danos gerados ao destinatário.
Desta forma, mostra-se inquestionável a obrigação de a administradora
indenizar qualquer dano que o consumidor venha a sofrer em decorrência da
remessa de cartão não solicitado. A responsabilidade, no caso, é objetiva, ou seja,
independe de dolo ou culpa. Ressalte-se que o dito “consumidor”, nem mesmo
chega a ocupar a posição de consumidor na relação, pois nada contratou ou
consumiu, é terceiro estranho à relação que por ela foi prejudicado.

1êê
8ENJAVlN, Arlor|o lerrar de vascorce||os. 0oo|go oe oelesa oo consum|oor. comenraoo µe|os aurores oo
anreµro¡ero. R|o de Jare|ro: Forerse ur|vers|lár|a, 2001, p. 325.

63
4.4. Medidas a serem adotadas pelas instituições financeiras e demais
instituições autorizadas pelo Banco Central do Brasil para adequação de
seus procedimentos à Lei n º 8.078/90
A Resolução nº 3694/09 e outras tratam das normas de defesa do
consumidor como meio de prevenção de riscos na contratação de operações e
prestação de serviços por parte das instituições financeiras e demais instituições
autorizadas pelo Banco Central do Brasil. De acordo com tais normas, os bancos
devem estabelecer procedimentos que positivam o disposto no CDC. Destacamos:
a) na contratação de operações e na prestação de serviços bancários
Trata-se efetivamente do dever de informação contido no Código de Defesa
do Consumidor, artigos 30, 31 e 46. O Banco Central do Brasil, apenas enfatiza os
dispositivos, pois a Lei nº 8.078/90 já garante o direito pleno do consumidor-
correntista de banco, no tocante à plena publicidade em seus contratos bancários.
Devemos expor que, conforme disposto no artigo 1º da Resolução nº 3.694/09
temos que não pode ocorrer a publicidade enganosa, bem como está determinada a
transparência nas relações contratuais através da fixação das cláusulas contratuais
bancárias de forma clara e de fácil compreensão por parte do cliente-consumidor.
Forma objetiva, simples e clara, como determina a lei contratual e defesa do
consumidor. O correntista não pode ficar a mercê das determinações dos bancos,
que deve formular e obedecer a contratos equilibrados. Portanto, é necessária a
transparência nas relações contratuais mediante prévio e integral conhecimento das
cláusulas dos contratos bancários, bem como o fácil entendimento, e destaque aos
valores a serem negociados, às taxas de juros, de mora e de administração,
comissão de permanência, encargos moratórios e às multas por inadimplemento.
Quando o fornecimento envolver outorga de crédito ou concessão de
financiamento ao consumidor, o fornecedor deverá informá-lo, prévia e de forma
adequada, sobre os dados essenciais, como preço em moeda nacional, montante de
juros de mora e a taxa efetiva anual de juros, número e periodicidade de
prestações
167
. Ao direito de informação do consumidor
168
corresponde o dever

1êZ
'Arl. 52 - No lorrec|rerlo de produlos ou serv|ços que ervo|va oulorga de créd|lo ou corcessao de l|rarc|arerlo ao
corsur|dor, o lorrecedor deverá, erlre oulros requ|s|los, |rlorra-|o prév|a e adequadarerle soore:
l - preço do produlo ou serv|ço er roeda rac|ora|;

64
específico do fornecedor. O objetivo da lei é permitir ao consumidor, ciente dos
encargos que assumirá, uma decisão livre e amadurecida
169
.
Ponderações devem ser feitas sobre o assunto, pois se deve ter em mente
que a linguagem financeira é de difícil acesso, a necessidade por crédito leva os
“consumidores” a “comprarem” tal crédito sem uma verdadeira análise da equação
custo/benefício. Esclarecimentos são efetuados por parte das instituições
financeiras, no entanto o cliente sempre poderá alegar que não foi devidamente
informado acerca das condições do contratado, pois somente irá entender o
contratado em sua íntegra quando de sua consecução e da cobrança das parcelas
dele decorrentes.
b) na prestação de informações em relação aos serviços prestados e
produtos comercializados
O artigo segundo da Resolução nº 3.694/09 dispõe acerca do tema. O dever
de prestação de informações, também objetiva facilitar o pleno conhecimento de
situações que possam implicar recusa de documentos por parte do Banco. Para
manutenção do equilíbrio das relações exige lealdade de informação e publicidade
dos serviços bancários. Neste sentido destacamos as informações apresentadas
pela Federação dos Bancos a respeito da cobrança dos serviços bancários, dos
motivos de devolução de documentos no serviço de compensação de cheques os
quais as instituições financeiras devem informar com ampla publicidade para os seus
clientes-consumidores.
c) na liquidação antecipada das operações de crédito
O direito à liquidação antecipada do débito previsto no Código de Defesa do
Consumidor, artigo 52 inciso II, determina que o consumidor-correntista nos caso de

ll - rorlarle de juros de rora e de laxa elel|va arua| de juros;
lll - acrésc|ros |ega|rerle prev|slos;
lv - rurero e per|od|c|dade de preslaçoes;
v - sora lola| a pagar, cor ou ser l|rarc|arerlo.¨ Le| rº 8.0Z8/90
1ê8
'Arl. êº - 3ao d|re|los oás|cos do corsur|dor:
(...)
lll - a |rlorraçao adequada e c|ara soore os d|lererles produlos e serv|ços, cor a espec|l|caçao correla de quarl|dade,
corpos|çao, qua||dade e preço, oer coro soore os r|scos que apreserler;¨ Le| rº 8.0Z8/90.
1ê9
ALVEl0A, Joao 8al|sla de. A Proreçáo Jurio|ca oo 0onsum|oor, 3ao Pau|o: 3ara|va, 2002, p. 150.

65
antecipação de pagamento de seus débitos terá desconto proporcional dos juros.
Em acréscimo, a Resolução nº 3.516/07 dispõe acerca da forma de cálculo para
antecipação, como também da vedação à cobrança de tarifa por antecipação.
d) na fixação de tabelas de serviços bancários
O artigo segundo da Resolução nº 3.694/09 também trata da obrigatoriedade
para as instituições financeiras em utilizar, de forma clara e inequívoca, tabelas de
tarifas de serviços, de informativos e demonstrativos de movimentação, para uma
clara identificação e entendimento das operações realizadas e daquelas que se
pretenda realizar.
f) i) no atendimento de não clientes
Às instituições financeiras é vedada a discriminação entre clientes e não
clientes na utilização de seus serviços, discriminação significa diferenciar, distinguir,
vetar, traduzindo-se na obrigatoriedade de dispensar tratamento igual a todos,
conforme elencado no texto constitucional.
Em razão da dificuldade de as instituições financeiras cumprirem as
disposições do CDC acerca de acessibilidade foi firmado Termo de Ajuste de
Conduta por meio da FEBRABAN junto ao Ministério Público Federal no qual os
aderentes prestam compromisso de observância das disposições, estabelecidos
cronograma e penalidades em relação ao cumprimento. Dos dispositivos,
destacamos:
a) na garantia de pleno atendimento aos portadores de deficiência física, aos
idosos, às gestantes, às lactantes e às pessoas acompanhadas por crianças de
colo.
Há obrigatoriedade de os bancos promoverem acesso e atendimento
prioritário para pessoas portadoras de deficiência física ou com mobilidade reduzida,
temporária ou definitiva, idosos, com idade igual ou superior a sessenta e cinco
anos, gestantes, lactantes e pessoas acompanhadas por criança de colo. Essa
norma não é nada mais do que atendimento a princípio constitucional que já existia

66
para edifícios de uso público
170
, mas que tem cunho orientativo para o setor privado;
todavia, tem grande valia na medida em que fixa prazo para seu atendimento,
apesar de extremamente extenso.
b) no fornecimento de informações sobre o conteúdo contratual aos
deficientes visuais
As instituições financeiras garantirão aos usuários cegos, assim identificados
no momento da contratação ou em momento posterior, mediante solicitação:
I) quando da adesão ou assinatura de seus contratos, a leitura do inteiro teor
do referido instrumento, em voz alta ou por meio de mídia eletrônica, ou, no caso de
dispensa da leitura pelo cliente cego, declaração do contratante de que tomou
conhecimento dos direitos e deveres das partes envolvidas, sem prejuízo da adoção
de outras medidas com a mesma finalidade;
II) impressão em alto relevo ou Braile dos seguintes dados nos cartões
magnéticos emitidos ou comercializados pelos Bancos Aderentes: bandeira do
cartão (Visa, Mastercard, American Express, etc); funções do cartão, se de débito,
de crédito ou ambas.
Assim, entendemos que as medidas acima destacadas, entre outras
disposições existentes, objetivam a positivação das medidas protetivas ao
consumidor previstas na legislação consumerista, de forma a resultar em medidas
efetivas de minimização da vulnerabilidade que atinge os clientes e usuários dos
serviços bancários, na qualidade de consumidores que são.

1Z0
Arl. 22Z.
(...)
Ç 2º A |e| d|sporá soore rorras de corslruçao dos |ogradouros e dos ed|lic|os de uso puo||co e de laor|caçao de veicu|os de
lrarsporle co|el|vo, a l|r de gararl|r acesso adequado as pessoas porladoras de del|c|èrc|a.
Arl 221. A |e| d|sporá soore a adaplaçao dos |ogradouros, dos ed|lic|os de uso puo||co e dos veicu|os de lrarsporle co|el|vo
alua|rerle ex|slerles a l|r de gararl|r acesso adequado as pessoas porladoras de del|c|èrc|a, corlorre d|sposlo ro arl.
22Z, Ç 2º.

67

CAPÍTULO 5
A APLICAÇÃO DAS REGRAS CONSUMERISTAS ÀS INSTITUIÇÕES
BANCÁRIAS
5.1. Noções
Na área bancária as relações entre as instituições e os clientes formalizam-
se imperativamente através de contratos de adesão em todas as suas operações,
ativas e passivas. Tais relações compõem extenso elenco, dentre elas: abertura de
conta corrente, prestação de serviço de cobrança, guarda de valores, cartões de
crédito, financiamentos, etc
171
.
Nos diferentes contratos, as cláusulas estão impressas em documentos
próprios que revelam a rigor as cautelas tomadas pelas entidades financeiras na
proteção de seus interesses. Algumas cláusulas de tais instrumentos podem ser
consideradas leoninas, como as de excesso de garantia
172
.
Havia impasse teórico estabelecido, o qual resultou em análise pelo
judiciário por de ADI proposta pela Confederação Nacional do Sistema Financeiro
CONSIF, a qual sustentou não ser a relação bancária uma relação de consumo, não
podendo, desta forma, aplicar-se o Código de Defesa do Consumidor a tais relações.
Em contraposição se deu a sustentação de que para identificação de uma
relação de consumo é necessária a existência de três elementos: sujeitos, objeto e
finalidade. Resumidamente, pode-se sem muito esforço, concluir a respeito da
presença de tais elementos na relação banco/cliente, onde os clientes são

1Z1
8lTTAR, Car|os A|oerlo. Ds conrraros oe aoesáo e o conrro|e oe c|ausu|as aous|vas. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1991, p 111-
112.

68
consumidores dos produtos e serviços prestados pelos bancos - fornecedores, e tais
produtos e serviços seriam o objeto da relação. A controvérsia esteve no ponto que
trata da finalidade, pois para o tomador de crédito ser considerado consumidor tem
que figurar como destinatário final, como é presumido para as pessoas físicas; mas
se o tomador de crédito o faz com o intuito de aplicar o referido montante na
atividade produtiva, como ocorre com as pessoas jurídicas, em regra, não se
enquadra no conceito do artigo 2º do Código de Defesa do Consumidor.
No entanto, o CDC vai além porque considera consumidor toda e qualquer
pessoa física ou jurídica exposta à práticas previstas no capítulo V, conforme
estabelecido no artigo 29
173
.
A reserva estabelecida pela Constituição Federal, artigo 192, não importa em
não submissão dos bancos aos ditames estabelecidos pelo Código, pois a relação
consumerista estaria claramente estabelecida, com o enfoque acima explicitado.
Interessantes as colocações de ambas as correntes, de sua análise pode-se
inferir que não estão totalmente acertadas nem incorretas. A questão se apresenta
multifacetada, pois o cliente bancário consume crédito para viabilizar o
preenchimento de uma necessidade, mas se não for consumidor a qual grupo ele
pertence, pois aquele que utiliza serviços ou adquire produtos de outrem não tem
outra qualificação, é consumidor.
Também há de se ressaltar que aquele que atua como intermediário em uma
transação não é fornecedor, é apenas um facilitador entre demanda e oferta de
determinado bem ou serviço. Desta forma, as instituições financeiras não estariam
enquadradas no campo de fornecedores. Como poderiam ser qualificados os
bancos, então?
Podemos lembrar o conceito de banco: o Banco Central do Brasil – BACEN
em seu manual normativo define os bancos como sendo os intermediários
financeiros que recebem o dinheiro do público e o emprestam àqueles que dele

1Z2
8lTTAR, Car|os A|oerlo. Ds conrraros oe aoesáo e o conrro|e oe c|ausu|as aous|vas. 3ao Pau|o: 3ara|va, 1991, p 111-
112.
1Z3
EFlN0, Arlòr|o Car|os. 0onrraros e µroceo|menros oancar|os a |uz oo coo|go oe oelesa oo consum|oor.3ao Pau|o: Ed
RT, 1999. p 51.

69
necessitam com o fim de multiplicar a circulação da moeda, de forma a proporcionar
o chamado efeito multiplicador
174
.
Se enfocarmos que o produto dos bancos é a moeda, a eles não há
possibilidade de aplicação das normas relativas ao direito do consumidor. A
qualidade da moeda, tanto em seu aspecto físico como nas modalidades de crédito
oferecidas ao consumidor foge da alçada dos bancos. No entanto, pode-se afirmar
que o produto principal das operações bancárias é o crédito, o que muda o enfoque
dado; e que além das operações bancárias há os serviços bancários.
Desta forma, podemos nos ater a outros aspectos. As instituições financeiras
prestam serviços e vendem produtos, fornecem extratos, transferem numerário para
outras localidades, efetuam depósitos em caução, vendem seguros, planos de
previdência, títulos de capitalização, cartões de crédito dentre outros. Tais
operações perfeitamente podem ser enquadradas no Código de Defesa do
Consumidor, e estão enquadradas como serviços e comercialização de produtos
175
.
O extrato que falta uma página; o microfilme do cheque, os boletos de
cobrança bancária, talonários de cheques, o recibo do caixa rápido pelos quais são
cobrados tarifas e não são disponibilizados em tempo hábil ao solicitante; a
informação sobre o valor de determinada dívida, a resposta a uma proposta de
negociação de dívidas que, por sua morosidade, elevam sensivelmente o montante,
e geram situações nas quais os fundamentos do direito do consumidor devem ser
aplicados.
O Sistema Financeiro Nacional tem suas peculiaridades que devem ser
respeitadas, o importante papel que exerce na economia nacional, onde a política
creditícia é desempenhada principalmente por meio das instituições bancárias. Sua
importância é notória quando das colocações constitucionais a respeito do assunto,
onde a ele foi reservada a regulamentação através de lei complementar. Tais fatos
não podem ser desconsiderados.

1Z1
8arco Cerlra| do 8ras|| WWW.oco.gov.or 20/03/2009 21:52.
1Z5
3lLvA, Lu|z Auguslo 8ec| da. D coo|go oe oelesa oo 0onsum|oor e as enr|oaoes l|nance|ras |r
rllp://WWW.ousca|eg|s.ulsc.or/rev|slas/|rdex.prp/ousca|eg|s/arl|c|e/v|eW/288ê3/28119 er 20/03/2009 21:52.

70
No entanto, as instituições financeiras estão submetidas a uma legislação
que não atende as demandas de mercado, é precária e ineficaz. Não há espaço
para aplicação do Código de Defesa do Consumidor em sua íntegra e a
normatização efetuada através dos órgãos de regulamentação não atende de forma
efetiva a demanda do consumidor.
Haveria de ser criada uma legislação híbrida que atendesse às exigências
constitucionais, e protegesse o consumidor em suas demandas além de
regulamentar as operações bancárias.
5.2. Correntes defensoras da não aplicação do Código de Defesa do
Consumidor nas relações entre bancos e clientes
Em que pese o julgamento da ADI 2591 no sentido de aplicabilidade do CDC
nas relações bancárias é importante destacar as teses que sustentam a não
aplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor, a seguir:
A Constituição Federal, artigo 192, reservou à lei complementar a regulação
do Sistema Financeiro Nacional, a Lei nº 8078/90 é lei ordinária desta forma a
expressão constante do §2º de seu artigo 3º “inclusive as de natureza, bancária, de
crédito e securitária” lesa o comando da Carta Magna.
Tal preceito foi objeto de ação direta de inconstitucionalidade – ADI 2591,
proposta pela Confederação Nacional do Sistema Financeiro CONSIF, onde está
colocado que “a Lei nº 8078/90 é inconstitucional ao criar novos e maiores encargos
e obrigações e ao imputar mais responsabilidades às instituições financeiras, sendo
lei ordinária , quando a Constituição federal exige textualmente, lei complementar”.
Tal procedimento, além de desobedecer ao disposto no artigo 192, II e IV, da
Constituição Federal, fere o princípio da razoabilidade, consagrado pelo devido
processo legal, no artigo 5º, LIV, do mesmo texto. Ademais as peculiaridades das
atividades desenvolvidas pelas instituições integrantes do Sistema Financeiro

71
Nacional impossibilitam a equiparação de tais atividades às de consumo. Há
precedente juisprudencial, neste sentido
176
.
Assim, conforme reconhecido pela jurisprudência do Supremo Tribunal
Federal, a Lei nº 4.595/64 foi recepcionada com status de lei complementar, o que
tornou evidente que “o §2º do artigo 3º da Lei nº 8.078/90, ao pretender equiparar
todas as atividades de natureza bancária, financeira, de crédito e securitária a
relações de consumo para o fim de regulá-las, padece de inconstitucionalidade por
invadir área reservada à lei complementar, sendo insusceptível de derrogar a lei
recepcionada, que desfruta desse status”.
Dinheiro é bem fungível por excelência, destina-se a ser gasto, utilizado
como instrumento para aquisição de mercadoria ou produto, é meio para realização
de um fim. Desta forma, temos que a utilização do dinheiro, não resulta nem importa
em destruição imediata de sua substância, diferenciando-se de mercadoria
destinada ao consumo ou alienação conforme artigo 51 Código Civil
177

Outro aspecto determinante é a diferença existente entre consumidor e
cliente de instituição financeira exposta no título VII do texto constitucional que trata
da ordem econômica e financeira. Os três primeiros capítulos tratam da ordem
econômica, consagrada como princípio a defesa do consumidor, que determina a
elaboração de um Código; enquanto seu quarto e último capítulo se refere ao
Sistema Financeiro Nacional, determinado que o mesmo seja regulado por lei
complementar “de forma a promover o desenvolvimento equilibrado do País e a
servir aos interesses da coletividade”, no qual está inserida a proteção do cliente as
instituições financeiras por decorrência lógica do explicitado no texto.
A CONSIF, em suas argumentações esclarece que “justifica-se a distinção
entre consumidor de produtos e usuários de serviços e clientes de instituições

1Zê
'Erquarlo rao lor ed|lada a |e| corp|ererlar regu|adora do 3|slera F|rarce|ro Nac|ora|, prev|sla ro arl|go 192, da
Corsl|lu|çao da Repuo||ca Federal|va do 8ras||, as operaçoes al|vas, pass|vas e acessór|as as |rsl|lu|çoes l|rarce|ras e
dera|s erl|dades suje|las a aulor|zaçao de lurc|orarerlo e l|sca||zaçao do 8arco Cerlra| do 8ras|| perrarecerao suje|las
ao reg|re das Le|s rºs 1.595, de 31.12.ê1, 1.Z28, de 11.Z.ê5, ê.385, de Z.12.Zê, e dera|s d|spos|çoes |ega|s e
regu|arerlares v|gerles ap||cáve|s ao 3|slera F|rarce|ro Nac|ora|¨. A0lr rº 1.
1ZZ
3lLvA, Lu|z Auguslo 8ec| da. D coo|go oe oelesa oo 0onsum|oor e as enr|oaoes l|nance|ras |r
rllp://WWW.ousca|eg|s.ulsc.or/rev|slas/|rdex.prp/ousca|eg|s/arl|c|e/v|eW/288ê3/28119 er 20/03/2009 21:52.

72
financeiras, em virtude de razões de ordem constitucional e pelas situações
peculiares existentes em cada caso
178
”.
E, continua a explanação com realce no fato de que “as instituições
financeiras não trabalham com dinheiro próprio, mas de terceiros. A pretensão de
aplicar-lhes regras de consumo pode atingir, de rigor, os correntistas e aplicadores
que ofertam recursos ao sistema para serem repassados, mediante guarda ou
aplicação”.
Desta forma, a proteção a alguns “consumidores” representaria, na verdade,
violação ao direito de outros consumidores, ou seja, dos demais usuários da
instituição, titulares dos recursos do sistema. Não havendo, como se admitir o direito
do consumidor contra o próprio consumidor, o que, no caso em questão colocaria
em risco os direitos dos correntistas e investidores.
Como há distinção entre consumidor e cliente de instituições financeiras,
conseqüentemente há diferenciação nos regimes jurídicos a eles aplicados, assim o
primeiro submete-se aos ditames da Lei nº 8.078/90 enquanto o segundo é regido
pelo artigo 192 da Constituição, pela Lei nº 4595/64 e pelas resoluções do Conselho
Monetário Nacional
179
.
Por outro lado, há de se analisar a impossibilidade de as instituições
financeiras se adequarem ao conceito de fornecedor, pois, tais entidades,
especialmente os bancos e instituições de crédito, negociam basicamente com a
moeda e o crédito, e realizam atividade de repasse entre poupadores e investidores,
de forma a promover a liquidez necessária ao mercado financeiro.
Diante do exposto, clara é a distinção entre instituições financeiras e os
demais fornecedores de produtos ou serviços, já que não há como tais instituições
garantirem a qualidade de sua mercadoria, que é a moeda, produzida, garantida e
até mesmo manipulada pelo Estado.

1Z8
A0lr 2591, Corlederaçao Nac|ora| do 3|slera F|rarce|ro - C0N3lF de 2ê.12.2001.
1Z9
Le| rº 1595/ê1 0|spoe soore proced|rerlos a serer ooservados pe|as |rsl|lu|çoes l|rarce|ras e dera|s |rsl|lu|çoes
aulor|zadas a lurc|orar pe|o 8arco Cerlra| do 8ras|| ra corlralaçao de operaçoes e ra preslaçao de serv|ços aos c||erles e
ao puo||co er gera|.¨

73
A questão resume-se pela existência de reserva da matéria à lei
complementar e à competência do Conselho Monetário Nacional. Tal competência,
consagrada em nível constitucional, é privativa para disciplinar todas e quaisquer
atividades das instituições financeiras, que constituem os principais integrantes do
Sistema Financeiro Nacional.
Vejamos o posicionamento adotado pela FEBRABAN. Tal instituição
defende que legislações como o Código de Defesa do Consumidor ou a denominada
Lei da Usura têm dispositivos que, se aplicados ao Sistema Financeiro, fatalmente
comprometeriam sua saúde e a confiança de investidores e poupadores. Alguns
exemplos
180
:
O tomador poderia se arrepender e devolver ao banco, até oito dias depois,
o dinheiro que tomou emprestado, sem nenhum ônus, independentemente do fato
de a instituição tê-lo captado para conceder o empréstimo, por 90 dias e com o
compromisso de remunerar o poupador/investidor nesse período.
Um cliente compraria ações num banco e poderia devolvê-las pelo preço
original até oito dias depois, ao verificar que seu preço caiu, em vez de subir, como
ele esperava, com a simples alegação de que se arrependeu do negócio.
Os contratos entre um banco e seus clientes poderiam ser anulados por
decisão da Justiça estadual por preverem juros superiores a 12% ou pelo simples
fato de que a condição do devedor, num determinado momento, piorou,
independentemente dos custos de captação do dinheiro e das taxas de juros
vigentes no mercado serem superiores a esse percentual e do contrato do banco
com o investidor.
Qualquer fato que não seja previsível quando um empréstimo foi contratado
e que altere a relação entre as partes em prejuízo do devedor pode dar margem à
sua anulação, levando uma instituição a receber menos do que contratou e até
menos do que pagou pelo dinheiro.

180
FE8RA8AN WWW.leoraoar.org.or er 01/01/2009 21:30.

74
Decisões judiciais que determinaram mudanças nos critérios de apuração de
encargos ou utilização de indexadores, a exemplo das ocorridas no Plano Collor,
provocaram desequilíbrios entre as operações ativas (empréstimos) e passivas
(recursos captados junto a investidores) do Sistema Financeiro. Se as perdas
resultantes dessas decisões tivessem que ser suportadas pelos bancos, resultariam
em prejuízos superiores ao capital de grande parte deles, levando-os a uma crise
financeira.
Serviços como os cofres de aluguel praticamente desapareceram com a
inversão do ônus da prova, possibilitada pelo Código de Defesa do Consumidor. É
praticamente impossível uma instituição provar que não é responsável pelo
desaparecimento de bens e valores alegados pelo cliente numa ação judicial,
mesmo que esses bens nunca tenham sido colocados no cofre. Na há tarifa bancária
que cubra risco dessa natureza.
Muitos outros exemplos da inadequação do Código do Consumidor ao
Sistema Financeiro poderiam ser mencionados. O fato é que o Sistema Financeiro
de qualquer país precisa ter regras próprias, nas quais a defesa dos interesses dos
consumidores/tomadores de crédito não se faça em prejuízo dos
consumidores/poupadores/investidores. O Código do Consumidor não foi elaborado
com a ótica de preservação da poupança pública e da confiança da sociedade no
Sistema Financeiro. O consumidor de serviços bancários, contudo, dispõe hoje de
uma legislação que assegura defesa de seus direitos e as instituições financeiras
estão sujeitas a uma disciplina e a uma fiscalização muito mais intensas que a
grande maioria dos setores econômicos, da mesma forma como ocorre em outros
países.
5.3. Correntes defensoras da aplicação do Código de Defesa do
Consumidor nas relações entre bancos e clientes
Para que seja aplicado o Código de Defesa do Consumidor a determinada
relação se faz necessária a presença de três elementos de cunho consumerista:
sujeitos, objeto e finalidade.
Os sujeitos da relação jurídica de consumo estão definidos na Lei nº
8078/90, são eles o consumidor e o fornecedor.

75
O artigo 2º contém uma definição geral “consumidor é toda pessoa física ou
jurídica que adquire produto ou serviço como destinatário final”. Há aspectos
importantes a ressaltar: consumidor, para a Lei nº 8.078/90, não é apenas o
contratante, mas também o usuário de produtos ou serviços; no conceito de
consumidor também está compreendida a pessoa jurídica; equipara-se a consumidor
a coletividade de pessoas, ainda que indetermináveis pelo que se reconhece a
presença dos danos coletivos e difusos.
A definição de fornecedor se encontra no artigo 3º da referida Lei:
“fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou
estrangeira, bem como os entes despersonalizados, que desenvolvem atividades de
produção, montagem, criação, construção, transformação, importação, exportação,
distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços”.
O objeto da relação, por sua vez, está definido nos §§ 1º e 2º do artigo 3º. O
§ 1º define que “produto é qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial”, o §
2º determina que “serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo,
mediante remuneração, inclusive as de natureza bancária, financeira, de crédito e
securitária, salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista”.
O ponto central da questão diz respeito à finalidade dos contratos bancários,
pois estabelecido que consumidor é o destinatário final, há controvérsia sobre o
cliente bancário e a formação da relação de consumo. Na relação bancária e
financeira, surge o consumidor como tomador do crédito para utilização própria.
Portanto, está excluída a figura do intermediário no negócio. Por utilização própria
de recursos financeiros, entende-se qualquer resultado praticado com o crédito
recebido, pois, o crédito não é um fim em si próprio, mas instrumento para
intervenção na produção, funciona como elemento de troca, bem com o qual se
supre necessidades humanas
181
.
Enfoque especial é dado quando se tratar de pessoas jurídicas. O seu
enquadramento na categoria de consumidor dependerá da finalidade consignada à

181
TRuJlLL0, E|c|o. A oelesa oo consum|oor, a re|açáo conrrarua| oancar|a e o emµresar|o l|nance|ro |r
rllp://WWW.oo|el|rjur|d|co.cor.or/doulr|ra/lexlo.asp?|d=123 er 20.01.2009 21:51.

76
relação de consumo, isto é, qual o objetivo da contratação bancária, a parte do qual
será analisado pelo Poder Judiciário o grau de sua vulnerabilidade
182
.
No campo do fornecimento de crédito encontram-se os agentes financeiros –
que abrangem bancos, casas de crédito, cooperativas de crédito e financeiras – tais
espécies podem se enquadrar na categoria de fornecedores, pois os créditos por
eles disponibilizados seriam serviços e, portanto, se enquadrariam nos limites postos
no Código de Defesa do Consumidor
183
.
Empiricamente conclui-se que as pessoas físicas que tomam crédito o fazem
em benefício próprio. Já em relação à pessoa jurídica tal situação é diferente, a
presunção é de que o crédito seja utilizado em sua atividade negocial. Se o devedor
utilizar o crédito em benefício próprio, haverá relação de consumo submetida aos
parâmetros do CDC
184
.
Conforme Alberto do Amaral Júnior
185
, a expressão destinatário final
explicitada na definição de consumidor é o real elemento diferenciador das relações
do âmbito das relações civis e comerciais, expõe o autor “o que realmente distingue
o consumidor, e constitui motivo de proteção para o ordenamento jurídico, é a sua
não profissionalidade. Isso quer dizer que o traço essencial que caracteriza o
consumidor é a aquisição ou utilização de produtos ou serviços para fins não
profissionais”. Tal conceituação não se aplica quanto aos consumidores
equiparados.
Quanto às instituições bancárias, o Código de Defesa do Consumidor as
considera tanto fornecedor de serviços quanto de produto: o dinheiro. O afastamento
da aplicabilidade do CDC se baseia no entendimento que o dinheiro ou crédito não
podem ser utilizados pelo consumidor final por sua própria natureza, pois valores
monetários estão destinados à circulação. Neste ponto, o conceito de produto deve

182
FlL0VEN0, José 0era|do 8r|lo. Vanua| oos o|re|ros oo consum|oor. 3ao Pau|o, 3P, Ed|lora Al|as, 2001, pp 35-11.
183
VAR0uE3, C|áud|a L|ra. $oc|eoaoe oe |nlormaçáo e serv|ços oancar|os. Pr|me|ras Doservaçóes, |r Rev|sla de 0|re|lo
do Corsur|dor, rº 39, ju|ro/seleroro 2001, Rev|sla dos Tr|oura|s, pp-19-53
181
NERY Jr, Ne|sor. 0oo|go oe oelesa oo consum|oor. comenraoo µe|os aurores oo anreµro¡ero. R|o de Jare|ro: Forerse
ur|vers|lár|a, 2001, p. 1Zê.
185
AVARAL JuNl0R, A|oerlo do. As cono|çóes aous|vas na concessáo oe creo|ro oancar|o, |r rev|sla de 0|re|lo do
Corsur|dor, r 10, ouluoro - dezeroro de 2001, pp. 3ê-15.

77
ser ampliado, pois o consumidor utiliza o bem como meio para satisfação de suas
necessidades.
Podemos utilizar o conceito estabelecido no artigo 29 do CDC, o qual
estabelece que basta a mera exposição da pessoa às práticas comerciais e
contratuais, para que se esteja diante de um consumidor. Tal conceito está baseado
no enorme potencial danoso, de caráter coletivo ou difuso que a relação de consumo
pode causar
186
.
O legislador, ao conceituar os serviços submetidos à incidência da Lei nº
8.078/90, não regulou matéria reservada ao Sistema Financeiro Nacional conforme
artigo 192 do texto constitucional. Ao contrário concretizou o princípio geral da
atividade econômica e o direito fundamental de defesa do consumidor, imposto a
toda sociedade de acordo com o estabelecido no texto constitucional artigo 5º,
XXXII, 170 V e 48 do ADCT, onde não há menção à necessidade de edição de
norma legal de caráter complementar, a jurisprudência majoritária entende neste
sentido
187
. Ademais, a defesa do consumidor é direito fundamental e princípio de
ordem econômica, não há em qualquer momento o estabelecimento de imunidade
das pessoas jurídicas pertencentes ao Sistema Financeiro Nacional em relação à
submissão destes direitos.
Na prestação de serviços bancários de um lado figura o banco comercial
como fornecedor e de outro uma pessoa qualquer, física ou jurídica, como
consumidor que contrata com objetivo de destinatário final. Isto exposto, não pode

18ê
8ENJAVlN, Arlor|o lerrar de vascorce||os e. 0oo|go oe oelesa oo consum|oor. comenraoo µe|os aurores oo
anreµro¡ero.. R|o de Jare|ro: Forerse ur|vers|lár|a, 2001, p. 228.
18Z
RE3P 10ê888 / PR ; RECuR30 E3PEClAL 199ê/005ê311-ê Forle 0J 0ATA:05/08/2002 P0:0019ê Re|alor V|r. RE3P
38Z805 / R3 ; RECuR30 E3PEClAL 2001/01Z18ê2-8 Forle 0J 0ATA:09/09/2002 P0:0022ê Re|alor V|r. NANCY
AN0Rl0ll (1118) Ererla 0|re|lo oarcár|o e processua| c|v||. Recurso espec|a|. Re|açao de corsuro. Juros
rerureralór|os. TR. Cor|ssao de perrarèrc|a. Novaçao.3uru|a r. Z/3TJ.- 0s oarcos ou |rsl|lu|çoes l|rarce|ras, coro
presladores de serv|ços espec|a|rerle corlerp|ados ro arl. 3º, Ç 2º, eslao suorel|dos as d|spos|çoes do C0C.- Nas
operaçoes rea||zadas por |rsl|lu|çao |rlegrarle do 3|slera F|rarce|ro Nac|ora|, rao se ap||car as d|spos|çoes do 0ecrelo
rº 22.ê2ê/33 quarlo a laxa dos juros rerureralór|os. Ap||ca-se a 3uru|a r. 59ê/3TF aos corlralos de ruluo oarcár|o, a
exceçao das rolas e cédu|as de créd|lo rura|, corerc|a| e |rduslr|a|, reg|das por |eg|s|açao espec|a|.- E |ic|la a c|áusu|a
corlralua| que prevè o reajusle das parce|as rersa|s pe|a TR, desde que pacluada, oer coro de coorarça de cor|ssao
de perrarèrc|a, desde que rao curu|ada cor correçao rorelár|a, ru|la e juros roralór|os.- A rovaçao rao pode ser
d|scul|da er sede de recurso espec|a|, quardo arparada er ará||se do docurerlo própr|o, cors|derado coro decorrerle
de re|açao jurid|ca corl|ruada.- Aperas a cap|la||zaçao arua| de juros é vá||da, ros lerros do arl.1º do 0ecrelo-Le| rº.
22.ê2ê/33.0ala da 0ec|sao 2Z/0ê/2002 0rgao Ju|gador T3 - TERCElRA TuRVA.

78
haver qualquer dúvida, essa relação jurídica se caracterizará como relação de
consumo
188
.
Bancos são estabelecimentos comerciais que recolhem capital distribuído
sistematicamente com operações de crédito. Resultam como intermediários de
crédito, pois captam recursos de um lado – de quem tem disponível para
investimento – e fornecem de outro – para quem necessita de recursos financeiros –,
e fomentam, desta forma, a atividade econômica
189
.
E nesse movimento – tomar e ceder – é que os entes financeiros devem
respeitar os limites postos no Código de Defesa do Consumidor, pois, ao contrário
do que se pretendeu justificar, os entes financeiros se enquadram no controle
estabelecido, vez que o parágrafo 2
o
, do artigo 3
o
, do CDC, é bastante claro quando,
após definir o que é fornecedor no âmbito de seus limites, cuidou, ao referir-se ao
serviço, de estabelecer que é "qualquer atividade fornecida no mercado de
consumo, mediante remuneração, inclusive as de natureza bancária, financeira, de
crédito e securitária, salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista"
190
.
A corrente analisada defende que no ordenamento jurídico existe uma série
de normas de conduta auxiliares que definem atividades bancárias, financeiras e
securitárias, aprovadas por lei ordinária e que não foram consideradas
inconstitucionais. Por exemplo: na abertura de capital - Lei nº 6.404 ou Lei nº 6.385,
que são ordinárias, determinações do Imposto de Renda regulamentadas por lei
ordinária, também artigos do Código Civil que é leis ordinárias. A argumentação da
CONSIF é generalizada, pois nenhuma norma ordinária seja de conduta ou
reguladora poderia ser aplicada às instituições financeiras. Desta forma, nem o
Código de Defesa do Consumidor, nem o novo Código Civil aplicar-se-iam aos
bancos, financeiras, seguradoras, empresas de leasing e as demais integrantes do
Sistema Financeiro
191
.

188
EFlN0, Arlòr|o Car|os. 0onrraros e µroceo|menros oancar|os a |uz oo 0oo|go oe 0elesa oo 0onsum|oor.3ao Pau|o: Ed
RT, 1999. p 51.
189
0LlvElRA, Ce|so Varce|o de. 0oo|go oe oelesa oo c||enre oancar|o. Carp|ras: LZN, 2002, pp. 13-52.
190
VAR0uE3, C|áud|a L|ra. 0onrraros no coo|go oe oelesa oo consum|oor, vo| l. Rev|sla dos Tr|oura|s 1999, pp-19Z-20ê.
191
VAR0uE3, C|áud|a L|ra. Parecer |r WWW.pgr.rpl.gov.or er 0Z/10/2002 21:52.

79
Nas palavras de Cláudia Lima Marques; “o § 2º do artigo 3º é regra de
conduta auxiliar, definição legal a delimitar o campo de aplicação do CDC e que não
regula ou organiza o Sistema Financeiro Nacional, ao contrário como muitas outras
normas ordinárias, define o campo de aplicação de normas de condutas, estas sim
aplicáveis às condutas das Instituições Financeiras.
192
” E, não haveria necessidade
de lei complementar para regular as relações de consumo como efetuado através da
Lei nº 8.078/90, pois seu objeto não é o Sistema Financeiro Nacional, mas sim as
relações de consumo desenvolvidas dentro deste sistema
193
.
No tocante a relações de consumo é incontroverso que têm como objeto os
produtos e serviços colocados no mercado à disposição dos consumidores. Crédito
é produto colocado à disposição no mercado, não há necessidade de destruição do
bem para que o mesmo seja consumido, há consumo de imagens, idéias, fazeres e
serviços. Desta forma, tanto o dinheiro quanto o crédito são produtos
economicamente relevantes e sua comercialização deve ser submetida aos ditames
da Lei nº 8.078/90. Os complexos serviços bancários encontram-se incluídos dentre
os serviços valorados no mercado de consumo, são oferecidos a consumidores
leigos que necessitam da proteção estatal por se enquadram em situação vulnerável
ante o fornecedor, qual seja a instituição financeira
194

Em resumo, este é o fundamento utilizado pelos defensores da
aplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor às relações bancárias. Os
agentes financeiros já apontados, efetivamente, se enquadrariam como
fornecedores e, em tais limites, devem, ao proporcionar o serviço – diversos créditos
– atentar para as disposições de proteção mesmo porque, se assim não agirem,
proporcionarão ao contratante lesado, o direito de pedir a declaração de nulidade de
cláusula por abusividade e, conseqüentemente, a intervenção do Estado na
relação
195
.

192
VAR0uE3, C|áud|a L|ra. Parecer |r WWW.pgr.rpl.gov.or er 0Z/10/2002 21:52
193
0ERANl, Cr|sl|are L|ra. Parecer |r WWW.pgr.rpl.gov.or er 0Z/10/2002 21:59
191
VAR0uE3, C|áud|a L|ra. Parecer |r WWW.pgr.rpl.gov.or er 0Z/10/2002 21:52
195
R03A, Jos|rar 3arlos. Re|açóes oe consumo., 3ao Pau|o, Ed|lora Al|as, 1995, p. êZ-80.

80
5.4. A ação direta de inconstitucionalidade 2591 - ADI 2591 e as Sumulas
STJ 379, 380 e 381
A Confederação Nacional do Sistema Financeiro – CONSIF, entidade
sindical que congrega a Federação Nacional dos Bancos, a Federação Nacional das
Empresas Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, a Federação Interestadual
das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimentos, e a Federação Nacional
das Empresas de Seguros Privados e Capitalização, através de seus advogados
constituídos, os renomados juristas Arnaldo Wald, Ives Gandra S Martins e Luiz
Carlos Bettiol, ajuizou ação direta de inconstitucionalidade contra parte do texto
constante do texto da Lei nº 8.078/90, qual seja a expressão “inclusive as de
natureza bancária, financeira, de crédito e securitária” constante do artigo 3º § 2º da
referida lei.
Tal ação objetivou a declaração de inconstitucionalidade formal e material do
texto, como fundamento em resguardar interesses dos clientes e investidores que
confiam sua poupança ao Sistema Financeiro, de modo a evitar conflitos judiciais por
falta de definição por parte do judiciário sobre a legislação que se aplica aos
contratos bancários.
No entendimento da CONSIF, a aplicação da Lei nº 8.078/90 às instituições
financeiras causa enorme perturbação ao Sistema Financeiro Nacional. Argumenta
que o artigo 192 do texto constitucional determinou que a regulamentação do
Sistema Financeiro Nacional será feita por lei complementar, e o Código de Defesa
do Consumidor é lei ordinária, portanto a ele inaplicável. E, além disto, por ocasião
do julgamento da ADIn 4, restou definido que a Lei nº 4.595/64 foi recepcionada com
o status de lei complementar e que, por este motivo estaria regulamentando o
referido artigo 192, auxiliada pelas resoluções do Banco Central do Brasil.
No direito brasileiro, a Constituição de 1988 distingue dois regimes em
relação ao contratante que não é profissional. O regime comum assegura a
proteção, por lei ordinária, dos direitos do consumidor, considerados como direitos
individuais (artigo 5, XXXII) e consagrados no capítulo referente à ordem econômica
(artigo 170, V). Diferentemente, o regime dos bancos, que abrange as relações com
os seus clientes, está previsto no capítulo referente ao Sistema Financeiro Nacional,
e deve, em virtude de determinação constitucional, ser regido por lei complementar

81
(artigo 192). A diferença básica entre as leis ordinária e complementar decorre do
fato de a última estar prevista constitucionalmente e necessitar de aprovação por
maioria absoluta do Congresso Nacional, enquanto a primeira dispensa previsão
constitucional e nela basta que a votação seja por maioria simples.
Trata-se de uma distinção formal, mas que se reveste de grande
importância, pois a Magna Carta estabelece que as modificações do Sistema
Financeiro só podem ser feitas por lei complementar, e a Corte Suprema neste
sentido decide, razão pela qual, inclusive, não se aplica aos bancos a Lei da Usura.
Por outro lado, a lei que rege o Sistema Financeiro Nacional - Lei nº 4.595/64,
concede poderes ao Conselho Monetário Nacional - CMN para definir a política
monetária e, conseqüentemente, para baixar Resoluções, com o objetivo de regular
o funcionamento dos bancos e o modo pelo qual as suas operações podem ser
realizadas com os seus clientes. A constitucionalidade de tal poder do CMN já foi
reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal.
Na realidade, as operações financeiras se distinguem dos demais negócios
jurídicos de natureza comercial, pois abrangem a moeda e o crédito, que não são
bens e serviços equiparáveis aos demais. Uma empresa comercial ou industrial
vende para o consumidor um bem que é seu e que, normalmente, perderá valor
gradativamente depois de vendido. No caso de um serviço, seu valor, ainda que seja
importante para quem o receba, na maioria dos casos tem pouco ou nenhum valor
de revenda. Já o dinheiro que o banco empresta não é seu, mas do investidor a
quem deve ser devolvido integralmente acrescido de juros. O banco é apenas um
intermediário que só terá a confiança de poupadores e de investidores, se for capaz
de captar e emprestar com eficiência. No entanto, a aplicação do CDC aos casos
concretos transparece a necessidade de proteção ao consumidor/cliente bancário
196
.

19ê
RE3P 5Z9Z1 / R3 ; RECuR30 E3PEClAL 1991/0038ê15-0 Forle 0J 0ATA:29/05/1995 P0:15521 JTAR3 v0L.:0009Z
P0:00103 Re|alor V|r. RuY R03A00 0E A0ulAR (1102) Ererla C00l00 0E 0EFE3A 00 C0N3uVl00R. 8ANC03.
CLAu3uLA PENAL. LlVlTAÇA0 EV 10º. 1. 03 8ANC03, C0V0 PRE3TA00RE3 0E 3ERvlÇ03 E3PEClALVENTE
C0NTEVPLA003 N0 ARTl00 3., PARA0RAF0 3E0uN00, E3TA0 3u8VETl003 A3 0l3P03lÇ0E3 00 C00l00 0E
0EFE3A 00 C0N3uVl00R. A ClRCuN3TANClA 0E 0 u3uARl0 0l3P0R 00 8EV RECE8l00 ATRAvE3 0A
0PERAÇA0 8ANCARlA, TRAN3FERlN00-0 A TERCElR03, EV PA0AVENT0 0E 0uTR03 8EN3 0u 3ERvlÇ03,
NA0 0 0E3CARACTERlZA C0V0 C0N3uVl00R FlNAL 003 3ERvlÇ03 PRE3TA003 PEL0 8ANC0. 2. A
LlVlTAÇA0 0A CLAu3uLA PENAL EV 10º JA ERA 00 N0330 3l3TEVA (0EC. 22.92ê/33), E TEV 3l00 u3A0A PELA
JuRl3PRu0ENClA 0uAN00 0A APLlCAÇA0 0A RE0RA 00 ARTl00 921 00 CC, 0 0uE V03TRA 0 ACERT0 0A

82
A ADI 2591 teve longo trâmite no Supremo Tribunal Federal e culminou com
o entendimento da corte por sua improcedência, o que restou no posicionamento de
que o Código do Consumidor não interfere na estrutura institucional do Sistema
Financeiro Nacional, este sim regulado por lei complementar, conforme previsto no
texto constitucional artigo 192.
Tal julgamento confirmou o entendimento do Superior Tribunal de Justiça e
de outros tribunais. O STJ em 09.09.2004 editou a súmula 297 com a seguinte
redação: “O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às instituições
financeiras”. A súmula reflete o entendimento do tribunal cujos argumentos
destacamos de forma resumida: (a) a remuneração indireta dos bancos por meio do
uso que estes fazem do dinheiro dos poupadores; (b) a previsão expressa da
incidência no §2º, do art. 3º do CDC; (c) o afastamento da norma consumerista
deixaria ao desamparo clientes e usuários de serviços bancários.
Recentemente o STJ, com o fim de agilizar os processos sobre contratos
bancários, editou as súmulas 379, 380 e 381 a respeito do tema. Os três textos
foram apresentados pelo ministro Fernando Gonçalves. A Súmula 379 limita os juros
moratórios mensais de contratos bancários. O texto da Súmula 380 – esclarece uma
questão que tem sido trazida repetidamente aos ministros do STJ: a simples
propositura da ação de revisão de contrato não inibe a caracterização da mora do
autor. A Súmula 381, por sua vez, trata do reconhecimento de abusos em contratos.
Vejamos os textos: Súmula 379: “Nos contratos bancários não regidos por legislação
específica, os juros moratórios poderão ser fixados em até 1% ao mês”. Súmula 380:
"A simples propositura da ação de revisão do contrato não inibe a caracterização da
mora do autor". Súmula 381: “Nos contratos bancários, é vedado ao julgador
conhecer, de ofício, da abusividade das cláusulas”.

RE0RA 00 ARTl00 52, PARA0RAF0 1., 00 C00EC0N, 0uE 3E APLlCA A03 CA303 0E V0RA, N03 C0NTRAT03
8ANCARl03. RECuR30 NA0 C0NlECl00. 0ala da 0ec|sao 25/01/1995 0rgao Ju|gador T1 - 0uARTA TuRVA.

83

CONCLUSÃO
O contrato é o instrumento concretizador das relações obrigacionais, surgiu
baseado nos princípios clássicos liberais - liberdade contratual, obrigatoriedade dos
contratos e relatividade subjetiva – expressos pela preponderância da autonomia
privada como elemento essencial da regulação estatal. As relações estabelecidas
neste contexto foram eivadas pela desigualdade entre as partes, o que resultou na
necessidade de intervenção estatal.
As bases para contratar evoluíram, o contrato passou a ter cunho social com
respeito prioritário da sociedade para depois atingir objetivos particulares nos limites
estabelecidos pelo Estado. Tal modificação está presente não apenas no momento
de sua formação, mas “a posteriori” em sua manutenção, com fundamento neste
momento na supremacia da ordem pública, boa-fé objetiva, e na cláusula “rebus sic
standibus”.
As relações de consumo, como obrigações que são, firmam-se por contrato
em suas diversas categorias, dente elas podem ser formais ou não formais. São
relações obrigacionais diferenciadas dentro do gênero, pois nelas está implícita a
desigualdade das partes, o que demanda maior intervenção por parte do Estado. Em
decorrência desta particularidade, o legislador constituinte estabeleceu a
necessidade de elaboração de legislação regulamentadora de tais relações.
Para cumprir a disposição constitucional, foi elaborado o Código de Defesa
do Consumidor - Lei nº 8.078/90, que tem eficácia plena na atualidade, no qual estão
elencados conceitos e procedimentos a serem adotados e princípios gerais a serem
seguidos nas relações de consumo: tutela do vulnerável, boa-fé objetiva,
publicidade, equidade contratual e dirigismo contratual público.

84
O volume das relações de consumo, estabelecidas sob a ótica dos novos
princípios, teve acréscimos quantitativos significativos, pois qualquer pessoa pode
contratar. Tal fato resultou em relações massificadas e, diante da nova realidade
obrigacional, surgiu inovação no campo contratual: a padronização dos contratos
padronizados. Em contratos de tal natureza o contratante participa apenas por meio
de aposição de sua assinatura no instrumento, sem possibilidade de discussão
sobre as especificidades do contrato, vez que ao consumidor resta anuir ou não a
respeito do que foi previamente estabelecido, tais contratos formaram a categoria de
contratos de adesão. Muitos destes contratos são firmados em instituições
financeiras, as quais comercializam produtos e serviços, dentre eles o mais
importante e merecedor de destaque: o “crédito”. Há todo um aparato estatal em
volta deste elemento por sua importância no cenário econômico.
Os bancos têm papel relevante, neste aspecto, como intermediadores de
crédito que são, estimulam a poupança e o endividamento, proporcionam a
interligação entre poupadores e investidores, pois o crédito oferecido é fruto da
poupança obtida de terceiros. Para regulação do cenário foi instituído o Sistema
Financeiro Nacional, conjunto de instituições e instrumentos financeiros que viabiliza
a transferência de recursos dos ofertadores para os tomadores, proporciona liquidez
no mercado, circulação de riquezas e a manutenção e incremento da produção.
Encontramos, desta forma, a conjunção de fatos extremamente importantes
no âmbito jurídico, as relações de consumo e as relações bancárias. As relações de
consumo movem a produtividade e geram riqueza, pois apenas há necessidade de
produção se houver demanda a ser preenchida, em obediência às leis gerais da
demanda e da oferta. Para a conclusão da relação de consumo, no entanto, não
bastam demanda e oferta, há necessidade de recursos financeiros que viabilizem a
aquisição dos produtos e serviços.
Diante disto, surge um terceiro como intermediador da relação, que transpõe
o recurso de um pólo a outro, ou seja, move os recursos dos poupadores para os
investidores, mediante remuneração, este é o papel das instituições financeiras. Da
necessidade pelo crédito surgem questões problemáticas, pois o consumidor
creditício encontra-se em posição vulnerável, está submetido às imposições das
instituições financeiras, com o intuito de obtenção do recurso demandado, é

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praticamente impossível que estabeleça uma relação contratual baseada no
equilíbrio. Desta forma, está presente a necessidade de intervenção estatal, no
sentido de proteger o hipossuficiente e promover o equilíbrio da relação.
Na relação bancária o cliente assume a posição de consumidor de produtos
e serviços, utiliza-os como destinatário final até mesmo quando se trata de crédito.
Pois, por utilização própria, há de se entender a utilização e qualquer resultado
praticado com o crédito recebido, já que o crédito não é um fim em si próprio
funciona como elemento de troca, instrumento que proporciona o suprimento das
necessidades humanas. No pólo ocupado pelo fornecedor, estão presentes as
instituições financeiras vez que disponibilizam serviços e produtos a clientes.
Quando se trata do fornecimento de crédito, destacamos que a figura da relação de
consumo apenas estaria afastada se o contratante buscar o recurso financeiro para
fornecer a terceiros. O dinheiro não é um produto-fim, é considerado bem
juridicamente consumível, apesar de, em sua forma econômica, circular sem
destruição, pode ser considerado produto ou serviço conforme o enfoque, produto
negociado pelas instituições, serviço que se expressa através do fornecimento de
crédito, tal questão não influi nas conclusões.
As atividades desempenhadas pelas instituições financeiras, aí incluídos os
estabelecimentos bancários oficiais e privados, sociedades de crédito, financiamento
e investimento, associações de poupança e empréstimo dentre outras, se
enquadram no conceito de fornecedor de produtos e serviços. A comercialização de
produtos como também a prestação de serviços não enseja dúvidas quanto ao
enquadramento da relação como de cunho consumerista. No entanto, a questão não
parece ser tão clara, no que se refere à concessão do crédito, pelas peculiaridades
que a cercam, pois é sabido que dinheiro é bem fungível por excelência, que não se
consume em si próprio, é instrumento necessário para aquisição de bens e serviços
demandados. Serviços bancários são considerados como relação de consumo,
tendo em vista as circunstâncias que se seguem: são remunerados; são oferecidos
de forma despersonalizada, ampla e geral; os tomadores de tais serviços são
vulneráveis; há habitualidade e profissionalismo em sua prestação.
A posição vulnerável do cliente bancário exige proteção estatal, os bancos
não se resumem a viabilizadores de crédito, prestam serviços e vendem produtos, e

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as práticas comerciais bancárias têm se mostrado abusivas, sendo que o próprio
BACEN admite a necessidade de fiscalização do consumo, o que resulta na edição
de resoluções para regulamentação de tais questões, a exemplo – o CDC Bancário
– Resolução nº 2878/01 e a atualíssima Resolução 3.694/09. Tais normas são
compatíveis com os ditames do Código de Defesa do Consumidor, vez que
positivam direitos, obrigações e procedimentos a serem adotados nas relações
bancárias
A jurisprudência, mesmo anteriormente ao julgamento pela improcedência
da ADI 2591 vinha aplicando de forma pacífica a Lei nº 8.078/90 às relações
contratuais bancárias. Precedentes do Superior Tribunal de Justiça: RESP
364014/RS, RESP 106888/PR, RESP 57974/RS, entre outros. As normas
estabelecidas no Código de Defesa do Consumidor não tocam em questões que
venham a regulamentar, organizar ou instrumentalizar o Sistema Financeiro
Nacional. Tratam exclusivamente da defesa do consumidor, e neste sentido regulam
contratos, marketing, direitos dos clientes, atos abusivos dentre outros itens.
A relação de consumo é claramente visualizada, mesmo que o cliente não
se enquadre na definição de consumidor adotada pela Lei nº 8.078/90, artigo 2º, tal
norma ampliou consideravelmente o conceito através da posição adotada no artigo
29, no qual qualquer pessoa que esteja exposta a uma relação de consumo é
equiparada ao consumidor. O conceito de fornecedor está firmado da forma mais
ampla possível. E, além dos demais produtos e serviços comercializados e
prestados pelos bancos, dinheiro e crédito enquadram-se como objeto da relação de
consumo.
Uma vez que a relação de consumo esteja identificada, haja a observância
constitucional dos preceitos de reserva legal à regulamentação do Sistema
Financeiro Nacional, e a tutela do vulnerável estabelecida através do dirigismo
público esteja presente, estão identificados elementos indispensáveis para a
aplicação da Lei nº 8.078/90 nas relações contratuais bancárias. Há de se observar
as peculiaridades da relação para não penalizar erroneamente seus participantes,
como as situações regulamentadas pela Lei nº 4.595/64 sobre as quais não deve
incide a legislação consumerista.

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Por todo o exposto é aplicável o Código de Defesa do Consumidor às
relações contratuais bancárias, preservadas as matérias reservadas em legislação
específicas, de forma a respeitar os princípios introduzidos pelo Código, quais
sejam: a boa fé e a justiça contratual. Com tal perspectiva encontra-se relativizado o
principio do pacta sunt servanda, o que resulta em ampliação do campo destinado à
justiça contratual, a tutela da confiança e da boa fé e por fim limitação de eventuais
desvios na relação contratual de consumo bancário.

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