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Introdução

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INTRODUÇÃO

PRATICAMENTE, cada geração da cristandade tem testemunhado o desenvolvimento de algum novo movimento (bom ou ruim) dentro de suas fileiras. Os apóstolos tinham que guardar a verdade contra os judaizantes e o progredir do gnosticismo incipiente. A era pós-apostólica estava cheia da controvérsia e do desenvolvimento de novos "ismos" Docetismo, Cerintianismo, Eutiquianismo, Nestorianismo, Sabelianismo, Arianismo etc. Agostinho lutou contra o Pelagianismo. Mesmo o período da Idade Média viu a atividade dos anabatistas e a instituição das várias ordens católicas romanas (Agostinianos Dominicanos, Franciscanos, Jesuítas etc.). No século XVI eclodiu a poderosa Reforma Protestante, com os desenvolvimentos subsequentes dos maiores grupos eclesiásticos (Luteranos, Reformados, Anglicanos, Presbiterianos) e dos menores dissidentes. Mais tarde, a cristandade americana contribuiu com muitos grupos distintos Mórmons, Campbellitas, Testemunhas de Jeová Adventistas do Sétimo Dia etc. O século vinte também tem testemunhado sua parte de novos desenvolvimentos. Um movimento- chave tem sido o Pentecostismo, com sua ênfase sobre o Espírito Santo e dons espirituais. O próprio Protestantismo Americano ficou dividido em grupos liberais e fundamentalistas, que resultaram na formação de novas denominações. O velho liberalismo logo cedeu lugar ao surgimento da neo-ortodoxia e do neo-liberalismo. Também ele promoveu o movimento ecumênico, com seu alvo final: a união com a Igreja Católica Romana. Até o Protestantismo conservador não permaneceu estagnado. Hoje em dia, ele está dividido em fundamentalismo e o novo evangelismo. Agora, o movimento mais recente no cenário cristão americano é o reavivamento carismático ou o novo Pentecostismo, dando ênfase especial à cura milagrosa e ao falar línguas estranhas. Em menos de dez anos de existência, ele tem produzido um impacto profundo sobre a vida

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eclesiástica de todas as denominações. Visto ser um movimento contemporâneo, compete a cada cristão conhecê-lo quanto a sua natureza básica e examiná-lo à luz das Escrituras.

A Importância Deste Estudo

O simples fato de o fenômeno de falar línguas estranhas ou glossolalia (proveniente do grego glossa, língua e laleo, falar) se achar na Bíblia deve ser causa suficiente para merecer uma plena investigação. O fenômeno é mencionado em três livros: Marcos, Atos e I Coríntios. Como uma parte mui expressiva da vida da igreja primitiva, está sempre relacionado com o ministério do Espírito Santo. Foi uma evidência da descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes (At. 2:1-4) e da recepção inicial do Espírito em pelo menos dois casos (At. 10:44-48; 19:1-7). O falar em línguas estranhas foi também um dom espiritual exercido pela igreja em Corinto (I Cor. 12-14). Uma compreensão da natureza e dos propósitos de tais fenômenos nos tempos bíblicos é, portanto, imprescindível para cada crente. O crescimento rápido do Pentecostismo no século vinte também contribuiu para a importância deste estudo. A revista Time o classificou como a "igreja que mais cresce no hemisfério". (1) Life a considerou como "a terceira força", igual, em significação, ao Catolicismo Romano e ao Protestantismo histórico. (2) O Dr. Henry P. Van Dusen, ex-reitor do Union Theological Seminary (New York), pensava que o movimento Pentecostal, com sua ênfase sobre o Espírito Santo, fosse "uma revolução comparável, em importância, ao estabelecimento da Igreja Apostólica original e com a Reforma Protestante". (3) Tais declarações assumem ainda maior significação quando se reconhece que o falar em

(1) Time, LXXX (2-11-1962), p. 56. (2) Life, XLIV (9-6-1958), p. 113. (3) Citado por John L. Sherrill, They Speak With Other Tongues (New York, McGraw Hill Book Company, (1964), p. 27.

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línguas estranhas é a "doutrina mais saliente e talvez a característica mais espetacular do Movimento Pentecostal". (4) Este ponto importante do Protestantismo não pode ser desprezado; pelo contrário, deve ser inteiramente compreendido. Menos de vinte anos atrás, Brumback confessou: "Vamos encarar os fatos: o falar em línguas estranhas não é aceito em parte alguma, senão no Movimento Pentecostal." (5) Hoje em dia não se pode dizer isso, porque o falar em línguas estranhas está sendo admitido agora como uma parte da vida normal, tanto pessoal como na igreja, entre batistas, episcopais, luteranos, metodistas, presbiterianos e até católicos. Essa erupção de línguas entre as denominações históricas tem sido chamada a Nova Penetração, o Novo Pentecostismo, a Renovação (ou Reavivamento) carismática e o movimento moderno de línguas. Tanto igrejas, escolas, juntas de missões liberais e conservadoras como publicações têm sentido o impacto desse novo movimento, que tem sido tão largamente difundido que até os meios seculares de comunicação (rádio, televisão, jornais e revistas) têm-lhe dispensado atenção. Assim, torna-se importante para cada crente compreender a natureza dessa nova manifestação de glossalália. A pesquisa para esta obra centralizou-se no estudo pessoal da Bíblia, em teologia e comentários padrões e em publicações contemporâneas (revistas e jornais). São raros os livros que tratam desse fenômeno contemporâneo. Todas as citações das Escrituras (nesta tradução do inglês) são da Revisão da Imprensa Bíblica Brasileira e as palavras gregas, do Greek New Testament (Novum Testamentum Graece), de Nestle.

(4) Carl Brumback, What Meaneth This? (Springfield, Mo.: The Gospel Publishing House, 1947), pp. 99, 147. (5) Ibid., pp. 175 e 176.

Um Exame Histórico do Falar em Línguas Estranhas

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UM EXAME HISTÓRICO DO FALAR EM LÍNGUAS ESTRANHAS

PARA SE COMPREENDER plenamente o movimento contemporâneo de línguas, é imprescindível um conhecimento prático da história do fenômeno. Advogados da glossolalia dizem que o fenômeno não cessou na era apostólica, porém tem persistido através das várias gerações da cristandade, em indivíduos isolados ou em reavivamentos de grupos. Os antecedentes diretos do presente movimento podem ser vistos nos reavivamentos dos séculos dezenove e começo do vinte. Tais pretensões de sucessão apostólica ou de redescobrimento necessariamente terão que ser investigadas. Naturalmente, a mera demonstração da realidade do fenômeno em períodos diferentes não pode em si provar a realidade ou a genuinidade bíblica do fenômeno hoje em dia. Nem tampouco a ausência de ocorrências hoje.

A história só pode relatar o que aconteceu ou o que não aconteceu. Ela não pode providenciar um teste absoluto da realidade ou da genuinidade nem tampouco providenciar uma norma para a fé e a prática. Em todas as experiências espirituais, somente as Sagradas Escrituras providenciam a base para a doutrina e a vida. A Bíblia tem de julgar a História, não vice- versa. Todavia, tendo em mente essa perspectiva, um conhecimento histórico do movimento de línguas deve ser útil.

Nas Religiões Não-Cristãs

A glossolalia não é coisa particular da religião cristã. Relatos de sua ocorrência acham-se nas religiões e filosofias não-cristãs, tanto do passado como do presente. Tais relatos podem ser completa ou parcialmente verdadeiros, ou totalmente falsos. É impossível fazer um julgamento histórico a respeito. Tem que se aceitar a evidência tal qual se apresenta. Mesmo que o fenômeno e seu relato sejam verdadeiros, isso não demonstra identidade absoluta nem com a glossolalia bíblica

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nem com o presente movimento de línguas. A glossolalia não-cristã, se é

verdadeira, teve sua fonte em Satanás. O propósito principal desta seção

é demonstrar que o fenômeno de falar línguas estranhas pode ser feito ou simulado, por atividade humana ou satânica. Se foi possível fazê-lo no passado, também se pode fazer hoje em dia da mesma forma. A experiência, por si, não pode ser o teste de sua fonte.

O Relato de Wenamon

O "Relato de Wenamon" dá a mais antiga descrição da fala religiosa frenética. Foi escrito cerca de 1100 a.C., de Byblos, na costa siro- palestiniana. Nesse relato, um jovem adorador de Amon ficou possesso

pelo deus e falou numa linguagem extática. O texto diz: "Ora, quando ele

o deus pegou num dos seus jovens nobres,

tornando-o frenético, de modo que ele disse: Traze para cá o deus! Traze

o mensageiro de Amon que o tem. Envia-o e deixa-o ir." (1) Esse estado

frenético durou a noite inteira. Aqui se deve fazer algumas observações. Primeiro, diz-se que o homem usou de uma fala frenética, que pode ter sido ou não uma outra língua. Segundo, esse foi um fenômeno religioso, porque o homem estava ocupado em cultuar o seu deus. Terceiro, seu deus o considerou digno de proteção e respeito. Finalmente, sua fala frenética foi o resultado direto de sua possessão ou controle por um deus.

sacrificou aos seus deuses

Diálogos de Platão

Nos seus diálogos, o grande filósofo grego Platão (429-347 a.C.) revelou um conhecimento da fala religiosa extática. No Phaedrus, (2) ele

(1) George A Barton. Archaeology and the Bible (Philadelphia: American Sunday Scholl Union, 1946, p. 235. (2) Plato, "Dialogues of Plato", trans. Benjamin Jowett, Vol. VII de Great Books of the Western World, ed. R. M. Dutchins (Chicago: Encyclopaedia Britannica, Inc., 1952) sec. 244.

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escreveu a respeito de certas famílias que estavam participando de santas orações, ritos e pronunciamentos inspirados. Os participantes eram indivíduos possessos e perderam o juízo (perda de controle das faculdades mentais, porém não enlouquecimento). A participação nesses exercícios religiosos até produzia a cura física ao adorador. Platão chamou de "loucura" a profecia e identificou a loucura como uma dádiva divina. Disse ele que a profetisa de Delphi e a sacerdotisa em Dodona, quando fora de si, podiam exercer grande influência benéfica sobre certos indivíduos, porém, quando em pleno controle de suas mentes, bem pouca ou nenhuma. No Ion (3) Platão declarou que os bons poetas compõem seus poemas não pela arte, mas por estarem inspirados ou possessos. Não estão em pleno poder das faculdades mentais naqueles momentos, porque Deus "retira" suas mentes e os usa como seus servos. Deus fala através dos adivinhadores e santos profetas ao estarem num estado inconsciente. Na fala inspirada, Deus é quem fala, não o homem. Platão também comparou os poetas aos foliões coribantianos, que se tornaram extáticos tanto na fala como na ação, e às moças baquianas do culto Dionisiano. No Timueus, (4) Platão declarou que, quando um homem recebe a palavra inspirada, ou sua inteligência é dominada no sono ou ele é desnorteado por alguma doença ou possessão. Essa pessoa (adivinhador) não pode lembrar-se do que tenha falado. Esses pronunciamentos são acompanhados de visões que ela também não pode julgar, Assim, necessita-se de intérpretes ou profetas para exporem as declarações obscuras do adivinhador. Certos fatos devemos salientar a respeito das observações de Platão. Primeiro, quem fazia as declarações inspiradas não tinha controle sobre suas faculdades mentais. Segundo, a própria pessoa não entendia o que

(3) Ibid., sec. 533-534. (4) Ibid., sec. 71-72.

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dizia. Terceiro, havia necessidade de interpretação por outrem. Quarto, visões e curas acompanhavam as palavras. Finalmente, a pessoa que falava estava sob a possessão divina.

Vergílio

Na sua "Eneida", (5) Vergílio (70.19 a.C.) descreveu a sacerdotisa Sibelina na ilha de Delfos. Ela conseguiu seu estado e fala extáticos numa caverna freqüentada onde ventos encanados produziam sons esquisitos e até música. Quando ela se uniu em espírito ao deus Apolo, começou a falar em línguas, às vezes compreendidas e às vezes incoerentes.

A Pitonisa de Delfos

Crisóstomo, o grande Pai da Igreja, descreveu a Pitonisa desta maneira:

" diz-se então que essa mesma Pitonisa, sendo uma fêmea, às vezes

senta-se escarranchada na trípode de Apolo, e, por conseguinte, o espírito mau, subindo de baixo e entrando na parte baixa do seu corpo, enche de loucura a mulher, e ela, com o cabelo desgrenhado, começa a tocar o bacanal e a espumar pela boca, e assim, estando num frenesi, fala as

palavras de sua loucura"

Por causa de sua capacidade de produzir a fala extática sob a inspiração e possessão divinas, freqüentemente era adorada e consultada para conselhos e predições. Martin acrescentou: "Sacerdotes, aparentemente, a assistiam sempre, para apanharem cada expressão e

(6)

(5) Virgil, "Aeneid", trad. de James Rhoades, Vol. XIII de Great Books of the Western World, ed. R. M. Hutchins (Chicago: Encyclopaedia Britannica, Inc. 1952) livro VI. (6) Chrystom, "Homilies on First Corinthians", trad. de T, W. Chambers, Vol. XII de The Nicene and Post-Nicene Fathers, ed. Philip Schaff (Primeiras Séries; New York: The Christian Literature Co., 1889), Hom. 29.2.

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para interpretarem seus gritos e parolagens, quando esses não mais eram coerentes." (7)

Religiões de Mistério

No mundo greco-romano, havia muitas religiões ou cultos misteriosos. Entre estes, havia o culto de Osíris, que se originou no Egito, o culto de Mitra, que começou na Pérsia, o Eleusiniano, o Dionisiano e os cultos Órficos, que começaram na Trácia, Macedônia e Grécia. Ainda que haja pouca evidência de glossolalia nos registos desses cultos, Martin crê que havia boas razões de pensar que tal fala extática prevalecia entre eles. (8) Primeiro, o sistema inteiro de crenças, ritos iniciatórios e práticas religiosas estava centralizado no conceito de possessão pelos espíritos ou identificação com eles. Segundo, os termos cristãos significando glossolalia (pneuma e lalein glossais) vieram do grego vernáculo, que existia muito antes de ser escrito o Novo Testamento. Terceiro, no registro De Dea Syria, Luciano de Samosata (120-198 d.C.) descreveu um caso nítido de glossolalia falada por alguns devotos itinerantes da deusa siríaca Juno, localizada em Bambice ou Hierópolis, na Síria. Kittel acrescentou que fenômenos comparáveis podiam ser achados no manticismo divinatório da Délfica Frígia, dos Bacides e das Sibilas. (9) Concernente à adoração do culto ou da mágica, ele escreveu:

As listas ininteligíveis de nomes mágicos e cartas na fala mágica (voces mystical) que são empregados em invocar e conjurar os deuses e espíritos também podem ser análogos a esse falar obscuro de línguas e sem significação. A esses místicos nomes divinos etc., nos quais há ecos

(7) Ira J. Martin, III, Glossolalia in the Apostolic Church (Berea, Ky.: Boroa College Press, 1960), p.

80.

(8) ) Ibid., p. 79-80. (9) Gerhard Kittell, Theological Dictionary of the New Testament, trad. de Geoffrey W, Bromiley (Grand Rapids: Wm. B. Eardman's Pub. Co., 1964) I, p. 722.

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de várias línguas orientais, podemos certamente juntar o ponto de vista de que derivam de línguas supra-terrestres, usadas pelos deuses e espíritos nos céus, cada classe com sua peculiar phone ou dialektos. (10)

Ocorrências Presentes

Stolee relatou que a fala extática acha-se entre os maometanos. (11) Os dervixes da Pérsia constantemente murmuram o nome de Alá com o sacudir violento do corpo e êxtases que terminam com o espumar da boca. Esses movimentos violentos conduzem para a exaustão e inconsciência parcial. Durante esse período de êxtase, eles pregam sermões de moral. Os esquimós da Groenlândia, conta-se, já participaram da glossolalia. (12) Seus cultos religiosos são dirigidos pelo angakok, seu feiticeiro ou sacerdote. Nesses cultos há uma tentativa definida de entrar em contacto com o mundo dos espíritos. Caracterizam-se os cultos pelo tocar do tambor, pelo cântico, pela dança e pela nudez, tanto da parte dos homens como das mulheres. Peter Freuchen, no seu livro Arctic Adventure, assim caracterizou a glossolalia:

De repente um dos homens, Krisuk, ficou fora de si. Não mais podendo controlar-se conforme o ritmo regular do culto, ele pulava e gritava, ora como corvo, ora uivando como lobo. Em êxtase ele e a moça, Ivaloo, começaram a

gritar numa língua que eu não podia entender

comum dos esquimós

estranhas, então eu a ouvi. (13)

certamente não era a língua

e se realmente há tal coisa como falar línguas

V. Raymond Edman, reitor do Wheaton College, fez os seguintes relatos sobre a glossolalia pagã contemporânea no Tibet e na China:

Um dos nossos formandos de Wheaton, que nascera e se criara na fronteira tibetana, conta haver ouvido certos monges tibetanos, nas suas

(10) Ibid., I, p. 723. (11) If. I. Stolee, Speaking in Tongues (Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1963), p. 19.

(12) Ibid

pp. 85-87.

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danças rituais, falarem inglês, com citações de Shakespeare, com palavras chulas, como as de marinheiros embriagados, ou em alemão ou francês, ou em línguas desconhecidas. Bem recentemente, um missionário aposentado da Missão Interior da china contou a mesma experiência. (14)

Resumo

Ocorrências de glossolalia entre os não-cristãos têm sido relatadas tanto por escritores pagãos como por escritores cristãos. As semelhanças que essas ocorrências têm com as da glossolalia bíblica são bem marcantes. A pessoa estava ocupada no culto religioso; estava controlada por um ser considerado divino; perdeu o controle de suas faculdades mentais; falou numa língua diferente e havia necessidade de intérprete. Todavia, não se deve concluir que a glossolalia cristã seja apenas um refinamento da pagã. As fontes são inteiramente opostas Deus e Satanás, ou a própria pessoa. Apesar de tudo, tem que se admitir que Satanás pode operar esse fenômeno. Ele o tem feito no passado: poderá estar fazendo isto hoje em dia.

O Antigo Testamento

Martin tem identificado alguns casos de fala profética no Velho Testamento com o fenômeno de glossolalia. (15) O Espírito do Senhor repousou sobre Eldade e Medade e eles profetizaram (Núm. 11:26-30). O Espírito Santo veio também sobre Balaão, e ele falou. Também teve visões de Deus e caiu em êxtase, porém com os olhos abertos (Núm. 23:7-10, 18-24; 24:3-9, 15-24). Os

filhos dos profetas profetizaram acompanhados de música. Saul se juntou a eles, profetizou e foi transformado em outro homem (I Sam. 10:1-13). Mais

tarde Saul despiu as suas vestes, profetizou, e esteve nu por terra todo

(14) V. Raymond Edman, Divine or Devilish?, Christian Herald (maio, 1964), p. 16. (15) Martin, op. cit., pp. 74-76.

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aquele dia e toda aquela noite (I Sam. 19:18-24). No monte Carmelo, os profetas de Baal, ao contender com Elias, invocavam continuamente o nome de Baal. Eles saltavam, clamavam em altas vozes e se retalhavam com facas e com lancetas e profetizavam (I Reis 18:26-29). Ainda que as ações desses vários profetas se aproximem das de quem fale em línguas estranhas, não se pode demonstrar que eles de fato falaram em línguas. Não se diz explicitamente que o fizeram. Afirmar isso seria impor um conceito do Novo Testamento sobre uma ação do Velho Testamento.

O Novo Testamento

As primeiras referências claras ao fenômeno bíblico de falar em línguas diferentes acham-se no Novo Testamento, Os discípulos falaram em outras línguas quando desceu sobre eles o Espírito Santo no dia de Pentecostes (At. 2:1-13). Cornélio e os de sua casa falaram em línguas quando creram no evangelho pregado por Pedro (At. 10:44-48). Os doze discípulos de João, o Batista, falaram em línguas depois de receberem a revelação da verdade cristã pregada por Paulo (At. 19:1-7). O dom de línguas é discutido por Paulo na sua primeira carta à igreja em Corinto (I Cor. 12-14).

Línguas são mencionadas na grande comissão registada por Marcos (16:17), porém essa passagem é muito insegura textualmente e é contestável. (16) Ainda que não haja referência explícita a línguas nos registos do avivamento samaritano (At. 8:5-25) e da conversão de Paulo (At. 9:1-17), alguns dos que advogam a glossolalia estão convencidos de que o fenômeno ocorreu em cada um dos casos. (17)

(16) Tanto a evidência externa dos manuscritos como o conteúdo interno dessa passagem argumentam contra sua genuinidade como uma parte integral do Evangelho de Marcos. Sendo tão fracamente alicerçada, eis não pode ser usada como prova de qualquer doutrina. Este assunto será discutido num capítulo posterior. (17) O que Simão "viu" (At. 8:18) supõe-se ser a glossolalia por parte dos samaritanos convertidos. Alega-se também que o testemunho de falar línguas por parte de Paulo (I Cor. 14:18) tenha começado em Atos 9.

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Esses vêem o fenômeno também em certas frases distintas: "e

anunciavam com intrepidez a palavra de Deus" (At. 4:31); "o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inexprimíveis" (Rom. 8:26);

no Espírito"

"cânticos espirituais" (Ef. 5:19; Cf. I Cor. 14:15) ; "orando

(Ef. 6:18; cf. I Cor. 14:15); "Não extingais o Espírito; não desprezeis as

profecias" (I Tess. 5:19, 20); "Se alguém fala, fale como entregando oráculos de Deus" (I Ped. 4:11). Nos capítulos posteriores haverá exposição das passagens em Marcos, Atos e I Coríntios. O propósito desta seção é justamente expor aquelas partes bíblicas que mencionam o fenômeno.

O Período Ante-Niceno (100 325 d.C.)

Esse período da história eclesiástica foi um tempo caracterizado pela perseguição, pela defesa apologética da fé e pela formulação doutrinária. Muitos santos preeminentes viveram, ministraram e foram martirizados no decorrer desse período. Se o falar em línguas não cessou na era apostólica devia haver alguma evidência do fenômeno na vida e nos escritos desses grandes Pais da Igreja. Donald Gee, escritor inglês

pentecostal, crê que existe tal evidência. Concernente aos dons espirituais, ele escreveu: "Irineu, Tertuliano, Agostinho, todos se referem a esses dons como ainda existindo nos seus próprios tempos." (18) Cleon

é significativo

Rogers deu o ponto de vista oposto, na sua declaração: "

que o dom (de línguas) em parte nenhuma é referido, sugerido, ou achado nos escritos dos Pais Apostólicos." (19) . Quem tem razão?

Examinemos a evidência.

(18) Donald Gee, Concerning Spiritual Gifts (Springfield, Mo.: The Gospel Publishing House, n. d.), p. 10.

(19) Cleon L. Rogers, Jr., The Gift of Tongues in the Post-Apostolic Church, Bibliotheca Sacra, CXXII (abril-junho, 1965), p. 134.

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Justino Mártir (110-165 d.C.)

Justino Mártir foi o mais eminente dos apologistas gregos no segundo século. É chamado o primeiro filósofo cristão ou o primeiro teólogo filosófico. Dedicou sua vida inteira à defesa do cristianismo, e foi martirizado. Em Éfeso esforçou-se para ganhar o judeu Trifo e seus amigos para a fé cristã. No seu famoso Dialogue with Trypho, escreveu:

"Pois os dons proféticos permanecem conosco, mesmo até o tempo presente. E daí deves compreender que (os dons) anteriormente entre sua

nação foram transferidos a nós." (20) Mais tarde, ele confessou: "Agora é possível ver entre nós homens e mulheres que possuem dons do Espírito

" (21) À primeira vista, pareceria que os dons espirituais,

inclusive o dom de línguas, existiam no tempo de Justino. Todavia, os dons existentes eram aqueles uma vez possuídos por Israel, e em nenhum lugar se diz, no Velho Testamento, que o falar línguas era atividade normal ou mesmo rara dos israelitas. O próprio Justino definiu a natureza dos dons então existentes. Ele relatou os dons proféticos de Salomão (o espírito de sabedoria), de Daniel (o espírito de entendimento e conselho), de Moisés (o espírito de poder e de piedade), de Elias (o espírito de temor) e de Isaías (o espírito de conhecimento). (22) Esses dons não podem ser identificados com os dons espirituais mencionados em I Coríntios 12.

de

Irineu (120-202 d.C.)

Irineu é chamado "o primeiro" e o "mais ortodoxo" dos Pais da Igreja. Ele estudou sob a tutela de Policarpo, de Esmirna, que fora aluno do apóstolo João. Depois de algum serviço missionário, ele se tornou

(20) Justin Martyr, Dialogue With Trypho, Vol. I de The Ante-Nicene Fathers, eds. Alexander Roberts and James Donaldson (Grand Rapids: Wm. B. Eardman's Publishing Co., 1950), sec. 82, p. 240. (21) Ibid. sec. 88, p. 243. (22) Ibid,, sec. 87, p. 242.

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Bispo de Lion, na França. Sua refutação do gnosticismo, Against Heresies, é considerada sua obra mais importante. Nesse livro, ele escreveu o seguinte comentário sobre I Coríntios 2:6:

chamando perfeitos aquelas pessoas que têm recebido o Espírito de Deus e as quais através do Espírito de Deus falam todas as línguas, como Ele próprio falava. Semelhantemente, nós também ouvimos muitos irmãos na igreja que Possuem dons proféticos e que, através do Espírito, falam todas as qualidades de línguas e trazem à luz, para o proveito geral, as

coisas escondidas de homens e declaram os mistérios de Deus

Devemos notar várias coisas acerca desta citação. Primeiro, ele não diz que ele falava línguas. Segundo, seu emprego de "nós ouvimos" indica mais um conhecimento de segunda mão desse fenômeno que de testemunha ocular. Terceiro, na sua descrição daqueles que tinham os dons proféticos e falavam línguas, provavelmente se referia aos montanistas, cuja influência naquele tempo era bastante forte.

(23)

Montano (126-180 d.C.)

Montano provavelmente foi a figura mais controvertida do segundo século. Basicamente era ortodoxo. Impugnava o batismo infantil e o gnosticismo e defendia a doutrina da Trindade, o sacerdócio universal dos crentes, o milenarismo e o ascetismo. Identificou a revelação do Parácleto (João 14:16) com a religião espiritual dos montanistas, que se chamavam a si mesmos de "pneumatics" ou igreja espiritual, em contraste com a igreja física ou Católica. Considerava a si próprio como o órgão inspirado do Espírito Santo. O emprego da primeira pessoa fez com que muitos pensassem que se fazia de si mesmo o próprio Espírito Santo. Eusébio o caracterizou assim:

um neófito, Montano por nome, pelo desejo de ser um líder, deu ao adversário vantagem sobre ele. E perdeu o controle próprio, e

(23) Irineu, Against Heresies, Vol. I de The Ante-Nicene Fathers, eds. Alexander Roberts and James Donaldson (Grand Rapids: Wm. B. Eerdman's Publishing Co., 1950), V. 6, 1, p. 531.

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subitamente, estando como num frenesi e êxtase, delirou e começou a balbuciar e dizer coisas esquisitas, profetizando de uma maneira contrária ao costume consoante da Igreja, entregue pela tradição desde o começo. Alguns daqueles que ouviram as suas palavras espúrias se tomaram indignados, e o repreenderam, como se ele estivesse possesso e sob o controle dum demônio e fosse conduzido por um espírito

enganador, perturbando a multidão

E, além disso, ele excitou duas

mulheres e as encheu do espírito falso, de modo que falavam louca, irrazoável e estranhamente, como a pessoa já mencionada. (24) Que se pode aprender de Montano? Primeiro, ele era tido por herético e possesso do demônio. Talvez não fosse, porém foi esse o juízo feito pelos cristãos daquela época. Segundo, suas profecias e o falar

línguas eram contrários ao procedimento daqueles dias. Terceiro, sua pretensão de ser o único autorizado a falar pelo Espírito Santo e suas ações físicas deixam muito a desejar para condizer com a norma da Bíblia.

Tertuliano (160-220 d.C.)

Esse "pai da igreja" do norte da África é considerado o pai da teologia latina. Convertido quando já bem adulto, mais tarde uniu-se aos montanistas. Trabalhou em Cartago como presbítero e autor montanista. Sua crença na contínua existência dos dons espirituais vê-se nesta declaração: "Pois, vendo que nós admitimos as charismata espirituais, ou dons, nós também temos merecido o recebimento do dom "

revelação, visões extáticas e falava com os anjos e com Deus, dons de

(25) Então ele descreve uma mulher que tinha dons de

profético

(24) Irineu, Against Heresies, Vol. I de The Ante-Nicene Fathers, eds. Alexander Roberts and James Donaldson (Grand Rapids: Wm. B. Eerdman's Publishing Co., 1950), V. 6, 1, p. 531. (25) Tertuliano, A Treatise on The Sou1, trad. de Peter Holms, Vo1. III do The Ante-Nicene Fathers, eds. Alexander Roberts and James Donaldson, Grand Rapids: Wm. B. Eardman's Publishing Co., 1951), sec. 9, p.188.

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curar e discernimento do coração de alguns homens. Na sua disputa com Marcion, ele escreveu:

Permita-se, então, que Marcion exiba, como dom de seu deus, alguns profetas que não tenham falado pelo sentido humano, porém com o Espírito de Deus, que tanto predisseram coisas a vir como tornaram manifestos os segredos do coração; que ele produza um salmo, uma visão, uma prece

que seja pelo Espírito, num êxtase, isto é, num arrebatamento, quando lhe

tenha ocorrido uma interpretação de línguas

dons espirituais) provêm do meu lado, sem qualquer dificuldade, e eles concordam também com as regras, e as dispensações, e as instruções do Criador; portanto, sem dúvida, o Cristo, o Espírito e o apóstolo pertencem cada um de per si ao meu Deus. (26)

Como montanista, é de se esperar que Tertuliano abraçasse os dons espirituais, inclusive o de falar línguas. No lado técnico, deve-se dizer que Tertuliano não afirma ter ele próprio falado línguas. Que o tenha

feito é bem provável, porém nos falta uma declaração explícita. Agostinho declara que mais tarde Tertuliano abandonou os montanistas e fundou uma nova seita, que posteriormente se reconciliou com a congregação católica em Cartago. (27) Se é verdade isso, pode ser que Tertuliano tenha ficado desencantado com os excessos "pneumáticos" dos montanistas.

Ora, todos esses sinais (de

Orígenes (185-254 d.C.)

Orígenes foi, indubitavelmente, o maior erudito cristão da sua época. Foi o mais dotado, o mais industrioso e o mais culto de todos os pais ante-nicenos. Tornou-se diretor da escola catequética em Alexandria. Na sua refutação dos ataques de Celso contra o cristianismo, deu ele, ao mundo cristão, uma das mais valiosas peças de literatura apologética. Freqüentemente se citam estas palavras de Celso para indicar a existência de glossolalia naquele tempo: "A essas promessas

(26) Ibid., Against Marcion, V. 8, p. 477. (27) Citado por Philip Staff, History of the Christian Church (Grand Rapids: Wm. B. Eardman's Publishing Co., 1952), II, pp. 420 e 421.

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são acrescentadas palavras estranhas, fanáticas e bem ininteligíveis, das quais nenhuma pessoa racional pode achar o significado: pois tão

obscuras são elas como se nenhum significado

Todavia, essas "palavras ininteligíveis" não se referem à glossolalia extática, porém às profecias difíceis no Velho Testamento. Na sua

mas nós, de acordo com nossa

capacidade, em nossos comentários sobre Isaías, Ezequiel e alguns dos

doze profetas menores, temos explicado literalmente e em pormenor o que ele denomina 'aquelas passagens fanáticas e totalmente ininteligíveis'." (29)

Em outro lugar, ele escreveu acerca da continuação de alguns sinais do Novo Testamento:

Ademais, o Espírito Santo deu sinais de sua presença no começo do ministério de Cristo, e depois da ascensão de Cristo, o Espírito Santo deu ainda mais; porém desde aquele tempo diminuíram-se esses sinais, ainda que haja traços de Sua presença nos poucos que tiveram sua alma purificada pelo evangelho e suas ações reguladas por sua influência. (30)

refutação, Orígenes escreveu: "

" (28) (28)

Esses sinais não poderiam incluir a glossolalia, porque nem Cristo nem seus apóstolos falaram em línguas estranhas enquanto Ele estava no mundo. Forçosamente, têm de se referir aos casos de cura divina, que definitivamente estavam diminuindo.

Os Períodos Niceno e Pós-Niceno (311 600 d.C.)

Esse foi um período de consolidação e de corrupção eclesiástica, porque a religião cristã foi aceita pelo Imperador Constantino e assim ganhou a proteção do Estado Romano. Três testemunhas significativas da glossolalia surgem desse período: Pacômio, Crisóstomo e Agostinho.

(28) Orígenes, Against Celous, trad. de Frederick Crombie, Vol. IV de The Ante-Nicene Fathers, eds. Alexander Roberts and James Donaldson. (Grand Rapids: Wm. B. Eardman's Publishing co., 1951), sec. 7.9. (29) Ibid., sec. 7. 11. (30) Ibid., sec. 7. 8.

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Pacômio (292-348 d.C.)

Pacômio foi o fundador de uma sociedade de monges na Ilha Tabennae, no rio Nilo, no Egito superior. A lenda declara que um anjo lhe comunicou seu modo estrito de viver, no qual ele nunca tomou uma refeição completa depois de sua conversão e dormiu durante quinze anos sentado sobre uma pedra. Seus monges sempre comiam em silêncio e comunicavam-se entre si por meio de sinais. A respeito de seus milagres, Schaff escreveu: "A tradição lhe atribui todas as qualidades de milagres, até o dom de línguas e o domínio perfeito sobre a natureza, de modo que ele pisava, sem sofrer danos, sobre cobras e escorpiões, e atravessava o Nilo nas costas de crocodilos." (31) Nesse contexto seria difícil dizer se Pacômio alguma vez falou línguas. Andar sobre cobras e escorpiões sem sofrer dano e usar crocodilos para se transportar sobre o rio Nilo certamente é incompatível com os milagres bíblicos.

Crisóstomo (345-407 d.C.)

João Crisóstomo foi o maior expositor e pregador da Igreja Grega, É citado pelos comentadores modernos mais do que qualquer outro "Pai da Igreja". Começando como monge, tornou-se diácono e presbítero em Antioquia e mais tarde o patriarca de Constantinopla. No seu comentário sobre "dons espirituais" (I Cor. 12:1-2), ele escreveu: "Esta passagem toda é muito obscura; porém a obscuridade é produzida por nossa ignorância concernente aos fatos aqui referidos e pela sua cessação, sendo tais como então aconteciam, porém que agora não mais ocorrem." (32) Aqui está uma declaração categórica. Pelo menos, até o tempo de Crisóstomo a glossolalia havia desaparecido da Igreja.

(31) Schaff, op. cit., III, 197. (32) Crisóstomo, op. cit., Hom. 29.1.

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Agostinho (354-430 d.C.)

Agostinho foi a cabeça intelectual das igrejas do Norte da África e das igrejas Ocidentais de seu tempo. Sua doutrina influenciou a Igreja Católica Romana até o tempo de Tomás de Aquino. Defendeu galhardamente a ortodoxia contra o maniqueísmo, o donatismo e o pelagianismo. No seu debate com os donatistas, ele afirmou que o Espírito Santo era recebido sem o falar línguas, e, sim, com a implantação do amor divino. (33) O significado temporário da glossolalia vê-se mais claramente no seu comentário sobre I João:

No tempo mais primitivo, "o Espírito Santo caiu sobre os que creram, e eles falaram em línguas" que não haviam aprendido, "como o Espírito lhes concedia que falassem". Esses eram sinais adaptados àquele tempo. Pois convinha tal sinal do Espírito Santo em todas as línguas, para mostrar que o Evangelho de Deus deveria passar por todas as línguas no mundo inteiro. Isso foi feito como um sinal, e depois desapareceu. (34) Definitivamente, Agostinho considerava a glossolalia como um fenômeno temporário, limitado à era apostólica. O "falar línguas" não existia nos seus dias, e ele não esperava a sua recorrência.

Resumo

Nos três séculos seguintes à era apostólica, há apenas duas referências à glossolalia (Montano e Tertuliano, que era montanista). O fato de que o montanismo refletia um ponto de vista falso, egoísta, da pneumatologia mal pode argumentar a favor da genuinidade da glossolalia bíblica naquele período. Portanto, não há nenhum caso

(33) Augustine, On Baptism, Against the Donatists, trad. de J. R. King, Vol. IV de The Nicene and Post-Nicene Fathers, ed. Philip Schaff (Primeiras séries Buffalo: The Christian Literature Co., 1887), III, 16-21. (34) Augustine, Ten Homilies on the First Epistle of John, trad. de H. Browne Vol. VII of The Nicene and Post-Nicene Fathers, ed. Philip Schaff (New York: The Christian Literature Co., 1888), VI, 10.

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genuíno de glossolalia na era pós-apostólica. O falar línguas havia cessado definitivamente. Os testemunhos de Justino Mártir, Irineu, Orígenes, Crisóstomo e Agostinho confirmam esta conclusão.

Rogers chegou a formular certas conclusões de grande significação, baseando-se no silêncio dos pais apostólicos quanto ao falar línguas. (35) Primeiro, alguns dos "pais" escreveram "de" e "para" igrejas onde o dom fora praticado no tempo do Novo Testamento. Todavia, não há menção da existência de glossolalia no seu tempo. Nada se acha na carta de Clemente de Roma à igreja em Corinto nem na carta de Ignácio à igreja em Éfeso. Segundo, os "pais" viveram em cidades e escreveram a cidades em toda a área significativa do Império Romano. Se existisse a glossolalia e largamente espalhada, de qualquer maneira eles a teriam mencionado. Terceiro, os "pais" escreveram sobre cada doutrina principal do Novo Testamento, todavia, não há menção de "línguas". Quarto, em muitos dos seus escritos, os "pais" procuraram demonstrar a superioridade do cristianismo ou o caráter normal do cristianismo; todavia, a glossolalia não é citada como um exemplo. O silêncio dos "pais apostólicos" deve ser considerado como muito significativo.

A Idade Média (590 1517)

Foi esse o período da dominação católica romana e da perversão doutrinária. Corretamente tem sido chamado de "Idade Escura", porque a luz das Escrituras aparentemente se apagara. No entanto, mesmo desse período vêm-nos alguns ecos de glossolalia.

Hildegard (1098-l179)

Hildegard foi chamada a maior visionária e profetisa, a Sibila do Reno. A maior parte de sua vida, ela passou doente. Teve muitas visões, especialmente nos períodos de sua enfermidade. Foram-lhe atribuídos

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milagres e glossolalia. Uma evidência desta pode se ver no seu escrito

o manuscrito, de onze folhas, que inclui uma lista de

900 palavras de um idioma desconhecido, na maior parte substantivos e apenas alguns adjetivos, uma explicação em Latim e, em alguns casos, uma em Alemão, juntamente com um alfabeto de vinte e três letras, impresso em

Língua Ignota:

Pitra." (36)

Vincent Ferrer (1350-1419)

Vincent Ferrer, um monge dominicano, reportou-se ter visto uma aparição de Cristo acompanhado por São Domingos e São Francisco. Essa experiência o levou à cura milagrosa de uma doença mortal. Teve um ministério extensivo, caracterizado pela operação de milagres e pela pregação no oeste da Europa. Concernente a sua pregação, a Enciclopédia Católica declara: "Seria difícil compreender como ele podia se fazer entender pelas muitas nacionalidades que ele evangelizou, visto que sabia falar apenas a língua de Limousin, o idioma de Valência, Muitos daqueles que escreveram sua biografia sustentam que ele possuía o 'dom de línguas', opinião defendida por Nicolau Clemangis, doutor da universidade de Paris, que o ouviu pregar." (37)

A Reforma (1517 1648)

Esse, naturalmente, foi o período de reavivamento doutrinário, Através do ministério de Lutero, Calvino, Zuínglio e Knox, a verdade da "justificação pela fé" foi redescoberta e apresentada. Havia uma mudança do ritualismo para o estudo da Bíblia e o culto simples, todavia, não houve tentativa de recobrar a glossolalia. Entretanto, há referência a alguns que de fato falaram línguas.

(36) "Hildegard", The Catholic Encyclopedia (New York: The Encyclopedia Press, Inc., 1913), VII, 352. (37) "Vincent Ferrer", The Catholic Encyclopedia (New York: The Encyclopedia Press Inc. 1913) XV, 438.

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Martinho Lutero (1483-1546)

Martinho Lutero foi o grande reformador. Sua defesa da fé, contra as ameaças do papado e do império é admirada e estimada por todos. Tomás Zimmerman, superintendente geral das Assembléias de Deus, sustentava que Lutero também falava línguas. Esta a declaração da History of the Christian Church, por Erick Sauer: "O Dr. Martinho Lutero foi profeta, evangelista, falador de línguas e intérprete numa só pessoa, dotado de todos os dons do Espírito Santo." (38) Todavia, não se cita como prova dessa pretensão nenhuma declaração dos próprios escritos de Lutero. Sauer talvez estivesse fazendo referência à capacidade de Lutero de ler e falar alemão, latim, grego e hebraico. Brumback, que advoga a glossolalia, reconheceu esta possibilidade, quando escreveu: "Não temos podido determinar o conceito do autor sobre a natureza de línguas e, portanto, hesitaríamos em admitir esta citação como evidência conclusiva." (39) (39)

Francisco Xavier (1506-1552)

Embora não fosse reformador, Xavier foi uma figura significativa do período da Reforma. Pretende-se que ele tenha operado milagres e falado em outras línguas. Todavia, como missionário católico romano ao Oriente, ele dedicou o primeiro ano inteiro ao estudo da língua japonesa. Logo que pôde expressar-se, começou a pregar.

Resumo

Poderiam ser juntados às pessoas mencionadas sob o título "Idade Média" e "A Reforma" os nomes de Luís Bertrand (1526-1581) e muitos

(38) Thomas F. Zimmerman, "Plea for the Pentecostalists", Christianity Today, VII (4.1-1963), 12.

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outros santos católicos. Todavia, isto é desnecessário porque suas experiências são semelhantes em caráter àquelas mencionadas. Pode-se discutir conclusivamente se o fenômeno de glossolalia teria ocorrido nesses períodos. As pretensões também podem ser falsas. Schaff, eminente historiador eclesiástico, concluiu:

O que São Bernardo, São Vicente Ferrer e São Francisco Xavier podem ter pretendido não é uma heteroglossolalia milagrosa, porém uma eloqüência tão ardente, sincera e intensa, que as nações rudes que os ouviam em latim ou espanhol imaginavam que os ouviam em sua própria

língua

poderes milagrosos, mas somente seus discípulos ou escritores

Nenhum daqueles santos pretendia o dom de línguas ou de outros

posteriores.

(40)

A tendência do catolicismo romano de elevar e venerar os seus santos sempre se tem fundamentado em qualquer avaliação das suas pretensões de milagres, sejam elas de curas ou de glossolalia. Por essa razão, qualquer pretensão de glossolalia proveniente de fontes católicas deve ser considerada como suspeita.

O Período Pós-Reforma (1648 1900)

Esse é o período do avanço Protestante, da Reforma, até o século vinte. No decorrer desse tempo, o "cristianismo" espalhou-se pelo mundo, inclusive na América. Esse período foi marcado também pelo desenvolvimento de cultos e seitas que surgiram espontaneamente ou foram o resultado de divisões de igrejas ou de descontentamento. Em muitos grupos, a glossolalia tornou-se parte integral dos cultos de louvor.

Os Profetas de Cevennes

Na última parte do século dezessete e na primeira parte do século dezoito, irrompeu uma grande perseguição contra os huguenotes

(40) Schaff, op. cit., I, pp. 240-241. Acha-se ai também a prova da conclusão de Schaff.

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franceses na parte suleste da França. No meio dessa tribulação, experiências extáticas, inclusive a profecia e a glossolalia, surgiram entre o povo. Kelsey assim descreve o fenômeno:

A primeira ocorrência de "línguas" proveio de um pronunciamento profético de uma criança de dez anos, Isabeau Vincent, que havia fugido do maltrato por parte de seu pai e testemunhado os soldados do rei matando à baioneta tanto mulheres como crianças que cultuavam a Deus juntas na sua própria igreja. Numa experiência extática ela pedia o arrependimento Logo crianças por toda parte de Cevennes eram apanhadas pelo espírito e profetizavam. Crianças de apenas três anos de idade, diz-se, exortaram o povo em discursos religiosos. Adultos também eram apanhados pelo espírito e se acharam falando certas palavras francesas que eles mesmos não entendiam. (41)

Suas ações físicas eram bem exageradas. (42) Eles caíam para trás, com o corpo plenamente estendido sobre o chão, Seus corpos se contorciam, havendo arquejamento e inflação do estômago. Quando cessavam as ações físicas, começavam a profetizar, exortando o povo a se arrepender e denunciando a Igreja Católica Romana.

Os Jansenistas

Os jansenistas, fundados por Cornélio Jansen, eram um elemento de reforma dentro da Igreja Católica Romana no século dezessete. A experiência, e não a razão ou o raciocínio, era seu guia. Eles se opuseram ao ensino da justificação pela fé. Criam que a relação da pessoa com Deus era possível somente na Igreja Católica e através dela. A glossolalia atribuiu-se a esse grupo, que posteriormente foi condenado por Roma.

(41) Morton T. Keisey, Tongues Speaking (Garden City, N. Y.: Doubleday and Company, Inc., 1964), pp. 52 e 53. (42) Robert Chandler Dalton, Tongues Like as of Fire (Springfield, Mo.: The Gospel Publishing House, 1945), p. 19.

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Os Quacres

Os quacres começaram na Inglaterra no século dezessete com Jorge Fox (1624-1691). Seu alvo foi promover o reavivamento do cristianismo primitivo. Ele declarou que a "Luz Interior" estava dentro de cada homem. Não havia necessidade do ministério ordenado. Seus seguidores se sentavam em silêncio nos seus cultos até que Deus se revelasse diretamente a alguém, A Bíblia era considerada como inspirada por Deus, porém adotada somente como regra secundária, subordinada ao Espírito Santo e à "Luz Interior". A experiência julgava, pois, a Bíblia, e não o contrário. Notifica-se que a glossolalia ocorreu entre os quacres.

Os Irvingitas

Eduardo Irving (1792-1834) era presbiteriano escocês que muito se interessou pela escatologia. Esse interesse foi causado, em parte, pela Revolução Francesa, que provocara na Inglaterra um grande interesse no pensamento apocalíptico, e aumentou através de estudos bíblicos no lar de Henry Drummond. Irving se tornou notável também por causa da sua crença herética na substância pecaminosa no corpo de Cristo. A glossolalia rompeu entre seus párocos nos seus lares e mais tarde nos cultos da igreja, Os irvingitas distinguiam entre a glossolalia de Pentecostes, em idiomas estrangeiros, e a glossolalia corintiana, em línguas extáticas e desconhecidas. (43) Praticaram somente esta última. Um escritor testamentário pré-milenial até atribuiu a origem do ponto de vista do arrebatamento antes da tribulação a um pronunciamento glossolálico dentro da Igreja Irvingita. (44)

(43) Schaff, op. cit., I, p. 237. Schaff observou esse fenômeno posterior numa congregação dos irvingitas em Nova Iorque. As palavras eram desconhecidas; os que falavam eram inconscientes e sem controle sobre a língua. (44) J. Badon Payne, The Imminent Appearing of Christ (Grand Rapids: Wm. B. Eardman's Publishing Co., 1962), p. 32.

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Um desenvolvimento posterior dos irvingitas foi a Igreja Católica Apostólica. Ela restaurou a posição dos Doze Apóstolos e degenerou num catolicismo distorcido, abraçando ritos como a transubstanciação, a extrema unção, velas, incenso e água benta.

Os Shakers (Tremedores)

Os shakers, uma seita americana celibata e comunista, começaram durante o reavivamento quacre de 1747. Sua líder principal foi "Mãe" Ann Lee (1736-1784). Seus ensinos falsos incluíam: (1) Deus, os anjos e os espíritos eram tanto machos como fêmeas; (2) Jesus Cristo não foi o encarnado Deus-Homem; (3) a segunda vinda cumpriu-se em "Mãe" Ann; e (4) o reino de Cristo sobre a terra começou com a Igreja Shaker. Ann Lee pretendia falar setenta e dois idiomas. Dollar descreveu um tal pronunciamento: "O dom de línguas era também acompanhado por tempos de alegria inefável e de danças, durante as quais muitos dos seus hinos foram compostos, ainda que feitos de palavras ininteligíveis e nunca ouvidas antes." (45) (45)

Os Mórmons

O mormonismo, estabelecido por Joseph Smith (1805-1844), nega a salvação pela graça de Deus, a Trindade, a autoridade absoluta das Escrituras e a realidade do inferno. Todavia, o sétimo artigo de fé da Igreja dos Santos dos Últimos Dias declara que eles "crêem no dom de línguas, e em profecia, revelação, visões, curas, interpretação de línguas etc." (46)

(45) George W. Dollar, "Church History and The Tongues Movement", Bibliotheca Sacra, CXX outubro-novembro, 1963), p. 320. (46) Citado por Klaude Kendrick, The Promise Fulfilled (Springfield, Mo.: Gospel Publishing House, 1961), p. 24.

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Vários Avivamentos

O fenômeno de falar línguas tem sido relatado como tendo ocorrido entre os "Leitores" na Suécia (1841-1843), durante os reavivamentos na Irlanda (1859) e entre os primitivos metodistas. (47) O século dezenove tem produzido testemunhos isolados daqueles que falaram línguas sem reconhecer o significado do evento. (48) Alguns têm dito que tanto Moody como Finney, os grande evangelistas, falaram línguas quando receberam o batismo do Espírito Santo. (49) Todavia, essa pretensão se baseia sobre evidência mui fraca. (50) Não há nenhum registro de Finney ou de Moody ter participado da glossolalia. É possível que, como resultado de suas reuniões, tenha havido alguns casos de glossolalia, porém isso de modo nenhum prova que eles tivessem parte ativa em promover o fenômeno.

Resumo

O período Pós-Reforma foi um tempo de confusão. Apareceu a glossolalia até nos lugares mais estranhos. Alega-se que crianças de apenas três anos de idade falavam línguas. As convulsões físicas dificilmente se podem harmonizar com a regra bíblica de controle próprio. A glossolalia não tinha absolutamente relação com as crenças ortodoxas. Católicos romanos, mórmons e seitas falsas (quakers, irvingitas, shakers), todos relataram a glossolalia como uma parte de sua vida eclesiástica. Também seria difícil provar que esses casos do fenômeno constituíssem um reavivamento do falar línguas conforme o registro na Bíblia. Há muitas discrepâncias.

(47) Schaff, op. cit., I, p. 237.

(48) Stanley Howard Frodsham, Whit Sions Following (Springfield, Mo.: Gospel Publishing House, 1946),

pp. 7-17. Esse livro é dedicado à descrição histórica do avivamento Pentecostal através do mundo. (49) Ibid., pp. 9 e 10. Também Jerry Jensen, Baptists and The Baptism of the Holy Spirit (Los Angeles:

Full Gospel Businessmen's Fellowship International, 1963), p. 2. (50) Brumback, loc. cit. Este escritor pentecostalista nega o valor evidencial de tais pretensões.

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O Período Moderno (1900

.)

O movimento contemporâneo de glossolalia entre as igrejas históricas denominacionais tem seu alicerce e sua herança nas denominações pentecostais. Essas denominações são primariamente um desenvolvimento do século vinte. Esse é um período do nascimento, crescimento e expansão pentecostais.

Causas do Pentecostalismo

Que é que causou o surgimento da glossolalia e o estabelecimento subseqüente de igrejas pentecostais? Várias respostas têm sido dadas. Primeiro, houve um colapso da forte ortodoxia depois da Guerra Civil nos Estados Unidos. Como resultado, a evolução e a filosofia de Horácio Bushnell, expressa na sua Christian Nurture, (51) invadiram e conquistaram as igrejas estabelecidas. Segundo, a revolução industrial produziu a corrupção moral e problemas entre os trabalhadores e os diretores das fábricas. Terceiro, a reação a esse colapso espiritual, moral e econômico foi o surgimento do Movimento Pentecostal ou de Santidade. O metodismo e avivamentos em acampamentos enfatizavam a santidade cristã e a perfeição (a segunda bênção). Essa doutrina achou uma pronta aceitação nas áreas rurais e da fronteira nos Estados Unidos. Quarto, os principais líderes pentecostalistas (Spurling, Tomlinson, Parham) começaram a promover ativamente sua posição distintiva. Quinto, uma atitude simpática e tolerante para com o movimento pentecostal desenvolveu-se entre os líderes da ortodoxia americana. A clássica declaração de A. B. Simpson, um líder da Aliança Missionária Cristã, servirá como um exemplo:

(51) "Não há necessidade de uma conversão espontânea. As pessoas gradualmente se tornam cristãs através da educação, não por meio de um evento instantâneo da regeneração. São, por essência, boas, não más."

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Cremos ser o ensino das Escrituras que o dom de línguas é um dos dons do Espírito, e que pode estar presente na assembléia cristã normal como uma dádiva soberana do Espírito Santo sobre aqueles que Ele quiser. Não cremos que haja qualquer evidência nas Escrituras para o ensino de que a glossolalia seja o sinal de haver recebido alguém a plenitude do Espírito Santo, nem tampouco cremos que seja o plano de Deus que todos os cristãos possuam o dom de línguas. Esse dom é um só dentre muitos dons e é dado a alguns para o benefício de todos. A atitude para com o dom de línguas por parte do pastor e do povo deve ser "Não o busqueis; não o

proibais." Isto sustentamos ser a parte de sabedoria na presente hora.

(52)

O próprio Simpson e seu movimento não se caracterizaram pela glossolalia; todavia, certos indivíduos dentro da denominação tentaram recobrar os dons espirituais. Os pentecostalistas se aproveitaram dessa atitude tolerante e enfatizaram o "não o proibais", negligenciando a ordem de "não o busqueis". Aceitaram a tese de que o dom de línguas é soberanamente dado, porém rejeitaram o ponto de vista de que não é o sinal do batismo ou da plenitude do Espírito Santo.

Fundadores do Pentecostalismo

Os movimentos são humanos. Os começos do pentecostalismo moderno são marcados por homens-chaves, que deram direção e ímpeto a sua posição distintiva. Havia muitos; aqui podemos mencionar apenas uns poucos. Ricardo G. Spurling, um ministro licenciado e pastor da Igreja Batista perto da comunidade de Cokercreek, na comarca de Monroe, no Estado de Tennessee, U.S.A., ficou insatisfeito com as igrejas estabelecidas, e formou seu próprio grupo em 1886. Mais tarde, na Comarca de Cherokee, no Estado de Carolina do Norte, ele dirigiu umas conferências avivalistas, que se distinguiram por uma extensiva glossolalia (1896). Seus ensinos e seus cultos avivalistas contribuíram

(52) Citado por Kelsey, op. cit., p. 75. Simpson dissera o mesmo em 1907. Foi reafirmado na Alliance Witness, órgão oficial da CMA, em 1963 (1 de maio 1963, Vol. 98, n.º 9, p. 19).

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para o estabelecimento da Igreja de Deus, dirigida pela família Tomlinson. (53) Charles F. Parham (1873-1929) tem sido chamado "o pai do movimento moderno pentecostal". (54) Ele estabeleceu o Lar de Curas Betel (1898) e o Colégio Bíblico Betel (1900), em Topeka, Estado de Kansas. O corpo discente recebeu o pedido de pesquisar a questão: "Qual

é a evidência bíblica do batismo do Espírito Santo?" Houve acordo

unânime de que a glossolalia constituía essa evidência. Daquele tempo (outono de 1900) em diante houve um esforço convencionado de receber

o batismo do Espírito Santo com sua evidência de glossolalia. Uma de

suas alunas, Agnes Ozman, falou em línguas estranhas no 1° dia de janeiro de 1901. O significado desse evento foi apontado por Kendrick:

"Embora Agnes Ozman não tenha sido a primeira pessoa nos tempos modernos a falar 'línguas', foi ela a primeira pessoa que teve tal experiência como um resultado de ter buscado especificamente o batismo no Espírito Santo com a expectação de falar 'línguas'." (55) Daí em diante, os pentecostalistas iriam ensinar que o batismo do Espírito Santo era uma experiência a ser procurada e a ser verificada em glossolalia. Por essa razão, a experiência de Agnes Ozman tem sido chamada o princípio do avivamento pentecostal. Em 1905, Parham estabeleceu a Escola Bíblica de Houston, em Houston, Texas, U.S.A. Um dos seus alunos convencidos foi W. J. Seymour, pregador negro da seita Santidade (Holiness). Seymour foi convidado a pregar numa igreja dos nazarenos em Los Angeles, Califórnia. Mais tarde essa igreja fechou-lhe as portas por ele dar excessiva ênfase à santidade nos seus sermões. Então ele manteve reuniões numa casa particular, de n.° 214, na rua Bonnie Brae do Norte. No dia 6 de abril de 1906, sete pessoas "receberam o batismo do Espírito

(53) Para informação adicional, ver Charles W. Conn, Like a Mighty Army Moves the Church of God, 1886-1955 (Cleveland, Tenn.: Church of God Publishing House, 1955, 300 páginas. (54) Kendrick, op. cit., p. 37. (55) Ibid., p. 53.

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Santo e falaram línguas". Muita gente, então, atraída pelos gritos de louvor procedentes do edifício, ia às reuniões. Estas foram transferidas para o n.° 312 da rua Azusa, mais tarde conhecida corro a famosa Missão da rua Azusa. De dia e de noite, essas reuniões se estenderam por três anos. Desse lugar, o ensino dos pentecostais se espalhou rapidamente através da terra. Que caracterizou esses cultos? Foram dirigidos por pregadores de ambos os sexos. O Espírito de Deus foi visto cair sobre pessoas. (56) Gaebelein copiou esta citação do boletim da Missão da rua Azusa: "O poder de Deus manifestou-se e todos foram apanhados no Espírito e viram visões de Deus. Várias pessoas tiveram uma visão do Salvador. Ele tinha na mão um livro. Elas viram os sinais dos cravos nas suas mãos, de onde o sangue escorria, enquanto Ele escrevia seus nomes no livro com seus dedos e com o sangue que escorria de sua mão traspassada." (57) Perguntar-se-ia se isso foi alucinação, em vez de visão. Pode-se ver a Deus e a Cristo hoje em dia? Presentemente Cristo está sangrando no céu?

Crescimento do Pentecostismo

Certas passagens no Velho Testamento se referem à chuva que cai na Palestina em duas estações: a chuva temporã e a serôdia (Os. 6:3; Joel 2:23). Os pentecostais crêem que essas passagens têm um caráter profético. A chuva temporã representava o Pentecostes com seus sinais e bênçãos (At. 2). A chuva serôdia começou no fim do século passado e continua a cair dentro do avivamento e crescimento pentecostais. Tal convicção (ainda que edificada sobre uma interpretação errada e aplicação errônea das Escrituras), sem dúvida, tem dado ímpeto a seu crescimento.

(56) Frodsham, op. cit., p. 37. (57) Arno C. Gaebelein, The So-Called Gift of Tongues, Our Hope, XIV, (julho, 1907), p. 15.

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No começo, as assembléias pentecostais permaneceram isoladas umas das outras, mas logo viram a necessidade de se associarem. Mais de uma dúzia de denominações pentecostais se desenvolveram. "Conquanto exista alguma divergência de doutrina, uma posição básica une os pentecostais sua crença comum de que 'o batismo no Espírito Santo' seja uma experiência distinta que todos os crentes podem e devem ter depois de seu batismo " (58) O desenvolvimento das congregações pentecostais levou-as para a convenção em Hot Springs, Estado de Arkansas, de 2 a 12 de abril de 1914. Isso, então, levou para a formação das Assembléias de Deus, o maior dos grupos pentecostais. Seu crescimento tem sido marcado por Kendrick: (59)

Ano

Igrejas

Membros

1920

1612

91.981

1939

3496

184.022

1949

5950

275.000

1959

8094

505.552

Hoje (1967) há mais de 8.409 igrejas com 543.003 membros. As igrejas se localizam em cada estado e em setenta e três países. Apenas este exemplo esclarece bem por que TIME chamou o pentecostismo "a igreja que mais cresce no hemisfério". (60) É muito atraente aos católicos romanos da América Latina. É provável que os pentecostais excedem os protestantes tradicionais na proporção de quatro a um na América Latina. Em 1948, dez denominações se uniram para formar a Pentecostal Fellowship da América do Norte. Há também uma "Pentecostal

(58) Thomas F. Zimmerman, The Pentecostal Position, The Pentecostal Evangel (Springfield, Mo.), 10- 2.1963, p. 2. (59) Kendrick, op. cit., p. 95. Esse livro dá uma história do movimento moderno pentecostal especialmente o das Assembléias de Deus. (60) "Fastest Growing Church in The Hemisphere" op. cit., p. 56.

Um Exame Histórico do Falar em Línguas Estranhas

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Fellowship" mundial com uma publicação internacional, Pentecost, editada por Donald Gee. Seu crescimento é bem sensível.

Ênfase Corrente

No passado, os distintivos do pentecostismo eram limitados a seus próprios grupos. Todavia, nos anos recentes, a mensagem pentecostal tem sido aceita por membros das históricas igrejas protestantes estabelecidas. Quando começou tudo isso? A maioria dos observadores data o começo da ênfase corrente como tendo ocorrido nos anos 1955-1960. O evento que provou ser o elemento catalisador do movimento moderno de glossolalia ocorreu em Van Nuys, Califórnia, no dia 3 de abril de 1960. O reitor da Igreja Episcopal de São Marcos, Rev. Dennis Bennett, anunciou, do seu púlpito, que ele havia falado "línguas estranhas". Essa declaração não somente sacudiu a sua congregação, mas recebeu publicidade e se tornou notória na nação inteira. O evento tem sido aclamado como o início da renovação carismática nas igrejas históricas, com sua ênfase sobre os dons do Espírito Santo e o dom de línguas em particular. A natureza desse movimento será mais amplamente discutida no capítulo a seguir.

Resumo

O fenômeno de falar "línguas" não se acha somente na religião cristã. Ocorrências entre os pagãos foram também registradas no Relatório de Wenamon, nos Diálogos de Platão e na Eneida de Vergílio. A pitonisa de Delfo e os aderentes das religiões de mistério teriam falado "línguas". No século vinte, isto ocorreu entre os maometanos, os esquimós e os pagãos do Tibete e da China. Visto que Deus não é a fonte dessa glossolalia, essas instâncias demonstram que o fenômeno pode ser duplicado por esforço satânico, ou humano.

No Velho Testamento, há casos de fala profética acompanhada por ações físicas estranhas, porém não há indicação definida de que ocorresse a glossolalia.

Um Exame Histórico do Falar em Línguas Estranhas

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As primeiras ocorrências de glossolalia bíblica acham-se registradas no Novo Testamento. Foi predita por Jesus (Mar. 16:17; mas esta referência é contestável), experimentada pelos discípulos em Jerusalém (At. 2), por Cornélio em Cesaréia (At. 10), pelos discípulos de João, o Batista, em Éfeso (At. 19) e pela igreja em Corinto (I Cor. 12-14). Estas passagens serão discutidas mais tarde. Na era pós-apostólica (100-600 d.C.) cessou a glossolalia como atividade normal dos crentes. Justino Mártir, Irineu, Orígenes, Crisóstomo e Agostinho, todos testificaram esse fato. As únicas ocorrências do fenômeno se deram entre os montanistas (Montano e possivelmente Tertuliano) e num monge ascético, Pacômio. As posições heréticas desses homens argumentariam contra a genuinidade da glossolalia bíblica entre eles. Durante a Idade Média e o período da Reforma (590-1648), alega- se que certos "santos" católicos romanos tenham falado "línguas". Também, por causa da fraca base doutrinária da Igreja Católica Romana e a tendência de exagerar os "feitos" de seus santos, essas pretensões têm de ser rejeitados. O intenso avivamento espiritual e doutrinário na Europa (a Reforma) não produziu nenhum caso de glossolalia. A referência a Martinho Lutero é espúria. O período Pós-Reforma (1648-1900) produziu um grande número de casos de glossolalia. O fenômeno apareceu entre os profetas de Cevennes, jansenitas (um grupo de católicos romanos), quacres, irvingitas, shakers, mórmons e no meio de vários avivamentos no século dezenove. Nenhum desses grupos pode ser considerado como ortodoxo, quer na doutrina quer na vida. A natureza de sua glossolalia não está em harmonia com as experiências e os regulamentos bíblicos. O século vinte testemunhou o nascimento, o crescimento e a influência do pentecostismo moderno. Esse movimento, com sua ênfase sobre a glossolalia, é uma força a ser considerada. No próximo capítulo será discutida a sua natureza.

A Natureza do Movimento Moderno de Glossolalia

1

A NATUREZA DO MOVIMENTO MODERNO DE GLOSSOLALIA

A EXPRESSÃO contemporânea do movimento de "línguas" tem uma existência de apenas cinco para dez anos, no entanto, tem causado grande debate e pavor, tanto nos círculos pentecostais como nos não- pentecostais, incluindo tanto os campos liberais como os conservadores. Uma compreensão da natureza básica desse fenômeno contemporâneo é, portanto, imperativo para cada estudante sério da Bíblia. Um estudo do pentecostismo moderno como tal não será tentado, mas somente no que ele afeta as igrejas estabelecidas do protestantismo. Uma vez apresentada essa natureza básica, o movimento contemporâneo poderá, então, ser avaliado à luz da verdade bíblica, para descobrir se é de Deus ou não. O propósito deste capítulo, portanto, é apresentar os advogados do movimento contemporâneo de "línguas", seu alcance, suas características, suas causas e as avaliações subseqüentes desse novo fenômeno.

Advogados do Movimento Moderno

Muitos grupos, publicações religiosas e personalidades principais estão promovendo ativamente a renovação carismática entre as igrejas históricas protestantes. Quando o assunto da glossolalia moderna for discutido, esses nomes serão mencionados. O "Full Gospel Business Men's Fellowship International" (1) (A Comunhão do Pleno Evangelho de Homens de Negócio) é uma organização de homens de negócio que compromete totalmente a mensagem plena do evangelho, com sua ênfase sobre dons espirituais e o fenômeno de falar "1ínguas" como evidência do batismo do Espírito Santo.

(1) Sua sede se localiza em 836 South Figueroa Street, Los Angeles, Califórnia. USA. A organização daqui em diante será referida como FGBMFI.

A Natureza do Movimento Moderno de Glossolalia

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A Organização foi concebida e fundada por Demos Shakarian, (2) rico negociante da Califórnia, que foi encorajado na idéia por Irvine J, Harrison e Oral Roberts. Shakarian presentemente serve como presidente dessa organização internacional. Uma organização relacionada é a World Missionary Assistance Plan (World MAP) (Plano de Assistência Missionária Mundial), uma comunhão não-denominacional, patrocinada pela Full Gospel Missionary Fellowship e composta de missionários "cheios do Espírito", que trabalham no hemisfério ocidental, no Oriente, no suleste da Ásia, na Índia e na África. Quais são os propósitos da FGBMI? Mahoney declarou : "Eu creio que um dos propósitos específicos para a FGBMFI é o de sobrepor o abismo que tem dificultado o alcance das igrejas tradicionais pela mensagem pentecostal." (3) Essa é a verdade. A FGBMFI, mais do que qualquer outra organização, tem alcançado e ganho pessoas dentro das igrejas históricas. Como foi feito isso? Primeiro, a FGBMFI tem patrocinado banquetes e convenções através do país inteiro e do mundo. Há banquetes locais cada mês (4) e convenções regionais, nacionais e internacionais, convocadas em centros convencionais e hotéis modernos. Nessas reuniões, oradores destacados são líderes pentecostais proeminentes e tanto leigos como ministros das tradicionais igrejas Protestantes que tenham recebido "o batismo no Espírito Santo acompanhado pela evidência da glossolalia". Muitos visitantes das igrejas históricas são convidados a essas reuniões e, como resultado, aceitam a mensagem pentecostal. Estes, então, voltam a suas respectivas igrejas e testemunham das suas novas experiências. Em conseqüência,

(2) A família Shakarian é muito reverenciada em círculos pentecostais. Por mais de cem anos, tem sido marcada por pretensões de revelações proféticas diretas, milagres de cura, visões e glossolalia. Depois de emigrar da Armênia, a família teve contato com a Missão da rua Azusa, e uma das primeiras igrejas pentecostais na América foi estabelecida no seu lar em 1905. Para mais informações, ver Thomas R. Mickel, The Shakarian Story, Los Angeles: FGBMFI, 1964, p. 32. (3) Ralph Mahoney, "Pentecost in Perspective", Full Gospel Business Men's Voice, XIII (maio de 1965), p. 4. (4) O autor assistiu a um deles. Ver sua descrição no Apêndice 1.

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3

muitas igrejas têm aceito integralmente esse ensino pentecostal de uma renovação dos dons espirituais, mas outras igrejas têm sido divididas por ele. Concernente à semelhança da FGBMFI com os não-pentecostais, Hitt, redator da revista Eternity, candidamente observou:

"A técnica mais polida das relações públicas tem sido aproveitada para levar avante o movimento. Conquanto não haja, certamente, nada errado em utilizar as técnicas modernas, o neo-pentecostismo não pode pretender espontaneidade completa." (5)

O surgimento de glossolalia deve ser visto como o resultado de uma tentativa determinada por parte dos pentecostais para ganhar membros das igrejas históricas que tenham ficado insatisfeitos com sua experiência espiritual pessoal (nenhuma, em alguns casos) e com o formalismo oco de suas igrejas locais. Um segundo método de promover a mensagem do "pleno evangelho" tem sido através da imprensa. Há três publicações impressas pela FGBMFI. Sua revista mais popular é Voice, publicação mensal, que contém testemunhos daqueles que têm sido "batizados no Espírito Santo" e anúncios de convenções futuras. Vision é uma revista que apela especialmente à juventude. View é um jornal trimestral que trata da renovação carismática.

Outro grupo-chave é a Blessed Trinity Society (Sociedade da Trindade Bendita), que patrocina reuniões pelo país todo. Um ministro da Igreja Reformada Holandesa, Harold Bredesen, de Mt. Vernon, Estado de Nova York, é o presidente da Junta e seu orador principal, especialmente nos campos colegiais. David J. du Plessis, um dos diretores, é pentecostalista do sul da África "que crê ter recebido a chamada de levar a mensagem aos líderes ecumênicos. Na sua opinião, a 'renovação pentecostal' dentro do movimento ecumênico talvez se torne maior do que a de fora. Suas atividades ecumênicas levaram as Assembléias de Deus a cortar as suas relações ministeriais com ele." (6) Jean Stone, esposa de um executivo da Lockheed Aircraft Cia., é membro da Junta e redatora da

(5) Russell T. Hitt, "The New Pentecostalism: An Appraisal", Eternity, XV (julho, 1963), p. 16. (6) Frank Farrell, "Outburst of Tongues: The New Penetration", Christianity Today, VII (13-9-1963), p. 6

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atraente revista Trinity, publicada pela sociedade, e que recebe uma orientação episcopal, sendo produzida em Van Nays, Califórnia. Ela expressa o propósito da sociedade nestas palavras: "Muitas pessoas têm

almejado ver Deus derramando o Seu Espírito nas igrejas históricas

que isso acontecesse que a Blessed Trinity Society chegou a existir." (7)

Publicações pentecostais (Abundant Life, The Pentecostal Herald, The Pentecostal Evangel, Miracle Magazine, Pentecostal Holiness Advocate, The Voice of Healing, Pentecost) natural, mente procuram

Foi para

levar avante o movimento. Uma revista bem conhecida, mensal, Christian Life, editada por Robert Walker, está promovendo ativamente

o

reavivamento carismático. Colégios pentecostais estão melhorando as suas normas acadêmicas

e

procurando melhorar a apresentação de seu apelo e seu "status". De

fato, a Universidade Oral Roberts, com sua Escola Graduada de Teologia (aberta em1965), foi estabelecida com o propósito expresso de oferecer o "melhor" na educação cristã e de promover a renovação carismática. Localiza-se em Tulsa, Estado de Oklahoma, U.S.A.

Alcance do Movimento Moderno

Até que ponto tem tocado o moderno movimento de "línguas" o mundo secular e sacro? Sua extensão apontará o significado de um estudo como este.

O Mundo Secular

Publicações de destaque nacional têm publicado artigos sobre o novo pentecostismo (Life, Saturday Evening Post, Time, Newsweek, The National Observer etc.). Também tem havido cobertura por parte do rádio e da televisão. De fato, houve, em 21 de abril de 1965, uma

(7)

Jean Stone, "Would You Like a Christian Advance?" Trinity, II (Christmastide, 1962-1963), p. 51. A sede da sociedade localiza-se em P. O., Box 2422 Van Nuys, Califórnia, USA.

A

Natureza do Movimento Moderno de Glossolalia

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reportagem especial no noticiário da tarde da CBS, pelo jornalista Walter Kronkite, salientando a glossolalia com Harold Bredesen.

Escolas e Grupos

David J. du Plessis tem apresentado a mensagem carismática ao Concílio Missionário Internacional do Concílio Mundial de Igrejas, à

Aliança Presbiteriana Mundial, à Escola de Divindade de Yale, ao Seminário Teológico União (New York) e ao Seminário de Princeton. (8) Homer A. Tomlinson, bispo e superintendente geral da Igreja de Deus em Queens Village, Nova York, tem lecionado sobre "línguas" em mais

de vinte e dois seminários, inclusive de Yale e de Harvard e em mais

alguns seminários católicos e entre grupos muçulmanos. (9) Reportagens de glossolalia têm chegado também de Dartmouth, Seminário Fuller, Colégio Westmont e Colégio Wheaton. (10) A glossolalia aparentemente tem ocorrido dentro de grupos conservadores como os Navigators (navegadores), os Tradutores Wycliff

da Bíblia e a Inter-Varsity Christian Fellowship (Comunhão Cristã entre

Alunos Universitários).

Denominações

Praticamente, todas as maiores denominações históricas têm sido penetradas e influenciadas pelo novo avivamento carismático. A

(8) James W. L. Hills, "The New Pentecostalism: Its Pioneers and Promoters", Eternity, XIV (julho de 1963), p. 18. (9) Contido numa carta de Tomlinson a Ricardo Ruble. Citado por Richard Lee Ruble, "A Scriptural Evaluation of Tongues in Contemporary Theology" (tese inédita Th. D., Dallas Theological Seminary, 1964), p. 66. (10) Farrell, op. cit., pp. 3 e 4. Entretanto, V. R. Edman, do Colégio Wheaton, negou que tivesse havido um avivamento de glossolalia em Wheaton, porém afirmou que uns poucos alunos haviam "falado em línguas" sob influências externas. Ver V. R. Edman, carta ao redator de Christianity Today, VIII (25-10-1963), p. 23.

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penetração na Igreja Holandesa Reformada pode se ver em Harold Bredesen, pastor da Primeira Igreja Reformada de Mount Vernon, New York. Ele gasta a maior parte do seu tempo promovendo a renovação carismática, tanto dentro como fora de sua denominação. O impacto dentro da denominação episcopal (11) tem sido tão forte que oficiais da Igreja Episcopal Protestante e das Assembléias de Deus tiveram uma conferência em conjunto para discutir o ministério do Espírito Santo hoje em dia. Um dos eminentes oradores é Dennis Bennett, o reitor episcopal cuja confissão de glossolalia na Igreja de São Marcos, em Van Nuys, Califórnia, deu início à renovação carismática. Depois de ser obrigado a se demitir, tornou-se reitor da Igreja Episcopal de São Lucas em Seattle, no Estado de Washington. Freqüentemente, ele fala em banquetes e convenções da FGBMFI e contribui com muitos artigos para as publicações principais.

Muitos ministros e leigos batistas têm falado "línguas". (12) Isto ocorreu entre membros de igrejas associadas com a Convenção do Sul, a Convenção Batista Americana e a Comunhão Bíblica Batista. Francis Whiting, um líder dentro da ABC, tem falado a favor do fenômeno de glossolalia perante o Seminário Batista do Norte. Haward Ervin, pastor da Igreja Batista Emanuel, Atlantic Highlands, New Jersey, na sua glossolalia, tem falado, supostamente, a nacionais e estrangeiros (japoneses, russos, espanhóis), nas suas próprias línguas ou idiomas. Tem servido também como consulente teológico na Oral Roberts Graduate School of Theology.

Igrejas presbiterianas também foram afetadas. (13) A elegante Igreja Presbiteriana de Bel Air, em Los Angeles, pastoreada por Louis Evans, Jr., evidenciou esse fenômeno. (14) Um orador eminente tem sido James

(11) Jerry Jensen (ed.), Episcopalians and the Baptism in the Holy Spirit (Los Angeles: FGBMFI, 1964). Esse livrete contém testemunhos de eminentes episcopais que têm falado em "línguas". (12) Jerry Jensen (ed.), Baptists and the Baptism of the Holly Spirit (Los Angeles: FGBMFI, 1963). Esse livrete contém testemunhos de batistas que têm falado em "línguas". (13) Jerry Jensen (ed.), Presbyterians and the Baptism of the Holy Spirit (Los Angeles: FGBMFI, 1963). Contém testemunhos de presbiterianos que têm "falado línguas". (14) Robert Walker, "Church in the Mountaintop", Christian Life, XXV (julho, 1963), pp. 27-31.

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Brown, ministro da Igreja Presbiteriana Unida de Upper Octorara, em Parkesburg, Estado de Pensilvânia. Brown tem pregado muito nos banquetes e convenções da FGBMFI.

A revista TIME relatou que pelo menos 260 das 5.239 Igrejas

Luteranas Americanas têm células de glossolalia. (15) Larry Christenson,

eminente ministro luterano e entusiasta da glossolalia, tem descrito a existência do fenômeno na Evangelical Mary Sisterhood, em Darmstadt, Alemanha Oriental. (16) Essa congregação de religiosas pratica os dons do Espírito e confissão particular ou privada. Também se ocupa com evangelismo, ensino, drama religioso, obras de caridade e de misericórdia e publicação dos escritos da Mãe Basiléia. A Mãe Basiléia, fundadora e teóloga da comunidade, possui o doutorado em filosofia e em psicologia. Suas maiores influências teológicas foram Dietrich Bonhoeffer e Karl Barth. Muito se tem interessado também nos místicos Madame Guyon, Benedito de Núrsia e Francisco de Assis.

O metodismo também tem sentido o impacto da glossolalia. (17) A

Igreja Cristã de Hillorest (Discípulos de Cristo), em Toronto, Canadá, tem informado que quase todos os nove dons espirituais estão em evidência dentro da igreja. Pretende-se que Deus se tem revelado a

vários membros e que tem feito conhecer a Sua vontade mediante sonhos e visões. (18) Um sacerdote da Igreja Russa Ortodoxa diz que sua igreja tem tido alguns que "falam línguas", mas estes se acham nos monastérios, não no nível da paróquia. (19)

O fenômeno se acha até na Igreja Católica Romana. Alguns do

clero católico afirmaram a Bennett que o dom de línguas (e outros) têm

(15) "Taming the Tongues", Time, LXXXIV (10 de julho de 1964), p. 66. (16) Larry Christenson, "Miracles Are Not Commonplace Here", Christian Life, XXVII (junho, 1965), pp. 36 e 37, 52-54. (17) Jerry Jensen (ed.) Methodists and the Baptism of the Holy Spirit, (Los Angeles: FGBMFI, 1963). Contém testemunhos de metodistas que têm "falado línguas". (18) Don W. Basham, "I Saw My Church Come Alive", Christian Life, XXVI (março de 1965), pp. 37-39. (19) Dennis Bennett, "The Charismatic Renewal and Liturgy", View, II, (n.º 1, 1965), p. 1.

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estado na Igreja Católica Romana através da sua história. (20) Também, um católico recentemente admitiu: "A glossolalia está muito mais espalhada do que reconhece a maioria dos cristãos. Sou católico romano já por muitos anos, e tenho achado o 'falar línguas' ser parte integral das minhas devoções particulares." (21) A erupção de glossolalia não se limita à América do Norte. Reportagens de avivamento pentecostal vêm das Filipinas, do Japão, da ilha Formosa, da Suécia, da Holanda, do Sul da África e da América Latina (nota do tradutor). Relata que setenta por cento dos evangélicos da Polônia têm recebido o Espírito Santo e "falado línguas" como evidência. (22)

Personalidades

Além das pessoas já mencionadas, há outras, bem conhecidas, tanto ao mundo secular como ao religioso, que, segundo se afirma, têm "falado línguas". A autora Catherine Marshall Le-Sourd viúva do recém-falecido Peter Marshall, é uma. Outra é Colleen Tawnsend Evans, esposa do ministro presbiteriano Louis Evans e ex-atriz de Hollywood, que tomou parte principal em vários filmes cristãos. Chandler Sterliny, bispo episcopal do Estado de Montana, tem experimentado o fenômeno. Também o tem McCandlish Phillips, repórter do New York Times, e John Sherrill, do corpo de escritores da revista Guideposts. (23) O largo escopo da glossolalia dentro das igrejas históricas tem criado um pequeno dilema para seus aderentes. Ao presente, esses

(20) Ibid. (21) Michael Callaghan, Letter to the Editor, Time, LXXXVI (5 de Setembro de 1960), p. 2. (22) Wesley R. Hurst, Jr., "Upon All Flesh", The Pentecostal Evangel (2-5-1965), p. 11. (23) Citada por Lee E. Dirks, "Tongues and The Historic Churches", The National Observer, (26-10- 1964). Também John L. Sherrill, They Speak with Other Tongues (New York: McGraw-Hill Book Company, 1964). Este é um registro autobiográfico do seu avanço desde a curiosidade e a dúvida quanto às línguas até o tempo em que ele mesmo chegou a falar "línguas". Está recebendo larga publicidade e circulação por parte da FGBMFI.

A Natureza do Movimento Moderno de Glossolalia

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"glossolalistas" têm ficado como membros leais nas suas igrejas. Entretanto, seu zelo pela experiência recentemente descoberta tem causado lutas e divisão dentro de suas igrejas locais. Há várias alternativas para a solução desse problema. Poderão eles ficar nas suas igrejas locais, pôr em prática suas experiências e arriscar uma divisão da igreja ou uma possível excomunhão. Poderão ficar e calar-se a respeito das suas experiências. Ou, então, poderão sair das suas respectivas igrejas e identificar-se com assembléias pentecostais. Somente o passar do tempo revelará o curso que eles seguirão.

Características do Movimento Moderno

Para que se compreenda a natureza do "movimento de línguas", precisa-se de uma visão acurada de suas características. Quem fala? Onde ocorre a "fala"? Quais as outras coisas que acompanham a "fala"? Quais os resultados de tais experiências? Como se chega ao ponto de poder "falar línguas"?

Participantes

No passado, certas generalizações se empregavam para atacar e refutar a posição pentecostal. Hoje em dia, essas declarações categóricas têm de ser consideradas como falsas ou, pelo menos, somente como verdadeiras em parte. Uma observação clássica foi feita por Stegall, um ávido estudioso do pentecostismo:

O apelo do pentecostismo limita-se bem claramente aos ingênuos e de

mente crédula, que aceitam coisas sem investigá-las. A grande maioria dos seguidores desses curadores é constituída de velhos, de estouvados de pessoas postas de lado, à margem, pela sociedade e esquecidas por parte

das orgulhosas 'igrejas estabelecidas', para nosso descrédito eterno.

(24)

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Martin acrescentou que somente os de baixo intelecto e os de grupos de baixo padrão econômico participam do fenômeno. (25) Tais declarações simplesmente não podem ser feitas hoje em dia. O novo pentecostismo tem sido abraçado pelos ricos e pelas pessoas cultas e educadas, inclusive professores, escritores, ministros, médicos e advogados. (26) Está representada numa grande proporção de fundamentos pessoais e denominacionais. Em toda parte se vê essa glossolalia moderna: nos lares, em grupos de oração privados e públicos, nos cultos públicos e nas salas de banquetes e de convenções. É muito parecido com o velho pentecostismo, e ainda assim um tanto diferente. A Sra. Stone expressou algumas dessas diferenças:

menos emoção em receber o dom de línguas, após o que se fala à vontade seu uso privado é mais importante do que o público, está mais orientado para o clero e as classes profissionais, mais centralizado na Bíblia como contra-experiência, não é separatista, suas reuniões são mais ordeiras, com uma aderência estrita às diretivas Paulinas, há menos ênfase a línguas. (27)

O velho pentecostismo, todavia, ainda persiste e é uma parte integrante do novo movimento. Dalton, um ministro na Assembléia de Deus, uma vez classificou três grupos dentro do pentecostismo: o grupo ordeiro, que faz tudo com decência e ordem; o grupo que derivou do grupo ordeiro, que tenta produzir por meios carnais o que os outros têm no Espírito; e o grupo que é somente carnal e sempre o foi. (28) Sem dúvida, esses grupos ainda existem hoje em dia.

(25) Martin, op. cit., pp, 17, 25. Todavia, Jean Stone notificou que Martin se retratou desta posição e aceitou a genuinidade do fenômeno moderno. Ver Jean Stone e Harold Bredesen, The Charismatic Renewal in the Historic Churches (Van Nuys, Calif.: Blessed Trinity Society, n.d.) Reimpresso de Trinity, Tnnitytide, 1963. (26) Jerry Jensen (ed.), Attorney's Evidence on the Baptism in The Holy Spirit (Los Angeles: FGBMFI, 1965). Contém testemunhos impressionantes de advogados que têm "falado línguas". (27) Citado por Farrell, op. cit., p. 6. (28) Dalton, op. cit., p. 116.

A

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Concomitantes

Muitas vezes, certas coisas fora do comum acontecem antes e depois de a pessoa ter "falado línguas". Um médico relatou: "Quando me deitei, logo ao me cobrir, o quarto se encheu de um ruído como que de um vento impetuoso, e, dentro de alguns momentos, vi línguas como que

de fogo." (29) Quatro meses mais tarde, esse homem recebeu o batismo e

falou "línguas", depois de certas pessoas lhe haverem "imposto as mãos conforme o padrão bíblico". (30) Aqui está em ordem uma observação baseada nas Escrituras. O som, como que de um vento impetuoso e línguas como que de fogo estavam presentes no Pentecostes (At. 2:2,3), porém não houve

imposição de mãos. No Pentecostes, ao ocorrer o som de vento e o fogo,

os discípulos se encheram do Espírito e começaram a falar em outras

línguas (At. 2:4). Esse homem, conforme seu próprio testemunho, não recebeu o Espírito e não falou "línguas" até quatro meses mais tarde! O som no Pentecostes atraiu uma grande multidão, porém esse som que ele diz ter ouvido não atraiu ninguém. Mais alguém escreveu: "Recentemente, em uma das nossas reuniões, pelo menos vinte pessoas sentiram o cheiro de perfume e incenso." (31) Daí concluiu que isso foi o resultado de os crentes serem "o cheiro de vida para a vida" (II Cor. 2:16). Essa interpretação daquela experiência e daquele verso é certamente esquisita. Certamente não há nenhum incidente registrado na Bíblia em que os crentes sentissem o cheiro da fragrância celestial e, muito menos, uns dos outros. O tremer e as convulsões físicas ainda se acham associados com a glossolalia. (32) Todavia, esse concomitante é deplorado por muitos.

(29) R. O. McCorkle, "Witness to the World", Full Gospel Business Men's Voice, XIII (fevereiro de1965), p. 23. (30) Ibid., p. 28. (31) John Topping, "Hearts Aflame", Full Gospel Business Men's Voice, XIII (fevereiro de 1965), p. 6. (32) O autor assistiu a um culto numa igreja pentecostal onde isto se deu. Ver o Apêndice II.

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David du Plessis, anteriormente Secretário Geral da Conferência Mundial Pentecostal, escreveu:

Considero que é heresia falar em sacudir, tremer, cair, dançar, bater palmas, gritar e coisas semelhantes como "manifestações" do Espírito Santo. Tais reações são puramente humanas diante do poder do Espírito

Santo e freqüentemente dificultam, mais do que ajudam as manifestações

genuínas.

Visões e choques elétricos passarem pelo corpo também têm sido experimentados. João Osteen, ministro batista, pretendeu ter visto a Jesus e o ter ouvido falar. Quando estendeu a mão para tocar em Jesus, um milhão de volts de eletricidade, como duas faíscas de relâmpagos, atingiu-lhe as mãos. Mais tarde, ele declara ter visto uma bola de luz, que continha "um homem" com as mãos estendidas, aproximando-se dele. Quando deu um salto e se retirava em pânico, a bola de luz explodiu e deixou em escuridão o quarto. Numa outra ocasião, ele diz ter tido a visão de uma mão saindo da eternidade, segurando uma garrafa oriental, contendo azeite. Quando o azeite foi derramado, uma voz proclamou: "Ungi o teu coração para falares ao povo amanhã." (34) Cho Yonggi, budista convertido e co-pastor do centro evangelístico das Assembléias de Deus em Seoul (Coréia), deu o seguinte relato de sua cura da tuberculose:

(33)

Eu vi o Senhor

e Lhe disse: "Sim, Jesus, pregarei o Teu Evangelho."

, Tentei tocar-Lhe os pés. Logo que toquei as suas vestes, o que me parecia ser mil volts de eletricidade entrou no meu corpo, e comecei a tremer. Então palavras estranhas vieram a minha boca e comecei a falar em outras línguas. Quando acordei dessa visão, já era homem mudado. Logo fui ao hospital e tirei uma radiografia. Não havia mais sinal nenhum da tuberculose. (35)

(33) Citado por Tod W. Ewald, "Aspects of Tongues", View, II (N.º 1, 1965), p. 9. Estas mesmas coisas foram testemunhadas pelo autor. Ver Apêndice II. (34) John H. Osteen, "He Heard God Speak", Baptists and the Baptism of the Holy Spirit (Los Angeles:

FGBMFI, 1963), pp. 8 e 9. (35) Hurst, op. cit., pp. 11 e12.

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Frodsham, historiador pentecostal, relata que meninos e jovens chilenos haviam experimentado visões. (36) Dançaram com anjos, andaram a pé na nova Jerusalém e no terceiro céu, brincaram à beira dos rios, no Éden celestial, com animais domesticados, saborearam os frutos, deleitaram-se com as flores e os passarinhos, no paraíso restaurado, visitaram o inferno, testemunharam os eventos narrados no Velho Testamento, nos Evangelhos e no Apocalipse, viram os seus entes queridos já mortos e viram a Cristo. Vento, perfume, tremor, convulsões físicas, choques elétricos, luzes, transpiração (devido ao calor do Espírito Santo), visões, curas, ver e ouvir a Cristo e tocar nele essas coisas são concomitantes da glossolalia. Procura-se em vão no Novo Testamento tais acompanhamentos no ministério do Espírito Santo na vida dos crentes ao tempo em que alguns deles "falaram línguas".

Resultados

Os que têm "falado línguas" testemunharam do fato de que agora têm uma vida mudada ou transformada. Pecados pessoais são enfrentados, confessados e abandonados. Time relatou que, para os participantes, a glossolalia "ajuda a vencer o alcoolismo, a reparar casamentos em dissolução e a adiantar a obra de Cristo". (37) Há um novo interesse na igreja, envolvendo a assistência regular, o dízimo, o dar conselhos e testemunhar a favor de Cristo. Há um novo desejo de ler e estudar a Bíblia. Têm eles um novo senso do amor divino e da alegria, que se manifesta no calor pessoal e no cântico entusiasmado. A experiência de "falar línguas" tem feito com que alguns adorem a Deus mais livre e profundamente, ainda que não compreendam as palavras que proferem. Alguns têm experimentado curas tanto físicas como mentais.

(36) Frodsham, op. cit., pp. 131-138. (37) "Against Glossolalia", Time, LXXXI (17-5-1963), p. 84.

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"Mas a coisa mais maravilhosa é a convicção quanto à realidade de Deus

e à obra da redenção por Cristo que começa a aparecer na sua vida. Essas pessoas sabem que são herdeiras do Reino, pois dele têm o antegozo nessa comunhão dinâmica no Espírito Santo." (38) Todos esses resultados são recomendáveis, porém deve-se lembrar

de

que os resultados de uma experiência espiritual não constituem o teste

da

genuinidade divina da experiência. Sua interpretação quanto à causa e

o significado da experiência talvez estejam errados. Todas as experiências têm de ser julgadas pela Palavra de Deus. O fim não justifica nem revela os meios.

Instruções

Como é que se chega a "falar línguas"? Será que uma pessoa de repente começa a falar, sem ter tido qualquer conhecimento prévio ou desejo de experimentar o fenômeno? Ou recebe ela ajuda em forma de instruções? Quanto ao moderno movimento de "línguas", esse último é o caso. Christensen, ministro luterano e "glosso1alista", disse:

"Para se falar 'línguas', tem que se deixar de orar em inglês (ou

português)

nenhuma sílaba de qualquer idioma que se tenha aprendido. Os pensamentos são focalizados sobre Cristo, e então se levanta simplesmente

a voz e se fala confiadamente, na fé plena de que o Senhor tomará o som

que se lhe dê, e o transformará num idioma. Não se pensa no que se esteja

dizendo: no que lhe seja concernente, é apenas uma série de sons. Os primeiros sons hão de lhe parecer estranhos e não naturais ao ouvido, e

talvez sejam vacilantes e inarticulados (já ouviu uma criancinha aprendendo

a falar?).

Simplesmente se tem de ficar quieto e resolver não falar

(39)

(38) Dennis J. Bennett, "When Episcopalians Start Speaking in Tongues" (Medford, Oregon: Christian Retreat Center, n.d.). (39) Citado por John Miles, "Tongues", Voice, XLIV (fevereiro de 1965), p. 6. Esta é publicação da IFCA, não da FGBMFI.

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Há várias discrepâncias entre essas instruções e os registros bíblicos

de glossolalia (At. 2:10,19; I Cor. 12-14). Primeiro, se de fato houve uma

reunião de oração no dia de Pentecostes (At. 2:1), não há nenhuma indicação de que os discípulos tenham deixado de orar no seu idioma nativo. Segundo, não há nenhuma indicação, em nenhum dos casos citados, de que os crentes tenham caído no silêncio e resolvido falar

outras línguas. Terceiro, Paulo mandou que se orasse com o entendimento (I Cor. 14:15). Isto está em conflito direto com o não pensar no que se esteja dizendo. Quarto, o balbuciar inarticulado da criancinha é contrário à admoestação de Paulo de acabarmos "com as coisas de menino" (I Cor. 13:11) e de nos tomarmos "adultos no entendimento" (I Cor. 14:20). Harold Bradesen deu as seguintes instruções aos que, na Universidade de Yale, buscavam o "dom de línguas" :

(1) Pensar visual e concretamente, em vez de abstratamente: por exemplo, tentar visualizar a Jesus como pessoa; (2) conscientemente entregar a voz e os órgãos vocais ao Espírito Santo; (3) repetir certos sons elementares que ele pronunciava para eles, tais como "bah-bah-bah" ou algo semelhante. A seguir, ele impôs as mãos sobre a cabeça de cada candidato, orou por ele e então o "buscador" realmente falou línguas. (40)

As instruções de repetir certos sons elementares foram ouvidas por este autor. (41) Às vezes essas instruções de repetir certas palavras têm vindo através de visões. (42) Certa pessoa teve uma visão de um rolo de papel do tipo que se usa numa máquina de somar, com palavras desusuais impressas nele. Sua repetição oral das palavras fez com que

ele falasse "línguas". Mais outra pessoa viu uma visão de luzes brilhantes

na forma de letras. Outra vez, há discrepâncias entre essas instruções e ilustrações e o registro bíblico. Primeiro, não há nenhumas indicações nos registros

(40) Citado por Stanley D, Walters, "Speaking in Tongues", Youth in Action (maio de 1964), p. 11. (41) Ver Apêndice I. (42) McCandlish Phillips, "And There Appeared to Them Tongues of Fire", Saturday Evening Post (16-5-1964), p. 31.

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bíblicos de que pessoas fossem prevenidas ou instruídas a repetir certos sons para facilitar a experiência. O Espírito Santo lhes concedia que falassem (At. 2:4), e não alguns instrutores de sons ou de visões. Segundo, em pelo menos dois casos (At. caps. 2 e 10), não houve imposição de mãos na ocasião de eles falarem línguas. Terceiro, em todos os três registros bíblicos (At. 2, 10 e19) não há evidência de que uma pessoa tenha orado para que as outras "falassem línguas". Em conclusão, o princípio de se dar instruções para a glossolalia é completamente estranho ao registro bíblico. Os homens falaram línguas espontaneamente como o Espírito Santo lhes concedia. Parece que antes que a pessoa falasse, não se lhe fizera referência ao fenômeno (apesar de Marcos 16:17). Em um caso (At. 10:45), o acontecimento do fenômeno surpreendeu a todos os presentes.

OCASIÃO DO MOVIMENTO MODERNO

A despeito da promoção agressiva por parte do movimento

pentecostal nos últimos cinqüenta anos, houve pouco interesse no fenômeno da glossolalia. Por quê? Porque o movimento estava fora das

principais denominações. Agora, todavia, está dentro delas. Que teria ocasionado essa nova ênfase e a aceitação do fenômeno? As respostas provêm de ambos os lados, tanto daqueles que estão a favor como daqueles que se opõem ao movimento.

Os advogados (43) consideram o movimento como a obra soberana

do Espírito Santo em oposição à largamente espalhada maldade e à promoção de ensinos ateus, tanto comunistas como humanistas. Segundo, muitos cristãos se acham frustrados por causa de falta de poder espiritual e de capacidade de servir efetivamente ao Senhor. A glossolalia lhes supre esse poder e essa capacidade. Terceiro, a forte proclamação do pleno evangelho (curas, batismo do Espírito Santo e a

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volta iminente de Cristo), pelos ministros pentecostais, tem estimulado a sede, em muitos corações, por uma expressão mais fervorosa de algumas dessas verdades dinâmicas. Quarto, o aumento das comunicações públicas e as técnicas da publicidade têm projetado o "pleno evangelho" em novas áreas denominacionais. Um observador interessado, Frederick Schiotz, presidente da Igreja Luterana Americana, especulou: "Talvez seja uma reação contra a tendência de intelectualizar demais a fé cristã. O falar parece suprir uma necessidade espiritual da simplicidade e conexão emocional." (44) João Miles, um oponente, alistou cinco razões para o surgimento do movimento moderno de "línguas". (45)

Primeiro, houve um afastamento do estudo bíblico sistemático e particularmente a Bíblia interpretada conforme as dispensações. Isto se pode ver na rejeição veemente do ensino dispensacional quanto ao ministério do Espírito Santo em épocas diferentes e a natureza transicional do Livro dos Atos. O dispensacionalismo muitas vezes tem sido mal representado e mal entendido, tanto por essas pessoas como por outras.

Segundo, igrejas liberais estão famintas pela Palavra de Deus; todavia, desejam o sobrenatural. Muitos dos que "falam línguas" são membros de igrejas que têm sido imersas no liberalismo e na neo- ortodoxia. Suas igrejas enfatizam a ecumenicidade do Concílio Mundial de Igrejas e negligenciam a mensagem da cruz. Terceiro, muitas vezes as igrejas fundamentalistas estão realmente mortas. Quarto, muita gente está buscando um caminho fácil, uma experiência espiritual que resolva imediatamente todos os seus problemas e frustrações. Quinto, muitas pessoas desejam uma experiência sensual do sobrenatural. Desejam andar por vista, antes que pela fé e pela mera aderência à Palavra de Deus.

(44) "Taming the Tongues", loc. cit. (45) John Miles, "Spiritual Gifts and Christian Victory", Voice, XLIV (maio de 1965), p. 9.

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Harry Ironside, que se livrou do Movimento Pentecostal, chamou de "desgostosa" a glossolalia dos seus dias com "todas as suas ilusões concomitantes e loucuras". Ele concluiu: "Um desejo ardente e doentio de novas sensações religiosas e excitantes e reuniões emocionais dum caráter excitante prontamente explicam essas coisas." (46)

AVALIAÇÕES DO MOVIMENTO MODERNO

Divino? Satânico? Psicológico? Artificial? Todas essas alternativas foram sugeridas como uma avaliação própria da fonte ou da origem do moderno fenômeno de "glossolalia". As opiniões não se limitam necessariamente a apenas uma alternativa; alguns crêem que a glossolalia pode ser atribuída a duas ou mais dessas fontes. Edman, chanceler de Wheaton College e que nunca "falou línguas", concluiu que a glossolalia moderna poderia ser divina, demoníaca ou psicológica, dependendo de sua fonte. (47) Jack Hayford, representante nacional da juventude da igreja internacional do evangelho "Four Square" (Quadrado) e que tem exercido a glossolalia, admitiu que em alguns casos era satânica, que em outros era produzida psicologicamente, mas que em alguns era a obra genuína de Deus. (48) O fato de que o fenômeno de glossolalia tem acontecido não é negado por ninguém. O que se contesta é a fonte da experiência. Visto que ambos os lados admitem que o fenômeno pode provir de uma ou mais fontes, cria-se um problema bastante grande. Quem poderá

identificar a fonte de cada caso particular de glossolalia? Qual a norma a ser empregada ou aplicada para determinar a fonte da experiência? Não

se

pode referir à própria experiência como o fator determinante, porque

se

admite que a experiência pode ser causada de várias maneiras. Tem

(46) H. A. Ironside, Holiness, the False and the True (New York; Loizeaux Brothers, 1947), p. 38. (47) Edman, op. cit., p, 17. (48) Jack Hayford, Letter to the Editor, Christianity Today, VIII (25-10-1963), p. 22.

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que haver uma norma objetiva e autoritária e há a Palavra de Deus.

Esta tem de ser a única e final autoridade em se determinar a fonte atual

de qualquer experiência.

Divina

Bredesen viu no movimento moderno de "línguas" uma definida do Espírito Santo:

Durante a primeira metade do século XX vimos o Espírito Santo derrubando as paredes entre as igrejas, e o denominamos o "movimento ecumênico". Vimo-lo trabalhando ao lado das igrejas históricas, e o chamamos "a terceira força". Agora, na segunda metade do século, estamos vendo-O movimentar-se dentro das igrejas. Isto denominamos "a revivificação carismática". (49)

Pode-se contestar a identificação do movimento ecumênico por parte de Bredesen, como sendo a obra do Espírito Santo, e não mera atividade humana de certos líderes eclesiásticos liberais ou neo- ortodoxos. Se essa declaração serve para medir sua percepção espiritual e seu conhecimento bíblico, ter-se-á o inteiro direito de questionar sua avaliação do reavivamento carismático. Todavia, Bredesen não está só

na sua avaliação. Há "glossolalistas", tanto nas igrejas pentecostais como nas denominacionais e históricas, que concordarão com ele. Muitos outros avisaram e admoestaram quanto à possível origem divina desse movimento. Sentem eles que os conservadores não devem proibir o falar línguas (I Cor. 14:39) e que devem seguir o conselho de Gamaliel: "Dai de mão a estes homens, e deixai-os, porque este conselho ou esta obra, caso seja dos homens, se desfará; mas, se é de Deus, não podereis derrotá-los; para que não sejais, porventura, achados até combatendo contra Deus" (At. 5:38,39). Parece ser esta a opinião que prevalece entre muitos líderes conservadores hoje em dia, eles mesmos não tendo falado línguas estranhas.

obra

(49) "Return to the Charismata" (Van Nuys, Calif.: Blessed Trinity Society, n.d.), tract.

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Um exemplo típico é Philip Hughes, um dos editores contribuintes de Christianity Today, que disse:

Ousaremos negar que esse movimento seja do Espírito soberano de Deus? Não deveremos antes esperar e até orar que seja a início de um grande avivamento espiritual dentro da Igreja em nosso tempo, e nos regozijar por causa do zelo e da alegria em Cristo por parte daqueles que testificam dessa experiência? (50)

Como resposta a esta pergunta, "Qual a sua opinião sobre falar línguas?" o Dr. Billy Graham disse que ele não havia tido a experiência, mas que deveria ser uma experiência maravilhosa para aqueles que a tiveram. (51) Aparentemente o Dr. Graham aceita a origem divina de alguns dos fenômenos no mundo hodierno.

Satânica

Muitos conservadores crêem que a glossolalia cessou na era apostólica e que qualquer manifestação do fenômeno desde aquele tempo tem que ser considerada não somente como uma simulada contrafação, porém como sendo realmente de origem satânica. (52) Sob influência satânica, os mágicos do Egito puderam duplicar os milagres divinos operados por Moisés (Êx. 7:10 8:7). Na grande Tribulação, o anticristo poderá duplicar os milagres de Jesus Cristo por meio de poder satânico (II Tess. 2:9). O Cristo até predisse que milagres e profecias serão feitos em Seu nome, sem Sua sanção ou Seu poder (Mat. 7:21-23). Aparentemente, crentes professos podem realizar grandes coisas, inclusive trazer glória a Cristo, e, no entanto, fazê-lo no poder de Satanás. Eis por que uma experiência ou um milagre, não importa quão grande seja, não poderá servir como o único juiz da fonte do evento. Por

(50) Philip Edgcumbe Hughes, "Review of Christian Religions Thought", Christianity Today, VI (11-5- 1962), p. 63. (51) Ouvido no programa radiofônico, "Conversation Piece", WHIO, Dayton Ohio (16-11-1964). (52) Herman A. Hoyt, "Speaking in Tongues", Brethren Missionary Herald, XXV (20-4-1963), p. 206. Também, I. M. Haldeman, Holy Ghost Baptism and Speaking with Tongues.

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essa razão, muitos sentem ou crêem que a glossolalia pode ser experimentada por crentes professos, numa atmosfera cristã e visando a glória de Cristo, e, todavia, ainda ter a sua origem em Satanás.

Stegall cria que há uma conexão definida entre as fontes de comportamento dos que "falam línguas" e dos médiuns espiritistas. (53) Os efeitos visíveis e físicos (o sacudir dos braços e do corpo) causados pelo controle sobrenatural eram iguais ou idênticos. A respiração e a posição do corpo da pessoa foram afetados também. A descrição do que se sente ao estar sob o poder (e.g, uma comente elétrica passando pelo corpo) era a mesma.

Tanto os advogados como os oponentes da glossolalia admitem que

a possessão demoníaca e/ou sua influência podem ser a causa de

proclamações sobrenaturais na vida dos crentes. Edman escreveu: "Para

o crente não instruído, que insiste em ter algum dom particular do

Espírito e que desconhece a soberania do Espírito Santo, pode haver a

realidade terrível do dom de línguas pelo poder demoníaco. Na minha experiência, tenho conhecido tais." (54) Raymond Frame, anteriormente missionário na China, teve essa experiência e concordou:

Espíritos maus facilmente podem achar oportunidade de operar na vida emocional do crente especialmente quando o crente é persuadido a suspender toda a atividade intelectual e a entregar a sua vontade a uma

inteligência invisível (a qual o crente, naturalmente, é persuadido a considerar como sendo o próprio Espírito Santo). Por essa razão, o filho de Deus que se preocupa com aquele mínimo de todos os dons, a glossolalia, coloca-se numa posição particularmente vulnerável em relação ao perigo da

depressão demoníaca, da obsessão, ou até da possessão.

(55)

Assim, o poder satânico tem que ser considerado como uma opção viva quanto à fonte ou origem do moderno fenômeno da glossolalia.

(53) Stegall, op. cit., pp. 48 e 49, Comparações realizadas por meio de declarações feitas por ambos os grupos. (54) Edman, op. cit., p. 16. (55) Raymond Frame, "Something Unusual", His, XXIV (dezembro de 1963), p. 26. Frame se expôs a si mesmo a essa situação. Ver sua descrição dessa experiência no Apêndice III.

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Psicológica

O mundo humanista, secularista, que nega a existência do sobrenatural, seja divino ou demoníaco, classificaria toda a glossolalia como psicológica ou fisiológica de caráter e de origem. Alguns cristãos conservadores também descrevem o caráter da glossolalia moderna genuína como psicológico. Bergsma, psiquiatra cristão, relacionou o fenômeno à ciência de cibernética, que trata da guarda e da recordação da memória. Ele escreveu:

É óbvio que nada poderá sair de cada cérebro individual que não tenha sido previamente depositado ali. Materiais depositados podem ser alterados, fragmentados, confundidos, distorcidos, porém não podem ser

humanamente criados. Também é óbvio que um idioma

linguagem na glossolalia deve ter sido introduzido de alguma maneira na vida daquela pessoa. Ainda que essa pessoa não estivesse cônscia de

haver ouvido aquelas palavras ou de que uma mensagem estivesse sendo registrada, mesmo assim estas foram previamente depositadas ali. Isto explicará os pouquíssimos casos da moderna glossolalia, se de fato os houver. (56) (grifo de Gromacki).

A avaliação parece plausível, porém não está sem problemas. Essa posição presume forçosamente que a moderna glossolalia genuína não é promovida por Deus e não é do mesmo caráter da glossolalia bíblica. Se assim fosse, então poderiam ser explicados os registros bíblicos de glossolalia pela ciência cibernética. Ou será que o Espírito Santo fez com que os discípulos falassem idiomas que nunca haviam aprendido nem ouvido? Por causa da falta de informação, não se pode provar nem desprovar isso. Os advogados da glossolalia argumentam que Bergsma admitiu a sua conclusão antes de tê-la provado. Martin, professor da Bíblia em Berea College, também cria que o moderno fenômeno não era evidência da possessão verdadeira do Espírito Santo, porém, antes, "um tipo extremo de exibicionismo como 'choro de alegria' ou gargalhada histérica no meio de luto. É

que sai como

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simplesmente o rompimento emocional e preconceitual de alegria." (57) Ele a atribuiu a uma catalepsia parcialmente desenvolvida, à histeria, hipnose, êxtase e catarse psíquica. Morton Kelsey, reitor episcopal e estudante da Psicologia Jungiana (o contato com o reino da realidade psíquica e com as entidades nele contidas é possível), chamou de "válida experiência religiosa" a glossolalia. Ele declarou: "É uma entrada para o reino espiritual; em se dando acesso ao inconsciente, é um contato com a realidade não física, que permite que Deus fale diretamente ao homem." (58) Aparece aqui uma objeção à opinião de Kelsey. Será que Deus fala diretamente aos homens à parte da Bíblia? Isto parece muito com uma declaração da neo-ortodoxia. Contudo, a avaliação psicológica talvez explique algo do fenômeno.

Artificial

Outra explicação possível, de uma parte do moderno fenômeno de glossolalia, é que este tem sido artificialmente produzido pela própria pessoa. A pessoa talvez tenha desejado ter uma genuína experiência

espiritual com o Senhor, porém na realidade não a teve. Na intensa atmosfera emocional do culto e do convite, ela poderá tentar fazer o que

os outros estão fazendo ou o que lhe é mandado fazer ou o que deve

fazer. Talvez vá à frente, caia de joelhos, levante as mãos e pronuncie sons estranhos. Os observadores talvez fiquem satisfeitos em que ele tenha manifestado a evidência do batismo do Espírito Santo e

provavelmente lho digam. (59) Visto que desejava essa experiência, ele poderá aceitar a opinião deles de que a teve. Em outros casos, uma pessoa poderá ter tido uma experiência genuína com o Senhor (confissão

de pecados, dedicação da vida etc.), porém o clímax ou a evidência física

(57) Martin, op. cit., p. 60. (58) Kelsey, op. cit., p. 231. (59) O autor observou isso. Ver apêndice I.

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da experiência pode ter sido artificial. Aceitando as instruções autoritárias do pastor ou do conselheiro como a vontade diretora de Deus, ela poderá fazer exatamente como fora instruída e fazer os movimentos. Afinal de contas, a pessoa não quer que eles pensem que ela não deseja a melhor das bênçãos do Senhor para a sua vida.

Talvez repita os sons elementares (que lhe sejam sugeridos) e outros, crendo que é assim que se consegue falar línguas estranhas. Há, além disso, pessoas que sabem que a glossolalia é um "status symbol" (símbolo de destaque), de alcance espiritual nas suas assembléias e, portanto, fingem ou simulam a experiência, para ganhar a estrutura religiosa e o louvor dos outros. Tal simulação artificial de experiências religiosas não é peculiar aos cultos pentecostais. Em muitas reuniões, nas igrejas conservadoras ou tradicionais, pessoas têm ido à frente, atendendo ao convite só porque seus amigos foram ou porque ficariam sozinhos no banco e, assim, por demais em evidência. Visto que a fala atabalhoada ou extática é aceita como uma forma de glossolalia (diferente de idiomas estrangeiros), seria mui fácil simular esses sons repetidos quando necessário. Walters achou tal exemplo na chamada "explosão de línguas" em Yale:

Dos alunos envolvidos, alguns mais tarde ficaram incertos quanto ao ser a explosão uma obra genuína do Espírito. Eu falei com um que havia "falado em línguas" quando o Sr. Bredesen visitou pela vez primeira o "campus", que podia repetir a experiência depois quando quisesse, e por iniciativa própria o fez na minha presença, todavia, ele duvidou que fosse a obra do Espírito. Sendo ele um cristão devoto, ficou bastante perplexo. (60)

Assim, a simulação artificial do fenômeno de "falar línguas" tem

que ser considerado como uma possibilidade definida em muitos dos casos.

Resumo

Foram apresentadas quatro possíveis opiniões quanto à fonte ou origem da glossolalia moderna. Ambos os lados admitem que o

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fenômeno pode ser produzido satânica, psicológica e artificialmente. Todavia, os advogados crêem que muita glossolalia tem sido produzida por Deus. O autor crê que a origem da moderna glossolalia não pode ser limitada a apenas uma fonte, mas que toda a moderna glossolalia pode ser explicada pelas primeiras três origens mencionadas. Que a moderna glossolalia não é, de maneira alguma, divinamente produzida, será demonstrado nos capítulos que seguem. Ela simplesmente não está de

acordo com a Palavra de Deus, escrita, a única e final autoridade tanto de

fé como de prática.

Conclusão

A natureza do moderna movimento de "línguas" é bastante complexa. Compõe-se tanto de salvos como de não salvos, de calvinistas como de arminianos, de membros de igrejas e de denominações pentecostais e não-pentecostais. A "Full Gospel Business Men's Fellowship International" e a "Blessed Trinity Society" estão servindo ao movimento como cabeça de ponte. Essas organizações estão tentando alcançar os seus alvos por meio de grupos privados de oração, banquetes, convenções e publicações. Os periódicos principais que estão ativamente promovendo o movimento são Voice, View, Vision, Trinity e Christian Life. As personalidades principais são Demos Shakarian, Oral Roberts, David du Plessis, Harold Bredesen, Jean Stone e Dennis Bennett.

O moderno movimento de "línguas" tem tido uma vasta propagação.

O mundo secular tem manifestado seu interesse no fenômeno através do

rádio, da televisão e de artigos na imprensa. Escolas e agências missionárias, tanto liberais como conservadoras, têm sido alcançadas. Praticamente todas as maiores denominações históricas têm agora "glossolalistas" dentro de suas fileiras, assim o clero como o laicado. Bem conhecidas personalidades seculares e religiosas têm testemunhado da presença do fenômeno na sua vida.

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As características do moderno movimento de línguas diferem daquelas do antigo pentecostismo; todavia, são semelhantes de muitas maneiras. Os adeptos de "línguas" acham-se tanto nas classes profissionais como entre as classes trabalhadoras e em todas as escolas culturais e econômicas. O "falar em línguas" não se manifesta isoladamente. É precedido, acompanhado e seguido por fenômenos tais como o som de vento, fogo, fragrância de perfume, convulsões físicas, choques elétricos, luzes, transpiração, curas e visões, inclusive de ver, ouvir e tocar o próprio Cristo. Alguns "faladores de línguas" têm testificado suas vidas terem daí em diante mudado, como resultado de suas experiências. O fenômeno moderno não ocorre espontaneamente, com muita freqüência; instruções são dadas quanto ao "mecanismo" de "falar línguas". O fenômeno é estimulado e ajudado por homens. A ocasião do movimento moderno é controversível, dependendo da perspectiva do observador. Seus advogados sentem que é uma reação divina e uma resposta à maldade do mundo, à fraqueza dos cristãos e à frieza das igrejas tradicionais. Seus oponentes crêem que é o resultado de uma carência do estudo da Bíblia e de uma experiência genuinamente cristã; portanto, muitos estão procurando um substituto aceitável e um antídoto para sua letargia espiritual. As avaliações do moderno movimento de "línguas" são muitas. Ele tem sido classificado como produção divina, contrafação de Satanás, tendo causa psicológica ou como sendo artificial simulação. Seus advogados admitem todas as quatro possibilidades, mas enfatizam a primeira. Seus oponentes limitariam as fontes do moderno fenômeno às últimas três apresentadas.

O Idioma da Glossolalia

1

O IDIOMA DA GLOSSOLALIA

As "LÍNGUAS" no tempo do Novo Testamento eram idiomas estrangeiros, uma fala extática desconhecida, ou as duas coisas? Os modernos "glossolalistas" (faladores de línguas) falam idiomas estrangeiros conhecidos, a fala extática desconhecida, ou as duas coisas? Há correspondência entre os dois grupos? Uma investigação da natureza da linguagem ou fala torna-se necessária para uma compreensão do próprio fenômeno e para uma avaliação própria do moderno movimento de "línguas".

Vários Pontos de Vista

Comentário Expositivo

Um escritor liberal contemporâneo cria que idiomas estrangeiros ou "fala extática" não eram envolvidos na frase bíblica "falando em línguas". Ele a relacionou com a decisiva pregação expositiva. Traduziu Glossal (línguas ou idiomas) como "perícopes", passagens escolhidas das Escrituras, com ou sem comentários, que formavam a parte regular do culto público. Essas Escrituras e os comentários expositivos tornaram-se fixos pela tradição e eram lidas ou recitadas em certos dias santos. Por que, então, se maravilharam as multidões ao ouvirem o que os discípulos diziam (At. 2:6)? Sirks respondeu: "Mas não são as perícopes esperadas nesse dia santo; são diferentes daquelas prescritas

porém a mudança radical é que os discípulos ou

escolheram perícopes diferentes das bem conhecidas ou as interpretaram

as perícopes eram expostas de tal maneira

por tradição

de uma maneira diferente que apontavam a Jesus." (1)

(1)

G. J. Sirks, "The Cinderella of Theology: The Doctrine of the Holy Spirit", Harvard Theological Review L (abril de 1957), p. 86.

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Conforme Sirks, as multidões não estranharam o veículo da linguagem, porém antes o conteúdo da fala. Nunca haviam ouvido essas Escrituras recitadas durante a festa de Pentecostes nem tampouco as ouviram aplicadas exegeticamente a Jesus. Sirks citou também a experiência de Jesus na sinagoga em Nazaré (Luc. 4:16-30) como uma ilustração dum desvio deliberado das perícopes prescritas para o culto de louvor. Esse ponto de vista é extremo e seria rejeitado por quase todos os liberais e por todos os conservadores. Tem de ser considerado como uma tentativa naturalista de modificar por meio de explicação um fenômeno sobrenatural. Sem dúvida, as multidões se maravilharam diante do conteúdo do fenômeno de glossolalia e do subseqüente sermão de Pedro, mas isso não deve detrair da sua confusão causada por discípulos estarem falando em outros idiomas ou dialetos que não haviam aprendido (At. 2:4, 6-8). Também o equiparar "línguas" com "perícopes" não pode explicar os demais casos do fenômeno bíblico, que nem sempre ocorreram durante festas judaicas ou cultos de louvor.

Fala Extática

Há uns poucos escritores que acreditam que cada caso do fenômeno bíblico de glossolalia estava na forma de fala extática. Gilmour, um teólogo liberal da Escola teológica Andover Newton, disse que "a primitiva glossolalia cristã era a pronúncia de sons desconexos, sob a compulsão de uma emoção extática e descontrolada uma cacofonia ininteligível a todos, senão uns poucos que estavam carismaticamente preparados para sua interpretação". (2) Mais uma vez, essa é uma tentativa liberal de modificar, por meio de explicações, a origem sobrenatural de um fenômeno bíblico em

(2)

S. MacLean Gilmour. "Easter and Pentecost", Journal of Biblical Literature, LXXXI (março de 1962), p. 64.

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termos de emoção humana, extática, descontrolada. Seu conceito evolucionário do desenvolvimento da religião faria com que ele concluísse que o cristianismo tem avançado muito além dessa primitiva e tosca expressão de culto. Outros crêem que toda a glossolalia bíblica teve a forma de fala extática, porém por razões diferentes. Como é, então, que eles explicam o fato aparente de que as multidões ouviram idiomas estrangeiros sendo falados (At. 2:6, 8, 11)? Barclay disse que Lucas havia confundido a glossolalia (o falar línguas) com línguas ou idiomas estrangeiros. (3) Essa conclusão vem dos conceitos da alta crítica no tocante à negação da inspiração da Bíblia e da crença na tendência humana de errar na ortografia. Como tal, ela tem que ser rejeitada. Alguns conservadores acreditam que os discípulos ou falaram a sua língua nativa ou em fala extática. (4) Declaram, ainda, que o Espírito Santo fez com que os ouvintes estrangeiros ouvissem o discurso nas suas línguas estrangeiras, nativas. Se os discípulos falaram na sua língua nativa, então o fenômeno foi apenas um milagre de ouvir. Se eles falaram em línguas extáticas, então o milagre foi duplo tanto de falar como de ouvir. Todavia, é difícil harmonizar essas asserções com a clara declaração de que os discípulos "começaram a falar noutras línguas" antes que a multidão se congregasse (At. 2:4) e com a equação de "línguas" e "dialetos" (At. 2:4; cf. 2:6).

Línguas Estrangeiras

A opinião que prevalece é que todos os casos de glossolalia bíblica foram na forma de idiomas ou línguas estrangeiras. Essa posição é mantida pelos não-glossolalistas (Barnes, Henry, Ironside, Lange, Lenski, Rice e outros) e, possivelmente, por uns poucos que falam

(3) William Barclay, The Acts of the Apostles (Philadelphia: The Westminster Press, 1955), p, 16. (4) Richard Belward Rackham, The Acts of the Apostles (London: Methuen Co. Ltd., 1953), pp. 159 e 160.

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línguas. A seguinte declaração por Horton, um advogado da glossolalia, é um tanto ambígua quanto à natureza das línguas faladas, mas pode se referir apenas a línguas estrangeiras:

Então se espalha a idéia de que "línguas" são uma espécie de "palavras sem sentido", incoerentes e ininteligíveis, uma série de sons glossais ininterpretáveis. Não! "línguas" eram e são idiomas . Na maior parte são desconhecidas aos ouvintes, e sempre aos que as falam. Mas às vezes poderiam ser conhecidas aos ouvintes, como no Pentecostes, onde as línguas eram desconhecidas, ao serem faladas, e conhecidas, ao serem ouvidas. (5)

Mesmo que essa declaração se refira a línguas desconhecidas, idiomas estrangeiros, ela demonstra que alguns pentecostais se opõem aos "sons sem sentido" ou à mera repetição de certos sons como a

natureza básica da glossolalia (e esta forma de falar observa-se hoje em dia).

As provas sustentadoras em favor de "idiomas estrangeiros" serão apresentadas num capítulo posterior.

Fala Extática e Idiomas Estrangeiros

A opinião predominante entre os que "falam línguas" e os "que não falam" é que o fenômeno bíblico de glossolalia poderia ser ou "fala extática" ou "idiomas estrangeiros". Geralmente, idiomas estrangeiros são identificados com o fenômeno em Atos, e a "fala extática", com o fenômeno em I Coríntios. Charles Ryrie, deão da Graduate School do Dallas Theological Seminary, é típico dos que "não falam línguas" na sua definição do dom de línguas: "Essa foi uma capacidade ofertada por Deus de falar em outra língua, ou num idioma humano estrangeiro, ou numa fala extática desconhecida." (6)

(5) Harold Horton, The Gifts of the Spirit (Bedfordshire, England: Redemption Tidings Bookroom, 1946), pp. 159 e 160. (6) Charles Caldwell Ryrie, Biblical Theology of the New Testament (Chicago Moody Press, 1959), p. 194.

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Harold Bredesen, um diretor da Blessed Trinity Society (Bendita Sociedade da Trindade) e que "fala línguas", pretendeu ter testemunhado estrangeiros nas próprias línguas deles, porém desconhecidas para ele (como o idioma Polonês e o cóptico do Egito); contudo, declarou que a maior parte da glossolalia corrente está na forma de "línguas desconhecidas". (7) Uma discussão dos argumentos pro e contra essa posição será apresentada mais adiante, neste capítulo.

O Significado no Novo Testamento

Um estudo das palavras com seus significados e usos é básico a qualquer disciplina. Isto é especialmente importante em se tratando do fenômeno de glossolalia. A palavra-chave desse fenômeno é glossa, traduzida consistentemente como "língua" na tradução da Imprensa Bíblica Brasileira. Quando o significado e o uso deste termo houver sido determinado, uma avaliação própria do movimento moderno de "línguas" será proposta.

Ocorrências

A palavra grega Glossa acha-se cinqüenta vezes no Novo Testamento, com usos vários. É usada quinze vezes referindo-se ao órgão físico do corpo usado para se falar (Mar. 7 :33,35; Luc. 1:64; At. 2:26; Rom. 3:13; 14:11; 1 Cor. 14:9; Fil. 2:11; Tiago 1:26; 3:5, 6 (duas vezes), 8; 1 Ped. 3:10; Apoc, 16:10). É usada uma vez com referência à língua do corpo intermediário (Luc. 16:24). É empregada uma vez figurativamente: "umas línguas como de fogo, que se distribuíam" (At. 2:3). Uma vez é usada para se referir ao conteúdo das palavras, em se falando, em contraste com as obras de uma ação (I João 3:18; ou talvez

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seja esta mais uma referência ao órgão físico). No Apocalipse, é usada sete vezes em conexão com "tribo, e língua, e povo, e nação", e multidões para descrever grupos étnicos que se caracterizam por falar certas línguas estrangeiras (5:9; 7:9; 10:11; 11:9; 13:7; 14:6; 17:5). Emprega-se a palavra vinte e cinco vezes para o fenômeno atual de

glossolalia (Mar. 16:17; At. 2:4-11; 10:46; 19:6; 1 Cor. 12:10 (duas vezes), 28, 30; 13:1, 8; 14:2, 4, 5 (duas vezes), 6, 13, 14, 18, 19, 22, 23, 26, 27, 29).

Assim os escritores bíblicos usaram essa palavra para denotar pelo menos cinco ou seis idéias; no entanto, esses usos são todos inter- relacionados, com, possivelmente, uma exceção (o uso figurativo de

Atos 2). Todos eles tratam da entidade básica de falar, do órgão da fala

ou do ato, do conteúdo, da linguagem e dos resultados de falar.

Frases

Não há padrão estabelecido pelo qual glossa se emprega para descrever o fenômeno de "falar línguas". Ela aparece em nove construções diferentes. Uma vez descreve-se como "novas línguas" (glossais kainais; Marcos 16:17). Também se diz "outras línguas" (heterais glossais; Atos 2:4). Aparece uma vez como substantivo plural com o artigo definido (hai glossai; I Cor. 14:22) e duas vezes como o substantivo plural sem o artigo definido (I Cor. 12:10; 13:8). É usada

com gene para indicar "qualidades de línguas" (gene glosson; I Cor. 12:10)

ou "diversidades de línguas" (I Cor. 12:28). Mais freqüentemente se

emprega no dativo plural com o verbo laleo, "falar" (Mar. 16:17; At. 2:4, 11; 10:46; 19:6; I Cor. 12:30; 13:1; 14:5 (duas vezes), 6, 18, 23, 39). Também se emprega no dativo singular, com o verbo laleo (I Cor. 14:2,

4, 13, 19, 27). Uma vez se usa com o verbo "orar" (proseuchomai

glossei; I Cor. 14:14) e uma vez com o verbo "ter" (echei glossan; I Cor.

14:26).

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Significados Léxicos

Abbott-Smith define glossa como o órgão da fala, uma linguagem, e como "sons ininteligíveis proferidos em êxtase espiritual". (8) Thayer denota glossa como um membro do corpo, o órgão da fala, e como uma linguagem usada por um povo particular, em distinção da de outras nações. Ele acrescenta ainda que era "o dom de homens que, caídos em êxtase e não mais inteiramente donos de sua própria razão e consciência, derramavam suas ardentes emoções espirituais em linguagem estranha, rude, escurecida, desconexa, completamente imprópria para instruir ou influenciar a mente dos outros." (9) Arndt e Gingrich classificaram glossa de três maneiras. Primeiro, pode ser usada literalmente como o órgão da fala ou figurativamente de chamas divididas. Segundo, foi usada para se referir a línguas estrangeiras e como sinônimo de tribo, povo ou nação. Terceiro, referiu- se à "fala quebrada" ou interrompida de pessoas em êxtase religiosa. Essa poderia ser antiquada, estrangeira, ininteligível, pronunciamentos misteriosos ou maravilhosos, ou línguas celestiais. (10) Kittel também seguiu os outros lexicógrafos e definiu glossa como o órgão da fala, linguagem ou glossolalia, que é um pronunciamento ininteligível e extático. Ele insistiu em que uma de suas formas de expressão é a murmuração de palavras ou de sons sem conexão entre si ou sem significado. Ele identificou essa fala extática com a linguagem que se usa nos céus entre Deus e os anjos e a qual homens podem atingir em oração quando apanhados pelo Espírito e arrebatados aos céus. (11)

(8) G. Abbott-Smith, A Manual Greek Lexicon of the New Testament (Edinburgh: T. & T. Clark, 1954), p. 93. (9) Joseph Henry Thayer, A Greek-English Lexicon of the New Testament (Edinburgh: T. & T. Clark, 1953), p. 118. (10) William F. Andt e F. Wilbur Gingrich, A Greek-English Lexicon of the New Testament (Chicago:

The University of Chicago Press, 1957), p. 161. (11) Kittel, op. cit., pp. 721-26.

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Moulton e Milligan, baseando-se num estudo feito dos papiros gregos, acrescentaram que a palavra se emprega não somente para referir-se à linguagem, mas também para peculiaridades locais de fala ou de linguagem. (12) Esse exame de significados léxicos tem demonstrado que eruditos lingüísticos consideram o fenômeno de glossolalia como sendo tanto línguas estrangeiras como uma pronúncia extática, com ênfase primária e aplicação neste último sentido.

O Uso no Novo Testamento

Os significados dos termos bíblicos têm que ser determinados, em

última análise, pelo emprego desses termos. Por maior que seja o valor dos significados léxicos e das derivações de palavras, sempre têm que ser subordinados ao emprego que lhes deram os escritores bíblicos. Um estudo do uso novotestamentário de glossa há de revelar o fato de que, quando empregado a respeito do fenômeno de glossolalia, sempre se refere a línguas estrangeiras. Não é possível que se refira tanto a línguas estrangeiras como a pronúncias extáticas desconhecidas, conforme pretendem os advogados do moderno "movimento de línguas". As seguintes provas das relevantes passagens bíblicas devem sustentar esta conclusão.

A própria escolha de glossa para descrever o fenômeno é

significativo. Na seção sobre "ocorrências", foi demonstrado que a palavra fora usada com referência ao órgão físico que produz sons audíveis e conhecidos, como os sons de várias línguas humanas. Até o órgão do corpo intermediário (Luc. 16:24) falou uma linguagem inteligível, conhecida aos ouvintes. Poderia ser usada para denotar um grupo étnico (Apoc. 5:9; 7:9) porque nações ou povos são distinguidos

(12) James Hope e Moulton George Milligan, The Vocabulary of the Greek New Testament (Grand Rapids: Wm. B. Eardman's Pub. Co., 1963), p.128.

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pela linguagem que falam. Esses são russos porque falam somente russo; aqueles são japoneses porque falam somente japonês.

Em várias ocorrências de "falar línguas" (At. 2:4, 6, 8, 11; 10:46; 19:6),

somente línguas estrangeiras foram faladas. Os significados de palavras obscuras têm sempre de ser determinados pelo significado nas passagens claras. O mero fato de que glossa se usa, muitas vezes, para designar o órgão de, o conteúdo de e os grupos denotados por línguas conhecidas deve ser um fator determinante em fixar o significado do termo, quando usado quanto ao fenômeno de glossolalia. Na passagem textualmente discutível de Marcos (Mar. 16:9-20), é predito que os crentes "falarão novas línguas" (glossais lalessousin kainais; 16:17). Presumindo que a passagem seja genuína, o emprego do adjetivo kainos e não o sinônimo neos é digno de nota. Conforme Abbott-Smith, kainos se refere ao "novo primariamente em referência à qualidade, ao novo não usado, enquanto neos se refere ao recente". (13) É admitido por todos que o fenômeno de "falar línguas" não ocorreu no Velho Testamento nem no período dos Evangelhos e que aconteceu pela primeira vez no dia de Pentecostes (At. 2). Portanto, se o "falar línguas" tivesse envolvido línguas desconhecidas, nunca antes faladas, então Cristo teria usado neos (novo em referência a tempo). Mas, visto que Ele empregou kainos, tem que se referir a línguas estrangeiras, que eram novas àquele que as falasse, porém que já existiam antes. Argumentos baseados em palavras sinônimas às vezes são difíceis de manter, mas deve haver uma boa razão por se ter usado kainos, não neos. O fato de que os discípulos realmente falaram línguas conhecidas no dia de Pentecostes (At. 2:4, 6, 8, 11) sustenta esta distinção e conclusão. Quando o Espírito Santo encheu os discípulos de poder no dia de Pentecostes, eles "começaram a falar noutras línguas (lalein heterais glossais), conforme o Espírito lhes concedia que falassem" (At. 2:4). Quais foram essas "outras línguas"? Eram elas línguas desconhecidas ou

(13) Abbott-Smith, op. cit., p. 226.

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estrangeiras? Lucas as definiu nas próprias palavras dos ouvintes. A multidão ficou confusa "porque cada um os ouvia falar na sua própria

língua" (tei idia dialekto; At. 2:6). A multidão perguntava: "Como é, pois, que os ouvimos falar cada um na própria língua em que nascemos?

(tei idia dialekto; At. 2:8 ). Mais tarde, diziam:

nossas línguas (tais hemeterais glossais), falar das grandezas de Deus" (At. 2:11). A multidão podia compreender o conteúdo do fenômeno porque os discípulos falavam nos seus dialetos e línguas. Eram, pois, definitivamente línguas estrangeiras que se estavam falando. Quais línguas? Lucas as classifica como "partos, medos e elamitas; e os que habitamos a Mesopotâmia, a Judéia e a Capadócia, o Ponto e a Ásia, a Frígia e a Panfília, o Egito e as partes da Líbia próximas a Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes" (At. 2:9-11). Não somente falaram os discípulos línguas diferentes, mas também falaram vários dialetos da mesma língua. "Os frígios e os de Panfília, por exemplo, ambos falavam grego, porém em dialetos diferentes; os partos, medos e elamitas, todos falavam idioma perso, porém em formas provinciais diferentes." (14) Por que incluiu Lucas uma lista tão longa de países e povos? Ele desejava tornar bem claro que os discípulos falavam em línguas estrangeiras e dialetos, não em sons desconhecidos. Essa primeira ocorrência do fenômeno de glossolalia estabelece a norma bíblica e o padrão para toda a glossolalia subseqüente. Tem de ser em línguas estrangeiras daqueles que estão presentes, quando não se exerce o dom da interpretação.

ouvimo-los em

A segunda ocorrência clara de glossolalia teve lugar na experiência de Cornélio e de sua casa (At. 10:44-48). A evidência de que eles haviam crido em Cristo e recebido o Espírito Santo foi o fenômeno de falar em línguas: "porque os ouviam falar línguas (lalounton glossais) e magnificar a

Deus" (10:46). Que essa glossolalia foi em idiomas estrangeiros é bem

(14) Marvin R. Vincent, "World Studies in the New Testament" (New York: Charles, Scribner's Sons" 1908), I, p. 450.

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patente. Primeiro, Lucas empregou aqui as mesmas palavras para descrever o fenômeno que usara no primeiro registro (2:4,11). A

impressão natural deixada no leitor é que o mesmo fenômeno ocorreu de novo. Idiomas estrangeiros e/ou dialetos foram falados. Segundo, como poderiam os ouvintes saber que Cornélio e sua casa estavam glorificando

a Deus se não os compreendessem? Este argumento naturalmente

assume que o "magnificar a Deus" fosse parte ou toda a substância desse fenômeno. Terceiro, no relatório subseqüente que Pedro fez à igreja em Jerusalém, ele disse que os gentios haviam recebido "o mesmo dom" (11:17) e que "desceu sobre eles o Espírito Santo, como também sobre nós no princípio" (11:15). Indubitavelmente, isto faz referência ao Pentecostes. Essa semelhança de experiência estende-se não somente ao fato de receber o Espírito, mas à natureza da glossolalia em idiomas estrangeiros. A terceira e final ocorrência de glossolalia em Atos acha-se na experiência dos doze discípulos de João, o Batista, em Éfeso (19:1-7). Quando desceu o Espírito Santo sobre eles, "falavam línguas (elaloun te glossais) e profetizavam" (At. 19:6). Já que Lucas emprega as mesmas palavras básicas para descrever o fenômeno como nos dois casos

anteriores, é lógico inferir que aconteceu a mesma experiência e que essa glossolalia também foi em idiomas estrangeiros. Além disso, se a profecia foi parte desse fenômeno de falar em línguas, então Paulo devia

ter compreendido o que eles estavam dizendo nas línguas.

Muitos que defendem a moderna glossolalia admitem que o falar em línguas estrangeiras constituía o fenômeno nos Atos, mas eles argumentarão que o "dom de línguas" (I Cor. 12-14) permite falar tanto em idiomas desconhecidos como em estrangeiros. Todavia, um estudo dessa epístola paulina há de revelar que a natureza do fenômeno nos dois livros é a mesma (falando em idiomas estrangeiros), ainda que os propósitos sejam diferentes. Quando Paulo introduziu o assunto de dons espirituais, ele declarou que "ninguém, falando pelo Espírito de Deus, diz: Jesus é anátema! e

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pode dizer: Jesus é o Senhor! senão pelo Espírito Santo" (I Co., 12:3), Poderia ser que algum coríntio, num esforço humano de reproduzir o dom de falar línguas, tivesse feito outro arranjo e pronunciasse certas sílabas com o efeito total de realmente dizer que Jesus era maldito ou anátema? Há uma notável semelhança entre "maldito" (anathema) e "nosso Senhor vem" (marana tha) em certos sons (I Cor. 16:22). Alguém, falando grego, talvez tenha tentado simular essa última frase aramaica com um arranjo faltoso, e dito a-na-tha-mar. Assim, ele teria estado chamando a Jesus de maldito ou anátema, em vez de declarar a Sua vinda. Outra possibilidade é que a pessoa tenha dito "Jesus é maldito" (anathema) em vez de dizer "Jesus é uma oferta votiva" (anatheima) ou que tenha substituído "anátema" por "uma maldição" (katara: cf, Gal. 3:13). Qualquer que tenha sido o caso, a pessoa estava tentando simular sílabas de um idioma conhecido, não de uma língua desconhecida. Qualquer coisa que tenha dito também estava no vocabulário de uma língua conhecida. Essa interpretação tem de ser considerada como plausível, porque esse verso se acha dentro do contexto de dons espirituais. Paulo designou o dom de línguas como gene glosson, traduzida como "a variedade de línguas" (I Cor. 12:10) e "diversidade de línguas" (I Cor. 12:28). Esse termo genos faz referência a uma família, raça, descendência, nação, qualidade, sorte e classe no uso novotestamentário. Há muitas "espécies" de peixes (Mat. 13:47), porém todos são peixes. Há muitas "castas" de demônios no mundo (Mat. 17:21), porém são todos eles demônios. Há muitas espécies de vozes (I Cor. 14:10), mas todas elas são vozes. Daí se pode concluir que há muitas "qualidades" de línguas, mas todas elas são línguas. Há várias famílias de línguas no mundo semita, eslava, latina etc. Todas essas são inter-relacionadas, em que elas têm um vocabulário definido e a construção gramatical. Paulo de maneira nenhuma poderia ter combinado línguas estrangeiras conhecidas com sons desconhecidos extáticos sob a mesma classificação. Simplesmente não se relacionam.

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Sempre ligado com o dom de línguas está o dom de interpretação de línguas (hermeneia glosson; I Cor. 12:10; 14:26, 28). Que significa "interpretar"? Em passagens não-carismáticas, refere-se a uma exposição das escrituras do Velho Testamento (Luc. 24:27) ou a uma tradução de uma língua estrangeira conhecida para outra (João 1:39,43; 9:7; Heb. 7:2). Em ambos os casos, é uma tentativa de tornar claro, através de uma explicação ou tradução, o que é dito num idioma conhecido. Esses usos têm que governar o significado do dom de interpretação. A interpretação da glossolalia (idiomas estrangeiros) foi necessária para tornar claro o que fora dito aos ouvintes. Isto se fez por meio de tradução para a língua ou idioma comum e/ou pela exposição.

A declaração "ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos

anjos" (ean tais glossais ton anthropon lalo kai ton angelon; I Cor. 13:1) tem feito com que alguns dividam o fenômeno de glossolalia em "línguas conhecidas" (de homens) e "línguas desconhecidas" (de anjos). Entretanto, isto não é necessariamente verdadeiro. Primeiro, Paulo estava descrevendo um caso hipotético (ean; se). Isto não quer dizer que ele havia falado em línguas angelicais, mesmo que mais tarde ele admitisse que falara "línguas" (I Cor. 14:18). Segundo, o mero fato de que a palavra "línguas" é usada apenas uma vez com "homens" e "anjos" demonstra que línguas humanas e angelicais podem ser juntadas. Têm elas algo em comum. São ambas línguas conhecidas e compreendidas pelos ouvintes. Terceiro, quando homens e anjos conversaram em tempos bíblicos, podiam conversar inteligentemente em línguas conhecidas, sem dificuldade e sem interpretação. Antes de dividir línguas entre conhecidas e desconhecidas, Paulo está afirmando que todos os fenômenos de "línguas" eram na forma de idiomas definidos, não de "línguas extáticas".

A inserção do adjetivo "estranhas" (I Cor. 14:2, 4, 13, 14, 19, 27),

na versão Almeida, pelos tradutores, foi muito infeliz. Nota-se que a palavra é grifada, que, neste caso, significa que ela não se acha no texto

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grego. Os tradutores acrescentaram essa palavra explicativa porque pensavam que o fenômeno de glossolalia em Corinto consistia em falar

uma língua extática, desconhecida. A presença de "estranha" transmite uma impressão errada, e não deve ser usada como argumento em favor

de línguas extáticas ou "estranhas" ou desconhecidas. Alguns crêem que a frase "pois ninguém o entende" é uma

declaração categórica. Isto quer dizer que, se um representante de cada grupo conhecido de línguas estivesse presente numa reunião de glossolalia, ninguém poderia reconhecer ou compreender o que estava sendo falado por parte da pessoa que "falasse línguas". Todavia, a bem

da coerência, os que estão a favor de "falar línguas" teriam que dizer que

cada ocorrência de glossolalia forçosamente tem de ser na forma de "línguas estranhas" ou desconhecidas. Entretanto, eles admitem que muitos do seu grupo têm falado idiomas estrangeiros conhecidos. Assim, isso constituiria um argumento contra sua posição de que tanto línguas conhecidas como estranhas ou desconhecidas podem ser faladas. Realmente, esse verso só quer dizer que ninguém presente no culto compreendia àquele que falava. Visto que Deus era a fonte ou causa da glossolalia genuína, Ele sabia quais os grupos de idiomas presentes e fazia com que a pessoa falasse numa língua estrangeira não representada. Assim se tornava sempre necessária a interpretação. Como ilustração da própria glossolalia, Paulo escreveu: "Ora, até as coisas inanimadas, que emitam som, seja flauta, seja cítara, se não formarem sons distintos, como se conhecerá o que se toca na flauta ou na cítara?" (I Cor. 14:7). Como se distinguem os sons musicais por várias notas da escala e da oitava, também a fala é distinguida por vocabulário e construção gramatical. Paulo se opunha à mera repetição de certos sons ou "palavras" (como fazem também muitos glossolalistas modernos), como a própria expressão do fenômeno de glossolalia. Palavras "bem inteligíveis" (I Cor. 14:9) devem ser faladas. Uma pessoa deve poder compreender ou reconhecer a fala como um idioma conhecido, portanto, capaz de tradução e explicação (I Cor. 14:11).

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Em se tratando do propósito de línguas, Paulo citou uma profecia de Isaías (28:11, 12): "Está escrito na lei: Por homens de outras línguas e por lábios de estrangeiros falarei a este povo; e nem assim me ouvirão, diz o Senhor" (I Cor. 14:21). Essa profecia tratou do tempo quando Israel e Judá foram invadidos pelos assírios (cf. II Reis 17-18). A frase "este povo" refere-se aos judeus e a frase "homens de outras línguas e outros

lábios" refere-se aos assírios. As ameaças dos assírios, que falavam tanto

o idioma dos assírios como o dos hebreus, não modificaram a

pecaminosidade e a incredulidade dos judeus. Esse falar em línguas estrangeiras devia ser um sinal para os judeus, porém eles não o receberam. Paulo, então, aplicou essa verdade à situação dos coríntios. "De modo que as línguas são um sinal, não para os crentes, mas para os

incrédulos

Visto que as línguas ou os idiomas estrangeiros são definidamente referidos no verso 21 (heteroglossais; cf. Atos 2:4, onde "outras línguas" também são definidamente idiomas e dialetos estrangeiros), o uso de "línguas" (hai glossai) no versículo 22 também deve referir-se a línguas estrangeiras. Isto também se confirma ainda pelo uso do artigo de referência prévia (hai) e a função da conjunção inferencial "de modo

que" (hoste). Se Paulo tivesse considerado o "falar em línguas" ser numa murmuração extática ou desconhecida, ele não teria empregado a mesma palavra duas vezes nesses dois versículos, especialmente porque o significado de glossa fora estabelecido no primeiro uso. Lucas, companheiro de Paulo, escreveu Atos (A.D. 60) depois de Paulo escrever I Coríntios em (A.D. 55). Indubitavelmente, Lucas conhecia o conteúdo de I Coríntios, ou por ter lido a carta ou por ter escutado os ensinos de Paulo. Estes fatos são significativos, porque Lucas empregou os mesmos termos (glossa e laleo), para descrever o fenômeno da glossolalia em Jerusalém, Cesaréia e Éfeso (At. 2, 10, 19), que Paulo empregara ao escrever aos coríntios. Já que línguas estrangeiras definitivamente constituem o fenômeno em Atos, segue-se que línguas estrangeiras devem ter sido faladas em Corinto. Se não é

" (I Cor. 14 :22).

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assim, então por que não empregou Lucas uma fraseologia diferente ou pelo menos palavras qualificadoras para indicar a diferença?

Lucas é quem descreve plenamente o que são

línguas, enquanto Paulo presume que seus leitores saibam o que são e, portanto, não oferece nenhuma descrição." (15) Isso é mui plausível. Teófilo, a quem foi dedicado o livro de Atos, precisaria duma explicação

desse fenômeno, porém os coríntios não. Hodge acrescentou: "Se o significado da frase (glossais) é assim histórica e filologicamente determinado para Atos e Marcos, tem de ser determinado também para a Epístola aos Coríntios." (16) Quando e onde quer que o fenômeno tenha

acontecido, esperar-se-ia que sua natureza básica (falar línguas conhecidas)

seria a mesma. O falar em idiomas estrangeiros que não foram aprendidos certamente constituiria um milagre divino; todavia, o falar em sons ininteligíveis e desconexos ou em sons desconhecidos facilmente poderia ser feito tanto por um cristão como por um descrente. Não há norma objetiva pela qual essa fala poderia ser avaliada. Portanto, é lógico aceitar que Deus instituiria um milagre que os homens não poderiam duplicar através da simulação humana. Também, em todos os casos de conversão e revelação entre seres

naturais (homens) e seres sobrenaturais (Deus, anjos, Satanás, demônios),

a comunicação foi numa língua compreensível. Tomando por base esse precedente e ilustração, mais uma vez seria lógico aceitar que o falar línguas se manifestaria através de idiomas compreensíveis. Antes do Pentecostes, houve mais um milagre que envolveu a linguagem e a fala. Deus mudou a fala única e o único idioma do mundo em muitos idiomas, grupos de línguas, em Babel (Gên. 11:1-9). Essa mudança foi para línguas estrangeiras, não para sons desconhecidos. Já

Lenski escreveu: "

(15) R.C.H. Lenski, Interpretation of St. Paul's First and Second Epistle to the Corinthians (Columbus, Ohio: Warburg Press, 1957), p. 505. (16) Charles Hodge, An Exposition of the First Epistle to the Corinthians (Grand Rapids: Wm. B. Eardman's Publishing Co., 1950) p. 248.

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que Deus fizera esse tipo de milagre antes, seria razoável crer que Ele o repetisse na sua natureza básica em Pentecostes.

Argumentos, tanto escriturísticos como lógicos, têm sido apresentados para demonstrar que o fenômeno de glossolalia foi realizado somente em idiomas estrangeiros conhecidos. Os modernos "glossolalistas" têm o dever de provar que a glossolalia bíblica incluía também sons extáticos.

Avaliações Lingüísticas

Para que haja uma renovação ou um reavivamento dos dons espirituais bíblicos, o "moderno movimento de línguas" deve demonstrar que toda glossolalia realiza-se em idiomas conhecidos do mundo. Todavia, o caso não é assim. Bredesen admitiu que "a maior parte da glossolalia corrente é em línguas desconhecidas". (17) Os muitos testemunhos de outros "faladores de línguas" tendem a confirmar a convicção de Bredesen, embora alguns poucos pretendam ter falado em línguas conhecidas. As conclusões de eruditos lingüísticos também demonstraram que a moderna glossolalia consiste em sons desconhecidos e que algumas das pretensões de falar em línguas conhecidas são falsas. A verdadeira glossolalia (o falar uma língua não previamente falada) é raríssima, "Mosiman estudou muitos dos casos supostos e achou que nem um sequer era autêntico. Robert L. Dean, um psicólogo contemporâneo, chega à mesma conclusão." (18) William Welmes, professor de línguas africanas na UCLA, chamou o moderno fenômeno uma fraude e uma monstruosidade. Ele deu o seguinte relatório sobre sua investigação:

E tenho que relatar sem reserva que a amostra que tenho de maneira alguma parece estruturalmente com um idioma. Não pode haver mais que dois sons contrastantes de vogais e um jogo de sons de consoantes

(17) Farrell, op. cit., p. 6. (18) Bergsma, op. cit., p. 9.

O Idioma da Glossolalia

18

peculiarmente restritos; esses combinam em pouquíssimos grupos de sílabas, que recorrem muitas vezes em várias ordens. As consoantes e vogais nem todas parecem com o inglês (a 1illgua nativa -do "glossolalista"), porém as regras da entonação são o inglês americano tão completamente que o efeito total é bem ridículo. (19)

Welmes também criticou a pretensão de Bredesen de ter falado na língua Cóptica do Egito. Ele disse: "O Sr. Bredesen devia ter estado numa sessão espírita, porque já por muitos anos não existem mais pessoas que falam a língua Cóptica do Egito. Temo que isto seja típico das pretensões erradas, da parte dos modernos glossolalistas, ainda que provavelmente sinceras." (20) Eugene Nida, famoso lingüista da Sociedade Bíblica Americana, chegou à seguinte conclusão, depois de sua investigação:

Os tipos de inventário e distribuições indicariam claramente que essa gravação não tem nenhuma semelhança com nenhuma língua atual

Se não é idioma humano, então que é? Pode se

dizer apenas que é uma forma de "fala

tenho aprendido acerca deste tipo de fenômeno de "línguas" em outras

Sobre a base do que

já tratada por lingüistas

partes do mundo, aparentemente há a mesma tendência de se empregar o próprio inventário de sons, em combinações absurdas, porém com feições simuladas estrangeiras. Pelo menos no Oeste da África e na América Latina, os tipos de glossolalia empregados pareciam caber dentro desta

descrição. (21) As conclusões dos lingüistas indicam que a moderna glossolalia é composta de sons desconhecidos, sem vocabulário e feições gramaticais que a distingam, com simuladas feições estrangeiras e com uma ausência total de características de idioma. O caráter essencial desse novo movimento é, portanto, contradição com o fenômeno bíblico de falar em línguas conhecidas.

(19) William Welmes, "Letter to the Editor", Christianity Today, VII (8-11-1963), pp. 19 e 20. (20) Ibid. (21) Citado por Edman, op. cit., p. 16.

O Idioma da Glossolalia

19

Sumário

Têm-se várias opiniões quanto a natureza básica do fenômeno bíblico de falar línguas. Alguns liberais têm negado o milagre e redefinido o fenômeno como a apresentação de comentários expositivos sobre textos do Velho Testamento. Alguns poucos têm sustentado o ponto de vista de que toda glossolalia estava na forma de fala extática ou de sons desconhecidos. Muitos crêem que o fenômeno consistia em falar idiomas conhecidos ou desconhecidos. Realmente, a grande maioria das glossolalias modernas está na forma de sons desconhecidos. Somente pelo Novo Testamento se pode determinar a natureza exata do fenômeno bíblico. O termo grego glossa emprega-se de várias maneiras: para indicar o órgão da fala, um sinônimo de raça ou povo, idiomas estrangeiros e como parte da descrição da fala de línguas. O termo se emprega de nove maneiras diferentes para descrever o fenômeno. Os lexicógrafos crêem que o fenômeno poderia envolver tanto idiomas conhecidos como fala extática. Todavia, o emprego de glossa e a descrição do fenômeno do Novo Testamento revela que estava envolvida somente a fala de idiomas conhecidos. Pelo menos dezoito argumentos baseados nas Escrituras e na lógica foram apresentados para sustentar esta conclusão. Eruditos lingüísticos têm afirmado o fato de que o "moderno movimento de línguas" é caracterizado pela fala em sons desconhecidos, sem qualquer base de linguagem. Portanto, o caráter essencial do novo movimento não está de acordo com a norma bíblica. Por conseguinte, não pode ser de Deus.

"Línguas" no Evangelho de Marcos

1

"LÍNGUAS" NO EVANGELHO DE MARCOS

A ÚNICA MENÇÃO do fenômeno de glossolalia nos quatro Evangelhos acha-se na grande comissão, conforme o registro de Marcos (16:17). Isto torna-se significativo quando se reconhece que o Espírito Santo exerceu uma parte proeminente na era do evangelho.

A Ausência de "Línguas" em Outros Lugares

O Espírito Santo foi o agente da conceição do Cristo encarnado (Luc. 1:35). Pelo menos cinco pessoas são apresentadas como "cheias do Espírito Santo": Jesus Cristo (Mat. 3:16; Luc. 4:1), João, o Batista (Luc. 1:15), Isabel (Luc. 1:41), Zacarias (Luc. 1:67) e Simeão (Luc. 2:25). Todavia, não se diz que qualquer uma dessas pessoas tenha falado línguas, quer contemporâneas, quer subseqüentes da experiência de ficar

cheia do Espírito Santo. João, o Batista, predisse que Jesus batizaria com

o Espírito Santo e com fogo (Mat. 3:11), porém nem mencionou que a

glossolalia seria a evidência física da experiência. Jesus também predisse

o advento do Espírito Santo no mundo e na vida dos crentes (João 7:37-

39; 14:16; 16:7), porém em nenhuma parte ele declarou que isso seria acompanhado pelo fenômeno de falar em línguas. Jean Stone declarou que os crentes devem pedir a Deus o Espírito Santo (cf. Luc. 11:13), e que a glossolalia será a evidência de sua recepção. (1) Sua pretensão peca por não reconhecer os distintivos transitórios da era do evangelho. Mais tarde, Cristo disse: "rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador" (João 14:16). Depois desta declaração, não foi ordenado aos discípulos pedirem o Espírito Santo. Hoje em dia, há apenas duas classes de pessoas no mundo crentes, que

têm o Espírito Santo (Rom, 8:9) e incrédulos, que não têm o Espírito

(1)

Jean Stone e Harold Bredesen, The Charismatic Renewal in the Historic Churches (Van Nuys, Calif.: Blessed Trinity n.d.), p. 6.

"Línguas" no Evangelho de Marcos

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Santo (Jud. 19). Não existe um terceiro grupo de cristãos que não têm o Espírito. Os Evangelhos estão repletos de tais declarações transitórias que nunca tiveram o propósito de se tornar um padrão ou norma para a era presente. Num tempo, Cristo mandou que seus discípulos limitassem seu ministério a Israel (Mat. 10:5, 6), porém, depois de ressuscitado, Ele ordenou que fossem pelo mundo e pregassem o evangelho a toda criatura (Mat. 28:18-20). A doutrina nunca devia ser baseada nessas declarações anteriores, transitórias. Também Cristo esboçou as relações futuras do Espírito Santo para com o crente e o mundo (João 14-16) sem fazer qualquer referência à fala de línguas. Num dos seus aparecimentos aos seus discípulos após a ressurreição, Cristo "assoprou sobre eles, e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo" (João 20:22.) Esse evento climático também não provocou a glossolalia. Ao enfatizar os eventos do Pentecostes (At. 2), os modernos "faladores de línguas" (ou "glossolalistas") têm deixado de dar um significado próprio dessa recepção inicial do Espírito Santo pelos discípulos. Na era do evangelho, há uma aproximação ao "falar línguas" na possessão demoníaca, com uma diferença básica. O demônio falou diretamente, antes de fazer o homem possesso falar (cf. Mar. 5:1-20); todavia, o verdadeiro "falar línguas" foi realizado pelos lábios e pela língua da pessoa sob o controle do Espírito Santo (At. 2:4). A semelhança baseia-se nos fatos de que o pronunciamento sobrenatural estava sendo processado e que a pessoa estava sob a influência dum ser sobrenatural. Talvez haja uma condenação da repetição de certas palavras ou sílabas desconhecidas (nas quais se realiza a maior parte da glossolalia moderna), no ensino de Cristo sobre a oração, no Sermão do Monte: "E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque pensam que pelo seu muito falar serão ouvidos (Mat. 6:7). Beare declarou que a frase "não useis de vãs repetições" (battalogesete) dizia respeito a uma

"Línguas" no Evangelho de Marcos

3

deprecação de qualquer qualidade de fala ininteligível em oração. (2) O verbo consiste em batta, que não é uma palavra de significação, porém uma sugestão onomatopaica do som produzido, e logeo, "falar". Outras palavras relacionadas são "gago" (battalos) e "gaguejar" (battaridzo). Nesse contexto, no entanto, Cristo não se refere ao mero defeito de falar, porém à repetição de sons ininteligíveis. Não é isso o que Paulo condenou na igreja em Corinto (I Cor. 14:9, 11, 19)? Já que o "falar línguas" é uma forma de oração (I Cor. 14:2,14), será que o Espírito Santo faria com que um crente pronunciasse sílabas desconhecidas muitas vezes (como fazem muitos) quando o próprio Senhor Jesus condenou essa prática? Jamais Deus se contradiz. Sempre Ele age de acordo com a Sua Palavra. Essa passagem, então, cresce de significação quando é relacionada com o moderno fenômeno de glossolalia. Torna-se outro argumento em favor do ponto de vista de que toda a glossolalia bíblica foi na forma de palavras e línguas conhecidas e significativas.

A Presença de "Línguas" em Marcos

Como foi anteriormente declarado, a única menção clara do fenômeno de glossolalia acha-se no registro de Marcos, da Grande Comissão (16:15-18):

E disse-lhes: Ide por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado. E estes sinais acompanharão aos que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e estes serão curados.

(2) Frank W. Beare, "Speaking with Tongues", Journal of Biblical Literature, LXXXIII (setembro de 1964), p. 229.

"Línguas" no Evangelho de Marcos

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Contensão dos Que Advogam a Glossolalia

Conforme os modernos advogados da "fala de línguas", todos os cinco sinais devem caracterizar cada crente. Brumback argumentou que, "se a expressão 'aquele que crer e for batizado' é verdadeira em toda e qualquer época da dispensação cristã, a afirmação 'estes sinais os seguirão' também deve ser verdadeira em cada geração e período da história da igreja". (3) Brumback acrescentou que a frase "os que crêem" não faz referência somente aos novos convertidos, porém a todos os que crêem em Cristo. Então ele definiu a natureza da fé e o caráter condicional dos sinais: "Enquanto os apóstolos e outros discípulos continuaram crendo no senhorio de Jesus sobre cada reino, 'estes sinais' continuaram a segui-los." (4) Este, então, é o ponto de vista do moderno movimento de "línguas". Se um cristão apenas cresse no que Jesus aqui disse e se submetesse completamente ao senhorio de Cristo, então veria estes sinais operando na sua vida. Isso poderia acontecer em qualquer geração, inclusive na de

hoje. De fato, o moderno movimento de "línguas" e o ministério do "pleno evangelho" (conforme eles) são o cumprimento da profecia de Cristo.

Tem havido, e ainda há, muitos homens piedosos que não falaram línguas: Calvino, Knox, Wesley, Carey, Judson, Moody, Spurgeon, Torrey, Sunday e Bill Graham. Brumback declarou que este argumento "se baseia em homens, antes que nas Escrituras". (5) Isso lá é verdade; todavia, causaria espécie se esses grandes líderes cristãos e outros fossem classificados como homens que não tenham reconhecido o senhorio de Cristo na sua vida. Certamente, eles têm manifestado mais santidade e têm testemunhado mais efetivamente em prol de Cristo do que muitos que pretendem ter falado línguas. Todavia, a resposta real a

(3) Brumback, op. cit., p. 54. (4) Ibid. (5) Ibid., p. 275.

"Línguas" no Evangelho de Marcos

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essa pretensão do moderno movimento de "línguas" acha-se na autenticidade textual e na doutrina da própria passagem.

Autenticidade da Passagem

Muitos cristãos reconhecem que a declaração textual da conclusão de Marcos (16:9-20) é fraca. Os dois melhores manuscritos iniciais o

Sinaíticus e o Vaticanus não a têm. Da mesma forma, algumas traduções latinas do quarto e do quinto séculos a Versão Siríaca Sinaítica

e alguns códices armenianos não a contêm. Clemente de Alexandria,

Orígenes e Euzébio, todos a omitiram. De fato, Euzébio disse que as cópias mais acuradas por ele conhecidas e quase todas as cópias disponíveis terminavam com as palavras "porque temiam" (16:3). (6) Nenhum manuscrito grego anterior ao quinto século a tem. Essa evidência externa de Manuscritos favorece definitivamente a omissão da passagem, ainda que não seja bastante em si. A omissão realmente cria um problema, como diz Cole: "Terminar

o Evangelho com o v. 8 é não somente abrupto no sentido lingüístico,

mas também abrupto teologicamente." (7) Esse término desconexo tem de ser reconhecido, e, todavia, aceito. Everett Harrison, professor de grego do Novo Testamento no Seminário Teológico Fuller, concluiu: "A probabilidade transcripcional favorece o término abrupto. Se o término longo fosse original, seria difícil explicar a perda desses versículos em nossos principais MSS. Por outro lado, aceito o término abrupto como o original, é fácil ver que havia uma sentida necessidade para suplementação." (8)

(6) Citado por Everett F. Harrison, Introduction to the New Testament (Grand Rapids: Wm. B. Eardman's Pub. Co., 1964), pp. 87 e 88. (7) R. A. Cole, The Gospel According to St. Mark (Grand Rapids: Wm. B. Eardman's Publishing Co., 1961), p. 258. (8) Harrison, op. cit., p. 88.

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E houve suplementação. Há pelo menos quatro términos possíveis, que se acham em vários manuscritos gregos. Os melhores manuscritos terminam com o versículo 8. Outros contêm uma curta conclusão de cerca de trinta palavras. A maioria dos manuscritos posteriores inclui os versos 9 a 20. Há ainda outros que têm os vv. 9-20, com uma interpolação entre os vv. 14 e 15. Qual a conclusão para essa evidência externa dos MSS? Tem que se concordar com o Dr. A. T. Robertson, o grande erudito em Grego e gramático da geração passada: "Assim, os fatos são mui complicados, porém eles argumentam fortemente contra a genuinidade dos vv. 9 a 20 de Marcos 16." (9) Sobre a base deste sustentáculo fraco de MSS, nenhuma doutrina deve ser edificada a respeito desta passagem. A evidência interna sustenta a conclusão da evidência externa. Harrison citou algumas das incongruidades da passagem:

A palavra traduzida "semana" no v. 9 não é a mesma que no v. 2. A afirmação sobre Maria Madalena, no v. 9, não tem lógica de ali constar, especialmente por ser feita depois do aparecimento dela na história, através do v. 1, em que não há qualquer descrição semelhante. O leitor espera em vão que se diga algo nos versos da conclusão que explique bem o que se diz a respeito de Pedro no v. 7, mas tudo quanto se encontra é uma série de generalidades. Finalmente, ainda que a matéria no v. 18, concebivelmente, poderia ser congruente com o lugar dado ao elemento milagroso no Evangelho, talvez seja mais acurado ver o tema taumatúrgico aqui tal como se encontra nos Evangelhos apócrifos. (10)

Gould apontou certas diferenças lingüísticas quando escreveu: "Há 109 palavras diferentes, e, dessas, 11 palavras e 2 frases não ocorrem em outra parte nesse Evangelho." (11) São: ekeinos, poreuomai, tais met'autou genomenois, theaomai, apisteo, meta tauta, husteron, blapto, sunergountos, bebaioun e epakolouthein.

(9) Archibald Thomas Robertson, World Pictures in the New Testament (Nashville, Tenn.: Broadman Pres., 1930), I, p. 402. (10) Harrison, op. cit., p. 88. (11) Ezra P. Gould, A Critical and Exegetical Commentary on lhe Gospel According to St. Mark (New York: Charles Scribners Sons, 1913), p. 303.

"Línguas" no Evangelho de Marcos

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Diante dessa evidência externa e interna tão forte contra o conceito de que os vv. 9 a 20 seriam da autoria de Marcos, é difícil compreender Brumback, que concordou com a conclusão do antigo Pulpit Commentary: "No todo, a evidência quanto à genuinidade e autenticidade desta passagem parece ser irresistível." (12) Nenhum erudito moderno no Grego diria que a evidência em favor da inclusão dos versículos 9 a 20 é "irresistível". Por que Brumback faria uma declaração tão corajosa? Primeiro, ele cria que a Versão Autorizada (de 1611 A.D.) era "a mais digna de confiança de todas as versões e a que mais se aproxima do original que qualquer coisa que temos hoje em dia". (13) Essa posição é digna de elogio, porém ele a mantinha à custa de desprezar o texto grego e as descobertas dos eruditos gregos. (14) Finalmente, este autor recebeu a impressão de que Brumback teve que sustentar tenazmente a integridade do término de Marcos para justificar seu ponto de vista de que a glossolalia faz parte integral da Grande Comissão e de que o fenômeno devia ser parte permanente da igreja e da vida pessoal. Sua posição doutrinária determinou definidamente sua aceitação dessa passagem. Isto é ser tendencioso, mas não é erudição. A atitude correta para com essa passagem, tanto por parte dos advogados da glossolalia como por parte dos seus oponentes, devia ser a de Robertson: "Diante da grande dúvida quanto à genuinidade desses versículos (quase prova conclusiva contra eles, na minha opinião), é pouco sábio tomar esses versículos como base de doutrina ou de prática, a não ser que seja sustentada tal doutrina por outras partes genuínas do N.T." (15) Portanto, é insustentável edificar uma doutrina sobre essa passagem. A passagem pode ser parte genuína do Evangelho de Marcos,

(12) Harrison, op. cit., p. 66. (13) Ibid., p. 57. (14) Ibid., pp. 55-57.

(15) Robertson. op. cit

p. 262.

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porém enquanto não se tiver maior evidência a respeito, ela não deve ser usada para sustentar qualquer posição doutrinária.

Doutrina da Passagem

De duas maneiras a doutrina da passagem não favorecerá nem mesmo a posição Pentecostal. Primeiro, pode-se demonstrar que o ensino da passagem é inconsistente com o de outras passagens das Escrituras. Este fato ainda confirma mais o fraco sustentáculo textual da passagem; portanto, não deve ser usada pelo movimento de "línguas" para provar sua pretensão da existência permanente da glossolalia na igreja. Segundo, mesmo admitindo a passagem como genuína, pode-se mostrar que o movimento neo-pentecostal não está cumprindo todos os sinais mencionados. O primeiro problema doutrinário da passagem centraliza-se na natureza da fé expressa na frase: "E estes sinais acompanharão aos que

." (16:17). Os que advogam a causa de "línguas" têm declarado

que a crença completa no senhorio de Cristo fará com que a pessoa crente experimente esses sinais. Mas, será verdade? Será que "crença no senhorio de Cristo" é o que Jesus queria dizer? No contexto maior desta passagem, a palavra é empregada com referência àqueles discípulos que não criam que Jesus fora ressuscitado dentre os mortos, e que fora visto por Maria Madalena (16:11) e pelos dois no caminho de Emaús (16:13). Mais tarde, o próprio Cristo, num aparecimento após a ressurreição, repreendeu-os por causa de sua descrença quanto aos seus aparecimentos (16:14). Todavia, nem a crença nem a descrença na ressurreição física de Cristo está envolvida em 16:17. O contexto imediato é a Grande Comissão de Cristo a seus discípulos (16:15). Ele mandou que fossem e pregassem o evangelho a toda criatura. E disse ainda: "Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado. E estes sinais acompanharão aos que "

(16:16,17). A crença na mensagem do evangelho trará

crerem

crerem

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salvação, e a falta de fé trará juízo individual. Os sinais, então, eram para acompanhar aqueles que crerem para a salvação, e não aqueles que aceitam o senhorio de Cristo na sua vida (apenas alguns cristãos). Que a crença para a salvação é o significado pretendido vê-se ainda pelo uso do tempo aoristo em ambos os versículos (ho pisteusas e ho apisteusas, 16:17, cf. tois pisteusasin, 16:18). A aceitação individual e a responsabilidade pessoal (na pessoa singular) são enfatizadas em 16:17, conquanto esses sinais fossem para acompanhar todos os crentes como um grupo (no plural). Que os sinais deveriam acompanhar os que cressem e fossem batizados, é uma declaração categórica. Cada pessoa que cresse no evangelho deveria realizar esses cinco sinais; porém o fato claro da História e da experiência é que nenhum cristão jamais fez isso. Os próprios advogados da glossolalia não testificam que todos os cinco sinais têm estado operando nas suas vidas. Todos esses sinais deveriam acompanhar todos os crentes. Note-se o artigo e o particípio no plural (16:17). Também o antecedente de "eles" (16:17-18) é "os que crerem" (16:17) para a salvação. Não se refere aos pregadores nem aos apóstolos (a eles a referência é feita na segunda pessoa do plural "vós" 16:15). O segundo problema doutrinário da passagem centraliza-se na natureza dos sinais que deveriam acompanhar os crentes. O primeiro foi:

"em meu nome expulsarão demônios". Espíritos maus foram expulsos por Pedro (At. 5:15,16), por Filipe em Samaria (At. 8:5-7) e por Paulo em Filipos (At. 16:16-18) e em Éfeso (At. 19:12). Todavia, não há nenhuma indicação nos Atos nem nas epístolas de que todos os crentes praticassem isso. Esses três líderes (apóstolos e/ou evangelistas) foram os únicos a expulsar demônios.

falarão novas línguas." O falar línguas foi

manifestado pelos discípulos (At. 2:1-4), por Cornélio e sua casa (At. 10:44-48), pelos discípulos de João, o Batista (At. 19:1-7), pela igreja em Corinto (I Cor. 12-14) e possivelmente por Paulo (I Cor. 14:18) e pelos samaritanos (At. 8:12-18). Fora dessas ocorrências, não há nenhuma indicação duma prática geral de glossolalia pelos crentes. Também já foi

O segundo sinal foi: "

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demonstrado que o emprego de kainos antes que neos indicava que a fala

deveria ser em idiomas conhecidos, não em "línguas desconhecidas". (16) Isto não tem sido praticado pelo moderno movimento de "línguas".

pegarão em serpentes." Não há nenhuma

ilustração no resto do Novo Testamento de que qualquer crente fizesse isto. Ainda que Paulo tenha sido citado como um exemplo (At. 28:1-6), é

bom lembrar que ele não pegou na serpente, mas que a cobra o mordeu. Oral Roberts dá uma explicação esquisita desse versículo:

O pegar em serpentes não se refere a pôr as mãos em cobras. Essa

era uma expressão do Oriente que se referia a inimigos. Significa o que Jesus explicou em Lucas 10:19: "Eis que vos dei autoridade para pisar serpentes e escorpiões, e sobre todo o poder do inimigo; e nada vos fará dano algum." Isto foi poder que faria com que eles vencessem os seus inimigos que tentassem impedir seu progresso espiritual ou procurassem

proibir que testemunhassem o Senhor Jesus Cristo.

O terceiro sinal foi: "

(17)

Essa interpretação figurada ou alegórica do sinal é incongruente com a literalidade dos outros quatro. O contexto exige uma interpretação literal.

e, se beberem alguma coisa mortífera, não

lhes fará dano algum." Não há limitações quanto ao tipo de líquido

consumido (notai: "alguma" = "qualquer"; ti). Também a frase "não lhes fará dano algum" (enfático negativo duplo ou me) é uma declaração categórica. Os que cressem em Cristo para a salvação poderiam beber qualquer coisa sem sofrer nenhum dano. De novo, a História, tanto bíblica como histórica, mantém completo silêncio a respeito dessa prática. De fato, Timóteo talvez tenha sofrido dano por haver ingerido água poluída (I Tim. 5:23).

e porão as mãos sobre os enfermos, e eles

serão curados." Há muitos casos de cura sem a imposição de mãos (At. 3:1-11; 9 :32-35; 19:11). Todavia, há casos onde a imposição de mãos

O quarto sinal foi : "

O quinto sinal foi :

(16) Ver Capítulo IV (clique aqui). (17) Oral Roberts, The Baptism with the Holy Spirit and the Value of Speaking in Tongues Today (Tulsa, Okla.: Pelo autor, 1964), p. 16.

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resultou em cura física (At. 9:17,18; 28:8,9; cf. Tiago 5:14,15). No entanto, essa não era a prática geral. De fato, por que foi que o carcereiro em Filipos não curou Paulo e Silas antes de "lavar-lhes as feridas" (At. 16:33)? Essa também é uma declaração categórica. Havendo imposição de mãos, haveria cura; porém o caso não é assim, como hão de concordar os Pentecostais e os "curandeiros por fé". Assim ficou demonstrado que todos os cinco sinais devem ser manifestados por todos que cressem em Cristo para salvação. Todavia, isso não se deu nem nas vidas das pessoas bíblicas nem na do moderno movimento de "línguas". A palavra "sinais" (semeia) emprega-se extensivamente na Bíblia, com referências múltiplas, porém esses cinco sinais nunca se aplicam a todos os crentes. A palavra foi usada quanto à circuncisão (Rom. 4:11), um requisito para os judeus (I Cor. 1:22), a línguas (I Cor. 14:22) e à assinatura de Paulo (II Tess. 3:17). Sinais eram operados por Deus (At. 7:36), por Cristo (At. 2:22), pelos apóstolos (At. 2:43; 4:16 ,22, 30; 5:12; 14:3; 15:12; Rom. 15:17-19; II Cor. 12:12; Heb. 2:3, 4). Por Estêvão (At. 6:8) e por Filipe (At. 8:6,13). Sinais serão operados no futuro por Deus (At. 2:19), pelo anticristo (II Tess. 2:9), pelo falso profeta (Apoc. 13:13, 14; 19:20) e pelos espíritos de demônios (Apoc. 16:14). Há forte indicação de que esses sinais divinos eram temporários e limitados às primeiras décadas da história eclesiástica. Alguém escreveu:

Como escaparemos nós, se descuidarmos de tão grande salvação? A qual, tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram; testificando Deus juntamente com eles por sinais e prodígios, e por múltiplos milagres e dons do Espírito Santo, distribuídos segundo a sua vontade (Heb. 2:3, 4).

Ainda que o pronome "eles" (2 :4) não esteja no texto grego, a compreensão dos tradutores foi correta quando o inseriram. É digno de nota que Deus lhes testificou, isto é, àqueles que haviam ouvido o Senhor diretamente (os apóstolos), e não à segunda geração de crentes

. confirmada", não "está sendo confirmada"). O escritor

de Hebreus em parte nenhuma testificou da existência de sinais e

(note-se: "foi

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milagres como prova da superioridade do cristianismo em relação ao judaísmo ritualista. Ainda que os judeus pedissem um sinal, Paulo não lhos deu, mas pregou o Cristo crucificado (I Cor. 1:22, 23). Concernente a esses sinais, a honestidade terá que concordar com a conclusão de Cole:

Se manifestações evidenciais foram ou não pretendidas para serem contínuas na vida da igreja, ou se foram restritas a esse período, ou esporádicas terá que ser considerado à luz da restante do Novo Testamento; em vista da evidência incerta quanto à conclusão mais seguida, não se deve fazer nenhuma suposição dogmática apenas nela baseada. (18) Esses sinais não se acham nos demais registros referentes à Grande Comissão (Mateus 28:18-20; Luc. 24:46-49; João 20:2123; At. 1:8). Visto que não são todos eles achados na experiência da igreja primitiva, essa passagem não deve ser apresentada como o padrão pretendido para esta época. Também não é justo que o moderno movimento de "línguas" selecione um desses sinais e o enfatize como o sinal de uma vida cheia do Espírito, afastada dos outros quatro sinais. Tem que ser todos os cinco sinais ou nenhum deles.

Resumo

A ausência da existência ou da predição do fenômeno de "falar línguas" no período do Evangelho é fato mui significativo. Várias pessoas foram cheias do Espírito Santo sem falar línguas. O batismo no Espírito Santo foi predito à parte de qualquer menção desse fenômeno. Jesus esboçou a relação do Espírito Santo com os discípulos sem mencionar o fenômeno. De fato, Jesus deprecou a oração a Deus que envolvesse sons desconhecidos e sem significação. Isso negaria a

(18) Cole, op. cit., p. 262.

"Línguas" no Evangelho de Marcos

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pretensão de que o falar em sons desconhecidos é a duplicação da ocorrência bíblica. Advogados da glossolalia pretendem que a crença completa e a submissão ao senhorio de Cristo produziria esses sinais na vida dos crentes. Entretanto, isso é inconsistente com as experiências de muitas pessoas dedicadas, consagradas e com a correta interpretação da própria passagem, Esses cinco sinais (Mar. 16:17,18) devem ser achados na vida daqueles que iriam crer em Jesus para salvação. O fato de que eles não têm sido achados é evidente do registro bíblico, do curso da história eclesiástica e do próprio movimento moderno de glossolalia. Também, visto que a conclusão de Marcos (16:9-20) tem tão fraca evidência externa de manuscritos e seu sustento interno é tão inseguro quanto a sua genuinidade, não deve e não pode ser baseada sobre essa passagem nenhuma doutrina. Já que não há nenhuma outra passagem bíblica que ensine a existência permanente desses sinais na vida da Igreja, tem de ser rejeitada essa tese básica do moderno movimento de "línguas". Para todos os propósitos práticos, a doutrina bíblica de glossolalia tem necessariamente de ser limitada ao tempo de Atos e I Coríntios.

As Línguas no Livro de Atos

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AS LÍNGUAS NO LIVRO DE ATOS

O LIVRO DE ATOS fornece um registro histórico da vida primitiva da Igreja. Relata o avanço da mensagem do evangelho de Jerusalém a Roma, primariamente através dos ministérios de Pedro e Paulo. Registra o primeiro sermão apostólico (2:14-40), o primeiro milagre apostólico de cura (3:1-11), a primeira perseguição (4:1-3), a primeira defesa do evangelho (4:5-12), o primeiro castigo (5:1-11), a escolha dos primeiros diáconos (6:1-7), o primeiro martírio (7:54-60), a primeira viagem missionária (13:114:28) e o primeiro concílio da Igreja (15:1-35). O livro, pois, tem um caráter progressivo e transicional, no que o programa de Deus deixa a antiga dispensação da lei, passa para a vida primitiva da nova dispensação eclesiástica e avança para um estágio posterior e mais amadurecido. Dentro deste registro histórico se acham quatro recebimentos singulares do Espírito Santo, acompanhados pelo fenômeno de glossolalia em pelo menos três ocorrências. Esses quatro registros históricos serão agora apresentados e estudados, e, mais adiante, será exposto o seu significado.

O Registro de Línguas

O Livro de Atos contém três registros claros de glossolalia (2:1- 13;10:44-48; 19:1-7). Por causa de certas semelhanças, mais duas passagens têm sido sugeridas (4:31; 8:5.19), a última sendo mais plausível. Certas perguntas formarão as diretivas no estudo desses registros históricos. Onde aconteceu o fenômeno? Quem falou línguas? Quando eles falaram ou qual era a sua condição espiritual no tempo em que falaram? Que estavam fazendo na ocasião em que começaram a falar línguas? Quais os sinais que acompanharam o seu recebimento do Espírito Santo? Foram-lhes impostas mãos a fim de que recebessem essa experiência?

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Atos 2:1-13

O primeiro relato sobre glossolalia é o referente a ocorrida no dia de

Pentecostes (2:1). O dia era assim denominado porque era celebrado no qüinquagésimo dia (a nossa palavra é a transliteração do termo grego pentekostes) depois da apresentação do primeiro molho da ceifa de cevada. Era o qüinquagésimo dia depois do primeiro domingo após a Páscoa (cf. Lev. 23:1ss). Também era conhecido como a Festa das Semanas (Êx. 34:22; Deut. 16:10) e como o Dia das Primícias (Êx. 23:16; cf. Núm. 28:26), porque era o dia em que os primeiros frutos da ceifa de trigo eram apresentados a Deus. No judaísmo posterior, esse dia era considerado como o aniversário da entrega da Lei no Monte Sinai. (1)

O dia particular de Pentecostes era mui significativo, porque era o

qüinquagésimo dia após a ressurreição de Jesus Cristo e dez dias após a sua ascensão aos céus (At. 1:2,3), Esse grande evento ocorreu na cidade de Jerusalém. Os discípulos receberam ordem de Jesus de ficarem em Jerusalém para a descida do Espírito Santo (Luc. 24:49). Isto eles fizeram (Luc. 24:52; At. 1:12). Aqueles que testemunharam o fenômeno de falar línguas e aos quais Pedro pregou seu sermão habitavam em Jerusalém nesse tempo (At. 2:5,14). O som da presença do Espírito Santo "encheu toda a casa" (holon ton oikon) onde os discípulos "estavam sentados". Que casa era essa? Morgan, seguindo Josefo, equacionou "casa" com o templo ou uma das salas do templo. (2) O templo era chamado "casa" no Velho Testamento (Is. 6:4) e mais tarde é assim descrito por Estêvão (At. 7 :47). Depois da ascensão de Cristo, Lucas diz que os discípulos "estavam continuamente no templo, bendizendo a Deus" (Luc. 24:53). Nesse dia de festa, poder- se-ia esperar achá-los ali. Uma multidão de mais de três mil pessoas (At. 2:41) mais provavelmente se acharia no átrio do templo e não num

(1) F. F. Bruce. Commentary on the Book of Acts (Grand Rapids: Wm. B. Eardman's Publishing Co.), pp. 53 e 54. (2) G. Campbell Morgan, The Acts of the Apostles (New York: Fleming H. Revell Commentary, 1924), p. 24.

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cenáculo ou na rua, fora de uma casa particular. Todavia, há indicações definidas de que os discípulos estavam simplesmente numa casa particular quando lhes sobreveio o Espírito Santo. O contexto imediato de fato menciona um cenáculo numa casa particular (At. 1:13-26). É mais provável que estivessem sentados (At. 2:2) numa casa particular do que no templo. Mais tarde, Lucas distingue entre "casa" e "templo" (At. 2 :46; 3:1). É difícil dizer com absoluta certeza justamente onde estavam os discípulos, entretanto, é certo que estavam juntos em algum lugar em Jerusalém. Quem "falou línguas"? Lucas apenas diz "eles" (2:1-4). Quem são "eles"? Alford disse que "eles" não se refere somente aos apóstolos, nem somente aos 120, mas a "todos os crentes em Cristo então congregados

no templo na festa em Jerusalém". (3) A maioria dos comentaristas crê que o antecedente desse pronome é o grupo de 120 discípulos, inclusive os doze apóstolos (4) ou os 120 mais os doze apóstolos, (5) Visto que esse grupo é mencionado nos versículos precedentes (1:12-16), esse ponto de vista parece bem plausível. Todavia, há problemas definidos relativo a esses pontos de vista. A melhor posição é que somente os doze apóstolos falaram línguas quando lhes sobreveio o Espírito Santo dessa maneira incomum. Primeiro, o antecedente mais próximo de "eles" (2:1) é o grupo de apóstolos (1:26). Segundo, não é preciso pensar que os apóstolos gastassem todo o seu tempo com os 120, nem que a seleção de Matias precedesse imediatamente à descida do Espírito Santo. Terceiro, Cristo havia dado somente aos apóstolos a promessa dessa

E eis que sobre vós envio a promessa

de meu Pai; ficai, porém, na cidade, até que do alto sejais revestidos de

vinda do Espírito. Ele dissera: "

(3) Henry Alford, The Greek Testament (London: Longmans, Green, and Co., 1894), II, p. 13. (4) Ibid. (5) R. J. Knowling, "The Acts of the Apostles", The Expositor's Greek Testament, editado por W. Robertson Nicoll (Grand Rapids: Wm. B. Eardman's Publishing Co., 1951), p. 72.

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poder" (Luc. 24:49; cf. At. 1:2-4). Falando somente aos apóstolos, Ele

predissera: "

mas vós sereis batizados no Espírito Santo dentro de Mas vós recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito "

(At. 1:5,8). Não há nenhuma

poucos dias

Santo, e ser-me-eis testemunhas

indicação de que todos os crentes iam receber o Espírito Santo nesta

maneira incomum. Quarto, os que observaram o fenômeno " se admiravam, dizendo

uns aos outros: Pois que! não são galileus todos esses que estão falando?"

(At. 2:7). Poderá ser provado que todos os 120 eram galileus? Os apóstolos eram chamados "varões galileus" pelos anjos (At. 1:11). Pedro falava com um sotaque galileu bem definido (cf. Mar. 14:70). Quinto, será que uma acusação de embriaguez teria sido lançada a mulheres (At. 2:1-3; cf. 1:14)? Sexto, não há nenhuma menção dos 120 em Atos 2, porém há referências aos apóstolos (2:14, 37). Sétimo, a menção de "filhas" na profecia de Joel (At. 2 :17) não quer significar que mulheres receberam a experiência no Pentecostes. Para ser consistente, teríamos que dizer que filhos, filhas, mancebos, velhos, servos e servas tiveram que estar presentes. Será possível provar que todas essas seis classes estariam incluídas nos 120? Assim, provavelmente, foram os apóstolos que falaram em línguas naquele dia. Os apóstolos eram definitivamente homens salvos. Já haviam professado a sua fé em Cristo e experimentado a iluminação divina (Mat. 16:16,17; João 1:41, 45, 49; 6:68, 69). Foram pronunciados espiritualmente limpos pelo próprio Cristo e eram considerados diferentes de Judas Iscariotes (João 13:10; 15:3), Cristo os considerava como pertencendo a Ele e ao Pai (João 17:10). Antes do Dia de Pentecostes, esses apóstolos já haviam recebido o Espírito Santo (João 20:22) e foram comissionados a pregar (At. 1:8). Portanto, essa experiência no Dia de Pentecostes foi um acontecimento subseqüente a sua conversão. O significado desse fato será exposto mais tarde.

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(Nota do Tradutor: Teologicamente, teremos que dizer que ninguém pode ser salvo, nascer de novo, aceitar a Cristo como Salvador sem, ao mesmo tempo, ter o Pai e o Espírito Santo, pois DEUS NÃO SE DIVIDE e não há três deuses, mas UM SÓ. Ninguém pode ter um terço ou dois terços de Deus! Ou O tem, ou não O tem. Isto é tão simples!)

Que estavam fazendo os apóstolos na ocasião em que começaram a falar línguas? Os advogados modernos da glossolalia, que vêem um padrão permanente e universal na sua experiência, teriam que dizer que os

apóstolos estavam buscando e orando pela experiência. Este conceito baseia-se nas frases: "Todos estes perseveraram unanimemente em oração" e "estavam todos reunidos no mesmo lugar" (At. 1:14; 2:1). Todavia, não se diz que estavam orando; isso é apenas inferencial. De fato, estavam sentados quando desceu o Espírito Santo (2:2). A posição normal para orar era de joelhos ou em pé; "sentados sugere que a assembléia de discípulos

estava ouvindo um discurso " É difícil dizer se os apóstolos estavam mesmo esperando o Espírito Santo naquele dia. Jesus dissera "dentro de poucos dias" (1:5), porém não designara o dia exato nem sugerira que seria no dia de Pentecostes. Eles estavam simplesmente esperando o cumprimento da promessa de Cristo. Unger escreveu:

Não se deve supor, como freqüentemente se faz, que o Espírito Santo veio no Pentecostes porque os 120 discípulos esperavam e oravam que Ele viesse. Nada do que fizeram ou disseram poderia afetar, no mínimo que fosse, a questão da vinda do Espírito. Não foram ordenados a orar, mas apenas a "sentar-se" e "esperar" (Luc. 24:49), o que queria dizer que não tentassem qualquer obra de "testemunhar" (At. 1:8) até que o Espírito Santo viesse dar-lhes poder. Naturalmente, eles oraram (At. 1:14), e tiveram uma comunhão maravilhosa, mas tudo isso nada tinha com a vinda do Espírito Santo, que veio por "promessa" divina (Luc. 24:49), num tempo divinamente determinado (At. 2:1), num lugar divinamente escolhido (Joel 2:32), de acordo com o Velho Testamento (Lev. 23 :15-22). (7)

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(6) R. C. H. Lenski, The Interpretation of the Acts of the Apostles (Columbus, Ohio: The Wartburg Press, 1957), p. 57. (7) Merrill F. Unger, The Baptizing Work of the Holy Spirit (Chicago: Scripture Press, 1953), p. 57.

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Esses apóstolos não oraram no sentido de receberem a experiência. Não oraram uns pelos outros. Não impuseram as mãos sobre ninguém. Simplesmente esperaram que Jesus fizesse aquilo que prometera fazer. A descida do Espírito Santo viria, não em resposta à oração, porém quando Cristo o quisesse. A descida do Espírito Santo foi evidenciada por três sinais físicos: o som de vento, línguas como que de fogo e o falar outras línguas. Ramm disse que os sinais apelavam respectivamente ao ouvido, à vista e à mente e tinham a intenção de invalidar qualquer acusação de logro ou engano. (8) Unger argumentou: "Se o Sinai foi envolvido em fumaça e chama de fogo quando a Lei foi dada a uma certa nação (Êx. 19), poderia ser considerado estranho que o fenômeno de vento, fogo e línguas de vários povos acompanhasse o dom glorioso do próprio Espírito Santo para anunciar a sublime mensagem da graça insondável para com todas as nações e cada criatura?" (9) O som vindo do céu (não o vento) "encheu toda a casa onde estavam sentados" (2:2), de modo que foram completamente cobertos, imersos ou nele batizados. Visto que o som indicou a presença do Espírito Santo, verdadeiramente foram batizados no Espírito Santo (cf. 1:5). Esse som foi ouvido por toda parte e fez com que as multidões se congregassem (1:6). Alguns crêem que a glossolalia atrai as multidões, (10) porém é mais provável que um som do céu, como que de um vento impetuoso, fosse ouvido do que a fala humana dentro de uma casa particular. O emprego que Lucas faz de phones (2:6) se relaciona melhor com o único som do céu do que com os múltiplos sons dos apóstolos (cf. Luc. 23:23, onde as vozes humanas estão no plural). Também o emprego do tempo aoristo (genomenes; 2:6) cabe melhor ao único som do que à fala contínua dos apóstolos.

(8) Bernard Ramm, The Witness of the Spirit (Grand Rapids: Wm. B. Eardman's Publishing Co., 1960), p. 77.

(9) Unger, op. cit., p. 62. (10) Bruce, op. cit., p. 59.

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As "línguas como que de fogo que se distribuíam" (2:3) não eram o cumprimento do "batismo de fogo" (Mat. 3:11). Esse batismo é um batismo de juízo sobre os incrédulos, não um meio de purificação para o crente (Mat. 3:12; cf. II Ped. 3 :4-13; Apoc. 20:11-15). Jesus não disse aos discípulos que Ele os batizaria com fogo (At. 1:5). Antes, as "línguas distribuídas" eram um preliminar da real glossolalia. Sua única voz ia ser dividida para que cada um pudesse falar em outra língua. Schaff chamou o terceiro sinal, a glossolalia, "a parte mais difícil do milagre Pentecostal". (11) Será que todos os apóstolos falaram ao mesmo tempo línguas diferentes? Ou falaram todos ao mesmo tempo na mesma língua, passando de uma língua para outra? Ou falaram eles cada um por sua vez? Por causa destas dificuldades, Kuyper declarou que os discípulos falaram uma língua pura, que todos os crentes um dia hão de falar, o que levou os observadores a pensar que os ouviam falar nas suas respectivas línguas nativas. (12) Vincent disse que "o Espírito interpretou as palavras dos apóstolos a cada ouvinte na sua própria língua". (13) Esta posição faz do evento um milagre tanto de falar como de ouvir bem. Todavia, essa posição cria mais problemas do que resolve. Não se indica na linguagem literal do texto nenhum milagre de audição. Os discípulos começaram a falar em outras línguas (ou idiomas) muito antes de chegar a multidão. Essa glossolalia estava na forma de idiomas conhecidos ou de dialetos que eram compreensíveis sem interpretação para os observadores descrentes (At. 2:4; cf. 2:6, 8, 11; também Ver Capítulo IV (clique aqui)). Os apóstolos falaram idiomas que nunca haviam aprendido, porém o fizeram aparentemente com um sotaque galileu (2:7; cf. Mat. 26:73; Mar. 14:70). Bruce disse que o dialeto da Galiléia era notável pela sua confusão de vários sons guturais. (14) Esse fato contribuiu para a

(11) Schaff, op. cit., I, p. 234. (12) Abraham Kuyper, The Work of the Holy Spirit (New York: Funk & Wagnalls Co, 1900), pp. 133-138. (13) Vincent, op. cit., III, p. 257. (14) Bruce, op. cit., p. 59.

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admiração da multidão (2:7). A multidão podia reconhecer suas línguas e/ou dialetos e compreender o que estava sendo falado pelos apóstolos. A maneira pela qual o fizeram não é tão importante como o fato de que o fizeram. O catálogo de grupos de línguas (2:9-11) revelou uma ampla variedade de línguas e dialetos. Essa fala múltipla pelos apóstolos também os pasmava. O conteúdo dessa glossolalia foi "as grandezas de Deus" (2:11). O que isso envolvia não está claro. Não era um substituto da pregação do evangelho, porque posteriormente Pedro apresentou aquela mensagem (2 :14-40) . A glossolalia não resultou na convicção de seus pecados; isso veio mais tarde (2:37). Aparentemente, esses homens eram bilíngües, porque puderam compreender o sermão de Pedro sem interpretação ou sem a repetição do fenômeno. Assim, o falar línguas foi uma parte integral dos eventos de Pentecostes. Vários pontos de vista sobre o significado dessa experiência desusual serão expostos mais tarde.

Atos 4:31

Depois da primeira perseguição, os crentes tiveram uma reunião de oração. "E, tendo eles orado, tremeu o lugar em que estavam reunidos; e todos foram cheios do Espírito Santo, e anunciavam com intrepidez a Palavra de Deus" (elaloun ton logon tou Theou meta parresias; 4:31). Vários escritores crêem que essa frase posterior é uma expressão equivalente de "falarem línguas". (15) Contudo, se essa frase de fato se refere à glossolalia, é o único lugar na Bíblia onde o faz. Fora do Livro de Atos, a palavra "intrepidez" (parresia), com suas cognatas, sempre se refere a liberdade, franqueza, clareza de linguagem, confiança e coragem. Em Atos, a palavra se emprega várias vezes (2:29; 4:13, 29, 31; 28:31) da mesma maneira. O mesmo se pode dizer a respeito do verbo parresiadzomai (9:27,29; 13:46; 14:3; 18:26; 19:8; 26:26).

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Nesse mesmo contexto, "falar a Palavra com intrepidez" relaciona- se com o ministério público de curar, realizar sinais e maravilhas (4:29,30). Também o moderno movimento de "línguas" pretende que uma pessoa pode falar, orar ou cantar em línguas em qualquer tempo após sua experiência inicial de glossolalia, que ocorreu quando foi batizada no Espírito Santo. Se assim é, então por que os cristãos tiveram de orar para que Deus lhes desse novamente essa experiência (4:29)? A única interpretação correta dessa passagem é que os discípulos oraram a Deus, pedindo que lhes desse coragem para levar avante o ministério público diante das ameaças e a perseguição por parte dos líderes judaicos. O fenômeno de falar línguas não pode ser achado aqui.

Atos 8:5-25

A segunda recepção desusual do Espírito Santo ocorreu durante o

avivamento samaritano. Depois do martírio de Estêvão, houve uma grande perseguição contra a igreja em Jerusalém, fazendo com que os crentes fossem "dispersos pelas regiões da Judéia e de Samaria" (At. 8:1). Filipe

foi "à cidade de Samaria e pregava-lhes a Cristo" (8:5). Seu ministério oral foi acompanhado de milagres e sinais expulsão de demônios e curas físicas (8:6,7,13). Seu ministério atraía a atenção dos samaritanos, causando-lhes grande alegria e neles produzindo fé salvadora (8:6,8,12). Os samaritanos eram uma raça mista, com índole pagã (II Reis 17:14; Esd. 4:2). Quando os assírios venceram Israel, o Reino do Norte (722 a.C.), tiraram da terra os israelitas proeminentes e repovoaram a região com gentios pagãos (II Reis 17:24). Essa integração produziu como resultado o casamento recíproco dos gentios com a raça samaritana, que se tornou, assim, meio-judia e meio-gentia. Os samaritanos também tinham uma religião diferente da dos judeus na Judéia (II Reis 17:27; cf. João 4:20-22). Esses dois fatos de mistura racial e religião rival causaram uma grande separação e um ódio intenso entre os judeus e os samaritanos (Esd. 4; cf. Luc. 9:52,53; João 4:9).

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Esses eram o povo do qual se diz que: "quando creram em Filipe, que lhes pregava acerca do reino de Deus e do nome de Jesus, batizavam-se homens e mulheres" (8:12). Então Lucas deu este registro da sua recepção do Espírito Santo:

Os apóstolos, pois, que estavam em Jerusalém, tendo ouvido que os de Samaria haviam recebido a palavra de Deus, enviaram-lhes Pedro e João, os quais, tendo descido, oraram por eles, para que recebessem o Espírito Santo. (Porque sobre nenhum deles havia ele descido ainda; mas somente tinham sido batizados em nome do Senhor Jesus.) Então lhes impuseram as mãos, e eles receberam o Espírito Santo (8:14-17).

Várias observações devem ser feitas acerca dessa passagem única. Primeiro, havia um lapso definido de tempo entre a conversão e batismo dos samaritanos e sua recepção do Espírito Santo. Unger tentou argumentar que os samaritanos não foram salvos antes que descessem Pedro e João, (16) porém isto é contrário ao sentido claro e literal do relato de Lucas (8:12,14; cf. 2:41). Também, se os samaritanos não foram salvos até que chegassem Pedro e João, por que, então, Filipe os batizou? Ademais, por que não foram batizados os samaritanos depois de sua experiência de salvação com Pedro e João? O batismo depois da salvação é a norma bíblica (2:41; 8:36-38). Segundo, os samaritanos receberam o Espírito Santo através da oração e da imposição de mãos de Pedro e João (8:15-17). Como representativos do grupo inteiro dos apóstolos, Pedro e João oraram pelos samaritanos para que estes recebessem o Espírito Santo. Não há nenhuma indicação de que os samaritanos pediram em oração essa experiência ou que estivessem orando no tempo dessa experiência. Não há indicação de que Filipe orasse a favor deles. Também, os apóstolos lhes impuseram as mãos (8:17). Não há indicação nenhuma de que Filipe, o evangelista, lhes impusesse as mãos. O significado destes fatos

"faz com que o batismo dos samaritanos sem a recepção do Espírito apareça como algo extraordinário: o avanço de acordo com a época do cristianismo

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para além das fronteiras da Judéia, para dentro de Samaria, não ia ser efetivado sem a intervenção do ministério direto dos apóstolos." (17)

A ausência dos sinais que acompanharam a descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes é importante. Não há menção do som como que de um vento impetuoso nem das línguas distribuídas como que de fogo (2:2,3). Ainda que a glossolalia não seja explicitamente mencionada na passagem, muitos comentaristas crêem que o fenômeno ocorreu então. (18) Esta posição se baseia no emprego de "viram" (idon) na frase:

"Quando Simão viu que pela imposição das mãos dos apóstolos se dava o Espírito, ofereceu-lhes dinheiro" (8:18). Que viu Simão que fez com que oferecesse dinheiro aos apóstolos? A resposta comum é que Simão os viu falando línguas. Brumback admitiu que essa é evidência circunstancial, porém ele cria que a presença da glossolalia em outros registros sustentaria a sua suposição. Ele declarou: "O peso da prova parece mais certamente caber àqueles que asseveram que a glossolalia não estava presente nessa ocasião." (19) Será que podemos achar provas de que não houve glossolalia então? Sim, há algumas. Primeiro, o fenômeno não é mencionado na passagem. Este fato torna-se importante quando se reconhece que línguas são mencionadas mais tarde por Lucas (At. 10:44-48; 19:1-7). Se Lucas quisesse apresentar um padrão para se receber o Espírito Santo acompanhado pela glossolalia, será que teria omitido essa segunda referência ao fenômeno? Teria sido mais lógico e mais natural omitir-lhe a referência mais tarde, uma vez estabelecido o padrão. Segundo, o emprego de "viu" (idon) não é conclusivo. O falar línguas apelaria mais ao sentido da audição que ao da visão (cf. 10:46).

(17) Heirich August Wilhelm Meyer, Critical and Exegetical Handbook of the Acts of the Apostles (New York: Funk & Wagnalls, 1889), p. 70. (18) Bruce, op. cit., p, 181. Também Merrill C. Tenney, The Zondervan Pictorial Bible Dictionary (Grand Rapids: Zondervan Pub. House, 1963), pp. 859-60. (19) Brumback, op. cit., p. 214.

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Os fenômenos de Pentecostes foram tanto ouvidos como vistos pelos observadores (cf. 2:33). Seu argumento seria conclusivo, caso o registro declarasse que Simão tanto "viu" como "ouviu". Terceiro, Simão simplesmente viu que os apóstolos lhes impuseram as mãos. Ele queria esse poder, que se realizava (conforme ele pensava) através da imposição de mãos (8:19). De fato, o peso da prova cai sobre aqueles que inserem no texto esse fenômeno quando não é especificamente mencionado. Nesta base, poder-se-ia afirmar que o som do vento e as "como línguas de fogo" também estiveram presentes. Isso é "eisegese" subjetiva, não exegese objetiva.

Atos 10:1-11:18

A terceira recepção desusual do Espírito Santo ocorreu em Cesaréia, uma cidade na costa da Palestina, na grande estrada que liga Tiro ao Egito (10:1,24; 11:11,12). Cornélio, centurião romano e gentio, recebeu a ordem de um anjo, numa visão, para que chamasse a Pedro, que estava em Jope. Fato notável também foi que o próprio Pedro recebeu uma visão de Deus, na qual lhe foi ensinado não considerar impuros ou inferiores os gentios. Depois de ouvir o relatório dos enviados de Cornélio, Pedro foi com eles até Cesaréia. Após Cornélio reiterar a sua visão, Pedro lhe pregou o evangelho, como também a sua casa. Lucas, então, apresenta este clímax:

Enquanto Pedro ainda dizia estas coisas, desceu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra. Os crentes que eram da circuncisão, todos quantos tinham vindo com Pedro, maravilharam-se de que também sobre os gentios se derramasse o dom do Espírito Santo; porque os ouviam falar línguas e magnificar a Deus.

Respondeu então Pedro: Pode alguém porventura recusar a água para que não sejam batizados estes que também, como nós receberam o Espírito Santo? Mandou, pois, que fossem batizados em nome de Jesus Cristo. Então lhe rogam que ficasse com eles por alguns dias (At. 10:44-48).

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Desta passagem pode-se tirar várias conclusões. Primeiro, Cornélio recebeu o Espírito Santo no momento exato em que creu em Cristo para a salvação. Antes desta experiência, Cornélio não estava salvo. Apesar de que era "homem piedoso e temente a Deus, com toda a sua casa, e fazia muitas esmolas ao povo e de contínuo orava a Deus" (10:2), o anjo disse-lhe que enviasse a Jope para chamar a Pedro, "o qual te dirá palavras pelas quais serás salvo" (11:14), Lucas escreveu que "enquanto Pedro ainda dizia estas coisas, desceu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra" (10 :45). Qual é o antecedente de "estas coisas"? No v. 43, Pedro acabara de chegar, na sua mensagem, ao âmago essencial do evangelho: "A ele todos os profetas dão testemunho de que todo o que nele crê receberá a remissão dos pecados pelo seu nome" (10:43). Quando Pedro mencionou a crença em Cristo, os corações espiritualmente preparados de Cornélio e de sua casa responderam em fé salvadora, e foi nesse momento que o Espírito Santo desceu sobre eles. Essa experiência é contrária à tese básica do moderno movimento de "línguas". Thomas Zimmerman, superintendente geral das "Assembléias de Deus", declarou: "Há um número de passagens bíblicas (João 14:17; At. 2, 8, 19; Ef. 1:3) que poderiam indicar que os crentes não recebem o enchimento ou plenitude ou batismo do Espírito Santo no tempo de sua conversão." (20) Todavia, Zimmerman nunca se referiu a essa experiência de Cornélio, a qual contradiz em si a sua tese. Segundo, no momento em que Cornélio recebeu o Espírito Santo, ele estava ouvindo e Pedro estava pregando (10:33, 34; 11:15). Pedro não orou para que as pessoas presentes recebessem o Espírito nem lhes impôs as mãos. Não há nenhuma indicação de que o próprio Cornélio tivesse orado para ganhar essa experiência. Na verdade, é provável que ele nada soubesse acerca do fenômeno de "falar línguas" (notar seu silêncio anterior e também o de Pedro sobre esse assunto).

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Terceiro, a evidência de sua recepção do Espírito foi a sua glossolalia (10:45-46), mas nota-se também o som como que de um vento impetuoso e a ausência das línguas distribuídas como que de fogo. Enfatizando a descida "uma vez por todas" do Espírito Santo ao mundo no Pentecostes, manifestada por esses sinais e a falta de dois deles aqui, Kuyper escreveu: "Isto confirma a nossa teoria; pois não foi uma vinda para a casa de Cornélio, porém uma condução do Espírito Santo para - outra parte do corpo de Cristo." (21) Esta glossolalia foi em idiomas conhecidos, reconhecidos e compreendidos pelos observadores, Como poderiam os cristãos judaicos saber que Cornélio e sua casa estavam magnificando a Deus, a não ser que entendessem o idioma (10:46)? Também se empregam as mesmas palavras aqui para descrever o fenômeno como no Pentecostes (10:46; 2:4; cf. Cap. IV). O conteúdo das línguas foi também o mesmo das de Pentecostes magnificando a Deus (megalunonton ton Theon; 10:46) ou declarando as obras maravilhosas de Deus (ta megaleia tou Theou; 2:11). Esse fenômeno pasmou os cristãos judaicos, porque eles ainda não compreendiam que Deus queria que os gentios também fossem salvos (10:45, 46; 11:1-3, 18). Pedro relatou à igreja em Jerusalém que o Espírito Santo caiu sobre os mesmos gentios assim "como também sobre nós no princípio" (11:15). Sem dúvida, esta é uma referência à experiência do Pentecostes, mas, por que Pedro sentiu a necessidade de comparar esses dois eventos? O do Pentecostes ocorreu cerca de sete anos antes desse. Dar-se-ia o caso de não haver ocorrido o fenômeno de falar línguas nesse intervalo? Certamente ele poderia ter se referido aos

eventos de Atos 3-9, se esses eventos realmente incluíram o falar línguas. Isto pode formar outro argumento, pela ausência do fenômeno em Samaria.

Uma quarta observação é que Cornélio foi batizado em água depois de ter recebido o Espírito Santo e de ter falado línguas. Isso difere tanto da experiência dos apóstolos (Atos 2) como da dos samaritanos (At. 8).

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Assim, o "falar línguas" ocupou uma grande parte nessa introdução

da mensagem do evangelho aos gentios.

Atos 19:1-7

A quarta e final recepção desusual do Espírito Santo aconteceu em Éfeso sob o ministério de Paulo (19:1). Ela envolveu doze discípulos de João, o Batista (19:1,37), que não sabiam que Cristo viera ao mundo, morrera, fora ressuscitado e ascendera aos céus (19:4) e que o Espírito Santo viera ao mundo (19:2). (22) É possível que eles tenham sido

convertidos sob o ministério do Batista na Palestina. Depois de voltarem

a Éfeso, podiam não ter ouvido falar da vinda de Cristo. Ainda

esperavam o Messias. Ou podiam ter recebido seu conhecimento espiritual de Apolo (At. 18:24-19:1) ou da mesma fonte de que Apolo aprendera. Em qualquer caso, esses discípulos tem de ser considerados como crentes do tipo do Velho Testamento. Sua designação por Lucas como "certos discípulos" (19:1) é método por ele usado para denotar crentes verdadeiros (cf. 6:1; 9:10; 11:25). Também a pergunta de Paulo inferiu a fé por parte deles, porém com a falta de graças espirituais e de poder (19:2). (23) Nota do Tradutor: O célebre erudito Dr. A. T. Robertson diz: "O particípio, primeiro aoristo, pisteusantes é simultâneo com o segundo aoristo, ativo, indicativo elabete e se refere ao mesmo evento" Word Pictures in the New Testament, III, p. 311.

(22) Sua resposta à pergunta de Paulo sugere ignorância da existência do Espírito Santo. Todavia, não é assim o caso. Este uso de estin envolve o sentido de "dado" ou "vindo" para completar o sentido (cf. a mesma construção em João 7:39). João, o Batista, ensinara claramente aos seus discípulos acerca da existência do Espírito Santo e seu futuro ministério (Mat. 3:11). Como discípulos dele, esses doze teriam conhecido isso. (23) Essa pergunta, ainda que importante, não é essencial ao problema da glossolalia. O particípio aoristo é traduzido literalmente, "tendo crido". Em sintaxe, pode ser usado acerca de ação antecedente ("desde que crentes") ou de ação simultânea ("quando crentes"). Se é simultânea, Paulo estava se referindo à recepção normal do Espírito hoje em dia (cf. Rom. 8:9). Se é antecedente, estava se referindo à maneira desusual, transicional de receber o Espírito (cf. At. 8).

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Paulo explicou a posição esquisita deles de serem santos do Velho Testamento na dispensação do Novo Testamento:

Mas Paulo respondeu: João administrou o batismo do arrependimento, dizendo ao povo que cresse naquele que após ele havia de vir, isto é, em Jesus. Quando ouviram isso, foram batizados em nome do Senhor Jesus. Havendo-lhes Paulo imposto as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo, e falavam línguas e profetizavam (At. 19:4-6).

Esses doze discípulos sabiam que deveriam crer em um que viria após João. Quando Paulo lhes explicou que aquele era o Cristo, creram nele e manifestaram a sua crença no batismo cristão. Tornaram-se crentes do Novo Testamento e membros da verdadeira igreja. Caso eles tivessem morrido depois do Calvário e antes dessa explicação, teriam sido classificados como santos velhotestamentários. O batismo cristão era necessário porque o batismo de João estivera orientado para Israel e

para a esperança judaica do reino messiânico (M.at. 3:2; 10:5-7; João 1:31).

Depois de Paulo lhes impor as mãos, eles receberam o Espírito Santo e falaram línguas. Não há nenhuma indicação de que Paulo orasse por eles nem de que orassem por si mesmos para que ganhassem essa experiência. Essa glossolalia mais uma vez foi em idiomas conhecidos (cf. Cap. IV). Se a profecia formou uma parte ou todo o conteúdo da fala, então Paulo a devia ter compreendido. Visto que Lucas empregou os termos comuns para descrever o fenômeno (cf. At. 2:4; 10:46), esta conclusão é lógica. Também não há menção do som como que de um vento impetuoso nem das línguas como que de fogo. (24)

Conclusão

Acham-se no Livro de Atos quatro recepções desusuais. Ocorreram em quatro áreas diferentes (Jerusalém, Samaria, Cesaréia e Éfeso) e envolveram quatro classes diferentes de pessoas (judeus, samaritanos, gentios e os discípulos de João, o Batista).

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A seguinte carta há de revelar que nem duas recepções eram completamente idênticas.

Caps. 2

8 10 19

 

1. Som como que de um vento

x

2. Línguas como que de fogo

x

3. Glossolalia

x

x

x

4. Imposição de mãos

x

x

5. O Espírito recebido após a salvação

x

x

x

6. O Espírito recebido no momento da salvação

x

Também, os discípulos ou estavam orando ou ouvindo um discurso quando lhes sobreveio o Espírito (2). Pedro e João oraram a favor dos samaritanos (8). Cornélio estava ouvindo e Pedro estava pregando (10). Paulo havia apenas terminado a sua explicação (19). Visto que há tantas diferenças nos acontecimentos, quais as conclusões que se pode tirar desta fase do estudo? Primeiro, não se pode formular, hoje em dia, nenhum padrão ou modelo para a recepção do Espírito Santo. Buscando-se um padrão, qual o capítulo que o fornecerá? Se for Atos 2, então a imposição das mãos é desnecessária. Também o som como que de vento e as línguas como que de fogo devem estar presentes. E os cristãos devem esperar em Jerusalém. Se for Atos 8, então devem ser chamados os apóstolos, para orarem e imporem suas mãos (Filipe e os samaritanos sozinhos não o puderam fazer). Isto é impossível hoje em dia, porque os apóstolos não mais estão vivos. Se for Atos10, então o Espírito é recebido no momento da salvação, antes de serem os novos crentes batizados, e sem oração e imposição de mãos. Se for Atos 19, a oração não é necessária. Que significa tudo isso?

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Como escreveu Laurin: "Não devemos cometer o trágico erro espiritual de 'ensinar a experiência dos apóstolos', porém antes experimentar o 'ensino dos apóstolos'." (24) A experiência dos apóstolos acha-se em Atos, livro transicional, conquanto o ensino dos apóstolos seja claramente exposto nas epístolas. Hoje em dia, um cristão é assinalado como um que tem o Espírito (Rom. 8:9), e o homem descrente é aquele que não tem o Espírito (Judas 19). Não há nenhum período entre a conversão e a recepção do Espírito Santo. Segundo, o caráter transicional do Livro de Atos tem que ser reconhecido. Certas coisas aconteceram na igreja primitiva que eram só temporárias na sua natureza. Nunca pretenderam tomar-se padrões permanentes. Hoje em dia os cristãos não louvam a Deus num templo judaico (2:46; 3:1). Os crentes não precisam vender tudo quanto têm para sustentar os pobres (4:32-37). Hoje em dia os crentes não caem mortos instantaneamente, abatidos, por haverem mentido (5:1-11). As portas das prisões não se abrem sobrenaturalmente (5:19). Não há mais conversões a Cristo hoje em dia mediante uma revelação direta e um aparecimento de Cristo (9:1-19). Esses exemplos devem ser suficientes para demonstrar a natureza transicional de Atos. Visto que Deus estava introduzindo uma nova dispensação, Ele fez certas coisas na época primitiva da Igreja que não eram necessárias nas etapas posteriores da Era Apostólica ou na vida permanente da Igreja. Essas recepções desusuais do Espírito Santo, assistidas por fenômenos vários, inclusive a glossolalia, caem nesta categoria.

O Significado das Línguas

O significado do fenômeno de falar línguas tem que ser apurado dos registros bíblicos. Uma vez que se tenha feito isto, os pontos de vista

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contemporâneos quanto ao significado podem ser examinados. A nenhum sistema teológico deve ser permitido impor-se sobre o registro bíblico.

O Significado Bíblico

O Espírito Santo não podia assumir a sua tarefa enquanto não fosse glorificado o Cristo (João 7:37-39). Jesus orou para que o Pai desse a presença eterna do Espírito Santo a seus discípulos (João 14:16). Jesus disse que o Espírito não poderia vir, a não ser depois de sua ascensão

(João 16:7). Quando o Espírito Santo desceu no dia de Pentecostes (At. 2),

foi em resposta à oração e à promessa de Cristo (Luc. 24:49; At. 2:33). Os vários fenômenos, inclusive línguas, anunciaram objetivamente a certeza do Seu Advento, tanto aos apóstolos como aos judeus incrédulos. Foi um sinal aos judeus de que Jesus era verdadeiramente o Messias, de que Ele morrera e ressuscitara corporalmente e de que Ele havia enviado o Espírito Santo de Sua elevada posição no céu como prometera (At. 2:22-36). Desde que o Espírito Santo veio ao mundo, para assumir o Seu Ministério até a volta de Cristo (II Tess. 2:6-7), a experiência do Pentecostes nunca mais pôde ser repetida. Cristo enviou o Espírito uma vez para o mundo. Essa vinda do Espírito não pode ser repetida mais do que a vinda de Cristo ao mundo, na sua encarnação. Assim, o falar línguas não foi o sinal evidente de uma experiência que os apóstolos buscavam, porém antes um sinal do "nunca-a-ser- repetido" advento do Espírito Santo ao mundo. Esse começo de uma nova dispensação pode ser comparado com o da Lei. Quando a Lei foi dada primeiramente por Deus, o evento foi acompanhado por trovões, relâmpagos, fogo, fumaça e um terremoto (Êx. 19:16-18). Entretanto, quando Deus deu a Moisés as segundas tábuas da Lei, depois de quebradas as primeiras, os fenômenos não foram repetidos (cf. Êx. 34). Essa primeira experiência de Israel com Deus e com a Lei não se tornou um padrão normal. Nem tampouco deve a primeira experiência da Igreja com o Espírito Santo esperar tornar-se um padrão normal.

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Se o falar línguas realmente ocorreu em Samaria (At. 8), então o fenômeno foi um sinal aos meio-judeus de sua necessária dependência e

sujeição à autoridade dos apóstolos judaicos. Caso recebessem o Espírito Santo instantaneamente na ocasião de serem salvos ou através da instrumentalidade de um judeu da Grécia (Filipe), eles talvez estabelecessem um ramo rival de cristianismo, em oposição ao de Jerusalém. Seu fundamento racial e religioso tornava isso uma possibilidade definida. A glossolalia, por conseguinte, foi a evidência objetiva de que eles haviam de fato recebido o Espírito Santo através dos apóstolos judaicos.

No começo, o evangelho não foi pregado aos gentios, embora Jesus

o tivesse ordenado (At. 2-9; 11:19; cf. Mat. 28:18-20). Os judeus,

inclusive os cristãos judaicos, consideravam os gentios como sendo indignos da salvação, comuns e impuros (At. 10:9-16, 28, 34-35; 22:21,22). Deus teve que ensinar a Pedro o valor e a "salvabilidade" dos gentios antes de ele ir à casa de Cornélio (At. 10:9-35). Depois que foram salvos Cornélio e sua casa, os cristãos judaicos em Jerusalém protestaram contra os fatos de Pedro ter visitado a casa de Cornélio e ter comido com eles (At. 11:1-3). Assim, para mostrar aos cristãos judaicos que os gentios também podiam ser salvos e que diante de Deus eles eram iguais aos judeus, o Espírito Santo foi dado no momento da salvação deles sem a oração apostólica ou a imposição de mãos. A glossolalia foi o sinal objetivo aos

judeus de que os gentios de fato foram salvos e receberam o Espírito Santo. Esse fenômeno convenceu tanto os observadores (10:45-46) como

os críticos judaicos (11:18) desses fatos. A ocorrência e o significado do fenômeno em Éfeso (At. 19:1-7) foram únicos. Wuest disse que "Atos 19:6 tem a ver com o caso especial onde judeus haviam vindo à salvação sob a dispensação da Lei do Velho Testamento e agora estavam recebendo os benefícios adicionais da Era da Graça, um caso que não pode ocorrer hoje em dia" (25) (o grifo é

(25) Kenneth S. Wuest, Untranslatable Riches from the Greek New Testament (Grand Rapids: Wm. Eardman's Pub. Co., 1943), p. 109.

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meu). Visto que esses discípulos de João, o Batista, demonstraram ignorância quanto ao advento do Espírito Santo ao mundo, um sinal objetivo era necessário para convencê-los de que seu novo passo de fé era correto. Justamente como as línguas anunciaram o advento do Espírito no Pentecostes, essa glossolalia convenceu-os de que o Espírito Santo fora dado. Essas quatro recepções desusuais do Espírito Santo, evidenciadas pela glossolalia em pelo menos três casos, ocorreram quando o evangelho e o Espírito Santo estavam sendo introduzidos a quatro diferentes classes de pessoas que existiam depois da ascensão de Cristo judeus, tanto cristãos como descrentes; samaritanos (meio-gentios); gentios; e os discípulos de João, o Batista. Quando o evangelho foi dado, mais tarde, a membros destes quatro grupos, não há nenhum registro de que o Espírito Santo fosse recebido de maneira desusual, acompanhada pela glossolalia.

Evidência do Batismo no Espírito Santo

Segundo o moderno "movimento de línguas", a glossolalia é a evidência do batismo do (com o, no ou pelo) Espírito Santo. Eles equacionam o batismo do Espírito Santo com a plenitude do Espírito Santo e aceitam a definição que Torreg deu acerca dele: "O batismo com o Espírito Santo é a vinda do Espírito de Deus sobre o crente, tomando possessão de suas faculdades, transmitindo-lhe dons que não lhe eram inatos, mas que o qualificam para o serviço para o qual Deus o tenha chamado." (26) Essa experiência, diferente da regeneração, geralmente ocorre depois da salvação. Não envolve a erradicação da natureza pecaminosa, porém dá o poder e a capacidade para o serviço cristão. Expressões ou termos como "cheios do Espírito Santo" (At. 2:4), "receber" (At.1:8), "vir sobre" (At. 19:6), "promessa" (At. 1:4), "revestido de poder" (Luc. 24 :49) e "dom" (At. 2:38) se referem todos à mesma experiência. Os

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pentecostais crêem que o Espírito Santo habita no crente no momento da salvação, porém que Ele o "enche" ou "batiza" mais tarde. Essa última experiência, crêem eles, é evidenciada pela glossolalia.

Embora, Torrey não tenha dito que a glossolalia era sinal dessa experiência, os pentecostais têm afirmado que é. Brumback disse que é "uma experiência carismática, isto é, de caráter transcendente e milagroso, produzindo efeitos extraordinários que são visíveis ao observador, a sua vinda inicial sendo assinalada pela glossolalia". (27) As Assembléias de Deus não consideram a glossolalia como um sinal, porém como o sinal do batismo do Espírito. Essa denominação aprovou a seguinte resolução: "Fica estabelecido que este concílio considere como um desacordo sério com os Fundamentais se qualquer ministro entre nós ensinar contrário ao nosso testemunho distintivo de que o batismo no Espírito Santo seja acompanhado pelo sinal físico, essencial, de falar em outras línguas." (28) Ainda que esta seja a opinião da maioria do "moderno movimento de línguas", alguns do Full Gospel (Pleno Evangelho) não aceitam a glossolalia como o único ou necessário sinal. (29) O padrão bíblico permanente, de todos os batismos com o Espírito Santo, baseia-se em Atos 2:4: "E todos ficaram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem." Se alguém perguntasse acerca do som e das línguas como que de fogo, esta seria sua resposta: "Todavia, apesar do fato de que houve muitos aspectos do Pentecostes que eram peculiares só àquele dia, para nunca mais serem repetidos, havia algumas coisas acerca do dia que se estabeleceram como um padrão para os futuros crentes." (30)

(27) Brumback, op. cit., p. 184. (28) Citado por Carl Brumback, Suddenly from Heaven (Springfield, Mo.: Gospel Publishing House, 1961), p. 223. (29) J. E. Stiles, Jr. "Letter to the Editor", Christianity Today, VIII (8-11-1963), p. 11. (30) Brumback, What Meanth This?, op. cit., pp. 196-97.

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Isto, todavia, é muito subjetivo. Quem é que determina quais os fenômenos que deveriam ser permanentes ou temporários? Também, visto que a imposição de mãos não é mencionada aqui, por que, então, ela se tem tornado uma parte do seu padrão? Dalton argumentou: "Toda a lógica exige que haja uma evidência distinta, inicial, de que a experiência do batismo com o Espírito Santo tenha vindo ao crente." (31) Não é baseado este argumento na lógica ou sobre o raciocínio, em vez de nas Escrituras? Não há evidência física da experiência da regeneração quando a pessoa recebe a presença do Espírito Santo, que possa habitar nela. A certeza da salvação decorre simplesmente de se crer na Palavra de Deus (João 1:12; 3:16), do testemunho interior do Espírito Santo (Rom. 8:16) e da vida modificada resultante (Tiago 2:24; I João 3:14). Assim, à segurança de uma vida cheia do Espírito provém de uma vida de testemunho (At. 1:8) e da frutificação do caráter cristão (João 15 :1-8; Gál. 5:22, 23). Exigir evidência física é andar pela vista, em vez de pela fé. Como se pode receber o batismo do Espírito Santo? A declaração de fé das Assembléias de Deus reza assim: "Nós cremos que o batismo do Espírito Santo, conforme Atos 2:4, é dado a crentes que o pedem." (32) Hurst mencionou seis requisitos espirituais: ter sede e buscar (João 7:37,38; Mat. 5:6; João 4:14; Is. 55:1; Jer. 29:13), ter fé (Heb. 11:6), pedir em oração (Luc. 11:13), receber (João 20:22), render-se (Joel 2:28- 29) e beber. (33) Um exame dessas ordens e das passagens dadas para sustentá-las há

de revelar que elas têm sido tiradas do seu contexto, sendo mal aplicadas.

Jesus falou de uma sede de salvação (João 5:14; 7:37,38) e pela santidade na vida e no mundo (Mat. 5:6). O mandamento de "receber" foi dado aos discípulos na tarde da ressurreição (João 20:22). A ordem-

(31) Dalton, op. cit., pp. 75 e 76. (32) "Interesting Facts about the Assemblies of God", The Pentecostal Evangel (16-9-1962) p. 12. (33) D. V. Hurst, "How to Receive the Baptism with Holy Ghost", The Pentecostal Evangel (26-4- 1964), pp. 7-9.

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chave dessa posição é "pedir", porém não há registro ou menção de que os discípulos, os samaritanos e Cornélio e os discípulos de João, o Batista, tenham pedido a experiência. Muitas instruções de auto- sugestões são também dadas para tornar mais fácil a experiência:

1. Ajudar o candidato a ver que o dom já é dado e tudo quanto ele tem de fazer é recebê-lo.

2. Levá-lo a reconhecer que qualquer pessoa salva pelo batismo está preparada para receber o batismo do Espírito.

3. Dizer-lhe que, quando se lhe impuserem as mãos, ele receberá o Espírito.

4. Dizer ao candidato que ele deve esperar que o Espírito atue sobre suas cordas vocais, mas que ele terá que cooperar com a experiência também.

5. Dizer-lhe que lance fora todo o medo de que seja falsa essa experiência.

6. Dizer-lhe que abra bem a boca e respire tão profundamente quanto lhe seja possível, dizendo a si mesmo que ele está recebendo o Espírito naquele momento.

7. Não o ficar perturbando e dando-lhe toda sorte de instruções. Guardar uma atmosfera de unidade e devoção e de silêncio.

Essas instruções preparatórias e auxílios são inteiramente estranhos aos registros bíblicos. São contrários à espontaneidade e à soberania do ministério do Espírito. Tais instruções só poderiam conduzir à um esforço humano para reproduzir um fenômeno bíblico. Levariam inevitavelmente a uma experiência auto-imposta e a uma auto-desilução (por exemplo, "dizendo-se a si mesmo (n° 6) que se está naquele momento recebendo o Espírito). Há várias outras razões por que esse ponto de vista do "Moderno movimento de línguas" está errado. A primeira é que eles confundiram o batismo do Espírito Santo com o enchimento ou plenitude do Espírito Santo. Unger dá seis razões por que esses dois ministérios do Espírito Santo devem ser guardados distintos um do outro. (34) Primeiro, o batismo do Espírito é uma obra realizada uma vez por todas, conquanto o "enchimento" ou o "ficar

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cheio" seja um processo contínuo. A ordem "enchei-vos do Espírito" (plerousthe, Ef. 5:18) está no tempo presente, indicando uma experiência repetida. Os discípulos ficaram cheios repetidamente (At. 2:4; 4:8,31). Mas o batismo é um evento único (Ef. 4:5) e (Rom