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A PSICANÁLISE E A DETERMINAÇÃO DOS F A T O S N O S P R O C E S S O S JURÍDICOS (1906) Sigmund Freud SENHORES: E s t a mo s c a da v e z m a i s co nv i c to s d a f a l t a de f i d e di g ni d a d e da s d e cl a r a çõ e s f ei ta s po r testemunhas

, sobre as quais, entretanto, se apoiam tantas condenações nos tribunais. Essef a t o l e v o u - o s futuros juízes e defensores, a se interessar por u m m é t o d o d e investigação, que se propõe a induzir o próprio réu a estabelecer sua culpa ou inocência por meio de sinais objetivos. Esse método consiste numa experiência psicológica e se baseia em pesquisas da mesma ordem. Está estreitamente ligado a certas concepções que só muito recentemente chegaram ao conhecimento da psicologia médica. Sei que os senhores, por m e i o do q ue po der í a m o s c h a m a r d e ‘e x er cí c i o s s i mu l a d o s ’, j á s e o cu p a m e m t es ta r a s possibilidades e a utilização desse novo método, e aceitei com prazer o convite do professor Löffler, que preside este seminário, para explicar-lhes de forma completa a relação entre esse método e a psicologia. Todos conhecem aquele jogo de salão, também apreciado pelas crianças, em que alguém d e v e a cr es ce n ta r a u m a pa l a v r a es co l hi d a a o a c a s o uma o ut r a , s e n do o r e s u l t a do u m a palavra composta; por exemplo ‘seta‘ (vapor) e ship‘ (navio), dando ‘ steam-ship‘ (navio a vapor). A ‘experiência de associação’ introduzida na psicologia pela escola de Wundt nada mais é do que uma modificação desse jogo infantil, do qual se suprime uma regra. A experiência é a seguinte: apresenta-se uma palavra (denominada ‘palavra -estímulo ’) ao i n d i v í d uo q ue s e es tá s u bm e te n do à ex pe r i ê n ci a e el e d e v er á r es po nd er co m u ma o utr a palavra (denominada ‘reação’) o mais depressa possível, não havendo nenhuma restrição em sua escolha dessa reação. Devem ser observados os seguintes detalhes: o tempo exigido para a ‘reação’ e a relação— que pode ser de diversos tipos — entre a palavra-estímulo e a p a l a v r a - r ea çã o . C o mo er a d e es pe r a r , es s a s ex p er i ê nc i a s nã o pr o du z i r a m i ni ci a l me n t e muitos frutos, tendo sido realizadas sem uma finalidade definida e sem uma diretriz pela qual se pudessem avaliar os resultados. Essas ‘experiências de associação’ só se tornaram significativas e proveitosas quando, em Zurique, Bleuler e seus discípulos, especialmente Jung, começaram a lhes dedicar atenção. O valor das experiências realizadas pelo grupo deriva-se de terem partido da hipótese de que a reação à palavra-estímulo não podia ser fruto do acaso, mas devia ser determinado pelo conteúdo ideativo presente na mente do sujeito que reagia. Habituamo-nos a denominar de ‘complexo’ todo conteúdo i d e a t i v o q u e é c a p a z d e influenciar a reação à palavra-estímulo. Essa influência ocorre quando a palavra-estímulo toca diretamente o complexo, ou quando o complexo estabelece contato com a palavra a t r a v és d e el o s i n ter m ed i á r i o s . A d et er mi na ç ã o d a r e a çã o é r e a l m e n te u m f a to mu i to s i n g ul a r , e a l i t er a t ur a do a s s u nto r ef l e te o i n di s f a r çá v el a s s o m br o q ue a m es ma t e m provocado. Mas não há como duvidar de sua veracidade, pois, via de regra, perguntando ao próprio sujeito as razões de sua reação, é possível expor o

e r a a pr ó pr i a pes s o a s u bm e ti da a ex a m e q u e no s ex pl i c a v a a origem de suas reações. que veio a ser expresso através dessas palavras-estímulo. nós mesmos. Senhores.no s j us ti f i c a do s e m i n f er i r da s descobertas da psicopatologia da vida cotidiana que as ideias que ocorrem ao sujeito numa experiência de associação podem também não ser arbitrárias. Será acaso possível deduzir da maneira pela qual a mesma reage se o complexo escolhido também existe nela? Podem ver os senhores que essa forma de planificação da experiência corresponde . voltemos a examinar a experiência de associação. considerando-se ou o a ou o b como o x p r o cu r a d o ? A té a g o r a e m no s s a s e x p er i ê n ci a s a i nc ó g ni ta te m s i do o Complexo. o h á b i t o d e b r i n c a r o u d e m a n u s e a r u m o b j e t o . os lapsos de língua e de escrita. contribuindo assim. um colega. ex a m i ne i p e qu e no s a to s a pa r e nt em e n te ca s ua i s e g r a tu i to s — po r e x e m p l o . circunstância que subtrai dessas experiências qualquer interesse judicial. e o u t r o s s e m e l h a n t e s — e demonstrei que são ‘atos sintomáticos’. que alterou o sentido da fala intencionada sob a forma aparente de um lapso de l í ng ua . No tipo de experiência a que a t é a g o r a n o s r ef er i mo s . Escolhemos a esmo as palavras-estímulo. Descobri que nem mesmo um prenome nos vem à m e n te de f o r m a a r b i tr á r i a .complexo atuante e esclarecer r e l a çõ es q ue d e o u t r o mo do nã o s er i a m i n tel i g í v ei s .9 ) f a z e m n o s du v i da r da i n ci d ên ci a d a ca s ua l i da de no s ev e nto s mentais ou de sua pretensa arbitrariedade. Mas agora vamos abordar a questão de forma diversa. te n do s i do s ua es co l ha d e te r m i n a da p o r a l g um po d er o s o complexo ideativo. e o sujeito submetido a exame revelou-nos complexo. Até mesmo números que acreditávamos ter escolhido ao acaso podem s er r e l a ci o na do s c o m a i nf l u ên ci a d e u m co m pl ex o o c ul to d es s a es pé c i e. nem uma simples dificuldade de articulação. A l é m di s s o . ligados a um sentido oculto e cuja finalidade é expressar discretamente esse sentido. mas que e m t o d o s o s c a s o s po demo s d es co br i r u m co n t e ú do i d ea ti v o p e r t ur ba do r . a esse complexo com palavras-estímulo deliberadamente escolhidas. Depois que nos habituamos a essa co nc e p çã o do d et er m i ni s mo na v i da p s í q ui ca . em certo grau. pôde corroborar essa minha singularíssima afirmação com alguns exemplos notáveis (Adler. Mas o que sucederia se alterássemos a planificação da experiência? Não se poderia adotar processo semelhante ao da resolução de uma equação com várias grandezas. Façamos agora um breve exame dos antecedentes dessa concepção de Bleuler e Jung deque a reação do sujeito submetido a exame é determinada pelo seu complexo. o Dr. Vamos tomar um complexo conhecido e reagir. P o uco s a no s depois disso. Alfred Adler. para limitar o fator arbitrário em psicologia. nem a semelhança no som. 6 e 8 . s e n t i mo . transferindo então o x para a pessoa que está reagindo. Publiquei em1901 uma obra na qual demonstrei serem de determinação rígida toda uma série de atos que se acreditava imotivados. u m complexo. e o extrativo de objetos. E x e m pl o s co mo o s q u e J un g no s a pr es en ta ( 1 9 06 . mas determinadas por um conteúdo ideativo nele atuante. Usei como exemplos as pequenas falhas de memória. Mostrei que o responsável por um lapso de língua não é o acaso. i s to é . 1905). em que se pode optar por qualquer uma como ponto de partida.

’ Sei que no momento os senhores se ocupam das potencialidades e das dificuldades desse processo. Diante do espanto dos senhores. j u i z. As suas próprias experiências já os levaram a concluir da necessidade de considerar vários pontos nas reações do sujeito para determinar se o mesmo possui o complexo ao qual os senhores estão reagindo com suas palavras-estímulo. do i s d i s c í p u l o s d e H a n s G r o s s . te m co nh e ci m e n to .es tí m u l o nã o c r í t i ca s . ou de todas elas. o que requer explicação. Esses pontos são os seguintes: (1) O conteúdo da reação pode ser incomum. ao ser atingido por uma palavraestímulo — palavra-estímulo ‘crítica’ — . há mais de uma década. p a r e c e m t e r s i d o o s primeiros a introduzir essa modificação. p r o f e s s o r d e d i r e i t o p e n a l e m P r a g a . devo estabelecer primeiramente uma analogia entre o criminoso e o histérico. na planificação das experiências. cuja finalidade é levar o acusado a uma auto traição objetiva. nesse caso é muito provável que o sujeito substitua a sua primeira reação por outra. po i s pa r e ce q u e a s p a l a v r a s e s t í m ul o q ue to ca r a m o co m pl ex o produzem uma reação apenas após considerável intervalo (intervalo que pode ser muito maior que o tempo de reação comum). assim. gostaria de chamar-lhes a atenção para o fato de que um método semelhante para trazer à tona material psíquico encoberto ou secreto vem sendo utilizado. Se o sujeito submeteu-se a uma experiência de associação com uma lista bastante longa de palavras-estímulo. Quando um complexo é despertado. na verdade. o p r o l o n g a me n to d o te m po d e r ea ç ã o ) per s i s t e m e m o di f i ca m a s r e a çõ es d o s uj ei to a n te a s pr ó x i ma s p a l a v r a s . Portanto. tão importante para os propósitos dos senhores. A pr es en ç a de v á r i a s d es s a s circunstâncias. Em ambos defrontamos comu m . ele reproduzirá as mesmas reações anteriores. com frequência os efeitos disso (por e x em pl o . e se depois deum curto espaço de tempo essa lista for-lhe novamente apresentada. (2) O tempo de reação p o de s er pr o l o ng a do . em sua qualidade de a g e n te . salvo nos casos em que a palavrae s t í m u l o a t i n g i u u m complexo. O método denomina-se ‘psicanálise’. W er th ei m er e K l e i n. Os senhores já conhecem o significado desse fato singular. Tal perturbação significa que na mente do sujeito o complexo está catexizado com afeto. em um outro campo. sendo capaz de desviar sua atenção da tarefa de reagir. vê-se nessa perturbação uma ‘auto traição psíquica. a l g um a co i s a de q ue el e . muito diverso deste dos senhores. Refiro-me à terapia empregada em certas ‘doenças nervosas’ — conhecidas como psiconeuroses — das quais são exemplo a histeria e as ideias obsessivas. (3) Pode haver um engano na reprodução da reação. (4) O fenômeno da perseveração (ou talvez seja melhor empregar o termo ‘ efeito secundário ’) pode ocorrer. comprova que o complexo conhecido está presente como fator perturbador na pessoa que está sendo interrogada. Pretendo expor-lhes as semelhanças e as diferenças entre as condições desses dois campos. O campo que tenho em mente é.exatamente ao método adotado pelo juiz de instrução ao tentar descobrir se o acusado também conhece. e m pr e g a do pe l a primeira vez por Josef Breuer em Viena. f o i po r m i m d es e nv o l v i do a p a r ti r do mé to do ‘ c a t á r t i co ’ de ter a p i a .

nós a encaramos como o sinal mais importante dessa conexão. ou era totalmente sem sentido. de tal modo que não representam qu a l q u e r p a p e l e m s e u p e n s a m e n t o . Depois que o paciente nos fez um primeiro relato de sua história. partimos da hipótese. e para isso inventamos vários estratagemas detetivescos. Limitar-me-ei a indicar que o conceito de resistência é da maior importância na compreensão da origem de uma enfermidade assim como do mecanismo de sua cura. através de laboriosas pesquisas. homens da lei. é fundamental diferença entre o criminoso e o histérico. que se faz notar durante todo o curso do tratamento. Temos de descobrir material psíquico oculto. Como é possível tal coisa? Ora. c o m s e u ‘ co m p l ex o ’ — . entretanto. Como veem. é a mesma do juiz de instrução. procedemos na psicanálise.s eg r e do . A essa altura. assim como dos desejos que delas se originam. estão prestes a copiar de nós. tudo o que lhe vier à cabeça. ou não era pertinente. a nosso ver. pedimos-lhes que se abandone aos pensamentos que lhe ocorrerem espontaneamente e que diga. Cada hesitação dessa espécie é. Na verdade. a l g um a c o i s a o c ul ta . e indica uma conexão com o ‘complexo’ . de v o e m s eg ui da apontar a diferença. uma expressão de sua resistência. Embora tenhamos instruído o paciente a obedecer à regra de comunicar todos os pensamentos que lhe ocorrerem. sabemos que todas essas enfermidades resultam do êxito obtido pelo paciente na repressão de certas ideias e lembranças fortemente cartelizadas com afeto. O criminoso conhece e oculta esse segredo. os médicos. permanecendo assim desconhecidos para ele. Mesmo quando o paciente não mais se atreve a infringir a regra que lhe foi imposta. d e qu e es s es p en s a m en to s es p o nt â neo s n ã o s er ã o escolhidos de forma arbitrária. alguns dos quais parece que os senhores. Logo c o m e ça a r et er pe ns a m e nto s . po i s a pr es e n ça d es s a cr í ti c a demonstra que o pensamento pertence ao ‘complexo’ que procuramos descobrir. ou faz pausas ao reproduzir suas ideias. exatamente como nos casos dos senhores a prolongação análoga do tempo de reação. Ser-lhes-á profissionalmente interessante saber como nós. mesmo quando . sem qualquer reserva crítica. insistimos qu e o r ev e l e e o a co mp a n he . mas determinados pela relação com seu segredo — isto é. os senhores não observam diretamente críticas como essas das idéias espontâneas do sujeito. Nesse aspecto. Vemos nesse comportamento do paciente uma manifestação da ‘resistência’ nele presente. n ã o p e n e t r a m e m s u a c o n s c i ê n c i a . a d es pei to des s a s o bj e çõ es . n ã o co mp a r ti l ha d a pe l o p a ci e n te. da mesma forma que uma consciência culpada. enquanto o histérico não conhece esse segredo. Habituamo-nos a interpretar desse modo qualquer hesitação. O s s e n ho r es o bs er v a r ã o qu e es s a h i p ó t es e é s em el ha n te à q ue o s a ux i l i o u a i n ter pr e ta r a s experiências de associação. da n do v á r i a s r a zõ es p a r a i s s o : o u o pe ns a m e nto n ã o er a importante. É desse material psíquico reprimido (desses ‘complexos’) que derivam os sintomas somáticos e psíquicos que atormentam o paciente. portanto. notamos que de vez em quando hesita ou se cala. ao passo que em nossas psicanálises podemos observar todas as indicações de um complexo que se dão a conhecer. po d en d o s er e n ca r a do s co mo d e r i v a do s d es s e c o m pl ex o . Em suas experiências. P a r a nã o i n co r r e r n u m p a r a do x o . ele não parece capaz de o fazer. A tarefa do terapeuta. i s t o é . que está oculto para ele mesmo.

ev i t a mo s t a i s i n t er f e r ên c i a s e m a nt e mo s o p a ci e n te o c u pa do co m o co m pl ex o . ou então omitidos. tudo aquilo de que necessitamos para descobrir o complexo. Afinal. e nesses casos empregamos uma regra. f i ca mo s à es pr e i t a d e o bs e r v a çõ es po r ta do r a s de q u a l q ue r ambiguidade. a l t e r a ç õ e s — n a reprodução [da reação] ) também é utilizado. podem então o bs er v a r que a l g u ma s v ez es . na técnica da psicanálise. el e co nt i n u a o cu pa do c o m o c o mp l ex o . técnicas como as que descrevi permitem-nos tornar o paciente consciente do que nele está reprimido. O t e r c e i r o d o s s e u s i n d í c i o s d e u m c o m p l e x o ( e n g a n o s — i s t o é . não poderemos observar esse fenômeno como uma ocorrência isolada. embora num setor mais restrito. o paciente acostuma-se a nos revelar. não devem os senhores concluir que se esgotaram os pontos de concordância que estivemos examinando. quando muito. um sentido oculto. porém. que consiste em fazer com que o sonhador torne anos contar seu sonho. Essa aparente divergência deriva-se apenas das condições especiais das suas experiências. a tradução do conteúdo lembrado de um sonho para o seu sentido oculto. E m ps i c a n á l i s e . Uma tarefa que frequentemente se nos apresenta é a interpretação de sonhos — isto é. p o r a s s i m di ze r . nas quais transparece. É justamente a esses pontos reproduzidos erroneamente. em geral ele modifica em alguns pontos sua maneira de expressar-se. isto é. tudo. assim r e mo v e n do a c a us a ç ã o ps i co l ó g i ca do s s i nto ma s d e q ue e l e s o f r e. que nos prendemos. como sinal de algum sentido oculto. em princípio. Por fim. Podemos com justiça afirmar que. do seu segredo. pois essa imprecisão i n di ca u m a co nex ã o c o m o co m pl ex o e pr o m et e o m el h o r a ces s o a o s e n ti do s ec r e to do sonho. descoberta empiricamente. temos razão. e nos dispomos a ser ridicularizados por eles ao fazermos interpretações n es s e s e nti do . embora repetindo com fidelidade todo o resto. p o i s n e l a s n ã o s e d á t e m p o p a r a q u e s e desenvolva o efeito do complexo. Via de r e g r a . provavelmente inocente. é perseveração. Nesse mister. mas também colegas médicos. Algumas vezes não temos certeza por onde devemos começar essa tarefa. S e e u a g o r a a dm i t i r p a r a o s s e nho r es q ue e m ps i c a n á l i s e n ã o s e m a n i f es ta f enô m e no semelhante à perseveração. Em geral também encaramos os menores afastamentos das formas comuns de expressão. quando os senhores distraem a atenção do sujeito com uma nova palavra-estímulo. quase sempre. Sua ação apenas começou. em nossos pacientes. a s p a u s a s q u e ocorrem na psicanálise são muito mais prolongadas do que as observadas em experiências de reação. M a s a n t es q ue o s senhores retirem desses resultados positivos conclusões referentes às possibilidades de . Não só os pacientes. por meio do que chamamos de ‘representação indireta’. Co mo e m no s s o tr a b a l ho . sob uma expressão inocente. ambíguas. não é difícil compreender que a única maneira pela qual um segredo cuidadosamente guardado se trai é através de alusões muito sutis ou. que desconhecem a técnica da psicanálise e seus aspectos especiais. a p es a r de s u a i nte r f e r ê n ci a .aparentemente o conteúdo da ideia retida nada tem de censurável e quando o paciente afirma reconhecer o motivo de sua hesitação. não acreditam nesses fatos e nos acusam de exagero e de fazer jogo de palavras. N a v er d a d e . Outro de seus indícios de um complexo — a alteração no conteúdo da reação — também desempenha seu papel na técnica da psicanálise. po r o ut r o l a do .

É como se essa resistência estivesse localizada. a o p a s s o q ue no t r a ba l ho do s s e nh o r es a t a r ef a é m a i s a mp l a . porque espera lucrar com essa investigação. o que l ev a r á a i n da g a r s e ta l complexo irá produzir a mesma reação que um complexo de acento desagradável. O s senhores. Gostaria também de assinalar que o teste dos senhores p o d e e s t a r s u j e i t o a u m a c o m p l i ca ç ã o q ue . no fim das contas. reage como culpado. em sua investigação. Além disso. Já a po n ta mo s a d i f er ença p r i n ci pa l : n o neu r ó ti co o s e g r e do es tá o c ul to d e s u a pr ó pr i a consciência. O s s e n ho r es . existe um outro fato que não podem ignorar. ao passo que nossa terapia exige que o paciente também adquira essa mesma convicção. embora inocente. No primeiro existe uma autêntica ignorância.seu p r ó p r i o t r a b a l h o .s e ex a ta m en te p el o s me s mo s indícios que a resistência inconsciente. Já no caso dos senhores. Entretanto. e o s a ux i l i a r á . Se examinarem atentamente a comparação das duas situações. estaria trabalhando contra todo o seu próprio ego. em minha opinião os senhores ainda não podem estar seguros de poder interpretar seus indícios objetivos de um complexo como sendo uma ‘resistência’. surge na fronteira entre o consciente e o inconsciente. devido a um oculto sentimento de culpa já existente nele e que se apodera da acusação. Não julguem essa possibilidade como uma invenção ociosa. a p es a r d a d et er mi na ç ã o co ns ci e nt e d e l e de n ã o s e denunciar. a s er um c o mp a nh ei r o . Com essa diferença está em conexão uma outra que tem grande importância prática. em compensação. lembrem-se que isso pode ser . No caso dos sujeitos dessuas experiências. E mbo r a nã o necessitem levar em consideração a diferença de que no caso do psiconeurótico sempre se trata de complexo sexual reprimido (no sentido mais amplo). embora não em todos os sentidos. curar-se. t er ã o d e de te r mi n a r ex per i m e nt a l m e n te s e a r es i s tê n ci a co n s c i e n te d e n u n c i a . o segredo está oculto apenas dos senhores. não cooperará com o trabalho dos senhores. podem ser induzidos a erro por um neurótico que. e m p r i m ei r o l ug a r . O propósito da psicanálise é absolutamente uniforme em todos os casos: é preciso trazer à tona os complexos reprimidos por causa de sentimentos de desprazer e que produzem sinais de resistência ante as tentativas de levá-los à consciência. tal como nós psicoterapeutas fazemos. Na psicanálise o paciente ajuda a combater sua resistência através de esforços conscientes. pois o colega que desempenha o papel de acusado continua. pode acontecer que o complexo atingido seja de acento agradável — e m b o r a i s s o n ã o s e j a m ui to f r e qu e nt e e m c r i m i no s o s — . Contudo. no criminoso. O criminoso. n ã o o co r r e na ps i c a n á l i s e. Tal situação não pode ser reconstituída em suas experiências num seminário. verão com clareza que a psicanálise se ocupa com uma forma mais simples e especial de descobrir o que está oculto n a me nt e . resta ver até que ponto essa falta de cooperação do sujeito de seu exame irá dificultar ou alterar o desenrolar do mesmo. ao contrário. em suas investigações apenas os senhores necessitam obter uma convicção objetiva. e x a m i n a r e m o s a l g u n s p o n t o s d e d i v e r g ê n c i a e n t r e a s s i t u a ç õ e s psicológicas dos dois casos. isto é. não sendo possível d e i x a r de l a do es s a di f er e n ça . a resistência origina-se totalmente da consciência. enquanto no último só existe uma simulação de ignorância. se o fizesse. e m v i r t u de d e s ua p r ó pr i a n a t ur ez a .

embora chore comum criminoso desmascarado. Embora meu campo esteja muito afastado da prática judicial. ele deverá ter sido advertido de que poderá denunciar-se nessa experiência. Após alguns anos de compilação e comparação dos resultados assim obtidos. Na verdade. Finalmente. Assim. é vedado sujeitar o acusado a qualquer medida que o tome de surpresa. e m c a da pr o c e s s o cr i mi n a l r ea l . um outro caminho se nos apresenta: consigam que lhes seja permitido — ou mesmo imposto como um dever — realizar tais investigações. naturalmente. mais uma questão. quaisquer dúvidas sobre a utilidade desse método psicológico de investigação serão esclarecidas. Sei. Pode ser que. Se insistirmos em tentar essa aplicação. portanto. Talvez pensem que a criança mentiu ao afirmar sua inocência mas isto nem sempre é verdade. que a psicologia se interessa tão vivamente por seus resultados.s e ex a t a me n te co mo um a c r i a n ça . e nunca poderão fundamentar uma aplicação prática em casos criminais. embora não tenha cometido uma falta de que a acusam. que a concretização de semelhante proposta não depende somente dos senhores. Gostaria de pedir-lhes que não se desiludissem prematuramente de sua utilidade prática. impedindo que os s e u s r e s u l t a d o s v e n h a m a influenciar o veredicto do tribunal. É justamente devido à diversidade de situações que subjazem ao trabalho de investigação dos senhores.observado com frequência na infância. pelas normas do direito penal. tanto como uma preparação quanto como formulação de problemas. ao mesmo tempo em que r e v e l a s e u s e n ti m en to d e c ul p a pr o v e ni e n te da o ut r a f a l ta . o a d ul to n eu r ó ti co c o mpo r t a . Muitas vezes uma criança acusada de uma transgressão nega veementemente sua culpa. talvez me permitam mais uma sugestão. Isso leva a perguntar se podem ser esperadas as mesmas reações tanto quando a atenção do sujeito está dirigida para o complexo como quando está afastada desse mesmo complexo. . fala a verdade ao negar ser culpada da primeira transgressão. Por mais indispensáveis que sejam essas experiências realizadas em seminários. co mo e m m ui t o s o u tr o s po n to s . e ainda é muito discutível se a sua técnica logrará distinguir tais indivíduos auto acusadores daqueles que são realmente culpados. tenha cometido uma outra que permanece ignorada e que não lhe foi imputada. e a que ponto a intenção de ocultar alguma coisa pode afetar os modos de reação em pessoas diferentes. Essas experiências serão simples exercícios simulados. durante um certo número de a n o s . nem de seus ilustres professores. os senhores não poderão jamais r e pr o d uz i r a m es ma s i t ua çã o ps i co l ó g i ca ex i s t e nt e n o i n t er r o g a tó r i o do a c us a do numa investigação criminal. N e s s e pa r ti c ul a r . seria preferível que o tribunal não fosse informado da conclusão inferida pelos senhores a partir da investigação relativa à questão da culpa do acusado. Os senhores sabem que. Muitas pessoas são assim.