Revista Capacitando para Missões Transculturais #2

http://www.apmb.org.br MISSIOLOGIA E EDUCAÇAO TEOLOGICA Carlos del Pino É bem visível a necessidade de um investimento maior e mais profundo no treinamento missionário a cada ano que passa. O volume de candidatos ao trabalho missionário cresceu nos últimos anos e o preparo desses irmãos exige de todos nós um envolvimento cada vez mais sério e intenso no sentido de não deixá-los partir para seus campos de trabalhos sem o devido treinamento, principalmente quando estes trabalhos possuem algum nível transcultural.1 Entretanto, preocupo-me com o fato de estarmos caminhando no sentido de termos escolas de treinamento teológico por um lado e escolas de treinamento missionário por outro. Estes dois tipos de escolas e de treinamentos acabam refletindo a existência ainda de um conceito dicotomizado entre teologia versus missiologia, trabalho pastoral versus trabalho missionário, igreja versus campo missionário. Diante disso, nosso propósito aqui é tentar abrir espaço para vermos a missiologia e a educação teológica como áreas totalmente afins. Nesse sentido, desejo abordar dois tópicos que considero fundamentais na compreensão desse fato: (1) A dimensão missiológica da educação teológica e (2) A missiologia como ponto de partida para a educação teológica; 1. A dimensão missiológica da educação teológica: Via de regra, quando pensamos em educação teológica o fazemos em termos do treinamento de pastores que vão atuar dentro do contexto eclesiástico. Em outras palavras, é um treinamento que visa o preparo de pessoas para a manutenção de igrejas já existentes, e que trabalharão no desenvolvimento das estruturas dessas igrejas, para que as mesmas sejam definitivamente estabelecidas. Não tem sido muito comum pensarmos no perfil missiológico da educação teológica. Ao fazermos um levantamento da filosofia educacional, do currículo e do direcionamento dado aos estágios práticos de uma instituição teológica, logo concluímos que, em termos gerais, a nossa educação teológica não tem se preocupado com o aspecto missiológico e missionário na formação dos nossos alunos. Essa lacuna pode gerar algumas deficiências2, tais como a identificação que tem sido constante do conceito de "obra de Deus" quase que exclusivamente com o trabalho de manutenção interna da estrutura eclesiástica. Perde-se de vista totalmente o fato de que "obra de Deus" tem uma amplitude infinitamente maior do que a proposta, e o fato de considerar-se o treinamento teológico-pastoral como sendo superior e de muito maior importância do que o treinamento teológico-missionário. Aliás, nem se fala em treinamento teológicomissionário, apenas treinamento missionário, pois no conceito geral, teologia é só para pastores e não para missionários e evangelistas. Quando lemos o texto de Mt 28.20, a Grande Comissão, logo nos deparamos com o fato de que o ministério docente faz parte integrante da missão da igreja. Neste texto, vemos que o ensino a que Jesus se refere precisa se caracterizar pela praticidade ("guardar"), pela integralidade ("todas as coisas") e pela revelação de Deus em Jesus

Cristo ("que vos tenho ordenado"). Sendo assim, podemos dizer que uma vez que a educação teológica é uma parte fundamental do ministério docente da igreja, ela se torna uma das dimensões essenciais da missão da igreja. Pensando nesses termos, fazem sentido as palavras de Orlando Costas: "a missão dá nascimento à teologia na medida era que produz uma comunidade missionária fiel e obediente para quem a 'busca do entendimento' converte-se em uma vocação perene ... A missão não apenas faz nascer a teologia e dá origem à igreja, como também afeta o curso da teologia ao moldar o futuro da igreja".3 Assim, vemos que a educação teológica tem objetivos bem mais amplos do que aqueles que são vivenciados na prática de nossas instituições. Ela precisa estar voltada para aspectos como a formação do caráter e de habilidades, a informação (pensamento e reflexão) e a transformação de valores, pessoas, instituições e comunidades.4 Começamos, então, a pensar na teologia como fruto da missão e precisamos, a partir daí, ver nossas instituições teológicas como instrumentos do Espírito Santo para cumprirem suas funções básicas que, resumidamente, poderiam ser descritas como sendo: a) a preparação de homens e mulheres para atuarem no ministério docente da igreja local, informando, instruindo e edificando o povo de Deus em sua própria fé, ajudando a igreja a compreender sua situação histórica concreta e impactar a sociedade em que vive com uma mensagem profética, pastoral e evangelística no âmbito da família, bairro, trabalho, relacionamentos, etc. b) a preparação de pastores que edifiquem a fé do povo de Deus investindo no surgimento e desenvolvimento da liderança local de forma que as mais diversas esferas da missão possam ser impressas na vida e nos ministérios de cada igreja local. O treinamento teológico dos pastores precisa ser suficientemente amplo e integral (acadêmico e devocional, teórico e prático, intra-eclesiástico e extra-eclesiástico). c) a preparação de missionários, que se sentem vocacionados a trabalhar nas mais diversas frentes de atuação, como em plantação de igrejas, projetos sociais específicos, evangelização de grupos marginalizados pela sociedade (homossexuais, prostitutas, meninos de rua, etc.), evangelização de outros povos, evangelização de jovens, universitários, idosos, evangelização através da literatura, mídia, artes, etc. d) a preparação de teólogos e mestres que venham a investir no trabalho de pesquisa nas mais diversas áreas, com ênfase interdisciplinar, participando assim na formação e reciclagem periódica daqueles que se dedicam à docência e ao treinamento dos nossos pastores, missionários e demais obreiros. Partindo deste prisma precisamos encarar a educação teológica de forma mais ampla e como uma das dimensões, por sinal muito importante, da missão da igreja. Sendo assim, o investimento na área de treinamento missionário não pode ser deficitário. Deve ser tão valorizado quanto o investimento nas demais áreas. Caso contrário, poderá ser fatal para o curso da missão da igreja e para a saúde da educação teológica. 2. A missiologia como ponto de partida para a educação teológica: Sendo a educação teológica uma dimensão da missão da igreja, precisamos ver um pouco do papel e da importância que a missiologia ocupa dentro da educação teológica. A missiologia nada mais é, novamente citando as palavras de Orlando Costas, que o "braço intelectual da igreja em ação missionária".5 Em outras palavras poderíamos dizer que a missiologia é um estudo bíblico e sistemático a respeito de toda a ação missionária da igreja. Como tal, me parece que a missiologia precisa ocupar dois espaços principais dentro da educação

teológica: a) estar presente na filosofia, nas motivações e nas metas da educação teológica de nossas instituições. Nesse sentido, a missiologia pode e deve oferecer orientações à educação teológica, servindo como um fator de crescimento do trabalho da escola e, mais, oferecendo todo um pano de fundo bíblico-teológico para o assentamento das bases da educação teológica. Isso se toma muito importante por que a missiologia tem o poder de revitalizar a reflexão inter-disciplinar, a integralidade do ministério cristão e a contextualização da educação teológica dentro de nossas instituições de ensino cristão. Além disso, vários educadores teológicos na América Latina definem a educação teológica em termos missiológicos. 6 b) estar presente no currículo e nos estágios dos alunos. Nesse nível, a missiologia se destaca por sua função crítica dentro da teologia como um todo. Esse aspecto já foi bem destacado por David Bosch, quando disse que a missiologia gera "inquietação, um som de roçar de ossos secos, articulando a missão como sendo a consciência da igreja, uma vez que sempre questiona, destampa, escava, prova e inicia".7 Isso significa que a missiologia contribui para o pensamento teológico trazendo à tona novas questões para a agenda e para a reflexão teológica. Procura trazer e aplicar dentro das limitações de cada contexto específico as afirmações universais da teologia, permitindo que o estudante perceba as fronteiras que precisarão ser cruzadas para participar fielmente na missão de Deus em seu tempo e em seu espaço e se prepare adequadamente para isso. A presença da missiologia no currículo oferece a oportunidade de reação contra qualquer tipo de ênfase teológica que procura minimizar a importância do caráter missionário da fé cristã e da própria teologia. Oferece reação contra qualquer tipo de narrativa histórica que não traz à luz os rompimentos de fronteiras que não foram apenas geográficas, mas também culturais, sociais e religiosas durante todos estes séculos de cristianismo. Oferece reação contra qualquer tipo de teologia e atividades pastorais que não atingem com a graça de Deus o dia a dia do nosso povo, principalmente a parcela da população que mais sofre. Desta forma a missiologia é um fator de enriquecimento para a teologia, uma vez que a põe em contato direto com a igreja mundial em sua diversidade cultural e teológica. Após reconhecermos a importância da missiologia como ponto de partida para a educação teológica, resta-nos aqui, lamentar que dentro do movimento evangélico brasileiro a missiologia não tem conseguido espaço suficiente para realizar a sua tarefa junto à educação teológica. Algumas vezes, é simplesmente esquecida ou ridicularizada pelos que se intitulam "teólogos". Outras vezes, é utilizada de forma simplista, triunfalista e teologicamente superficial pelos que se intitulam "missiólogos". Precisamos investir muito em uma educação teológica que procure compreender e comunicar a fé cristã a partir do nosso contexto brasileiro atual. Para isso, é fundamental que todos nós, professores de missões, estejamos conscientes da "missão" que Deus tem nos dado e a cumpramos de forma íntegra e completa. Conclusão O nosso objetivo com esta exposição é o de abrir espaço para refletirmos sobre a necessidade de uma aproximação muito maior e mais estreita do que a que já existe entre o conceito de missão e a educação teológica, entre a missiologia e nossos seminários e institutos. Creio que é muito importante buscarmos um diálogo que seja sério,

comprometido com o reino de Deus e transformador entre estas partes. Talvez, a nível de sugestão para uma agenda de diálogo, poderíamos incluir alguns itens como: a) avaliação dos modelos e filosofias de educação teológica que temos adotado e utilizado; a busca madura de novos modelos que sejam mais coerentes com a realidade do nosso país, das nossas igrejas e de um conceito mais integral de ação missionária; b) avaliação dos nossos programas de treinamento pastoral e missionário, à luz desse conceito de missão e do que julgamos ser a ação de Deus neste momento histórico que vivemos como povo evangélico no Brasil; c) criação de programas inter-disciplinares de treinamento pastoral e missionário que possam ser úteis a diversas instituições teológicas e agências missionárias. d) desenvolvimento de programas de cooperação em diferentes áreas entre escolas, editoras, associações, professores e igrejas de forma humilde, responsável e não competitiva. DEUS NOS ABENÇOE! 1 Esta necessidade já foi observada e bem elaborada por B. H. BURNS, "O preparo para missões transculturais" in C. T. Carriker, Missões e a igreja brasileira, Vol 1, pp. 23-33. 2 Pessoalmente creio que estas deficiências já foram geradas. São muito pertinentes, quanto a isso, a análise desta situação feita por D. Brepohl, "A missão da igreja e a formação de líderes" in V. R. Steuernagel, A missão da igreja, pp. 144-146. 3 O. E. Costas, "Educación teológica y misión" in C. R. Padilla, Nuevas alternativas de educación teológica, p.10. 4 Estes objetivos da educação teológica são descritos por O. E. Costas, "Educación teológica y misión" in C. R. Padilla, Nuevas alternativas de educación teológica, p.12. 5 Costas, op. cit., p. 16. 6 Como exemplo cito o argentino Daniel S. Schipani, veja suas obras: El reino de Dios y el ministério educativo de la iglesia -fundamentos y principios de educación cristiana, San José, Editorial Caribe, 1983; Teología del ministério educativo - perspectivas latinoamericanas, Buenos Aires, Nueva Creación, 1993. 7 D. Bosch, "Theological Education in Missionary Perspective" in Missiology, Jan/1982, p.25.

A FORMAÇÃO ESCOLAR E OS VALORES DO OCIDENTE1 Miquéias 6.6-8 e Mateus 6.33 C. Timóteo Carriker Introdução A formação acadêmica traz consigo uma série de descargas emocionais. Provoca um reservatório de sentimentos: pelos pais, o orgulho e a alegria; pelos amigos, a felicidade, a esperança e, ou o orgulho ou a inveja; pelos formandos, o descanso do cansaço, a ansiedade ou inquietação quanto ao emprego, a sensação de liberdade e a consciência de que agora é a sua vez. Sem dúvida, representa uma transição na vida do formando. Formalmente, este se qualifica diante da sociedade como profissional a nível superior. Isto é conseqüente não só da aquisição de um volume grande de conhecimento e técnica, como também da aquisição ou da intensificação de toda uma série de valores— alguns bons, alguns, quem sabe, não tão bons—alguns de máxima importância, outros de importância relativa. Nós adquirimos estes valores, às vezes de modo muito sutil e inconsciente. Aprendemos ou da sociedade em geral, ou até mesmo dentro da comunidade da igreja e do seminário. É o tal chamado currículo oculto, aquele que não consta nos nossos regulamentos acadêmicos, mas que aprendemos dos nossos colegas nos corredores e nos quartos, ou mesmo observando o comportamento e procedimento dos nossos professores. Quero chamar atenção biblicamente para alguns destes valores e a sua relação uns com os outros na formação missionária. Ao meu ver, cristãos frequentemente se dividem não porque não compreendem quais são os principais valores da vida cristã, mas porque discordam sobre qual deveria ser a relação de prioridade entre estes valores. Meu pressuposto básico, portanto, é este: valores mal formulados ou até mal priorizados levam a uma visão distorcida do papel da igreja no mundo. Consideremos três valores de suma importância nas culturas ocidentais: o sucesso, a ordem e a competição. Comecemos com o valor do sucesso. O Sucesso Seria muito difícil, no momento da formatura, não estar pensando, mesmo que inconscientemente, sobre o sucesso e a nossa noção ligada a ele, o progresso. Os formandos certamente esperam ser os melhores missionários, pregadores e líderes cristãos e, semelhantemente, provavelmente esperam melhorar cada vez mais. Quem sabe, ser um missionário bem conhecido, com uma tremenda história a contar, um modelo para outros missionários. Desde pequenos, mas especialmente durante o período da nossa formação num curso superior, somos levados a desejar, como um fim em si, o sucesso. E este é definido de acordo com os critérios de ascensão profissional, títulos adquiridos, compensação financeira, prêmios, elogios, etc. O sucesso é tido como o progresso na vida e como o prestígio conseguido. Não me entendam mal. Não estou sugerindo que desejemos o fracasso, que não

nos esforcemos e nos desempenhemos bem no ministério. De fato, Paulo nos exorta para que procuremos nos apresentar a Deus, aprovados, como obreiros que não têm de que se envergonhar, e que manejam bem a palavra da verdade (lTm 2.15). Qual é o problema então? Creio que o problema está em como entendemos o sucesso. Há pelo menos duas definições comuns na cultura ocidental que entram em choque com o conceito bíblico do sucesso em termos de fidelidade e sacrifício. Na cultura ocidental o sucesso é avaliado em termos de prestígio e bom planejamento e marketing. O sucesso como prestígio. A compreensão do sucesso como sendo prestígio se baseia no seguinte raciocínio: somos "filhos do Rei" e temos uma mensagem gloriosa a anunciar. Já que Cristo venceu o inimigo, nós não podemos nos apresentar como perdedores. As nossas igrejas e as nossas vidas devem evidenciar a posição de poder e autoridade nos cedida em Cristo Jesus. Pois bem, como se pode imaginar, muitas destas afirmações são verdadeiras, ou integral ou parcialmente. O problema está com a ênfase e a aplicação. Como entendemos que somos filhos do Rei? Nossos programas se caracterizarão pela extravagância? Viajaremos sempre de primeira classe? Não admitiremos nem o fracasso e nem o erro? Ou seguiremos o padrão daquele que "não tem onde reclinar a cabeça" (Mt 8.20), que fez o seu desfile de coroação para Jerusalém nas costas de um jumento e recebeu a sua coroa com as suas jóias de espinhos encravados no crânio? Para o apóstolo Paulo não havia dúvida. Ele sabia que a sua pregação, pelos padrões seculares, era "babaquice", até mesmo loucura. Mesmo assim, este era o padrão que Deus ordenava (lCo 1.18-28). E isto se aplicava também à própria auto-estima de Paulo. Apesar da melhor formação teológica da época, e apesar de possuir o cobiçado título de "o apóstolo entre os gentios", o "Caio Fábio" do mundo mediterrâneo antigo, ele se considerava "o menor e mais indigno dos apóstolos" (lCo 15.9; Ef 3.8) e "o maior dos pecadores" (lTm 1.15). Deus manifesta a sua glória justamente através de uma mensagem que o mundo interpreta como frouxidão ou idiotice. É a mensagem da cruz e todo um estilo de vida e testemunho que a cruz exige. Enfrentamos o sofrimento, a privação e o escândalo porque através destes, Deus se revela. Ao invés de prestígio, o sucesso cristão se define por sacrifício. Talvez, estas palavras não pareçam como "boas novas" depois de alguns anos de muito esforço, tempo, e às vezes até condição de vida precária durante os estudos de bacharelado. No íntimo, os formandos devem almejar aquilo que aprendemos na nossa sociedade a almejar—um pouco de recompensa financeira para comprar uma nova roupa e quem sabe, eventualmente um carro; e um pouco de reconhecimento social—o elogio pela boa mensagem pregada e o ministério criativo executado. No fim das contas, como qualquer um que completa o seu curso de bacharel, querem o conforto, o poder, o prestígio, enfim, o sucesso material e social. Mas, ao ingressar na vida cristã, já assumiram um compromisso contínuo de "tomar a sua cruz" e seguir a Cristo. Isto é o caminho cristão. O sucesso como bom planejamento e marketing. Nossa cultura entende que o sucesso também depende, em parte de sorte, mas grandemente de bom planejamento e marketing. Devemos fazer uma boa sondagem do mercado, identificar aquilo que nosso público alvo deseja e planejar minuciosamente, passo a passo, a nossa estratégia para vender o produto ou a idéia àquele público. A nossa mensagem deve ser bem pensada e

esteticamente executada. Isto é, os programas da nossa igreja darão certo à medida que criemos atrações e novidades bem pensadas para cativar as pessoas. Falta-nos principalmente técnica. Precisamos alcançar pessoas de influência na sociedade, especialmente políticos, médicos, e outros profissionais liberais de recursos financeiros e status social. Mais uma vez, não podemos simples e taxativamente descartar a perspectiva que acabo de delinear. Aliás, aposto que muitas das disciplinas que os formandos completam têm como pressuposto o bom planejamento e o marketing. O planejamento e a estratégia, em si, não são maus. Devem ser aproveitados. Certamente Cristo ama também os ricos e os poderosos. Ama todos os pecadores. De novo, o problema está na ênfase e na prioridade de valores. Isto é, o bom planejamento e o marketing, por mais úteis que sejam, não são os critérios últimos para sustentar o sucesso ou o desempenho no serviço cristão. Antes disto, procuremos a fidelidade à Palavra orientadora de Deus e a dependência do mover do Espírito Santo. Ao resumir a sua estratégia de ministério, Paulo disse que ministrava "por palavra e por obras"—isto é, pelo esforço próprio e pelo bom planejamento—e "por força de sinais e prodígios, pelo poder do Espírito Santo" (Rm 15.18-19). Em Atos aprendemos que a sua entrada para a Europa não era fruto do seu planejamento, mas conseqüência de um simples sonho (16.6-10)! Aliás o plano de Paulo não era de ir para a Macedônia, mas Deus tinha outros planos. Não me entendam mal. Toda disciplina aprendida, que pressupõe o planejamento, pode ser útil. Sou a última pessoa para advogar o ministério fortuito. Porém, o bom planejamento e o marketing como o único ou o principal critério de ministério é fruto da síndrome do sucesso mundano e precisa ceder lugar ao valor maior da dependência do Espírito e fidelidade à Palavra de Deus. A Ordem O segundo valor que ocupa preeminência no ocidente é o valor da ordem. Aprendemos durante toda a nossa vida, e especialmente como pressuposto dos estudos de bacharelado, que a ordem é, na sua essência, uma qualidade de vida benéfica enquanto o caos é, na sua essência, maléfico. Sempre estamos ordenando a vida—os estudos, a pesquisa, nosso horário, e o nosso orçamento financeiro. E ai de nós no final do semestre se não o fizermos! Quase todas as mitologias da antiguidade relatam a criação como uma luta entre a ordem e o caos, dois conceitos centrais para os babilônios, os assírios, os egípcios, e até para nós os ocidentais modernos. A religião, para estas culturas, é uma questão da ordenação e regulamentação do ciclo da vida. Através da ordem deste ciclo, a fertilização e a colheita dos campos são garantidas e os deuses apaziguados. Na religião judaica a noção era um pouco diferente. Embora a ordem fosse uma qualidade desejada, não era enquadrada como um valor supremo. Antes da luta humana e cósmica da ordem contra a desordem, importava que vencesse a justiça contra a injustiça. Era mais importante que a justiça social e a retidão pessoal (os dois estavam juntos embutidos no mesmo conceito de justiça na língua hebraica) superasse a injustiça social e a imoralidade, que a ordem superasse a desordem. Inclusive, diversas vezes na história de Israel, o próprio Deus provoca desordem a fim de restabelecer a justiça entre o seu povo (Ez 5.14). Jesus deixou claro que a conseqüência da sua vinda não era necessariamente a paz ou a ordem, mas a espada, isto é, o conflito, a violência e o caos

(Mt 10.34). Infelizmente, no Ocidente frequentemente a luta da ordem contra o caos é mais importante que a luta da justiça contra a injustiça. Nas nossas novelas e filmes de televisão, vez após outra, vemos o nosso herói transgredir os princípios de justiça para pegar o criminoso de qualquer jeito e assim restabelecer a ordem. Na economia nacional, apela-se constantemente para princípios de ordem e "estabilidade" antes de princípios da justiça de Deus para todos os povos e para todas as classes. Na política, nas últimas duas décadas, a expressão talvez mais sinistra da supremacia pela ordem antes da justiça foi a elaboração da "doutrina" da segurança nacional. Isto é, em nome do Estado (lê-se ditadura), os direitos humanos são deixados de lado para dar lugar ao bem maior da estabilidade do Estado em termos de poder total de governantes não representantes do povo. A ordem e a estabilidade são importantes para o bem estar de pessoas e de sociedades. Mas a justiça diante de Deus e diante do seu próximo são valores maiores ainda para a propagação do reino de Deus. "Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas cousas vos serão acrescentadas" (Mt 6.33, Mq 6.6-8). As nossas vidas pessoais, os ministérios e programas da igreja, e até mesmo nossas decisões como membros da sociedade maior, devem ser fundados no princípio de que antes de mais nada, a justiça social e a retidão moral têm prioridade sobre outras questões que apelam para uma ordem e uma estabilidade maior. "A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo" (Tg 1.27). Aliás, a injustiça e a imoralidade sempre foram o "tendão de Aquiles" para o povo de Deus no Antigo Testamento. A verdadeira espiritualidade não é aquele jejum "sagrado" com orações de belas palavras perfumadas, mas é um estilo de vida cotidiano e concreto que reflete o caráter justo de Deus em relação ao seu próximo (Is 58.5-7). A Competição Um outro valor básico à nossa visão do mundo ocidental se refere à competição. Não há como escapar da competição na nossa formação na cultura ocidental. Todo o sistema escolar pressupõe a competição e o mesmo ocorre na vida profissional. Quem não entrar no jogo e conseguir competir bem no mundo secular, se dá mal. Este valor infiltra aberta ou sutilmente a vida da igreja, quer queiramos quer não, e vai de encontro ao princípio bíblico da unidade. E deste encontro surgem três confusões comuns e populares na igreja: primeiro, que a competição inter-eclesiástica é essencialmente boa; segundo, que deve se distinguir entre a unidade "visível" e a "invisível"; e terceiro, que basta haver a unidade estrutural. Vamos ver um pouco mais cada um destes conceitos. A primeira confusão é que a competição entre as igrejas é essencialmente boa. Entende-se que a igreja também precisa competir doutrinária, evangelística e estruturalmente. Afirma-se que a unidade organizacional não é importante. Acha-se que é até prejudicial. Esta posição frequentemente procura se firmar na história, já que o embasamento bíblico é bastante difícil. A história, entretanto é ambígua e a sua interpretação geralmente seletiva e até interesseira. Precisamos da ousadia reformada que insiste em "sola scriptura". Certamente a oração sacerdotal nos é instrutiva: "Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim,

por intermédio da sua palavra; a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos; eu neles e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste, e os amaste como também amaste a mim" (Jo 17.20-23). Logo no início da história da igreja a importância da unidade foi reconhecida. Uma das quatro marcas da igreja se referia a isto (ecclesia una, sancta, católica, apostólica). Não é uma qualidade apenas incidental e dispensável. Faz parte da essência da igreja. E isto deve ser visto pelo mundo, se não, não haverá testemunho. A unidade deve ter expressão em todos os níveis da vida da missão da igreja—na nossa comunhão uns com os outros dentro da comunidade local, na nossa cooperação com programas da convenção e na nossa colaboração com outros grupos cristãos na cidade e no país. Mas contra este apelo para cooperação vem uma segunda confusão: a distinção entre a unidade espiritual da igreja "invisível" e a separação organizacional da igreja "visível". A doutrina da "igreja invisível" é muito útil e vem desde o início da história da igreja (Clemente, Hermas, Irineu, Orígenes). Era uma distinção entre o ideal e o real no Período Constantino, e até certo ponto, hoje. É bom lembrar, porém, que a distinção tem os seus limites. Em termos concretos, observamos que nenhuma das cartas neotestamentárias foi dirigida a uma igreja invisível! Tal conceito seria inimaginável para os primeiros apóstolos. Quando tinham uma queixa contra algum(ns) membro(s) da igreja, os apóstolos brigavam, mas não deixavam de incluir aquelas pessoas dentro do conceito da igreja visível de carne e osso que se reunia em tal endereço na casa de fulano. Estabelecer uma distinção entre a igreja visível e a igreja invisível seria tão absurdo quanto a distinção entre um casamento visível e um invisível de duas pessoas, e baseado em tal distinção, alegar que o casal não necessita da vida íntima porque isto seria enfatizar demais o casamento visível. Mas tudo isto não significa, que para haver unidade, basta haver a unidade estrutural. Isto seria uma terceira confusão. Pois a unidade é também espiritual (como um bom casamento o deve ser). Somos unidos no Espírito, no Senhor. Paulo, falando desta unidade, disse: "Não sabeis que sois santuário de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? (lCo 3.16) e mais tarde na mesma carta: “pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito” (lCo 12.13). Nós só podemos expressar nossa unidade porque o Espírito Santo habita em nós coletivamente como igreja. Aliás, é esta habitação que exige a expressão visível, ao máximo possível, da nossa unidade. Pois o testemunho do evangelho por toda a terra está em jogo. Muitos, mas muitos mesmo, não crêem por falta da unidade, que o Cristo que proclamamos, disse ser conseqüência da fé. A nossa incoerência divisória e visível fala mais alto que nossa suposta unidade invisível! Conclusão Temos observado três valores da cultura ocidental e a sua expressão no meio cristão. O desafio agora está conosco. Simplesmente assimilaremos tais valores criando uma fachada evangélica por cima deles, ou seremos sal e luz, desafiando-os, até invertendo-os quando necessário, para redimir estes valores para o reino de Deus?

Contra a definição do sucesso em termos de prestígio e sua implementação pelo bom planejamento e marketing, afirmamos que o nosso desempenho no ministério cristão se orienta pelos princípios da fidelidade à Palavra de Deus e à dependência do Espírito Santo. Contra a prioridade da ordem sobre a justiça, ressaltamos a primazia bíblica da justiça, tanto em termos pessoais quanto em termos sociais. A justiça é uma das principais características do povo de Deus, pois assim reflete o caráter de Deus para o mundo. E contra a competição no mercado religioso livre, advogamos a unidade do modo mais claro e visível possível, a fim de que o mundo creia. Queremos ser antes uma contribuição para uma resposta positiva à oração de Jesus pela nossa unidade, que um impedimento àquela oração. Finalmente, um alerta. Estamos tratando de valores centrais à fé cristã, não questões incidentais e periféricas. Seria um grande erro relegar tudo isto a uma importância marginal. Não minimizemos o ministério da igreja ao invertermos as prioridades bíblicas. Não neguemos um lugar na vida cristã para o sucesso, a ordem e a competição. Entretanto, antes a fidelidade e dependência que o sucesso; antes a justiça que a ordem, antes a unidade que a competição.

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Uma versão desta reflexão foi pregada em dezembro de 1994 na formatura dos bacharéis do Seminário Batista Independente, em Campinas, SP.

O ESTUDO DE CASOS NA EDUCAÇÃO MISSIOLÓGICA Barbara Helen Burns O estudo de casos na educação missiológica é um instrumento pedagógico eficaz, quando bem aplicado. Um dos problemas comuns, na educação teológica e missiológica, é a teorização do conhecimento. Se torna mera teoria, pontos decorados e conceitos sem ligação com a realidade da vida do aluno ou a atualidade nos campos missionários. O uso de casos ajuda o aluno a raciocinar por si mesmo e a aplicar princípios em situações concretas. Ajuda a fazer um elo entre a teoria e a prática, chegando às conclusões pelo processo indutivo. "Wayne Dye escreve que os missionários mais efetivos são os que ensinam os novos convertidos como pesquisar e aplicar as Escrituras às suas próprias vidas, não os que ensinam a obedecer ao missionário."1 Casos são usados para facilitar discussão sobre questões e problemas comuns que missionários enfrentam. O instrumento de estudar casos ajuda a construir pontes sobre o espaço entre teoria e prática e como enfrentar os problemas diários. Paul Hiebert, no seu livro Case Studies in Missions (Baker Book House, 1987), explica que no meio de uma vasta literatura sobre a teoria missiológica nos últimos anos, há muito pouco sobre problemas comuns da vida cotidiana do missionário. Onde morar? Devem ter carro? Devem pagar "gorjetas" para oficiais do governo? Onde os filhos devem estudar? Que é que a Bíblia fala sobre estas coisas? Como fazer o Evangelho relevante em nossa época e nossa cultura? O trabalho em grupo ajuda a definir estes problemas comuns. Cada um pode falar e ouvir a colocação do outro; deve aprender a avaliar a sua própria posição, criticar com carinho as outras opiniões e aprender a chegar às conclusões práticas em conjunto. O grupo vai descobrir os fatos, as questões e temas na história para que possa ter interação e aprendizado mútuo. O objetivo do uso de casos não é aprender soluções, é aprender o processo de como chegar às conclusões. Hiebert nos lembra no final do prefácio, que este método não é tudo no preparo missionário. Necessita de fundamentos bíblicos e missiológicos em primeiro lugar. O missionário que vai ao campo sem profundo conhecimento bíblico missiológico, será lançado à mercê das ondas de problemas que ele não sabe resolver, sem noção de onde começar ou como chegar às soluções certas. O estudo de caso sem este fundamento só reforça a confusão. Porém, com fundamento bíblico e missiológico, ajuda a aplicar verdades da maneira correta. Para Hiebert necessitamos de um método hermenêutico útil para enfrentar as diferenças culturais e históricas, enquanto preservamos os absolutos teológicos. O primeiro requisito da hermenêutica bíblica é o reconhecimento da autoridade das Escrituras e um conhecimento completo dos seus ensinos. Esta ultima envolve exegese cuidadosa da mensagem bíblica dentro do seu próprio contexto cultural e histórico. Temos que saber como Deus falou às pessoas específicas no verdadeiro

contexto das suas vidas. O que foi que Ele falou? Como tratou do seu passado ou presente cheio de pecado? Como esperou que Seu povo fosse relacionar-se com as suas sociedades e as outras que o cercaram? Como os dirigiu? A Bíblia está cheia de evidência da interação de Deus com seres humanos em situações verdadeiras. Estes casos são mais que ilustrações de como Deus age na história. São colocações definitivas sobre a natureza de Deus, dos homens, do pecado e da salvação, e da vida cristã num mundo dominado pelo mal. São o paradigma pelo qual temos que entender nossa próprias vidas. Em hermenêutica, não há substituto para o conhecimento profundo das Escrituras.2 Hiebert contínua mostrando que somente conhecimento bíblico não é suficiente. Temos que também conhecer as realidades do presente. Temos que fazer uma exegese dos contextos contemporâneos, e para o missionário, do contexto do povo receptor do Evangelho. Não deve haver um exagero nesta direção, pois, infelizmente, muitos hoje dependem somente do conhecimento cultural para seu entendimento e comunicação do Evangelho. "Se a experiência contemporânea é a única base de entendimento do evangelho, somos deixados com um relativismo ético e teológico em que o Cristianismo se torna uma religião civil que justifica práticas culturais."3 A hermenêutica bíblica tem que começar com as Escrituras, que julgam todas as culturas - afirmando aquilo que é bom e condenando aquilo que é mau. Tal hermenêutica deve continuar com um conhecimento dessas culturas, pois somente então vamos saber o que está sendo julgado. Finalmente, a avaliação bíblica de cada situação humana deve ser comunicada àqueles naquela situação para que possam ouvir e responder. Só então a tarefa hermenêutica será finalizada. Não deve haver individualismo nesse processo hermenêutico. Para se proteger contra o particularismo, o relativismo teológico e distorções das verdades bíblicas, o crente, e o missionário em especial, precisa de humildade e perseverança em conhecer a própria Bíblia, com dependência no Espírito Santo em esclarecer as suas grandes doutrinas e ensinamentos. Também precisamos da Igreja, uns dos outros para testar as nossas interpretações. Fazemos parte de um grupo que se estende até onde existem igrejas, e até o início da história do Cristianismo. Em outras palavras, abordamos o assunto de estudos de casos com uma forte advertência da necessidade de seguir diretrizes fora de nós mesmos: a Bíblia interpretada com a iluminação do Espírito dentro da comunidade da Igreja de Deus. Existem alguns princípios que podem facilitar o uso de casos. Este método traz à tona pressupostos e conceitos muitas vezes inconscientes da parte do aluno e do professor. Se não há um meio de definir e reconhecer estes pressupostos, o trabalho com casos será um verdadeiro "caos". Se não tiver alguns princípios direcionando o estudo, as conclusões poderão ser distorcidas pela emoção ou pressão do momento. Alguns destes princípios são: 1. O professor deve reconhecer que é um árbitro que ajuda o prosseguimento do estudo pelas boas perguntas (qual é o problema? quem são as pessoas? quais as questões envolvidas?) e encorajamento para a boa direção da conversa. Deve pedir justificativas das idéias quando necessário, e evitar discussões sem rumo. 2. O caso deve ser baseado em princípios que serão o fundamento do raciocínio. O caso não deve ser simplesmente lançado, sem ter dado bases sobre as quais o aluno vai

construir seu argumento. Deve ser bem fundamentado em conceitos que o aluno aprendeu e conhece bem, para ele poder ser coerente nas suas conclusões. Hiebert enfatiza: ". . . os participantes são encorajados a buscar uma solução bíblica para os problemas debaixo da direção do Espírito Santo."4 Não deve depender das soluções seculares. 3. A situação apresentada no caso deve ser bem definida e compreendida pelo aluno. O caso deve ser entregue com antecedência, para que o aluno tenha tempo de refletir sobre a situação, trazendo para o grupo suas conclusões. 4. O caso pode ser inventado, mas deve ser o mais perto da verdade possível. (É melhor se for uma situação real.) Nunca usar casos verídicos com os nomes e lugares citados. (O estudo de casos não é fofoca!) O caso deve ser escrito em termos objetivos, sem avaliações (por exemplo: "os filhos falaram que era bom pai" e não "era um bom pai"). O contexto da situação deve ser bem explicado, depois o problema central e o desenvolvimento do caso. No final o escritor deve repetir o problema central.5 5. O problema central do caso não deve ter uma solução bíblica clara; se tiver, então é obediência que está envolvida, e não o descobrimento de algo que é um tanto obscuro. 6. O aluno não deve sentir que há apenas uma solução para este caso, e é a solução do professor. Ele deve sentir liberdade de ser criativo, dentro do limite de ser coerente com os princípios básicos. 7. Deve haver uma análise em quatro estágios: (a) a listagem em ordem cronológica dos eventos; (b) a identificação e compreensão cultural dos personagens envolvidos; (c) a discussão sobre as maiores e menores questões envolvidas para criar uma solução; (d) quais são os princípios bíblicos relacionados com o problema e as soluções; (e) o exame de várias soluções, dando atenção especial de como discernir a vontade de Deus quando fazemos decisões. 8. Todos os participantes devem ter plena liberdade de participação, sem o domínio de uma pessoa ou um grupo. 9. Os participantes devem sentir liberdade de manter suas convicções, sem que sejam marginalizados pelos outros, ao mesmo tempo prontos a mudar suas idéias à luz de novas informações ou esclarecimentos. 10. No final, deve haver tempo e oportunidade de resolver quaisquer sentimentos de tristeza, hostilidade ou divisão que ocorreu durante a discussão. O líder deve ajudar o grupo a tomar distância do caso e analisar também a dinâmica que ocorreu. Será necessário, no campo missionário, trabalhar com outros na solução de problemas e traçar estratégias. O estudo de caso é uma oportunidade de experimentar a maneira certa de fazer isso. 11. O tempo deve ser suficiente para que haja liberdade no desenvolvimento do argumento e conversa sobre as conclusões e a dinâmica da aula. Gostaria de compartilhar um exemplo que utilizo com meus alunos. Começo o estudo de missões baseado na carta de Efésios com um caso. É bem simples, mas fornece vários pontos de interesse e de discussão. As definições dos problemas são baseadas em Efésios; as soluções têm que ser coerentes também com o texto de Efésios. O caso é o seguinte: Uma família de missionários trabalhou entre uma tribo indígena na Indonésia por sete anos. A esposa começou a queixar-se nas cartas para sua família no Brasil que estava muito deprimida e que seu marido nunca parava em casa. Os três filhos do casal estavam passando dificuldades também em relação ao pai. Ele alegava

que não tinha mais tempo para a sua família devido o muito trabalho com uma igreja e cinco pontos de pregação. A igreja tinha crescido e ele estava sobrecarregado pregando nos cultos na igreja central e nos pontos de pregação. Era o único missionário e não tinha com quem dividir as responsabilidades. Perguntas: 1. Quem são as pessoas? (Missionário super-ocupado, esposa deprimida e filhos problemáticos. Estão num campo missionário por sete anos e o trabalho está produzindo fruto.) 2. Qual é o problema central (baseado em Efésios)? (Problema central: o missionário não faz discípulos e não confia responsabilidades aos crentes na igreja. Ele faz tudo sozinho. Ef 1.22-23; 2.11-22; 3.21; 4.1-16; 6.21-22, etc. mostram a necessidade de trabalhar em equipe, de saber que o Espírito trabalha em cada um, que ele é pecador perdoado do mesmo jeito que eles, que Deus usa a igreja e que Paulo é um exemplo de um missionário que logo confiou responsabilidades aos novos convertidos.) 3. Quais os outros problemas? (Falta de amor para com a esposa, falha na criação dos filhos dentro da vontade de Deus, etc. [Ef. 5.21-33].) 4. Quais as questões relacionadas ao caso? (Como fazer o discipulado, qual a natureza da Igreja, qual é o certo em relacionamentos familiares, como decidir sobre a divisão entre trabalho e família, etc.?) 5. Como solucionar os problemas? (Liberdade de idéias, voltando sempre para Efésios). Se o grupo é grande, seria bom dividir em grupos menores (de preferência de 4 a 5 pessoas cada grupo) para tentar chegar às soluções. O professor pode transitar entre os grupos para ajudá-los. Depois deve deixar bastante tempo para discussão em plenário e a reflexão sobre a dinâmica do processo, ajudando os alunos a avaliar suas idéias e consertar quaisquer problemas que tenham surgido entre eles. Assim o trabalho com casos pode ser de grande benefício, reforçando e concretizando conceitos abstratos. Em nosso meio, a Palavra de Deus é muito respeitada, e como Caio Fábio diz, pouco lida! Na mente de muitos, os ensinamentos da Palavra são apenas para o passado. Podemos usar a instrumentalidade de casos para trazer a verdade da Palavra para nossas vidas e nosso trabalho. Com a ajuda do Espírito Santo devemos tentar de todos os meios, levar o aluno a aplicar, com submissão, temor e amor, a Palavra de Deus. 1 Paul Hiebert. Case Studies in Missions (Baker Book House, 1987), p. 19. 2 Ibid, p. 16. 3 Ibid. 4 Ibid, p. 17. 5 Ibid, p. 19. 6 Ibid, p. 263.

PARADIGMAS EM COMPETIÇÃO NA EDUCAÇÃO TEOLÓGICA ATUAL Graham Cheesman Neste artigo o autor discute cinco modelos de educação teológica no treinamento de pessoas para o ministério na complexa sociedade dos dias de hoje, seja ela Ocidental ou do Terceiro Mundo. Ele defende um equilíbrio integrado das áreas acadêmica, espiritual e prática do treinamento e apela por um melhor entendimento entre as escolas teológicas e denominacionais e as que pertencem ao Movimento da Escola Bíblica. Editor da Evangelical Review of Theology A educação teológica atual é complexa, diversificada e muitas vezes insegura. A crítica das igrejas e das sociedades missionárias é aberta, e alguns manifestam seu descontentamento através do abandono, iniciando outros programas que só envolvem em parte as tradicionais "torres de marfim" ou "fábricas de embutidos teológicos". 1 Os cristãos do mundo dos "dois-terços" estão repensando radicalmente a estrutura e o conteúdo da educação teológica que receberam da mão dos missionários.2 Educadores teológicos necessitam urgentemente de um novo entendimento, um modelo teórico atualizado que lhes permita agradecer a Deus pela utilidade de seu chamamento, mas que também os libere para incorporar as mudanças necessárias nas novas situações do mundo e da Igreja. A educação teológica atual é, obviamente, um monstro. Sistemas e atitudes do passado convivem desconfortavelmente com conceituações modernas da tarefa. Até o termo 'Educação Teológica' carrega conceitos errados, porque as duas palavras, teologia e educação, foram restritas em seus campos de significado no século XX. A teologia se tornou para nós um grupo de disciplinas científicas que pode existir sem o amor e a experiência com Deus. A educação geralmente é tomada como sinônimo de estudo e academicismo, ao invés de um amadurecimento da pessoa, auxiliado pela aprendizagem.3 Quero analisar a tarefa, utilizando os paradigmas ou modelos dominantes. Esta ferramenta foi utilizada com um grande efeito na teologia por Avery Dulles e Hans Kung e em missiologia por David Bosch, todos seguindo o trabalho de Thomas Kuhn nas ciências naturais.4 Não usarei a palavra paradigma no seu sentido técnico completo de Kuhn (embora exista o comentário de que ele próprio usa a palavra com pelo menos vinte e dois sentidos diferentes).5 No contexto deste trabalho, um paradigma é um modelo de interpretação da tarefa da educação teológica, que tenha se tornado dominante em uma época ou cultura em particular, e que hoje esteja competindo por importância com outros modelos histórico-culturais, quando procuramos compreender a natureza da educação teológica atual. Embora esta abordagem não nos habilite para contar árvores, ela pode, mais modestamente, porém mais fundamentalmente, nos ajudar a distinguir o verdadeiro formato da floresta.

O Paradigma Acadêmico No Modelo Acadêmico, a educação teológica como treinamento da mente é colocado em primeiro lugar, não porque seja historicamente anterior, mas porque hoje em dia domina a Educação Teológica. As grandes universidades foram fundadas nos séculos XII e XIII, e rapidamente se tornaram o local onde se desenvolvia o trabalho e o treinamento teológico. A teologia se tornou uma ciência da universidade Aristotélica, graças a Aquinas, por exemplo. A seguir, com o Iluminismo, que edificou sobre as bases lançadas pela Renascença, houve uma grande mudança na teologia. Ela se desvinculou da autoridade (seja das Escrituras, ou da Igreja) e se tomou uma área de inquirição, sujeita às mesmas regras de evidência que outras. Não que a teologia tenha continuado a existir como um conceito unitário. Ela foi subdividida em disciplinas independentes, geralmente em quatro: estudos Bíblicos, dogmática, história da Igreja e teologia prática, e cada uma destas disciplinas foi rapidamente institucionalizada socialmente, com conferências de especialistas, publicações e sociedades. 6 Muito do que se fez foi para o bem. Um desejo de demonstrar que o estudo da religião revelada pode e deve ser academicamente rigoroso deve ser bem recebido. Nada mais é que completar o ato de adoração; um amar ao Senhor teu Deus de toda tua mente. À medida que penetra em nossas igrejas, vai nos ajudar a amadurecer, livrando-nos de um uso inapropriado e superficial do texto bíblico como base para nossas vidas espirituais e suprindo uma plataforma sólida para a espiritualidade, na verdadeira teologia e no verdadeiro conhecimento bíblico. O estudo acadêmico também capacita para missões. Uma das maiores tarefas missionárias hoje é o combate às pressuposições seculares e pluralistas da cultura Ocidental. A excelência acadêmica nos capacita a deixar o passado, para entender e confrontar o mundo como ele é hoje. Além disso, com a transformação da teologia em uma disciplina acadêmica, ela dissolveu os limites denominacionais e contribuiu para a unidade da Igreja. Entretanto, o paradigma acadêmico também tem uma influência negativa sobre a educação teológica. Foi um conceito de conhecimento, se movendo na órbita das idéias e da razão, que formou as universidades na idade média e re-escreveu o significado da teologia. E, com o passar do tempo na cultura Ocidental, o conhecimento está cada vez mais associado à informação. Não somente isso, mas hoje em dia nossa cultura, altamente competitiva, mede o sucesso no preparo para uma vida de trabalho pelo desenvolvimento educacional da pessoa. Quando permitimos que nosso treinamento fosse dominado pelo ensino, deixamos que a cultura dominante ditasse nosso método. Embora a educação teológica deva ser compatível até certo ponto com a cultura a que serve, não existe um mandato para que lhe seja subserviente. Ela também deve servir à Igreja de Deus e às suas necessidades. A atitude bíblica com relação ao conhecimento é mais ampla, mais holística e frequentemente envolve um relacionamento. 7 A teologia não pode ser apenas uma disciplina universitária. Deve falar sobre o relacionamento entre o estudante e Deus. Uma das tragédias da educação teológica moderna é que este modelo, apenas em parte justificável na sociedade Ocidental, foi exportado para o resto do mundo, através da fundação de faculdades no mundo dos dois - terços e do intercâmbio, muitas vezes

imprudente, entre essas faculdades e instituições Ocidentais. O status destas faculdades, muitas vezes, se toma dependente da excelência acadêmica, nos seminários ou universidades Ocidentais. Um outro problema com o modelo acadêmico é que ele geralmente projeta o educador primariamente como um discursista. Assim, o discursista se torna o modelo para o aspirante servo de Deus. O aluno, então, entra para o ministério, vendo a tarefa primariamente como uma tarefa cerebral. A atitude do discursista que reclama 'Gostaria de ter mais algumas palestras, para poder lidar com o tema da santidade apropriadamente' se torna a atitude do ministro que supõe que a tarefa esteja acabada depois de um bom sermão sobre Romanos 6. Ainda outro problema, criado muitas vezes, mas não necessariamente, pelo modelo acadêmico, é o dos pré-requisitos para o ingresso. Se o crescimento do interesse acadêmico não for acompanhado de um comprometimento igual com aqueles que não são bem sucedidos academicamente, então as faculdades entrarão para o reino do esnobismo intelectual. Tal atitude nega o treinamento a muitos servos úteis de Deus. Alternativamente, as faculdades abraçarão aqueles que não forem bem sucedidos academicamente, só para fazê-los passar pelas agonias das pressões e autoquestionamentos, ao tentarem acompanhar as exigências acadêmicas. Muitos educadores sabem que este é um dos maiores problemas da educação teológica hoje. O modelo acadêmico é inadequado para descrever a tarefa da educação teológica. Ele fortalece apenas um fator na utilidade última do servo de Deus. Muitos cristãos maduros foram capazes de transtornar seu canto do mundo, sem nunca terem experimentado a teologia acadêmica. Não obstante, no que tem de melhor, o paradigma acadêmico ensina tanto conhecimento quanto a habilidade de pensar. Com a ajuda do Espírito, pode ser um fator importante na produção não somente de teólogos, mas de teólogos obedientes, de teologia aplicada, e de um conhecimento das Escrituras que se desenvolve em amor. O Paradigma Monástico O que designo com este termo é a educação teológica através de uma comunidade firmemente estruturada, com o objetivo primário de promover o desenvolvimento espiritual das pessoas. Os monastérios se preocuparam com a educação teológica praticamente desde o princípio, tanto as instituições irlandesas quanto, depois, as inglesas, que encabeçaram o movimento nos séculos VII, VIII e IX. Mais recentemente, este modelo reapareceu no treinamento cristão com o crescimento das faculdades bíblicas, sendo uma reação ao paradigma acadêmico. A diferença entre o antigo paradigma monástico e o início do movimento das faculdades bíblicas foi que, se por um lado o monasticismo se tornou bipolar, criando santos e estudiosos, as primeiras faculdades bíblicas não se preocuparam cora os estudos em profundidade. Isto tem mudado com o amadurecimento do conceito, e desde a Segunda Guerra Mundial, a preocupação com o rigor acadêmico tem crescido sistematicamente nas faculdades bíblicas. Pode-se dizer que o movimento das faculdades bíblicas começou quando H. Grattan Guiness fundou o Instituto de Missões Nacionais e Estrangeiras do Leste de Londres (East London Institute for Home and Foreign Missions) em 1877, instigado por Hudson Taylor.8 Desde então, o movimento de faculdades bíblicas tem sido uma

ferramenta notavelmente adaptável e útil. O movimento começou no Reino Unido e nos Estados Unidos, com quatro preocupações principais: treinar obreiros cristãos sem a influência 'corruptora' das universidades ou das faculdades denominacionais, preparar missionários não-ordenados, treinar leigos para testemunhar, e enfatizar o desenvolvimento espiritual como a chave para se equipar obreiros cristãos9 Edgar Lee diz claramente:
A intenção original do movimento Bíblico foi de treinar homens e mulheres para o serviço cristão num ambiente espiritual agradável. 10

Ele também cita William Menzies falando da Faculdade Bíblica Central (Central Bible College):
O clima da escola foi planejado de modo a produzir um ambiente intensamente espiritual, um ambiente criado pela programação de numerosas reuniões de oração e cultos durante a semana. O centro de gravidade era o desenvolvimento espiritual ao invés da excelência acadêmica. 11

Entretanto, as faculdades bíblicas nos dias de hoje são o produto de cem anos de evolução, e, portanto, as linhas divisórias entre elas e muitas faculdades denominacionais já não são claras.12 O desenvolvimento espiritual foi assinalado como primeiro objetivo, pelas faculdades (bíblicas e denominacionais) que participaram da pesquisa no Reino Unido, realizada por Bunting em 199013 e não é difícil se entender o porquê. A maior qualificação para o serviço cristão é o relacionamento de uma pessoa com Deus. Isto permeia todos os aspectos da vida e do trabalho, e quando ele está ausente um grande dano é provocado. 14 Biblicamente, é a base para o entendimento e, portanto, de todo estudo bíblico e teológico. 15 O velho wesleyano tinha razão quando, depois de ouvir um pregador calvinista não muito gentil, virou-se para seu amigo e disse, "Gostaria que o coração dele fosse tão mole quanto a cabeça". Além disso, é dentro da comunidade que tal crescimento deve ocorrer para os cristãos. A comunidade é um padrão de educação teológica que provém da natureza da Igreja. A faculdade ou seminário não é igreja, mas parte da Igreja, de tal modo que o conceito de ministério mútuo do corpo de Cristo se aplica. Tal comunidade intensa de professores, alunos, funcionários e suas famílias 16 é frequentemente o aspecto da educação teológica que é lembrado pelos estudantes, como de maior impacto sobre sua vida. Talvez seja a ferramenta mais poderosa da educação teológica. Porém, embora o desenvolvimento espiritual seja amplamente reconhecido como a maior prioridade da educação teológica, quase sempre isso não passa de um desejo que não se reflete nas políticas implementadas. As estruturas de assistência pastoral na comunidade são geralmente dominadas pela agenda acadêmica. O espaço para o crescimento é invadido pelo horário para escrever os trabalhos. Além disso, a idade crescente dos estudantes em alguns países acarreta a maior possibilidade de haver esposo (a) e filhos, e isto aumenta a dificuldade de integração do aluno na comunidade. Aos olhos dos educadores orientados pelo modelo ocidental, tanto o desenvolvimento espiritual quanto o ambiente da comunidade sofrem de uma falta de definição precisa. A vida espiritual e comunitária da faculdade envolve um compromisso com o Senhor e com a tarefa de amar uns aos outros, com uma atitude aberta e apreciação da comunhão, com uma vida de devoção e oração corporativas que tenha realidade. Tais assuntos não são fáceis de quantificar estatisticamente para se prestar um relatório de fim de ano.

A maior desvantagem é que o ambiente criado, quando este modelo predomina, é artificial. Tem pouca correspondência com o mundo de serviço que os alunos eventualmente irão adentrar. O serviço futuro deve direcionar e injetar realidade na sala de aula e na comunidade. No entanto, este modelo é subestimado hoje em dia. Pode ser que algumas alternativas ao treinamento na faculdade ou no seminário não parecessem tão atraentes, se estas instituições não houvessem permitido que o pêndulo se movesse para tão longe do espiritual/pastoral em direção ao acadêmico. Se a faculdade é vista simplesmente como o lugar onde se adquire conhecimento, então há muitos sistemas alternativos mais fáceis onde fazê-lo. O Paradigma do Treinamento A educação teológica como treinamento para o serviço é um modelo orientado para uma tarefa. Justifica-se pela visão do ministério ou do serviço missionário como uma profissão. Surgiu originalmente no seminário, uma instituição que se tornou importante nos círculos católicos romanos depois do Concílio de Trento, que entrou na educação teológica norte americana no século passado, onde agora predomina. O modelo está se tornando mais popular na educação secular, bem como na educação teológica. No Reino Unido, assim como em outros lugares, o governo tem se preocupado em diminuir a distância percebida entre as realizações vocacionais e acadêmicas. A educação teológica está sendo forçada a decidir de que lado fica. No passado, particularmente no movimento das faculdades bíblicas, este paradigma foi muitas vezes levado aos extremos. Às vezes, algumas faculdades com um espírito missionário até tinham um ambiente de base de treinamento militar, ou de um acampamento na selva. Acompanhando este modelo, algumas vezes há uma ênfase sobre a batalha espiritual e sobre a dureza da vida, o dever de se submeter a tarefas árduas e a condições de vida difíceis, que são "um bom treinamento para o campo missionário". A ênfase sobre um treinamento relevante foi reforçada por uma nova atitude para com a teologia, como uma tarefa prática, ao invés de uma ciência. A nova abordagem veio deste século, com o impacto produzido pela antropologia, sociologia e mesmo a política sobre a Educação Teológica. É um movimento que, com razão, leva a sério a situação em que a teologia é feita, e a singularidade de cada situação. Assim, não se 'dá' a teologia ao estudante, como se fosse um pacote de informação bem embrulhado, para se passar adiante para o mundo; ele é treinado para a tarefa de fazer teologia no seu tempo e no espaço de seu ministério. O estudante de teologia tradicional, com base na informação, que eventualmente chega a uma situação prática de ministério, guarda suas anotações sobre o apolinarianismo, panteísmo ou supralapsarismo, e elabora uma nova teologia prática, baseada nas partes mais úteis de sua aprendizagem de sala de aula adicionada à sua própria experiência. 17 O aluno, a quem já se ensinou teologia como uma tarefa, tem menos dificuldades ao atravessar o abismo que divide a sala de aula e o mundo. A teologia feita no Novo Testamento foi elaborada por praticantes, pastores ativos e professores nas igrejas, e especialmente por missionários como Paulo. Por isso, era relacionada às lutas e necessidades do mundo e da igreja em que trabalhavam. 18 Ela respondia a questões atuais, determinava normas éticas relevantes, e se misturava aos ensinamentos sobre a vida espiritual; a teologia e a espiritualidade se gerando

mutuamente. 19 Uma das influências positivas deste modelo é vista no crescente interesse pelo envolvimento dos alunos em tarefas práticas. Nos últimos vinte anos, o emprego de grupos de alunos tem sido adotado entusiasticamente por muitas faculdades e a duração média destes empregos é de dez semanas para faculdades interdenominacionais, e de doze semanas para faculdades denominacionais no Reino Unido.20 Este modelo de treinamento também proporciona ao aluno e, portanto, ao professor, um senso de propósito e de realidade. Não lecionamos sobre Romanos da mesma forma, se sabemos que nossos alunos estão envolvidos na prática do ministério (ou não deveríamos fazê-lo). Um intercâmbio sadio entre a sala da aula e as ruas é construtivo para ambas as localidades. Este senso de propósito vai insistir que o professor da faculdade reoriente seu ensino de diversas maneiras. Ele deve ensinar cursos expositórios em todos os níveis com uma aplicação espiritual e prática. 21 Deve ensinar teologia de tal forma que ela toque o pensamento do mundo, na sociologia, na literatura, e até na política. O professor deve tratar de assuntos devocionais e práticos com o mesmo rigor acadêmico que aplica aos estudos bíblicos e teológicos (como são definidos tradicionalmente) para não reforçar a alienação do outro lado. Ele deve tratar das questões teológicas sobre Deus com uma atitude humilde e um coração devoto. Tais aulas incluiriam muitas vezes um hino de louvor, como se dava com as aulas de Barth, em Bonn.22 Resumindo, o paradigma de treinamento leva a uma atitude teológica que é bipolar. Teologia é pregação. É missiologia. É enraigada no conteúdo das Escrituras e constrói uma ponte no meio daqueles entre os quais o teólogo vive, se move e atua. Não é um corpo de conhecimentos, é uma tarefa. E é uma tarefa para ser realizada no mundo real dos dias de hoje, respondendo às questões na mente e no coração dos alunos. No entanto, como um modelo dominante, o treinamento tem uma frieza; a elevação da técnica acima da convicção, da relevância acima da verdade. Projeta uma abordagem ativista que vê o agradar a Deus mais no fazer do que no ser. Permite que perspectivas sociológicas determinem o conteúdo da teologia. Assim a educação teológica é definida mais pelo que a Igreja faz do que pelo que a Igreja é. Na pior das hipóteses, pode limitar a teologia à maneira como a Igreja percebe sua tarefa e como a Igreja se comporta em um determinado tempo e lugar. Na melhor das hipóteses, demonstra apenas um dos componentes importantes da educação teológica. O Paradigma do Negócio Este modelo da educação teológica como um empreendimento de negócio tem crescido em importância, com a inclusão de conceitos de liderança e administração por diretores, pessoal e administração das faculdades, nos últimos anos. As faculdades prestam um serviço por um determinado custo. Os cursos são vistos como 'produtos' e, portanto são influenciados pelo mercado. Alvos de crescimento são estabelecidos. A apresentação ao público requer um logotipo da companhia e um orçamento para propaganda. Entre outras coisas, o diretor se transforma em um administrador, responsável perante o presidente da mesa administrativa, com a supervisão do tesoureiro. Quase todos os seminários na Europa e na América do Norte entraram por este caminho. A primeira observação a favor deste modelo é que ele enfatiza a responsabilidade e a boa administração de recursos. A educação teológica institucional é um meio de

treinamento de líderes cristãos extremamente caro. Até mesmo uma pequena faculdade terá um orçamento que é um peso a ser sustentado por um grupo eclesiástico, além de bens fixos, geralmente adquiridos ou construídos através de um desembolso de doações de caridade. Assim, este modelo se torna uma perspectiva necessária. Sua aplicação tem auxiliado muitas instituições de treinamento teológico a conseguirem uma base financeira sólida e, portanto, um ministério seguro por muitos anos. Em segundo lugar, cursos oferecidos segundo a demanda do mercado são indicativos de uma atitude de servo. As igrejas e sociedades missionárias não existem para suprir alunos para faculdades e seminários. São as faculdades que existem para suprir obreiros para as igrejas e sociedades. Isto quer dizer que os estudantes devem ser capazes de realizar o serviço, como ele se apresenta hoje, e os programas de educação teológica devem refletir o que é necessário para isto. Nem sempre tem sido assim23, mas o modelo de negócio tem tido um papel importante para a ênfase sobre o nosso modelo anterior, o modelo de treinamento. No entanto, este modelo, como os outros, tem perigos e desvantagens. Talvez o mais perigoso, por ser o mais sutil, é que a nova terminologia muda a ênfase da educação teológica. Por exemplo, este modelo exige que identifiquemos produtos para vender. No passado, os 'produtos' do sistema eram os alunos. Neste modelo, devera ser os cursos, porque eles podem ser vendidos no mercado e assim gerar renda. Então, a ênfase sobre as pessoas que estamos treinando é, até certo ponto, deixada de lado numa organização voltada para o mercado. Esta transformação dos alunos, de razão de ser da atividade, para consumidores de nossos produtos, é preocupante. A viabilidade econômica também é uma faca de dois gumes. É um objetivo último que desejamos alcançar, mas não deveria se tornar o principal objetivo a curto prazo. Às vezes uma faculdade ou seminário precisa fazer o que não faz sentido economicamente, como assumir uma posição diante de uma controvérsia que implica em perda de parte de seu sustento, aceitar um bom aluno mesmo que não tenha condições de pagar, ou rejeitar um aluno em potencial que não satisfaça totalmente as exigências, mesmo que o seminário precise dele financeiramente. Um terceiro problema com este modelo é que a vendabilidade pode afetar indevidamente o currículo. Este é o outro lado da moeda da atitude positiva de servo, engendrada por este modelo. O que se deseja nem sempre corresponde ao que se precisa. Como o presidente do Seminário Teológico de Denver comentou: 'Cremos que devemos ter um forte senso de missão, e responder ao mercado somente a medida que ele corresponda à missão do seminário.24 O Paradigma do Discipulado Tem havido uma crescente conscientização, principalmente no terceiro mundo, da importância deste modelo de educação teológica como um relacionamento de treinamento. Na história da Igreja, encontramos este modelo nos tipos de escola de 'discipulado' de pós-graduação nos Estados Unidos, no século passado, quando um bom número de futuros ministros do Evangelho, se ligavam a um pastor ou professor proeminente. Um sistema semelhante existia entre os dissidentes na Grã-Bretanha. Mas sua história ainda é mais antiga. A nossa distância dos métodos de ensino de Cristo é demonstrada dramaticamente na pequena peça clássica de Adeyemo.25 Aluno: "Não consigo esquematizar o que está dizendo."

Professor: "A vida e o pensamento e a conversação raramente se conformam a um esquema."
Aluno: "Mas assim fica difícil me preparar para o exame." Professor: "Que exame?" Aluno: "O exame no fim do curso." Professor: "Você vai ser examinado pelo resto de sua vida." Aluno: "Eu não entendo muitas das coisas que você está ensinando." Professor: "Não vai entender por uns três anos." Aluno: "Durante todo o curso?" Professor: "Não, isso é só o início do curso." Aluno: "Tem alguma idéia da minha colocação na classe?" Professor: "Você vai ser reprovado, assim como os outros. Mas depois, todos vocês, com a exceção de um, vão virar o mundo de cabeça para baixo." Aluno: "Quando terminarmos, vamos saber tanto quanto os fariseus?" Professor: "Não. Não saberão tanto quanto eles, mas serão transformados. Você quer ser transformado?" Aluno: "Acho que sim. Seus ensinos são relevantes?" Professor: "São verdadeiros?" Aluno "Parece que você está jogando as perguntas de volta para mim, ao invés de respondê-las." Professor: "Isto é porque as respostas estão em você e não em mim." Aluno: "Vou vê-lo na aula amanhã?" Professor: "A aula contínua durante o jantar e ao redor da fogueira hoje a noite. Você acha que eu só ensino palavras?" Aluno: "Tenho alguma tarefa?" Professor: "Tem, ajude-me a pescar nosso jantar."

Até certo ponto, nenhum professor pode escapar das garras do fenômeno do discipulado. O professor sempre foi um meio de contato na comunicação, e o meio de contato sempre foi a mensagem predominante. Recordando nossa própria experiência como alunos, é a qualidade de vida, as atitudes e o entusiasmo de alguns professores que vêm à mente quando muito do conteúdo já foi esquecido - muitas vezes 24 horas depois do exame. Por outro lado, o professor que é ineficaz como pessoa, descomprometido, e incapaz de comunicar uma mensagem clara com sua vida, pode ter um efeito devastador sobre a aceitação das verdades ensinadas. Isto pode não ser verdade quando o assunto é biologia ou história da guerra civil. Mas, no ensino da verdade bíblica, o que surge é a questão da hipocrisia. Como disse Martin Buber: 'O professor deve ser, ele mesmo, o que deseja que seus alunos cheguem a ser. 27 O paradigma do discipulado busca conscientemente este efeito numa faculdade de treinamento. A teoria da comunicação dá a entender que o discipulado é uma ferramenta muito mais eficiente para a aprendizagem do que o padrão de transferência de informação numa palestra. Ele relaciona a aprendizagem à vida e à realidade. De fato, ele integra o processo de aprendizagem e transformação no aluno, nas áreas acadêmica, espiritual e prática. No entanto, o modelo não é um modelo ocidental e não se encaixa bem nas estruturas educacionais e culturais ocidentais (que, naturalmente, predominam na educação teológica de hoje). Primeiramente encontramos o problema do tempo, porque o modelo de discipulado exige uma grande quantidade dessa 'mercadoria' ocidental. Como

diz Kornfield:
O impacto de um professor sobre um aluno geralmente é diretamente proporcional à quantidade de tempo gasto com ele, vezes a qualidade deste tempo. 28

Em segundo lugar, a adoção deste sistema seria perturbadora e ameaçadora para o corpo docente. É mais fácil palestrar sobre a santidade do que demonstrá-la. Muitos prefeririam ensinar homilética do que mostrar seus próprios sermões como exemplos. A situação de sala de aula não exige a abertura e a vulnerabilidade de um relacionamento pessoal, e, portanto, é emocionalmente barata. Em muitas situações de ensino, há medo de rejeição, dúvida e insegurança sobre a habilidade, por ambas as partes. Alguém pode se proteger um pouco numa situação de aula formal, mas fica exposto num contato de discipulado.29 Em terceiro lugar, o nível crescente de especialização acadêmica entre professores de teologia e sua experiência especializada no trabalho cristão é outra área de dificuldade.Hoje em dia, instituições têm um professor de Velho Testamento, um de teologia pastoral, um de teologia, sendo que nenhum é capaz de avaliar o trabalho do outro. Alguns nunca subiram ao púlpito, outros nunca evangelizaram na África. Isso é inevitável, e é, de fato, um dos pontos fortes do sistema expor os alunos a uma aprendizagem de uma variedade de habilidades e experiências. A não ser que queiramos abandonar a instituição Ocidental logo de uma vez, teremos que desenvolver a aprendizagem por discipulado acompanhando a aprendizagem formal, fragmentada, especializada e acadêmica. Em nossa luta por equilibrar e combinar a sala de aula e o discipulado, estamos vivendo em uma área de instabilidade; duas placas tectônicas culturais diferentes estão em atrito. Ou as extremidades de ambas se desfarelarão ou uma vai se sobrepor à outra. Infelizmente, em geral presumimos que quanto mais 'alta' a instituição de educação, quanto mais o modelo Ocidental deve prevalecer. Procurando Treinar a Pessoa Agora que examinamos os modelos predominantes associados à educação teológica atual, chegamos à tarefa de síntese. O que já se tornou claro é que nenhum paradigma é adequado. Cada um, tomado separadamente, tende não importar com as necessidades particulares de cada aluno para a tarefa. O trabalho em diferentes culturas forçará o educador teológico a mudar o equilíbrio entre os diversos modelos, porém deve haver equilíbrio. As inadequações de um modelo serão contrabalançadas pelos pontos fortes dos outros, e a tarefa de liderança na educação teológica de hoje é de manter o equilíbrio em meio às pressões da cultura, da tradição, das finanças, e das novidades sedutoras. Na cultura ocidental (como se vê no ocidente e também espalhada pelo mundo todo no movimento de educação teológica) precisamos tomar cuidado para que o modelo de academia e, de forma crescente, os modelos de treinamento e de negócio não predominem sobre os modelos mais integrativos e holísticos de discipulado e comunidade. Nesta tarefa, a questão mais fundamental é 'Qual é o propósito de uma escola?' Respondida simplesmente, é de preparar pessoas. Os propósitos da educação teológica devem focalizar o tipo de pessoa que esperamos que o aluno se torne. 30 Não atingiremos estes objetivos em nenhum indivíduo porque a maturidade é uma

tarefa que se realiza durante a vida toda do aluno. A faculdade ou o seminário será apenas um evento influente nesse processo. 31 Mas as pessoas devem ser nossa orientação primária. Nosso objetivo primordial não é de ensinar cursos ou habilidades, mas de treinar pessoas.32 Esta abordagem ligada às pessoas, holística, tem pelo menos três vantagens. Primeiro - requer humildade por parte dos professores. Não podemos distribuir maturidade espiritual, preparo para o ministério, ou conhecimento de Deus como distribuímos apostilas; é obra de Deus. Assim como os Reformadores se aperceberam de que a Igreja não é fiscal ou dispenseira do Espírito Santo, mas sim a oportunidade para Sua obra, igualmente um objetivo holístico ajuda a instituição a ver isso claramente a seu respeito. Segundo - provê um foco unificador para uma tarefa que atualmente é muito diversificada e fragmentada. Farley escreveu eloquentemente sobre este assunto e vê a necessidade de se re-capturar a unidade, relacionando a teologia à pessoa em treinamento. O presente artigo sugere que a centralidade da pessoa unifica uma área ainda mais ampla do que essa com que Farley trabalha. 33 Terceiro - assim somos capazes de distinguir claramente entre os meios e os fins. Se a pessoa preparada é o fim, as várias atividades da faculdade se tornam os meios ao invés dos fins em si, e cada uma terá seu lugar à medida que contribua para os objetivos últimos. A estruturação tradicional destes meios tem sido o modelo acadêmico ocidental da mesa de quatro pés: estudos bíblicos, teologia, história da Igreja e estudos pastorais. Já vimos que este modelo acadêmico é inadequado para o que tentamos realizar na educação teológica. Um modelo mais de acordo com a abordagem holística seria o banco de três pernas do crescimento Acadêmico, Espiritual e Ministerial. 34 Esta classificação atualmente está se mostrando de grande influência no movimento de renovação da educação teológica no Terceiro Mundo. Às vezes se fala do treinamento da cabeça, do coração e da boca. Isto nos remete imediatamente à questão do equilíbrio. Quase todas as faculdades e seminários possuem menos recursos do que precisam, com muito pouco dinheiro e muito pouco pessoal, que está ocupado demais. Uma pressão crescente tem sido imposta de fora, por exemplo, para se garantir que o padrão acadêmico tenha sido atingido, ou que se esteja treinando missionários tão bem quanto alguma outra faculdade. É difícil manter um único nível. 35 Alguns argumentam pela prioridade de um destes três meios sobre os outros, afirmando que alguns são mais essenciais ao treinamento na faculdade enquanto que outros são objetivos mais próprios a uma situação de ministério. Não posso concordar. O estudo acadêmico é especialmente apropriado de forma intensiva no início do ministério, mas não se pode depender desse período com relação ao ministério futuro de uma pessoa, se não houver uma atitude e uma aplicação de estudante durante a vida toda. Pode se dar grandes passos espiritualmente durante os anos produtivos da faculdade, mas esta experiência também precisa ser a mola propulsora para um processo de maturidade. Estudos ministeriais são bem aprendidos no trabalho, mas parte desta aprendizagem seria melhor se fosse realizada juntamente a estudos e no ambiente de grupo que se tem com outros alunos, e pessoal na faculdade. A educação teológica Institucional é um passo no caminho, um evento no processo para as três áreas de crescimento. É importante que estas três ocorram juntas na faculdade porque são inter-

relacionadas e, portanto contribuem umas para com as outras. Juntas no treinamento, elas muitas vezes formam uma massa crítica que leva a uma explosão de crescimento. O fazer vivifica o pensar, e o filtra para que tenha relevância. O estudo supre o contexto e a direção para o fazer.36 Como diz B. Warfield, o estudo das Escrituras já é um exercício religioso por si só.37 O ministério prático exige fé e portanto aprofunda a espiritualidade. E de muitas outras maneiras, é a confluência destas três correntes juntas na vida de uma pessoa que é a grande contribuição feita pela educação teológica institucionalizada para o seu crescimento e utilidade. Termino com algumas palavras escritas por Bonaventura por volta de 1257. Vêm da introdução de The Soul' Journey into God e demarcam eloquentemente o tipo de aprendizagem que se requer de um aluno de Teologia.
Primeiro, portanto, eu convido o leitor aos gemidos da oração através do Cristo crucificado, através de cujo sangue somos purificados da imundície ou vício - para que não creia que a leitura é suficiente sem a unção, a especulação sem a devoção, a investigação sem a admiração, a observação sem a alegria, o trabalho sem a piedade, o conhecimento sem o amor, o entendimento sem a humildade, o esforço sem a graça, a reflexão ... sem a sabedoria divinamente inspirada. 38

(Tirada da Evangelical Review of Theology, vol 17, n°4 [Outubro] 1993, com permissão.)
1 Mike Starkey 'Ivory Steeples'. Third Way, Outubro de 1989, pp. 22-24. 2 'Proponho em primeiro lugar que deixemos de lado o modelo acadêmico de uma vez por todas graus, credenciamento, catedráticos e tudo mais'. John Frame ' Proposals for a New Seminary' in Harvie M. Conn e Samuel F. Rowen, Missions and Theological Education in World Perspective, Associates of Urbanus, Farmington, p. 377. Para uma abordagem mais construtiva, Lesslie Newbigin, 'Theological Education in World Pespective', ibid. pp. 3-18. 3 E. Farley, Theologia, the Fragmentation and Unity of Theological Ecuation, Philadelphia, Fortress Press, 1983, pp. 29-66, 152-156. 4 Thomas S. Kuhn. The Structure of Scientific Revolution, Chicago, 1962, segunda edição 1970. Kung e outros em Hans Kung e David Tracy (orgs.). Paradigm Change in Theology, T. e T. Clarke, Edimbourgo, 1989, aplicam suas idéias à teologia histórica, Avery Dulles, Models of the Church, Dublim, Gill and Macmillan, 1988, (seg. ed.) aplica o conceito a uma área da teologia e mais recentemente, David J. Bosch. Transforming Mission, Paradigm Shifts in Theology of Mission, Orbis Books, New York, 1991, aplica a idéia à missiologia. 5 Bosch, op. cit., p. 185. 6 A análise de Farley sobre este ponto é importante, op. cit. capítulo 2 (pp.29-48). 7 Carl F. Henry, ' Knowledge' International Standard Bible Encyclopedia Revised, Geoffrey W. Bromiley, org., Grand Rapids, Eerdmans, 1964, vol.l. pp. 689-719. 8 Elizabeth Pritchard, For Such a Time, Victory Press, Eastbourne, 1973, pp. 14/15. 9 'Bible Schools (American)' por Earle E. Cairns in New International Dictionary of the Christian Church. J. D. Douglas, org., Exeter, Paternoster Press, Revised Edition, 1978. S. E. Ahlstrom, A Religious History of the American People, New Haven, Yale University Press, 1972, p. 812. 10 Edgar Lee, ' Spiritual Dimensions of the Bible College Academic Program', Theological Education Today, Jan.- Junho 1987, p. 4. 11 Ibid. p. 4. Ver também p. 5, ' A convicção profunda de que a fé receptiva tem prioridade sobre o estudo crítico é um fundamento do movimento das faculdades Bíblicas', George Sweeting, escrevendo sobre o Moody Bible Institute. 12 Verifique a história de Spurgeon's College e a composição atual da Associação de Diretores de

Faculdades Bíblicas. 13 Ian D. Bunting The Places to Train, A Survey of Theological Training in Britain, MARC Europa, Londres, 1990. 14 Ver Bruce Nicholls 'The Role of Spiritual Development in Theological Education', Evangelical Theological Education Today: 2 Agenda for Renewal, Paul Bowers, org., Nairobi, Evangel Publishing House/WEF, 1982. 15 João 7.17, 1Co 2.6-16. 16 Ver Chow, ' An integrated approach to Theological Educatíon' Theological Education Today, Setembro 1981, p. 8, e especialmente John M. Frame, op. cit. pp. 369-388. 17 Ver Frame, op. cit. pp. 371/2. 18 Ver os artigos de Charles H. Kraft 'Dynamic Equivalence Theologising', pp. 258-285, Daniel Van Allmen 'The Birth of Theology', pp. 325-348, e outros artigos na seção III de Charles H. Kraft e Tom N. Wisley Readings in Dynamic Indigeneity, Pasadena, William Carey Library, 1979. 19 Especialmente nas epístolas de Paulo. 20 Bunting, op. cit. p. 43. 21 Lee, op. cit. p. 7. 22 Eberhard Busch, Karl Barth, Filadélfia, Fortress Press, 1975, pp. 256 e 258. 23 Ver o Ponto 2 do Manifesto sobre a renovação da Educação Teológica Evangelical publicado em conexão com a reunião do International Council of Accrediting Agencies, em Malawi, em 1981. Theological Education Today, Abril-Junho, 1984 pp. 1-6. Frame, op. cit., pp. 371s e Steward, 'Tensions in North American Theological Education' Evangelical Review of Theology, Janeiro 1990, p. 43. 24 Citado em Steward, op. cit. p. 47. 25 Tokunboh Adeyemo 'The renewal of Theological Education', in Evangelical Theological Education Today, Ed. Paul Bowers, p. 7. 26 Kornfield,' A Working Proposal for an Alternative Model of Higher Education' Pt 2, Theological Education Today, Setembro 1983, p. l. 27 Ibid. p. 3. 28 Op. cit. Seção 11, p. 1. 29 Henri J. M. Nouwen Reaching Out, Londres, Collins, 1975, p. 80. Toda a passagem nas pp. 78-84 é de grande valor. 30 Bruce Nicholls, op. cit. p. 126. Ver também James Plueddemann Towards a Theology of Theological Education' in Evangelical Theological Education Today: 2 Agenda For Renewal, Paul Bowers, org., Evangel W.E.F. Nairobi 1982 p. 57. 'Entendida corretamente, a educação teológica facilita o processo de maturação nos alunos, para que eles, por sua vez, o facilitem em outros.' 31 Ver o conceito de alunos de Nouwen como 'hóspedes' in Henri J. M. Nouwen, Reaching Out, Londres, Collins, 1975, p. 83. 32 Esta ênfase não é, logicamente, nem nova, nem revolucionária. Ver, por exemplo, Philip Jacob Spener Pia Desideria seção 5, Tradução em inglês re-impressa em Peter C. Erb, org. Pietists, Selected Writings, SPCK, Londres, pp. 40-46. 33 Farley op. cit., especialmente o primeiro e os dois últimos capítulos. 34 Robertson McQuilkin 'Bible College Futures' in Theological Education Today, JulhoSetembro 1985. 35 David Kornfield, op. cit. p. 5. Ver também Edgar Lee, op. cit. p .2. 36 Stewart op. cit. p. 44. 37 The Religious Life of Theological Students, Presbyterian and Reformed, Philipsburg, 1911. 38 Traduzido por Ewert Cousins, Bonaventura, The Classics of Western Spirituality, Nova Iorque, Paulist Press, 1978.

O JEITO BRASILEIRO E O TREINAMENTO MISSIONÁRIO Margaretha Nalina Adiwardana Introdução É impossível falar da cultura brasileira sem tocar num dos aspectos mais importantes e mais generalizados entre todos os contrastes brasileiros: O Jeito. O jeito consiste em diversas formas, desde favor baseado na amizade, concessão para ajudar, até exceções dadas por suborno. Ultimamente o jeito está sendo o foco do estudo social como fenômeno que permeia a sociedade brasileira inteira. Portanto, é importante entender como ele pode influenciar e está influenciando as missões brasileiras, por ser já parte da cosmovisão do povo, incluindo nele os obreiros transculturais. Esse artigo visa ver o pano-de-fundo, a origem histórica, bem como os fatores recentes que acabaram por espalhar e enfatizar o jeito. O jeito em si é apresentado nos seus diversos aspectos. A seguir ponderaremos como isso é refletido na atuação transcultural. E por final uma breve tentativa de pensar em como incrementar os pontos positivos do jeito e como "tapar a brecha" que provoca ao enviarmos brasileiros para missões transculturais, onde terão que se adaptar, conviver e trabalhar junto às outras culturas. A Raiz Histórica Traçando a origem do povo brasileiro, usamos como base o antropólogo, Gilberto Freyre, a partir da sua obra clássica, Casa Grande e Senzala. Ele expõe os fatores que fizeram com que a colonização portuguesa no Brasil se desenrolasse e quais os efeitos vistos na vida brasileira atual. Esse pano-de-fundo é explicado pelas próprias características dos portugueses colonizadores, a sua mistura de etnias, e consequentemente, a mistura de cultura e cosmovisão na colônia brasileira. Muitos destes traços prevalecem até hoje. 1. A alegre indecisão entre a cultura européia e africana Sentimos isso ainda hoje; mesmo os brasileiros mais estudados são propensos ao misticismo. A religiosidade de origem católica se mistura como à crença africana; a reverência aos santos já misturados com os deuses africanos ("uma liturgia antes social que religiosa - com muitas reminiscências fálicas e animistas das religiões pagãs"1). 2. A aceitação fácil de estrangeiros Assim como os portugueses se misturavam sem preconceitos com as índias e negras, o brasileiro de hoje tem facilidade de aceitar os mais diversos estrangeiros, tal como aconteceu na onda de imigração européia após a Primeira e Segunda Guerras Mundiais, e a leva de imigrantes asiáticos nessas últimas décadas. Esse traço cultural tem como fundo a cosmovisão: todos nós somos iguais, aceitamos um ao outro com flexibilidade ("heterogeneidade racial -o cunho português só se imprimindo sobre a confusão de etnias pelo predomínio do idioma"2).

3. A alimentação hibrida Em São Paulo era horizontal enquanto que em Pernambuco vertical. Até hoje vemos o resultado dessa mistura mais que a continuação, pois já desde a época da colonização os paulistas se alimentavam com alto teor de proteína, enquanto que na Bahia e em Pernambuco a alimentação era à base de farinha, mandioca e carne "magra", sem frutas nem legumes ou verduras. 4. As divisões de classe social A distinção entre a casa-grande e senzala, os senhores de engenho e os escravos ainda é vista hoje em atitudes como "vocês, os menos afortunados, estão aí para trabalhar para nós", e nas fazendas norte-nordestinas com donos de terra vasta explorando os trabalhadores e os bóias-frias. 5. O domínio da Igreja Católica "E por maior que fosse a sua variedade íntima ou aparente de etnias e de crenças, todas elas acomodadas à organização política e jurídica do Estado unido à Igreja Católica."3 Essa situação ainda se mantém no presente, embora não mais tão acentuada após os anos do regime militar e a Teologia de Libertação predominante na Igreja brasileira atualmente. Em resumo, a cultura brasileira expressa o convívio, ou os extremos, conforme o caso, dos muitos antagonismos: na política, a autoridade e a democracia; na religião, a cristianização sincretizada com a crença africana; na cultura, mistura de européias e africanas; na economia, a agrária, o pastoril e a mineira; na vida social, o paulista e o emboaba, o grande proprietário e o pariá; e na educação, o bacharel e o analfabeto. Mas, predominando sobre todos os antagonismos, o mais geral e o mais profundo, é o senhor e o escravo. 4 Provavelmente, agora está começando lentamente a se formar a verdadeira cultura brasileira moderna, não mais tão carregada do dualismo de origem racial, mas no poder econômico e educacional. Raízes Culturais Talvez o chamado jeitinho brasileiro tenha a ver com duas raízes principais: 1. "O Espírito de Macunaíma", mencionado pelo sociólogo José Arthur Rios, que seria a miscigenização do moleque e dos senhoritos, resultando na molecagem generalizada. O antropólogo Roberto da Mata dissertou sobre molecagem: "E isso não só do ponto de vista das leis, pois quem trabalha está sempre pronto a passar a perna no outro, a fazer um negócio escuso, que não chega a ser crime, mas que não é coisa que ele conta para todo mundo ou vai botar no jornal. É uma situação intermediária. Isso ocorre do ponto de vista da sexualidade, da religião, e até da política". E ligou a molecagem com o jeitinho, que "diz alguma coisa da nossa sociedade onde curiosamente preferimos relacionar tudo, estabelecer uma relação entre opostos e decidir a ficar com um lado e com o outro ao mesmo tempo. . . Ninguém está necessariamente de um ou outro lado, muito pelo contrário, está na linha intermediária, está em cima do muro."5 2. A permissividade e o sentimento de justiça do brasileiro, de origem cultural e situacional. Citando Rios,
A molecagem, transformada em agressão, torna-se plenitude do termo, comportamento

anti-social, forma lavrar de protesto, de inconformismo ante as estruturas sempre em anunciada mutação, e sempre, cada vez mais idênticas a si mesmas... A sociedade tradicional imprimia caráter, mas não atendia aos anseios da qualidade. Sua incapacidade de reformar-se gera um sem-número de expedientes. No aperto da luta pelo emprego, pela melhoria de vida, na corrida pelo status, o brasileiro recorre ao seu guru Macunaíma, e ao seu epônimo - Malazarte. É bom não esquecer, Macunaíma era o herói sem nenhum caráter.6

A permissividade e o sentimento de justiça do brasileiro formam um contraste, resolvido então pelo jeitinho. Se por um lado fica a permissividade baseada na origem da liberdade e do direito do indivíduo na sociedade individualista, por outro lado fica o sentimento de justiça. Se a autoridade não cumpre a sua parte para manter a justiça, o povo está no direito de resolver a situação de injustiça, tomando nas próprias mãos a solução nem sempre normativa. João Osvaldo de Meira Penna achou na herança francesa a origem da permissividade, dando como exemplos no Brasil: a pena de morte, a qual "aberra as tradições humanitárias de nosso povo". Mas, "é mister liquidar com os bandidos reincidentes, então damos o jeitinho bem brasileiro de eliminá-los em segredo, na calada da noite, em lugar ermo. A polícia também tem seu álibi, "Fulano faleceu ao tentar resistir à prisão. . ." É como nos acidentes de tráfego. O essencial é não ser preso em flagrante, no calor da emoção provocada pelo impacto, com risco de linchamento pelo público indignado. Logo depois, é o atropelado esquecido; trata-se, afinal de contas, de um chato que não correu com bastante pressa, que já se foi, que interrompeu o trânsito, provocando um engarrafamento, e não nos devia mais apoquentar a consciência." 7 Ele chamou isto da tendência do povo brasileiro de fazer justiça pelas próprias mãos; o desejo de segurança e a "sede de justiça na verdade exprimem a liberdade de não ser assaltado e morto.8 A Atual Conjuntura Sócio-Político-Econômica Parece que muitos homens do meio intelectual brasileiro estão incomodados com o jeitinho brasileiro, no que se refere a "cada um fazendo o que quer", principalmente praticado pelas autoridades governamentais. A influência da mídia está deixando a população consciente dos abusos. Alguns reivindicam a justiça pela lei, formal e legalmente, para reverter o quadro preocupante. E muitos deixam registrada a sua opinião publicamente. Há ainda o outro aspecto do jeitinho que não prejudica a ninguém, que origina da cordialidade e do "deixa pra lá". É a criatividade tão inerente ao povo para se virar diante de qualquer dilema. O sinal disso está na multidão de camelôs e vendedores que atuam sem permissão e sem pagar impostos. Isso é o que Penna escreveu como
... um sentimento de justiça que procura ultrapassar os limites restritos da sociedade erótica - a sociedade de nossa família e clientes, nossa "classe" e nossos conhecidos. Pela imprensa, pelas declarações políticas, pelos comentários que ouvimos nos mais variados meios - podemos perceber um desejo de transcender as circunstâncias limitadas de nossos grupos primários, com uma nova concepção dos interesses gerais da comunidade. Tentase alcançar uma consciência das condições sociais de desequilíbrio econômico. A consciência da Justiça brota num momento crucial de nosso desenvolvimento - sendo mister estimulá-la de todos os modos em benefício da verdadeira "comunidade espiritual", a homonomia nacional em sua configuração ao mesmo tempo emocional e

racional" (grifo do autor).9

O outro aspecto da cultura que tem a ver com o jeitinho brasileiro é a educação. Apenas 4% do PIB é aplicado na Educação, e ainda com muito desperdício. Somente 20% da verba chega ao destino e 80% se perde "nos meandros da custosa burocracia". Fora dos horários letivos decretados pelo MEC de 800 horas anuais (contra quase 80% a mais no Japão e 60% nos EUA), a criança passa quase 4 horas diárias assistindo passivamente a televisão com programas cada vez mais violentos e alienantes. 10 Com certeza, na área de profissionalização e de processo de raciocínio abstrato, também há um colapso, ou pelo menos uma lacuna muito grande, que gera a diferença gritante entre os Senhores e os Escravos, os que têm e os que não têm, os que podem e os que não podem, e ambos continuarão com o jeitinho. Os que podem por poder abusar e fazer tudo sem punição, e os que não podem para se defender por bem ou por mal. E assim as leis existem para poderem ser burladas. Hoje sai uma lei ou regra governamental, amanhã algumas pessoas já encontram uma forma de burlar ou contornar a lei, seja por "molecagem" como divertimento de poder burlar, ou por "necessidade" de sobrevivência. E a educação tem um papel importante para sair dessa roda viva. Citando Penna ainda:
A ordem jurídica é subvertida porque a aparelhagem institucional da Justiça se revela materialmente inadequada e porque a multidão, de baixo nível cultural, não é educada no respeito à lei. Não importa que haja leis, redigidas segundo os modelos mais avançados da Europa e da América, se não vigora no povo uma consciência moral suficientemente aguda e refinada. Uma tal consciência não se adquire da noite para o dia. Ela é fruto lentamente elaborado pela educação sob a inspiração de princípios religiosos." 11

O Jeitinho Brasileiro Como temos visto, o jeitinho "é sempre uma forma 'especial' de se resolver algum problema ou situação difícil ou proibida; ou uma solução criativa para alguma emergência, seja sob a forma de burla a alguma regra ou norma pré-estabelecida, seja sob a forma de conciliação, esperteza ou habilidade."12 Os argumentos para fazer são variados: "Todo mundo faz, não vou ficar de fora", "uma mão lava a outra", "ajudo a quem posso", "uso forçado pelas circunstâncias". Uma coisa é condenar o nepotismo em tese como um valor; outra, diferente, é colocar "os meus filhos trabalhando comigo no ministério e no governo".13 A teoria de Lívia Barbosa se resume nos seguintes pontos: 1. O jeitinho procura juntar e não separar, ser igualitária, simpática e cordial. 2. O jeitinho é um ritual que transforma indivíduos em pessoas. 3. O jeitinho permite que determinados indivíduos sejam alvo de um tratamento personalizado, deixando-os fora do alcance dos desígnios das leis impessoais e universais. 4. A lei é igualitária, mas a prática não é. O valor do homem é igual diante de Deus, lei moral e gênero humano, portanto, pratica-se o jeitinho para igualar. 5. O jeitinho sintetiza um conjunto de relações e procedimento que os brasileiros "percebem" como sendo deles. As Conseqüências na Vida Transcultural Em primeiro lugar, deve-se entender que o jeito brasileiro faz parte da

cosmovisão do povo brasileiro, e até pode ser considerado como o foco cultural da cultura.14 Além das raízes, o contexto atual brasileiro acentua a prática do jeito. Em segundo lugar, deve-se ver os dois aspectos positivos e negativos do jeito para entender quais são as conseqüências quando um brasileiro trabalha num ministério transcultural. Fatores Positivos 1. Inventividade e criatividade, principalmente nas dificuldades. 1516 Um obreiro transcultural é mais exposto a encontrar situações novas para ele, onde não há padrão de como solucionar. A capacidade de sair-se bem é maior para um brasileiro. Um exemplo: na área verbal, o brasileiro também é bem falante, criativo e desinibido. Um missionário um dia estava pregando num outro país na língua inglesa. Ao contar a história do galo cantar quando Pedro negou Jesus pela terceira vez, não conseguiu lembrar a palavra em inglês para galo. Na hora simplesmente recorreu à outra forma: "the father of the chicken"! Bárbara “Burns citou alguns pontos positivos na sua tese: “. . . o Brasileiro é um alívio bem vindo em comparação com outros que carregam suas culturas nas malas junto com eles. Transições rápidas, flexibilidade e assimilação são benefícios para os obreiros transculturais. "17 2. Uma força solidária na ajuda ao próximo. 18 O brasileiro muitas vezes "dá um jeito" para ajudar alguém. A emoção em alta também se compadece facilmente. Vemos por exemplo na forma de falar, "coitadinha", é o comentário mais ouvido quando se conta alguma coisa que envolve o menor problema que seja. O missionário se torna mais simpático, com coração grande para ajudar alguém necessitado. 3. Uma força conciliadora, "o modo simpático de relacionar o impessoal com o pessoal, um modo pacífico e até mesmo legítimo de resolver diversos problemas". 19 O fato do jeito ser uma solução num mundo dualista e de contrastes do Brasil, faz com que o brasileiro seja mais adaptado a situações de contrastes. De novo, o brasileiro se torna mais simpático ao colocar um toque pessoal e isso de forma natural, ao se relacionar com as pessoas de outras culturas e principalmente no meio de um problema. O jeito brasileiro pede e resolve com uma conversa pessoal em tom simpático em vez de falar que as regras são assim ou assado de forma a exigir impessoalmente. 4. O jeito como pano-de-fundo de diferenças e como tentativa de resolver impasses entre desigualdades, partiu da idéia de que todos devem conviver bem apesar das diferenças. Assim também é mais fácil a aceitação do brasileiro quanto a outras raças e culturas.20 Fatores Negativos: 1. O desacato às regras e autoridades. Parece haver uma molecagem de querer sempre fazer algo contra o que é determinado pelo superior, além de quando aparecer um problema, acha-se solução de qualquer forma, mesmo quando envolve algo um tanto ilícito. Por exemplo, assim que apareceu a ajuda do governo em dar gás gratuitamente ao povo que paga o mínimo na conta de água, em menos de um mês multas pessoas conseguiram até cinco vezes cobrar o dinheiro para gás com a apresentação de 2as. vias da conta de luz, alegadas como perdidas as originais. Na vida transcultural, há alguns obreiros que se envolvem em casos como trabalhar quando o visto obtido para permanência naquele país era com a condição de não trabalhar. Do ponto de vista ético,

"o jeito é uma resposta à ausência de limites éticos produto da flexibilidade do próprio jeito".21 E ainda, a dificuldade de trabalhar com outras pessoas e principalmente com os superiores ou supervisores, por tendência de desacatar regras, provocando indisciplinas, ou de achar que os supervisores não sabem tanto quanto ele sabe, provocando atritos. 2. O individualismo. 22 Apesar da aparente amizade fácil do brasileiro, no fundo há o "defender de mim mesmo; eu tirar a vantagem em qualquer situação, pois ninguém me defende se eu não me defender; as autoridades só queriam me explorar". Na vida diária do brasileiro é a tentativa, por exemplo, de furar as filas, de passar na frente dos outros, conseguir favores. Na obra transcultural isso gera conflito profundo com colegas e outras culturas, mal-entendidos até com o próprio povo onde se trabalha. "O que vale é a própria existência do indivíduo e não o sistema de normas. O jeito é o culto à autonomia humana que não se dobra à imposição da lei. Neste caso o homem é o dono de sua própria sorte e crê que até Deus o perdoará."23 3. O imediatismo. "Por isso mesmo, o jeito é a lei do 'menor esforço', não visa investir era ideais. Neste sentido o jeito é uma conduta ética 'nihilista', ou sem ideais associados ao adágio popular 'deixa estar para ver como é que fica'".24 A maioria do trabalho transcultural requer perseverança, com alvos a longo prazo. Isso não é o forte da cultura do jeito, que leva a resolver as coisas agora, de forma mais fácil, sem pensar em resultados a longo prazo, sem planejamento cuidadoso levando em consideração todas as conseqüências e repercussões. 4. O dualismo de aceitação de todas as raças, simultaneamente com um aspecto de chauvinismo nacional (refletida em "Brasil é o maior país em.. .", "o melhor em. ..", "o número. . .", "no aspecto. . ."). Pensa-se que todas as diferenças podem ser resolvidas dando-se um jeitinho, visto que todos são iguais. O pensar de que o brasileiro aceita todas as raças com as suas culturas, resulta na idéia de que facilmente se adapta a qualquer nova cultura, por ter o brasileiro um caráter amigável. Porém, essa forma de pensar funciona como faca de dois gumes: aceitando os outros, pensa-se que os outros pensam como ele e o aceitam como é. Ou ainda, pensam que a forma de se relacionar brasileira é melhor, por ser calorosa, íntima, todo mundo é amigo. Então, "posso, e até devo, demonstrar a minha cultura de aceitação e amizade fácil." Assim, alguns brasileiros poderiam não se importar em respeitar as culturas "mais frias" no relacionamento. Isso gera choque quando os colegas ou o povo onde trabalham não tem a mesma forma de relacionamento que permite intimidades, normais aos brasileiros. Toques físicos, abraços e beijos, numa cultura sem toque físico e maior distância física, vai criar problemas. Um brasileiro não preparado terá dificuldades em se adaptar às diferenças, por usar o seu julgamento como padrão para se relacionar com a outra cultura. Como Preparar o Obreiro Transcultural Depois de ver os pontos positivos e negativos da cultura brasileira no aspecto do jeito, ponderaremos como os que estão engajados no ministério de preparo de obreiros transculturais deveriam encontrar diretrizes de uma educação missionária que cultiva os traços positivos e corrige ou conscientiza os traços negativos. Apresento algumas sugestões: 1. Teologicamente: um preparo firme de conhecimento pessoal com Deus e da Bíblia para chegar a uma convicção firme, de padrões e princípios bíblicos, que não permitem desvios - ou "jeito". Na Teologia Bíblica de Missões, além do porquê fazer missões,

poderia incluir o como fazer missões biblicamente. Seria uma aprendizagem de como aplicar princípios da Bíblia na estratégia, na ética e na vida missionária. 2. Culturalmente: dar exemplos reais de casos que já aconteceram de "choques" do "jeito" com as outras culturas e situações no campo. Os estudos de casos devem visar os contrastes entre a cultura brasileira, principalmente no aspecto do jeito, para ver as diferenças culturais com os resultados e conseqüências. Deve-se tomar cuidado para não atemorizar demasiadamente ao citar somente os fatores negativos, nem exaltar ao citar os fatores positivos. Enfim, deve-se ajudar o aluno a chegar a um ponto equilibrado de conhecimento dos próprios traços, através de ponderação e meditação de auto-estudo. Nesse ponto, o modelo das principais áreas de tensões de valores básicos de relacionamentos interculturais, mencionado no livro Ministering Cross-Culturally, de Sherwood G. Lingenfelter e Marvin K. Mayers, pode ajudar a estimular um auto-estudo. As áreas principais de tensão são sobre: o tempo, o julgamento, a maneira de enfrentar crises, alvos, o valor próprio e a vulnerabilidade. 25 Nos treinamentos missionários, ao lecionar a matéria Comunicação Transcultural, tenho aplicado uma aula sobre tais áreas de tensões. Exemplos reais e possíveis são dados. Incluo os traços culturais brasileiros para cada área, enfatizando o aspecto do jeito. Os alunos começam a tentar conhecer a si mesmos, objetivamente, à luz da cultura brasileira. Eles passam a pensar nas suas possíveis reações e nas dos povos de outras culturas, devido às tensões. Os próprios alunos preenchem o quadro alistando os traços culturais brasileiros em cada área de tensões. Ao terminar, passam um tempo de reflexão sobre o que acabam de discutir. É o ponto alto de descoberta sobre si mesmo em relação à comunicação e convívio transcultural durante toda a matéria. 3. Psicologicamente: encorajar o hábito de refletir, pensar e raciocinar, pesquisar e concluir, sobre o pano-de-fundo da cultura brasileira, principalmente no aspecto do "jeito". É uma tentativa de chegar a sentir uma identidade própria, o mais objetivo possível, também em comparação com as outras culturas. É importante incutir a humildade e sinceridade, com o modelo de Jesus em Filipenses 2. 4. Na prática: aplicar exercícios de disciplina, com entendimento das razões e alvos. Motivados por saber por que e para que, biblicamente, farão o que for necessário. Vale a pena ressaltar aqui, que esse exercício deve ser contextualizado, e a aplicação feita sem imposição. Se não, poderiam desacatar ao exercício. É necessário cultivar primeiro um relacionamento de amizade e respeito, entendimento e amor, entre o professor e os alunos, para que não desafiem ou desacatem a "autoridade" do professor. Assim, reconhecerão que é parte do treinamento, necessária e útil. Pois não é fácil, e pode ser até doloroso fazer um auto-exame sincero e sem desculpas. O entendimento de razões e alvos é fundamental, ou seja, quando se vê que a razão é para que se transforme cada vez mais de conformidade com a imagem e mente de Jesus Cristo, e o alvo é obediência para a glória de Deus. 1 Freyre, Gilberto. Casa Grande e Senzala. 23a ed. RJ: Ed. José Olympio, 1984, p.22. 2 Ibid., p. 19. 3 Ibid., p. 28. 4 Ibid., p. 52-53. 5 Citado por José Arthur Rios em "O Espírito de Macunaíma", em Carta Mensal. RJ, 36(425):52, 1990. 6 Ibid., p 53.

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José Osvaldo de Meira Penna, "A Idade do Alibi ou o Problema da Criminalidade no Brasil", em Carta Mensal. RJ:36 (428):8, Nov. 1990. 8 Ibid., p. 27. 9 Ibid., p. 31. 10 Arnaldo Niskier. "A Brasileirização da Miséria e o Papel da Educação" em Carta Mensal, RJ:38 (450): 48, Set. 92. 12 Ibid. 13 Barbosa, Lívia H. O Jeitinho Brasileiro. Rio de Janeiro: Ed. Campus, 1992, p. 32. 14 Lourenço Stelio Rega, Tese de Mestrado, maio 1992, p. 34. 15 Ibid., p. 39. 16 Barbara H. Burns, Tese de Doutorado, 1987, p. 66. 17 Ibid., p. 67. 18 Rega, Ibid., p. 41. 19 Roberto da Matta em Tese Rega, p. 43. 20 Burns, Ibid., p. 67. 21 Rega, Ibid., p. 46. 22 Ibid., p. 47. 23 Ibid. 24 Ibid. 25 Lingenfelter, S. e Mayers, Marvin K. Ministering Cross-Culturally. Grand Rapids: Baker Book House, 1990. p. 37ss.

RESENHAS
HESSELGRAVE, David J. A comunicação transcultural do evangelho: Comunicação, cosmovisões e comportamento. vol. 2. São Paulo, Edições Vida Nova, 1995. 315 p. Resenha por Margaretha Nalina Adiwardana. O livro muito aguardado na versão da língua portuguesa sai em três volumes. Esse segundo volume é fundamental na área da comunicação transcultural, pois os assuntos abordados pelo autor naquilo que ele chama de "Dimensões da Comunicação Transcultural" são áreas básicas: cosmovisões, processo cognitivo, formas lingüísticas e padrões de comportamento. Hesselgrave expõe as diferenças que existem principalmente entre principalmente a cultura ocidental e as outras culturas. Ele apresenta as outras culturas em blocos, tais como chinesa, japonesa, tribais, etc., ou na base de religião - budismo, hinduísmo, islamismo e outros. Aliás, ele apresenta as cosmovisões ligadas às religiões e crenças, uma influenciando a outra. O leitor poderá então tentar medir a distância entre a sua cultura e as outras, dentro do parâmetro do conceito de ME-1, ME-2 e ME-3, não de forma generalizada, mas em cada área das sete mencionadas. Para facilitar a análise, Hesselgrave apresenta o diagrama "Dimensão da Comunicação Transcultural" após cada bloco de estudo. Para a apresentação de cada item, o autor aborda tanto o aspecto bíblico como científico, com citações de cientistas de renome na área e exemplos de experiências reais. Por fim, apresenta as suas sugestões como conclusão. As suas sugestões, podemos usar como diretrizes, com adaptação para cada situação. É um livro que preencheu a lacuna na matéria importante na conscientização de áreas a serem estudadas para uma boa adaptação transcultural, servindo de leitura obrigatória como base nas aulas. *** ROBB, John D. Focalizando Povos não Alcançados: Uma Nova Visão para Completar a Tarefa Inacabada. Ed. Sepal, 1994, 128 p. Resenha por Barbara Helen Burns. Focalizando povos não alcançados é dividido em três partes. A primeira parte defende a tese dos grupos étnicos ou "povos" apresentada pela escola missiológica do "Crescimento da Igreja". A segunda parte alista várias "sugestões" de como conhecer o grupo alvo através de pesquisas, entrevistas e observações. O título da terceira, ao meu ver a parte mais forte, é apropriado: "Recursos Poderosos para Alcançar os NãoAlcançados". Aqui o autor trata da importância da oração, trazendo exemplos históricos importantes, como o de J. O. Frazer entre os Lisu da China. Na explicação da importância de alcançar os mais que 40.000 "povos" o autor demonstra a sua identificação com a linha do "Princípio da Unidade Homogênea", estratégia adotada por alguns missiólogos. É lógico que o missionário tem que escolher um povo alvo e fazer o máximo para compreender e identificar-se com este povo. Um missionário não pode aprender várias línguas, ou estar em muitos lugares ao mesmo

tempo. Porém, a estratégia de alcançar pequenos "povos" dentro da mesma comunidade (povos definidos por classe social, profissão ou por outros interesses em comum) tem superado os limites dessa lógica. Dependente na ciência social, esta estratégia ignora claros princípios bíblicos. Se olhássemos para o exemplo do Apóstolo Paulo ou dos seus escritos, como o da carta aos Efésios, é bastante claro que a Igreja resolve suas diferenças e divisões baseada na verdade de uma nova vida e a formação de um Templo unido de Deus em Cristo. A chave não é dividir os grupos, mesmo grupos com tantas diferenças como existiam entre os judeus e gentios. A chave é o amor de Deus que transforma cada um, a humildade que respeita o outro, o poder contra o verdadeiro inimigo e não contra "carne e sangue". Devemos nos preocupar com um ministério "holístico" que visa a formação de igrejas missionárias que sabem ministrar os necessitados ao seu redor e até aos confins do mundo. Como seria bom ver igrejas que não tratam o rico diferente do pobre (Tiago), onde os dons das pessoas simples são respeitados, tanto como os da liderança (1 Coríntios 12) e onde o amor impera (1 Coríntios 13). Para Robb, a identificação com o povo alvo seria o que Paul Hiebert chama de "Contextualização sem Critérios", ou sem diretrizes bíblicas. Robb cita Matteo Ricci, famoso jesuíta na China no Século XVI como missionário que enfocava "povos". Talvez de uma maneira demasiadamente simplista, defende a estratégia de Ricci em aceitar os ritos idólatras aos ancestrais chineses como normal para membros da Igreja. Alguns textos são citados também de forma questionável. Não tenho certeza que podemos assumir o direito de "Filho" de pedir toda a terra em Salmo 2. Também tenho um pouco de dúvida sobre a interpretação de Provérbios 16.9: "O coração do homem traça ó seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos". Robb comenta em seguida: "Deus espera que usemos nossas mentes para planejar nosso caminhos de acordo com Sua palavra revelada. Isso é estratégia". Se não tivesse o "mas" como conjunção, talvez pudesse chegar a tal conclusão. Mas a interpretação mais aceitável neste texto é que os planos humanos não alcançam o nível divino; Ele é soberano em nos dirigir apesar dos nossos planos! A segunda parte do livro tem muitas diretrizes de valor. Como fazer pesquisas de campo, a necessidade de conhecer profundamente o povo alvo, como aproveitar os recursos que existem e como ouvir e observar para aprender são importantes. Talvez pensando nos grupos de cultura mais próxima do missionário, ele deixa a idéia de que é possível aprender a língua, os costumes, a cosmovisão e ter penetrado na cultura dentro de poucos meses, já com um grupo de estudos bíblicos se formando. Que bom se fosse tão simples! Ao meu ver, este livro reflete um estilo um pouco mecânico, talvez influenciado pela cultura "marketing" norte-americana. Para o autor é a produção que é importante, a sofisticação da linha de produção, os objetivos mensuráveis, tudo organizadíssima e até diagramado. Apesar disso, vale a pena ler o livro para aproveitar as dicas boas sobre conhecimento e identificação da cultura e a absoluta necessidade da oração e dependência em Deus para o bom êxito em missões transculturais. ***

CARRIKER, C. Timóteo. Missão Integral: Uma Teologia Bíblica. São Paulo: Ed. Sepal, 1992, 316 p. Resenha por Donald C. Price. Nos últimos dois a três anos, vários livros sobre a Teologia da Missão foram publicados; entre eles este livro e o livreto cuja resenha segue a esta, do Timóteo Carriker, a edição brasileira de Missão Integral, uma série de ensaios por René Padilla e a Serviço do Reino, outra série de ensaios organizada por Valdir Steuernagel. Para quem deseja basear sua teologia de missões na Bíblia, este é o melhor da série. Só é superado, a meu ver, por Transforming Mission (David Bosch) e, talvez, por Let the Nations be Glad! (John Piper), na língua inglesa. A única vantagem que estes últimos têm sobre Missão Integral (do Carriker, não de Padilla) é o acréscimo de um enfoque além do enfoque estritamente bíblico. Bosch acrescenta uma visão panorâmica da história da teologia de missões e Piper, a ótica da soberania de Deus em missões. Coincidentemente, todos os três são teólogos reformados. Carriker nos edifica mais quando escreve sobre a Teologia de Missões no Antigo Testamento. Para aqueles que estão acostumados a pensar que Missões começaram com a Grande Comissão em Mateus, é uma grata surpresa descobrir que a Bíblia é um livro missionário de início ao fim, de Gênesis a Apocalipse. Em contrapartida Carriker, no final do livro, quando escreve sobre a teologia de missões no Novo Testamento, deixa a desejar em termos de sua profundidade, pelo menos em comparação com sua exposição do Antigo. Basta uma olhada no sumário para confirmar esta hipótese. O autor dedica 178 páginas ao Antigo Testamento e apenas 90 ao Novo. Quanto ao estilo, Missão Integral se dirige a uma audiência acima da média dos membros de igrejas evangélicas, ou até mesmo dos que se encontram em cursos de Bacharel; isto para não dizer que se dedica a um público relativamente erudito. No entanto, cada capítulo tem um resumo, junto com algumas perguntas para discussão no final, pontos que ajudam na compreensão. Recomendo Missão Integral aos estudantes sérios da Teologia Bíblica de Missões. *** CARRIKER, C. Timóteo. Missões na Bíblia: Princípios Gerais. São Paulo: Ed. Vida Nova, 1992, 70 p. Resenha por Donald C. Price. Missões na Bíblia é uma espécie de versão "light" de Missão Integral. De fato, é uma reedição de uma série de artigos publicados na revista Ultimato entre 1983 e 1986 pelo mesmo autor. Recomenda-se para uma classe de Escola Bíblica Dominical ou alguém que deseja estudar os princípios bíblicos básicos de missões. Embora enfoque mais nitidamente o Novo Testamento, não se esquece do Antigo.

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