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Outros valores, além do frenesi de consumo
Post ed in: Alternativas, Destaques Por: admin - 20/09/2012.

Eduardo Viveiros de Castro dispara: iludido por noção ultrapasada de progresso, Brasil pode desperdiçar oportunidade única de propor novo modelo civilizatório Entrevista a Júlia Magalhães – MAIS: Caminhos para a Política Cidadã no século 21 Em meio a críticas e esperanças, pensadores e ativistas debatem como superar crise da representação e reinventar democracia. Leia também, nesta série, as entrevistas com Fernando Meirelles e Ricardo Abramovay – “É preciso insistir no fato de que é possível ser feliz sem o frenesi de consumo que a mídia nos impõe”, reafirma o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, à jornalista Júlia Magalhães. Para ele, assim como para Fernando Meirelles e Ricardo Abramovay – primeiros entrevistados da sério Outra Política – a felicidade pode ter outros caminhos. O novo diálogo é parte da série que o Instituto Ideafix produziu por encomenda do IDS (Instuto Democracia e Sustentabilidade), e que o site publica na seção especial “Outra Política“. Pesquisador e professor de antropologia do Museu Nacional (UFRJ) e sócio fundador do Instituto Socioambiental (ISA), Viveiros insiste em que só pela educação avançaremos rumo a uma sociedade mais democrática. “A falta de educação é o nó cego responsável por esse conservadorismo reacionário de boa parte da população”, diz ele. Vai além: arrisca dizer que haveria uma conspiração para impedir os brasileiros de ter acesso a educação ou conexão de à internet de qualidade – conquistas que permitiriam ampliar o acesso a produtos e bens culturais. Ainda como Meirelles e Abramovay, Viveiros insiste em políticas que reduzam a desigualdade e favoreçam novos padrões de consumo. “É um absurdo afirmar que produzir mais carros é sinal de pujança, utilizar esse dado como indicador de melhoria econômica.”

mas o fato é que temos que nos preparar para o pior”. não sabe se é um país moderno ou se está ainda em 1964. Há fraturas profunda na sociedade brasileira. a mobilização pelas causas ambientais é importante. a entrevista (Inês Castilho). centro de São Paulo. diretor de Ensaio sobre a Cegueira: “Apenas cegos. que não fez reforma agrária. A ideia de que existe um Brasil. e. bem mais Brasis. o poder. alerta Viveiros de Castro. parece-me uma ilusão politicamente conveniente (sobretudo para os dominantes) mas antropologicamente equivocada. Diferentemente de Abramovay – que vê germinar um trabalho sério nas empresas e acredita que a sociedade terá força e atitude para impor limites à iniciativa privada –. O raciocínio é semelhante ao de Fernando Meirelles. “O Brasil está em transição. Mano Brown. lembrar “que saneamento básico. em vídeo gravado na Ocupação Mauá. Tem uma geração de direita ainda viva – Kassab é de direita. É preciso ampliar o universo dos que se preocupam. racista. mas prescritivo. fingindo responsabilidade social e ambiental. Qual é sua percepção sobre a part icipação polít ica do brasileiro? Preferiria começar por uma desgeneralização: vejo a sociedade brasileira como profundamente dividida no que concerne à sua visão do país e do futuro.” A seguir. Existem no mínimo dois. de usar a força. Viveiros está alarmado: “as pessoas fingem não saber o que está acontecendo. Viveiros de Castro considera que as corporações não são capazes de ir além do “capitalismo verde”. há pouco. Não por coincidência. contudo. “Não existe um rumo Brasil”. a meu ver. ao falar sobre a fratura que marca a sociedade brasileira contrapondo as forças vivas do autoritarismo e do racismo aos setores que buscam a inovação. opinião. eles não . Alckmin é de direita – que tem um modus operandi dos caras da antiga.Para o antropólogo. e precisa fazê-la”. Há setores da população com uma vocação conservadora imensa. diz. dengue e lixo são problemas ambientais”. no sentido não-trivial das ideias de unidade e de brasilidade. mas ainda está longe de corresponder à gravidade do problema. cínicos ou oportunistas recusam-se a enxergar”. colaboração e mobilização. O conceito geopolítico de Estado-nação unificado não é descritivo. Os dois se alinham. dissse o mesmo. na esperança depositada nas redes sociais como canais de expressão. “O Brasil é um país escravocrata.

olhar por cima do imediato – e. como se a elite fosse muito educada e devêssemos (e pudéssemos) trazer o povo para um nível superior. é urgente uma reforma radical na educação brasileira. inspiram modestas utopias e moderados otimismos por parte daqueles que a historia colocou na confortável posição de “pensar o Brasil”. uma polarização que não está necessariamente em harmonia com as divisões politicas oficiais (partidos etc. evidentemente. Mas não “educar o povo”. “A floresta e a escola”. E não vejo nenhuma iniciativa consistente para tentar cultivar esse deserto. Em outros momentos. Pelo contrário: chego a ter pesadelos conspiratórios de que não interessa ao projeto de poder em curso modificar realmente a paisagem educacional do Brasil: domesticar a força de trabalho. em suma. com as greves de docentes universitários reprimidas como se eles fossem bandidos. Mas isso é uma daquelas coisas que a minoria libertária que existe no país. infelizmente. luxo quase impensável no Brasil).integram necessariamente uma classe específica. da igualdade e da fraternidade – o que me parece uma ilusão muito perigosa. embora as chamadas “classes médias”. decerto: não é assim. amante da liberdade. Enquanto não acertarmos contas com esse inconsciente. Infelizmente. soluços insurreicionais esporádicos. insistir. Isto é só um pesadelo. quem sabe até livrando-se dela. O que é preciso para mudar isso? Falar. É assim que vejo a “participação política do povo brasileiro”: fraturada. Nós. “cordial”. não é de forma alguma a mesma coisa que educar. ou mesmo uma certa medioria “progressista”. Vê-se é a inauguração bombástica de dezenas de universidades sem a mínima infra-estrutura física (para não falar de boas bibliotecas. se é que é isso mesmo que se está sinceramente tentando (ou planejando). que se testemunha sobretudo entre os mais pobres. ascendentes ou descendentes. educar. espero que não seja assim. resistir. temo — se sentiria muito satisfeita sob um regime autoritário. e moralmente covarde. Mas fato é que não se vê uma iniciativa de modificar a situação. enquanto o ensino fundamental e médio permanecem grotescamente inadequados. A “falta” de instrução — que é uma forma muito particular e perversa de instrução imposta de cima para baixo — é talvez o principal fator responsável pelo conservadorismo reacionário de boa parte da sociedade brasileira. não iremos “para a frente”. Em suma. prefere manter envolta em um silêncio embaraçado. mas sim criar as condições para que o povo se eduque e acabe educando a elite. A paisagem educacional do Brasil de hoje é a de uma terra devastada. sonhava Oswald de Andrade. ou os mais alheios ao teatro montado pelo andar de cima. renitentemente racista. não pode ser assim. um deserto. O Brasil permanece uma sociedade visceralmente escravocrata. Grande parte da chamada sociedade brasileira — a maioria. e uma certa indiferença pragmática em relação aos poderes constituídos. parece que deixaremos de ter . polarizada. sobretudo se conduzido mediaticamente pela autoridade paternal de uma personalidade forte. estejam bem representadas ali. é claro. dividida.). com seus professores recebendo uma miséria. Repete-se a todo e a qualquer propósito que o povo brasileiro é democrático.

O ensino público teria de ter uma política unificada. da vida cultural ou espiritual. enfim) se curvasse ao Brasil. too late”: muito pouco. mediatizadas pelo Mercado. Mas tudo me parece “too little. como esses da educação e da redefinição de nossa relação com a terra. mas mediocrizadas por ele. com aquilo que está por baixo do território. por um ufanismo oco. ciência e sabedoria. pois as duas vão juntas. Está havendo uma melhora do nível de vida dos mais pobres. se me permitem a palavra arcaica. e talvez também da velha classe média – melhora que vai durar o tempo que a China continuar comprando do Brasil e não tiver acabado de comprar a África. que hoje não apenas se acham mediadas. Essa inércia se traduz em pouca pressão sobre os governos. ou melhor. Olimpíadas… Não vejo mobilização sobre temas urgentíssimos. pelo menos no plano de sua auto-representação normativa por via da midia. quais os t emas capazes de mobilizar a sociedade brasileira. se não redistribuímos cultura. educação. um orgulho besta. dos povos brasileiros para construir uma sociedade economicamente mais justa? Duvido. as corporações. mas que tem o apoio desinformado (é o que se infere) de porções significativas da população do Sul e Sudeste. E pouca pressão sobre a grande imprensa.uma e ainda não teremos a outra. Mas será que é preciso mesmo destruir as forças vivas. suspeitamente lacônica. Não se vê a sociedade realmente mobilizada. por Belo Monte. Pois sem escola. isto é. Copa. do povo. no ensino fundamental – que continua entregue às moscas. Natureza e Cultura. O Estado se aliou ao Mercado. contra a Natureza e contra a Cultura. em suma. Por onde começaria a ref orma na educação? Começaria por baixo. para onde irá boa parte da energia que não for . Nesse cenário. Está demorando tempo demais para se espalhar a consciência ambiental. as empresas – estas investindo cada vez mais na historia da carochinha do “capitalismo verde”. e muito tarde. o sentido de urgência absoluta que a situação do planeta impõe a todos nós. naturais e culturais. se não damos ao povo condições de criar cultura em lugar de apenas consumir aquela produzida “para” ele. é lógico. como se o mundo (desta vez. Ao contrário. Apesar dessa melhora no chamado nível de vida. aí é que não sobrará floresta mesmo. por exemplo. voltada para uma – com perdão da expressão – “revolução cultural”. distraída e incompetente quando se trata da questão das mudanças climáticas. um pouco maior do que com a educacional – o que não deixa de ser para se lamentar. não vejo melhora na qualidade efetiva de vida. hoje? Vejo a “sociedade brasileira” imantada. aumentar a quantidade de migalhas que caem da mesa cada vez mais farta dos ricos) apenas para comprar televisão e ficar vendo o BBB e porcarias do mesmo quilate. Não adianta redistribuir renda (ou melhor. uma monstruosidade provada e comprovada. Esses t emas ainda não mobilizam? Existe alguma preocupação da opinião pública com a questão ambiental.

O capitalismo industrial-financeiro é considerado por quase todo mundo hoje como uma evidência necessária. falta agressividade política no tratar da questão do ambiente — isso quando se acha que há uma questão ambiental. a esquerda. como se está comprovando. Gente refestelada nessas banheiras 4×4 que atravancam as ruas e bebem o venenoso óleo diesel. o modo incontornável de um sistema . rodando com plásticos do Greenpeace e slogans “ecológicos” colados nos párabrisas. o abastecimento de água. para o mercado asiático. Quando suas cabeças mais pensantes falam. Você est á dizendo que muit os apelos ao consumo vêm do próprio governo. É preciso sobretudo falar aos povos. por suposto. Não é possível separar desmatamento de dengue e de saneamento básico. falta compromisso da midia. revelando assim sua comum origem com este último. mas não vê qualquer ênfase nesses aspectos literalmente fundamentais da vida humana nas condições dominantes no presente século. a saúde e a educação fundamental. o que está longe de ser o caso de nossos atuais Responsáveis. É preciso convencer a população mais pobre de que melhorar as condições ambientais é garantir as condições de existência das pessoas. e assim ao mesmo tempo mantêm sua aposta firme no futuro do transporte por carro individual numa cidade como São Paulo. em vez de melhorar o saneamento. uma visão tacanha. Enquanto acharmos que melhorar a vida das pessoas é dar-lhes mais dinheiro para comprarem uma televisão. gente que acha que “contato com a natureza” é fazer rally no Pantanal… É uma situação difícil: falta instrução básica. ao contrário e por exemplo. Estes mostram. mostra-se completamente despreparada para articular um discurso sobre a questão ambiental.vendida a preço de banana paras as multinacionais do alumínio fazerem latinha de sakê. Mas a esquerda tradicional. Como você avalia isso? O Brasil é um país capitalista periférico. um projeto burro de país. É um absurdo utilizar os números da produção de veiculos como indicador de prosperidade econômica. Isso quando ela. não vai dar. dengue é problema ambiental. lixão é problema ambiental. tentando desajeitadamente capturar e reduzir ao já-conhecido um tema novo. um problema muito real que não estava em seu DNA ideológico e filosófico. em que não cabe nem mais uma agulha. tem-se a sensação de que estão apenas “correndo atrás”. Você ouve o governo falando que a solução é consumir mais. não se alinha com o insustentável projeto ecocida do capitalismo. chamar a atenção de que saneamento básico é um problema ambiental. Um governo que não se cansa de arrotar grandeza sobre a quantidade de veiculos produzidos por ano. no baixo Amazonas. preocupação em formar jovens que dirijam com segurança. Isso é uma proposta podre. Não se diga. Faz falta um discurso politico mais agressivo em relação à questão ambiental. lá nas brumas e trevas da metafísica antropocêntrica do Cristianismo. que os mais favorecidos pensem melhor e vejam mais longe que os mais pobres. Nada mais idiota do que esses Land Rovers que a gente vê a torto e a direito em São Paulo ou no Rio. Mas t ambém há um apelo muit o grande que vem do mercado.

. Esse é o velho bandeirantismo que tomou conta de vez do projeto nacional. bota. preferem não pensar no assunto. açúcar. O PT vê a Amazônia brasileira como um lugar a se civilizar. O capitalismo depende do crescimento contínuo. ao contrário. O otimismo nacional diante de uma situação planetária para lá de inquietante é extremamente perigoso. desesperada.social sobreviver no mundo de hoje. a espécie humana. Se mudar um pouco para um lado ou para o outro. dos ribeirinhos. rodeio. muita música sertaneja. seu projeto é uma “paulistanização” do Brasil. mas o fato é que temos que nos preparar para o pior. mas de forma alguma em posição de controlar a economia mundial. A ideia de crescimento negativo. a se rentabilizar. muito carro de tração nas quatro. macroeconômica. quilombolas são vistos como gente atrasada. Isso é uma concepção tragicamente equivocada. O PT é visceralmente paulista. Esse impasse. então logo nossa forma de vida biológica. E o Brasil. gaúcho. A ideia manutenção de um determinado patamar de equilíbrio na relação de troca energética com a natureza não cabe na matriz econômica do capitalismo. para os países industrializados – e são eles que dão as cartas. ninguém sabe onde ela vai parar. O Brasil continua sendo um país periférico. carne.. eucalipto. boi. Mudaram as condições políticas formais. E do outro lado cidades gigantescas e impossíveis como São Paulo. está sempre se preparando para o melhor. e que se nossa presente forma de vida econômica é realmente necessária. A Terra vai favorecer outras alternativas. se é que não é. queiramos ou não. camponeses. está em uma espécie de contrafluxo do tsunami. vai-se mostrar desnecessária. e a aposta de que vamos nos dar bem dentro do capitalismo é algo ingênua. nesse momento da crise. índios. E como você avalia a relação dessa realidade macropolít ica. mas a imagem do que é uma civilização brasileira. retardados socioculturais que devem ser conduzidos para um outro estágio. vai ser “solucionado” pelas condições termodinâmicas do planeta em um período muito mais curto do que imaginávamos. a ética da suficiência são contraditórias com a lógica do capital. quem sabe. do que é uma vida que valha a pena ser vivida. ao contrário de alguns companheiros de viagem. com as realidades do Brasil rural. chapéu. Essas coisas têm de ser ditas. o Brasil pode simplesmente perder esse lugar à janela onde está sentado hoje. Transformar o interior do país numa fantasia country: muita festa do peão boiadeiro. em uma continuidade lamentável entre as geopolítica da ditadura e a do governo atual. isto é. mas quando a onda quebrar vai molhar muita gente. controlam o mercado. a se domesticar. Sem falar. O Brasil. que o capitalismo sustentável é uma contradição em termos. uma plantation relativamente high tech que abastece de produtos primários o capitalismo central. no fato de que estamos vivendo uma crise econômica mundial que se tornou explosiva em 2008 e está longe de acabar. Entendo. Estamos bem nesse momento. é claro. Vivemos de exportar nossa terra e nossa água em forma de soja. ou de objeção ao crescimento. As pessoas fingem não saber o que está acontecendo. dos indígenas? O projeto de Brasil que tem a presente coalizão governamental sob o comando do PT é um no qual ribeirinhos. a se capitalizar.

o que mais se ouve é que ele está. Mas se não for por via do movimento social. muita geladeira. numa ironia bem dialética. (Quem nos pagará. Quem pagava por tudo isso éramos. climática e demográfica muito intensa nos próximos 50 anos. A imagem que o Brasil tem de si mesmo é.o congresso. os biólogos e os ecólogos estão profundamente pessimistas quanto ao ritmo. vamos continuar vivendo nesse paraíso subjuntivo. como onde se diz que já não é mais preciso fazê-la. Sarney é um capitão hereditário. O Brasil é um país dominado politicamente por grandes proprietários e grandes empreiteiros. aquela projetada pelos Estados Unidos nos filmes de Hollywood dos anos 50 – muito carro. guerras. Mas o que vai acontecer com certeza é que o mundo todo vai passar por uma transição ecológica. migração induzida para as cidades. sob vários aspectos. como os que vieram de Portugal para saquear e devastar a terra dos índios. de quebras de safras. Os climatologistas. mais uma vez? O Haiti? A Bolivia?). entre outros. transgenização e agrotoxificação da “lavoura”. É isso que vejo. ou seja. o PMDB sabota. invasões. Toda vez que o governo ensaia alguma medida que ameace isso. secas. de crises de alimentos. com epidemias. uma certa ideia de Brasil que o vê. e é grande a possibilidade de catástrofes. muita autoestrada. os geofísicos. muito parecida. desastres. hoje. todo mundo feliz. no início do século XXI. muita televisão. aquele em que um dia tudo vai ficar ótimo. Você acha que as coisas vão começar a mudar quando chegarem a um limit e? A crise econômica mundial vai provavelmente pegar o Brasil no contrapé em algum momento próximo. Por trás de tudo. a imprensa derruba. eleito sabe-se como. uma tristeza: cinco séculos de abominação continuam aí. breca. com as presentes regras – vejo mais como sendo possível pelo lado do movimento social. agora? A África. Estamos vendo as condições climáticas mudarem muito mais aceleradamente do que imaginávamos. Por ora. Porque haveria eu de estar otimista? Penso que é preciso insistir que é possível ser feliz sem se deixar hipnotizar por esse frenesi de . o governo comandado por uma pessoa perseguida e torturada pela ditadura realizando um projeto de sociedade encampado e implementado por essa mesma ditadura: destruição da Amazônia. nós. mecanização. Este está desmobilizado. Mas um dia a conta vai chegar. fomes. não vejo como sair por dentro do jogo político tradicional. Estamos vendo hoje. as causas e as consequências da transformação das condições ambientais em que se desenvolve hoje a vida da espécie. pode fazer várias coisas desde que a parte do leão continue com ela.do que é uma sociedade que esteja em sintonia consigo mesma. que não só nunca fez sua reforma agrária. é muito. isso está até beneficiando o Brasil. se não está. O nosso governo dito de esquerda governa com a permissão da oligarquia e dos jagunços destas para governar. Isso sem falarmos na massa de infelicidade bruta gerada por esse modo de vida para seus beneficiários mesmo. Há uma série de impasses para os quais não vejo saída. como se ele devesse ser o que os Estados Unidos foram no século XX.

Outra mudança importante foi a consolidação de uma cultura popular ligada ao movimento evangélico. no geral. esse modo muito peculiar da elite dominante acertar suas contas com o próprio passado (passado?) escravista. que são a grande novidade na sociedade brasileira e que estão contribuindo para fazer circular um tipo de informação que não tinha trânsito na imprensa oficial. por que não. E como você vê o jovem nesse cont ext o? É muito difícil falar de uma geração à qual não se pertence. os vários movimentos contra Belo Monte. O evangelismo das igrejas universais do reino de Deus e congêneres está evidentemente associado à religião do consumo. São um fator de desestabilização. Há movimentos inteiramente produzidos dentro das redes sociais. a mobilização pelas florestas. não sou idiota a ponto de achar que tudo se resolveria distribuindo a grana do Eike Batista entre os camponeses do semi-árido nordestino ou cortando os subsídios aos clãs político-mafiosos que governam o país. do arranjo de poder dominante. Vejo isso como a consumação do projeto de branqueamento da nacionalidade. Algum moviment o recent e no Brasil ou no mundo chamou sua at enção? No Brasil. Na década de 60 tínhamos ideias confusas mas ideais claros. como a marcha contra a homofobia. Por isso se intensificam as tentativas de controlar essas redes por parte dos poderes constituídos . Sou também obviamente a favor de que todos possam comprar uma geladeira. o crescimento da “economia” mundial. isso sim. Não sou contra o crescimento econômico no Brasil. e. Mas sou contra. e permitindo formas de mobilização antes impossíveis. Não que isso não fosse uma boa ideia. a aceleração da difusão do que podemos chamar de cultura agro-sulista. e sabíamos que tipo de mundo queríamos.consumo que a mídia nos impõe. Esse enfraquecimento está acontecendo com a proliferação das redes sociais. Acho que. E teria imenso prazer em parar de andar de carro se pudéssemos trocar esse meio absurdo de transporte por soluções mais inteligentes. creio que vai passar por essa mobilização das redes. os horizontes utópicos se retraíram enormemente. tanto à direita como à esquerda. As redes são nossa saída de emergência para a aliança mortal entre governo e mídia. achávamos que podíamos mudar o mundo. o churrasco da “gente diferenciada” em Higienópolis. e sou a favor de uma redistribuição das taxas de crescimento. uma televisão — mas sou a favor de que isso envolva a máxima implementação das tecnologias solar e eólica. aliás. E como você vê o surgiment o das redes sociais. pelo interior do país. nesse cont ext o? Isso é uma das poucas coisas com que estou bastante otimista: o relativo e progressivo enfraquecimento do controle total das mídias por cinco ou seis grandes grupos. no melhor sentido da palavra. Se alguma grande mudança no cenário político brasileiro vier a acontecer.

de verdade. que ajudou a ver além da razão 3. é preciso controlar com muito cuidado. e de assim articular as condições de uma civilização brasileira minimamente diferente dos comerciais de TV. que é o aumento da inteligência social. a essa altura. pelo menos das suas elite políticas e intelectuais. apenas ali onde me sinto seguro. Só posso externar minhas preocupações e indignações. Mas imagino que. a relação secularmente predatória da sociedade nacional com a natureza. Pelo controle ao acesso ou por instrumentos vergonhosos. geográficas. menos ansiosa e mais realista diante da situação de crise atual. Você imagina um novo modelo polít ico? Um amigo que trabalhava no ministério do Meio Ambiente na época de Marina Silva me criticava dizendo que essa minha conversa de ficar longe do Estado era romântica e absurda. pelo jeito. de qualquer forma. A felicidade tem muitos caminhos. e o que nós temos a oferecer são apenas 500 anos de dominação europeia e uma triste historia de etnocídio. Uma decisão tecnolotica e política antidemocrática e antipopular. E está na hora de iniciarmos uma relação nova com o consumo. para começar. culturais de desenvolver um novo estilo de civilização. equivalente ao que se faz com a educação: impedir que a população tenha acesso pleno à circulação cultural. Chéri à Paris: O olhar dos outros . e palpitar. Joseph Campbell. sim. Mesmo assim. Penso. timidamente que fosse. não tenho a pretensão de saber o que é melhor para o povo brasileiro em geral e como um todo. algum tipo de alternativa aos paradigmas tecnoeconômicos desenvolvidos na Europa moderna. e era aí que a coisa pegava.– isso no mundo inteiro. que tínhamos que tomar o poder. Verdade que os chineses têm 5000 anos de historia cultural praticamente continua. deliberado ou não. Temos de mudar completamente. Poderíamos começar a experimentar. que perderam várias ocasiões de se inspirarem nas soluções socioculturais que os povos brasileiros historicamente ofereceram. que se deve insistir na ideia de que o Brasil tem – ou. Leia também: 1. que há uma conspiração para impedir que os brasileiros tenham uma educação boa e acesso de qualidade à internet. era preciso saber manter o poder depois. um que não seja uma cópia empobrecida do modelo americano e norte-europeu. como o “projeto” brasileiro de banda larga. Não tenho um desenho político para o Brasil. será a China. é indesculpável a falta de inventividade da sociedade brasileira. Essas coisas vão juntas e têm o mesmo efeito. se tínhamos de tomar o poder. Parece mesmo. se algum país vai acabar fazendo isso no mundo. com a base físico-biológica da própria nacionalidade. Para ler Slavoj Žižek além do mito 2. teria – as condições ecológicas. algo que. que começa pelo reconhecimento de que o serviço será de baixa qualidade. Eu respondia que. às vezes.

Outros projetos nos comovem 6. O gosto dos outros 7. Outros 50 10. Outros mapas. outros mundos About the Author Outras Palavras informa e debate sobre a globalização e as alternativas. Futebol além da Mercadoria 9. . Para entrar em contato. escreva ao editor: antonio@outraspalavras.4. Brasília. Drogas: muito além da hipocrisia 8. Estimula a Comunicação Compartilhada e procura enxergar e construir relações sociais póscapitalistas. O mal são os outros 5.net.