Revista Capacitando para Missões Transculturais #5

http://www.apmb.org.br A Globalização das Missões Brasileiras Da Perspectiva do Preparo Margaretha Nalina Adiwardana Margaretha Nalina Adiwardana, professora na Faculdade Teológica de São Paulo, apresentou este material na Assembléia Geral da Fraternidade Evangélica Mundial (WEF) em Abbotsford, Canadá em abril de 1997. Ela é também ministra de uma igreja indonesa em Mogi da Cruzes e professora e palestrante requisitada em escolas e igrejas. A Revista VEJA publicou um artigo com o título "Fé tipo exportação" com o primeiro parágrafo: "Em qualquer país que se coloque o pé hoje em dia existe uma grande chance de haver brasileiro." O jornalista descobriu um fato que já sabemos há algum tempo, como o subtítulo que ele colocou declara: "Missionários brasileiros se espalham pelo mundo para difundir o cristianismo."1 A Realidade da Globalização Os primórdios das missões transculturais brasileiras se deram no início deste século XX com a Igreja Presbiteriana do Brasil, que enviou em 1910 Rev. João Marques da Mota Sobrinho e Da. Mina para Portugal. Em 1911 a Convenção Batista Brasileira enviou João Jorge de Oliveira e Da. Prelândia Frias para o mesmo país.2 Hoje, no final do século, temos em torno de 2.500 missionários transculturais brasileiros trabalhando em mais de 70 países em todos os continentes. Cerca de 13% deles trabalham nos países na região da chamada Janela 10/40, conhecida por ser de difícil alcance, além de serem carentes do Evangelho.3 Há uma tendência atualmente de enviar mais missionários brasileiros para alcançar os grupos não alcançados, devido aos desafios e divulgação de movimentos, tais como Adotar um Povo, AD2000 e ênfase na Janela 10/40. O mundo muçulmano ganha crescente atenção como alvo de missões. (Pessoalmente, tenho notado nesses últimos dois anos que cerca da metade, e até mais, de candidatos e missionários treinados declararam que visam como alvo final algum país muçulmano.) Além dos brasileiros que estão se preparando e indo para vários lugares no mundo, há outras tendências crescentes da globalização e cooperação do empreendimento missionário baseado no Brasil. Preparo e Envio Multiétnico Devido ao fato do Brasil ter um fundo multiétnico, descendentes de diversas raças, muitos voltam ao seu país de origem para evangelizar o povo dos seus antecessores. Os nisseis e sanseis que estão no Japão trabalhando como dekasseguis incluem um número considerável de cristãos que não só visam evangelizar os japoneses, seja pelo testemunho ou mesmo como pastores e missionários. A segunda geração de chineses está também de olho na China, que inclui Hong Kong, Macau e Taiwan. É um

grande potencial quando os brasileiros de origens orientais se levantam para missões.4 Os jovens coreanos, após preparo teológico no Brasil, voltam para a Coréia já com bagagem de experiência transcultural e com a língua portuguesa como segunda língua, importante para missionários de país monolingual. Há também jovens africanos que são preparados no Brasil e retornam aos seus países ou para outros países na África. Há solicitações por apoio para servir como missionários por parte de cristãos africanos refugiados no Brasil por situações de guerra.5 Os latino-americanos de países de língua espanhola vêm ao Brasil para treinamento. Alguns continuam no país para servir aqui mesmo, mas muitos voltam aos seus países ou vão a outros países para servir lá. Praticamente em todos os grupos para treinamento missionário em diversas agências há jovens do Peru, Chile, Colômbia, Argentina, Paraguai, México, Venezuela, Bolívia, etc.6 O Brasil é considerado como o mais adiantado em missões e no treinamento missionário na América Latina. Cooperação e Parceria no Brasil No Brasil há uma forte ênfase na cooperação e globalização. Temos visto algumas atividades importantes que reuniram professores, líderes de agências e igrejas no sentido de tentar descobrir o papel de cada um no preparo e envio de missionários. 1. I Congresso Brasileiro de Missões Em outubro de 1993, durante o I Congresso Brasileiro de Missões em Caxambu, todos os participantes sentiram que a tarefa ordenada pelo Senhor Jesus Cristo, de ser testemunha até aos confins da terra é grande demais para ser executada independentemente por alguma denominação sozinha. Houve a conscientização de que todas as denominações brasileiras deveriam trabalhar em cooperação. 2. I Consulta da AMTB, APMB e ACMI Em outubro de 1995 reuniram-se a Associação de Missões Transculturais do Brasil (AMTB), a Associação de Professores de Missões no Brasil (APMB) e a Associação de Conselhos Missionários de Igrejas (ACMI) para a primeira consulta em conjunto. O tema era a Realidade Missionária Brasileira. 3. II Consulta da AMTB, APMB e ACMI Essa resolução de trabalhar em conjunto foi seguida por consultas particulares das associações em 1996 para ver o que cada uma deveria fazer e o que deveria ser feito em conjunto. Em abril de 1997, em Campinas, foi realizada a segunda consulta em conjunto das três associações, onde decidiram trabalhar mais estreitamente nos cuidados dos nossos missionários. Na prática, isso significa: o discipulado e o cuidado pastoral em conjunto onde a igreja, a agência e a escola trabalham na formação integral e contínua do missionário—antes de ir ao campo, no campo e no regresso para reciclagem e descanso. A cooperação significa também ajuda mútua entre as agências. Por exemplo, quando alguém fizer visita pastoral para os seus missionários, poderia visitar também os missionários brasileiros de outras agências. Isso pode aumentar a eficiência dos cuidados pastorais e a economia no custo de viagem normalmente alto, além de unir mais. Mencionou-se que na realidade do campo os missionários brasileiros costumam se juntar, independente de qual seja a sua agência.

Globalização no Campo No campo missionário a globalização e cooperação acontecem quando os missionários brasileiros trabalham em conjunto com várias organizações: Organizações Internacionais Organizações secundárias são usadas quando os missionários são enviados por uma agência de missões brasileira, porém preparado no campo com o seu trabalho sob a orientação de uma agência internacional. Isso acontece principalmente nos países onde os brasileiros estão como pioneiros, desbravando um campo onde não havia presença e, portanto, nenhuma estrutura brasileira. Igrejas Locais Nacionais Os missionários brasileiros trabalham também com igrejas locais nacionais: discipulando, formando líderes e até treinando missionários. Além disto há apoio para o envio de missionários e evangelistas locais nacionais. As Necessidades Resultantes da Globalização A globalização e principalmente a tendência de trabalhar no meio dos povos não alcançados resultam em algumas necessidades especiais. Treinamento mais Especializado Os povos não alcançados, na sua maioria, são povos nos países com proibição para o trabalho missionário. Existem graus diferentes de perseguição individual como sanção legal com punições do Estado, tais como prisão e até a pena de morte de convertidos. Isso significa que os missionários trabalharão sob condições de stress máximo. Um missionário ocidental num país muçulmano na África pondera: ". . . três dos primeiros crentes que discipulei foram assassinados por causa da sua fé. . . . 60% dos crentes (não tirados do seu ambiente) passaram por perseguição extrema até mesmo a morte. Os colegas têm me visitado em desespero enquanto os novos convertidos são espancados, expulsos das suas famílias e mortos".7 Outra realidade do campo é a pobreza, fome e doença. Da Coréia do Norte ouvimos histórias de pais que venderam os seus filhos para servirem de alimentação. De Moçambique vieram notícias de mortes de missionários e visitantes brasileiros por doença. Assim também de Macau, onde uma moça morreu no hospital de um dia para outro.8 Disse um missionário, "Não fui preparado para enterrar um irmão missionário." 9 Como preparar missionários para isso? E no caso de fome e pobreza, como preparar os missionários para servir efetivamente, porém sem ser paternalista, não criando dependência da igreja local para com a presença estrangeira.10 Violência de guerra tribal ou civil é outro problema que causa stress. A MIAF (Missão para Interior da África) Internacional teve que retirar todos os seus missionários em apenas uma semana, após mais de um século de trabalho em um país. Na Albânia, a decisão de ficar de uma missionária brasileira, enquanto a maioria dos estrangeiros teve que sair às pressas do país, valeu diversas reportagens nas revistas brasileiras. Chegaram relatos de que os cristãos albaneses, que foram bem discipulados no pouco espaço de

tempo desde a abertura em 1991, estão saindo às ruas para evangelizar. Milhares vieram ouvir e centenas aceitaram a Jesus como Senhor.11 Mas, como preparar bem os nossos missionários para perseverar em situação caótica e perigosa de guerra? Como terão a sabedoria de decidir ficar ou sair? Entendendo que a história brasileira conheceu muito poucas situações assim, nós percebemos que estamos despreparados psicológica e espiritualmente. Trabalhar assim requer grande perseverança para continuar em situações difíceis, sabedoria para tomar decisões corretas diante de pressões, humildade para trabalhar sem chamar a atenção e disposição para sofrer as conseqüências. O preparo deve então formar estas características no missionário, como práticas reais do amor a Cristo e aos perdidos. Além disso, os povos não alcançados são na sua maioria muçulmanos, hindus, budistas, animistas e ateístas materialistas, exigindo a necessidade do confronto de poder ou batalha espiritual. Deve-se fornecer um treinamento mais especializado para essas áreas, não bastando uma simples aula superficial de "Introdução às Religiões Mundiais". O problema é como encontrar um treinador brasileiro que possui experiência pessoal nessas áreas, além de conhecimento acadêmico ou teórico, pois estamos há apenas alguns anos ministrando nesses campos específicos.12 Os nossos missionários ainda estão servindo lá fora; alguns pretendem voltar para ajudar no treinamento somente daqui há alguns anos, quando a sua experiência já estiver consolidada com frutos permanentes no campo. Uma solução seria os professores de missões no Brasil poder buscar conhecimento especializado nas áreas necessárias nos centros de treinamento disponíveis no exterior. Podemos também pedir que os especialistas nos ajudem, vindo aqui dar seminários, como algumas agências já estão fazendo. De qualquer forma, devemos procurar nos especializar para criar um corpo docente brasileiro mais contextualizado para os nossos candidatos, conhecendo a nossa cultura e o que deve ser trabalhado para poderem perseverar nos campos difíceis—não só perseverarem para ficar, mas com ministérios com frutos permanentes, apesar da situação. Formação Profissional Os povos não alcançados ficam nos países "fechados", que não permitem a entrada de missionários, porém muitos aceitam profissionais, principalmente de segmentos de alta tecnologia, bem como saúde e educação. Isso significa o crescimento da necessidade de enviar missionários com essa formação profissional. No entanto, nem todos os treinadores estão acostumados a preparar profissionais com nível de mestrado ou doutorado. Outro problema é a igreja conseguir (ou até tentar) desafiar profissionais para deixarem a sua vida normalmente confortável aqui e aceitarem ser enviados. As agências devem estudar e preparar também a estrutura do que chamamos de "fazedores de tenda" (embora Paulo não a usasse para entrar numa área, mas sim para o seu próprio sustento e até dos seus colaboradores, provavelmente quando as igrejas não enviavam a manutenção financeira). Estrutura de Trabalho e Apoio Quando não se entra com visto missionário a estrutura de trabalho e apoio

também é mais complicada, bem como a estrutura do trabalho no campo, o cuidado pastoral e até a comunicação e o envio de dinheiro. Tudo requer conhecimento de como se faz naquele campo e de sabedoria para não provocar problemas. Na maioria dos casos é a primeira estrutura brasileira a ser estabelecida e não temos experiência para tal. Por isso precisamos de cooperação internacional, aprender e trabalhar com agências internacionais que já trabalham há muito mais tempo lá.13 Os Cuidados pela Igreja Enviadora Não há muitos modelos anteriores através dos quais a igreja enviadora brasileira possa aprender para cuidar dos seus missionários nos países "fechados" e em outros países. E, se queremos evitar problemas de última hora, devemos pensar sobre isso, e talvez examinar o que os países enviadores de missionários mais antigos fazem. O estudo sobre o retorno antecipado de missionários do campo, realizado pela Comissão de Missões da WEF, apontou como a razão número um, entre as razões evitáveis, o problema de educação dos filhos.14 Devemos então estudar como ajudar e aconselhar os missionários quanto à educação dos filhos: onde, em que escola e em que língua. Se for a escola local e na língua local, como ficará quando voltar ao Brasil onde não se fala aquela língua? Se for numa escola internacional de língua inglesa, quando de volta ao Brasil terá que continuar a estudar em escolas inglesas, fora da realidade brasileira? Às vezes os missionários são forçados a enviarem os filhos a estudarem em outras cidades ou até em outros países. Como a igreja poderia ajudar a resolver estes conflitos e como as escolas de treinamento poderão ajudar o candidato a missões a começar a pensar em profundidade sobre prevenção e solução de problemas práticos? Outro problema que logo as missões brasileiras enfrentarão é a aposentadoria dos missionários. Se estamos há uns 15 anos enviando missionários maciçamente, então devemos prever os cuidados que eles merecem quando retornarem após uma vida inteira de trabalho útil. Podemos aprender muito com os outros países enviadores mais antigos, e estudar como adaptar à realidade brasileira. Estes e outros problemas nos esperam no futuro. Antecipando o Futuro Como um país novo em experiência de fazer missões, o Brasil deve adquirir o conhecimento para preencher as necessidades o mais urgente possível. Devemos antecipar e preparar, ao invés de resolver quando os problemas já estão acontecendo. Não podemos arriscar a cair na repetição das falhas que aconteceram há alguns anos atrás, quando, sem experiência, começamos a enviar missionários. Desde os anos de 1990-93 ouvimos relatos do campo sobre a realidade missionária brasileira, com muitos frutos, mas também com erros e falhas que provocaram o alto índice de desistência dos missionários. Hoje, aprendemos do passado para planejar melhor o futuro. Onde não há modelo aqui, buscamos conhecimento na cooperação internacional para aplicar na situação brasileira, numa forma contextualizada. Isso vale para o preparo nas escolas e treinamentos, e para os cuidados pelas igrejas e agências. Portanto, mais cooperação, compartilhamento de conhecimento e experiência e até de estruturas com os outros países são necessários. Pode ser em forma de união, troca e colaboração no treinamento, dando suporte, estrutura e cuidado no campo. Isso também evita a duplicação onde já há estruturas disponíveis. Em alguns casos, os missionários brasileiros que trabalham com organizações internacionais ou locais têm sido muito

frutíferos. Com certeza, nos países muçulmanos, os brasileiros terão necessidade de trabalhar com missões mais experientes, se quiserem ganhar tempo e evitar sofrimentos desnecessários decorrentes de falhas e problemas. Cooperação Bíblica Poucas pessoas hoje sabem que a tecnologia que usufruímos em forma de CD, compact disc, na realidade foi fruto das pesquisas realizadas pela empresa multinacional Philips. Quando foi descoberta, a empresa percebeu que, assim como aconteceu com as outras descobertas (por exemplo, o videocassete), ela não poderia lançar-se sozinha no mercado internacional por muito tempo. Para sobreviver, e para obter um lucro maior no final, ao invés de competir com as outras grandes multinacionais na tecnologia de diversão áudio e vídeo, seria melhor juntar as mãos. Ofereceu então seus conhecimentos às outras empresas com participação de lucro. Como resultado, o que vemos hoje, todas têm a sua fatia de bolo no mercado e todas lucram com isso. Quanto mais nas missões, onde deve haver globalização para realizar o mandamento da Grande Comissão, devemos trabalhar juntos. Praticamente todos os relatórios apresentados pelos cinco representantes das cinco regiões da Comissão de Missões da WEF no Canadá em 1997, conclamaram por cooperação. A cooperação deve ser delineada, quanto ao quem faz o que de acordo com o que pode, tem e sabe, e baseada em princípios bíblicos de trabalhar junto com os vários membros ou partes do corpo de Cristo. Cada um com os seus dons e ministérios, dando e colaborando com suas capacidades e habilidades com base de igualdade. Tudo efetuado sem olhar para a vantagem própria, mas para a edificação do Corpo e para a glória do Cabeça, o Senhor Jesus.15 A convivência internacional na globalização é inevitável. Um professor da PUC escreveu para a Folha de Turismo do jornal Folha de São Paulo um artigo sobre o programa de educação de turistas brasileiros que a administração da Disneylândia preparou. "É preciso entender que está ocorrendo um maior relacionamento entre culturas por causa da globalização e todos devem procurar resolver os problemas que vão surgindo nesse processo."16 Devemos ser preparados para a convivência multiracial que a globalização traz, com o padrão bíblico de amor, união, humildade e colocar os outros como superiores a nós mesmos. Pois todos somos de Cristo, que veio para derrubar as barreiras que nos separam. Assim, o preparo para a globalização deve levar em conta não só a convivência com a cultura do povo a ser alcançado, como também com equipes multinacionais. O dito popular, "O mundo se tornou aldeia global" é também o que Jesus falou, "O mundo é o campo". Para nós significa que todo o mundo, até os confins da terra, se tornou como uma aldeia, de rápido alcance e de convivência próxima, para as missões transculturais. Notas 1. Revista Veja, edição 14/04/97. 2. Tucker, Ruth A. ...Até aos Confins da Terra, SP: Edições Vida Nova, 1986, p. 519. 3. Informativo de Ted Limpic, SEPAL, 1986. 4. Entre outros, 1a Conferência de Sino-Japonês realizada pelo Seminário Servos de Cristo em São Paulo, fevereiro 1996. 5. Informação do Pr. José Roberto Prado, Secretário Executivo da MIAF no Brasil.

6. No treinamento missionário do CTM (Centro de Treinamento Missionário da Igreja de Deus) de 1997 todos os treinados eram latino-americanos de fala espanhol, sem algum brasileiro! 7. Nik Repkin, "Why are the Unreached Unreached?" em Evangelical Missions Quarterly, Vol. 32, N° 3, julho de 1996, p. 286. 8. Informação do Pr. Olinto de Oliveira em janeiro de 1997. 9. Informação do Pr. José Roberto Prado, MIAF. 10. Vide Mission Frontiers, Vol. 19, n° 1-2, jan-fev. 1997. 11. Relatório de e-mail da WEF em abril de 1997. 12. Conforme relatou também Dr. Met Castillo, das Filipinas, na Consulta da Comissão de Missões da WEF em maio de 1997 em Abbotsford, Canadá. 13. Afirmou também Pr. Silas Tostes, da Missão Antioquia, na mensagem por fax em março de 1997, sobre o trabalho missionário brasileiro no campo muçulmano. 14. Relatório sobre a Desistência Missionária nos Campos, pesquisa realizada pela Comissão de Missões da WEF, apresentada na Consulta em All Nations College, Inglaterra, maio de 1996. 15. Francis Omondi da Sheepfold Ministries, missão queniana, escreveu sobre o que os missionários locais da Quênia precisariam em forma de cooperação global, em "Partnership in Mission: Meaning of the Term", na revista Set Sail, janeiro de 1997. 16. Folha de São Paulo, Caderno de Turismo, 4/3/97, pág. G-2.

A Formação de um Currículo de Missões Bertil Ekström Professor Bertil Ekström leciona missões no Seminário Batista Independente em Campinas. Ele foi o presidente da AMTB (Associação de Missões Transculturais Brasileiras) por quatro anos e é atual diretor da região latino-americano da Missão INTERACT. Atualmente ele está terminando o Mestrado em Missões na Faculdade Teológica Batista de São Paulo. "Eu me pergunto se este tão denunciado e tão chorado fracasso da educação brasileira não será antes um sinal de esperança... " Rubem Alves1 O ponto de partida de uma análise norteia todo o trabalho. Se abordarmos o assunto com um tom negativamente crítico (porque também existe crítica positiva), as conclusões serão inevitavelmente negativas. Se, porém, olharmos para o assunto como um desafio e uma oportunidade, os resultados poderão ser outros. É o que Rubem Alves faz em relação ao ensino brasileiro. Colocados numa balança parece que os aspectos fracos pesam mais que os fortes. Mas a mudança é desejada e possível. Basta decidir-se por ela. O ensino missiológico no Brasil vive um momento de formação e de desenvolvimento. Alguns cursos já chegam a vinte anos de funcionamento e de alguma forma o treinamento missionário vem sendo realizado há décadas. Porém, é nos últimos

anos que o número de cursos vem se multiplicando. Dos vinte cursos de missões catalogados no Diretório Mundial de Programas de Treinamento Missionário da WEF 2, dois foram iniciados na década dos 70 (76 e 77), dezessete nos anos 80 e um em 93. Certamente existem outros. Calculo mais uns dez cursos especializados além de matérias de missões dadas em muitos dos seminários brasileiros. Na grande maioria dos casos, estamos utilizando currículos adaptados do exterior, porém, já com uma base própria de nossa cultura. Mas a caminhada é longa até chegarmos a uma base curricular que totalmente corresponda à necessidade dos jovens que queremos preparar para o trabalho transcultural. Um currículo precisa, também, ser flexível e adaptável à medida que descobrimos novas necessidades e quando novos desafios são encarados pelo movimento missionário brasileiro. Se estudarmos o desempenho dos missionários brasileiros no mundo, podemos nos encher de orgulho pelo excelente trabalho realizado por muitos deles. Por outro lado, um número significativo de obreiros não logra seus objetivos no campo e muitos regressam antes de terem cumprido seu mandato planejado. Em recente pesquisa, feita pela Comissão de Missões da Aliança Evangélica Mundial (WEF), em colaboração com lideranças missionárias em 13 países diferentes, chegou-se à conclusão que a média anual de abandono do campo missionário é de 5 % da força missionária. O número referente ao Brasil é de 8,5 %, 70 % maior que a média geral. 3 Existem, naturalmente, muitos fatores que contribuem para estes números. Parte de nossa preocupação neste texto, portanto, é de sugerir que um bom ensino missiológico pode ajudar a manter mais missionários no campo, sendo que a maioria das razões de abandono é evitável. E, muitas delas através de um melhor preparo. A razão principal, no entanto, é de refletir sobre o conteúdo dos cursos missiológicos em relação ao contexto em que vivemos, tanto em termos culturais quanto religiosos. Temos por natureza e, devido a más experiências, uma aversão a "enlatados" importados do exterior. A indústria de "manuais fáceis" é grande e corremos constantemente o perigo do reducionismo e da simplificação a passos mecânicos. A forma que tem sua importância relativa não é o essencial. O conteúdo transmitido aos nossos candidatos, entretanto, é de vital importância. A metodologia é necessária para poder passar os ensinamentos desejados, porém precisa ser subordinada aos objetivos gerais do curso. Isto não significa que não existam princípios aplicáveis que devam nortear um bom currículo missiológico, tanto em termos de metodologia, como de conteúdo. Cabe-nos, portanto, analisar, dentro das limitações de espaço e do alcance do assunto, buscando estes princípios e questionando de forma positiva os aspectos nos quais podemos melhorar. Partiremos de literatura disponível sobre o assunto e da experiência pessoal . Se nem tudo é como desejamos, devemos encarar a realidade como um desafio, da mesma forma que Rubem Alves em relação ao ensino secular no país. Trata-se de uma oportunidade, um sinal de esperança, de uma busca da perfeição. O fato de sabermos que nunca alcançaremos a perfeição aqui não pode ser uma desculpa para não tentarmos. O Movimento Missionário Brasileiro Já constatamos que o número e a qualidade dos cursos de missões vêm aumentando. Isto segue o desenvolvimento geral do movimento missionário brasileiro,

que nos últimos sete anos tem dobrado o seu número de missionários em campos transculturais. 4 Existe uma constante demanda de treinamento e grande parte das agências missionárias possui o seu próprio curso. Os níveis variam desde um curso básico elementar de conhecimentos gerais sobre missões, até o nível de mestrado. A variação em termos de teoria versus prática também é grande, sendo que o treinamento específico dado pelas agências para os seus futuros missionários tende a ser mais prático do que os cursos oferecidos por seminários e centros acadêmicos.5 A tendência é de que novos centros de treinamento missionário surjam. Tanto por parte de denominações que querem preparar os seus candidatos, como de novas agências missionárias que são organizadas, mas também de seminários que oferecerão cursos completos de missiologia para poderem acompanhar o "mercado" crescente nesta área. A concorrência pode ser vista como algo positivo, porém, o perigo está numa disputa por aparência e fornecimento de títulos ao invés de uma real preocupação com o conteúdo e a verdadeira necessidade que o candidato tem para enfrentar o campo missionário. Este quadro torna-se a cada dia mais complexo. Novos campos são alvos do movimento missionário e novas categorias de missionários são enviados. As estratégias missionárias são modificadas e a exigência de obreiros competentes em áreas especializadas aumenta. Grande parte do trabalho é feito em equipes compostas por pessoas de culturas e idiomas diferentes. A tecnologia invade também o setor missionário e há uma constante aceleração do processo informativo e deliberativo, exigindo cada vez mais do missionário. Existe, em outras palavras, uma contínua e urgente necessidade de avaliação do conteúdo de nossos cursos, motivada pelo crescimento da participação brasileira na evangelização mundial e pelo desejo de aperfeiçoar o treinamento que damos aos nossos candidatos. Na verdade, o treinamento começa com uma boa seleção dos candidatos, envolvendo em primeiro lugar a igreja local, mas também a agência enviadora, quando o caso. Quem É o Candidato Brasileiro? Traçar um perfil do candidato a missões no Brasil pode ser arriscado. Somos um país com dimensões continentais que engloba todos os possíveis contextos sociais, religiosos, culturais, raciais e eclesiásticos. A variedade da nossa força missionária é uma das nossas riquezas. O mundo já está representado entre os nossos obreiros, que, muitas vezes, são chamados por Deus para regiões onde se misturam com o povo sem parecerem diferentes. Quando reunimos nossos candidatos em cursos notamos a variedade e só o fato de estarem juntos algum tempo é um excelente treinamento cultural. Não obstante, para efeito de formação de currículo, precisamos partir de algum tipo de generalização. Certamente, são inúmeras as "injustiças" cometidas na adoção de um procedimento assim, porém é a única forma de relacionar o conteúdo de um curso com a pessoa do aluno. Uma proposta de flexibilidade e detalhamento da aplicação curricular levando em conta cada aluno em particular, pode, em parte, corrigir os efeitos negativos da generalização. Quem é, então, o candidato a missões no Brasil? Existem pelo menos três aspectos que formam o seu pano de fundo: a origem cultural, o contexto social e a matriz eclesiástica. Acrescenta-se a estes, a sua personalidade e experiência pessoal.

Origem Cultural O brasileiro, genericamente falando, vem de uma rica fusão de culturas. Nosso povo tem sangue português, índio e africano misturado hoje com outras raças européias e asiáticas. As combinações são as mais variadas e é impossível, pela aparência, dizer quem é brasileiro ou não. Culturalmente acomodamos elementos de várias partes do mundo, sendo natural comer uma macarronada italiana no domingo, um angu africano na segunda, uma salada grega na terça, um bacalhau português na quarta, e assim por diante. De lanche pode ser pastel ou kibe árabes (feitos por um chinês), hambúrguer americano, pizza italiana ou cachorro quente alemão. É claro que a internacionalização produz o mesmo efeito em outras partes do mundo, mas em poucos países a variedade e a naturalidade com a qual transpomos barreiras culturais são maiores do que no Brasil. E isto não é de agora, mas vem de décadas. Não seria necessário dizer que esta característica é uma grande vantagem para a adaptação do brasileiro em outras culturas. Mas, no meio de toda a beleza que a variedade produz, existem também tendências menos desejáveis que norteiam nosso modo de pensar e de agir. Vejamos algumas características:6 1. Religiosidade Poucos brasileiros se chamariam de ateus puros. Mesmo na mente crítica e antireligiosa existe uma base religiosa herdada pela forte posição que a Igreja Católica tem tido durante a história. O secularismo avança também no Brasil, mas o brasileiro ainda considera a vida religiosa como parte integral de sua vida. A dicotomia entre vida secular e vida religiosa é notada nos grandes centro urbanos, mas não na escala verificada, por exemplo, no primeiro mundo. A influência da tradição católica é forte. Mesmo no meio evangélico, conceitos morais e éticos têm, muitas vezes, mais base na visão carola do povo, do que nas Escrituras. O resultado é principalmente oriundo do interior do país, um tipo conservador e moralista. Sem dúvida, a juventude em nossas igrejas já reconhece, teoricamente, a diferença mas não é incomum ver-se evidências desta herança em situações pioneiras no campo missionário. Por outro lado, a religiosidade do brasileiro é uma ponte de contato e de identificação com outros povos com forte ênfase na espiritualidade. Parece ser mais fácil um latino alcançar credibilidade entre muçulmanos do que um europeu fortemente secularizado.7 2. Superstição Intimamente ligado ao aspecto religioso está o da superstição. Parece ter sua origem tanto na bruxaria portuguesa, quanto no catolicismo medieval importado para o Brasil. O espiritismo e as crenças africanas e indígenas somam-se a isto, gerando a fé popular com fortes ingredientes de misticismo e de fetichismo. Dentro do contexto evangélico tem-se tentado abolir o simbolismo religioso devido à má utilização dos símbolos. Mas a Bíblia, no sentido do livro como objeto, a presença regular nos cultos, a corrente das sete semanas de oração, a saudação obrigatória

de "paz do Senhor" entre crentes, etc., têm substituído os símbolos utilizados na tradição religiosa. 3. Superficialidade Outro elemento resultante do ensino religioso predominante no país ao longo dos séculos, é a superficialidade na vida espiritual. O Catolicismo se impôs aliado à força colonizadora e gerou um conflito de fidelidade. Por um lado, tanto os indígenas como os negros queriam ser fiéis às suas antigas religiões animistas. Por outro, a imposição à força os fez cristãos, com obrigações junto à nova religião. Uma jovem, guia turístico no Peru, expressou bem este conflito: "De domingo somos católicos e vamos à missa; durante a semana mantemos as velhas tradições incaicas, cultuando a natureza através do sol". Outros exemplos podem ser facilmente encontrados no contexto latino-americano, assim como em outras partes do mundo onde a "cristianização" tem ocorrida à base da força colonialista. A preocupação, dentro do nosso assunto, é a ambigüidade na vida espiritual do candidato a missões. Muitas vezes, o jovem vem de uma igreja onde o aparente é mais valorizado do que o interior. Dentro de uma filosofia de que o exterior sempre reflete o que caracteriza o interior de uma pessoa, o julgamento é feito com base na aparência. Não somente em termos de usos e costumes, problemática ultrapassada em muitas igrejas, mas também na forma de expressar sua fé, principalmente no templo. O problema, naturalmente, é de pessoas que aprenderam a fingir sua fé, sem uma genuína experiência de conversão. 4. Malícia Quem já tentou traduzir o conceito brasileiro de "malícia", sabe a dificuldade que encontra. O próprio termo e sua definição já revelam a duplicidade de sentido. Geralmente não se trata de maldade mas de sagacidade e astúcia. Contrasta com a ingenuidade em tantos outros aspectos da vida, vendo sempre o lado alternativo das coisas. A filosofia de caminhoneiro, publicada no pára-choque do seu veículo, é um excelente exemplo disto. Não tenho visto coisa igual em outros países, mesmo onde os adesivos em carros são mais comuns. Freqüentemente a conotação é sexual e as piadas picantes tornaram-se o tempero necessário para qualquer programa humorístico. Nossos jovens são criados dentro de um ambiente cheio de malícia. A esperteza não apenas é exigida em termos de jocosidade, mas em levar vantagem nas mais diversas áreas da vida. A malícia tem como companheira a malandragem e busca constante de gozar a vida sem demasiado esforço. Infelizmente não estamos livres dos efeitos da malícia dentro do contexto cristão. Quando mantido a nível de humorismo sadio, não vejo problemas. Porém, ao permear toda uma mentalidade e quando princípios básicos de vida cristã, como honestidade, veracidade, fidelidade, etc., correm o risco de ficarem num segundo plano, o caso tornase mais sério. 5. Jeitinho A malícia leva-nos automaticamente ao "jeitinho brasileiro". Na verdade, nenhum destes aspectos é exclusivamente nosso, mas a freqüência com que ocorrem, identificam

uma característica pujante de um povo. Em termos de flexibilidade, o brasileiro é único. De fácil adaptação e criativo nas soluções dos mais diversos problemas. É o lado positivo do jeitinho. Sempre se encontra uma saída e o caso nunca está perdido. Porém, mais uma vez, quando o jeito descoberto para a solução de uma dificuldade choca-se frontalmente com conceitos cristãos, a integridade do crente está em perigo. Normalmente argumentamos com base nas ações normais da sociedade, achando que teremos grande desvantagem em relação aos outros se não nos acomodarmos ao habitual. Margaretha Adiwardana cita em seu texto sobre o "Jeito Brasileiro e o Treinamento Missionário" a teoria de Lívia Barbosa, que resume em cinco pontos a razão do "jeitinho": ♦ O jeitinho procura juntar e não separar, ser igualitária, simpática e cordial; ♦ O jeitinho é um ritual que transforma indivíduos em pessoas; ♦ O jeitinho permite que determinados indivíduos sejam alvo de um tratamento personalizado, deixando-os fora do alcance dos desígnios das leis impessoais e universais; ♦ A lei é igualitária, mas a prática não é. O valor do homem é igual diante de Deus, lei moral e gênero humano, portanto, pratica-se o jeitinho para igualar; ♦ O jeitinho sintetiza um conjunto de relações e procedimento que os brasileiros "percebem" como sendo deles.8 Os efeitos negativos do "jeitinho" precisam ser trabalhados no treinamento missionário. O desacato a leis e a autoridades, o individualismo e o imediatismo são exemplos disto. 6. Fatalismo O fatalismo é um forte componente na cosmovisão brasileira. Forma um interessante contraste ao "jeitinho". Neste, o destino (ou Deus) controla tudo e determina de antemão o que irá acontecer com cada indivíduo. Naquele, o ser humano é todopoderoso, dono do seu presente e do seu futuro. A visão fatalista, proveniente da influência moura islâmica na cultura ibérica, é camuflada com cores cristãs e expressada com frases altamente espirituais. "Se Deus quiser" ou "Deus quis assim", são frases cotidianas. Quando denotam um reconhecimento da soberania de Deus e da dependência da graça divina para sobreviver, existe base bíblica.9 No entanto, na maioria das vezes, são palavras que expressam uma falta de responsabilidade em relação à própria vida e aos acontecimentos diários, principalmente quanto à morte. A problemática surge quando o candidato a missões não é acostumado a assumir responsabilidade, transferindo a causa das situações para uma força impessoal ou mesmo a Deus. Gera, no pior de seus resultados, uma falta de compromisso. Na experiência pessoal de treinamento missionário tenho visto uma mudança radical quando responsabilidades são colocadas nos futuros missionários e existe uma prestação de contas do que foi feito. Portanto, não se trata primeiramente de alguma fraqueza de caráter, mas da falta de oportunidade e de costume. São muitos os exemplos de brasileiros em campos de missões, que assumem a liderança de equipes de trabalho compostas de várias nacionalidades. E o fazem com muita responsabilidade e senso de

compromisso assumido. 7. Emocionalismo Como latinos somos emotivos. O sangue sobe rapidamente e a distância entre o choro e o riso é extremamente curta. Nos empolgamos e nos emocionamos facilmente, tendo como um dos pontos fortes a empatia e a identificação com outras pessoas. O coração fala mais alto que a mente, muitas vezes, e pode ser difícil dar razão para as atitudes e reações. Apesar das vantagens com a emoção, existe um perigo de instabilidade e de efemeridade no trabalho missionário. Quando o entusiasmo decai ou as dificuldades se acumulam, corre-se o risco de perder o rumo e a continuidade. Perseverança é uma das características mais necessárias no campo missionário e para lograr a persistência é preciso manter o sentimentalismo no seu devido lugar. Sem dúvida, é um grande desafio manter o calor humano e espiritual aliado a uma alta dose de perseverança e objetividade. 8. Extroversão Ser ou não extrovertido depende muito da personalidade de cada pessoa. Mas, novamente, em comparação com outros povos, o brasileiro geralmente tem facilidade em fazer contatos com novas pessoas e de se expressar em público. A retórica parece nata e a inclusão de novos amigos uma coisa natural. De que forma reforçamos este aspecto positivo é outra questão que precisa encontrar respaldo nos programas de preparo. Existem outros fatores importantes ao treinamento missionário em termos da origem cultural que precisam ser levados em consideração no estabelecimento de um currículo de missões. Apenas citamos mais alguns: individualismo, paternalismo, etnocentrismo, machismo, etc.10 Provavelmente, nenhum destes "ismos", assim como as características mencionadas acima, é exclusividade do brasileiro. Fazem parte de uma humanidade corrompida pelo pecado, mas que ainda tem algo da imagem de Deus em si. Quando reflito sobre que lista faria para outro povo que conheço bem, o sueco, os itens concordariam em 90%! A diferença estaria em trabalhar preconceitos e ênfases que distinguem os povos, devido ao seu pano de fundo histórico e cultural. Contexto Social A diversidade do contexto social dos candidatos a missões também é grande. Tanto em termos econômicos quanto à situação familiar. As injustiças sociais do nosso país não respeitam barreiras religiosas mas atingem a todos igualmente. A forma de administrar os poucos ou muitos recursos pode variar, mas, de forma geral, compartilhamos, como evangélicos, a condição de todos. É claro que Deus abençoa o seu povo e muitos têm experimentado verdadeiros milagres em sua vida quanto à provisão de recursos. Porém, é difícil provar isto estatisticamente e fazer uma regra geral. A origem social do candidato não deve decidir sua aptidão para o campo missionário. No entanto, pode exigir mais ou menos preparo e cuidados especiais em áreas específicas. 1. O Aspecto Financeiro Via de regra, nossos futuros missionários vêm de um contexto de pobreza. Isto porque grande parte do movimento evangélico nasceu e cresceu dentro deste meio.

Naturalmente trata-se de uma pobreza relativa, comparada com a situação dos países tradicionalmente enviadores de missionários. Se comparados com seus colegas indianos ou nigerianos, possivelmente deveriam ser considerados ricos!11 O que isto significa para o treinamento missionário? Quais são as motivações que levam um jovem a buscar um ministério no exterior? Que experiência ele tem de lidar com dinheiro ou de fazer um orçamento? Por outro lado, sua capacidade de viver com poucos recursos poderá tornar-se uma força ao enfrentar dificuldades financeiras no campo como falta de sustento, demora no envio da verba, etc. Suas exigências poderão também ser mais compatíveis com os recursos existentes, não levando em conta o nível de segurança social diferente daquele que tinha em sua pátria. Aqui o candidato que vem de uma situação favorável economicamente provavelmente terá que fazer um sacrifício maior. Acostumado a um padrão elevado, com todas as mordomias, será obrigado a repensar e a abrir mão de muito que considerava normal. Tanto um, como outro necessita refletir sobre o que o ministério transcultural envolve e ser ajudado a trabalhar psicológica e praticamente sua nova situação financeira. 2. O Aspecto Familiar Alguns jovens vêm de um lar fortemente coeso e unido. O relacionamento familiar é bom e a comunicação com os pais e os irmãos funciona bem. A nova situação que irão enfrentar no campo os afastará geograficamente da família gerando novas reações. Muitos conseguem achar tranqüilidade e segurança em companhia de colegas ou mesmo em seu núcleo familiar. Outros sofrem grandemente de insegurança, isolamento, solidão e saudades. É, inclusive, um dos fatores de abandono do campo missionário. Infelizmente, nem todos os lares servem de apoio aos seus jovens. Muitos vêm de famílias divididas e cheias de problemas quanto ao relacionamento entre seus membros. Divórcio, desquite, amancebamento, infidelidade conjugal, etc., são fenômenos constantes em nossa sociedade. Questões de relacionamento com os pais, de status conjugal, de visão do matrimônio, e outras, precisam ser abordadas e trabalhadas, senão antes, pelo menos no treinamento missionário. A Matriz Eclesiástica A origem eclesiástica não é exceção. Segundo dados não oficiais temos cerca de 500 denominações no Brasil, sendo cerca de 200 registradas. A variedade de doutrinas, de usos e costumes, de liturgias e de práticas é enorme. Um curso voltado para uma denominação, mesmo havendo divergências entre igrejas locais, leva vantagem em não precisar trabalhar estes contrastes. Por outro lado, perde a riqueza de confrontar com outros pensamentos e de mútuo aprendizado. Grande parte de nosso treinamento missionário é feito com candidatos de várias matizes e matrizes. Se vamos, entretanto, arriscar uma descrição generalizada do típico candidato a missões, diríamos que ele vem de uma igreja de tamanho médio (200 a 500 membros), que possui apenas um pastor (mesmo tendo muitos colaboradores), de cidade do interior com uma ênfase conservadora, dentro de sua tradição. Normalmente o jovem não tem visto um trabalho de equipe e dificilmente foi alvo de um trabalho consciente de discipulado. Aprendeu, desde o começo, que a orientação doutrinária de sua igreja é a

correta e de que a cooperação com outras linhas denominacionais deve ser evitada. Mantém um alto padrão ético e moral, valorizando a participação ativa na igreja local. Possui um bom treinamento prático de evangelização e tem boa recomendação de sua comunidade.12 Não è difícil entender que a prática eclesiástica e a valorização da igreja local são pontos fortes na vida do missionário brasileiro. A experiência tem mostrado que, na maioria dos casos, os missionários brasileiros tem grande facilidade em compartilhar de sua fé e de plantar igrejas. É curioso ver que, por exemplo no Mundo Muçulmano, as organizações missionárias históricas tendem a se preocupar com a parte social como razão oficial de sua presença em países fechados para missões tradicionais, dando um apoio indireto à igreja nacional, enquanto que os latinos acham formas criativas de se manterem no país trabalhando diretamente na evangelização e na plantação de igrejas. Prudência é recomendada e o treinamento missionário deve também abordar estes aspectos e mostrar o valor de ambas as abordagens. Porém, o movimento missionário mundial necessita de obreiros corajosos e objetivos na formação de comunidades locais. O que gostaríamos de ver, pensando nas diversas matrizes eclesiásticas, é uma abertura maior para cooperação, baseada num respeito fraterno e numa compreensão da mutualidade do Corpo de Cristo. A Personalidade e a Experiência Pessoal Cada indivíduo é único. Por mais que queiramos enquadrar pessoas dentro de um padrão, temos que reconhecer a singularidade de cada candidato. As generalizações nos ajudam na busca de um currículo geral, que, na melhor das hipóteses, serve para uma maioria dos treinados e aplica-se em um número suficientemente grande de áreas. Porém, um bom curso precisa dar oportunidade para o desenvolvimento pessoal do aluno, levando em consideração suas características próprias. Aqui entra a personalidade e o caráter da pessoa, assim como seu preparo anterior e sua experiência pessoal. Não faremos, neste texto, uma análise das inúmeras possibilidades, porque são tantas quantas as pessoas que nos procuram para o treinamento. Apenas constatamos que flexibilidade e adaptação curricular ao candidato são necessárias, se queremos lograr um bom resultado na formação de nossos missionários. Este é o candidato brasileiro a missões! Um crisol de elementos que fundidos formam uma pessoa rica em dons e habilidades e com um enorme potencial para a evangelização mundial. Mas a matéria prima precisa ser trabalhada e o treinamento missionário faz parte de um processo que inicia no lar, passa pela igreja local, continua no preparo secular e bíblico, segue durante o curso de missões e durante toda a vida ministerial. Qual É a Filosofia de Ensino? A filosofia de ensino precisa ser baseada, neste caso, em aspectos peculiares ao tipo de curso previsto. Treinar jovens para o trabalho missionário transcultural parte, pelo menos, de três ângulos diferentes. Primeiro, a base bíblica. Segundo, a necessidade do mundo. Terceiro, a situação do vocacionado. Já lidamos um pouco com o terceiro ângulo, o do candidato a missões. Seu pano de fundo cultural, social, espiritual, intelectual e emocional. É ele que precisa ser formado e se a filosofia de ensino não corresponde às suas necessidades, dificilmente terá

êxito em ajudá-lo. O segundo aspecto, o da carência verificada no mundo, tem a ver com o tipo de trabalho que o futuro missionário fará. Em outras palavras, para que tarefa ele será enviado. Naturalmente, ele poderá fazer diferentes coisas em diferentes épocas, porém há uma crescente demanda de especialização. O currículo não pode proporcionar a especialização, mas dar lugar para treinamento específico requerido. Por exemplo, um futuro missionário numa metrópole na Índia poderia estudar as questões referentes a urbanização em geral e estratégias missionárias para grandes cidades; um candidato que irá ministrar aulas em um seminário na Angola, teria a chance de conhecer currículos alternativos em seminários brasileiros e material didático disponível. Voltarei a esta questão ao sugerir um modelo de currículo. A primeira base está na Palavra de Deus. Ali encontramos tanto a justificativa para a missão como o objetivo do trabalho missionário. O exemplo de treinamento que Jesus deixa é digno de ser seguido. Principalmente naquilo que denominamos "discipulado" onde a convivência entre o mestre e os discípulos é enfatizada.13 Donald Price diz: Ninguém esteve melhor preparado, e ninguém se mostrou mais idôneo para ensinar que Jesus, No que toca às qualificações, bem como noutros mais respeitos, Jesus foi o mestre ideal. 14 Não temos aqui condições de aprofundar o assunto sobre a pedagogia de Jesus, 15 porém vale a pena constatar que, entre todos os modelos que conhecemos, a forma como Jesus trabalhou a vida dos seus discípulos tanto em termos de um ensino falado, como de exemplo vivido, se destaca como o melhor. As aplicações destes princípios básicos utilizados por Jesus podem variar grandemente, mas há elementos fundamentais na formação de bons missionários que não podem ser olvidados. Isto nos leva a ponderar sobre o equilíbrio entre teoria e prática no treinamento missionário. Um Ensino Equilibrado O treinamento missionário necessita tanto de teoria como de prática. Como e quando os diferentes aspectos são abordados e adquiridos e em que ordem, importa menos. Algum tipo de simultaneidade entre o estudo teórico e a aplicação prática pode ser recomendada, mas nem sempre necessária. Abreu e Masetto, dois psicólogos da educação, afirmam que o processo da aprendizagem precisa levar em consideração quatro aspectos: o desenvolvimento mental, o desenvolvimento da pessoa singular e como um todo, o desenvolvimento das relações sociais e o desenvolvimento da capacidade de decidir, de assumir responsabilidade social e política.16 Mesmo, segundo eles, havendo correntes divergentes que enfatizam diferentes tipos de desenvolvimento, é na totalidade destes que se encontra a resposta ideal. Outra dupla de autores que escreve sobre o assunto, Ferris e Fuller, dizem que todo o ensino e aprendizado humano pode ser classificado em três abordagens básicas: ensino formal, não-formal e informal.17 1. Ensino Formal Entendemos por ensino formal aquele que é dado na sala de aula. Trata-se

primordialmente de palestras onde o conteúdo cognitivo é transmitido. Geralmente criase uma situação de professor - aluno onde o primeiro fala e o segundo ouve. O risco é de um ensino "bancário" no qual o professor deposita no aluno uma quantidade de conhecimento. Mesmo em tratando-se de um treinamento altamente motivador como o de um missionário, pode-se ter uma idéia equivocada do aprendizado ocorrido, se medido apenas em termos de retenção de conhecimento. Paulo Freire, referindo-se ao ensino em geral e à educação secular no Brasil em particular, faz violenta crítica contra o ensino de tipo "bancário": Em lugar de comunicar-se, o educador faz "comunicados" e depósitos que os educandos, meras incidências, recebem pacientemente, memorizam e repetem. Eis aí a concepção "bancária" da educação, em que a única margem de ação que se oferece aos educandos é a de receberem os depósitos, guardá-los e arquiválos.18 O modelo "bancário" é o mais prático e cômodo para o professor já que não exige uma interação com os alunos. Ele repassa o que conhece de forma dogmática e o aluno tem a opção de aceitar ou rejeitar, de guardar ou esquecer, mas não de questionar. A alternativa, segundo o mesmo autor, é da educação "problematizadora". Diz ele: Neste sentido, a educação libertadora, problematizadora, já não pode ser o ato de depositar, ou de narrar, ou de transferir, ou de transmitir "conhecimentos" e valores aos educandos, meros pacientes, à maneira da educação "bancária", mas um ato cognoscente.19 Não se trata segundo Freire, de que a educação é um fim em si, mas um instrumento mediatizador que leva a uma relação dialógica onde, tanto educador, como educando, são sujeitos que aprendem e resolvem seus problemas. O objetivo é uma descoberta, por parte do educando, de como é o mundo e qual a função de cada indivíduo que vive nele: A educação problematizadora se faz, assim, um esforço permanente através do qual os homens vão percebendo, criticamente, como estão sendo no mundo com que e em que se acham.20 Rubem Alves também condena a forma depositária da educação, dizendo que a educação brasileira faz de seus alunos "bonecos de pau" - "pinóquios", que perdem sua vontade própria e sua identidade. Tornam-se meros imitadores de seus mestres, muitas vezes sem saber a razão dos fatos ou das ações. Aprender bem, segundo o conceito que vigora na maioria das escolas, é saber imitar sem refletir ou sem exercer livre vontade.21 Referindo-se ao treinamento missionário, pode parecer exagerado abordar o ensino formal utilizando argumentos apresentados por pedagogos que advogam uma forma crítica e revolucionária de ensino.22 Porém, nossa prática de ensino, também nos cursos missiológicos, facilmente desconsidera a contribuição do aluno. Seguindo um modelo de ensino acadêmico, comum nas faculdades e mesmo seminários, com pouca prática de interação, podemos, inconscientemente, cair no erro da comunicação unilateral. Portanto, o ensino formal, que tem a sua indiscutível importância num currículo missiológico, pode ser constantemente melhorado à medida que as aulas tornam-se oportunidades para descobertas conjuntas de professor e alunos. Ainda mais dentro de uma área onde a contribuição de cada um representa uma vinculação cultural do assunto. O objetivo, naturalmente, é de formar missionários que conseguem resolver os

problemas através de uma análise própria, respeitando as diferentes facetas de uma situação. O treinamento para tal capacidade deve ocorrer já na sala de aula. 2. O Ensino Não-Formal O ensino não-formal é aquele que segue um plano determinado, curricular, mas não ocorre necessariamente dentro da sala de aula. Pode ser seminários, pesquisas, discussões, trabalhos em grupo, etc., onde o aluno aprende a desenvolver sua capacidade criativa e reflexiva. Deve complementar o ensino formal, principalmente dando chance ao candidato de se aprofundar em áreas específicas, conforme o seu interesse e necessidade de preparo. A importância dos pequenos grupos para desenvolver esta parte do ensino é claramente evidenciada. Proporciona, além do conhecimento, uma oportunidade de treinar o trabalho em equipe e de relacionar-se com outras pessoas dentro de uma tarefa comum. As viagens de estágio para um campo missionário podem muito bem entrar no planejamento do ensino não-formal. São excelentes oportunidades para conhecer os candidatos e discutir situações concretas tanto de relacionamento como de estratégia de trabalho. Pessoalmente, tenho feito uma dezena destas viagens com alunos de missões e a experiência mostra que no convívio intensivo de algumas semanas, muitas vezes em situações de tensão e de cansaço, descobre-se mais sobre o candidato do que durante um semestre inteiro de aulas formais. 3. O Ensino Informal O processo educativo completa-se ao incluir também o ensino informal, o da convivência diária entre professor e aluno e entre os alunos. Vida comunitária, treinamento em discipulado, vida familiar, aconselhamento pessoal, habilidades de liderança, avaliações pessoais, etc., fazem parte deste lado do ensino.23 Reconhecemos que o ensino informal exige mais do mestre. A convivência e o discipulado requerem mais tempo e comunhão mais intensiva. Muitas vezes, nossas instituições não proporcionam esta facilidade segregando o professor e o aluno de um convívio fora de aula. Nos cursos de curto prazo promovidos por agências missionárias a possibilidade é bem maior de convivência, mesmo sendo por um período mais limitado. O caráter do candidato pode ser fortemente trabalhado dentro do ensino informal. Sendo um dos aspectos mais importantes para a formação do obreiro, decisivo para o êxito no trabalho e vital para a manutenção do missionário no campo, requer o seu tempo e sua boa realização. Da mesma forma que buscamos professores competentes para o ensino formal, convidamos palestrantes e especialistas para uma interação não-formal em seminários e discussões ou para orientação de pesquisas, também necessitamos de pessoas devidamente preparadas para trabalhar o lado informal. Muito se consegue com simples camaradagem e visão pastoral, mas no tratamento de áreas deficientes ou mesmo de um discipulado bem feito, é necessário pessoas treinadas para isto. Se não buscarmos profissionalismo naquilo que fazemos, estaremos formando bons amadores para o campo missionário! É, portanto, na complementação destes elementos de ensino que o futuro missionário poderá ser treinado de forma adequada para sua tarefa. Também é bom lembrar que da mesma forma como nossos candidatos são treinados eles irão,

provavelmente, treinar outros nos campos missionários onde estarão. A combinação ideal entre o ensino formal, não-formal e informal deve variar de contexto para contexto. Em situações onde a prática eclesiástica é comum e os candidatos vêm com uma boa experiência da igreja local, possivelmente a parte teórica pode ser valorizada durante o curso de missões, não excluindo as outras formas de ensino. Quando, ao contrário, os alunos tiveram uma forte ênfase acadêmica em seus estudos anteriores e pouco foi feito em termos de praticidade, a deficiência nesta área deve ser suprida. Infelizmente, me parece que, via de regra, ocorre um reforço da tendência já existente, tornando os acadêmicos ainda mais teóricos e os práticos ainda mais empíricos. Um Ensino Holístico Não é apenas na forma de ensino, nos métodos utilizados ou na didática, que deve haver um equilíbrio. Também no conteúdo isto é necessário. 1. Na Escolha das Matérias O currículo de missões, que não pode ser exageradamente volumoso, precisa ser abrangente. Isto é, incluir uma boa introdução nas diferentes áreas missiológicas e equipar o candidato com ferramentas para uma contínua aprendizagem. Por exemplo, na área de Antropologia Cultural, é evidente que não haverá condições para um aprofundamento total na matéria a nível mundial. Porém, fazer uma análise de uma cultura, fornece um modelo para fazer algo parecido com qualquer contexto cultural. Sabemos, de qualquer forma, que em relação ao conhecimento de uma nova cultura, o verdadeiro aprendizado ocorrerá quando o missionário chegar ao campo. Por outro lado, um currículo de missões não tem condições de preencher todas as lacunas de um preparo deficiente anterior ao treinamento missionário. Na área teológica, é preferível que o candidato já tenha um curso, pelo menos básico. O currículo de missões, entretanto, deverá acrescentar à base teológica um aprofundamento na teologia de missões. Igualmente, em outras áreas, onde o curso missiológico irá vincular aspectos de pedagogia, psicologia, antropologia, comunicação, estratégia evangelística, etc., à questão transcultural e específica da questão missionária. 2. Na Visio Missionária O ensino deve também transmitir uma visão missionária holística. A dicotomia entre o evangelístico e o social tem causado extremos na prática missionária e a perda de elementos fundamentais na implantação de igrejas em culturas receptoras. Hoje, tanto na América Latina como em outras partes do mundo, não se pode negligenciar as necessidades sociais que marcam um povo sofrido e oprimido por estruturas políticas e econômicas injustas. A ação social, e não somente o assistencialismo, faz parte do evangelho integral. Nossos futuros missionários precisam refletir sobre estas questões, mesmo os que nunca irão atuar diretamente na área social. O outro extremo, o de apenas enfatizar o temporal e terreno, também é perigoso. O evangelho é, antes de mais nada, uma resposta ao anseio espiritual do ser humano. Há um crescente número, em nosso contingente missionário, de profissionais voltados para a área de saúde e de ação social. A perspectiva destes missionários precisa, igualmente, ser de um evangelho total e da implantação de igrejas locais através do trabalho realizado, seja evangelístico ou social.

Valdir Steuernagel, atual presidente da Fraternidade Teológica Latino-americana, tem razão quando advoga um evangelho integral: É necessário renovarmos o nosso compromisso com o Evangelho na sua totalidade, para sermos fiéis ao mandato da evangelização. É necessário também que, vez após vez, trilhemos o caminho do arrependimento quando, por motivos secundários, às vezes até escondidos, amputamos, suavizamos, destroçamos o Evangelho ou parte dele. Ao falarmos da evangelização no amplo contexto da missão da igreja, precisamos abordar, necessariamente, a relação entre esta e a dimensão do serviço diacônico e da responsabilidade política, social e econômica do cristão e da igreja.24 Introduzindo o tema da Missão Integral (título de seu livro), Timóteo Carriker discute a crise na missão contemporânea e vê na polarização entre evangelicais e ecumênicos este problema: No mundo norte-atlântico, a divergência se apresenta como uma polarização entre os evangelicais e os ecumênicos e com a tendência correspondente de reduzir a missão ou para a sua dimensão vertical de salvação pessoal através da fé em Jesus Cristo, ou para a sua dimensão horizontal de libertação humana através da criação de uma justa ordem social. Acreditamos que ambas as perspectivas sejam falhas e incompletas e que uma teologia bíblica de missão possa esclarecer este debate.25 Um aspecto importante nesta questão é o da credibilidade do empreendimento missionário. O tema da Conferência Mundial de Lausanne, em 1974, pode muito bem ser aplicado aqui: "Toda a Igreja levando todo o Evangelho a todo Homem em todo o Mundo". Se buscamos um bom fundamento para nortear o nosso currículo missiológico, certamente é este. Uma visão de corporatividade e solidariedade na igreja, um evangelho que compreende todas as facetas da vida, uma universalidade em alcançar o ser humano na sua totalidade em todas as culturas, raças e povos. Para contrapor tendências a etnocentrismo, individualismo, sectarismo, etc., nada como uma compreensão da tarefa missionária conforme a base bíblica e da abrangência da regeneração em Cristo. Creio que muitas vezes perdemos o foco principal no treinamento de vocacionados. Alvejamos preparar obreiros capacitados para tarefas específicas com o máximo de habilidade e conhecimento na área. Porém, se perdemos de vista o alvo primordial de estabelecer igrejas autóctones que evidenciam um evangelho total e marcam a presença do reino de Deus no meio do seu povo, fizemos apenas um bom trabalho filantrópico. Um Currículo Integrado Tradicionalmente, temos elaborado nossos currículos a partir de matérias que precisam ser dadas. Há centenas de currículos baseados numa tentativa de abranger o máximo possível em unidades isoladas que compõem a área missiológica. Não resta dúvida de que, após realizado o curso, o aluno tem uma visão geral da área e aprendeu algo dentro de cada especialidade. Porém é provável que tenha dificuldade em juntar as peças do quebra-cabeça num todo e aplicar, no campo, a totalidade do aprendizado. Por exemplo, o que a teologia de missões tem a ver com a adaptação cultural, ou a estratégia missionária com a lingüística, ou ainda, a comunicação transcultural com as noções de enfermagem. Uma solução para este dilema é apresentado por Barbara Burns em sua tese de

doutorado sobre o "Ensino Transcultural baseado na Teologia Bíblica". Trata-se de uma integração entre o estudo bíblico-teológico com as áreas missiológicas. Ela apresenta o método da seguinte forma: Na integração, o professor escolhe um livro bíblico ou um texto apropriado e pede para os alunos estudarem antes da aula. Primeiro, o aluno tem que fazer uma exegese do próprio texto e descobrir, dentro do possível, o significado do autor no contexto original. Segundo, o professor deve pedir a aplicação do texto dentro de um caso missionário. Baseado no significado do texto, o aluno tenta fazer uma aplicação dentro de um contexto real ou imaginado. 26 Parte, portanto, de um estudo do texto bíblico que é diretamente aplicado em alguma área de missões, não apenas na área teológica. Algumas vantagens, além da integração em si, são: 1. Uma valorização do texto bíblico. Sendo a base da nossa fé e, pelo menos na teoria, nosso guia de viver e agir, a Bíblia contém os princípios que devem nortear o trabalho missionário. Já mencionamos Jesus como o mestre exemplar, tanto em termos de seus métodos como de seu conteúdo e objetivo. Valorizando o texto bíblico também passamos para os alunos um modelo de lidar com as questões, buscando em primeiro lugar no texto sagrado as soluções. Além, naturalmente, de levar tanto o aluno quanto o professor a ler e estudar os textos propostos. 2. Um treinamento exegético. Interpretar um texto bíblico pode ser difícil e ainda mais aplicá-lo a uma situação concreta. Mesmo tendo o treinamento nos cursos teológicos, o método proporciona uma excelente oportunidade para fazê-lo num sentido missiológico. Levar em consideração o contexto geral do texto bíblico é uma condição para uma exegese correta e a discussão sobre a aplicação das palavras divinas numa situação transcultural enfatiza esta necessidade. 3. Uma boa base para a missiologia. Freqüentemente a tarefa missionária é questionada e tentamos apresentar razões culturais, antropológicas, sociais, etc. É claro que elas também existem, mas a melhor base para tudo o que fazemos na área missionária é a palavra de Deus. 4. Um desenvolvimento da criatividade. Vem ao encontro do tipo de educação "problematizadora" mencionado acima. Bordenave e Pereira dizem que concordam com um ensino assim porque: uma pessoa só conhece bem algo quando o transforma, transformando-se ela também no processo; a solução de problemas implica na participação ativa e no diálogo constante entre alunos e professores; e, a aprendizagem torna-se uma pesquisa em que o aluno passa de uma visão sincrética ou global do problema a uma visão analítica do mesmo, resultando numa síntese aplicada na prática.27 Mesmo não se concordando com a dialética proposta por estes dois autores, eles embasam um ensino que envolve o aluno num processo de transformação onde o conteúdo do estudo não apenas é engolido acriticamente, mas existe um diálogo e um

questionamento mútuo entre professor e aluno. Isto leva à criatividade, à participação ativa, ao envolvimento pessoal e coresponsabilidade pelo produto final. 5. Uma melhor retenção do conteúdo. Poder enganchar o ensino em situações concretas, em contextos bíblicos, em argumentação exegética, etc., facilita a memorização dos princípios. As parábolas de Jesus são um bom exemplo disto. Torna, também, o estudo mais emocionante e menos previsível, já que o texto bíblico é imensamente rico, variado e profundo. As surpresas ao longo do estudo são muitas e a emoção da descoberta marca o aluno deixando-o com apetite de se aprofundar nas questões. 6. Uma oportunidade de elaborar uma teologia contextualizada. Teologizar não é privilégio de uma elite e muito menos de alguns teólogos de uma parte do mundo apenas. O povo faz teologia, principalmente através dos cânticos. Envolver os alunos num processo de extrair os princípios bíblicos e aplicá-los ao contexto em que vivem e para a tarefa missionária, capacita-os a analisar sua própria teologia e a participar na formação de uma teologia contextualizada. Existem vários livros na Bíblia próprios para este tipo de abordagem. Burns utiliza a Epístola aos Efésios como modelo em sua apresentação. Outros exemplos poderiam ser Gênesis, Salmos, Isaías, Amós, Ageu, Os Evangelhos, Atos, Romanos, Filipenses, 1 Tessalonicenses, as cartas pastorais, 1 Pedro e Apocalipse. Certamente, nem todos com um conteúdo completo, mas com claras possibilidades de aplicação em várias áreas missiológicas.28 Pessoalmente, tenho trabalhado com a Epístola aos Romanos, buscando uma integração do estudo exegético com a missiologia, vendo o "Caráter Missiológico de Romanos". Há uma série de temas teológicos relacionados com missões e, sem muita dificuldade, é possível abranger matérias como teologia de missões, estratégia missionária, crescimento da igreja, adaptação cultural, comunicação transcultural, etc. Formando um Currículo de Missões Nosso objetivo é chegar a conclusões práticas sobre a formação de um currículo de missões. Já afirmamos que não é viável tentar determinar para todos em todas as circunstâncias e épocas, qual o currículo ideal. Precisamos ter um cuidado em não sacralizar métodos e apenas importar, seja do exterior ou mesmo dentro do país, cursos sem avaliar a relevância para aquilo que alvejamos. Gostaria, portanto, de sugerir um corpo básico de matérias que, segundo entendo, faria bem se estivesse presente em todos os cursos de missões e logo um exemplo de currículo integrado para um curso intensivo de missões de um semestre. Matérias Básicas num Curso de Missões Pressuponho, na sugestão abaixo, que o candidato tenha feito um curso básico (se não a nível acadêmico) de teologia onde matérias como hermenêutica, teologia bíblica, dogmática, isagoge e exegese bíblica, eclesiologia, história da igreja e da teologia, teologia contemporânea, crescimento da igreja, evangelismo e outras, foram estudadas. Se este não é o caso, o candidato precisa complementar seus estudos com um bom curso

teológico. Emergencialmente, o curso de missões pode oferecer algumas destas matérias, mas dificilmente terá condições de dar a base teológica necessária para o futuro missionário. A situação é, naturalmente, diferente quando o curso de missões é dado dentro de um currículo teológico maior, sendo uma área de especialização, por exemplo, de um bacharelado. Ou, quando o curso compreende mais tempo do que um ou dois semestres, podendo se concentrar nas matérias teológicas durante um período equivalente a um curso básico. Correndo o risco de não ser completo, creio que um bom currículo de missões que abrange tanto a parte cognitiva como a prática, deve conter as seguintes matérias: 1. Matérias Missiológicas Teologia de Missões — uma base bíblica para a missão da Igreja incluindo tanto o Antigo como o Novo Testamento. Carga horária mínima - 64 h/a; Introdução a Missões — contendo definições e informações sobre a situação atual no mundo missionário. Carga horária - 16 h/a; História de Missões — desde a Igreja Primitiva até os nossos dias, com ênfase no movimento missionário latino e os acontecimentos mais recentes. Carga horária - 32 h/a; Antropologia Cultural — descrevendo a análise de uma cultura, definindo termos e valorizando os aspectos peculiares de cada cultura. Carga horária - 48 h/a; Contextualização — aplicando os conceitos da Antropologia Cultural no confronto e na adaptação do missionário e da mensagem à cultura receptora. Carga horária - 32 h/a; Missões Transculturais — elucidando as facetas próprias do trabalho missionário transcultural em termos de contextualização, vida do missionário, relacionamentos no campo, etc. Carga horária - 32 h/a; Estratégia Missionária — buscando princípios para uma estratégia aplicável no contexto transcultural e como planejar o trabalho a ser realizado. Carga horária - 16 h/a; Fenomenologia — um estudo específico dos fenômenos religiosos e culturais, a partir da cultura do próprio aluno e visando uma compreensão destes aspectos na nova cultura. Carga horária - 32 h/a; Comunicação Transcultural — como comunicar o evangelho e os conceitos cristãos para uma nova cultura. Carga horária - 32 h/a; Religiões e Seitas Mundiais — um estudo sobre cosmovisões e sobre as grandes religiões vivas e as seitas predominantes, incluindo a questão do confronto com o Cristianismo. Carga Horária - 32 h/a; Missões e Ação Social — a integração da ação social no trabalho missionário, analisando critérios para o envolvimento social numa estratégia missionária e os problemas típicos de países em desenvolvimento. Carga Horária - 16 h/a; e Lingüística — uma noção de aprendizado de um novo idioma, incluindo fonética e fonologia. Carga Horária - 32 h/a. 2. Matérias Práticas e Especializadas Podem ser acrescentadas matérias práticas ou especializadas, dependendo da situação prevista e necessidade de cada missionário. Exemplos são: Noções de enfermagem, mecânica, eletricidade, construção civil, contabilidade, computação, documentação, etc.; e Idiomas como Inglês, Espanhol e Francês. A carga horária destas matérias deve variar em função do aluno e da estratégia

missionária utilizada por sua missão, mas não exceder, no seu total, 25% do curso. 3. Matérias voltadas à formação pessoal Vida Cristã — estudando os conceitos básicos da vida cristã a partir do novo nascimento e do compromisso pessoal com Deus. Carga horária - 32 h/a; Discipulado — princípios de autoridade e de relacionamento dentro do corpo de Cristo e de transmissão de vida cristã a outros. Uma continuação da matéria anterior. Carga horária - 16 h/a; Formação de Líderes — quais as características de um bom líder e como formar novos líderes. Carga horária - 16 h/a; Vida do Missionário — um aprofundamento da matéria Missões Transculturais (sendo estudada antes dela), com ênfase na pessoa do missionário, seus relacionamentos, habilidade de conviver com stress e pressão, problemas de isolamento, saudade, solteirismo, solidão, retorno ao país de origem (choque cultural reverso), etc. Carga horária - 32 h/a; e Trabalho em Equipe — o trabalho em conjunto numa equipe missionária, a convivência em grupo. Carga horária - 16 h/a. 4. Matérias para estudo individual Há uma série de pesquisas e estudos que o candidato a missões pode fazer por conta própria tendo a orientação de um professor ou missionário experiente: Estudo sobre o país de trabalho — uma análise histórica, geográfica, sociológica, econômica e religiosa do país para onde o candidato pretende ir. Pode ser o trabalho final do curso apresentado para a classe. Carga horária - 64 h/a; Temas específicos de interesse do aluno relacionados com seu futuro trabalho no campo. Carga horária - 16 h/a por tema; ou Estudo de caso (case study) com um trabalho de campo incluindo entrevistas, artigos, experiências práticas, etc. Carga horária - 32 h/a; Em todas estas matérias é possível combinar a teoria com a prática. Quando dadas em classe, a utilização de pequenos grupos e de trabalhos em grupo é importante e motivador. O uso de material didático, que felizmente se torna cada vez mais disponível, é recomendado. Boas dicas para aulas participativas e alternativas são constantemente publicadas, por exemplo, pela APMB (Associação de Professores de Missões no Brasil). Sugestão de Currículo Integrado Parto do propósito de se montar um currículo para um curso semestral intensivo de missões que compreende quatro meses de aulas (17 semanas) e um mês de estágio, de tempo integral e com candidatos voltados para o ministério transcultural. O currículo sugerido baseia-se nas experiências adquiridas na ministração de aulas de missões e na direção do curso intensivo de missões no seminário onde trabalho. Buscando uma integração das matérias e de uma seqüência produtiva no preparo do missionário, dividimos o curso em quatro blocos ou módulos com a seguinte disposição do conteúdo: 1o Bloco - 4 semanas - total: 160 horas/aula Voltado para a pessoa do candidato com as matérias previstas no item 1.3. Acima,

portanto: Vida Cristã (32 h/a), Discipulado (16 h/a), Formação de Líderes (16 h/a), Vida do Missionário (32 h/a) e Trabalho em Equipe (16 h/a). Subtotal - 112 h/a Sendo o bloco inicial, é também importante incluir: -Introdução a Missões - 16 h/a; -Uma matéria prática ou estudo de idioma - 16 h/a; e -Uma pesquisa individual sobre tema escolhido pelo aluno - 16 h/a 2o Bloco - 4 semanas - total: 160 horas/aula Voltado à parte das matérias missiológicas, relacionadas no ponto 1.1. acima: -Teologia de Missões - 32 h/a; -História de Missões - 32 h/a; -Antropologia Cultural - 32 h/a; -Missões Transculturais - 32 h/a; -Missões e Ação Social - 16 h/a; e -Idioma ou pesquisa à escolha do aluno - 16 h/a. A integração do aprendizado deste bloco exige um trabalho de equipe entre os professores, sendo que o estudo da primeira parte da Teologia de Missões precisa encaminhar as questões para as matérias mais específicas. Isto deve ocorrer também no próximo bloco, que é dado após uma semana sabática. 3o Bloco - 4 semanas - total: 160 horas/aula -Continua o estudo das matérias missiológicas: -Teologia de Missões - 32 h/a; -Contextualização - 32 h/a; -Estratégia Missionária - 16 h/a; -Fenomenologia - 32 h/a; -Religiões e Seitas Mundiais - 32 h/a; e -Idioma ou pesquisa individual - 16 h/a. 4o Bloco - 4 semanas - total 160 horas/aula Mais voltado para a parte individual e especializada, podendo conter: -Pesquisa sobre o país de trabalho - 64 h/a; -Idioma ou matérias práticas - 32 h/a; -Lingüística - 32 h/a; e -Comunicação Transcultural - 32 h/a. Após os quatro blocos, vem um estagio de 4 semanas em um contexto transcultural próximo ou distante onde uma avaliação final do candidato poderá ser feita. É bem possível que, colocado em prática, descobre-se que a ordem de certas matérias pode e deve ser mudada. Seria necessário um detalhamento maior de cada matéria para verificar até que ponto se completam e não se sobrepõem. Da mesma forma, se os temas dentro da Teologia de Missões podem ser estudados de forma a encaixar na ordem prevista das matérias. Se cada crédito do curso equivale a 16 horas/aula, teríamos um curso de 40 créditos, fora o estágio. Existe uma gama de currículos propostos e já testados em cursos de missões

mundo afora. O catálogo de Cursos elaborado pela Comissão de Missões da WEF, dá uma idéia da riqueza neste sentido. Também as apresentações de modelos de treinamento no livro Capacitando a Força Missionária Internacional , editado por W. Taylor, fornece dicas de como montar um currículo. A vantagem do currículo proposto acima está na seqüência de enfoque, partindo da pessoa do missionário, passando pelas bases missiológicas e culminando na prática de ministério e de habilidades requeridas para o trabalho transcultural. Conclusão Um currículo de missões precisa ser flexível e adaptável às novas circunstâncias e necessidades, assim como às estratégias empregadas no campo missionário. A velocidade com que o movimento missionário do Mundo dos Dois Terços, em geral e do Brasil, em particular, se desenvolve exige uma constante avaliação do conteúdo e dos métodos utilizados no treinamento missionário. Novas categorias de obreiros e uma crescente especialização também requerem atualizações num currículo. Lograr combinar desenvolvimento humano, maturidade crista, conhecimento missiológico, princípios de aplicação prática e habilidades especiais, é uma arte difícil. No entanto, buscamos a perfeição, mesmo sendo realistas de que nunca a alcançaremos. O reino de Deus e o mundo não alcançado merecem o melhor de nós. A tendência comum em nosso meio de nivelar por baixo os padrões e as exigências, contraria todos os conceitos de boa mordomia de recursos e de princípios missiológicos. Se Deus vem usando os missionários brasileiros para abençoar as nações e muitos dos obreiros são bem sucedidos e frutíferos no trabalho, somos motivados e chamados para melhorar a cada dia o treinamento dos enviados. O potencial de missionários existente em nossas igrejas é tremendo e podemos apenas ter uma vaga idéia do que aconteceria se as igrejas, como um todo, despertassem para missões e colocassem seus recursos à disposição da obra missionária. Entretanto, se não houver um bom preparo destes obreiros, por mais recursos que tenham, a porcentagem de abandono continuará alta (e ainda maior) e o evangelho corre o risco de ser envergonhado e confundido. Os centros de treinamento missionário que temos no Brasil certamente não são suficientes para a crescente demanda e novos terão que ser organizados. Cabe a nós, professores de missões, avaliar o que temos e melhorar naquilo que é possível ao mesmo tempo que incentivamos a formação de novos cursos, principalmente em regiões onde não há. Outro desafio é o da formação de professores de missões. Ainda dependemos fortemente de professores formados no exterior e sustentados por missões estrangeiras. Um aumento significativo de cursos e uma busca por uma missiologia contextualizada requer mais estudiosos nacionais e professores brasileiros com experiência transcultural. O tempo irá providenciar a experiência, porém precisa haver uma conscientização da necessidade e um estímulo para o estudo e para a análise crítica de missões. Finalizamos como começamos, com uma citação, desta vez de Paulo Freire, motivando a reflexão e a participação popular na elaboração de um currículo e aplicável a uma integração entre estudo bíblico e princípios missiológicos e entre a função do professor de missões e do candidato: Do ponto de vista metodológico, a investigação que, desde o início, se baseia na relação simpática de que falamos (entre educador e educando), tem mais esta dimensão

fundamental para a sua segurança - a presença crítica de representantes do povo desde seu começo até sua fase final, a da análise da temática encontrada, que se prolonga na organização do conteúdo programático da ação educativa, como ação cultural libertadora.29 Notas 1. Alves, R. Estórias de Quem Gosta de Ensinar, São Paulo: Cortez Editora, 1991, pág. 12. 2. Windsor, R. Ed. World Directory of Missionary Training Programmes, WEF - Mission Commission, 1995. 3. Brierley, Peter. "Report on the Research about Mission Attrition". Apresentado em Consulta da WEF-Missions Commission, em Londres, maio de 1996. 4. Conforme a estatística anual elaborada por Ted Limpic, SEPAL, apresentada no Catálogo de Agências Missionárias. 5. Dados fornecidos pelos próprios centros de treinamento no World Directory of Missionary Training Programmes, profiles 21 a 40. 6. Existem muitos estudos feitos sobre a "cultura brasileira" e os traços típicos do brasileiro, tanto por parte de nacionais como de estudiosos estrangeiros. Barbara Burns cita algumas características em sua tese de doutorado: "Teaching Cross-cultural Missions based on Biblical Theology - Implications for the Brazilian Church", págs. 62 a 98. 7. Naturalmente, utilizo, de novo, caricaturas generalizadas sobre os povos. Existem muitos europeus fervorosos e adaptados ao mundo muçulmano, assim como latinos secularizados e alheios ao contexto cultural islâmico. 8. Barbosa, L. O Jeitinho Brasileiro. Rio de Janeiro: Ed. Campos, 1992, pág. 32. Citado por Adiwardana, M. em "O Jeito Brasileiro e o Treinamento Missionário" na revista missiológica Capacitando para Missões Transculturais da APMB, 1995, vol. 1 n.° 2, págs. 55, 56. 9. Por exemplo em Tg 4.13-17. 10. Barbara Burns discute mais a fundo algumas destas características em sua tese de doutorado, citada acima, enfatizando a relevância de uma conscientização destes fatores para o ensino missiológico. 11. É interessante notar que a Índia, apesar de sua pobreza, é um dos mais fortes países enviadores de missionários do Mundo dos Dois Terços, com certa de 9.000 missionários transculturais (1996). 12. Reconheço a dificuldade em fazer uma descrição dessas e certamente existem todas as exceções possíveis, porém baseia-se em experiência pessoal de 10 anos ministrando em cursos de missões e como responsável pelo treinamento missionário denominacional. 13. Existem muitos livros escritos sobre o método de ensino utilizado por Jesus. Por exemplo: Coleman, R. E. O Plano Mestre de Evangelismo. Price, J. M. A Pedagogia de Jesus. Coleman utiliza os clássicos passos no processo do discipulado: Seleção, Associação, Consagração, Transmissão, Demonstração, Delegação, Supervisão e Reprodução. 14. Price. Op. cit. pág. 9. 15. O assunto tem sido discutido mais a fundo em um trabalho denominado "Jesus como Professor no Novo Testamento" apresentado em cumprimento ao encontro de Mestrado na FTBSP em 1992.

16. Abreu, M. C. de & Masetto, M. T. O Professor Universitário em Aula. págs. 7, 8. 17. Ferris, R. W. & Fuller, L. em "Transforming a Profile into Training Goals", cap. 3 da antologia Establishing Ministry Training, pág. 53. 18. Freire, P. Pedagogia do Oprimido. pág. 66. 19. Idem, pág. 78. 20. Idem, pág. 82. 21. Alves, R. Op. cit. págs. 31-34. 22. Em um trabalho denominado "Reflexões sobre Teologia Latino-Americana - O papel da Educação na Teologia da Libertação" apresentado por ocasião de Encontro do Mestrado da FTBSP em 1993, faço uma análise mais detalhada sobre a implicação destas idéias sobre a educação. 23. Os itens são exemplos dados quanto ao treinamento missionário na Coréia, apresentados pelos Dr. David Lee em Capacitando a Força Missionária Internacional, pág. 93. 24. Steuernagel, V. "A Prioridade da Evangelização" em A Serviço do Reino. págs. 150, 152. 25. Carriker, T. Missão Integral. pág. 7. 26. Burns, B. "A Integração da Exegese Bíblica e Estudos Missiológicos" na Revista Capacitando para Missões Transculturais. APMB. N° 1, 1996. Pág. 63. O artigo é um resumo da tese de doutorado, já mencionada acima, onde uma análise profunda é feita sobre a necessidade de integrar o estudo bíblico com a prática missionária e as vantagens da metodologia. 27. Bordenave, J. D. & Pereira, A. M. Estratégias de Ensino-Aprendizagem. pág. 10. 28. Arthur Glasser no curso de Teologia de Missões no Fuller Theological Seminary, Pasadena, USA, vem aplicando uma variação do método utilizando textos desde Gênesis até Apocalipse. 29. Freire, P. Pedagogia do Oprimido, pág. 132. Bibliografia De ABREU, Maria Celia & Masetto, Marcos Tarciso. O Professor Universitário em Sala de Aula. São Paulo: MG Editores Associados, 1990. ADIWARDANA, Margaretha N. "O Jeito Brasileiro e o Treinamento Missionário". Artigo na revista Capacitando para Missões Transculturais. 2/95. São Paulo: APMB, 1995. ALVES, Rubem. Conversas com Quem Gosta de Ensinar. São Paulo: Cortez Editora, 1991. _________. Estórias de Quem Gosta de Ensinar. São Paulo: Cortez Editora, 1984. BORDENAVE, Juan Diaz & PEREIRA, Adair Martins. Estratégias de EnsinoAprendizagem. Petrópolis: Vozes, 1989. BRIERLEY, Peter. "Report on the Research about Mission Attrition". Apresentado em Consulta da Comissão de Missões da WEF em Londres, maio de 1996. BURNS, Barbara. "Teologia Contextualizada pela Integração da Exegese Bíblica e Estudos Missiológicos". Artigo na revista Capacitando para Missões Transculturais 1/96. São Paulo: APMB, 1996. _________. "Teaching Cross-Cultural Missions Based on Biblical Theology Implications of Ephesians for the Brazilian Church". Tese de doutorado apresentado em

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Missão e Missões União na Diversidade Donald E. Price Donald Price é titular do Departamento de Missões na Faculdade Teológica Batista de São Paulo e presidente da APMB. A matéria principal que tem desenvolvida no seu ensino é a Teologia de Missões. Assim este artigo é fruto das suas pesquisas bíblicas. Há um tempo atrás fui procurado por um líder de igreja que queria desenvolver o programa missionário de sua igreja. Como deveria definir a área de missões da igreja? Quais seriam as atividades que esta área abrangeria? Missões é tudo que a igreja faz, ou uma área específica? Em outra ocasião estava conversando com outro professor da Faculdade onde leciono. Dou uma matéria lá chamada "Teologia Bíblica da Missão". Este- fazia objeção ao nome da matéria, achando que deveria ser chamada de "Teologia Bíblica de Missões", pois só os liberais falam da "missão". Qual é a diferença entre "Missão" e "Missões"? Querem dizer a mesma coisa? São sinônimos? Alguns autores escrevem sobre a "Teologia da Missão", enquanto outros discorrem sobre a "Teologia de Missões". Alguns evangélicos até fazem objeção ao uso da palavra "Missão", pois acham o termo "liberal", enquanto "missões" seria um termo mais evangélico. De fato, a distinção entre "missão" e missões" tem sua origem na discriminação entre a missio Dei, a "Missão de Deus", e a missiones ecclesiae, as "missões das igrejas" feita inicialmente no movimento conciliar (Conselho Mundial das Igrejas). Nesse movimento, o conceito de missões estava atrelado à Trindade, ao próprio caráter de Deus e, provavelmente, em sua conferência em Willingen (1952), o termo missio Dei começou a ganhar aceitação.

Será que essa distinção é útil para aqueles que não fazem parte do movimento conciliar? Conforme David Bosch a "missio Dei" enuncia as boas novas de que Deus è um Deus para as pessoas. Missões (missiones ecclesiae: os empreendimentos missionários da igreja), se referem às formas específicas, relacionadas com os momentos, lugares ou necessidades específicas, da participação na Missio Dei (p. 10). Isto é, quando falamos de Missão referimo-nos ao plano de Deus para a história. Enquanto isso, quando falamos de missões, referimo-nos às posturas específicas tomadas por indivíduos e especialmente igrejas diante dos propósitos de Deus na história, por um lado, e seu contexto ministerial, por outro. Portanto, a Missão de Deus se torna o referencial para as missões. Qual, então, é a missão de Deus? Quais são os Seus propósitos na história? Começaremos com o livro de Gênesis, a história da criação da raça humana. Carriker (1992:17) desenha a ordem da criação da seguinte forma para demonstrar que o homem foi criado como ápice da criação por parte de Deus. REINOS Dia 1: Luz Dia 2: Céu e águas Dia 3: Terra e mares Homem (vice-rei) Dia 7:DEUS Nos primeiros três dias da criação, Deus cria os diversos reinos: a luz, separa as águas entre as de cima (céus) e as de baixo (mares) e separa a terra seca dos mares. Nos últimos três dias da criação Deus cria aqueles que devem ter o domínio sobre os três reinados, a saber, os luzeiros, aves e peixes e os animais. No final da criação, o homem é criado para governar a criação em nome de Deus. O Propósito de Deus na Multiplicação das Pessoas Agora, quando Deus cria o homem Ele transmite sua imagem para esta criatura. A pergunta chave é: Em que consiste esta imagem que Deus transmite para o homem? Para qual propósito foi criado? Um breve esboço de Gênesis 1.26-27 nos ajuda a entender o propósito de Deus. "E disse Deus, façamos o homem (adham ou Adão) à nossa imagem, conforme a nossa semelhança .... Criou, pois, Deus, o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou, homem e mulher os criou". Alguns perguntam: Com quem Deus estava conversando quando resolveu criar o homem? Estava conversando com os anjos? Creio que não, pois o homem espelharia a imagem do anjos além da imagem de Deus. Será que o Pai estava conversando com os demais membros da Trindade? Pode ser, se lemos o texto sob a ótica do Novo Testamento. Ao mesmo tempo, será que os interlocutores de Moisés entenderiam esta referência? Duvido. Creio que o plural usado por Deus nesses versículos seja um "plural de realeza", ou seja Deus, o rei do universo está falando consigo mesmo sobre sua intenção de fazer o homem à sua imagem. (Keil, 62). Resquícios desta prática permanecem no português. REINADOS REIS Dia 4: Luzeiros (sol, lua, trevas e estrelas) Dia 5: Aves e peixes Dia 6: Animais

Quando alguém se dirige a uma autoridade superior, usa a frase "vossa excelência". Apesar de "vossa" ser um plural, nem por isso a pessoa quer dizer que mais de uma pessoa esteja diante dela. Quer dizer que a magnificência da autoridade é tamanha que não comporta o singular. Por que Deus usa o plural, então? Porque sua grandeza não comporta o singular. Então, em que consiste a imagem de Deus transmitida para o homem, além do domínio que Deus lhe concede? Vejamos no esboço. Deus cria o homem (singular) para refletir sua imagem e sua semelhança. "Imagem" conotava para o povo do Pentateuco "as imagens" dos povos vizinhos, ou seja, os deuses alheios. Estas imagens seriam a representação física do deus. Portanto, o autor usa a frase "imagem e semelhança" para denotar que o reflexo de Deus no homem não é físico, é de outra natureza. Mas, qual outra natureza? Vejamos o esboço a seguir. No versículo 26, Deus resolve criar o homem (singular) à sua imagem / semelhança (singular). No versículo 27, Deus, de fato, o cria à sua imagem (repetida duas vezes!), homem e mulher os cria. Ou seja, quando o Senhor resolve criar um ser à sua imagem e semelhança, acaba criando duas pessoas afim de que, juntas, possam refletir sua imagem singular! Esboço de Gênesis 1.26-27 E disse Deus: Façamos o homem (adham - Adão) à nossa imagem, conforme a nossa semelhança Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou Aliás, o estudo do uso de adham (Adão) nos primeiros cinco capítulos de Gênesis dá resultados intrigantes. Aqui, em Gênesis 1, "Adão" se refere ao casal. No capítulo dois, refere-se ao macho — aquele que tradicionalmente chamamos de "Adão". E em Gênesis 5, ora se refere ao casal, quando geram um filho à sua imagem e semelhança, ora se refere ao macho. Evidentemente, a palavra em si se refere ao gênero humano e referese ao macho quando ele representa o gênero no segundo capítulo. O que nos diz este fato a respeito de Deus? Certamente que Ele vive em mais de uma pessoa! E que, de alguma forma, os seres humanos em sociedade refletem a imagem de Deus de maneiras que o indivíduo não a reflete em sua individualidade. Deus existe em mais de uma pessoa e, portanto, criou o homem em mais de uma pessoa para que assim pudesse refletir Sua imagem. Queremos dizer com isso que cada indivíduo não reflete a imagem de Deus? Claro que não! Em Gênesis 5, Sete nasce à imagem e semelhança de seus pais, "Adão". E em Gênesis 9:6, vemos que Deus institui a pena capital, justamente porque o assassinato de um indivíduo é um atentado contra a imagem dEle! De que forma o casal deveria refletir a imagem de Deus? O autor nos conta a

história da criação da raça humana em "close" no segundo capítulo de Gênesis. No versículo 18, Deus faz uma proclamação surpreendente para quem vem acompanhando a leitura do livro desde o primeiro capítulo: "Não é bom que o homem (Adão) esteja só . . .." Como que não é bom? Não tem a Deus? Sim, mas precisa de uma "ajudadora idônea." As palavras traduzidas "ajudadora idônea" indicam, em parte, que classe de relação deveria existir entre o casal, como reflexo da imagem de Deus. A preposição traduzida por "idônea" quer dizer, literalmente, que "esteja diante de" ou à frente de". E assim que a traduz a versão revista e corrigida (Gênesis 2.18). Numa sociedade oriental como a judaica poder encarar implicava a igualdade entre as duas partes, pois aquele que era inferior ao outro deveria mostrar até pela postura sua inferioridade. O fato da mulher "estar diante de" implicava que ela estava "à mesma altura" do seu marido, ou seja, intrinsecamente seu par ou igual, em nada essencialmente inferior ao seu marido. Por outro lado, a palavra "ezer", traduzida por "ajudadora", nos apresenta algumas dificuldades de interpretação. Normalmente, refere-se a um aliado militar (cf. Dt 33.7). Certamente, refere-se a: 1) um aliado 2) que tenha alguma capacidade para ajudar. A mulher seria uma aliada capaz para seu marido. Sua relação seria complementar, a força e capacidade de um reforçando a força e capacidade do seu cônjuge. Ao mesmo tempo, o macho é criado primeiro e lhe dá nome à sua mulher, bem como já dera aos animais. Assim, por três motivos, o homem exerce certa prioridade relacional (e não essencial) sobre sua mulher: 1) pela ordem de criação—portanto, recebendo as instruções divinas quanto às árvores proibidas e repassando-as para sua mulher, 2) pelo fato de lhe dar o seu nome de criação, "varoa",1 e 3) pelo fato de ser chamado, enquanto indivíduo, pelo nome da raça inteira. De qualquer forma, o que deve caracterizar a relação é a igualdade intrínseca e a complementaridade. Diga-se de passagem que quando Adão a chama de "varoa" está reconhecendo seu próprio reflexo na mulher. Aliás, Adão reconhece seu próprio reflexo na mulher em toda sua exclamação ao recebê-la: "Esta é agora osso dos meus ossos e carne da minha carne" (2.23). Além disso, as palavras do comentarista divino "e ambos estavam nus e não se envergonhavam" são mais do que literais. A nudez do casal representa a falta de barreiras entre eles, especialmente tendo em vista a reação inicial deles ao seu próprio pecado: vestir-se. O fato é que não tinham de que se envergonhar e, portanto, não tinham nada a esconder do seu cônjuge.2 Assim que pecam, sua primeira reação é vestir-se, cada um se escondendo do outro. Mais tarde, escondem-se de Deus quando Este aparece para passear no jardim com eles. Conhecemos a história. A mulher dá ouvidos à serpente3, come "o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal" e, em seguida, o oferece ao seu marido, que o come, por sua vez. Portanto, a mulher trai seu aliado. E o homem "atende a voz de sua mulher", ao invés de atender a voz de Deus. Ambos perdem a inocência, se escondem cada um do seu cônjuge e de Deus. Este vem à sua procura dizendo, "onde estás?" Com estas palavras, Deus comunica Seu desejo de restabelecer a comunhão com o casal (gênero humano). Começa, então, a famosa entrevista com o casal. Cada qual joga a culpa no outro, a começar com Adão, que a joga indiretamente em Deus. Afinal, foi Ele que lhe deu a mulher! A mulher joga a culpa na serpente, etc.

E todos recebem o castigo devido. A serpente seria destruída pelo descendente da mulher. A mulher, em seu papel de progenitora da raça, iria sofrer no cumprimento deste papel. Enquanto isso, a terra se rebelaria contra aquele que a dominaria, estando ele, por sua vez, sujeito a Deus. Em vez disso, sujeitou-a à vaidade (Romanos 8.20). Cada um, portanto, continuaria a cumprir seu papel, mas a duras penas. Além da mudança em seu relacionamento com Deus e com a criação, a relação entre os então aliados se transforma: "Teu desejo será para o teu marido, e ele te governará" (3.16). Esta construção só aparece mais uma vez no Antigo Testamento, em Gênesis 4.7, em referência à tentação de Caim. Nesse caso, "o pecado jaz a porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo". Neste último caso, a frase se refere a uma luta pelo domínio entre o pecado e a consciência de Caim. Cada um buscaria a supremacia, porém, só um a conseguiria. Ou o pecado controlaria Caim, ou ele ao pecado. Transportando esta interpretação da frase para Gênesis 3, Susan Foh declara: A mulher tem o mesmo tipo de desejo por seu marido que o pecado tem por Caim, o desejo de possuí-lo ou controlá-lo. Assim como o Senhor diz a Caim aquilo que deveria fazer, i.é., dominar ou governar o pecado, o Senhor também declara aquilo que o marido deve fazer, governar sua mulher. As palavras de Gênesis 3.16b, bem como no caso da batalha entre o pecado e Caim, não determinam o vencedor do conflito entre marido e mulher. Apenas destacam o início da batalha entre os sexos (381, 382, grifo meu) De aliada, a mulher virou concorrente! Assim, o homem perde sua comunhão com Deus, com seu par e com a própria criação. Quais são as implicações desta realidade para a missão? Simplesmente isto, que o caminho de volta é o mesmo de ida. Tanto a sociedade quanto a própria criação só estarão reconciliados com Deus quando a própria raça humana estiver reconciliada com Deus. Não há como conseguir a justiça societal nem a ecologia perfeita sem antes reconciliar o homem com Deus. Como disse David Bosch, a reconciliação do homem com Deus é o coração de missões. Quando se tira o coração fora do corpo, o corpo morre. Quando se elimina a reconciliação da raça humana com Deus das missões, apenas resta um defunto com aparência missionária. Podemos conceber, portanto, a missão de Deus da seguinte forma a partir da queda: A reconciliação ocorre como uma série de círculos concêntricos. Quando o homem é reconciliado com Deus, então é capaz de criar uma sociedade que espelha a imagem dEle. Estando o homem em paz com Deus, consigo mesmo e com seu próximo, então tem condições de exercer o domínio apropriado sobre a própria criação. É a isto que nos referimos quando falamos de "missão integral". Resumindo, Deus criou o homem um "ser múltiplo" para assim refletir Sua imagem e semelhança. Ou seja, criou o homem para viver em comunidade com seu próximo a fim de que esta convivência refletisse tanto a multiplicidade de pessoas dentro da divindade, quanto a convivência entre elas. Esta convivência se apercebe de forma especial na convivência do homem com seu próximo mais íntimo, seu cônjuge. Esta relação envolveria a aliança entre dois seres intrinsecamente iguais e, ao mesmo tempo, complementares. Quando caíram, de aliados se transformaram em rivais. A missão de Deus era criar uma raça que o espelhasse tanto individual quanto socialmente. Quando caímos, Deus se propôs a nos resgatar e

reconciliar com Ele, conosco mesmos e com a própria criação. É só isso? Creio que não. Baseio-me numa ordem repetida por Deus: "Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a" (Gênesis 1.28 e 9.7). O Propósito de Deus na Multiplicação das Culturas Em Gênesis 9.7, Deu reitera Sua intenção inicial em relação à raça humana: "Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a." Ao nos multiplicarmos, formaríamos famílias diferentes e nos espalharíamos pela terra. Inicialmente, as famílias seriam as dos filhos de Noé: Sem, Cão e Jafé. Ao nos espalharmos pela terra, iríamos reconhecer diferentes progenitores paulatinamente, na medida que os mais antigos caíssem no esquecimento.

Além disso, há um processo natural de diferenciação lingüística entre dois povos com as mesmas origens étnicas e a mesma língua mãe na medida que esses povos se separam e se isolam geograficamente — que sempre foi a intenção de Deus. Por exemplo, os povos português e brasileiro, embora compartilhem as mesmas raízes étnicas e lingüísticas, já falam dois dialetos da mesma língua e precisam esforçar-se para manter esses dialetos mutuamente inteligíveis. Ademais, em termos culturais, já não se pode dizer que compartilham a mesma cultura, muito embora suas respectivas culturas tenham alguns traços semelhantes. Assim foi a intenção de Deus em relação à raça humana. Sempre quis que nos separássemos étnica, cultural e lingüisticamente. Assim como os filhos de Noé separarse-iam em famílias diferentes, seus respectivos filhos iriam separar-se e assim por diante. Em suma, se obedecêssemos a ordem de Deus de nos espalharmos, em pouco tempo estaríamos divididos em povos etnolingüísticos diferentes. O próprio esboço dos capítulos 9 a 11 de Gênesis tende a apoiar esta hipótese. Em Gênesis 9.7 vemos a ordem (reiterada) de Deus de nos frutificarmos e nos espalharmos. No capítulo 10 vemos o cumprimento desta ordem. E no capítulo 11 vemos a ação divina que obrigou a raça, ainda rebelde, a obedecer a vontade de seu Criador. Ou seja, a ordem cronológica dos capítulos é 9, 11 e 10. No entanto, o autor os ordena 9, 10 e 11: ordem, obediência e causa imediata da obediência. Portanto, a ênfase do autor está na ordem de Deus e na obediência humana à Sua ordem. Nisso vemos um paralelo com os primeiros dois capítulos do livro. No primeiro capítulo vemos o plano

divino para a criação da humanidade e no segundo, os detalhes sobre como isto veio a acontecer. Assim também nos capítulos 10 e 11. No capítulo 10 vemos o plano divino para a separação da humanidade em raças, povos e línguas (i.e. "famílias") diferentes. E no capítulo 11, como isto veio a acontecer. Em suma, assim como Deus dividiu a raça humana em dois sexos para que estes em conjunto refletissem Sua glória tanto individualmente, como através de sua complementaridade e interação, Ele também separou a raça humana em diferentes grupos etnolingüísticos para que estes O refletissem tanto individualmente quanto através de sua complementaridade e interação. Assim como cada indivíduo reflete a imagem de Deus adequada, se bem que parcialmente, cada cultura tende a enfatizar certos aspectos dá Pessoa de Deus era seu reflexo de Sua imagem. E assim como as sociedades humanas refletem a imagem de Deus de maneira mais integral do que os indivíduos que as compõem, a raça humana reflete a imagem de Deus de forma mais integral do que as sociedades individuais que a compõem. Portanto, no conjunto de suas diversas sociedades e culturas a raça inteira reflete a "multiforme graça de Deus". Sempre foi a intenção de Deus criar uma raça que refletisse Sua imagem, não apenas alguns indivíduos. Podemos chamar esta intenção de missio dei. Um Povo que Aceita Muitas Etnias Quando esta raça caiu, Deus não mudou de intenção. Mesmo quando se rebelou e quis unir-se contra Ele, não mudou. Apenas mudou Sua estratégia. Escolheu um dos filhos de Tera, Abrão, para abençoar todas as famílias da terra através de sua descendência. Ele cria uma nação étnica, sim, porém uma etnia que admite que pessoas de outras etnias se integrem a ela, desde que adiram à aliança. Os filhos de Jacó demonstram uma compreensão clara desta realidade quando sua irmã, Diná, é violentada (Gênesis 34). Diná é estuprada por Siquém e, por sua vez, "sua alma se apega a ela". Fala com seu pai, Hamor, e este fala com os irmãos dela (os filhos de Jacó) a fim de aparentar-se com eles (v. 10). Embora seu filho tivesse agido com má fé em relação à Diná, Hamor procura os irmãos dela em boa fé. Estes lhe respondem com má fé, exigindo que todo o clã de Hamor se circuncidasse a fim de aparentar-se com eles. Hamor consente e exige isto em seguida dos seus homens. No terceiro dia depois da circuncisão, "quando os homens estavam doridos" (v. 25) os irmão de Diná, Simeão e Levi se vingam, matando todo o clã de Hamor. A má fé dos irmãos de Diná não estava na má compreensão da circuncisão. Este, de fato, era o símbolo através do qual qualquer um poderia se unir ao povo da aliança. Pelo contrário, compreendiam muito bem o significado deste símbolo. Sua má fé estava no fato que nunca pretenderam permitir que os filhos de Hamor se unissem aos filhos de Jacó. Para os nossos fins, percebemos que o principal fator unificador de seu povo não seria a raça e sim, a adesão à aliança (Hedlund: 81). Caso algum hebreu não se circuncidasse seria cortado do povo. Até o próprio filho de Moisés seria morto se não fosse circuncidado (Êxodo 3.23-25)! Esta conceituação do povo de Deus continua com a aliança Mosaica. Entre os que saíram do Egito vemos muitos nomes egípcios. Até a esposa do próprio Moisés era midianita, sem falar do Senhor aceitar o sacrifício realizado pelo pai dela. Caleb, um de

dois da nação inteira que entram na terra prometida, não é hebreu e sim, edomita (Josué 14.14)! Otniel, um dos juízes de Israel, também era quenezeu, da mesma tribo edomita (Juízes 3.9). De Ridder exclama: "O não Israelita encontrava em Israel a exigência da obediência ao Deus que na graça redentora estava cumprindo, através da eleição de Israel sua aliança universal com a humanidade"(47 apud Hedlund, 81). O salmista vincula este propósito divino com o conceito do reino de Deus. As nações deverão "beijar o filho", por exemplo (Salmo 2). E a própria Rute declara à sogra "Teu Deus será o meu Deus e o teu povo o meu povo." Neste último ponto vemos uma das características únicas de Israel. Embora Israel aceitasse membros de outros povos, estes teriam de abandonar seus próprios povos, a fim de se unirem ao povo da aliança. Rute, pela graça de Deus, deixou de ser moabita e se tornou hebrea. Enfim, Rute, Caleb, Otniel, Raabe e tantos outros abandonaram seus povos e naturalizaram-se hebreus. Embora Israel fosse um povo multiétnico, as diversas etnias seriam homogeneizadas dentro do povo de Israel. Perderiam suas identidades individuais e assumiriam a identidade israelita. De Um Povo Multiétnico a Um Povo Multicultural Os profetas antigotestamentários vislumbram um dia em que os outros povos serão aceitos em pé de igualdade diante de Deus com o povo de Israel. Isaías espera ver o dia em que o Senhor falará "Bem-aventurado seja o Egito, meu povo, e a Assíria, obra de minhas mãos, e Israel, minha herança" (19:25, grifo meu). Os dois povos que sempre pisoteavam o povo de Israel em suas brigas cada um com o outro são colocados em pé de igualdade diante Deus com Israel! Deus chega a chamar o povo do Egito de "meu povo!" Jeremias sugere como isto será possível. Não será realizado através da velha aliança com Israel, firmada no dia em que Deus o tirou do Egito, senão através de uma nova aliança (31.27-34). A própria natureza do povo de Deus deverá mudar. Será um povo conhecedor de Deus, na sua íntegra. A lei de Deus não poderá cair no esquecimento, pois estará escrita em seus corações (através do Espírito?). E todos terão experimentado o perdão absoluto (absolvição) de seus pecados. Quem será esse povo? Nas palavras do Senhor Jesus, "Este cálice é a nova aliança no meu sangue . . ." Este povo não se conceitua fundamentalmente em termos étnicos ou culturais. Conceitua-se em relação a Deus. Enquanto o povo de Israel poderia ser conceituado como um povo que integrava membros dos demais povos dentro dele, homogeneizando suas diferenças culturais, este povo se conceitua como um povo que integra todos os povos, respeitando suas diferenças culturais.

Os discípulos demoraram para entender que seu Senhor pretendia oferecer seu evangelho a todas as nações, não obrigando-as a aderirem aos padrões culturais dos judeus. Embora a ordem de Jesus fosse clara: "Fazei discípulos de todas as nações" (grifo meu) e "Ser-me-eis testemunhas em Jerusalém, Judéia, Samaria e até os confins da terra",

os discípulos preferiram permanecer em Jerusalém. É até interessante o paralelo entre os relatos de Gênesis 10 e 11 e os primeiros capítulos de Atos. Em Gênesis a raça humana é dividida em povos distintos através da separação lingüística. Em Atos 2, judeus e prosélitos que falam um número muito grande de idiomas ouvem a pregação, cada um em sua própria língua. Deus está começando a reverter a separação entre os povos, efetuada em Babel. Nem por isso os discípulos "caíram na real", entendendo as implicações do que acontecera, que Deus estava chamando pessoas de todos os povos para fazerem parte de Seu povo multicultural. Ao invés de se espalharem, permaneceram em Jerusalém — até que Deus agiu, enviando uma perseguição. Desta vez, em vez de se separarem em povos distintos, deveriam espalhar-se para chamar pessoas dos povos para o povo de Deus. Obedeceram, indo até os samaritanos. E os "confins da terra?" Não bastou a perseguição. Foram precisos dois milagres para que os discípulos pregassem aos não judeus, ou seja, os gentios. Lucas nos relata a história em Atos 10 e 11. Pedro precisa ouvir a voz de Deus em sonho, repetindo por três vezes que não deveria considerar imundo aquilo que Deus havia declarado limpo. Enquanto isso, Deus se revela a Cornélio, também através de um sonho. Quando Pedro finalmente entende o recado divino, ou melhor, aceita a mensagem divina, os homens de Cornélio estão batendo à sua porta. Pedro vai com eles e ao mesmo tempo se precavê, levando seis testemunhas consigo, muito mais do que as duas ou três prescritas pela lei. Parece que Pedro está esperando alguma resistência dos líderes (judaicos) da igreja. A resistência não tardou. Logo no capítulo 11, Pedro é convocado para dar explicações aos líderes da igreja. Querem saber porque entrou na casa de gentios. Ainda não entendem as implicações de Jesus tê-los enviado para fazer discípulos de todas as nações. 4 Tanto é que, quando Pedro faz sua explicação do acontecido, faz questão de indicar que não teria ido à casa de Cornélio caso não recebesse uma ordem direta de Deus. Chega até a responsabilizar o Senhor pela conversão dos primeiros gentios. Pedro não teve culpa! Não fosse a ordem e obra inconfundíveis de Deus, jamais pensaria em oferecer a salvação em Cristo a um gentio, muito menos em batizá-lo! Isto coloca em contexto o comentário de Lucas: "Ouvindo eles estas coisas, apaziguaram-se e glorificaram a Deus, dizendo: Assim pois, Deus concedeu também aos gentios o arrependimento para a vida." 5 Ou seja, que maravilha! Até os gentios podem participar desta aliança! O alicerce já está colocado para a reconceituação da igreja de Cristo de seita judaica para uma coisa totalmente nova, que rompe com o judaísmo, mesmo que tenha suas raízes lá. Infelizmente, os seguidores de Jesus ainda demoram para entender as ramificações deste novo conceito de povo de Deus, assim provocando o Concílio de Jerusalém. Embora Cornélio fosse um homem temente a Deus e não um prosélito, muitos judeus da igreja primitiva ainda exigiam dos gentios convertidos que se circuncidassem, assim declarando sua lealdade à aliança abraâmica e à mosaica. "Tendo Paulo e Barnabé contenda e não pequena discussão com eles, os irmãos resolveram que Paulo e Barnabé e mais alguns dentre eles subissem a Jerusalém, aos apóstolos e anciãos, por causa desta questão (Atos 15.2)." Pelo significado simbólico da circuncisão, o que estava em jogo não era apenas se

os novos convertidos deveriam ou não circuncidar-se. O que estava em jogo era o próprio conceito neotestamentário de povo de Deus. Se os novos convertidos teriam de circuncidar-se, seriam obrigados a obedecer toda a lei e o cristianismo seria uma mera seita do judaísmo. Caso não precisassem se circuncidar, então o cristianismo se separaria definitivamente do judaísmo para assumir um identidade nova. Resultado? Os novos convertidos ao cristianismo não teriam de se circuncidar, muito embora tivessem de fugir de algumas práticas particularmente ofensivas aos judeus. O cristianismo deixou definitivamente de ser uma seita judaica e passou a assumir uma identidade totalmente nova, embora com raízes no judaísmo. Ao invés de deixarem suas culturas de origem para serem absorvidos pelo povo de Deus, os novos convertidos poderiam continuar dentro de suas culturas de origem e, ao mesmo tempo, fazer parte do povo de Deus. O povo de Deus, de multiétnico, torna-se multicultural. Paulo cita o mesmo conceito de povo quando diz que Cristo . . .é a nossa paz, o qual de ambos fez um; e, tendo derrubado a parede da separação que estava no meio, a inimizade, aboliu na sua carne a lei dos mandamentos na firma de ordenanças, para que dos dois criasse um novo homem, fazendo a paz e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade (Efésios 2.14-16). Com isso Paulo não quer dizer que Cristo elimina as diferenças entre os povos, pois seu conceito de unidade não permitiria tal interpretação. Até a figura de corpo aqui citado por Paulo denota uma união de pessoas diversas. Quando usa a mesma analogia em 1 Coríntios 12, diz "Mas Deus dispôs os membros, colocando cada um deles no corpo como lhe aprouve. Se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo?" (vss. 18-19). A unidade cristã não está na homogeneidade dos cristãos, Pelo contrário, Deus espera que sejamos um povo diversificado, porém com um vínculo a uma só cabeça. Em termos de povos, Deus pretende que continuemos a nos identificar com os nossos povos de origem. Parafraseando Paulo: "Se todos fossem brasileiros, onde estariam os chineses?" E nisso vemos o intuito de Deus ser glorificado por um só povo, uma só raça humana, diversificada — refletindo de forma multifacetada Sua glória e imagem únicas. Novamente, o povo da nova aliança, da igreja de Jesus Cristo, é um só povo que integra membros de diversos povos, enquanto estes permanecem dentro de seus povos. Nenhum membro do corpo de Cristo tem de negar suas raízes etnolingüísticas para fazer parte do corpo de Cristo. De fato, acaba fazendo parte de dois povos enquanto deve lealdade a um só povo principal — o povo de Deus. Se bem que não existe nem escravo nem livre, nem judeu nem grego, nem homem nem mulher, ninguém deixa de ser escravo ou livre, judeu ou grego, homem ou mulher, a fim de se tornar membro do povo de Deus. O Povo Apocalíptico de Deus Esta visão de povo de Deus se cumpre no apocalipse previsto por João. Quando chega a ver a cena celestial, depois de descrever o salão do trono de Deus, quando abre os olhos para ver os adoradores do Cordeiro, os quatro anciãos e os vinte e quatro seres viventes louvam ao Cordeiro por haver comprado "os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação" (Apocalipse 5-9). Mais tarde João vê estes adorando ao Senhor "grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas" (7.9). "Tribos, nações, povos e línguas", por sinal, são as principais palavras gregas usadas para distinguir entre diferentes grupos etnolingüísticos. O que João está dizendo é

que pessoas de todos os grupos etnolingüísticos concebíveis participarão deste culto eterno ao nosso Deus. Sempre quis entender como é que João sabia que estes adoradores procediam de tantos grupos diferentes. Será que Deus não elimina, nem no céu, todas as distinções étnicas, raciais, lingüísticas e culturais em cada um destes aspectos, ora aperfeiçoados, para refletir uma parte da Sua imagem? Ou seja, essas diferenças já não servem de barreira entre os servos do Rei. Pelo contrário, contribuem para a mútua edificação dos servos do Rei. Cada servo do Rei poderá ensinar aos demais servos do Rei algumas coisas específicas acerca do caráter dEle, a partir de sua perspectiva cultural e, ao mesmo tempo, aprender dos demais servos do Rei facetas do caráter dEste que não entenderia sem a colaboração de seus conservos. Cada povo adora o Senhor do seu ponto de vista cultural e, no conjunto, todos os povos espelham a glória multifacetada de Deus.

Resumindo, Deus criou a raça humana em duas pessoas de sexos diferentes para que, através de sua diversidade e complementaridade refletissem Sua imagem. Continuou a formar a raça humana em diversos povos, línguas e culturas a fim de que, em sua diversidade, refletissem a glória de Deus de forma complementar. Com o mesmo objetivo, Deus formou um só povo multiétnico, porém monocultural, a fim de chamar para si pessoas de diversas etnias, povos e raças. Estas pessoas seriam absorvidas por Israel, mesmo que deixassem sua contribuição para a formação da cultura judaica. Continuando com o objetivo de ser louvado e glorificado por várias culturas e etnias diferentes, Deus acaba formando outro povo, desta vez multiétnico e multicultural. Os seguidores de Cristo não precisam mais abandonar suas próprias culturas para servir ao Senhor. Pelo contrário, permanecem nelas a fim de aperfeiçoá-las. Finalmente, os remidos de todas as tribos, povos e línguas se reúnem diante do trono de Deus e do Cordeiro para adorá-lO para sempre, sem perder seus traços culturais, já santificados. Se bem que cada indivíduo e cada cultura reflete a glória de Deus individualmente, na sua união complementar como único povo de Deus de forma até mais maravilhosa. Implicações para a Práxis Missiológica Quais são as implicações deste conceito de povo de Deus para a práxis missiológica? Em primeiro lugar, teremos de modificar nosso conceito de união. União, de forma alguma, implica em uniformidade. Se o nosso propósito, nossa razão de ser, é de refletir a glória multifacetada de Deus, só poderemos fazê-lo de forma multifacetada. Embora os nossos cultos devem girar em torno do mesmo Deus, o mesmo centro,

podemos servi-lO das mais diversas formas imagináveis. Os missionários em cada cultura devem procurar os aspectos daquela cultura que melhor refletem a glória do nosso Deus e realçá-los na vida e prática eclesiástica do povo.6 Quando levamos o evangelho de Cristo a outro povo, não devemos nos limitar a reproduzir nossa forma de entender a Deus e a nossa forma de ser igreja. Devemos procurar formas que reflitam a glória de Deus dentro daquele contexto cultural.7 Dentro deste mesmo assunto, devemos ser tolerantes com as diversas formas de ser povo de Deus em nossas próprias culturas. Apesar de existir um cerne imutável, que é a Pessoa do nosso Deus, as formas de adorá-lO podem ser das mais diversas, desde que se alinhavem com Sua natureza.8 Neste sentido, talvez a união institucional não seja necessária, sequer desejável, já que existe uma pressão grande para a conformidade dentro de qualquer instituição. Segundo, ao mesmo tempo que deve existir uma ênfase na diversidade do povo de Deus, deve também existir um reconhecimento da nossa união como povo de Deus. Refiro-me à ecumenicidade, não necessariamente no sentido do movimento ecumênico conciliar, mas no sentido de reconhecermos que Deus tem Seu povo espalhado pelos quatro cantos da terra, mesmo (por incrível que pareça!) que não façam parte da nossa confissão eclesiástica. Terceiro, Deus pretende transformar toda sociedade humana através da implantação do evangelho nela. Por transformar, podemos entender aperfeiçoar ou até mesmo santificar. Deus pretende lançar mão daqueles aspectos em que a cultura O glorifica e burilá-los até que brilhem ao refletirem a Sua imagem, ao passo que pretende eliminar os elementos demoníacos de cada cultura. Ou seja, o evangelho jamais pode ser encarada com intuito individualista. Sempre visa a formação de uma nova sociedade. Não podemos permanecer alheios aos problemas da nossa sociedade nem aos de qualquer sociedade onde o evangelho está chegando, pois chega para transformá-la à imagem de Deus. Quarto, o evangelho tem um aspecto "ecológico". Ao passo que Deus nos mandou nos multiplicarmos e nos espalharmos, mandou-nos "dominar" a terra também. Quando caímos, sujeitamos a própria terra à vaidade. Nossa redenção implica na redenção da própria terra, no seu resgate da mão do nosso inimigo, a quem a entregamos na queda (Romanos 8.20-23; Apocalipse 12.7-12). Embora a realização plena deste intuito de Deus seja escatológica, começamos a andar nesta direção desde já. A missão de Deus na história humana nada mais é do que criar uma raça que O glorifique através de sua diversidade e complementaridade. A multifacetada glória de Deus será refletida por uma raça resgatada e recriada, também de forma multifacetada. Cada igreja deverá avaliar seu contexto e capacidade ministerial à luz da missão de Deus e formular estratégias para cumprir esta missão a partir de seu meio. Nisto estará fazendo missões. Notas 1. Ela só foi chamada de "Eva" depois da queda (Gênesis 3.20). Seu nome original é "varoa". 2. Parece-me que os naturalistas ou nudistas atuais pretendem produzir os efeitos desta verdadeira intimidade, imitando apenas a forma física dela. 3. Interessante que ela não estranha conversar com a serpente, o "diabo e Satanás",

conforme João (Apocalipse 12.9). Que classe de lugar era esse em que os seres humanos se comunicavam com os animais (ou seriam anjos?) com tamanha facilidade? Com certeza, fomos expulsos deste lugar e perdemos estes privilégios. De qualquer forma, isto representa outra dica a respeito da nossa posição original. 4. Jesus provavelmente falou em aramaico ou hebraico aos seus discípulos quando deu a ordem de fazer discípulos de todas as nações. A palavra ethne usada em Mateus 28 é a palavra usada na Septuaginta para traduzir goyyim, a palavra hebraica genérica para os gentios, todos aqueles que não fossem judeus. 5. Aliás, as descidas do Espírito Santo em Atos podem ser facilmente relacionadas à extensão etnolingüística do evangelho. Primeiro, os judeus O recebem em Atos 2, de forma imediata. Depois, os samaritanos em Atos 8, mediante a imposição de mãos pelos representantes dos apóstolos. Terceiro, os gentios recebem-nO de forma imediata ("assim como nós no princípio"). Cumprem-se, assim as palavras de Jesus: "em Jerusalém, Judéia (judeus), Samaria e até os confins da terra". Finalmente, judeus discípulos de João, o batista, o recebem — para constatar que até os judeus fiéis à antiga aliança precisam participar da nova. 6. Subentende-se, aqui, que cada cultura tem aspectos através dos quais reflete a imagem de Deus, por ser composto por pessoas que, apesar de caídas, ainda levam Sua imagem. Subentende-se, também, que cada cultura contém elementos demoníacos por ser composta por pessoas caídas, que deturpam a imagem de Deus. Finalmente, subentendese que cada cultura contém alguns elementos que nem refletem a glória de Deus nem deturpam Sua imagem, apenas existem. 7. Não estou defendendo uma contextualização sem parâmetros. Existem parâmetros claros. Infelizmente, estes são assunto de outro artigo. 8. Aqui estou definindo a adoração da forma mais ampla possível, no sentido de vidas que, na sua íntegra busquem glorificar a Deus. Bibliografía BOSCH, David J. 1991. Transforming Mission: Paradigm Shifts in Theology of Mission. Maryknoll, NY: Orbis Books. DeRIDDER, R. R. 1975. Discipling the Nations. Grand Rapids: Baker. FOH, Susan. 1975. "What is Woman’s Desire?", Westminster Theological Journal, vol. 37. Spring, 1975, ps. 376-83 apud Boice, James Montgomery. 1982. Genesis: An Expositional Commentary, vol. 1, Genesis 1.1-11.32, p. 179. HEDLUND, Roger E. 1985. The Mission of the Church in the World: A Biblical Theology. Grand Rapids: Eerdmans. KEIL, C. E. e Delitzsch, E. 1983. Commentary on the Old Testament in ten volumes. Volume One: The Pentateuch. Grand Rapids: Eerdmans

A Supremacia de Deus em Missões pelo Louvor "Há missões por não haver louvor" John Piper Artigo publicado em Mission Frontiers v. 18, nº 5-8 (May-August, 1996), 9-12. São trechos tirados do livro Let the Nations Be Glad Grand Rapids: Baker Book House, 1993- Reproduzido com permissão.) John Piper é autor de vários livros e pastor da Igreja Batista Betel em Minneapolis, Minnesota nos Estados Unidos. Missões não é o alvo final da igreja. Louvor é. Missões existem porque louvor não existe. O louvor é o auge, não missões, porque Deus é o auge, não o homem. Quando esta era terminar, e os milhões incontáveis dos redimidos se prostrarem diante do trono de Deus, missões terá terminado. É uma necessidade temporária. Mas, o louvor permanece para sempre. O louvor, portanto, é o combustível e o alvo de missões. É o alvo de missões porque em missões simplesmente tentamos trazer as nações para dentro do gozo supremo da glória de Deus. O alvo de missões é a alegria dos povos diante da grandeza de Deus. "Reina o Senhor. Regozije-se a terra, alegrem-se as muitas ilhas" (Sl 97.1—ênfase do autor, como nas citações que seguem). "Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te os povos todos. Alegrem-se e exultem as gentes, . . ." (Sl 67.3-4). Mas louvor é também o combustível de missões. Paixão por Deus no louvor precede a pregação oferecendo Deus aos outros. Não é possível recomendar aquilo que não é valorizado. Missionários nunca poderão anunciar, "Alegrem-se e exultem as gentes!" se em seus corações não exultam ". . . eu me alegrarei no Senhor" e "Alegrarme-ei e exultarei em ti; ao teu nome, ó Altíssimo e cantarei louvores" (Sl 104.34; 9.2). Missões começam e terminam em louvor. Se a busca da glória de Deus não for ordenada acima da busca do bem do homem nas suas afeições de coração e das prioridades da igreja, o homem não estará bem servido e Deus não receberá a honra devida. Não estou pedindo para diminuir a ênfase em missões, mas para magnificar a Deus. Quando a chama de louvor queimar com o calor do valor verdadeiro de Deus, a luz de missões vai brilhar até aos povos mais remotos da

terra. Como desejo ver este dia chegar! Onde há paixão fraca por Deus, o zelo para missões também estará fraco. Igrejas que não estão centradas na exaltação da majestade e beleza de Deus tampouco poderão acender um desejo fervoroso de "declarar a sua glória entre as nações" (Sl 96.3). Até pessoas de fora sentem a desigualdade entre a ênfase ousada de nossas declarações sobre as nações e a frieza de nosso relacionamento com Deus. A Acusação de Albert Einstein Charles Misner, um cientista especializado na teoria geral da relatividade, expressou que Albert Einstein provavelmente sentia ceticismo sobre a igreja com palavras que devem nos acordar para perceber como nossa experiência com Deus em louvor é superficial. O desenho do universo. . . é magnificente e não deve ser tratado com leviandade. De fato, creio que por isso Einstein não se importava com uma religião organizada, apesar do fato dele parecer ser um homem muito religioso. Ele deve ter olhado para aquilo que o pregador falava sobre Deus e ter sentido que estavam blasfemando. Ele tinha visto muito mais majestade que os pregadores tinham imaginado, e eles simplesmente não estavam se referindo a mesma coisa. Imagino que ele simplesmente sentia que as religiões com as quais tinha tido contato não demonstravam o respeito devido. . . pelo autor do universo.1 A acusação de blasfêmia é séria. O ponto é de ter um efeito forte atrás da acusação de que em nossos cultos de louvor Deus simplesmente não é comunicado como Ele é. É diminuído. Para aqueles que estão atônitos pela magnitude indescritível daquilo que Deus fez, sem mencionar a grandeza infinita dAquele que o fez, a rotina constante no domingo de pragmatismos, de "como fazer", tratamento psicológico e planejamento estratégico parecem estar dramaticamente bem longe da Realidade—o Deus de grandeza suprema. É possível estar desatento a Deus ao tentar serví-lO. Como a Marta, negligenciamos a única coisa necessária, e começamos a nos apresentar a Deus como ocupados e inquietos. A.W. Tozer nos advertiu sobre isso: "Nós freqüentemente retratamos Deus como um Pai ocupado, ansioso, um pouco frustrado em desenvolver o seu plano amoroso de trazer paz e salvação ao mundo. . . . Demasiados apelos missionários são baseados nesta frustração imaginada do Deus Onipotente." Cientistas sabem que a luz viaja na velocidade de 9,392 trilhões de kilometros num ano. Também sabem que as galáxias das quais nosso sistema solar faz parte são de mais ou menos 100.000 anos-luz em diâmetro—aproximadamente 939,2 trilhões de kilometros. É uma de aproximadamente um milhão de galáxias assim no alcance óptica dos telescópios mais poderosos. Em nossa galáxia há mais ou menos 100 bilhões de estrelas. O sol é uma delas, uma estrela modesta queimando a mais ou menos 6.000° Centígrados na superfície, e andando numa órbita de 249,44 milhas por segundo, significando que demorará 200 milhões de anos para completar uma revolução pela galáxia. Cientistas sabem destas coisas e estão espantados com elas. Eles dizem, "Se há um Deus pessoal como os cristãos dizem, quem formou este universo pela palavra, então deveria haver um certo respeito e reverência e maravilha e temor que teriam que ser comunicados quando falamos sobre Ele e quando O louvamos."

Nós, que cremos na Bíblia, sabemos isso ainda melhor do que os cientistas, porque temos ouvido algo ainda mais maravilhoso: A quem, pois, me comparareis para que eu lhe seja igual? — diz o Santo. Levantai ao alto os olhos e vede. Quem criou estas cousas? Aquele que faz sair o seu exército de estrelas, todas bem contadas, as quais ele chama pelo nome, por ser ele grande em força e forte em poder, nem uma só vem a faltar (Is 40.25-26). Cada uma dentre os bilhões de estrelas no universo está lá pela ordenação de Deus. Ele conhece seu número. E, mais estranho ainda, as conhece pelo nome. Elas fazem Sua vontade como Suas agentes pessoais. Quando sentimos o peso desta grandeza nos céus, temos apenas tocado a borda da Sua vestimenta. "Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos! Que leve sussurro temos ouvido dele!" (Jó 26.14). Por isso gritamos "Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus!" (Sl 57.5). Deus é a realidade absoluta a que todos no universo temos que chegar a aceitar. Tudo depende totalmente da Sua vontade. Todas as outras realidades se comparam com Ele como uma gota de chuva se compara ao mar, ou como um formigueiro se compara ao Monte Everest. Ignora-lO ou rebaixá-lO é uma estupidez suicida. Como ser um emissário deste grande Deus se não tiver tremido diante dEle com regozijo e admiração? A Segunda Maior Atividade no Mundo A questão mais importante em missões é a centralidade de Deus na vida da igreja. Quando pessoas não estão impactados pela grandeza de Deus, como podem ser enviadas com a mensagem vibrante, "Grande é o Senhor e mui digno de ser louvado, temível mais que todos os deuses" (Sl 96.4)? Missões não é o primeiro e o último: Deus é. E estas não são meras palavras. Esta verdade é a essência da inspiração e perseverança missionária. William Carey, o pai das missões modernas, que embarcou da Inglaterra para a Índia em 1973, expressou a conexão: Quando deixei a Inglaterra, minha esperança da conversão da Índia em muito forte; mas, entre tantos obstáculos, morreria, a não ser apoiado por Deus. Então, tenho Deus, e Sua Palavra é verdade. Mesmo se as fortes superstições dos pagãos fossem mil vezes mais fortes do que são, e o exemplo dos europeus mil vezes pior; mesmo desertado por todos e perseguido por todos, mesmo assim minha fé, fixada naquela Palavra certa, teria se erguido acima de todas as obstruções e conquistaria todas as lutas. A causa de Deus triunfará. Carey e milhares como ele têm sido movidos pela visão de um grande e triunfante Deus. Esta visão deve vir primeiro. Desfrutá-la em louvor vem antes de que espalhá-la em missões. Toda a história está indo em direção a um alvo, o louvor fervoroso a Deus e a Seu Filho entre todos os povos da terra. Missões não é o alvo. E o meio. Por esta razão é a segunda maior atividade humana no mundo. A Paixão de Deus pela Sua Pessoa é o Fundamento da Nossa Paixão por Deus Uma das coisas que Deus usa para fazer esta verdade tomar conta de uma pessoa e de uma igreja é a realização chocante que é também a verdade para Deus mesmo. Missões não é o último alvo de Deus, louvor é. Quando isto penetra no coração, tudo muda. O mundo é freqüentemente transtornado, e tudo parece diferente—inclusive o empreendimento missionário.

O último fundamento para nossa paixão de Deus ser glorificado é Sua própria paixão por Ele mesmo. Deus é central e supremo nas suas próprias afeições. Não há rivais para a supremacia da glória de Deus no seu próprio coração. Deus não é um idólatra. Ele não desobedece o primeiro e grande mandamento. Com todo seu coração, alma, força e mente Ele deleita-se na glória das Suas perfeições manifestas. O coração mais apaixonado por Deus em todo o universo é o coração de Deus. Esta verdade, mais que qualquer outra que conheço, sela a convicção que louvor é o combustível e alvo de missões. A razão mais profunda porque nossa paixão para Deus deve ser o combustível de missões é que a paixão dEle para Ele é o combustível. Missões é o transbordar da nossa alegria em Deus porque missões é o transbordar do deleite em Deus em ser Deus. E a razão porque o louvor é o alvo em missões é que é o alvo de Deus. Nós somos confirmados neste alvo pelo registro bíblico da busca implacável de louvor entre as nações. "Louvai ao Senhor, vós todos os gentios, louvai-o, todos os povos" (Sl 117.1). Se é o alvo de Deus, deve ser nosso alvo. O Fim Supremo e Principal de Deus É de Glorificar a Deus e Gozá-lO para Sempre Todos os anos de pregação e ensino sobre a supremacia de Deus no coração de Deus têm provado que esta verdade tem um impacto sobre as pessoas como um caminhão carregado com fruta desconhecida. Se sobreviverem ao impacto, descobrem que é a fruta mais deliciosa no planeta. Tenho explicado esta verdade com argumentos extensos em outros lugares. Então aqui vou apenas dar uma visão geral sobre a sua base bíblica. O que estou dizendo é que a resposta da primeira pergunta da Confissão de Westminster é a mesma para Deus do que é para os homens. A pergunta: "Qual é ao fim supremo e principal do homem?" Resposta: "O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lO para sempre." É a mesma coisa para Deus. Uma outra maneira de falar isso é simplesmente dizer que Deus é justo. O oposto da justiça é valorizar e gozar o que não é de valor ou recompensador. Por isso as pessoas são chamadas injustas em Romanos 1.18. Eles detém a verdade do valor de Deus e trocam Deus por coisas criadas. Rebaixam Deus e dão descrédito ao Seu valor. Justiça é o oposto. Significa reconhecer o verdadeiro valor que tem e estimá-lO e goza-lO em proporção ao seu valor verdadeiro. Os injustos em 2 Tessalonicenses 2.10 perecem porque recusam amar a verdade. Os justos, então, são aqueles que amam a verdade. Justiça é reconhecer, abraçar, amar e apoiar aquilo que é verdadeiramente valioso. Deus é justo. Isto significa que Ele reconhece, abraça, ama e apóia com ciúmes infinitos e energia o que é infinitamente valioso, isto é, o valor dEle mesmo. A justa paixão e alegria de Deus é demonstrar e apoiar Sua infinitamente valiosa glória. Não é uma conjetura teológica vaga. Flui inevitavelmente de dezenas de textos bíblicos que mostram Deus na Sua busca constante de louvor e honra desde a criação até a consumação. Provavelmente não há um texto na Bíblia que revela mais a paixão de Deus para Sua própria glória do que Isaías 48.9-11 onde Deus disse: Por amor do meu nome, retardarei a minha ira e por causa da minha honra me conterei para contigo, para que te não venha a exterminar. Eis que te acrisolei, mas disso não resultou prata; provei-te na fornalha da aflição. Por amor de mim, por amor de mim, é que faço isto; porque como seria profanado o meu nome" A minha glória, não a dou a outrem.

Tenho descoberto que para muitas pessoas estas palavras parecem como marteladas para uma visão humanista do mundo: Por amor do meu nome! Por causa da minha honra! Por amor de mim! Como seria profanado o meu nome? Minha glória não a dou a outrem! O que este texto enfatiza para nós é a centralidade de Deus nas Suas próprias afeições. O coração mais apaixonado pela glorificação de Deus é o coração de Deus. O alvo maior de Deus e sustentar e demonstrar a glória do Seu nome. "Por Amor ao Seu Nome Entre Todas as Nações" O Apóstolo Paulo deixa muito claro em Romanos 1.5 que sua missão e chamado são para o nome de Cristo entre as nações: "Por intermédio de quem viemos a receber graça e apostolado por amor do seu nome, para a obediência por fé, entre todos os gentios. O Apóstolo João descreve a motivação dos missionários cristãos da sua época na mesma maneira. Escreveu a uma das suas igrejas que enviassem os irmãos duma maneira "digna de Deus". E a razão que deu foi que "os quais, perante a igreja, deram testemunho do teu amor. Bem farás encaminhando-os em sua jornada por modo digno de Deus; pois por causa do Nome foi que saíram, nada recebendo dos gentios" (3 João 6-7). John Stott comenta nestes dois textos (Romanos 1.5 e João 7): "Eles sabiam que Deus tinha superexaltado Jesus, entronizando-O à Sua direita e dando a Ele a maior posição, para que toda língua confessasse o Seu senhorio. Eles desejavam muito que Jesus recebesse a honra devida ao Seu nome." Este desejo ardente não é um sonho, mas uma realidade. No final, quando tudo mais tiver desaparecido, ficaremos firmes nesta grande realidade: o eterno, plenamente suficiente Deus é infinitamente e eternamente comprometido com a glória do Seu grande e santo nome. Por amor desta fama entre as nações ele agirá. O Seu nome não será profanado para sempre. A missão da igreja será vitoriosa. Ele vindicará Seu povo e Sua causa em toda a terra. Andrew Murray falou sobre a fraqueza da igreja em fazer missões cem anos atrás: Quando tentamos descobrir porque, com tantos milhões de cristãos, o exército que realmente está batalhando com as hostes das trevas é tão pequeno, a única resposta pode ser—falta de coração. O entusiasmo está faltando. A razão disto é porque há tanta falta de entusiasmo pelo Rei! O zelo da igreja para a glória do seu Rei não surgirá até que pastores, líderes de missões e professores de seminários dão muito mais importância ao Rei. Quando a glória de Deus satura nossa pregação, ensino, conversação e escritos, e quando Ele predomina sobre nossa fala de métodos, estratégias, chavões psicológicos e tendências culturais, então o povo pode começar a sentir que Ele é a realidade central das suas vidas e que o espalhar da Sua glória é mais importante que todas as suas possessões e todos os seus planos. A Chamada de Deus Deus está nos chamando acima de tudo para ser o tipo de pessoa cujo tema e paixão é a supremacia de Deus em toda nossa vida. Ninguém vai poder atender a grandeza da causa missionária sem sentir a grandeza de Deus. Não haverá uma grande

visão do mundo se não houver um grande Deus. Não haverá uma paixão de chamar outros para nosso louvor onde não houver paixão pelo louvor. Deus está perseguindo com paixão onipotente um propósito mundial de trazer adoradores alegres para Ele de todas as tribos, línguas, povos e nações. Ele tem um entusiasmo incansável pela a supremacia do Seu nome entre as nações. Portanto, vamos sintonizar as nossas afeições com as Suas, e, por amor ao Seu nome, vamos renunciar a busca de confortos deste mundo e nos juntar ao Seu propósito global. Se fizermos isso, o compromisso onipotente de Deus para com seu nome será sobre nós como uma bandeira, e não seremos derrotados, apesar de muitas tribulações (Atos 9.16; Romanos 8.35-39). Missões não é o alvo último da igreja. Louvor é. Missões existe porque louvor não existe. A Grande Comissão é primeiro deleitar-se no Senhor (Sl 37.4), e depois declarar, "Alegrem-se e exultem as gentes. . ." (Sl 67.4). Desta maneira Deus será glorificado desde o início até ao fim e o louvor dará o poder para missões até a volta do Senhor. E entoavam o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro, dizendo: "Grande e admiráveis são as tuas obras, Senhor Deus, Todo poderoso! Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei das nações! Quem não temerá e não glorificará o teu nome, ó Senhor? Pois só tu és santo; por isso, todas as nações virão e adorarão diante de ti, porque os teus atos de justiça se fizeram manifestos." Notas 1. Fontes de citações não foram incluídos no artigo original.

RESENHAS Govêa Mendonça, Antônio e Velasques Filho. Introdução ao Protestantismo no Brasil São Paulo: Edições Loyola, 1990. 279p. Resenha por Donald E. Price, Professor Titular de Missões na Faculdade Teológica de São Paulo Na contracapa de Introdução ao Protestantismo, os editores declaram: É salutar e sintomático que uma editora católica se tenha disposto a publicar uma obra protestante. Não se trata de uma obra ao estilo dos antigos debates, nem de uma obra apologética, é certo. Os autores de Introdução ao Protestantismo no Brasil procuram dar ao leitor uma visão crítica do protestantismo brasileiro, a partir de sua experiência eclesial. De fato, o título dá a impressão que Introdução ao Protestantismo fará uma apresentação objetiva da história e das características das igrejas protestantes do Brasil. A única dica que o leitor tem da verdadeira natureza do livro se encontra nas palavras dos editores na contracapa: "Não se trata. . . de uma obra apologética. Os autores. . . procuram dar ao leitor uma visão crítica do protestantismo brasileiro. . ." Gouvêa e Velasques conseguem dar esta visão crítica ao leitor, tão crítica que acabam polemizando contra a grande maioria dos protestantes brasileiros. Ao contrário de realizar uma análise histórica (apesar de citarem Reilly) ou social, fazem uma crítica ideológica do fenômeno protestante no Brasil. Todos os ramos do protestantismo no Brasil são desclassificados como sendo infiéis à Reforma, imposições colonialistas anglo-saxônicas (portanto descontextualizadas). Chegam a chamar isso de "capitalismo teológico internacional" (p. 203), adoradores de um "Cristo docético, e portanto ausente. . ." (268). Os únicos protestantes não passíveis de tal condenação são os protestantes de imigração, notavelmente os luteranos, e as alas progressistas das demais igrejas. Daí a crítica ideológica. Para os autores, tanto o protestantismo de origem missionária (as igrejas chamadas tradicionais, com a exceção da luterana) quanto as igrejas pentecostais, todos denominados "evangélicos" por eles, receberam seu protestantismo mediado pelos reavivamentos ocorridos nos Estados Unidos no último século, com sua ênfase na experiência de conversão, sendo que os pentecostais são os verdadeiros herdeiros dos movimentos avivamentistas. Estes "evangelicais", que preferem ser denominados "evangélicos", seriam "racistas confissionais", ou seja, fundamentalistas. Sua fé é por demais racionalista, maniqueísta, ahistórica e alienadora do social. Suas comunidades são conventículos que transformam seus fiéis em "monges seculares". Ou seja, os protestantes não têm influência sobre a sociedade brasileira, em primeiro lugar, por sua infidelidade à fé cristã, se é que podem ser chamados de "cristãos" (131) e, segundo, porque não dão a mínima para a sociedade. "A mentalidade protestante é isolacionista e anticultura, antipolítica e passiva sob o ponto de vista religioso. Daí sua ausência da cultura" (143). Certamente, a primeira crítica tem sido tema de diversos debates teológicos ao longo dos anos. Os próprios evangélicos afirmam ser os herdeiros da reforma. Menciono

apenas dois livros, para início da pesquisa: 1) James Montgomery Boice, 1978, O Alicerce da Autoridade Bíblica, São Paulo, Edições Vida Nova e 2) John D. Woodbridge, 1982, Biblical Authority: A Critique of the Rogers/McKin Proposal, Grand Rapids, Zondervan. O último é interessante pelo fato que Gouvêa e Velasques seguem a linha da "proposta Rogers/McKim" em suas críticas ao "fundamentalismo". Quanto à segunda crítica, é digno de nota que, pouco depois da publicação de Introdução, John Burdick realizou uma pesquisa pós-doutoral, comparando o engajamento social entre as Comunidades Eclesiais de Base, os Centros de Umbanda e as Assembléias de Deus na Baixada Fluminense. Publicou seus resultados em Looking for God in Brasil: the Progressive Catholic Church in Urban Brazil's Religious Arena (Berkley, University of California Press, 1993). Sendo da ala progressista da Igreja Católica, professor Burdick esperava ver maior engajamento social entre os católicos das CEB s. Infelizmente, os fatos não sustentaram este preconceito. Pelo contrário, este autor concluiu que os que ofereciam maiores chances para efetuarem mudanças estruturais na sociedade brasileira eram os crentes da Assembléia de Deus! Qual o valor desta Introdução ao Protestantismo no Brasil, então? Em primeiro lugar, a tipografia do protestantismo brasileiro, dividindo os protestantes entre igrejas de imigração, de origem missionária, igrejas pentecostais e de cura divina é de extrema utilidade para o estudante do fenômeno protestante no Brasil. Segundo, seria interessante continuar o estudo social deles e de Burdick, procurando entender quais os fatores da fé protestante e quais os da cultura brasileira que permitiram que as igrejas evangélicas achassem tamanha receptividade pelo povo brasileiro. Neste sentido, a tese de Gouvêa e Velasques de que o protestantismo brasileiro representa a implantação de uma fé avivamentalista (chegam a apontar "o feliz casamento da retórica tradicional brasileira com a retórica sacra dos reavivamentos", p. 189) com ênfase na experiência pessoal e emocional de Deus, pode indicar o caminho a seguir. George, Timothy. Vida e Missão de William Carey. São Paulo: Edições Vida Nova, 1997. Resenha por Terri Williams, Professora Titular do Departamento de História Eclesiástica na Faculdade Teológica de São Paulo Testemunha Fiel é mais do que uma biografia de um grande missionário batista renomado pelo seu compromisso com a evangelização mundial, contextualização, tradução da Bíblia e compaixão pelos necessitados. Também detalha os fundamentos do movimento missionário moderno protestante. Como um pobre sapateiro, sem muito estudo, pôde chegar ao ponto decisivo de despertar as missões protestantes? Esta é uma das perguntas chaves de Testemunha Fiel. George a responde olhando para a vida de Carey tanto do ponto de vista biográfico como missiológico. O livro aborda a infância e adolescência, a conversão, e os início da sua visão de evangelização mundial. O autor conduz o leitor através dos grandes obstáculos, mesmo no início do trabalho missionário de Carey. Ele não tinha preparo acadêmico adequado, mas superou isto pessoalmente com muita leitura, estudo, oração e prática ministerial. Os protestantes (e batistas) não tinham compromisso com a evangelização do mundo, em parte devido a uma teologia hipercalvinista. O autor descreve importantes mudanças ocorridas devido ao movimento de oração entre igrejas batistas, influenciadas

por Jonathan Edwards e a própria contribuição chave de Carey: Uma Inquirição da Obrigação dos Cristãos em Usar Meios para a Conversão dos Pagãos (uma versão abreviada do original). A Inquirição (incluída como apêndice ao livro, fazendo-o mais valioso ainda) é de tão fácil leitura como há dois séculos atrás, e responde algumas objeções fundamentais à missões transculturais. Muitas objeções citadas continuam sendo levantadas hoje. Assim, as respostas de Carey são ainda relevantes e poderosas. Mais importante ainda é o plano de ação que Carey deixa para nós. O significado deste plano é demonstrado pelo fato que o seu centro, a sociedade missionária, continua ser a base estrutural para missões protestantes modernas. Podíamos pensar se missões protestantes teriam se desenvolvidas sem este elemento crucial. Mas o plano é apenas um dos elementos na importância de Carey para missões modernas. A maior parte do livro Testemunha Fiel lida com a parte pessoal dele em por o plano em ação. Nos mostra o incentivo de Carey em estabelecer a primeira sociedade missionária, seu compromisso pessoal ao se tornar, ele mesmo, um missionário, e suas lutas para chegar na Índia e começar um ministério ali. Mostra também o compromisso de Carey em evangelizar pela pregação, tradução da Bíblia e educação. Podemos ver tudo isso na sua ênfase na contextualização e compaixão pelos necessitados. O autor também nos mostra a vida pessoal de Carey. É aqui que todos os cristãos, e especialmente aqueles que estão no ministério e missões, vão achar uma ajuda valiosa. O leitor vive com Carey suas lutas, fraquezas e tristezas, como por exemplo: a morte de três filhos, a doença mental da sua esposa, doenças graves com risco de vida, o desprezo de colegas e de sua sociedade missionário, pobreza extrema, solidão profunda, e longas épocas de ministério sem frutos visíveis. Podemos ver o que sustentou Carey através destas lutas. Primeiro, a fidelidade absoluta de Deus. Aquele que chama não abandona. Porém podemos ver também a fé, compromisso, trabalho duro e humildade de Carey. Este é um livro para os interessados no desenvolvimento de missões cristãs. É um livro para os que querem aprender sobre um dos grandes missionários cristãos. Mas, é também um livro para todos os cristãos que desejam saber como superar desafios, lutas e tristezas, mantendo-se testemunha fiel e, talvez, no processo transformar o mundo. Timothy George escreveu uma biografia que pode transformar a sua vida. Não deixe passar esta oportunidade! Kroker, Valdemar. "O que Meno Simons diria da nossa prática missionária?" Vox Scripturae AETAL.Volume VII, Número 1 - junho de 1997, página 63. Resenha por Reverendo Jair Pintor, 2o Secretário da APMB, Vice Presidente da AETAL Brasil e Diretor Acadêmico do Instituto Bíblico Brasileiro (IBB). Este é um artigo muito interessante que levanta um pouco o que foi praticado pelos anabatistas pelos idos do século XVI. O pastor Valdemar Kroker faz uma tentativa de leitura entre a prática cristã dos pais anabatistas com a prática dos menonitas deste século. Essa tentativa está fundamentada na hipótese daquilo que um dos maiores líderes anabatistas, Meno Simons, diria se estivesse hoje numa conferência missionária, talvez. Pr. Valdemar faz um resumo histórico da vida de Simons e discorre em seguida

pelos pontos chaves que dariam possibilidades de reflexão entre a fé prática daquele contexto e do nosso. Assim o articulista fala da não conformação dos primeiros anabatistas com tudo aquilo que estava além da linha de suas crenças, com as marcas fortes do arrependimento e do batismo como selo de fé e com a forte convicção sobre a doutrina escatológica. Por essa razão aqueles crentes firmavam-se na ordem dada para o testemunho de Jesus, na obediência a essa ordem e na formação da igreja livre do Estado. Pr. Valdemar destaca, então, que a vida cristã pratica estava firmada na crença do sacerdócio de todos os crentes e que cada um devia exercer o seu papel como "testemunha" do evangelho. Isso difere muito em nossos dias, declara o articulista. A linha da não conformação é tênue e pouca ênfase é dada sobre arrependimento pessoal. Como conseqüência a nossa estratégia missionária, segundo o Pr. Valedemar, está estruturada mais no envio de missionários para campos "não alcançados" que propriamente na participação de todos os crentes na tarefa de testemunhar sobre o evangelho da graça. Além disso, escreve o articulista, a mentalidade dos irmãos sobre a tarefa de alcançar "Jerusalém" tem mudado para uma perspectiva de que ela pertence ao pastor ou a uma liderança da igreja. Isso não consta do modelo anabatista primitivo, pois aqueles irmãos testificavam de Cristo até com o preço de suas vidas. Pr. Valdemar chega então ao ponto de tratar da questão sobre "o que Meno Simons diria"? Parece que segundo o articulista Meno não teria muito a dizer mas muito a perguntar. Ficaria admirado com tantos menonitas em várias partes do mundo, mas, por outro lado não entenderia tantas outras coisas. Assim o Pr. Valdemar termina seu artigo supondo o que Meno e os anabatistas primitivos diriam aos do século presente. Eles diriam que torna-se necessário um reavivamento genuíno, uma compreensão nova sobre a igreja, uma compreensão nova sobre a missão de todos os crentes, uma compreensão verdadeira sobre reconhecimento de pecado e sobre o arrependimento e uma posição genuína sobre a volta de Cristo. Parabéns ao Pr. Valdemar e à Revista Vox Scripturae. Vale a pena ler esse artigo, pois certamente nos trará à memória tantas coisas boas sobre a fibra dos antigos e sobre sua fé vibrante. Servirá, também, para nos conduzir a uma boa reflexão sobre nossas estratégias sobre missões transculturais.

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