Revista Capacitando para Missões Transculturais #4

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A FORMAÇÃO DO CARÁTER NO PREPARO DO LÍDER CRISTÃO
Durvalina Barreto Bezerra Durvalina Barreto Bezerra tem estado envolvida no preparo missionário por muitos anos. Uma das primeiras escolas a se preocupar com preparo missionário foi o Instituto Bíblico Betel Brasileiro em João Pessoa, onde Durvalina era a deã acadêmica. Atualmente Diretora do Seminário Betel Brasileiro em São Paulo, Coordenadora Geral do Ensino do Instituto Bíblico Betel Brasileiro, e Coordenadora da Rede de Mobilização de Mulheres de Ação Global no estado de São Paulo. Toda educação tem por fim a formação do caráter – de alcançar o homem na sua integralidade, com o objetivo de tornar o homem um cidadão útil à sociedade. A educação cristã, teomissiológica, tem uma proposta ainda mais desafiadora. Além de trabalhar com o individuo, com um ser psico-social, afetivo e cognitivo, trabalha com um ser espiritual. Ela tem a responsabilidade de formar um caráter, não apenas nos moldes da sociedade, com os traços que delineiam os valores morais de um cidadão consciente, mas é responsável também pela formação de um caráter num nível muito mais elevado – “... Cristo em vós, a esperança da glória”; “... até que Cristo seja formado em vós”; “... até que todos cheguemos... à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Cl 1.27; Gl 4.19; Ef. 4.13). Até hoje os educadores tropeçam nesta árdua missão. Com todas as mudanças e inovações técnico-metodológicas no sistema educacional, ainda temos uma educação voltada para as funções intelectivas. Como educadores cristãos, nós também temos tropeçado, e, na verdade, formamos em um grau bem insignificante em comparação com o quanto informamos. Como “Platão pressupunha que passamos a conhecer a verdade através da razão, este conceito, traduzido em termos cristãos, relaciona a fé com atividade cerebral” (Bolt e Myers, 1989:19). Por que temos falhado na formação do caráter dos nossos alunos? A questão não seria o mau uso que fazemos das Escrituras? Segundo Timóteo 3.16-17 “Toda Escritura inspirada por Deus é útil, para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda a boa obra”. Até que ponto usamos os documentos divinos para a formação do caráter? Até onde promovemos a transformação dos nossos alunos pelo poder da Palavra? A Palavra de Deus é útil porque foi escrita para ser aplicada à vida diária. A sua finalidade é levar o homem de Deus a perfeição em Cristo, torná-lo capaz de satisfazer os requisitos de um bom ministro de Cristo, trabalhado no caráter, aperfeiçoado nas virtudes, tratado nas vulnerabilidades, aprimorando no seu potencial. Neste artigo, decidimos abordar este tema em suas partes: (1) O Ensino que Forma e (2) O Contexto da Formação. O Ensino que Forma

Evidentemente não vamos falar sobre o conteúdo do ensino, porque todos nós ensinamos o que está escrito ou embasamos o ensino nas Escrituras. Nossa proposta não é, portanto, abordar o ensino da Palavra, mas o ensino na Palavra; não o ensino sobre a Verdade, mas o ser ensinado na Verdade; não ensinar acerca dela, mas processar o conhecimento na sua essência de Verdade. O Ensino que forma é o ensino comprometido com a verdade no íntimo. “Tu amas a verdade no íntimo e no recôndito me fazes conhecer a sabedoria” (Sl 51.6). Apresentamos alguns pontos ligados a esta verdade. • Não devemos ensinar a Verdade Isolada no Texto

A verdade isolada do texto se constitui de fórmulas éticas e morais, de repetição do pensamento pré-elaborado, da memorização e conceituação do conhecimento divino. Chamaríamos este ensino de doutrinação, que priva o indivíduo de pensar e do direito de compreender. É a forma tendenciosa e dogmática de ensinar. • Não devemos ensinar a Verdade desassociada da vida

A verdade desassociada da vida é limitada a um plano teórico-nacionaldissertativo, distante da realidade do aluno, obedecendo apenas a uma sessão normativa de conceitos, para a vida, mas sem vida, sem condições de aplicação direta. É ensino da letra, bem contrastado entre o ensino dos escribas e o ensino de Cristo. • O Ensino Da Verdade Confronta A Personalidade E Revela As Intenções De Coração.

A palavra de Deus é viva e eficaz,... Apta para discernir os pensamentos e propósito do coração (Hb 4. 12). Na prática da reflexão da Palavra, o aluno deve saber o que o texto diz a sua verdade pessoal. “Esquadrinhas o meu andar e o meu deitar e conheces todos os meus caminhos” (SL 139.2). A verdade focaliza os lugares de reparo, trata com as causas e não com as conseqüências, traz à memória a rachadura da construção da personalidade reativa a consciência para o julgamento pessoal. “O homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém” (I Co 2.15). O professor não deve contentar-se com a quantidade do programa passado nem com o sucesso da metodologia usada, mas com o nível de compreensão ajustada à personalidade do aluno. Esta compreensão se dá no nível da consciência, tocando pela verdade as atitudes às vezes de forma feroz reprovando, às vezes suave, aprovando. Paulo chamou o testemunho da sua consciência para provar aos Coríntios a sinceridade e a simplicidade de Deus em sua vida (I Co 1.12). É o homem interior que se avalia à luz do ensino e testifica a autenticidade do caráter cristão. Ensinar a verdade para tocar a consciência é treinar a faculdade íntima para discernir o bem e o mal. Digo como o escritor de Hebreus 5.14: “...as faculdades exercitadas para discernir tanto o bem como o mal”. Não o mal do bem, este qualquer ser moral pode distinguir, mas o bem que é mal, por não ter a aprovação divina, ou o mal que é bem, para a lapidação pessoal. O conteúdo transmitido não pode ser um fim em si mesmo. O aluno alcançado e transformado pelo conhecimento, é o objetivo do ensino, que tem por fim a glória de Deus.

O Ensino Da Verdade Busca A Identidade Real.

Já não vivo eu, mas Cristo vive em mim (Gl. 2.20) Quem ensina a verdade tem compromisso de reproduzir o caráter divino no humano. È formar a consciência de ser e existir em Deus, de ter nele a razão, a origem, o meio e o fim da existência. Não é ensinar para fazer bem, instruir para produzir, mas ensinar a ser, que tem como conseqüência o fazer que produz. O ser identificado com Cristo, possui o perfil de virtudes que são aprendidas na experiência pessoal, no processo de santificação e abstração de si mesmo para a formação dEle. È viver acima da natureza humana, superando cada fraqueza para que a natureza divina seja desenvolvida. Jesus, a “si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se semelhança de homem” (Fp 2.7). A identificação com Cristo é o modelo da transparência divina que projeta a imagem da personalidade real. “Somos transformados de glória em glória na mesma imagem como pelo Espírito do Senhor” (2 Co 3.18). É ter em si o testemunho de Cristo confirmado na vida pessoal, e a confirmação de Cristo no nosso testemunho (I Co 1.6-8). Ensinar a busca da identidade em Deus é incentivar o aluno a manter uma íntima com Cristo pela oração e meditação da Palavra, no seu momento a sós com Deus. É reforçar sempre, que a “nossa suficiência e capacidade vem de Deus (2 Co 3.5), para preveni-los da vaidade, própria da aquisição do saber” “...O saber ensoberbece” lembra-nos Paulo em 2 Coríntios 8.1, e permitir que a graça seja a geradora de todo o potencial que precisamos ter, e a honra, tributo somente a Deus oferecido. • O Ensino Que Forma O Caráter É O Ensino Que Faz Conhecer A Deus E Não Saber Sobre Ele

O ensino que forma o caráter leva ao conhecimento pessoal de Deus que alcança a mente, as emoções e a vontade. “Por mais que sejam verdadeiros os pensamentos do homem acerca de Deus, se ele ignorar a parte emocional, na realidade não conhece o Deus que ocupa a sua mente”. (J.I. Packer, 1980:33). Todo processo de ensino-aprendizagem deve conter três elementos: o cognitivo; o afetivo e o motor. Cognição, emoção e prática. È preciso passar da mente para o coração, do mundo pessoal para o social, do abstrato para o concreto. O Senhor Jesus, quando ensinava conduzia a mente a questionar e a indagar, porque aguçava o raciocínio e promovia a compreensão. Disse Pedro, “Senhor, para quem iremos nós, só Tu tens a Palavra de vida eterna” (Jô 6.68). Ele estimulava o desejo, aflorava o sentimento e “... as multidões se maravilhavam da sua doutrina” (Mt 7.28). Ele desafiava a ação. “Compreendeis o que vos fiz, como eu vos fiz, fazei vós também” (Jô 13.15). O ensino exposto deve ser autenticado na emoção e na ação. “Todo conhecimento precisa ser aplicado, não fazer isso é pecado” (Martin Lloyd Jones, 1993:61). Todo conhecer deve ser percebido no nível dos sentidos. O Deus Pai de todos, é o meu Deus de quem sou e sirvo. O Deus que comissiona, não quer apenas ser obedecido, mas, amado. “Pedro, tu me amas... Apascenta as minhas ovelhas” (Jô 21.1517). Conhecer a Deus é necessariamente amá-lo. Podemos aprender sobre Deus, mas nunca vamos conhecê-lo se a nossa alma não se comove com a revelação da sua graça, se não somos tocados por sua bondade, e se não nos relacionarmos com Ele como uma personalidade inteira. A teologia de Jesus é fundada, expressa e entendida numa relação íntima, amorosa e sensível com o Pai. A teologia paulina é pontilhada por interação profunda

com a compaixão de Deus. A teologia joanina exclui toda a prática religiosa, toda piedade humana ao conhecimento do amor ao Deus revelado na Escritura e comover o coração de “estranháveis afetos” de compaixão pelo pecador perdido. Um grande mal da educação medieval foi apelar para a razão como se ela fosse a única produtora do conhecimento. O conhecimento adquirido era comprovado pelo conhecimento exposto. Hoje a educação busca provar o conhecimento pela experiência vivida. A Escritura nunca foi diferente. O conhecimento só é conhecimento quando produz vida. “A vida eterna é esta, que te conheçam a Ti como único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo a quem enviaste” (Jô 17.3). • O Ensino Da Verdade Promove Um Caráter Provado

Falando sobre Timóteo, Paulo diz: “E conheceis o seu caráter provado,...” (Fp. 2..20-22). Provado na Palavra para ser aprovado por ela. Para formar um obreiro maduro, Deus testa na Palavra. Não um teste de avaliação quantitativa, quando sabemos sobre ela, mas um teste de qualidade, quanto vivenciamos dela. Os grandes homens de Deus foram testados na Palavra (Sl 105.17-19). A Palavra de Deus os provou. Provou pela Palavra significa confessar a sua veracidade, quando a situação vivida não entra em concordância com ela. É confessar que o Senhor supre cada uma das necessidades e estar em privação, para “aprender a viver contente em toda e qualquer situação”, aprender a satisfação em Deus e não em bens materiais. “Tanto sei estar humilhado como honrado, de tudo em todas as circunstâncias já tenho experiências” (Fp 4.11-12). É aprender a ter motivação em Deus não nas situações ou apreciação humana. Treinar na Palavra é ensinar o exercício da piedade (I Tm 4.7). O alvo é ser provado pela Palavra na esperança do seu cumprimento. Mesmo quando o tempo do cumprimento se distancia da voz profética e o cenário de operação parece contrário, o servo de Deus afirma a promessa. Abraão recebeu a Palavra de possuir a terra por herança, mas peregrinou na terra da promessa como em terra alheia (Hb 11.9). O treinamento na Palavra é um teste de fé. Se nossos alunos são ensinados na Palavra no fim do curso, sua fé deve ter sido desenvolvida, porque a fé vem pelo ouvir e ouvir a Palavra de Deus. Provado na Palavra na percepção pessoal é aquela que é testado no manejo das Escrituras, naquilo que lhe diz respeito. É identificar no texto os propósitos estabelecidos por Deus para a sua vida e ministério. Jesus se via nos profetas e nos salmos. Ele entrou na sinagoga e disse “Hoje se cumpriu esta Escritura” (Is 61.1). O relacionamento com a Palavra nos identifica com ela e faz o confronto do nosso espírito com o Espírito dela. Ela é o nosso espelho. Enganamo-nos quando procuramos o texto para que ele confirme nossas decisões e reforce nossos valores. Moisés se via o introdutor do povo na terra prometida, mas o Senhor lhe disse “Tu nela não entrarás” (Dt 34.4). Davi se via o construtor de uma casa para Deis e fez grandes preparativos, mas o Senhor lhe disse: “Tu não edificarás casa a meu nome” (I Cr 22.10). Perceber-se a si mesmo na Escritura é descobrir os propósitos pré-estabelecidos por Deus para o cumprimento da vocação. “Há diversidade de ministérios, mas é o mesmo Espírito que distribui particularmente a cada um como quer” (I Co 12.5 e 11). Jesus andou em obediência a Palavra e tudo que fez foi para que se cumprissem as Escrituras (Lc 22.44; Mt 26.54). O treinamento na Palavra é fazer o aluno ver o que o texto diz a seu respeito, e ensiná-lo a buscar a revelação da Palavra com um coração humilde e disposto a obedecê-la (Mt 11.26-27). “Graças te dou ó Pai... porque revelaste aos pequenos” (Mt

11.26-27). “Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, conhecerá a respeito da doutrina...” (Jô. 7.17). O Contexto da Formação • Mediando O Aluno Com Seu Contexto De Vida

A formação do caráter é uma aprendizagem que se processa na relação do homem com meio e com o outro. O educador deve aproveitar as oportunidades, as várias situações e circunstâncias do cotidiano, para fazer a aplicação do conceito aprendido e nas experiências vividas. É através da experiência que o conceito se transforma em atitudes, valores e virtudes. As concepções pedagógicas dizem: “Quem não se deixa transformar não se deixa aprender”. É um princípio pedagógico. Quanto mais dura dor a experiência mais lições haverá. O professor não deve provar o aluno de situações conflitantes porque é nelas que a aprendizagem se cristaliza. O que for aprendido na percepção intelectiva, passa a ser aprendido nas percepções cognitivas, afetivas e espirituais. É quando ao aluno deixa de ser possuidor do conhecimento para se possuído por ele. A Palavra nos ensina que o divino Mestre, Jesus, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu (HB 5.8). “Tudo que foi exigido dEle foi formado nEle” (Turnbill, 1954:121). “O Pai não poupou-lhe das oposições, mas o forjou na fornalha tornando-o obediente até a morte... O requisito do discipulado de Cristo é a renuncia e o sacrifício. Ele mesmo dedicou-se ao processo de crescimento pessoas e ministerial (cf. Lc 2.5152). Quando falamos em processo, lembramos que a formação do caráter não se dá instantaneamente. É um acumulo de experiências que se aprofundam, conhecimentos aprendidos e apreendidos que se integram. São percepções que se aprimoram. O educador que se propõe à formação não pode ter pressa. Enfrentamos um grande desafio no mundo da Internet e globalização cultural, a tentação de fazer as coisas acontecerem instantaneamente. Entristeci-me profundamente ao ouvir o que um pastore disse publicamente: “Se vocês querem fazer a igreja crescer, aprenda comigo o marketing na igreja, não é preciso fazer teologia”. Temos que optar pelo trabalho com a personalidade humana, conscientes de que o produto divino, delineado pela mão do divino Oleiro, é o melhor instrumento para a revelação do amor de Deus aos homens, conduzindo-o a uma experiência real, não virtual, levando-o a inserir-se na comunidade dos salvos. Não podemos aderir a tentação de mecanismos instantâneos; o Deus que trabalha no caráter humano,a través de nós, é Deus da natureza. As árvores mais fortes, de raízes profundas, não nascem da noite para o dia. Jesus, o homem perfeito, esperou trinta anos para iniciar seu ministério. Falando sobre o povo de Judá, Isaías diz: “... lançará raízes para baixo e dará fruto para cima” (2 Rs 19:30). O aluno deve ser ensinado a crescer para baixo, quanto mais profunda for a raiz mais segura será a produção dos seus frutos. No principio divino, a promoção ao “muito” depende da fidelidade no “pouco”. • Mediando O Aluno Nas Relações Interpessoais

O primeiro passo, para um bom crescimento através dos relacionamentos é a aceitação de si mesmo. Nem sempre nossos alunos têm conhecimento real de si mesmo. O “conhece - te a ti mesmo” merece um enfoque do professor, para estimular a busca da percepção correta e equilibrada de si mesmo. A auto-estima é importante para o

relacionamento pessoal e interpessoal, mas nem sempre ela está equilibrada. Às vezes o aluno se subestima e a depreciação com relação às fraquezas bloqueia a personalidade. Outros se superestimam e também afeta a relação e a produção do serviço. “O homem é inconformado com a sua infinitude. Acreditamos mais facilmente em descrições elogiosas do que depreciativas da nossa pessoa” (Bolt e Myers, 1989:46) Reconhecer o potencial e admitir as limitações é imprescindível para uma visão correta de si mesmo, e a busca do equilíbrio. “Não pensando de si além do que convém...” (Rm 12.3), nem desapreciando o que tem. “Pela graça de Deus sou o que sou” (I Co 12.10). Ser autentico para afirmar o que recebeu e ser autentico para ver no outro o que não recebeu. Ser cuidadoso com a tendência do otimismo irreal, da humildade hipócrita e da vaidade própria da natureza humana. A Escritura ensina a não fazermos comparações com os outros e não nos medirmos conosco mesmos (2 Co 10.12). A formação da imagem real esta atrás da nossa realidade. A auto-compreensão e o estudo da personalidade humana ajuda a entender a personalidade, mas só a comunhão com Senhor Jesus garante a visão real do que somos para a formação do que Ele é. O Segundo passa é a aceitação do outro. O caráter é formado nas relações interpessoais. O outro é o espelho de si mesmo. O educador deve promover trabalho em equipe, interação com a classe, para favorecer a aceitação do outro na sua forma peculiar de ser, para entender a complementaridade na diversidade dos potenciais e limitações da natureza humana. Não é necessário que nossa disciplina seja relações humanas, psicologia social ou matéria devocional, é possível aproveitar o conteúdo de qualquer disciplina e as diferentes metodologias para ampliara a relação do eu com outro. “O ensino tem a função de permitir uma tomada de consciência pessoal no ajustamento do individuo com o outro” (Gadott, 1985:66) A compreensão de Deus e do mundo espiritual nunca pode estar desassociada da compreensão do próximo, e as variadas formas da graça divina necessita de variados tipos de personalidades para expressar-se. A Escritura diz: “Para que possais compreender com todos os santos...” (Ef. 3.18-19). A compreensão se dá com todos os santos e a realização do serviço sagrado é de formar mutua. “Servir uns aos outros conforme o dom que recebeu” (I Pe 4.10). “Este é o principio divino bem clarificado na humanização de Cristo “quem vê a mim vê o Pai” e “tudo que deixaste de fazer a um dos pequeninos foi a mim que deixaste de fazer” (Mt. 25.45). Eu – Ele, Eu – os pequeninos “Para que todos sejam um, como tu ó Pai, o és em mim eu em ti. Que eles também sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jô 17.21). O educador que se propõe a ensinar para a formação do caráter deve crer que a sua tarefa é seguida pela ação do Espírito Santo, o único capaz de transformar vidas. Bibliografia Bolt, Martin e Myers, David. Interação Humana. São Paulo: Ed. Vida Nova, 1989 Gadotti, Moacir. Comunicação Docente, São Paulo: Ed Loyola, 1985. Lloyd – Jones, D M. Os Puritanos: suas origens e seus sucessos, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1993 Packer, J.I. O conhecimento de Deus, São Paulo: Ed. Mundo Cristão, 1980. Turnbull, M. Ryerson. Estudando o livro de Levítico e Hebreus, Ed. Presbiteriana, 1954

A Contextualização do Ensino da Bíblia
Rosemary Harley David e Rosemary Harley são verdadeiros viajantes. Nascidos na Inglaterra, os dois foram missionários na África entre judeus e muçulmanos. Ensinaram em All Nations Christian College em Londres onde David se tornou Diretor por um tempo. Recentemente os dois têm viajado para muitas terras, inclusive para o Brasil, ensinando como ensinar missões. No momento estão em Cingapura continuando seu ministério no treinamento missionário. Este artigo foi escrito a pedido de alguns alunos de Mestrado da Faculdade Teológica Batista de São Paulo, após algumas aulas administradas usando esta metodologia de contextualização no ensino da Bíblia. “Não posso acreditar em um Deus que pediu que pessoas fossem matar animais para o agrado dEle!" Na Grã Bretanha muitas pessoas consideram animais mais importantes do que seres humanos. O conceito de sacrifício e o derramamento de sangue é bastante estranho. Numa campanha evangelística entre essas pessoas, o livro de Levítico não seria o lugar apropriado para começar! Apesar do interesse que muitas pessoas têm na árvore genealógica da sua própria família, genealogias como em Mateus 1 são monótonas. Com estas pessoas, passamos por cima da genealogia e começamos com a história bem conhecida e amada do nascimento do nenê Jesus. Vamos supor que vou para Quênia e ensino a Bíblia para uma tribo perto da fronteira com Etiópia. Descubro que o povo ali tem uma prática que é muito semelhante daquilo seguido pelo povo de Israel no Dia da Redenção. Escolhem um bode e cada membro da tribo coloca as mãos sobre sua cabeça. Então, o bode é sacrificado, e todas as possessões da tribo são marcadas com o sangue do bode como um rito de purificação. Para esta tribo, o livro de Levítico é um ponto adequado para o início do ensino da Bíblia. Também descubro que, entre esta tribo nômade, a primeira coisa que os pais ensinam a seus filhos é a lista dos nomes do seu pai, avô e bisavô até a quinta geração. Após decorar a lista, continuam até a décima geração, e depois até à décima quinta geração. Este povo nômade por certo terá muito interesse na genealogia de Jesus. A genealogia se torna a prova que Ele é uma pessoa verdadeira e histórica. Se estamos ensinando a Bíblia num contexto latino-americano, precisamos estar atentos às palavras, conceitos e idéias que podemos enfatizar para uma boa compreensão. Outros precisarão de uma explicação cuidadosa para evitar um malentendido. Alguns conceitos nas Escrituras são especialmente benéficos na evangelização, enquanto outras partes da Bíblia serão de especial ajuda no encorajamento de novos crentes para edificá-los na fé. Muitos cresceram vendo a imagem de Jesus pendurado numa cruz. Conhecem Jesus, o sofredor, o crucificado. Nosso ensino precisa enfatizar o Jesus ressurreto, vitorioso, que está vivo e que está conosco sempre - uma viva esperança num mundo inseguro. Para o menino de rua que fugiu de pais abusivos ou um pai alcoólatra, será necessário explicar o caráter de Deus como um pai bom, amoroso e justo, muito diferente da sua experiência com seu pai. Em nossos seminários e centros de treinamento missionário, é importante encorajar os alunos a estarem atentos aos seus próprios contextos, e relacionar-se à prática de evangelização e ensino de uma forma apropriada. No entanto, é importante também que o treinamento inclua oportunidades para que eles estejam atentos a outros contextos em que poderiam ministrar. Nossas cidades têm muitos grupos étnicos imigrantes de todos os continentes do mundo. Nossas regiões rurais têm povos indígenas com culturas e cosmovisões diferentes. Os alunos precisam estudar as principais religiões, como Islamismo, Hinduísmo, Budismo, Judaísmo e as religiões

tradicionais, porém precisam também enxergar a relevância destes contextos para sua evangelização e o ensino das Escrituras. Se estou estudando a Bíblia com pessoas com fundamento muçulmano ou judaico, não começo com textos que falam de Jesus como o Filho de Deus. Num contexto muçulmano posso começar com Gênesis — Deus como Criador, e os Patriarcas. Depois eu poderia continuar falando de Deus como Redentor do Seu povo no livro de Êxodo, para depois seguir para os profetas, que já conhecem do Alcorão. Após tudo isso, continuaria para estudar a vida de Jesus, talvez do Evangelho de Lucas. Eu encorajaria as pessoas com fundamento judaico a ler o Evangelho de Mateus para ver quem era Jesus, o que fazia e ensinava, e como cumpriu as profecias do Antigo Testamento. Como Preparar os Alunos para a Tarefa Como professores, precisamos criar métodos para encorajar nossos alunos a terem sensibilidade contextual. Um método é escolher um texto da Bíblia e pedir que os alunos imaginem que estão estudando num certo contexto cultural definido. Podem escolher um contexto brasileiro, de fundamento católico romano, um grupo de índios do Chaco, hindus, budistas, chineses, japoneses, ou um recém convertido de Islamismo. Os alunos terão de responder duas perguntas: 1. Que palavras, frases, ou conceitos precisariam de uma explicação maior caso contrário, o povo receptor poderia tirar conclusões erradas sobre o texto devido ao pano de fundo do seu contexto? 2. Que palavras, frases, ou conceitos seriam especialmente bem entendidos no contexto com uma ênfase especial? Podemos usar 1 Pedro 1.3-9 como um exemplo. Imagine que estamos estudando com um grupo de pessoas interessadas, ou com novos convertidos, num contexto hindu da Índia. Quais os termos que podem receber uma má-compreensão e necessitariam de uma explicação cuidadosa para evitar confusão? Talvez para nós o conceito do novo nascimento é aquilo que nos libertou que nos deu uma vida nova - Jesus providenciou no novo nascimento uma chance de começar de novo, livre da penalidade do pecado, com um novo relacionamento com Deus que não pode ser quebrado pela morte. No entanto, para o hindu o conceito de um novo nascimento, nascer de novo, pode não ser boas novas. É justamente disso que querem ser livres — o ciclo sem fim de nascer de novo, a constante preocupação que se não fizerem o bem suficientemente, eles voltariam a nascer de novo como um animal. (Se são homens, podem se preocupar que nasceriam de novo como mulheres!) Há muitos outros termos, palavras e frases que podem ser usados, como "salvação para suas almas", que não necessitaria maiores explicações e não traria o perigo da interpretação errada. Outros versos podem encorajar as pessoas de uma forma especial. Entre hindus, sofrimento é visto como um castigo para pecado na vida anterior, mas nos versos 6-7 Pedro explica aos leitores que Deus permite o sofrimento como uma prova da sua fé, e que no dia quando Cristo for revelado, serão louvados porque foram fiéis mesmo no sofrimento. O sofrimento não é apenas negativo. Para os pobres do mundo que seguem as religiões tradicionais, a idéia de uma herança no céu, guardada para eles, que não pode apodrecer ou desaparecer, seria de grande encorajamento. Talvez não entendam bem a frase "Deus e o Pai do nosso Senhor Jesus Cristo". Talvez o intérprete como um Deus entre muitos, o espírito ancestral de Jesus. A ressurreição de Jesus poderia ser seu espírito voltando como os outros ancestrais. Discussão e explicação seriam necessárias. E assim poderíamos continuar com outros exemplos - trabalhando com uma passagem para grupos diferentes, escolhendo diferentes textos e aplicando as mesmas perguntas. Assim que ensinarmos e treinarmos estudantes, precisamos mostrar que

nosso próprio ensino bíblico demonstra sensibilidade ao contexto cultural dos alunos, e não apenas repete o que nós aprendemos, e a maneira que aprendemos em nossos contextos onde estudamos. Enquanto ensinamos, temos que encorajar nossos alunos para não somente se apropriar o ensino bíblico e teológico para o contexto de onde vieram, mas também para o contexto, ou contextos, onde estarão ministrando no futuro.

A Categoria Cristã na Tarefa Missionária
Paul Hiebert Paul Hiebert é um missiólogo contemporâneo que fala e escreve de uma forma sensata e equilibrada. Conhecedor das questões missiológicas em nossos dias e em nosso contexto, Hiebert relaciona verdades bíblicas com a realidade missionária atual. Após anos de trabalho missionário na Índia com a missão Menonita e depois como professor de Antropologia na Universidade de Washington e Fuller School of World Evangelism, Dr. Hiebert é agora titular do departamento de Missões no Trinity Evangelical Divinity School. Pode um peão analfabeto tornar-se cristão após ouvir o Evangelho apenas uma vez? Se for possível, o que significa conversão? Imagine, por um momento, Papayya, um peão indiano, retornando ao seu vilarejo após um dia de duro trabalho na roça. Enquanto a sua esposa prepara o jantar, ele vai à praça para passar o tempo. Ali nota um estrangeiro cercado por alguns curiosos. Cansado e com fome, ele se assenta para ouvir o que o homem está dizendo. Por uma hora ele ouve a mensagem sobre um novo Deus, e algo estranho comove profundamente o seu coração. Mais tarde ele pergunta ao estrangeiro sobre a mensagem e este novo caminho. O mensageiro explica que Deus se revelou em forma de um homem chamado Jesus, e pede para ele aceitá-lo como Salvador. Quase como por impulso, ele abaixa a cabeça e ora a este Deus em nome de Jesus. Não entende muita coisa. Como um hindu ele adorava Vishnu, que se encarnou muitas vezes em forma de homem, animal, ou peixe para salvar a humanidade. Papayya também conhece muito dos 33 milhões de deuses hindus. Mas o estrangeiro diz que há apenas um Deus verdadeiro e que este Deus apareceu entre os homens somente uma vez. Além disso, o estrangeiro diz que este Jesus é o Filho de Deus, mas não fala nada sobre a esposa de Deus. É tudo confuso para Papayya. Papayya volta para a sua casa e um novo conjunto de perguntas enche a sua cabeça. Ele ainda pode ir ao templo hindu para orar? Deve contar sobre a sua nova fé para a família? Como pode aprender mais sobre Jesus, pois não pode ler os poucos papéis que o estrangeiro lhe deu para, e não há outros cristãos por perto? O estrangeiro vai voltar? Diferenças Culturais e Conversão Neste ponto, Papayya é um crente? Ele pode tomar-se um crente em Cristo após ouvir o Evangelho apenas uma vez? É claro que nossa resposta tem que ser "sim". Se uma pessoa tem que ser instruída profundamente, ter conhecimento extensivo da Bíblia, ou viver uma vida sem problemas antes ! De se converter, as boas novas servem apenas para alguns poucos. Mas, qual é a mudança essencial que acontece quando alguém como Papayya responde com uma fé simples à mensagem do Evangelho? Certamente adquiriu alguma informação nova. Ouviu sobre Cristo e a Sua redenção na cruz, além de uma ou duas histórias sobre a sua vida aqui na terra. Mas, o seu conhecimento é mínimo. Papayya não poderia passar pelo mais simples teste de conhecimento bíblico ou teológico. Se o aceitamos como irmão, não estamos abrindo a porta para a "graça barata" e uma igreja apenas nominal, cheia de crentes superficiais? Para complicar a situação ainda mais, Papayya entende o conhecimento que adquiriu de uma forma radicalmente diferente da intenção do missionário. Por exemplo, os que falam inglês, falam sobre God, ou, em português, Deus. Mas, sendo alguém que fala a língua Telugu, para Papayya Deus é devudu. Devudu, no entanto, não tem o mesmo significado da palavra em inglês, God, ou em português, Deus, como também

estas palavras não correspondem exatamente com a palavra theos que foi usada pelos missionários do Novo Testamento grego. Os falantes de inglês dividem seres viventes em dois domínios básicos (veja figura 1). No primeiro domínio, seres sobrenaturais incluem Deus, anjos, Satanás e demônios. O segundo domínio está dividido em categorias diferentes: seres humanos, animais, plantas, e objetos inanimados como areia e pedras. Neste sistema de classificação, Deus é categoricamente diferente de seres humanos, e seres humanos são categoricamente diferentes de animais, plantas e matéria sem vida. Encarnação significa que Deus atravessou estas diferenças categóricas entre ele e os humanos. Os que falam telegu, por sua parte, não diferem entre os tipos de vida (figura 1). Para eles todas as formas de vida são manifestações de uma única força vital: deuses, demônios, humanos, animais, plantas e até o que

parece ser objetos inanimados. Todos têm o mesmo tipo de vida. Com certeza, para eles, os deuses têm mais vida do que humanos, e humanos mais que animais ou plantas. Porém não há diferença categórica entre deuses e humanos, ou entre humanos e animais. Após a morte, os bons humanos renascem como deuses, e os deuses pecadores, como animais ou formigas. Mais ainda, deuses repetidamente vêm à terra como avatares (mais ou menos traduzido como encarnações) para ajudar os homens, assim como os ricos condescendem a ajudar os servos deles. Para piorar a situação, os deuses no hinduísmo não são considerados parte da realidade última. Fazem parte da criação, ou tecnicamente, são manifestações da realidade última, que é uma força ou um campo de energia cósmica. Por isso não existe uma palavra em telegu que expressa essa realidade como um ser. O fato é que cada

língua expressa a cosmovisão da sua cultura. Não há uma linguagem filosófica - ou teologicamente neutra. Então temos que perguntar, não somente que conhecimento Papayya deve ter para se converter, mas também se este conhecimento tem que ser percebido de certa forma, do ponto de vista de uma cosmovisão particular. Papayya deve aprender o significado em inglês ou grego de Deus antes de se tornar cristão, ou pode experimentar a salvação mesmo com uma compreensão bastante imperfeita do conceito de Deus?1 Sendo difícil medir os conceitos e crenças de uma pessoa, não seria melhor testar a sua conversão, olhando para certas mudanças na sua vida? Não poderíamos definir um crente em Cristo como uma pessoa que vai à igreja aos domingos, e que não bebe nem fuma? Assim também a mudança de Papayya na sua conversão pode não ser muito dramática. Não há igreja para freqüentar. O pregador itinerante vem poucas vezes ao ano. Papayya não sabe ler as Escrituras. Sua teologia se acha nos poucos hinos cristãos que ele aprendeu a cantar. Com certeza, ele não vai mais ao templo hindu para louvar os deuses; em vez disso oferece incenso a uma pintura de Cristo. Fora disso, a sua vida continua a mesma. Ele continua com o mesmo emprego ligado com sua casta, ainda fuma de vez em quando, e vive mais ou menos como os outros moradores do seu vilarejo. É um crente de verdade? Tipos de Categorias O que significa ser um cristão? Antes de responder a esta pergunta, temos que olhar com mais cuidado a maneira como formamos categorias, como cristão e igreja. Estas palavras, como muitos outros substantivos em português, referem-se a conjuntos de pessoas ou coisas que agrupamos baseados em uma razão ou outra. Referem-se a categorias que existem em nossas mentes. Mas, a maneira como formamos estas categorias influencia profundamente a compreensão que temos delas. Pesquisas contemporâneas em matemática demonstram que podemos criar categorias de várias maneiras, cada uma com as suas próprias características e lógica. Examinaremos quatro maneiras de como formar categorias e como cada uma afeta nossa compreensão de conversão, igreja e missão cristã. Duas variáveis são essenciais para definir uma categoria. A primeira está ligada ao fundamento sobre o qual os elementos são designados como parte de uma dada categoria. Conjuntos intrínsecos são formados baseados naquilo que é a natureza essencial dos próprios membros - naquilo que são na sua essência. Por exemplo, maçãs são objetos comestíveis que são "redondos, vermelhos ou amarelos que crescem da árvore rosáceas".2 A maioria dos substantivos em português ou inglês, bem como a maioria dos conjuntos em álgebra moderna, é conjunto intrínseco. Conjuntos extrínsecos, ou relacionais, são formados no relacionamento com outros objetos ou com um ponto de referência, não sobre o fundamento de que os objetos são. Por exemplo, um filho e uma filha são filhos de um pai e de uma mãe. Se são filhos dos mesmos pais, são irmão e irmã, não por causa do que são intrinsecamente, mas por causa do seu relacionamento com um ponto de referência em comum — os seus pais.3 ----1

A cosmovisão de muitos cristãos do mundo ocidental, e a cosmovisão dos gregos em que está baseada, são subcristãos em caráter. No sentido da cosmovisão bíblica, colocar Deus na mesma categoria que anjos e demônios (seres sobrenaturais, contra seres naturais como homens a animais) é um sacrilégio máximo. Anjos e demônios fazem parte da criação. Deus é o único Criador. 2 "Maçã", no dicionário Random House Dictionary of the English language, 2d unabridged ed. (New York Random House, 1987). 3 É difícil achar exemplos de categorias extrínsecas em português porque é, como matemática moderna, baseado numa cosmovisão grega que procurava definir a realidade em termos da essência das coisas.

A segunda variável na formação de categorias está ligada com os seus limites ou fronteiras. Conjuntos delineados têm limites, ou divisas, rigidamente definidos. Ou os objetos pertencem, ou não pertencem. 4 Conjuntos indefinidos não têm limites ou divisas bem definidas. As categorias fluem de um para outro. Por exemplo, o dia se torna noite, e uma montanha se torna numa planície sem uma transição clara. 5 Se combinarmos estas duas variáveis, temos quatro tipos de categorias (veja a figura 2). Cada um desses tipos de categorias reflete e cria certa visão de realidade, e certa lógica - uma cosmovisão distinta. Como crentes em Jesus Cristo, temos que conhecer estas cosmovisões e como influenciam nosso entendimento, ou não entendimento, das Escrituras. Como missionários, temos que compreender a maneira como as categorias usadas na cultura afetam as perguntas das pessoas. Interrogações sobre a natureza do cristianismo, a contextualização, e a relação entre religiões serão influenciadas pelas categorias existentes entre o povo ouvinte.

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Conjuntos bem formados são conjuntos digitais em que X pode ser apenas 0 ou 1 (x.x=f[O,l]). Consequentemente um objeto não pode pertencer às categorias A e diferente-de-A ao mesmo tempo. Isso se chama de "lei do meio excluído". 5 Conjuntos indefinidos são analógicos em que X pode ter qualquer valor de 0 a 1, como .015, .289, ou . 6883751 (x-x=(fl 0 ->1). Consequentemente o limite é um conjunto infinito de pontos entre a entrada e a saída. Um membro pode, portanto, pertencer aos conjuntos A e diferente-de-A ao mesmo tempo. A lei do meio excluído não se aplica aos conjuntos indefinidos.

Conjuntos Intrínsecos Bem Definidos (Delineados) O matemático alemão, Georg Cantor, foi o pai da teoria de conjuntos intrínsecos delineados, uma das maiores façanhas da matemática do Século XIX. O seu ponto central é que uma coleção de objetos pode ser tida como uma entidade única (uma coisa só) se os objetos compartilham características que definem a entidade inteira. 6 Conjuntos bem definidos são aqueles em que é possível determinar se qualquer objeto é, ou não é, um membro do conjunto. Conjuntos delineados são a base da geometria e álgebra modernas. ♦ Características dos Conjuntos Delineados Conjuntos delineados têm certas características estruturais - eles nos obrigam a olhar para as coisas de maneiras definidas. A categoria maçã pode ser usada para ilustrar algumas das seguintes considerações: 1. Uma categoria é criada quando são alistadas as características essenciais necessárias para pertencer ao conjunto. Por exemplo, uma maçã é (1) um tipo de fruto que é (2) geralmente redondo, (3) vermelho ou amarelo, (4) comestível, e (5) produzido pelas árvores rosáceas. Qualquer fruto que se encontra dentro destas características (presumindo que tenhamos feito uma definição adequada) é uma maçã. 2. Uma categoria é definida por uma divisa clara. Ou a fruta é uma maçã, ou não é. Não pode ser 70% maçã e 30% pêra. O maior esforço em definir uma categoria se gasta em definir e manter a divisa da categoria. Não é suficiente dizer o que uma maçã é, temos também que distingui-la de laranjas, peras, e outros objetos semelhantes que pertencem ao mesmo domínio (fruta), mas não são maçãs. A pergunta central, no entanto, é, se um objeto está dentro ou fora da categoria. 3. Objetos dentro do conjunto delineado são uniformes em suas características — constituem um grupo homogêneo. Todas as maçãs são 100% maçã. Não há uma maçã mais maçã do que a outra. Ou uma fruta é uma maçã, ou não é. Pode ter vários tamanhos, contornos e variedades, porém todas são iguais já que todas são maçãs. Não há variação possível dentro da estrutura da categoria 4. Conjuntos delineados são essencialmente conjuntos estáticos. Uma maçã permanece uma maçã mesmo sendo verde, madura ou passada. A única mudança acontece quando nasce da flor ou quando não é mais maçã (e.g., quando alguém a come). A única possibilidade de mudança estrutural é uma mudança para dentro ou para fora da categoria. 5. Conjuntos delineados, como usados na cultura norte-americana, e muitas vezes na cultura brasileira, são conjuntos ontológicos. Estão ligados com categorias que são estruturas últimas, imutáveis, universais, abstratas. Esta visão nos leva a uma abordagem abstrato-analítica da lógica. Por exemplo, em um teste de QI, utilizando um retrato de três adultos e uma criança, excluímos a criança porque não pertence à categoria abstrata, adulto. ♦ A Cultura Ocidental como Conjunto Delineado Por causa de muitas das nossas raízes culturais, estamos mais familiarizados com conjuntos delineados. São a base da nossa cultura. Em português ou inglês nossos substantivos, como maçãs, laranjas, lápis e canetas são a matéria prima da construção da nossa realidade. Na maior parte são conjuntos intrínsecos e bem definidos. Um cachorro é um cachorro por causa daquilo que é, e um gato é um gato. Mais ainda, não há um ----6

Robert R. Stoll. Set Theory and Logic (San Francisco.- W.H. Freeman, 1963), 2.

meio-cachorro-meio-gato, ou dois-terços-cachorro-um-terço-gato Por causa de muitas das nossas raízes culturais, estamos mais familiarizados com conjuntos delineados. São à base da nossa cultura. Em português ou inglês nossos substantivos, como maçãs, laranjas, lápis e canetas são a matéria prima da construção da nossa realidade. Na maior parte são conjuntos intrínsecos e bem definidos. Um cachorro é um cachorro por causa daquilo que é, e um gato é um gato. Mais ainda, não há um meio-cachorro-meio-gato, ou dois-terços-cachorro-um-terço-gato. Usamos conjuntos indefinidos, no entanto, como meios de classificação (como adjetivos e advérbios) para modificar substantivos: verde, mais verde, o mais verde; rápido, mais rápido, o mais rápido. Entretanto percebemos a realidade fundamental da natureza em termos de substantivos do tipo conjuntos delineados. Por exemplo, no supermercado compramos mangas. Se alguém pergunta que tipo queremos, respondemos, "mangas maduras" (para hoje) ou "meio maduras" (para amanhã). Conjuntos delineados são fundamentais para a nossa compreensão de ordem. Queremos categorias uniformizadas. Na cozinha geralmente colocamos garfos no lugar dos garfos, facas no lugar delas e colheres em outro. Queremos que as paredes das nossas casas tenham uma cor uniforme. No quintal de nossa casa não queremos ervas daninhas tomando o lugar das flores. Usamos conjuntos delineados em música clássica. Há sete notas, e cinco semitons na escala. Cada um tem um tom fixo definido em termos de tamanhos de ondas musicais que produzem. Bons músicos podem acertar as notas com precisão e fazer escalas claras. Manter divisas é essencial num mundo de conjuntos delineados. Se não, as categorias começam a desintegrar-se, resultando em caos. No mundo ocidental usamos divisas para evitar o caos. Colocamos retratos, janelas e portas em molduras. Usamos molduras para cobrir espaços entre painéis na parede, ou para marcar divisas entre paredes. Homens usam gravatas para cobrir os botões e o ajuntamento da camisa na frente. Nas estradas e ruas pintamos linhas para separar o trânsito e mostrar onde a rua termina. Definimos limpeza, em grande parte, em termos de ordem. "Sujeira" no chão se torna "terra" quando jogado fora de casa. Flores entre a grama são "ervas daninha”. Paredes, roupas e carros são "sujos" se não for possível ver claramente a sua cor natural. Em tudo isso, limpeza está mais ligada à ordem do que ao saneamento. Estudiosos têm notado que nos Estados Unidos há a tendência de pensar em termos de opostos: em termos do bem em vez do mal, do rico contra o pobre, e de amigos contra inimigos. 7 Em filosofia seguem a lei do "meio excluído", que apóia a idéia de que algo não pode pertencer a categoria A e diferente-de-A ao mesmo tempo. Esta visão da realidade, baseado no conjunto delineado, é herança da cosmovisão grega. Filósofos gregos falavam sobre a natureza intrínseca das coisas e a natureza última, imutável da realidade. 8 Eles definiram esta realidade em termos de categorias claramente definidas. Na ciência moderna criamos inúmeras classificações de plantas, animais, partículas elementares, doenças, sistemas sociais, tipos de personalidade, etc., como se fosse possível fazer dessas taxonomias tipos universais. Também estamos preocupados com a objetividade impessoal no conhecimento científico. Subjetividade — o envolvimento do conhecedor naquilo que é conhecido — é visto como contaminante. Conhecimento objetivo é separado de sentimentos e valores, que são os últimos excluídos por serem de natureza relacional.
----7 Conrad M. Arensbeg e Arthur H. Niehoff, Introducing Social Change: A Manual for Community Development (Chicago- Aldine, 1971). 8 H. J. Dijksterhuis segue a pista das origens desta filosofia até os Gregos. Veja The Mechanization of the World Picture: Pythagorus to Newton, trans. C. D. Dikshoom (Princeton, N.J.: Princeton University Press, 1986).

Ocidentais entendem a lei como um conjunto de normas impessoais que se aplicam igualmente a todos os homens. Mentir é errado, não porque estraga relacionamentos humanos, mas porque viola um princípio universal. O culpado quebrou a lei e deve ser punido, mesmo se o castigo destrói relacionamentos e prejudica pessoas inocentes. Definimos justiça e piedade como viver dentro da lei, não como viver em harmonia com outros. ♦ O Cristão Como Conjunto Delineado O que acontece ao nosso conceito de cristão quando o definimos como um conjunto delineado? Primeiro, classificamos uma pessoa como cristã baseado naquilo que ele ou ela é. Devido ao fato de que não podemos olhar para dentro dos corações, temos que julgar olhando para as características externas que podemos ver ou ouvir. Geralmente começamos com um teste de ortodoxia, com uma afirmação verbal de crença em doutrinas específicas, como a divindade de Cristo e o nascimento virginal. Freqüentemente aumentamos testes de ortopraxia ou de comportamento correto. Procuramos evidências de fé na vida transformada das pessoas. Um cristão é alguém que não fuma, não joga na loteria, etc. Vamos voltar por um momento para Papayya. Se pensamos na categoria cristão como um conjunto delineado, temos que decidir quais crenças (em ambos os níveis de crenças explícitas e de cosmovisão) e práticas irão identificá-lo como cristão e distinguilo do não-cristão. Se fizermos uma lista suficientemente comprida para conseguir manter a ortodoxia e a pureza da igreja, é impossível para Papayya tornar-se cristão em uma noite, ou em um ano. Levará anos de treinamento cuidadoso para entender nossos testes teológicos em termos de cosmovisão bíblica. Poderíamos fazer uma lista curta para facilitar a entrada de Papayya, e outros, na categoria. Mas provavelmente seria uma lista descrevendo um Evangelho simples e distorcido, abrindo a porta para o perigo de oferecer uma "graça barata" e ter uma igreja cheia de pessoas com pouco conhecimento das Escrituras. Tendo feito a lista, temos de testar Papayya para ter certeza de que adquiriu todas as características requeridas de um cristão. Se ele conseguir acertar, não há necessidade para mais mudanças na sua vida, pois já é inteiramente um cristão. Segundo, se fizermos de cristão um conjunto delineado, marcaríamos uma linha clara entre cristãos e não cristãos. Mais ainda, nos esforçaríamos para manter esta divisa, porque a divisa é importantíssima para manter a categoria. Lutaríamos para fazer uma clara diferença entre aqueles que são verdadeiramente cristãos e aqueles que não são. Nossa pergunta central seria se uma pessoa está dentro ou fora do círculo da fé. Terceiro, iríamos enxergar todos os cristãos como essencialmente iguais, não importando se são cristãos maduros e experimentados ou se são novos convertidos. Não distinguiríamos com a base na sua maturidade espiritual. Uma vez que a pessoa é cristã, ela é 100% cristã. Quarto, colocaríamos grande ênfase na conversão, como aquela mudança essencial que todos têm que experimentar para ser salvos. Veríamos conversão como um ponto, uma travessia dramática de um lado da divisa de ser não cristão para o outro de ser cristão. Nossa expectativa seria de que todos os crentes entrariam pela mesma porta, compartilhariam as mesmas doutrinas básicas e se comportariam da mesma maneira. Santificação — crescimento na fé — não faz parte do conjunto. É bom, mas não é essencial. Trazer pessoas para a fé é essencial; discipular em maturidade cristã pode acontecer mais tarde e é responsabilidade de outros. Quinto, iríamos ver cristão como um estado ontológico, adquirido quando alguém é declarado justo diante da lei. O foco, portanto, é sobre a natureza intrínseca da pessoa, em o que ela ou ele é.

♦ A Igreja como um Conjunto Delineado Como a mentalidade de conjunto delineado afeta a maneira em que entendemos e organizamos a igreja? Primeiro, entenderíamos a igreja como um agrupamento de cristãos. Se os cristãos são todos iguais em essência, seria um grupo uniforme, homogêneo. Todos concordariam sobre as mesmas doutrinas e todos observariam o mesmo comportamento. A unidade seria baseada em uniformidade — todos os cristãos pensariam e agiriam de forma igual. Outras igrejas, com exigências diferentes para membresia, seriam vistas como outros conjuntos. A pergunta crucial seria se são verdadeiramente "cristãos". Barreiras entre diferentes igrejas e denominações seriam importantes e fortes, porque as divisas definem a natureza última de realidade. Igrejas dentro da visão de conjuntos delineados se comportariam como clubes associações voluntárias de pessoas que têm interesses iguais, os que satisfazem necessidades pessoais específicas. Outras pessoas poderiam entrar se adquirissem as características da associação e se as pessoas dentro da associação estivessem de acordo. A igreja enxergaria a teologia como a verdade última, universal e imutável, e a definiria em termos gerais e proposicionais. A teologia estaria divorciada dos contextos históricos e culturais em que foi formulada. Segundo, teríamos cuidado em manter as divisas claras. Requereríamos um rol de membros, e limitaríamos a participação em reuniões de negócios e ofícios da igreja apenas para estes membros. Procuraríamos também coerência entre membresia e a categoria cristão, e excluiríamos os não-cristãos da igreja. Terceiro, faríamos uma abordagem democrática na membresia da igreja. Todos os membros teriam voz igual nas decisões. Todos teriam um voto e todos os votos teriam igual valor - seja de um membro maduro ou de um novo convertido. Pelo fato da igreja ser construída sobre uma identidade e uma tarefa comum, sua organização formal seria mecânica.9 Procuraríamos papéis bem definidos, regras explícitas, programas bem planejados, gerência pelos objetivos, e trabalho medido em termos quantitativos e fundamentos definidos. A igreja funcionaria como um clube ou corporação. Quarto, enfatizaríamos o evangelismo como a maior tarefa da igreja — trazendo pessoas para a categoria. Conversão seria o meio pelo qual as pessoas entrariam na igreja. Estruturalmente, não haveria diferenças entre os crentes, uma vez que são membros do círculo da fé. O crescimento espiritual não ajudaria na definição do conjunto. Conseqüentemente, o discipulado de novos convertidos, a organização de igrejas vivas, e a manifestação dos sinais do reino, não seriam essenciais para a tarefa central de trazer pessoas à fé em Cristo. Quinto, edificar a igreja seria visto como finalidade em si mesmo. Reuniões estariam focalizadas na manutenção da identidade da igreja e da sua organização. Porque identidade é intrínseca, o maior perigo desta visão da igreja seria o secularismo louvor do grupo, da própria corporação. ♦ Missões e Conjuntos Delineados Como encarar a tarefa missionária e outras religiões a partir de uma perspectiva de conjuntos delineados?
----9 Peter L. Berger, Brigitte Berge, e Hansfried Kellner discutem esta forma de organização extensivamente em The Homeless Mind: Modernization and Consciousness (New York Random House, 1973), assim como Jacques Ellus em The Technological Society (New York- Random House, 1964). Eugene H. Peterson examina as conseqüências desta visão de organização do ministério cristão em

Under The Unpredictable Plant: An Exploration in Vocational Holiness (Grand Rapids.- Eerdmans, 1992).

Primeiro, procuraríamos ganhar os perdidos para Cristo, porém teríamos cuidado para não batizá-los até que conhecessem e afirmassem nosso credo e seguissem nossas práticas, como monogamia e abstinência de maus hábitos. Conseqüentemente, batismo aconteceria anos após a aceitação de Cristo pela fé. Segundo, pelo fato de cada religião ser um conjunto intrínseco e definido, enfatizaríamos as diferenças radicais entre elas. Teríamos a tendência de enxergar tudo no Cristianismo como verdadeiro, e tudo nas outras religiões como pagão e falso. Em missão, teríamos um medo exagerado de incluir na expressão de cristianismo idéias e práticas que se acham em outras religiões, com medo de diminuir a sua singularidade. Rejeitaríamos tudo das outras religiões, com pavor do sincretismo. Terceiro, definiríamos cristianismo principalmente em termos das nossas próprias crenças e práticas, e exigiríamos que as igrejas mais novas, em outras culturas, se conformassem às nossas normas. O perigo é que colocaríamos o Evangelho dentro da roupagem da cultura que o levou — historicamente esta roupagem sendo do mundo ocidental. Quarto, porque nossa posição teológica seria definitiva, teríamos de treinar os líderes nativos capazes de manter esta posição imutável. Como isso requer uma educação extensiva, estaríamos sem pressa nenhuma em nomear líderes para posições de autoridade significativa nas igrejas. Conjuntos Indefinidos Intrínsecos Lofti Asker Zadeh, um professor egípcio na Universidade de Califórnia em Berkeley, introduziu o conceito de conjuntos "indefinidos" em 1965.10 Após notar que na vida cotidiana, a maior parte dos conjuntos não tem divisas delineadas com exatidão, ele escreveu: Em sistemas clássicos de bi-valores, é suposto que todas as classes têm divisas estreitamente definidas. Por isso um objeto é membro de uma classe ou não é membro... mortal ou não mortal, morto ou vivo, macho ou fêmea, etc. ... Mas a maior parte das classes no mundo real não tem estas divisas. Por exemplo, se considerar as características ou propriedades como alto, inteligente, cansado, doente, etc., todas faltam divisas exatas. A lógica clássica que divide tudo em duas partes não é projetada a lidar com propriedades que envolvem degraus de identidade. 11 O mesmo tipo de indeterminação se aplica às categorias como dia e noite, mar e terra, e árvores e arbustos. Mesmo a morte, que à primeira vista parece bem definida, acaba sendo indefinida; alguns órgãos no corpo, e algumas células nos órgãos, ainda vivem depois da morte de outros. Mesmo com melhores métodos de medir e definir, a indefinição permanece. Conjuntos indefinidos são conjuntos matemáticos que não têm margens claras. Ao invés disso há graus de inclusão. Objetos pode ser um quarto, meio, ou até dois terços dentro do conjunto. Por exemplo, uma montanha se torna numa planície sem uma divisa clara, e a cor vermelha em alaranjada. A natureza dos conjuntos indefinidos é analógica, em vez de digital. Um exemplo da diferença entre categorias indefinidas e bem formadas é nossa visão de raça. Norte-americanos usam conjuntos bem definidos para separar pessoas nas diferentes raças, como pretos, brancos e latinos. Na realidade, as raças se misturam em uma série de casamentos inter-raciais. Uma pessoa pode ter um, dois, três, ou quatro bisavós de uma raça e o resto de outra. Os ancestrais podem proceder de três ou mais raças. Não há raças "puras". Visto em termos de conjuntos indefinidos, raças formam
----10 Lofti Asker Zadeh, "Fuzzy Sets" Information and Control 8 (1965): 338-53.

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R. R. Yager, et. al., eds. Fuzzy Sets and Applications: Selected Papers by L. A. Zadeh (New York Wiley, 1987), 17.

uma continuação entre pólos, portanto é impossível traçar linhas nítidas e super definidas. Conjuntos indefinidos nos providenciam, não somente outra maneira de ver o mundo, mas também nos dão um sistema novo de lógica. Junto com esta teoria de conjuntos indefinidos, surgiu a álgebra indefinida, a geometria indefinida, e a lógica indefinida. 12 Conjuntos indefinidos podem ser definidos como intrínsecos ou extrínsecos. Examinaremos os conjuntos intrínsecos primeiro. ♦ Características de Conjuntos Indefinidos Intrínsecos Conjuntos indefinidos têm as seguintes características: 1. Como em todos os conjuntos delineados, membresia num conjunto depende da natureza intrínseca dos membros - naquilo que são. Uma maçã é uma maçã por causa daquilo que é em si mesma. 2. As fronteiras de categorias são indefinidas, com degraus de inclusão no conjunto. As coisas podem estar 30% ou 55% ou 91,467% dentro da categoria. O resultado é um mundo de contínuos em que tudo flui por dentro de tudo mais, não um mundo dividido abruptamente em termos de é ou não é. Nisso, conjuntos indefinidos diferem radicalmente dos conjuntos delineados. 3. Pelo fato de ter uma divisa indefinida, um objeto pode pertencer a dois ou mais conjuntos ao mesmo tempo. Uma tinta pode ser misturada usando três cores diferentes. Uma pessoa pode ter um quarto de descendência africana, um quarto de italiano, e a metade de português. Não há, portanto, um meio excluído em álgebra indefinida ou lógica indefinida. Uma coisa pode pertencer tanto a conjuntos A e Diferente-de-A ao mesmo tempo. 4. A mudança nos conjuntos indefinidos é um processo, não um ponto agudo. O fruto amadurece em degraus, e a noite chega em etapas. O processo pode ser rápido ou devagar, mas a indefinição da divisa permanece. 5. Ontologicamente, um mundo baseado em conjuntos indefinidos enxerga a realidade como um contínuo, como campos que se misturam. A unidade fundamental da realidade é um campo ou domínio comum em que as categorias existem. Por exemplo, na ilustração da identidade racial, a mentalidade de conjuntos delineados falariam de diferentes "raças", e a mentalidade dos conjuntos indefinidos falaria de variação dentro de uma só "raça" - a humanidade. Porque não há distinções claras entre o certo e o errado, ou a verdade e a nãoverdade, o mundo de conjuntos indefinidos tende a ser relativo. ♦ Conjuntos Indefinidos Intrínsecos na Cultura Indiana Todas as culturas usam ambas as categorias de conjuntos bem formados e indefinidos, mas tendem a focalizar em um ou em outro como o material básico de construção para construir seu mundo. Como temos visto, a cultura americana coloca muita importância nos conjuntos com divisas claras e bem definidas: em estradas bem marcadas, grama bem cercada com um tipo de divisa, com as paredes e janelas bem separadas e preços fixos. A cultura indiana é construída principalmente sobre a filosofia de conjuntos indefinidos. Como temos visto, os deuses, os humanos, os animais, as plantas, e a matéria não são vistos como tipos de vida diferentes, mas como variações da mesma vida. Todos os deuses são vistos como manifestações do mesmo Deus, e todas as religiões como diferentes caminhos que levam ao mesmo fim. Na filosofia indiana, as coisas podem pertencer tanto a conjuntos A e Diferente-de-A ao mesmo tempo, e contradições são resolvidas a medida que sobem para um nível superior. Por exemplo, o

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---Cf. Hans-Jurgens Zimmerman. Fuzzy Set Tbeory and It's Application (Boson: Kluwer-Nij-hoff, 1985).

bem e o mal são opostos aqui na terra, porém por trás deles há uma realidade da qual ambos procedem. Muitos substantivos indianos são substantivos indefinidos, modificados por adjetivos bem formados. Por exemplo, uma mulher no mercado pode pedir uma fruta "meio-madura". Quando o vendedor pergunta sobre que tipo de "meio-madura" quer, ela responde, "uma banana meio-madura", ou "uma laranja meio-madura". O que ela quer de verdade é uma fruta que pode ser comida amanhã. No cotidiano indiano há pouca preocupação com divisas claras e categorias uniformes. Tinta passa para o vidro da janela, e cores diferentes são usadas na mesma parede com pouco interesse em fronteiras. O trânsito numa rua indiana normal segue pistas flexíveis. 13 A pista central não é marcada, e muda de um lado para o outro para equilibrar o trânsito quando necessário. Na música indiana existem 64 semi tons entre cada uma das sete notas na sua escala. Iniciantes tocam os tons principais. Peritos tocam entre três sessenta e quarto avos por cima, até cinco sessenta e quarto avos por cima, para depois mudar para dois sessenta e quarto avos por baixo, antes de acertar a nota. Para os ouvidos ocidentais, a melodia parece um grande deslize em vez de uma escala precisa. ♦ Cristão como um Conjunto Indefinido Intrínseco Se definíssemos cristão em termos de conjunto-indefinido, descobriríamos o seguinte: Primeiro, como um conjunto bem formado intrínseco, um cristão seria definido em termos de crenças e/ou práticas. Seria necessário fazer uma lista de todas as características que uma pessoa precisa ter para ser cristã. A lista seria longa ou curta, dependendo-se o foco está na pureza da igreja ou no desejo de alcançar os perdidos. Segundo, a membresia no conjunto seria em degraus. Uma pessoa poderia afirmar a metade das crenças necessárias para ser um crente e assim ser um meio-crente, ou três - quartos delas para ser um "três - quartos crente". Terceiro, a conversão para o cristianismo, em termos de conjuntos indefinidos, raramente seria um evento decisivo. Normalmente seria visto como um movimento gradual de fora para dentro do conjunto, baseado na aquisição gradual das crenças e práticas necessárias. Não há um ponto específico no processo quando a pessoa de repente se torna cristã. Quarto, por não ter divisas claras entre o crente e o não-crente, pessoas poderiam pertencer a duas ou mais religiões ao mesmo tempo. Poderiam participar tanto em cultos hindus e cristãos, sendo hindu-cristãos ou cristão-hindus. Não aceitariam qualquer religião como o único caminho à verdade. Quinto, haveria pouca ênfase no evangelismo. Haveria o ensino do Cristianismo, mas sem uma chamada para tomar uma posição clara entre ele e as outras religiões. ♦ A Igreja como Conjunto Indefinido Intrínseco Como seria a igreja do ponto de vista de conjunto indefinido? Primeiro, como na mentalidade de conjuntos delineados, os credos e práticas necessários para ser membro da categoria cristão seriam cuidadosamente formulados. Seriam aceitos, naturalmente, como imutáveis e universalmente aplicáveis. Porém reconheceríamos que membros da igreja poderiam variar grandemente na sua afirmação destas crenças e práticas. Alguns aceitariam poucos credos e práticas, e são meiocristãos. Outros seriam inteiramente cristãos.
----13 Paul G. Hiebert. "Traffic Patterns in Seattle and Hyderabad: Immediate and Mediate Transactions" Journal of Anthropological Research 32.4 (Winter 1976): 326-36.

Segundo, não seria importante a formação de divisas fortes para a igreja, como uma lista de membros. Mais ainda, resistir-se-ia às tentativas de traçar tais fronteiras. Os interessados e meio-cristãos seriam encorajados a participar na vida da igreja para poder ganhá-los para uma fé plena. Tolerar-se-ia, portanto, uma larga diversidade de crenças e práticas na igreja, inclusive as que não são cristãs, sem muita crítica. As diferenças entre a nossa igreja e outras seriam menos importantes. Terceiro, aceitar-se-ia grande diversidade de posições sobre pontos essenciais de fé e ordem na igreja, enquanto membros seriam ajudados a aceitar os ensinos oficiais da igreja. Haveria uma distinção entre cristãos plenos e aqueles que ainda estão no processo de conversão. Presbíteros ou o clero ordenado, incumbidos na definição e manutenção da ortodoxia e ortopraxia, seriam escolhidos dentre os que são considerados plenamente cristãos. Haveria maior vontade de patrocinar discussões ecumênicas, não somente com outros cristãos, mas com pessoas de outras religiões. Cooperação entre igrejas diferentes seria aceitável e encorajada. Quarto, a igreja não esperaria conversões, mas um crescimento ou evolução nos pontos essenciais da fé cristã. Diálogo e ensino seriam enfatizados para efetuar evangelismo. Quinto, pelo fato do conjunto se basear em características intrínsecas compartilhadas, a igreja seria compreendida como um corpo de crentes compartilhando as mesmas crenças e práticas. Enfatizar-se-ia a comunhão. No final, esta igreja enfrentaria o perigo de se louvar a si mesma e de aceitar o relativismo teológico. ♦ Missões e Conjuntos Intrínsecos Indefinidos Como seria nossa compreensão de missões em termos da mentalidade de conjuntos indefinidos intrínsecos? Primeiro, não traçaríamos uma linha clara entre o cristianismo e as outras religiões, e reconheceríamos a verdade em todas as religiões. Portanto seria menos provável afirmar a unicidade de Cristo como o único meio de salvação. Segundo, não enfatizaríamos a proclamação do Evangelho, ou o convite de pessoas para a conversão. Não atacaríamos outras religiões como falsas ou pagãs, mas encorajaríamos as pessoas a descobrir a verdade nas suas religiões. Ao contrário, manteríamos diálogo com elas a fim de descobrir um terreno comum de compreensão e de fé. Reconheceríamos que todas as religiões buscam satisfazer necessidades humanas básicas, apesar do fato de talvez afirmarmos a superioridade do cristianismo como caminho para Deus. Terceiro, encorajaríamos as pessoas de outras crenças a descobrir Cristo nas suas próprias religiões e culturas, e a resistir a troca de suas crenças por crenças novas. Teríamos o perigo de entrar no relativismo e no niilismo. ♦ Conjuntos Extrínsecos Bem Formados (Centralizados) Outra maneira de formar conjuntos é de usar características extrínsecas em vez de intrínsecas para definir a membresia numa categoria. Poderíamos agrupar objetos baseado em como se relacionam com outras coisas, não naquilo que são em si mesmos. A terminologia mais usada em relação ao parentesco é conjuntos extrínsecos. Irmãs são fêmeas relacionadas uma a outra pelo fato de ter pais em comum. O clã dos leões numa sociedade tribal é composto de pessoas descendentes de um ancestral em comum - O Primeiro Velho Leão. Phil Krumrei nos dá um exemplo excelente das diferenças entre conjuntos relacionais extrínsecos, ou centralizados, e conjuntos indefinidos.
Todas as teses de PhD. registradas em microfilmes na Livraria Memorial de L. M. Graves (L. M. Graves Memorial Library) no ano de 1980 compõem um conjunto delineado. A divisa se baseia em características que todos os membros do

conjunto compartilham, e há uma barreira forte entre o que faz parte do conjunto e o que não faz parte. Todos os livros da Livraria Memorial Graves que são tirados pelo aluno x formam um conjunto centralizado porque é definido pelo relacionamento de "ser tirado" "pelo aluno x", que passa a ser o centro do conjunto. Livros podem mudar ao ser tirados ou não ser tirados, ou ser tirados pelo aluno x, ou aluno y. Há também diferentes tipos de retirada (da biblioteca restrita ou reserva, por uma hora ou duas horas apenas). Todos os estudantes da Harding Graduate School of Religion (A Escola de Religião Pós Graduação Harding) que se parecem com o autor, formam um conjunto indefinido, porque ter aparência com outra pessoa significa ser um pouco como aquela pessoa de várias maneiras (altura, peso, cor, etc.). 14 Tanto conjuntos extrínsecos, como conjuntos intrínsecos, podem ter divisas claras ou indefinidas. Primeiro vamos examinar aqueles na categoria bem formado, relacional e usar o termo conjuntos centralizados em referência a eles. 15

♦ Características de Conjuntos Centralizados Quais são as características de conjuntos extrínsecos, bem formados, ou centralizados? Primeiro, um conjunto centralizado é criado quando um centro, ou ponto de referência, é definido junto com a relação das coisas com o centro. Coisas relacionadas com o centro pertencem ao conjunto, e aquelas coisas que não são relacionadas com o centro, não pertencem ao conjunto. Grupos de parentesco, como famílias, clãs e tribos, são categorias relacionais. A família Gonzaga consiste em João e Maria Gonzaga, que se definem como família, junto com seus filhos, netos e outros que entram na família por casamento ou adoção; todos carregam um tipo de relação com João e Maria Gonzaga. Pontos de referência geográficos também são definidos por relacionamento. Quarenta graus norte, significa quarenta graus ao norte do equador. Trinta graus leste são trinta graus ao leste de Greenwich, Inglaterra. Na ciência, muitas definições operacionais são relacionais. Numa caixa cheia de areia e pedacinhos de ferro, definimos ferro como aquelas partículas atraídas por um imã. Outra maneira de enxergar conjuntos centralizados é em termos de elementos que se movimentam dentro de um campo. Num conjunto centralizado, membros são as coisas que se movimentam em direção ao centro comum, ou ao ponto de referência. Os não-membros são objetos que estão se movimentando na direção oposta. Segundo, mesmo que conjuntos centralizados não sejam criados com linhas divisórias, eles têm divisas claras, que separam o que está dentro do conjunto daquilo que está fora — entre as coisas relacionadas com o centro, ou que estão em movimento em direção ao centro, e as coisas que não estão. Conjuntos centralizados são bem formados, como conjuntos delineados. São formados pela definição do centro e de como se relacionar com o centro. A divisa, portanto, se forma automaticamente. As coisas relacionadas com o centro naturalmente se separam daquelas que não o fazem.
----14 Phil Krumrei: "An Analysis of Set Theory and Its Application to Christian Faith" (Ms. não publicado de Harding Graduate School, sd.). 15 Teoricamente, conjuntos centralizados formam apenas um tipo de categoria relacional intrínseca. Em alguns conjuntos relacionais, membros não se relacionam com um centro em comum, mas um com o outro em um campo comum. Escolhi apresentar o tipo de conjunto relacional em que os membros são definidos pelo relacionamento com um centro em comum, porque, creio eu, encaixa-se em uma visão bíblica da natureza do cristianismo e da igreja.

Na mentalidade de conjuntos centralizados, a maior ênfase está no centro e nos relacionamentos, do que na manutenção de uma divisa; não há necessidade de manter uma divisa para manter o conjunto. Terceiro, há duas variáveis essenciais aos conjuntos centralizados. A primeira é a membresia. Todos os membros do conjunto são membros plenos e compartilham plenamente das funções do conjunto. Não há membros de segunda categoria, ou de menor importância. A segunda variável é a distância do centro. Algumas coisas estão longe do centro e outras perto, mas todas estão se movimentando em direção ao centro. Todas são, portanto, igualmente membros do conjunto, mesmo estando em posições de distância diferentes. As coisas perto do centro, mas em movimento na direção oposta, não fazem parte do conjunto apesar da sua proximidade do centro. Quarto, conjuntos centralizados têm dois tipos de mudança inerentes à sua estrutura. O primeiro está ligado à entrada ou saída do conjunto. As coisas que estão indo para fora do centro podem se virar e ir novamente em direção ao centro. Ou, usando uma metáfora diferente, uma pessoa pode de repente ser adotada por um casal e se tomar seu filho, ou ela pode formar um relacionamento com uma outra pessoa. Podemos chamar esta mudança de conversão, porque é uma transformação radical nos relacionamentos da pessoa. O segundo tipo de mudança está ligado com o movimento em direção ao, ou oposta do, centro. Membros distantes podem se movimentar em direção ao centro, e aqueles que estão próximos podem deslizar para trás, mesmo enquanto ainda olham para o centro. Em outras palavras, uma pessoa pode subir de degrau na corte, assim que seu relacionamento com o rei se fortifica no conhecimento e intimidade, ou cair, se o relacionamento se esfria. Relacionamentos estão em constante mudança porque estão constantemente sendo renegociados. ♦ A Cultura Hebraica como um Conjunto Centralizado Pode-se argumentar, com forte razão, que a cosmovisão dos profetas hebreus e de Cristo tinha características essencialmente extrínsecas e bem formadas. Enquanto os gregos compreenderam Deus em termos intrínsecos, como sobrenatural, onipotente e onipresente, os israelitas O conheciam em termos relacionais, como Criador, Juiz e Senhor. Também se referiam a Ele como "o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, nossos pais". Durante o Êxodo, o povo acampou ao redor do tabernáculo, onde Deus habitava. Na Palestina, o povo subia três vezes ao ano para a "casa do Senhor". Os israelitas compreenderam-se como um povo num relacionamento com Deus baseado em Alianças, ou Pactos, portanto como um "povo-em-comunidade". Era obrigação casar-se com os de dentro do povo, não de fora. As bênçãos para os fiéis, e os castigos para os infiéis, passaram para os seus descendentes. Os valores mais importantes eram de caráter relacional: justiça, shalom, amor e misericórdia. Os ensinamentos de Cristo e do apóstolo Paulo são principalmente sobre nossos relacionamentos com Deus e com os outros. Quando Jesus disse, "vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós" (Jo 14.17b), e Paulo escreve, "Para o conhecer" (Fp 3.10), não estão falando sobre conhecimento objetivo de Deus, mas sobre um conhecimento íntimo, como uma pessoa conhece outra. Paulo deixa bem claro que nossa reconciliação com Deus, por meio de Cristo, é mais fundamental do que guardar a lei. Os escritores do Novo Testamento são melhores compreendidos dentro da cosmovisão relacional hebraica, não da cosmovisão estrutural dos gregos. ♦ Cristão como um Conjunto Centralizado O que acontece com nosso conceito de cristão se o definirmos em termos de conjuntos centralizados?

Primeiro, cristãos seriam definidos como seguidores do Jesus Cristo da Bíblia, como aqueles que fazem dEle o centro ou Senhor das suas vidas. Claro, seguir a Jesus depende de um conhecimento básico dEle. O Jesus que seguimos não é uma criação da nossa mente, mas o Jesus histórico, como descrito nas Escrituras. Entretanto, estar de acordo mentalmente com os fatos da história bíblica não nos faz cristãos. É necessário conhecer Jesus pessoalmente, no sentido bíblico de conhecer uma outra pessoa (Dt 34.10; Jz 2.10; Jo 17.3). Martin Buber fala disso quando faz uma diferença entre o relacionamento do Eu-aquilo e o Eu-Tu.16 O último envolve auto-revelação e a capacidade de ouvir o outro. É um compromisso sério (de pacto) para com o outro como uma pessoa, não um contrato para ajuntar em fazer uma tarefa juntos. Segundo, haveria uma separação clara entre cristãos e não-cristãos, entre os seguidores de Jesus e os que não o são. A ênfase, no entanto, seria em exortar as pessoas a seguirem a Cristo, mais do que em excluí-las para preservar a pureza do conjunto. A salvação é aberta para todos os que seguem Jesus Cristo, seja quem for, ou o que conhecer, ou que tipo de bagagem trouxer consigo. Terceiro, haveria um reconhecimento da variação entre cristãos. Alguns estão perto de Cristo no seu conhecimento e maturidade, outros são imaturos e precisam crescer para obter uma compreensão adequada. Alguns poderiam ter maior entendimento do sofrimento de Cristo, e outros mais consciência do seu poder. Porém todos são cristãos, e todos são chamados a crescer até a plenitude de Cristo. Quarto, dois importantes tipos de mudança seriam reconhecidos no pensamento do conjunto centralizado. O primeiro é a conversão, entrando ou saindo do conjunto. Em termos de conjunto centralizado isto significa virar e ir à direção oposta. É o significado de sub no Velho Testamento. Salvação inclui tanto virar as costas para o mal como virar para a justiça. 17 Significa deixar outros deuses e seguir a Jeová (Dt 4.10; 1 Sm 7.3; Is 55.7). Também significa se reconciliar com alguém que era o inimigo (Js 20.6; Jz 21.14). As pessoas podem chegar ao conhecimento de Cristo de muitas maneiras diferentes. Alguns o conhecem primeiro como Salvador do pecado. Outros aprendem a conhecê-lO primeiro como o Grande Deus, antes longe e desconhecido, agora reconciliado com eles. Sobre a explosão da igreja em Buganda, John V. Taylor escreve: A mensagem que fora recebida e implantada, e sobre a qual a igreja de Buganda fora fundada, consistia principalmente em notícias sobre o Deus transcendente. "Katonda", o Criador, quase totalmente desconhecido e despercebido, foi proclamado como o foco de toda a vida, que ainda estava fora e acima da unidade fechada de toda existência. Esta mensagem em si foi um conceito tão catastrófico que, para a maioria dos ouvintes, pareceu o sumo de um novo ensinamento .... O fato deles ouvirem esta mensagem, e não, nesta altura, ouvira mensagem de Cristo como Salvador, ou do poder do Espírito Santo, apesar destes temas serem pregados, sugere que esta era a Palavra de Deus para eles, e era independente do pregador. 18 Outros encontram Deus como o Grande Médico, ou o Libertador da opressão. Ele, de fato, é todas estas coisas e muito mais, como todas estas pessoas aprenderão em suas vidas. Há também diferenças na natureza da sua conversão. Alguns conhecem a Cristo desde a infância, e a conversão não é a aquisição de conhecimento novo, mas a aceitação quieta do senhorio dEle.
----16 Martin Buber. I and Thou, 2ed. trans R. G. Smith (New York- Scribners, 1957). 17 Walter Eichrodt. Theology of the Old Testament, 2 vols., trans. J. A. Baker (Philadelphia: Westminster, 1961-67) 2.466. 18 John V. Taylor. The Growth of the Church in Buganda: An Attempt at Understanding (London: SCM, 1958: reprint, Westport, Conn: Greenwood Press, 1979), 252-53.

Outros estão em rebelião contra Cristo e suas conversões são dramáticas. Porém todos se tornam seguidores do mesmo Senhor. A segunda mudança envolve o movimento em direção ao centro, ou o crescimento num relacionamento. Um cristão não é o produto final no momento em que se converte. Conversão, portanto, é um evento definitivo seguido por um processo contínuo. Santificação não é uma atividade separada, mas o processo de justificação continuado através da vida toda. Necessitamos, portanto, trazer pessoas para Cristo, mas temos também que discipulá-las em maturidade cristã - no seu conhecimento de Cristo e em seu crescimento na vida cristã. A ênfase no crescimento significa que cada decisão que um crente faz, não apenas a decisão de se converter tem que levar em conta a Jesus Cristo. Cada decisão leva a pessoa em direção a Cristo ou para fora dele. Ao reconhecer a variedade no conjunto e a necessidade de crescimento, a abordagem de conjuntos centralizados evita o dilema entre oferecer uma "graça barata", que facilmente permite às pessoas se tornarem cristãs, mas leva a uma igreja superficial, ou "graça custosa" que preserva a pureza da igreja mas impede as pessoas de entrarem no reino. Se definirmos cristão em termos de conjuntos centralizados, a pergunta crucial sobre Papayya não é se ele conhece fatos (apesar de que tem que conhecer pelo menos alguns fatos), mas, se tem feito Jesus Cristo seu Deus, o centro da sua vida. Está disposto a seguir Cristo até conhecê-lO e conhecê-lO na sua plenitude? ♦ A Igreja como Conjunto Centralizado Como a mentalidade arraigada em conjuntos centralizados afeta nossa visão da natureza e do ministério da igreja? Primeiro, a igreja seria definida pelo seu centro, o Jesus Cristo das Escrituras. Seria um conjunto de pessoas reunidas ao redor de Cristo para louvar, obedecer e servilO. Precisamente porque O seguem se formam em uma comunidade de aliança e compromisso caracterizada por justiça, koinonia e shalom. Como a membresia da igreja seria baseada no relacionamento com Cristo, não em conhecimento ou comportamento, a igreja seria um lugar de louvor - um lugar onde em conjunto declaramos nossa fidelidade a Cristo pelo louvor e pelo serviço. Comunhão com Cristo seria o foco central na vida da igreja. Instrução em doutrina e comportamento a seguiriam. Pelo fato da igreja ser composta de seguidores do mesmo Senhor, seria uma família. Portanto seria também um lugar de comunhão. Não poderíamos excluir da congregação os que são verdadeiros discípulos, mas que são diferentes de raça, classe, sexo ou ponto de vista teológico. Como a membresia não estaria em jogo, as diferenças de personalidade, linguagem, cultura e estilo de louvor seriam afirmadas enquanto não dividem ou colocam a família em descrédito. A igreja se focalizaria em pessoas e relacionamentos de amor e submissão mútua, mais do que em programas e na manutenção da ordem. 19 Todavia, relacionamentos são por natureza caótica. Por isso, buscaríamos consenso sobre o funcionamento da igreja para resolver conflitos. Também iríamos encorajar uns aos outros a usar nossos dons espirituais de uma forma criativa, em vez de demandar conformidade e tradição morta. Nesse encorajamento, no entanto, entenderíamos que a criatividade é caótica. Eugene H. Peterson escreve: ------19

Isso está refletido em muitas das igrejas mais novas ao redor do mundo nos termos que usam uns pelos outros. Rejeitam qualquer título que coloca um membro acima do outro, como "reverendo", ou "doutor". Ao invés disso usam termos como "irmão" ou "irmã".

Bagunça é a precondição para a criatividade .... Criatividade não é bem organizada. Não conserva tudo em ordem. Quando somos criativos, não sabemos o que vai acontecer no próximo instante... . Em qualquer empreendimento criativo há riscos, erros, começos falsos, falhas, frustrações, embaraço, mas, desta bagunça - quando permanecemos o suficiente, entramos suficientemente profundo - emerge aos poucos amor ou beleza ou paz .... Não podemos nutrir a vida do Espírito em um membro da igreja segurando um relógio de corrida. Não podemos aplicar regras de "gerenciamento por objetivos", ou por eficiência de tempo, no desenvolvimento de almas.20 Segundo, faríamos uma distinção clara entre cristãos e não-cristãos em reconhecer o sacerdócio de todos os crentes. Não obstante, reconheceríamos diferenças em degraus de maturidade espiritual entre os crentes, na medida da proximidade ao centro que define a igreja. Isto significa que temos que, primeiro, definir este centro em termos teológicos e espirituais. Primeiro, a pessoa de Cristo, e, segundo, compreensão teológica e prática da comunidade da igreja sobre o Seu ensinamento. Estes são os princípios que cremos que crentes maduros devem seguir e crentes imaturos devem aprender. Reconheceríamos a liderança de pessoas com maturidade espiritual e faríamos com que fossem mais responsáveis nos seus ofícios mais altos na igreja. Seríamos mais pacientes com novos crentes, reconhecendo que ainda estão imaturos e que estão crescendo na fé e no conhecimento. 21 Reconheceríamos que lutam com áreas diferentes de crescimento nas suas vidas. Alguns necessitam aprender sobre Cristo, outros sobre seu poder curador, seu chamado para a vida de serviço, sua compaixão pelos pobres, ou seu amor para com os seus inimigos. Nenhum deles tem uma cosmovisão plenamente bíblica. Isto não significa, no entanto, que não são crentes. Eles vieram para Cristo e estão procurando crescer no conhecimento dEle e em obediência à Sua Palavra. No governo da igreja, a voz de todos seria ouvida, porém nem todas as vozes teriam igual peso. Os com mais maturidade espiritual, cuja boa reputação está estabelecida entre a congregação pela sua humildade e vida de serviço aos outros, seriam os presbíteros que formulam decisões fundamentadas na discussão do corpo todo. A igreja exerceria disciplina com os membros cujos pensamentos e comportamentos fossem contrários às Escrituras como a igreja as entende, mas o alvo seria o de restaurar as pessoas para a fidelidade, não de destruí-las. Pelo fato da igreja não ser definida pelas divisas, mas sim, pelo centro, haveria menos preocupação em manter listas de membros. Um número de etapas ou níveis de participação poderia ser estabelecido: interessados, crentes, membros batizados e presbíteros. Haveria menos necessidade de excluir da comunhão da igreja aqueles que não são verdadeiros cristãos. Ao contrário, a ênfase seria em levá-los a Cristo. Terceiro, a igreja enfatizaria a evangelização - chamando pessoas para deixarem as suas velhas vidas para seguir a Cristo. Não seria apenas aceitar mentalmente as verdades do Evangelho, ou até sentir amor pelo Senhor. Seria de se render a si mesmo a Ele como Senhor, tornando-se obediente à Sua direção. A igreja enfatizaria o discipulado dos novos crentes como essencial para a conversão. Conseqüentemente, igual esforço seria dado aos novos crentes para que pudessem crescer e amadurecer nas suas vidas espirituais. Justificação não seria separada da santificação na vida da igreja. ----20 21

Peterson. Under the Unpredictable Plant. 163-64. Vemos esta atitude nos altos padrões que o Apóstolo Paulo coloca para os líderes da igreja em 1 Timóteo 3.1-13, e na sua mansidão com a imaturidade dos irmãos mais fracos em 1 Coríntios 8.9-13 e Gálatas 6.1.

Quarto, a tarefa principal da igreja seria elevar a Cristo, a fim de que Ele atraísse todos para si mesmo. A sua segunda tarefa seria construir uma comunidade de fé que incorporasse novos crentes, e manifestasse o reino de Cristo na terra. Sua terceira tarefa seria convidar pessoas a seguirem a Cristo, e ajuntarem-se à igreja, o posto avançado do Seu reino na terra. A teologia também pertenceria à igreja, não a alguns indivíduos. A igreja seria uma comunidade hermenêutica guiada por uma metateologia para interpretar e aplicar as Escrituras aos contextos históricos e sócio-políticos em cada lugar. A igreja mundial também seria uma comunidade teológica que ajuda as igrejas locais a enxergar e a corrigir seus pressupostos e preferências culturalmente condicionados. Quinto, se o secularismo é o perigo principal de conjuntos delineados, a idolatria é o maior mal em conjuntos centralizados (Ex 20.1-5). Acontece quando os homens colocam qualquer coisa, menos Deus, no centro das suas vidas. Ídolos incluem falsos deuses, como os baalim e Astarotes (Jz 2.11-14), Satanás (Lc 4.6-8) e o ego (2 Tm 3.2). Provavelmente a forma mais sutil de idolatria na igreja é o louvor ao líder. De acordo com Peterson, "O paradigma pastoral que a cultura e a denominação me deu foi 'diretor de programas'. Este paradigma, quase aceito sem questionamento na América, com poder e subtilidade forma tudo o que o pastor faz e pensa em uma programação religiosa. O pastor está no controle. Deus está marginalizado". 22 O que precisamos, diz ele, é uma mudança de paradigma em que "o lugar ocupado pelo pastor não toma mais o centro de onde grandes programas partem, mas uma periferia que também olha para o centro de um kerigma claro e um mistério vasto".23 ♦ Missões e Conjuntos Centralizados Como seria nosso conceito de missões, a partir de uma visão do mundo baseado no ponto de vista do conjunto centralizado? Primeiro, faríamos uma distinção clara entre as religiões cristãs e as não cristãs, e afirmaríamos a unicidade de Cristo como o único Senhor e Salvador. Nosso objetivo primário seria convidar as pessoas a se tornarem seguidoras de Jesus, não em provar que as outras religiões estão erradas. Enfatizaríamos nosso testemunho pessoal daquilo que Cristo tem feito por nós, mais do que argumentar a superioridade do cristianismo.24 Segundo, estaríamos dispostos a batizar aqueles que fizessem uma profissão de fé, e não esperar até que demonstrassem sinais de maturidade e perfeição cristãs. Por exemplo, os missionários de uma agência missionária, que seguiram a perspectiva conjunto delineado de cristianismo, batizou apenas algumas dúzias de "convertidos" após vinte anos de ministério numa cidade no Oeste da África. Outros, com o trabalho fundamentado na perspectiva do conjunto centralizado sobre a conversão, batizaram duzentos no primeiro ano de ministério na mesma cidade. Terceiro, reconheceríamos que o evangelismo envolve tanto o ponto de decisão e o processo de crescimento. Reconheceríamos que isto é a verdade, não apenas para os novos crentes, mas também para as novas igrejas nos seus contextos culturais. Conseqüentemente, encorajaríamos igrejas novas a formular os seus próprios insights teológicos, baseados nas Escrituras, e ao mesmo tempo compartilhando com elas os insights teológicos adquiridos pela igreja através da história e ao redor do mundo.
----22 Peterson. Under the Unpredictable Plant. 174. 23 Ibid. 176. 24 Exemplos disso são as reuniões de mesa redonda, ou ashrams, métodos evangelísticos usados por B. Stanley Jones na Índia (Christ at the Round Table [Cincinnati: Abingdon, 1933]), e o uso de banquetes para evangelização da equipe Águia de Comunicações (Eagle Communication team) em Cingapura

Quarto, os missionários não segurariam posições de liderança; renderiam a liderança para os líderes nacionais, desde o início. Não esperariam até à aquisição de um treinamento teológico longo, mas escolheriam os líderes naturais que demonstram o poder de Deus nas suas vidas. Treinariam, dentre estes, teólogos e outros para dar direção madura e fiel no futuro da igreja. Conjuntos Extrínsecos Indefinidos O quarto tipo de conjunto é o extrínseco indefinido. Menos tempo tem sido dedicado a esta maneira de formar categorias, por isso falaremos menos sobre ela. ♦ Características dos Conjuntos Extrínsecos Indefinidos Conjuntos extrínsecos indefinidos combinam com a natureza de conjuntos centralizados e as divisas inexatas dos conjuntos indefinidos. Primeiro, membresia em uma categoria está baseada não na natureza intrínseca de uma coisa, mas no seu relacionamento com outras coisas e/ou um centro definidor. Segundo, diferentemente dos conjuntos centralizados, a divisa é indefinida. O relacionamento definidor tem variedades de um a zero, de perto a não-existente, de estar no conjunto a estar fora do conjunto, sem um ponto claro de transição entre um e o outro. Usando uma metáfora diferente, as coisas se movimentam em direção de, e em direção oposta, e em todas as direções intermediárias. Terceiro, há duas variáveis que pertencem aos conjuntos extrínsecos indefinidos. A primeira é degraus de membresia. A extensão pode variar entre plena membresia até não-membresia, e todos os pontos entre os dois extremos. A segunda é a distância do centro - diferenças na força do relacionamento. Quarto, o aspecto relacional dos conjuntos extrínsecos indefinidos enxerga a conversão como um processo de mudança de direção, não como uma mudança brusca de virar de uma direção para a direção oposta. Estes conjuntos levam ao relativismo, porque as coisas movimentam-se em muitas direções. É até possível que as coisas se movimentem em direção ao centro, estando independente dele, e passem no seu caminho para algum outro alvo considerado mais importante do que o centro. ♦ Conjuntos Extrínsecos Indefinidos no Mundo É mais difícil achar exemplos de culturas que vivem na base de conjuntos extrínsecos indefinidos.25 Parece que sociedades totêmicas sejam um exemplo. Nelas, as divisas entre seres humanos, animais, plantas, e a natureza são indefinidas, e por trás de todos eles há uma força de vida. As coisas têm mais força, ou menos. Em alguns não há divisas claras entre membros da sua tribo e não-membros. Casamentos com pessoas de comunidades vizinhas são comuns. O paralelo moderno seria o ponto de vista evolucionário da natureza. Toda a vida é vista como evoluindo em direções diferentes. Porque tudo é visto como descendente da mesma força de vida, as divisas entre os objetos são indefinidas. É entendido que macacos estão mais próximos dos seres humanos do que cavalos ou árvores, mas todos têm a mesma origem.

----Um argumento forte poderia ser feito que a cultura indiana, especialmente na área de religião, tem a natureza extrínseca-indefinida. É especialmente a verdade em bhakti, que todos os caminhos levam a Deus. Em advaita, portanto, até Deus é maya ou ilusão, e a realidade última é o campo cósmico de onde alguém emerge, não um ser com quem alguém se relaciona. O movimento da Nova Era também opera em termos de conjuntos extrínsecos indefinidos
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♦ Cristão como um Conjunto Extrínseco Indefinido Como seria a categoria cristão em termos de conjuntos indefinidos-relacionais? Primeiro, os cristãos seriam aqueles relacionados com Cristo de uma forma ou outra. Para algumas pessoas Ele seria seu Senhor, e para outros, um tipo de guru, apontandolhes o caminho. Outros O teriam como um grande filósofo, ensinando-os alguma verdade, e para outros ainda, Ele seria um homem bom a ser imitado. Segundo, não haveria uma linha de divisa clara entre os cristãos e os nãocristãos. Ao contrário, haveria degraus de ser cristão. Alguns seriam discípulos fiéis de Cristo, outros seguidores sem compromisso, outros interessados nos seus ensinamentos, e ainda outros indiferentes ou até, contra Ele. Terceiro, poder-se-ia notar duas variáveis nos tipos de mudança. Uma seria a direção de movimento. As coisas podem se movimentar em qualquer direção, e a conversão a Cristo seria vista como uma série de viradas parciais em direção a Ele. As pessoas poderiam fazer de Cristo, Senhor de algumas áreas da sua vida, mas não de outras áreas. Não há necessidade de um "ponto de conversão", de uma virada definitiva para ir numa nova direção. A outra variável seria o degrau de proximidade com Cristo. ♦ A Igreja Como um Conjunto Extrínseco Indefinido Como seria a igreja em termos de conjuntos indefinido-relacionais? Primeiro, a igreja seria composta de pessoas que têm algum compromisso ou relacionamento com Cristo, variando de um interesse geral a um compromisso radical. A igreja buscaria fortalecer aquele compromisso e dedicação a Cristo. Segundo, a igreja estaria sem uma divisa clara. Seria uma coleção frouxa de pessoas com compromisso variado com Cristo e de uns para com os outros. Todos seriam bem vindos à igreja com todas as suas atividades, com pouca atenção posta na importância de chegar a um acordo quanto às crenças da igreja. Terceiro, a igreja reconheceria degraus no processo de se tornar crente e de crescer na maturidade cristã. Haveria os que conhecem muito sobre Cristo, mas assumem um compromisso nominal com Ele, e haveria os que conhecem pouco sobre ele, mas que são discípulos dedicados. Conversão seria vista como uma série de decisões, como um processo de se virar e se movimentar em direção a Cristo. Muitos na igreja seriam vistos como parcialmente convertidos e necessitando de maior conversão. Santificação ou maturação, também, seria visto como um processo em que todas as pessoas deveriam se envolver. ♦ Missões e Conjuntos Extrínsecos Indefinidos Finalmente, como seria a missão cristã da perspectiva conjuntos indefinidorelacionais? Primeiro, os interessados e novos convertidos seriam batizados imediatamente e incorporados nas atividades da igreja, inclusive na participação da Ceia do Senhor. Haveria uma ênfase no discipulado e na entrega de posições de liderança. Segundo, não haveria distinções claras entre o cristianismo e outras religiões. A unicidade de Cristo como o único caminho para a salvação não teria importância. Para os que seguem esta posição radicalmente, todas as religiões levam a Deus. Haveria, portanto, pouca ênfase na evangelização e na conversão. Ao contrário, a ênfase estaria em ajudar cada pessoa a descobrir o caminho que melhor a leva a Deus e uma fé que a satisfaz. Avaliação Teológica e Aplicação a Missões Uma compreensão da teoria de conjuntos nos ajuda a entender como nossas culturas moldam a maneira como interpretamos as Escrituras e fazemos nossa missão.

Precisamos ir além desta análise fenomenológica, no entanto, para uma avaliação bíblica da formação de conjuntos. O que é a realidade conforme a revelação divina? Na história da igreja, houve pontos em que ela contextualizou sua teologia e missão dentro de cada uma dessas cosmovisões. Pessoas têm sido convertidas e igrejas construídas. Mas essas cosmovisões não comunicam a mensagem essencial do Evangelho de igual forma. No final, cosmovisões subcristãs podem distorcer nossa teologia, confundir nossas vidas de fé, e enfraquecer nossa missão aos perdidos. ♦ Conjuntos e Conversão Vamos voltar à nossa pergunta original. O que queremos dizer quando falamos que Papayya, um peão iletrado, se tornou um crente? Ao responder isso, é claro que temos que primeiro esclarecer como criamos categorias como cristão— se estamos pensando em termos de conjuntos delineados, indefinidos, centralizados ou indefinido-relacionais. Se não fazemos isso, freqüentemente falaremos sem obter a compreensão dos outros, e desacordos surgirão por causa dos diferentes pressupostos existentes na subconsciência de cada um, ao invés de diferenças teológicas. A cosmovisão das Escrituras creio eu, se baseia principalmente numa abordagem "conjunto centralizado" quando trata da realidade. Relacionamentos estão no coração da sua mensagem, nosso relacionamento com Deus e nossos relacionamentos, conseqüentemente, com os outros. A mensagem essencial é que Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu único Filho para redimi-lo. A mensagem do apóstolo Paulo em Gálatas quando argumenta que o coração do cristianismo é nosso relacionamento com Deus, não em guardar a lei. A Bíblia é principalmente um livro sobre a história de relacionamentos, não uma tese sobre a natureza intrínseca e as operações da realidade. Mais ainda, as Escrituras afirmam divisas claras em muitos pontos essenciais. Cristo é declarado como o único caminho para Deus. Ao final, as pessoas serão salvas ou perdidas, e os pecadores são chamados para deixar, de uma forma radical, seus caminhos maus para os caminhos de justiça e amor. Na Bíblia não existe uma abordagem de tanto - bem como (frouxa) para estes e outros assuntos essenciais. A abordagem para a vida baseada na cosmovisão de conjuntos centralizados, no entanto, levanta perguntas importantes. Primeiro, como podemos saber quando as pessoas são verdadeiramente cristãs? Deus olha para o coração das pessoas, e conhece quem Lhe pertence. Nós, por causa da nossa finitude, podemos apenas olhar para o critério externo - aquilo que as pessoas falam e fazem. Conseqüentemente, para nós a conversão freqüentemente parece mais como um processo do que um ponto, e a igreja mais como um corpo indefinido feito de pessoas com degraus diferentes de compromisso com Cristo. O problema não é a natureza verdadeira de realidades espirituais, mas os limites da nossa percepção humana. Pela revelação podemos ver a realidade como Deus a vê, porém apenas por um espelho, obscuramente. Ainda não podemos ver como Ele vê. Segundo, como podemos organizar uma igreja nos princípios do conjunto centralizado? É um problema especialmente para os do Ocidente, para quem a ordem institucional e o planejamento são tão importantes. 26 É claro que precisamos reajustar nossas prioridades. Temos que dar mais importância às pessoas do que aos programas, dar prioridade aos relacionamentos humanos acima de ordem, e gastar mais tempo em oração do que em planejamento. Nisso podemos aprender muito das igrejas de sociedades relacionais. ----26

É interessante notar que os movimentos das igrejas independentes na Índia, como os Bhakt Singh, organizam-se em termos de conjuntos centralizados. Têm vários níveis de membresia não rigidamente definidos, e dão posições de liderança para alguns poucos presbíteros que estão mais no centro.

♦ Conjuntos e Confusão Transcultural Uma compreensão de conjuntos pode nos ajudar a entender algumas das confusões que surgem nos relacionamentos interculturais, quando pessoas com o pensamento de conjuntos delineados se encontram com os de pensamento de conjunto indefinido ou relacional. Um exemplo disso foi o encontro de um executivo de uma missão americana com os líderes de uma igreja indiana. O executivo queria saber o número exato de membros das igrejas. Quando os líderes indianos deram-lhe apenas um número aproximado, o executivo queria saber por que não havia listas de membros mais exatas. Insistiu para que fossem introduzidos rols de membresia para saber quem pertencia à igreja e quem não pertencia. Os líderes sugeriram que isso não era apropriado nas aldeias indianas, onde as pessoas variam entre os interessados, os que estão buscando, os crentes, os batizados, e os presbíteros e líderes. Traçar uma linha demasiadamente clara, sugeriram, faria com que as pessoas se afastassem da igreja. O americano se sentiu frustrado, e continuou insistindo que fossem traçar a linha clara entre os crentes e não crentes. As diferenças entre o executivo missionário e os líderes indianos eram, em parte, ligadas pela maneira como construíram as suas categorias cognitivas. O executivo, sendo americano, queria categorias bem definidas. Os indianos estavam pensando mais em termos de conjuntos indefinidos. Um problema semelhante surgiu quando notei que os hindus freqüentemente dão ofertas na igreja, ou pedem para Cristo curar seus filhos. As divisas entre o hindu e o cristão não são claras. A mesma coisa acontece entre o hinduísmo e o islamismo. É comum os aldeões hindus venerarem santos muçulmanos e fazer ofertas para Alá. Outro exemplo está ligado com a organização das igrejas indianas nas aldeias. Nas igrejas controladas pelas agências missionárias, eleições democráticas foram introduzidas para eleger os líderes. Teoricamente apenas os membros podem votar. No entanto, na realidade, os candidatos cristãos recrutam seus parentes hindus para vir à igreja e votar em favor deles. Pelo fato da igreja não ter traçado uma linha clara entre membros e não-membros, as eleições anuais se tornaram um acontecimento da comunidade com a participação dos hindus. As igrejas que desenvolveram suas próprias estruturas eclesiásticas os fazem, não na base de votação democrática, mas em concílios informais dos presbíteros. Não são líderes formalmente eleitos, mas cristãos maduros que ganharam o respeito dos outros pela sua sabedoria e bom senso. Quando surgem questões problemáticas, vários presbíteros são chamados para decidir a situação. Qualquer pessoa pode assistir à reunião e todos podem expressar as suas opiniões. No final, porém, são os presbíteros que formulam a solução e articulam o consenso das pessoas, buscando o bem-estar da comunidade como um todo. A decisão é colocada em ação pela pressão social. Levado ao extremo, membros da igreja param de associar-se com o que errou até que ela ou ele se reconcilia com a comunidade Geralmente, quando os missionários insistem em seguir normas democráticas nas igrejas das regiões rurais da índia, surgem brigas políticas e pouco crescimento da igreja. Quando formas naturais de política da igreja emergem, as igrejas funcionam melhor e crescem mais rapidamente. O pensamento norte-americano de conjuntos delineados não funciona bem em sociedades que pensam em outros termos. É claro, temos que estudar nossas próprias cosmovisões escondidas e inconscientes para ver como torcem nossa visão das Escrituras. Trazer nossos pressupostos para a luz ajuda-nos a nos livrar do seu controle sutil sobre nossos pensamentos. Assim poderemos ler as Escrituras com novos óculos e deixar que elas

nos falem de novas maneiras. Podemos começar reformulando nossa cosmovisão e torná-la mais bíblica. Este artigo é o Capítulo Seis no livro Anthropological Reflections on Missiological Issues (Paul Hiebert, Ed. Baker Book House, 1994).

Princípios Missiológicos dos Cânticos do Servo no Livro de Isaías
Claire Siddaway Claire Siddaway é missionária da Sociedade Evangélica da América do Sul, trabalhando como diretora e professora de Missões no Centro Evangélico de Missões (CEM) em Viçosa, MG. Claire traz para a ciência de missões o conhecimento do Antigo Testamento. Neste artigo podemos apreciar o casamento das duas disciplinas para nossa maior compreensão dos propósitos missionários de Deus em toda a Bíblia. Introdução George W. Peters (1972, p. 127) destaca que Isaías contém alguns dos textos missionários mais especiais do Antigo Testamento, e que a evangelização da terra inteira está expressa nos capítulos 40 a 66 mais enfaticamente do que em qualquer outro trecho do Antigo Testamento (1972, p.128). H. H. Rowley concorda dizendo: "Em nenhum outro lugar no Antigo Testamento achamos uma visão do mundo expressa mais claramente, em nenhum outro lugar uma chamada tão clara ao esforço ativo em missões." De fato, Isaías descreve como nenhum outro profeta a universalidade de Iaveh, e a participação dos gentios na salvação. Há uma riqueza de ensino missiológico no seu livro sobre o caráter de Deus, o Messias, o reino de Deus e nossa esperança escatológica. Mas neste artigo queremos focalizar os trechos que descrevem o Servo de Iaveh e seu ministério. John Bright destaca a importância destes trechos, chamados cânticos do Servo. Pois como membros da igreja de Cristo nossa vocação é aquela vocação do servo. Até que ponto nós a levamos a sério?...O chamado de perder a vida para que esta seja achada novamente, de tomar a cruz e seguir, permanece misterioso e ofensivo para nós. De certo, trabalhamos para trazer os homens a Cristo, e oramos, 'venha o Teu reino'. Mas em nosso trabalho vemos como um trabalho de conquista e crescimento, programas bem-sucedidos e dólares. Pode ser que procuremos construir o Reino do Servo, sem seguir o Servo? Se assim fazemos, sem dúvida edificaremos uma grande igreja, mas teria algo a ver com o reino de Deus? Lembremo-nos então que a tarefa da igreja não é outra senão a tarefa do servo. Faremos uma análise baseada no texto hebraico e citaremos passagens paralelas para analisar princípios missiológicos e o cumprimento destes princípios no ministério de Jesus. Consideremos o exemplo que é deixado para a tarefa de missões agora e sugeriremos algumas aplicações no preparo de missionários. A Identificação do Servo dos Cânticos O termo servo é usado referindo-se à nação de Israel, mas na seção de Is 40 em diante há quatro trechos destacados como "Os cânticos do Servo", onde o uso do termo servo é reconhecido como distinto porque a personificação é muito forte, especialmente no capítulo 53, e este servo anônimo tem um ministério para a nação de Israel. Estes trechos são: 42.1-4 ou 1-7ou 1-9; 49.1-6 ou 1-7 ou 1-13; 50.4-9 ou 4-11; 52.13 a 53.12. O início de cada cântico é claro, porém, no fim dos primeiros três cânticos, há uma transição para o texto seguinte; por isso os limites finais são discutíveis. Isso evidencia que, se os cânticos foram compostos em separado (e alguns sugerem um autor diferente do autor dos capítulos 40 a 55), eles foram compostos antes do texto em que foram inseridos. Estes cânticos parecem desenvolver o significado do servo como um indivíduo, e Isaías 53 declara que pelo sofrimento e morte vicária de uma pessoa, muitos serão justificados.

A identificação desta figura do servo é um dos enigmas do livro, e várias sugestões foram dadas de natureza coletiva e individual. Podemos resumir assim: Coletivo: 1. A nação de Israel 2. Uma idealização da nação 3. Um remanescente purificado na nação 4. Uma classe da nação, como os profetas, os escribas, ou os hassidim. Individual: 5. Um indivíduo histórico como Moisés, Jó, um profeta como Jeremias, Ezequiel ou o próprio autor; um rei como Jeoaquim, Josias, Ezequias, Zorobabel ou um profeta ou escriba mártir desconhecido. 6. Uma figura mítica baseada no mito de um deus que morre e é revivificado 7. Uma figura messiânica A palavra "ebedh, "servo", ocorre 21 vezes em Isaías 40 a 55: doze vezes claramente refere-se à nação de Israel, uma vez refere-se ao profeta e oito vezes são questionadas, todas sendo nos cânticos do Servo. Nestas oito ocorrências nos cânticos, a identificação com a nação é difícil de sustentar porque este Servo tem um ministério para a nação e também porque o capítulo 53 seria extremamente difícil de interpretar. A morte e ressurreição do capítulo 53 são identificadas por alguns com o exílio, sofrimento e restauração da nação, mas, neste caso, quem falaria as palavras de confissão de 53.4-6? Teriam que ser os gentios, mas muito dificilmente afirmariam a morte vicária de um servo inocente (v. 9), olhando para a nação de Israel no exílio. Entretanto, se pensarmos no remanescente, dificilmente podemos dizer que morreram e ressurgiram no exílio e restauração. Em 49.3 o servo é chamado de Israel, mas isso pode ser porque ele é a personificação daquilo que a nação devia ser. Se identificarmos o servo como sendo um indivíduo, o relacionamento com Iaveh, a inocência (53.9) e morte vicária e sacrificial (53.5, 6, 8, 10, 11, 12) indicam uma figura messiânica. O conceito que os judeus tinham do Messias era totalmente diferente do servo terno e sofredor descrito nestes cânticos. Se a idéia do profeta foi mesmo uma figura messiânica, não seria naturalmente identificada com o entendimento corrente do Rei ideal vindo para reinar. Entretanto Skinner (1963, p. 277) afirmou que há muitas referências nos escritos judaicos da Idade Média que a figura messiânica foi a interpretação rabínica tradicional, e pelas apologias parece que era aceita por rabis na época de Tertuliano e Justino. Muitos autores, incluindo Joaquim Jeremias e Oscar Cullman, mantêm que Jesus entendeu seu ministério e seu destino à luz das descrições do servo sofredor. As palavras celestiais no batismo (Lc 3.22) são reconhecidas como baseadas em Salmo 2.7 e no primeiro cântico (Is 42.1). O ministério primeiro aos judeus, mas também aos gentios, é previsto em Isaías 49.5, 6 e Ele afirmou que veio "para servir e dar a sua vida em resgate por muitos" (Mc 10.45). No discurso durante a última Ceia, Ele citou Isaías 53.12 (Lc 22.37) dizendo que "importa que se cumpra em mim". É evidente que os discípulos não esperavam um Messias que sofreria (Mt 16.22). Mas o Novo Testamento mostra que depois da cruz este conceito do servo os ajudou a compreender a morte e o ministério de Jesus. Sem dúvida Jesus mostrou a relevância destes textos do Servo durante o seu ensino depois da ressurreição (Lc 24.26, 27, 45, 46). E então, os discípulos e a igreja primitiva tomaram o conceito do servo sofredor como a chave para entender que "o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mor-

tos". Nos próximos meses referiram-se a Jesus como o Servo, como podemos ver no discurso de Pedro em Atos 13.13, 26 e na oração em Atos 4.27, 30. Mais tarde, no livro de Atos, quando os apóstolos foram aos gentios, não usaram tanto o título de Servo, mas esse continuou a ter significado para eles. Pedro usou Isaías 53 como texto básico na sua primeira carta (1Pe 2.20-25). Atos 8.32-35 aplica Isaías 53 a Jesus, e Mateus entendia que as características do ministério de Jesus foram o cumprimento da descrição do servo, especificamente as curas e expulsões de demônios (Mt 8.16, 17 citando Is 53.4) e as curas e a falta de publicidade (Mt 12.15-21 citando Isaías 42.1-4). Paulo também citou vários versículos dos cânticos como a base de certos princípios missiológicos do seu ministério (At 13.46-49, citando Is 49.6; Rm 10.16, 17, citando Is 53.1; Rm 15.20,21 citando Is 52.15). A obediência e a submissão de Jesus como servo, enfatizado em Isaías 50.8 e Isaías 53, é fundamental para a teologia do segundo Adão (Rm 5.12-21 especialmente v. 19) e do hino de Filipenses 2.5-11. De fato, para analisar o conteúdo missiológico destes cânticos, não é essencial definir quem é o Servo. Entretanto, baseado no testemunho de Jesus e da igreja primitiva, nós entendemos, como muitos autores, que Jesus de Nazaré foi o cumprimento desta pessoa do Servo. Estudaremos além dos princípios missiológicos, o seu cumprimento no ministério de Jesus, e o exemplo que deixa para a tarefa de missões hoje. Há alguns aspectos desse ministério que somente Ele poderia fazer em nosso favor, como especialmente a Sua morte vicária, mas em muitos aspectos estes versos nos deixam um exemplo que é um desafio para o ministério de cada missionário, e para os professores que querem prepará-los. A Motivação do Ministério do Servo ♦ O Conhecimento de Deus Assim disse o Deus Iaveh criando os céus Estendeu, formou a terra e o que produz Dando fôlego ao povo sobre ela, espírito para o povo nela" (Isaías 42.5). É o conceito de Deus, Criador, soberano, único e ético que motiva o ministério dos seus servos e testemunhas. A teologia dos cânticos nos parece coerente com a dos capítulos em que são inseridos. Como vimos nas páginas iniciais desta monografia, nos capítulos 40 a 55 de Isaías o profeta enfatiza que Iaveh é o Criador de absolutamente tudo, por quem e em quem existe o universo inteiro. Ele é o Criador dos céus, de toda a terra, dos corpos celestiais, da natureza e da humanidade. Isso não é somente um evento histórico passado, mas Ele está continuamente sustentando o mundo, a natureza, e dando "fôlego de vida ao povo que nela (a terra) está" (42.5). O amplo uso (11 vezes) do gerúndio do verbo criar (bore'), traduzido "Criador, que cria ou criando", demonstra esta atividade criativa contínua. Ele é soberano e ativo nos eventos históricos e está exercendo seu poder de criar novas circunstâncias para seu povo, de salvação ou de julgamento, de alegria e paz ou de mal (45.7,8; 57.19; 65.18). Esta soberania não se estende somente ao povo de Israel, mas aos eventos políticos mundiais, que Ele pode predizer através dos seus profetas. Iaveh é único. Não há Criador nem divindade além dEle. A unicidade de Iaveh é repetida vez após vez, especialmente nos capítulos 40 a 55, como em 44.6, 8; 45.6, 14, 21. O profeta tinha a convicção que Iaveh era o dono do mundo inteiro por ser seu Criador. Por isso as nações devem reconhecer que Iaveh é o único criador e Deus verdadeiro, e dar-lhe a glória que Ele merece (45.6). Iaveh é um Deus ético, que tem padrões de moralidade e retidão. O mundo criado por Ele, como indivíduos e comunidades, devem viver em dependência a Ele e

seguir estes padrões. Como único Deus e Criador, Ele tem o direito de exercer julgamento sobre os povos e o poder de aplicar Sua sentença (5.8-30; 14 a 24). Entretanto, Ele é um Deus que se revela e deseja ser conhecido por seus súditos em toda a terra (11.9; 19.20). Ele é misericordioso e oferece ao seu povo perdão completo (1.19; 43.25; 44.22). A consciência de quem é Iaveh, nosso Deus, é a motivação, a fonte de missão. Ela é essencialmente a missão Dei e flui do próprio caráter de Deus e dos propósitos de Deus pelo mundo que Ele criou, sustém, e sobre a qual é soberana. É o conhecimento, a reverente adoração e o amor a Deus que constrangem seus servos a querer manifestar a sua glória aos outros. ♦ Escolhido e Chamado por Deus Em Isaías 42.1, Iaveh declara que o servo é Seu servo e Seu escolhido e em 42.6 que Ele chamou o servo em justiça. Em Isaías 49.1, o servo começa enfatizando a sua convicção de ser chamado pelo nome por Iaveh desde antes do seu nascimento e em 49.5, desde o ventre. Podemos comparar isso com a eleição de Israel (Is 41.8, 9) e de Ciro (Is 45.3, 5). Isaías 42.1 afirma que Iaveh tem prazer na pessoa do servo e esta frase foi citada pela voz celestial na ocasião do batismo de Jesus, confirmando a sua vocação. Muitos missionários aconselham sobre a importância do missionário ter convicção da sua chamada pessoal, de envio por Deus. A escola precisa cultivar um ambiente de amplas informações, aconselhamento, encontros e piedade, onde os alunos possam desenvolver sua convicção pessoal de envio, sem forçar a pessoa a assumir prematuramente uma chamada específica. ♦ Preparado e capacitado por Iaveh É claro que a fonte da capacitação do servo é sobrenatural, de Iaveh. Em 42.1, Iaveh afirma que Ele sustém o servo e que o servo tem o espírito (ruah) de Iaveh, como em Isaías 11.2 (do "Rebento") e em Isaías 6l.l (que Jesus citou como cumprido no seu próprio ministério [Lc 4.16-21]). O espírito significa experiência da presença, poder e sabedoria de Deus. No verso 42.6, Isaías usou a expressão íntima de segurar a mão (como usada para Ciro em 45.1), e em 49.5 o servo testemunha "o meu Deus é a minha força". Assim as ações e o caráter do servo são expressões dos propósitos e do caráter de Iaveh. O servo glorificará o Senhor, e o Senhor o servo (49.3, 4, 7; compare Jesus e o Pai em João 17.5). Isaías 49.2 fala do processo de preparação orientado por Iaveh, que é comparado com o processo de formação de uma flecha. As frases de 49.2 "na sombra da sua mão me escondeu" e "me guardou na sua aljava" nos lembram que o preparo do servo pode levar tempo, e ele tem que esperar até o momento certo quando o Senhor retirará a espada e atirará a flecha. Isso nos lembra dos trinta anos de vida de Jesus antes de começar Seu ministério. O missionário precisa ter paciência no tempo de preparo de Deus - preparo não somente intelectual mas de caráter e maturidade espiritual. Este é um processo ministrado por Deus, uma etapa do qual será o curso de treinamento, mas que continua no campo. No seu livro Living Sacrifice (Roseveare, 1979, p. 26, 27, 105, 106), Helen Roseveare usou a imagem do preparo de uma flecha, baseada na frase "fezme como uma flecha polida" (Is 49.2), como analogia das lições que aprendeu no seu serviço missionário. Ela escreveu: Será que posso ver que Deus queria transformar a minha vida de um galho inútil para uma flecha, uma ferramenta útil nas suas mãos, para o progresso dos seus propósitos? ... Ser assim transformada, estava disposta ainda estou disposta - para o processo de talhar, lixar, limpar, que será necessário na minha vida cristã? O arrancar impiedoso de folhas e flores pode incluir a renúncia de televisão ou de máquina de lavar roupa, ou ficar solteiro a

fim de cumprir um ministério... O tirar de espinhos pode incluir tratar de uma maneira drástica inveja oculta, orgulho escondido, a renúncia de direitos preciosos em liderança e administração. O limpar da casca pode incluir lições a serem aprendidas de morte a si mesmo - autodefesa, auto-piedade, autojustificação, vindicação, auto-suficiência.... Será que estou preparada para a dor, que às vezes pode parecer sacrifício, para ser transformado em uma ferramenta a Seu serviço? Em Isaías 50.4, lemos que o servo é um discípulo que tem a língua daqueles que aprendem. "Eruditos" não é uma boa tradução. A palavra traduzida "eruditos" é limmudhim, plural do adjetivo derivante do verbo lamadh, que significa "ensinar", então significa "ensinados" como "discípulos" ou "estudiosos". É traduzida por "ensinados" em Isaías 54.13 e por "discípulo" em Isaías 8.16 (Brown, 1983, p. 541). Toda manhã o servo é despertado por Deus para ouvir, aprender e obedecer (50.5). Lembra-nos a expressão semelhante do Salmo 40.6-8, que é aplicada a Jesus pelo autor de Hebreus 10.5-7. George Adam Smith (p. 292, 3) afirma que: O servo é apresentado como escolhido por Deus, inspirado por Deus, equipado por Deus, criatura de Deus, instrumento de Deus, útil somente porque é usado, com influência somente porque é influenciado, vitorioso porque Ele é obediente; aprendendo os métodos do Seu trabalho por despertamento diário à voz de Deus, fala bem somente porque primeiro ouve bem, com somente a força e coragem dispensados por Deus, e cumprindo tudo para a glória de Deus. Na vida de Cristo vemos que Ele demonstrou dependência do Espírito Santo, fez questão de gastar tempo em oração ao Seu Pai (Mt 14.23; Lc 6.12; 11.1), e submeteu-se inteiramente à vontade do Pai (Jo 5.19; 8.28; Mt 26.39). É essencial que o missionário cultive sua vida devocional, mas de fato é comum que as atividades prejudiquem seu tempo à sós com Deus. Ele necessita ouvir diariamente a orientação de Deus e precisa ser convencido desta necessidade. É também importante que o missionário tenha o espírito de aprendiz, não somente de Deus, mas de pessoas. O missionário que pensa ter todas as respostas será um fracasso na integração e na contextualização. O professor, mesmo na sala de aula, precisa compartilhar deste relacionamento devocional com Deus e modelar um espírito de aprendiz, aberto a aprender dos alunos. A Metodologia do Ministério do Servo ♦ Universal Quase todos os teólogos concordam que o Servo dos cânticos tem um ministério universal. O alvo do Servo de Iaveh é glorificar Iaveh, seu mestre (49.3), e estabelecer a justiça de Iaveh entre as nações do mundo. Como Iaveh é o Deus universal (42.5), a tarefa do Servo é universal. É uma missão dupla, restaurar os judeus (49.5; 53.15) e ser luz aos gentios (42.1, 4, 6; 49.6; 52.15; 53.12). Muitos sugerem que Jesus conceituou seu ministério na base de uma combinação das figuras do Messias, o Filho do Homem e o Servo, todos os três com um impacto universal. O título "Filho do Homem" é significativo também porque em Daniel 7.13, 14 o reino de Deus na terra vencerá o poder dos inimigos e será estabelecido pelo Filho do Homem, que terá domínio sobre todos os povos, nações e línguas. ♦ Um Ministério de Ensino Isaías 42.1-4 mostra o servo não como um rei, mas como mestre ou rabi, ou profeta que ensina, e foi assim que Jesus viveu.

Em 42.1 e 3 ele "promulgará o direito/justiça" (mishpat) às nações (v. l, goyim). Zimmerli afirmou que esta é a frase crítica para a nossa interpretação da tarefa do Servo. No v. 4 o Servo tem o desafio de pôr "na terra o direito" (mishpat) e "para sua lei (torah) as terras do mar aguardarão". No v. 3 a proclamação é "em verdade", quer dizer "de acordo com a verdade". O servo tem uma paixão pela justiça e pela verdade. O que o Servo produzirá? Em 42.1, 3 e 4 é mishpat.. Mishpaté uma palavra comum no Antigo Testamento, mas difícil de traduzir. O Léxico de Brown-DriverBriggs (Brown, p. 1048) dá o sentido básico de julgamento, mas pode significar também justiça, retidão, ordenança, decisão, direito c costume. A maioria dos comentadores1 considera que nas profecias de Isaías mishpat tem o sentido amplo de "verdadeira religião". É a revelação de Iaveh, a lei divina, a vida orientada pelos princípios da justiça e da humanidade que é o efeito da verdadeira religião de Iaveh. Herntrich (p. 932) escreveu que a extensão de mishpat aos gentios significa a extensão da aliança ao mundo. George Adam Smith (1950, p. 299, 300) analisa mishpat e chega à conclusão que, neste contexto, não é tanto o corpo das leis dadas a Israel, mas os princípios de direito e justiça que as inspiram. Ele citou a opinião de Davidson que mishpat é "a equidade e direito civil que é resultado da verdadeira religião de Jeová". Portanto, o alvo da obra do servo é "penetrar e instruir a vida de cada nação na terra com a retidão e piedade que são ordenadas por Deus". Destacamos que esta lei traz esperança ao povo, ilumina e liberta (42.4,6,7 e compare 61.1). Os autores que apóiam a linha particularista preferem preservar a tradução de "julgamento". Snaith, por exemplo, traduz mishpat como "execução de justiça". MartínAchard e de Boer conservam o significado de "julgamento", e oferecem a interpretação que mishpat refere-se ao julgamento de redenção em favor de Israel, que será manifestado às nações. Martin-Achard interpreta assim: Assim o mandato do servo não foi trazer a verdadeira religião aos pagãos, sua tarefa é fazer conhecido o julgamento declarado por Iaveh em prol de Israel. O mundo inteiro, até as ilhas remotas, precisa falar do que Iaveh fez pelo Seu Povo. As nações não são chamadas para a conversão pela pregação missionária do Servo, elas são testemunhas oculares do julgamento divino, que restaurou vida para Israel (1962, p. 26). Entretanto, esta interpretação deixa quase sem sentido o ministério do Servo (que Martin-Achard entende como restaurar Israel e sofrer com resignação), resistindo o sentido natural de yôtsi' ou "faz surgir", que consideraremos em breve. Um dos desafios do trabalho transcultural é distinguir o mishpat de Deus, quer dizer distinguir os princípios supraculturais das leis, normas éticas e formas culturais que são a expressão destes princípios nas culturas bíblicas e nas nossas próprias culturas, e aplicá-las apropriadamente dentro de outras culturas. Precisamos providenciar em nosso currículo, nas matérias de teologia bíblica, hermenêutica, ética, antropologia, contextualização, etc., oportunidades para a análise e a reflexão a fim de desenvolver esta sensibilidade. As palavras do servo são poderosas e eficazes. Ele fala palavras que cortam e que confortam (50.4). A boca do servo é como uma espada polida (49.2) que é semelhante à expressão de 11.4b sobre o Renovo, Rei davídico de paz. Isso é sempre exercido em justiça, por causa da sua íntima comunhão com Deus.

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Por exemplo A. B. Davidson; Von Rad; H.H. Rowley, Missionary Message of the Old Testament, p.55, 56; Herntrich, Theological Dictionary of the New Testament 3, p. 930-93.

♦ Centrípeto ou Centrífugo O Servo "promulgará o direito" (42.1, 3). O verbo traduzido "promulgará" é yôtsi' e é a 3a p. m. s. do incompleto do Hiph'il (i.e. causativo) do verbo yatsa' = "sair", então o sentido direto é "faz sair". Vários comentaristas, incluindo Martin-Achard (1962, p. 26), cuja interpretação citamos acima, preferem a tradução de "manifestará" ou "causará ser visível" (Carriker, 1992, p. 148). Entretanto, "fez sair" claramente tem a idéia centrífuga e não simplesmente centrípeta. É afirmado no v. 4 que o Servo perseverará "até que ponha na terra o direito" (mishpat), e continua declarando que: "as terras do mar aguardarão a sua lei (torah)". O verbo traduzido "aguardarão" é y'yahalû que é 3o m. pl. do incompleto do Pi'el do verbo yâhal= "esperar", "aguardar". É usado numa frase semelhante em Isaías 51.5. Por ser o incompleto, a tradução é "aguardarão" ou "aguardar". 2 Pode indicar que há uma consciência de desejo pela lei e pela doutrina do verdadeiro Deus nos corações de certos pagãos, como Don Richardson tem catalogado no seu livro O Fator Melquisedeque. De qualquer forma, é implícita a idéia que eles esperam a ida de alguém, o Servo, para pôr, ou estabelecer (Brown, 1983, p. 963d) esta lei. Martin-Achard (1962, p. 18) citou 3 J. S. van der Ploeg (1936, p. 192) que escreveu: "Os cânticos do Servo descrevem um Servo que é enviado para ser instrumento de Deus para a conversão das nações - uma conversão que não será alcançada sem o trabalho custoso de pregação." Já vimos que é um ministério universal e conseqüentemente transcultural. De fato, Blauw identificou Isaías 42.4 como o único versículo do Antigo Testamento verdadeiramente centrífugo, em que enfatiza o clamor de sair para proclamar Iaveh às nações. Kenneth Bailey também destaca Isaías 42.1-4 e acrescenta 49.6. Preocupa-me que hoje, em vários dos nossos cânticos de louvor, há um tom triunfalista e citam frases do estilo do Antigo Testamento sobre a vinda das nações e a submissão dos gentios. Como exemplos citamos4: Jesus é o Senhor em toda a terra, Grande é o seu nome em Israel; Todas as nações virão, diante dele se prostrarão, E reconhecerão: Jesus é o grande Rei O Rei das nações, quem não temerá.... Todas as nações virão e adorarão diante de Ti. Este estilo de cântico pode anestesiar a consciência dos membros da igreja em relação à sua responsabilidade de pagar o custo de proclamar o evangelho, evangelizando e enviando missionários. Precisamos ouvir claramente as palavras de Paulo (Rm 10.14, 15, 17): Como crerão naquele de quem nada ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?.... E assim, a fé vem pela pregação. Afirmamos também que a submissão a Cristo só significa salvação quando é pessoal, voluntária e antes da volta de Cristo.

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Outros usos do mesmo verbo no Pi'el seguido pela preposição lamedh (para/por) são Jó 29.21, 23; 30.26; Sl 31.25 (24); 33.18, 22; 69.4(3); 119.43, 49, 74, 81, 114, 147. 3 Martin-Achard cita Ploeg para representar a idéia tradicional que depois refuta. 4 Nogueira, Carlos Antônio. Halelujah. Atibaia: Redigio, 1990. Números 168 e 200. Veja também 231, 212, 33 e 65.

Jesus, ao contar as parábolas do banquete, baseadas em Isaías 25.6, 7, viu a necessidade de missão no sentido centrífugo na analogia dos servos que entregam os convites, que é implícita nas promessas de participação no banquete. Ele claramente mandou que os Seus discípulos pregassem o evangelho (Mc 16.15; Mt 28.19), embora isso fosse depois da sua morte, quando começou a nova era escatológica, de acordo com a interpretação promovida por Joaquim Jeremias. Ele esperou pelo dia quando será "pregado em todo o mundo este evangelho" (Mt 26.13). Não há tanta contradição entre o "vinde" do Antigo Testamento e o "ide" do Novo Testamento. Martin-Achard afirmou: "A diferença entre os dois movimentos, centrípeta e centrífuga, é apenas relativa". E citou uma carta de J. J. von Allmen onde ele escreveu: Se, à primeira vista, a missão do Novo Testamento parece ser centrífuga, é assim a fim de tornar-se centrípeta. Homens vão ao mundo para trazê-lo; homens lançam a rede a fim de recolhê-la; eles semeiam a fim de colher. Como mencionamos acima, Paulo citou os cânticos do Servo, e outros textos de Isaías, como base de alguns dos princípios do seu ministério de pregação aos gentios, e é claro que ele entendeu um mandato universal e centrífugo. Em Antioquia da Pisídia ele citou Isaías 49.6 (o segundo cântico) como base da sua estratégia de levar o evangelho aos gentios, depois de primeiro pregar aos judeus. No seu testemunho diante do rei Agripa ele usou a expressão de 42.6 e 49.6 dizendo "o Cristo devia padecer, e, sendo o primeiro da ressurreição dos mortos, anunciará a luz ao povo e aos gentios". Em Romanos 15.20, 21 ele citou Isaías 52.15 (do quarto cântico) com base de seu alvo de "pregar o evangelho não onde Cristo já fora anunciado". Paulo claramente entendeu a necessidade da proclamação da palavra por pregadores. Na sua expressão mais clara deste princípio, na sua carta aos Romanos (10.13-17), ele citou não Isaías 42, mas 52.7 e 53.1. No mesmo discurso (vs. 20, 21) ele citou 65.1,2 comentando que o v. l refere-se aos gentios achando Deus porque Israel O rejeitou "o povo rebelde" de v. 2. ♦ Aliança com o Povo e Luz para os Gentios Devemos agora analisar Is 42.5, 6. Assim disse o Deus Iaveh criando os céus Estendeu, formou a terra ('eretz) e o que produz Dando fôlego (n'shâmâ) ao povo ('âm) sobre ela, espírito (ruah) para o povo (hlkîm) nela. Eu, Iaveh, te chamarei em justiça te tomarei pela mão te guardarei E te farei aliança de povo ('âm) e luz de gentios (goyím). O quinto versículo começa com uma apresentação impressionante do único Deus universal que criou o universo, formou a terra e sustenta a vida de toda a humanidade. Observamos que âm aqui refere-se a todos os habitantes do planeta Terra. Esta apresentação tem dois objetivos, de acordo com Ridderbos (1986, p. 350). Senhor para ser uma luz para os gentios... corresponde à majestade d'Aquele que o vocacionou, visto que Ele é o Criador de todas as coisas. Por outro lado, indica que a grandeza d'Aquele que o envia é a garantia de que a Sua vocação também atingirá o seu alvo. Iaveh chamou Seu Servo (compare 49.1), o sustenta e o faz ser aliança do povo e luz para os gentios. Observe que no texto hebraico não consta a palavra mediador (da aliança). O Servo em si é feito aliança. O único outro lugar no Antigo Testamento em que esta expressão é usada é em Isaías 49.8. Toda a aliança se compreende nEle. Aliança de quem? O termo 'am significa povo. Em Isaías 40 a 55 ele é usado 25 vezes no singular quando refere-se à nação de Israel e cinco vezes no plural referindo-se

à humanidade. As exceções são 40.7 e justamente 42.5. Aqui o termo está sem o artigo; normalmente leva o artigo quando refere-se a Israel. Então aqui pode ter o mesmo sentido de v. 5, i.e. toda a humanidade, e então as duas frases terão o mesmo sentido. Neste caso o Servo pode ser o povo de Israel que deve ser luz para os gentios e o mediador de Deus para o resto da humanidade. Entretanto muitos comentaristas consideram que 'am aqui tem o sentido específico do povo escolhido, em contraste com os goyim, os gentios. E o Servo tem um ministério tanto ao povo escolhido 'am, os judeus, quanto aos não judeus, goyim; (compare Is 49.6). Neste caso o Servo não pode ser a nação de Israel porque ele serve como aliança dela. Também não pode ser uma pessoa comum pela natureza especial de ser aliança. O sentido toma claro quando consideramos à luz do ministério de Cristo, que não foi somente nosso sumo-sacerdote mas era o próprio cordeiro sacrificial (Jo 1.29), que disse: "Este é o cálice da nova aliança no meu sangue derramado em favor de vós" (Lc 22.20). De qualquer forma o ministério é compreensivo à humanidade toda. A frase "luz aos gentios" ocorre em 42.6, 49.6 e 51.4, e, pelo paralelismo em 49.6, é normalmente entendida como sinônimo da experiência de salvação. MartinAchard (junto com Snaith e Orlinsky) entende que é a salvação dos judeus que está em foco e que a frase "luz para os gentios" (42.6; 49.6) refere-se a um holofote que ilumina a obra da restauração e da salvação do povo de Israel, e até deslumbra as nações. Na expressão semelhante em 51.4, 5 é Deus que afirma que "estabelecerei o meu direito como luz dos povos". A frase "luz para os gentios" é usada por Simeão no seu cântico em Lucas 2.32 e por Paulo em Atos 13.46-49. Esta luz penetra e liberta das trevas de cegueira e de prisão (42.7). As Marcas do Ministério do Servo ♦ Discrição Em 42.2 lemos "Não gritará ...". G. A. Smith (1950, p. 303) e afirmou que isso não pode referir-se aos meios do ministério, mas ao caráter do ministério, e ele traduziu esta frase: "não gritará, não será barulhento, nem fará propaganda de si mesmo". Na consciência do poder de Deus o servo pode ser calmo e não histérico; na dependência de Deus ele é humilde e quieto, e porque o coração dele está no ministério, ele não se engrandece às custas do ministério. É talvez especialmente pela última razão que Mateus cita 42.2 e o liga com o fato de Jesus evitar a publicidade (Mt 12.16, 17). Jesus pregou em público e entrou em debate, mas ele evitou isso quando iria prejudicar o seu ministério aos necessitados. Ele enfatizou muito mais um ministério pessoal a indivíduos, e o treinamento dos discípulos. O missionário do Reino precisa de equilíbrio, discernimento e humildade, e deve valorizar um ministério de persuasão quieta, evangelismo pessoal, e discipulado. ♦ Compaixão e Ternura O ministério não é apenas de pregar, mas de estabelecer a ética de Iaveh, que implica em um ministério de compaixão e ação a favor dos fracos e oprimidos (42.3,7); abrir os olhos dos cegos, libertar os cativos da prisão; e dar uma palavra sábia de conforto aos cansados (50.5; compare Is 40.29-31). Há um contraste entre a força de Ciro (41.2, 5; 45.2) e a mansidão do Servo. Vemos isso claramente como elemento do ministério de Jesus (Jo 4.8), e Mateus reconhece isso quando cita Isaías 42 (Mt 12.1821). O Servo trata com ternura as vidas quebradas, as pessoas cuja fé está se apagando (42.3), com apenas uma faísca de força para buscar á Deus, com os sonhos e as esperanças esmagadas. Mas o cuidado com o fraco é equilibrado com a demonstração da ética justa. Tantas vezes nós perdemos este equilíbrio. Ou nos envolvemos tanto com as pessoas que comprometemos os padrões éticos divinos, ou nos preocupamos tanto

com o certo e o errado que julgamos e rejeitamos os pecadores, e apagamos qualquer chama de fé ou de busca de Deus. Acima, questionamos a teologia de missões transmitida pelos nossos cânticos populares de louvor. O espírito triunfalista de alguns também é muito diferente do estilo do ministério do Servo descrito em Isaías 42.2,3 e deixado como exemplo para nós por Jesus. Consideremos, por exemplo: Caiam por terra agora os inimigos de Deus... Homem de guerra é Jeová Seu nome é temido na terra A todos os seus inimigos venceu.... Mesmo se achamos que representa um aspecto do avanço do Reino, será que também cantamos da compaixão e da ternura de Cristo para os perdidos? ♦ Coragem e Perseverança em Face de Sofrimento Há nos quatro cânticos uma progressão de sofrimento até a descrição vívida de Isaías 53.6-9. Em 42.4 há motivo de desânimo; em 49.4 o Servo confessa estar decepcionado com a falta de fruto, e 49.7 o descreve como "desprezado, aborrecido das nações". No terceiro cântico Ele é insultado, abusado, torturado injustamente (50.6-8), e finalmente sofre a morte violenta do "homem de dores e que sabe o que é padecer" do capítulo 53. Nas palavras de Blocher (1975, p. 67), o Servo passa da mansidão (42.2-4) à paciência (49.4), da paciência à coragem de firmeza, fazendo o rosto como um seixo (50.7), e de coragem à obediência total (53.10). Esta coragem não é simples estoicismo ou masoquismo, mas é baseada na confiança no Deus soberano e justo "Porque o Senhor Deus me ajudou,... sei que não serei envergonhado" (50.7). Pela consciência de que o ministério é de Deus, Ele não é apático quando não há fruto (49.5), mas não desanima (42.4), persevera (42.4; 49.4) e confia que a recompensa será de Deus (49.4, 5; 50.8). Jesus demonstrou esta firmeza de propósito em Lucas 9.51. Ele deixou exemplo para nós: "Pois naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados" (Hb 2.18). O missionário deve estar disposto a sofrer, e a perseverança é uma característica essencial. Na maioria dos campos missionários, o evangelismo e o crescimento da igreja são mais difíceis do que no Brasil. Tanto o missionário, como as igrejas enviadoras, precisam reconhecer a necessidade de paciência e perseverança. Durante o preparo na escola missionária, Deus pode trazer circunstâncias difíceis, desanimadoras ou sofrimento para nossos alunos. Precisamos estar atentos e sensíveis para acompanhar e apoiá-los enquanto Deus forma características essenciais nos seus servos. Morte Sacrificial e Vicária Quando consideramos o ministério em Isaías 53, o ministério do Servo assume um aspecto bem mais sombrio. Este último cântico não menciona o ministério de ensino, como os outros. A missão é outra. O Servo sofre uma morte violenta que tem efeito vicário. O servo é inocente, "dolo algum se achou na sua boca" (v. 9), mas Ele foi "ferido de Deus" (v. 4) e deu "a Sua alma como oferta pelo pecado" (v. 10), não o Seu próprio pecado mas o dos transgressores. Assim "Ele justificará muitos" (v. 11). Entretanto a ressurreição é a vindicação do Servo (49.4; 50.8; 53.10, 11) e Ele será glorificado (49.5), adorado (49.7), exaltado (52.13), recompensado (53.12) e satisfeito (53.11). Quando Jesus Cristo cumpriu estas profecias, foi o pivô da história da redenção. Depois da Sua morte e ressurreição, Ele mandou os seus discípulos pregarem o evangelho. Podemos confiar que Deus há de realizar o Seu propósito de estender a salvação, mas o Novo Testamento deixa bem claro que Deus quer usar servos para levar

estas boas novas da salvação. Temos convicção de que a obra é de Deus, e o poder vem dEle. Anunciamos as Boas Novas do Reino com a compaixão, perseverança e coragem inspirados pelo exemplo do nosso Salvador e Senhor, e no desejo de que, através do nosso testemunho, Ele possa ficar satisfeito porque muitos são justificados depois do penoso trabalho de sua alma. Conclusão A restauração do reino envolve também o ensino da ética de Deus. Isaías 2.3 prevê o tempo quando as nações "virão à casa do Deus de Jacó para que nos ensine os seus caminhos". Pedirão instruções sobre as ordenanças que Iaveh estabeleceu para a vida humana, e 42.1-4 mostra o exemplo deste ministério do ensino da lei pelo Servo ideal, e afirma que "as terras do mar aguardarão a sua doutrina". Lembramos a ênfase no ensino na Grande Comissão de Mt 28.19, 20. Como destacamos, o servo missionário precisa estudar e ser sensível para distinguir os princípios divinos supraculturais e ensinar estes princípios de maneira contextualizada e não na forma de leis, normas e formas culturais que são a expressão destes princípios nas culturas bíblicas e nas nossas próprias culturas. Acima de tudo, o povo de Deus, como indivíduos e como comunidade, deve demonstrar a validade das ordenanças de Deus pela qualidade das suas vidas e de seus relacionamentos. Este ensino incluirá também o aviso do julgamento daquele que recusa se submeter às leis de Deus. Entendemos que o ensino da ética de Deus e o exercício da compaixão de Deus são atividades naturais dos servos de Deus agora. Não devemos esperar pela inauguração divina do reino. O exemplo do Servo ideal é o nosso modelo. Como Ele, a compaixão de Deus nos levará a agir em favor dos fracos e oprimidos (42.3, 7), a abrir os olhos dos cegos, a libertar os cativos da prisão (61.1) e a dar uma palavra sábia de conforto aos cansados (50.5; compare Is 40.29-31). Procuramos ser pacificadores (Mt 5.9), apesar de que é somente Deus que pode de fato estabelecer a paz. O reino envolve até a restauração da própria criação, e assim há uma dimensão ecológica para nosso ministério. Entretanto, mesmo que nossa missão aqui seja integral, concordamos com Timóteo Carriker que, essencialmente, o estabelecimento do reino é feito por Deus. O reino de Deus não poderá ser identificado com o processo histórico, embora possamos e devamos detectar indícios deste reino na história, Enquanto a era escatológica seja apenas divinamente inaugurável, o povo de Deus também participa na sua promoção. E, enquanto sua realização seja apenas futura, já podemos discernir sinais dela na história presente. O modelo do Servo também nos lembra que, mesmo que a morte vicária seja única do nosso Salvador, haverá decepção e sofrimento no ministério missionário dos seus seguidores.

Bibliografia Blauw, J. A natureza missionária da igreja. São Paulo: ASTE, 1966. Blocher, Henri. The Servant of the Lord. Londres: IVP, 1975. Bright, John. A história de Israel. São Paulo: Ed. Paulinas. Brown, Francis. The new Brown-Driver-Briggs-Gesenius hebrew-aramaic Lexicon. E.U.A.: Christian Copyrights, 1983. Carriker, Timóteo. A missão integral. São Paulo: Ed. Sepal, 1992. Cundall, Arthur E. Scripture Union Bible study books Isaiah 40-Jeremiah. Londres: Scripture Union, 1969. Ellison, H. L. The Servant of Jehovah. Exeter: The Paternoster Press, 1983. Herbert, A. S. Isaiah 40-66. Cambridge, Inglaterra: C.U.P., 1975. Herntrich. Theological Dictionary of the New Testament 3. Jeremias, J. Jesus' promise to the nations. London: SCM Press, 1958, l°ed. Lausanne. O evangelho e cultura. São Paulo: ABU, 1985, 2° ed.. Knight, George A. F. Servant theology: Isaiah 40-55. Edinburgh: The Handsel Press, 1984. Martin-Achard, Robert. A light to the nations. Inglaterra: Oliver and Boyd, 1962. Originalmente publicado em francês em 1959. Peters, George. A biblical theology of missions. Chicago: Moody Biblical Institute, 1972. Redpath, Alan. Captivity to conquest. Londres: Pickering and Inglis, 1981. Richardson, Don. Fator Melquisedeque. São Paulo: Ed. Vida Nova. Ridderbos, J. Isaías, São Paulo: Ed. Vida Nova, 1986. Roseveare, Helen. Living sacrifice. Inglaterra: Hodder and Stoughton, 1979. Skinner, J. The Book of the prophet Isaiah chapters XL-IXVI. Cambridge: C.U.P., 1963. Skinner, J. The Book of the prophet Isaiah chapters I-XXXIX. Cambridge: C.U.P., 1963. Smith, George Adam. Isaías. 1950. Vander ploeg, J. S. Les chants du serviteur de Yahvé. Paris: 1936.

RESENHAS Ruth Tucker. ...E até aos confins da terra: uma história biográfica das missões cristãs. Trad. Neyd Siqueira. São Paulo: Edições Vida Nova, 1986, 590p. Resenha por Professora Terri Williams, professora de História Eclesiástica na Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Como diz o subtítulo, este livro é uma história biográfica de missões. A autora faz um resumo histórico de vez em quando, mas o centro do livro é o próprio missionário. Nisso podemos aproveitar a importância do livro como uma história de missões. Esta abordagem biográfica nos mostra o coração de missões. Porque pessoas se tornam missionários? Como confrontam o desafio de missões? Como exibem tanto heroísmo e fragilidade humana? Como uma pessoa pode deixar um impacto que continuará a ser sentido através dos séculos? No quadro assim apresentado, o leitor pode sentir a força e o impulso de quase dois mil anos de missões cristãs, como também falhas e problemas. Tucker dá um panorama largo do empreendimento missionário. Ela tanto inclui heróis missionários bem conhecidos (o Apóstolo Paulo, Patrício, Francisco Xavier, William Carey, Jim Elliot), como os que não são tão conhecidos (David Zeisberger, Jessie e Leo Halliwell, Betty Olsen, Festo Kivengere). De fato, ela inclui mais de cem biografias. A extensão do livro é impressionante. Tucker revisa missões modernas pelas seguintes divisões: 1. A área geográfica (Ásia Central-Sul, África Negra, o Oriente, as ilhas do Pacífico) 2. Grupos de origem (mulheres solteiras, estudantes, missões de fé) 3. Especializações (medicina, tradução, rádio, aviação) 4. Tendências modernas (mártires modernos, missões do Terceiro Mundo, novos métodos e estratégias). Um dos aspectos do livro é que não apenas traça a vida ministerial, mas vai além, para examinar as lutas na vida pessoal e familiar do missionário. Não é exatamente uma crítica desenfreada, no entanto revela a parte mais escura, para mostrar realisticamente o stress e as tragédias que fazem parte da vida missionária. A insanidade de Dorothy Carey, os conflitos e problemas de Hudson Taylor com outros missionários na China, a maneira como David Livingstone abandonou sua família, e o trauma de Helen Roseveare quando foi estuprada, são exemplos disso. Um capítulo que valoriza o livro, especialmente para os leitores brasileiros, é o da Dra. Barbara Burns, sobre missões no Brasil. Ela inclui resenhas biográficas de alguns dos missionários estrangeiros que vieram ao Brasil e alguns que foram do Brasil para trabalhar transculturalmente. Se a força deste livro é sua visão íntima e pessoal de missões, sua fraqueza é que a visão se torna inconstante. É possível ver as partes da história de missões, mais que o todo. A tentativa da autora de ligar as biografias e mostrar tendências gerais às vezes deixa o leitor confuso, ou esperando mais detalhes. Há pouco comentário explicativo. Um exemplo: na introdução Tucker tenta resumir 1700 anos da história de missões em quatro páginas! É uma tentativa interessante, mas não satisfaz. Uma outra fraqueza é o retrato desequilibrado dos séculos XVIII, XIX e XX às custas dos missionários anteriores. Em parte esta fraqueza existe devido ao fato de que há muito mais informações sobre missões modernas. Mas, das 544 páginas de texto, Tucker apenas utiliza 51 páginas para cobrir dezessete séculos de missões. Ela deixa fora algumas figuras importantes: Justino o Mártir, Gregório, o Iluminador, Gregório o Grande, Agostinho de Cantuário, Cirílo e Metódios - para mencionar alguns poucos.

Outra razão para o desequilíbrio com a ênfase em missões modernas é que não é principalmente uma história biográfica de missões cristãs, mas de missões protestantes - que realmente começaram apenas no Século XVIII. Missões católico-romanas são apenas mencionadas (24 páginas, e uma menção de vez em quando), e missões da Igreja Ortodoxa são quase totalmente esquecidas. O desequilíbrio e o peso demasiado no livro podem ser corrigidos pela leitura de História das Missões Cristãs de Stephen Neill (Edições Vida Nova), ou (se achá-los!) os sete volumes de Kenneth Scott Latourette A history of the expansion of Christianity. Mesmo assim, ...Até aos confins da terra é uma contribuição maravilhosa à literatura da história de missões. O formato biográfico e o tom inspirativo o faz uma história de missões não apenas para os estudiosos e especialistas em missões. É um livro para inspirar qualquer cristão a um compromisso maior com o Senhor. É um livro para todos que se importam com o mandato do Senhor, "Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações".

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