Paola Fernandes Zamboni # USP 3750340

Sorte de Jogador
O jogo de cartas como construção narrativa.

Sorte de Jogador começa nas mesas de faraó de Plymont, onde um jovem de muita sorte parece imune ao jogo que hipnotiza todos ao seu redor. Mas entre os jogadores o jovem barão Sigfried, a despeito de suas ótimas qualidades, é visto como um sujeito muito nervoso e extremamente prudente para arriscar sua sorte no jogo. Sabendo da reputação que lhe impingem, o barão decide perder alguns Luíses no cassino, mas sua sorte infalível o segue e, rodada após rodada, ele vê o dinheiro se multiplicar. Certo de que depois de tantos ganhos a probabilidade de uma grande perda aumentava, ele continua jogando e sem que percebesse, sua aversão pelo jogo se transforma em atração, ele deixa de se incomodar com a boa sorte e passa a se concentrar na mesa de faraó, no jogo e na sua simplicidade perniciosa. Certa noite um estranho senhor aparece no cassino em frente ao barão incomodando-o com seu olhar lúgubre. Noite após noite o velho retorna e olha fixamente para Sigfried que por fim reclama e indica a porta com um gesto de mão. Excitado pelo jogo e pelo vinho o vinho, Sigfried não consegue dormir nem esquecer aquele homem estranho e seu sorriso dolorido. Quando amanhece ele decide procurar o velho e oferecer alguma reparação por sua atitude rude. Por um capricho do destino, o estranho é a primeira pessoa que encontra, mas este não aceita as desculpas por achar que não há nada a desculpar acrescentando que se seu olhar incomodou tanto ao barão, ele desejava que houvesse pelo menos despertado a idéia do perigo iminente em que o barão, na ignorância da juventude, se encontrava, que com apenas um empurrão ele despencaria no precipício tornando-se um jogador impetuoso caindo assim na perdição. Aqui a história se desdobra na narrativa do estranho cavalheiro, a de um certo Chevalier Menars que possuía a mesma sorte característica e a mesma aversão pelo jogo do barão, mas ao contrário deste, vivia com poucos recursos, suficientes apenas para manter as aparências que sua
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posição demandava. Certa noite, por insistência dos amigos, ele foi ao cassino e viu-se obrigado a jogar por um coronel que tinha uma má sorte extraordinária com as cartas e, como aconteceu ao barão, ganhou para ele uma boa quantia, mas continuou detestando o jogo. Cerca de um ano depois deste incidente, o Chevalier perdeu sua fonte de renda tendo que recorrer a um amigo íntimo que lhe emprestou a quantia que precisava, mas o repreendeu, dizendo que o destino envia sinais indicando o caminho a seguir, e que no caso dele era a mesa de faraó. Assim, ele foi com esse amigo ao cassino e jogou brilhantemente, escolhendo as cartas às escuras, mas ganhando todas as vezes e multiplicando o dinheiro. O fascínio da riqueza penetrou sua alma “como o sopro de um veneno fatal”. Jogando para aumentar sua riqueza, logo ser um punter deixou de ser suficiente e ele abriu seu próprio banco passando a dar as cartas ao invés de apostar nelas. E a sorte não abandonou, em pouco tempo seu banco era o mais próspero de toda Paris atraindo um grande número de apostadores. A vida desregrada de um jogador transformou o Chevalier, antes um amigo leal, um companheiro alegre, um galanteador e homem interessado nas artes e no conhecimento, ele exibia agora uma palidez mortal e um olhar lúgubre que expressavam fielmente a paixão fatal que o consumia como um vício. Certa noite apareceu em seu banco um velho enrugado e malvestido que com uma mão tremula pegou uma carta, apostou nela e perdeu. E quanto mais apostava, mais perdia o velho, para deleite dos outros jogadores. Incomodado com a mofa, o Chevalier chamou a atenção dos jogadores quando o apostador saiu e assim ficou conhecendo a história do velho Francesco Vertua, um mesquinho usurário napolitano estranho a qualquer sensibilidade humana, destruidor de várias famílias com suas infernais especulações e incapaz de desembolsar um mísero louis d’or para salvar o próprio irmão se este se encontrasse às portas da morte. Mas também um homem que em seus quinze anos em Paris nunca havia jogado e que, a despeito da vingança divina que todos esperavam pelos males que cometeu ninguém acreditava que voltaria ao cassino. Mas Vertua voltou na noite seguinte, e perdeu mais e mais até que não lhe restava nada para apostar e, dando como garantia a própria casa com tudo dentro, escolheu a Dama e perdeu. Terminada a jogatina, quando o Chevalier e seu crupiê guardavam o dinheiro no cofre, o velho
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ressurgiu das sombras onde havia se escondido implorando por algum dinheiro para que pudesse se reerguer da pobreza. Dada a má fama do usurário, é certo que não o conseguiu. Seguiram então os dois para a casa do Signor Vertua onde uma velha criada abriu a porta dizendo que Angela estava mortalmente preocupada. E assim ficamos conhecendo a verdadeira história de Francesco Vertua, um ex-jogador que viajara metade da Europa parando de mesa em mesa e negligenciando sua fiel esposa que se sentia uma miserável em meio a toda aquela fortuna acumulada, até que em Gênova, um romano que havia perdido toda a sua herança o esfaqueia deixando-o à beira da morte. A esposa cuidou dele com carinho e, uma vez recuperado, Vertua prometeu nunca mais tocar nas cartas. Por um ano foram felizes, mas ao dar a luz à filha, a esposa morreu. Desolado, Vertua foi parar em Paris onde Angela cresceu à imagem da mãe. Tornou-se então um agiota, emprestando dinheiro a juros altos, mas não é verdade que fosse desonesto, pois os que o acusam são os mesmos que lhe pedem emprestado, desperdiçam e depois ficam furiosos quando são cobrados pelo dinheiro que não pertencia a ele, mas sim à Angela. Ouvindo a respeito do barão e de seu banco, de onde tantos deixavam suas fortunas, Vertua sentiu que era seu destino medir a sorte de jogador que nunca o abandonara com a do barão e assim por um fim à suas atividades. Terminada a narrativa, Vertua implorou mais uma vez por algum dinheiro para que ele e a filha não caíssem na miséria, mas o Chevalier não se sensibilizou, até que Angela, pálida em sua camisola branca, entrou no quarto para confortar o pai que chorava diante do desprezível banqueiro. Diante de tal cena, uma onda de culpa inundou o coração do Chevalier, que nunca antes havia conhecido o amor. Apaixonado, ofereceu seu cofre ao agiota, mas Angela o recusou. Com um olhar selvagem, o Chevalier jurou nunca mais tocar nas cartas dizendo ser um caso de vida ou morte, despediu-se e saiu. O banco do Chevalier Menars desapareceu de paris e seu amor tomou a forma da mais profunda melancolia. Quando se encontram de novo, Angela, já sabendo que ele abandonara as mesas de jogo, sentiu-se comovida com a mudança e sabia que era a responsável pela salvação do Chevalier. Aliviado com as palavras de conforto da moça, ele recobrou sua antiga e galanteadora persona e passou a freqüentar a casa do velho Signor Vertua conquistando o coração de sua amada para o deleite do velho usurário, que assim via o problema da sua propriedade perdida no jogo como resolvido.
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Casados e felizes, a moça certo dia viu pela janela um regimento passar a caminho do campo de batalha, entre os soldados Angela reconhece um visinho, Duvernet, que freqüentava a casa de seu pai todos os dias e só havia se afastado quando o Chevalier apareceu; no olhar de reprovação do rapaz Angela leu pela primeira vez o amor que ele tinha por ela e entendeu que era recíproco, mesmo que até então não tivesse se dado conta, iludida pelo brilho que o Chevalier irradiava. Ela lutou contra tal sentimento e o venceu, mas o Chevalier não deixou de perceber que algo a perturbara, no entanto, tratou-a com respeito e consideração sem perturbar seu segredo e assim a lembrança de Duvernet se esvaneceu. A morte do pai foi a primeira sombra que caiu sobre a vida da moça. Desde o incidente no cassino, ele nunca mais havia tocado nas cartas, mas em seu leito de morte o jogo o dominava e, sem reconhecer ninguém, suas últimas palavras foram os termos do jogo “ Perd-gagne” e, com as mãos tremulas da luta com a morte ele imitou os movimentos de distribuir e virar as cartas do baralho. Angela não conseguiu se desvencilhar do mau presságio, e o Chevalier ficou profundamente chocado com o fato do homem, mesmo em seu leito de morte, não conseguir renunciar ao seu passado de pecador. Apesar disso, o jogo aparecia cada vez mais vívido em sua mente. A morte do pai e lembrança do marido na primeira noite em que o viu atormentava Angela, e o Chevalier viu nessa desconfiança aquele segredo que ela nunca havia revelado, o que acabou por trazer um clima sombrio à casa, o que consequentemente despertou no coração de Angela a lembrança de Duvernet e daquele amor irremediavelmente perdido. Com isso a estrela negra do Chevalier Menars voltou a arder, e não demorou muito para que seu banco voltasse a brilhar com mais ouro do que nunca. Sua sorte não o deixara, mas a felicidade de Angela estava destruída, o Chevalier a tratava com indiferença e passava meses sem vê-la, os empregados da casa eram sempre trocados, de modo que ela se sentia uma estranha em seu próprio lar. À noite, entre lágrimas, ela repetia o nome de Duvernet implorando ao destino que pusesse um fim a seu sofrimento. Depois que um jovem de boa família pôs uma bala na cabeça depois de perder sua fortuna no cassino e o Chevalier, sem se perturbar, perguntou se era apropriado terminar o jogo antes da hora por causa de um tolo que não sabia se comportar na mesa de cartas e, por tal comentário, se viu desprezado e por fim multado por jogo injusto, o que sua boa sorte corroborava, ele voltou para os braços da esposa, que o recebeu com prazer na esperança de que
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agora, mais velho, a mudança seria derradeira. Mudaram-se para Gênova, mas foi em vão, em pouco tempo ele não conseguia mais ficar em casa e, o que era pior, sua reputação o havia seguido e ele não ousava abrir um banco em Gênova por mais que quisesse. Por essa época um coronel desabilitado do exercito francês mantinha o maior banco da cidade, e para lá foi o Chevalier sendo recebido de braços abertos. A princípio sua sorte o ajudou, mas quando apostou alto gritando Va banque, perdeu uma quantia considerável. E continuou perdendo nas noites seguintes até que toda a sua fortuna se foi, nem mesmo as lágrimas de Angela puderam dissuadi-lo de apostar os últimos ducados. No cassino, em duas jogadas ele perdeu tudo, foi quando o coronel afirmou que ele ainda tinha uma bela esposa, A princípio o Chevalier ficou indignado com a insinuação, mas vendo que os outros jogadores continuamente batiam a banca acabou por aceitar a aposta escolhendo a Dama. E a Dama perdeu. Fora de si o Chevalier ainda tentou argumentar que a esposa não era um bem passível de ser apostado e nunca o deixaria para se tornar uma amante desonrada, mas como havia perdido e deveria honrar a aposta, convidou o coronel a acompanhá-lo até em casa para que Angela escolhesse seu destino. Acontece que aquele coronel era ninguém menos que o soldado Duvernet, que instigado por um espírito maligno dedicara-se ao faraó e seguira o Chevalier até Genova para batê-lo no jogo. Aquele segredo funesto estava revelado. Foram então para a casa do Chevalier Menars, mas ao chegar lá encontraram Angela morta na cama. Terminada a história, o estranho saiu do cassino e dias depois foi encontrado em seu quarto tendo um ataque apoplético que em poucas horas o mata, em seus papeis descobre-se que ele é na verdade o próprio Chevalier Menars e, reconhecendo o aviso dos Céus, o barão jura daqui para adiante resistir aos encantos da sorte de jogador. Até agora ele cumpriu sua palavra.

A novela Spielerglück, de 1820, e logo foi traduzida na Rússia, como nos conta Lotman. Seu “enredo – a perda da mulher amada no carteado – não passou despercebido. (...) . Contudo, ao elaborar sua obra, Hoffmann evidentemente não conhecia a história que fazia sensação em Moscou, em 1802, quando o príncipe Aleksandr Nikoláievitch Golítsyn, o famoso Cosa-rara, um perdulário, jogador e malandro da alta-roda, perdeu na jogatina sua mulher, a princesa Maria Grigoriévna, para um dos mais ilustres fidalgos de Moscou – o príncipe Lev Kirílovitch
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Razumóvski, conhecido na sociedade como Le Comte Léon, filho de um hetmã, maçom, um mecenas, cujas festas na casa da Rua Tvierskaia e em Pietrovsk-Razumóvski eram objeto de falatório em toda a Moscou. O divórcio da princesa, que se sucedeu a isto, e o seu segundo casamento conferiram ao escândalo um colorido sensacionalista.”1 Partindo da anedota acima, tentaremos demonstrar a importância do faraó na construção narrativa da novela Sorte de Jogador. Se para leitores ocidentais tal incidente parece fantástico, na Rússia ele de fato aconteceu e, como nos mostra Lotman em seu ensaio sobre A Dama de Espadas de Púchkin, novela escrita em 1831 e que lembra muito os contos de E. T. A. Hoffmann. Nela o filho de um alemão russificado, Hermann, tenta arrancar de uma velha condessa o segredo das três cartas que lhe fariam ganhar no jogo. Para tanto seduz sua criada e consegue entrar nos aposentos da velha, mas esta se recusa a lhe contar o segredo e acaba morrendo quando Hermann aponta para ela uma arma. Dias depois, a condessa lhe aparece em sonho e revela as três cartas com a condição que ele se case com a criada e nunca mais jogue na vida. Hermann aposta então as duas primeiras e ganha, mas na última, ao invés de escolher o Ás vencedor ele pega a Dama, a carta parece lhe sorrir com escárnio e Hermann enlouquece. O jogo de cartas tanto na Dama de Espadas quanto em Sorte de Jogador é o faraó, jogo ágil e rápido nascido no final do século XVII na França e que hoje caiu em desuso. É jogado entre um banqueiro e vários jogadores, chamados punter, que ganham ou perdem de acordo com as cartas viradas na mesa. Ágil e com regras fáceis, foi responsável pela ruína e fortuna de muitos. Para Lotman, “A situação do faraó – antes de tudo – é a situação de um duelo: modelizase o conflito de dois adversários. Contudo, na própria essência deste modelo leva-se em conta a sua desigualdade: o apostador – aquele que deseja ganhar tudo, embora com isso se arrisque a perder tudo – comporta-se como alguém obrigado a tomar decisões importantes, sem possuir a informação necessária para isto; ele pode atuar a esmo, pode fazer conjecturas, tentando deduzir certas leis estatísticas (sabe-se que na biblioteca de Púchkin havia livros sobre a teoria da probabilidade, o que, pelo visto, se relacionava às suas tentativas de estabelecer uma estratégia
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LOTMAN, Iuri: A Dama de Espadas e o Tema das Cartas e do Carteado na Literatura Russa do Começo do Século XIX. In Caderno de Literatura e Cultura Russa – 2004 . P. - 88.

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preferencial como apostador). O banqueiro, por sua vez, não elege nenhuma estratégia. Além do mais, certamente, aquele que está bancando não sabe qual será o arranjo das cartas. Representa uma espécie de títere nas mãos dos Fatores Desconhecidos que se encontram por trás dele. Tal modelo por si só já ocultava determinadas interpretações dos conflitos da vida. O jogo tornava-se um confronto com uma força poderosa e irracional, percebida amiúde como demoníaca.” 2 No conto de Hoffmann esta força irracional e demoníaca está presente desde o início, quando o barão sucumbe ao jogo: “Now although He did not notice it himself the Baron was secretly more and more attracted by the game of faro, which is the more pernicious for its very simplicity. He ceased to be annoyed by his good fortune, the game riveted his attention and kept him for whole nights at the tables. Since it was not the winnings but the game itself that attracted him, he was forced to believe in its strange spell, of which his friends have spoken before, but which he had refused to admit.” (p. 196). Também em todos os episódios nos deparamos com situações análogas ao duelo, há a longa troca de olhares entre o barão e o estranho de olhar lúgubre que depois descobrimos ser o Chevalier Menars: “He opened his eyes and was aware of na elderly man Who had taken up his position oposite him and was directing this serious gaze unswervingly upon him.” (p.197); há o duelo entre o Chevalier e seu destino: “Fate gives us signs (…). The higher power that rules over us has whispered very distinctly in your ear: ‘If you want to get money and possessions, go and play. If you don’t you will remain poor and needy and dependent for ever.’” (p. 202); há o duelo na mesa de cartas entre o Chevalier e Francesco Vertua e o deste com o jogo em seu leito de morte: “He lay there with his eyes shut, murmuring between his theeth ‘Perd-gagne’; and with his hands quivering in a fight with death, he made the movements of dealing cards.” (p. 216). Por fim, há o duelo entre o Chevalier e o coronel que termina com a aposta fatal: “Two deals and the Chevalier lost everything – everything. He remained standing motionless beside the Colonel and stared in a dull, dazed way at the gaming table.

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IBID. p.- 101-2.

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‘Are you not placing any more stakes, Chevalier?’ asked the Colonel, as he shuffled the cards for a new deal. ‘I have lost everything,’ replied the Chevalier, compelling himself with difficulty to speak calmly. ‘Have you nothing at all left, then?’ asked the Colonel at the next deal. ‘I am a beggar,’ cried the Chevalier, his voice quivering with grief and anger, and his eyes still fixed on the table. He did not notice that the players were continually beating the bank. The Colonel went on quietly playing. ‘You have a beautiful wife still,’ he remarked quietly, without looking at the Chevalier, and shuffled the cards for the next deal. ‘What do you mean by that?’ exclaimed the Chevalier furiously. But the Colonel turned up his cards, and did not answer. ‘Ten thousand ducats or Angela,’ said the Colonel, half turning around and allowing the cards to be cut. ‘You’re crazy,’ cried the Chevalier, who had now, however, to some extent regained his senses and began to notice that the Colonel was continually losing. ‘Twenty ducats or Angela,’ whispered the Colonel, stopping for a moment during the shuffling of the cards. The Chevalier said nothing,’ the Colonel went on playing and nearly all the cards were in favor of the players. ‘Very well,’ whispered the Chevalier into the Colonel’s ear as the new deal began, and threw his queen on the table. When the Colonel turned up the next cards the queen lost. The Chevalier drew back grinding his teeth. His face was deathly white as he leaned on the window. The game was over, and with a scornful ‘Well, what now?’ the Colonel came over towards him. (pp. 220-21).

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A beleza desse diálogo está em sua simplicidade, nas frases curtas, porém cortantes que ilustram a batalha travada entre jogador e banqueiro, entre os homens e seu destino, aquela força poderosa e irracional percebida como demoníaca. As falas do coronel são sempre pontuadas por movimentos do jogo, que no papel do destino, ilude o Chevalier fazendo-o pensar que poderia ganhar. O Faraó (ou faro) é tão rápido que não existe modelo melhor para ilustrar a obrigação de se tomar decisões sem ter as informações necessárias para isso, no tempo de duas ou três frases o jogo foi feito, as cartas viradas e o vencedor revelado, resta ao jogador aceitar seu destino. Ainda tratando da questão do duelo, antes da cena descrita acima, quando o barão encontra o Chevalier na rua e tenta se desculpar, ele por algum motivo entende que o Chevalier propõe um duelo. Tal episódio acontece muito depois do duelo travado entre o coronel e Menars no final do conto, uma vez que o enredo se desdobra de forma episódica em narrativas mais ou menos interligadas que não seguem uma linha cronológica, e de certa forma, ilustra a mudança psicológica sofrida pelo Chevalier e que abordaremos a seguir. Ao perceber que o barão está pronto a duelar, o Chevalier argumenta que seria injusto, ressaltando que o duelo não pode ser considerado uma brincadeira e acrescenta: “There are many causes that make it impossible for two men to go on existing toghether on this earth. Although one of them may be in the Caucasus and the other on the Tibre there is no separation between them so long as the thought of the hated one’s existence persists. In such cases a duel is necessary to decide which one of them is to make way on the earth for the other. But between us, as I have just said, a duel would be a one-sided affair, for my life is no way as valuable as yours. (…) I do not consider myself insulted. You told me to go and I went.” (p. 199) O grande banqueiro, mais a frente descrito assim: “It was not the lust for gambling, but the most loathsome avarice that Satan himself had kindled in his heart. In a word, he was the most successful banker you can imagine.” (p. 204), estava reduzido àquele velho que apareceu em frente ao barão e cuja figura ele não conseguia apagar da memória: “He could see the expressive face, the sharply chiselled, pain-distorted features, the deep-set, melancholy eyes which stared at him; and He observed that though the man was poorly dressed his distinguished bearing revealed a person of good breeding.” (p. 197).

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Lotman coloca que: “O faraó modeliza também seu universo próprio. Antes de mais nada, ele é assinalado por uma fragmentação máxima (assim como qualquer modelização dos fenômenos da vida com a ajuda da língua): uma unidade se destaca – “a parada” – situada entre o “começo” e o “fim” da ação, sendo que o primeiro é assinalado pela transição de uma situação plana e sem importância (o nada, do ponto de vista do jogo) para ações que visam a uma melhoria abrupta do seu status (o ganho). A condição psicológica do herói nesse ponto do enredo baseia-se na esperança. O momento do encerramento é assinalado pela destruição final (a perda, que nunca é nem parcial, nem muito significativa, mas acarreta a ruína ou a loucura do personagem) ou pela vitória, que também possui um caráter escatológico.”3 Na novela de Hoffmann, os personagens lutam cada qual a seu modo contra o jogo e contra o destino como jogador, deles, apenas o barão se salva, e ainda assim, somente nas últimas linhas do texto e “so far” (p. 223), os outros sucumbem à ruína ou à loucura, seja num traje surrado, num crispar de mãos que não sabem outro movimento que não seja o de dar as cartas, ou ainda desaparecendo para nunca mais ser visto. A “parada” também é evidente na narrativa, cada um dos episódios começa estático, desenvolve-se rapidamente para algum ponto de tensão e volta a parar dando lugar a um novo episódio ou um desenvolvimento diferente na ação, tal qual no duelo final entre o Chevalier e Duvernet, a ação é interpolada por paradas, o embaralhar das cartas, a virada e o novo jogo. Assim, temos o barão Sigfried, nosso primeiro personagem, como homem avesso ao jogo que por um motivo fútil é levado ao cassino e à ação febril das mesas de Faraó. Em pouco tempo ele se transforma em um jogador inveterado e, com igual rapidez, Hoffmann nos apresenta o Chevalier, também avesso ao jogo, mas que se vê obrigado a abraçá-lo por motivos financeiros. Muito rápida também é sua passagem para o aspecto noturno e demoníaco das mesas de jogo, e mais profunda, pois torna-se banqueiro. No embaralhar das cartas surge o Signor Vertua, a princípio apresentado como um vil agiota, mas que no decorrer da leitura descobrimos ser um pai devotado, apesar de todos os seus defeitos. Toda a história de sua vida até o encontro com o Chevalier é contada em apenas um parágrafo e então surge Angela, para mais uma vez virar o jogo. O Chevalier fecha seu banco e casa-se com a moça, mais uma parada; aparece Duvernet, carta na mesa, o velho Vertua morre soprando entre os dentes o “Perd-gagne” do Faraó, mais
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Ibid – p. 101-2.

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uma carta aberta. Ao contrário do que aparenta, uma vez que o Chevalier reabre seu banco e a jogatina corre solta, aqui Hoffmann atrasa o clímax ilustrando as desventuras da jovem enquanto o marido se entrega ao jogo, mas logo outra reviravolta acontece e Menars é obrigado a fechar seu banco novamente “on account of a fool who had not known how to behave himself at the tables.” (p. 218). Mas seu retorno ao lar não dura muito e ele logo volta a jogar, encontrando então o coronel. A última carta está na mesa. Segue-se o embate final, rápido como as apostas nas mesas do faraó e numa fração de segundos a dama está morta, tal qual a de Púchkin na Dama de Espadas. Um suspiro depois o jogo acaba, Duvernet desaparece como um espectro, o Chevalier morre e o barão jura resistir aos encantos da sua sorte de jogador. A novela termina com a frase “So far He has kept his oath.” (p. 223), mas amnhã o casino abre de novo, a página termina, mas a vida não. A vitória do barão Sigfried sobre o jogo traz em si o caráter escatológico, mas o final fica em aberto, será que Sigfried conseguira cumprir seu juramento?

Bibliografia: Eight Tales of Hoffmann, Pan Books, London 1952. Os trechos citados em inglês foram retirados dessa tradução de J. M Cohen.
LOTMAN, Iuri: A Dama de Espadas e o Tema das Cartas e do Carteado na Literatura Russa do Começo do Século XIX. In Caderno de Literatura e Cultura Russa – 2004.

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