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Aulas de Educação Física com adolescentes em conflito com a lei Willian Lazaretti da Conceição1 Resumo Este estudo apresenta uma experiência de intervenção com adolescentes em privação de liberdade em aulas de Educação Física. O objetivo central da pesquisa diz respeito a necessidade de mudança no que se refere à prática pedagógica, considerando a baixa participação dos adolescentes na Educação Física escolar, buscando, através da citada intervenção, a realização de planejamento participativo a partir do diálogo sobre o bloco temático de conteúdo “elementos culturais do movimento humano”, o qual envolve: jogo e brincadeira; esporte, luta e capoeira; dança; ginástica e circo; atividades da vida diária. Como procedimentos metodológicos utilizamos registro sistemático das observações em diários de campo e posterior formação de categorias temáticas para análise dos dados. Nos resultados, foram formadas as seguintes categorias temáticas: A) participação/envolvimento dos adolescentes nas aulas e B) relação professor-aluno. Percebemos que logo após a apresentação do citado bloco temático aos adolescentes escolheram o elemento cultural esporte, a modalidade coletiva futsal, acompanhado de jogos para desenvolver no decorrer de um bimestre. No desenvolvimento da prática pedagógica ao longo do bimestre desta intervenção, discutimos questões referentes às condutas, de modo a significar o que fazíamos observando maior participação e envolvimento discente nas aulas. Nas considerações além de conhecermos e reconhecermos o saber prévio destes alunos, percebemos um maior envolvimento dos alunos, particularmente devido aos mesmos compreenderem o sentido e a intenção de aprender o conteúdo acordado no planejamento participativo e um relacionamento respeitoso entre professor e alunos. Palavras-chave: Educação Física escolar; Adolescentes; Privação de Liberdade; Pedagogia Dialógica. Abstract This study presents an intervention with teenagers with deprivation of liberty in Physical Education classes. The central objective of the research concerns the need for change in terms of pedagogical practice, considering the low participation of adolescents in Physical Education classes. This concern justifies the proposed intervention, which aims the implementation of participatory planning based on dialogues on the thematic content session "cultural elements of human movement", which includes: game and play; sports, martial arts and capoeira; dance; gymnastics and circus activities; activities of daily life. The used methodological procedures involve systematic record of the observations in field diaries and subsequent formation of thematic categories for data analysis. In the results, the following themes were formed: A) participation/involvement of teenagers in the classroom and B) teacher-student relationship. We noticed that right after the presentation of the thematic content session the teenagers chose the cultural element “sport”, more specifically, the team sport “indoor soccer”, as well as games to be developed during a two month period. In the development of the pedagogical practice during the two months of the intervention, we discussed issues related to guidance, to give meaning to what we were
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Trabalho desenvolvido junto ao Mestrado em Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) sob orientação do Prof. Dr. Luiz Gonçalves Junior. E-mail: willianlazaretti@yahoo.com.br .

no processo de ensino e de aprendizagem não é possível a utilização de repertórios técnicos (CONTRERAS DOMINGO.66): “. pressões ou contingências socioeconômicas. podem contribuir à continuidade da presença dos adolescentes na escola os educadores. Fazendo-se . 1996. segundo o artigo 103 do ECA. De acordo com estudo realizado por Gallo e Williams (2008). mudança de cidade. assim citamos Freire (1996. considerado inimputável. p. gravidez e doença. trabalho. we perceived a greater involvement by them. 2008). Dialogical Pedagogy. Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). e que na “. toda e qualquer pessoa entre 12 e 18 anos.. por necessidades tidas como mais urgentes que o estudo. and we observed an increased participation and student involvement in class.. o momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática.2 doing. as well as the respectful relationship between the teacher and the students. grande parte dos adolescentes em conflito com a lei não frequentavam a escola. deprivation of Liberty. instáveis. e de certo.. In the considerations. e define-se ato infracional a conduta descrita como crime ou contravenção penal.. Desse modo podemos relacionar ao processo do ensino reflexivo que trata de como os professores atuam sobre as situações que são incertas. ou seja. in addition to knowing and recognizing the previous knowledge of these students. No entanto. teenagers.o respeito à autonomia e dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder aos outros. são aplicadas medidas socioeducativas que variam desde advertência até internação em estabelecimento educacional (BRASIL.na formação permanente dos professores. cujo motivo alegado era o desinteresse causado pelas dificuldades que as escolas apresentam para manter tais alunos nas salas de aula. particularly due to their understanding of the meaning and the intention of learning the contents commonly chosen in the participatory planning.. As demais justificativas estavam associadas ao uso de drogas. Introdução Neste estudo observamos a participação e envolvimento discente nas aulas Educação Física no contexto da privação de liberdade. singulares e nas quais há conflito de valor. em muitos casos esse fator é determinante para alguns adolescentes entrarem em conflito com a lei. 2002). deixaram precocemente o ambiente escolar.. p. no Brasil..”. considera-se adolescente. Ao adolescente autor de ato infracional.43).. Key Words: Physical Education classes. Muitos adolescentes que cumprem esta medida socioeducativa fazem parte da massa de jovens que não tiveram possibilidades de estudar de forma regular.” (FREIRE.

dança. possibilitando ao professor verificar os pontos positivos e negativos de sua própria prática pedagógica. teorias da ação e as teorias em uso. a que mais me chamou a atenção é o conceito de “Menor”. atividades da vida diária. esporte. a realização de planejamento participativo a partir do diálogo sobre o bloco temático de conteúdo “elementos culturais do movimento humano”. 2007).29). Refletindo o processo de ensino reflexivo. quando pais não têm condições de obter . até mesmo por parte dos próprios adolescentes. suas teorias da ação – aquelas que fundamentam o que se quer ou o que se deve fazer no caso de propostas pedagógicas curriculares – e suas teorias em uso – aquelas que são aplicadas no dia-a-dia. luta e capoeira.3 necessário a reflexão antes. ginástica e circo. NOGUCHI. Até hoje comumente ouvimos o termo menor. Para Tsangaridou e O’sullivan (2003) temos duas variáveis: as intenções e as ações dos professores. de modo a subsidiar caminhos metodológicos para o professor melhorar sua prática pedagógica por meio da reflexão. podemos afirmar que uma teoria complementa a outra. O objetivo central da pesquisa diz respeito a necessidade de mudança no que se refere à prática pedagógica. através da citada intervenção. sendo menor aquele que vive a margem da sociedade. tais como: a criança não ter a presença paterna. PEREIRA. De acordo com Passetti (1986) existe um modelo de família organizada. Mas assim como há famílias organizadas. Adolescente e resiliência Analisando alguns trabalhos já realizados sobre adolescentes que cumprem medidas socioeducativas (ANDRADE. a questão dentre as nomenclaturas já utilizadas para referenciar ao adolescente em conflito com a lei. possibilitando ao professor refletir sobre o que fará. com boa renda financeira e que terão condições de boa formação educacional e profissional”. 2006. os professores e os mais velhos e se possível seguir os passos dos que se consideram realizados. durante e após a ação. p. 1997. o qual envolve: jogo e brincadeira. o autor afirma que há famílias desorganizadas. advindo das famílias de classe baixa. considerando a baixa participação dos adolescentes na Educação Física escolar. na qual o certo é respeitar os pais. “a história do atendimento à infância e adolescência no Brasil mostra que criança e adolescente são as de famílias estruturadas. pensar o que está fazendo e posteriormente sobre o que se pensou e sobre o que realmente fez. na qual algumas situações são comuns. buscando. De acordo com Andrade (1997.

assim a proposta de se executar a medida socioeducativa de recuperação. uma vez que. geralmente estão acompanhadas de tensão. a figura da mãe solteira deixa de ser um absurdo para a sociedade. estresse. ajuda no controle da ansiedade. ter uma consciência crítica. assim. outrora considerada quase que exclusivamente quando havia um homem (o pai. Para Tavares e col. Os adolescentes que podem ser considerados resilientes. Atualmente o termo resiliência vem sendo estudado por diversas áreas do conhecimento. Partimos do princípio de reconhecer a capacidade resiliente que todo ser humano tem para sair e superar as adversidades. também conhecida como reeducação para adolescente que tem cometido um ato infracional (MONDRAGON. (2002) a resiliência pode estar atrelada a capacidade de autoanálise. ou seja. ansiedade e situações traumáticas que afetam as pessoas durante a vida. ele se tornou um conceito fundamental. Na sociedade atual são comuns outras estruturas familiares. principalmente nos trabalhos relacionados a populações em situação de risco social. 2007). colocando como primordial a capacidade que o ser humano deve ter de resistir. conseguir compreender. Na psicologia. pois pretende-se investigar como algumas crianças. ser realista e otimista apesar de dificuldades e conflitos. Então. Em estudo realizado por Conceição e col. são os que por força de vontade própria e pelo trabalho conseguirem superar as infelicidades de terem nascidos em famílias socialmente consideradas “desorganizadas”. 2006). Pode-se tratar de uma reorganização da estrutura familiar. e para que isso aconteça acreditamos ser necessário que este indivíduo se conheça. o . Como em muitos casos a família inexiste. mesmo vivendo em ambientes hostis. uma mulher (a esposa e mãe) e o(s) filho(s). após reflexão sobre os benefícios que as práticas corporais alternativas podem trazer. tido como chefe ou provedor da família). Destacamos que algumas características que estão presentes nos processos de resiliência. do estresse e alívio de tensão. conseguem superar as dificuldades e apresentar padrões adaptados de normalidade. persistir e analisar criticamente tudo o que se passa consigo. sociabilidade que comumente são realizadas num ambiente familiar. a criança dificilmente será capaz de compreender relações de respeito. (2009) foi analisada a relação da Educação Física. e tem diminuído o preconceito e/ou a discriminação. mais precisamente das práticas corporais alternativas com a resiliência.4 seus meios de subsistência pelo trabalho e vivem nas ruas ou nas periferias das cidades. concluímos que é uma estratégia pertinente para as pessoas utilizarem na possibilidade de tornarem-se resilientes. enfim. Estas crianças podem ser chamadas de resilientes (DELL’AGLIO e col. manter laços afetivos com as pessoas. enfrentar e superar os problemas.

interação com o ambiente precisam ser consideradas. forma saber. p. os perigos. mas diferenciam-se pelo fato de alguns conseguirem superar as crises e outros não.5 autoconhecimento. adolescentes provenientes de famílias organizadas e estruturadas culturalmente. caberá ao próprio adolescente analisar e refletir sobre o que acredita ser mais coerente para a sua vida. que fazem parte do indivíduo que pode ser chamado de invulnerável ou resiliente. O ambiente da Fundação CASA é propício para o aprendizado. as competências. 2003. estando disponíveis ao diálogo com os filhos. principalmente daqueles submetidos a relações de opressão. produz coisas. opressão e/ou discriminação” (VASCONCELOS. acreditando que terá oportunidades na vida. induz prazer. segundo ele devemos .11). pois terá aprendido algo com tais situações. aspectos sociais e econômicos. Neste sentido Pinheiro (2004) ressalva que as características pessoais tais como o sexo. ou seja. e. que a família é competente e demonstram afeto. dominação e discriminação social. as ameaças. portanto apresenta boas expectativas com o futuro. é uma balança equilibrada onde de um lado estão presentes os eventos estressantes. trata-se de uma “perspectiva de fortalecimento do poder pessoal e coletivo de pessoas ou grupos submetidos a longo processo de dor. o temperamento. Outro conceito que podemos relacionar neste estudo é o “empowerment” ou empoderamento. produz discurso. pois podemos visualizar condutas consideradas corretas e também as consideradas incorretas. o sucesso e a capacidade de reação e enfrentamento. o que o caracterizará resiliente. a consciência profunda de si mesmo. O resiliente possui autoconfiança. De acordo com Trombeta e Guzzo (2002). utilizando condições internas para o próprio progresso e desenvolvimento. Nesta relação Foucault (2008) questiona o poder como algo somente repressivo. Sendo o aumento de poder e autonomia pessoal e coletiva de indivíduos e grupos sociais nas relações interpessoais e institucionais. as forças. ultrapassando as barreiras negativas e incomodas que fazem parte do viver. às vezes até por meio de diálogo com algum funcionário. Estes adolescentes apresentam semelhanças em suas trajetórias de vida. traços de personalidade. bem como os relacionamentos com familiares e amigos. o autor afirma que o que faz com que o poder se mantenha e seja aceito é que ele permeia. o sofrimento e as condições adversas que levam à vulnerabilidade. Este indivíduo enfrentará as intempéries da vida. Assim De Antoni e Koller (2000) declaram que os adolescentes denominados resilientes vêm de casas onde as regras são consistentes. do outro.

Assim a positividade do poder encontra-se na possibilidade de que existem coisas que são construídas a partir da organização que o poder impõe. importa que suas mais detalhadas atividades sejam geridas. assuntos e conteúdos eles demonstravam interesse e assim fomos organizando o nosso planejamento bimestral. ou mais especificamente. mas de efetivamente aumentar a utilidade dos indivíduos. alguns que se dizem ou são intitulados como “adolescentes que ficam na postura2” e assim em alguns momentos conseguem exercer poder sobre os demais adolescentes que estão sem postura adequada. mas para adestrá-lo. 2008). Buscando uma aproximação com a perspectiva Freireana de educar na Educação Física O planejamento realizado com uma aproximação da pedagogia dialógica de Freire (1985. optamos por fazer a cada bimestre. sendo mais que uma instância negativa que tem por função reprimir. mover e articular com os outros. Para Foucault (2008) o corpo singular torna-se um elemento. ao corpo do sujeito. torná-lo dócil e útil para a sociedade (FOUCAULT. De acordo com Gonçalves Junior (2009) a investigação temática é um processo que visa identificar aspectos além do que já conhece o que pensa sobre o mundo. possibilitou uma compreensão das reais intenções dos alunos no que tange a escolha dos elementos culturais que tinham interesse em vivenciar. para fazer com que se tornem sempre mais úteis. Ao invés disso. e qual assunto lhe é mais interessante. não essencialmente para reprimi-lo. Explicar o poder apenas a partir de sua função repressiva significa omitir da análise seu âmago. . Os internos estabelecem esta relação por meio de condutas. Ao poder não interessa a simples repressão e dominação dos homens. Possibilitando 2 Ter postura é ter bom comportamento perante as regras do convívio em internação e respeito aos demais. 1996. pois o sistema de ensino é semestral e considerando que a todo instante entram e saem adolescentes. pois se pode colocar. Questionei os mesmos sobre quais temas. 2005). não apenas a função de eliminar os desvios. sua essência. cabe à autodisciplina.6 considerá-lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social. A eficácia produtiva do poder volta-se para o sujeito. Afirma que a coragem e força são os aspectos que definem o lugar que ele ocupa. sendo passível de mudanças. assim podemos discutir um tema gerador.

serventes da escola e comunidade em geral. com o Absoluto. alunos. De acordo com Freire (1996. Ramos e Couto (2003) e Kunz (2004). pois a promoção da ingenuidade para a criticidade é tarefa da prática educativa progressista. pois o mesmo pensou e praticou um método pedagógico que procura dar ao ser humano a oportunidade de redescobrir-se/readmirar-se através da retomada reflexiva do próprio processo em que vai se descobrindo/admirando. p. 1996).. De acordo com Gonçalves Junior. Ramos e Couto (2003) uma educação embasada na fenomenologia. reproduzir. é quando existe a troca de conhecimentos e informações entre todos os envolvidos no processo educacional. É a superação do modelo tradicional de ensino. esse exercício educativo é substancialmente formar e essa formação do educando é também moral. pois fazem. Escolhemos a fundamentação teórica de Paulo Freire. considerando que o professor não é detentor de todo conhecimento e muito menos da verdade absoluta. ou seja. p.7 um aprendizado onde o conhecimento é construído no coletivo. Segundo Sérgio (1995. podemos perceber esse método de ensino na prática pedagógica de alguns professores. . proposições específicas para a Educação Física escolar que muito se aproximam da perspectiva dialógica de Paulo Freire. Na Educação Física. no qual o professor é o detentor de todo o conhecimento e o aluno apenas reproduziria os conhecimentos transmitidos.. professores. mas sim porque tem como base a perspectiva fenomenológica. criar. que não é possível pensar longe ou fora dessas dimensões.52) “. insatisfeita e indócil. transformar e comunicar. sejam pais.. a motricidade humana significa que o ser humano é fundamentalmente relação com o Outro.” Essa semelhança com as idéias de Paulo Freire não é mera coincidência.discutir com os alunos a razão de ser de alguns desses saberes em relação com o ensino dos conteúdos..33) “.” E a partir disso despertar a curiosidade humana. que é histórica e socialmente construída e reconstruída. desenvolvendo a curiosidade crítica. Para fundamentar essa discussão sobre fenomenologia e Educação Física escolar. a partir do referencial fenomenológico-existencial. Não esquecendo que a ética e a estética estão presentes nos seres humanos. manifestando e configurando método de conscientização (FREIRE. utilizaremos Gonçalves Junior. que acreditam ser um modelo adequado a reprodução fiel dos movimentos que o professor executa ou que às vezes pede a um aluno com melhor destreza motora realizar. estabelecer relações com o mundo. Assim o adolescente como ser histórico será capaz de decidir. com o Mundo.

não deve reduzir a prática pedagógica à transmissão da cultura do saber do Esporte Moderno no seu sentido técnico. em manifestações culturais.8 Kunz (2004) corrobora dizendo que é mais importante o aluno aprender a ler e escrever a realidade. para nele serem realmente reconhecidos como Sujeitos (KUNZ.. identificar as mudanças ou permanências de padrões estéticos e cinestésicos em diferentes contextos históricos e sociais. Para desenvolver estas habilidades utilizamos uma proposta de integração entre o Se–Movimentar (BETTI e col. comparar manifestações estéticas e/ou cinestésicas em diferentes contextos. Nesta perspectiva há necessidade de uma reflexão crítica sobre a prática educativa. As habilidades de Educação Física estabelecidas para o ensino fundamental de acordo com o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos ENCCEJA (BRASIL. 2008) e uma aproximação com a pedagogia dialógica de Paulo Freire. através de alguns questionamentos feitos pelo educador e também pelos demais alunos. posicionar-se.. Trata-se de desenvolver ações conjuntas de Professores e alunos. criticamente.. destrezas motoras. (2007. p. 2007). elementos históricos e sociais. p. De acordo com Betti e col. para que a teoria não se torne apenas discurso e a prática um ativismo ou reprodução alienada. Trata-se de resgatar o Sujeito na relação dialógica com o Mundo. ser capaz de perceber.é o movimento que confere ao corpo próprio sua dimensão de temporalidade e transcendência. compreender e mudar a realidade.. 2002) são: identificar. pelo SeMovimentar.149). 2004. nas diferentes manifestações culturais. com vistas à transformação do Mundo Vivido e respectivo mundo do movimento. ao invés de simplesmente aprender mecanicamente as técnicas. ou como já citado anteriormente. de forma autônoma e consciente. a proposta dos blocos temáticos de conteúdos proposto por Sanches Neto e col. analisar.” sendo “. terá sua visão particular do mesmo. 2007.43): “. assim quando ele apreender o conteúdo.o movimentar-se . (2006... sobre os valores sociais expressos nas manifestações estereotipadas e preconceitos. Assim o professor de Educação Física na perspectiva da Educação Libertadora. os fatores de construção de identidade e de estabelecimento de diferenças sociais e históricas.. que na educação física seria apenas a reprodução motora de gestos técnicos. Desta forma a pedagogia libertadora possibilita ao educando chegar ao conhecimento pelo diálogo.

(p. produz efeitos. Ora. O ser-no-mundo poderia. a partir da atualidade da percepção. de modo que contemplasse ainda a matriz de competências propostas pelo ENCCEJA já mencionada anteriormente.. (4) Demandas ambientais. pois.] o corpo próprio é “elástico”. Os blocos de conteúdos temáticos estão organizados em: (1) Elemento Cultural. e ao contextualizá-la no ambiente da Fundação CASA. portanto. mas é necessário concretizá-la diariamente na prática pedagógica (SANCHES NETO e col. movo-me em direção ao futuro. se tratando de motricidade. envolvido por uma intencionalidade. Foi apresentado aos adolescentes o bloco dos elementos culturais movimento humano proposto numa sistematização de blocos temáticos de conteúdos. pensamos num corpo próprio ou fenomenal. 2007 e 2008).. que há uma intencionalidade no movimento. a educação física tem considerado efeitos do “meio” (cultural/natural) sobre o corpo. Esses blocos de conteúdos sistematizados foram organizados seguindo um critério de complexidade a respeito do que os alunos devem aprender na Educação Física escolar. à criação e à expressão”. a noção de ser o corpo e não de tê-lo meramente. ou seja. assim. Devemos considerar. sendo este o que se vivencia nas experiências com sua dimensão de temporalidade e transcendência. Betti e col. Movimento. ser compreendido de modo indissociado às dinâmicas específicas da Educação Física: vislumbramos o sentido do SER (que é ao mesmo tempo corpo e movimento) no MUNDO (que é ao mesmo tempo cultura e ambiente). é de certa forma o ser-no-mundo tal qual propõe a fenomenologia de Merleau-Ponty. 2006. expande-se. 2007). estando pautados nos temas seguintes temas: Corpo. . numa continuidade entre o ser humano e o mundo.9 humano a própria transcendência. (2007) traz considerações pertinentes embasadas em Merleau-Ponty: [. Esta noção de ser o corpo e não de possuí-lo está relacionada ao corpo próprio ou fenomenal.43) Assim. espera-se que a Educação Física tenha efetivamente significado e que contribua no processo de resiliência e empoderamento que consideramos fazer parte do processo de aprendizado. (2) Movimentos. que são realizadas pelo movimento intencional (BETTI e col.. Cultura que devem estar integrados objetivando reduzir a incoerência entre as intenções (teorias da ação) e as ações efetivas (teorias em uso). (3) Aspectos pessoais e interpessoais do corpo humano. tendo em vista que não basta planejar coerentemente a intervenção. único meio de nosso acesso a experiência no mundo. Ambiente. mas a fenomenologia merleau-pontyana indica que deveria também ocupar-se dos “efeitos” do corpo sobre o meio: sobre as coisas e os outros.

. localizada na região da grande São Paulo. inclusive refletindo sobre os dados coletados. Segundo Bogdan e Biklen (1994) trata-se do relato escrito daquilo que o investigador. observa atentamente no ambiente da pesquisa. Os alunos são autores de atos infracionais. As técnicas de observação variam por seu grau de estruturação e pelo grau de proximidade entre o observador e o objeto de sua observação.) os relatórios mais exaustivos redigidos em seguida constituem as notas descritivas do observador: devem ser tanto quanto possível neutros e factuais para melhor corresponder à situação. estas se juntam as descritivas.. de cunho qualitativo. Também André (2005) compartilha de tal premissa entendendo que no decorrer das observações ou após as mesmas é necessário realizar um registro muito acurado dos eventos de modo a fornecer uma descrição incontestável que sirva para futuras análises e para o relatório final. As autoras ainda afirmam serem possíveis outras notas. p. envolve a observação direta em aulas de Educação Física em uma unidade de internação.180): As breves indicações registradas ao vivo (. trabalhos e avaliações dos alunos). A observação é uma técnica de coleta de dados para conseguir informações e utiliza os sentidos na obtenção de determinados aspectos da realidade e que além de ver e ouvir também examina os fatos e fenômenos que se deseja estudar.. o pesquisador fala de suas reflexões pessoais compreendendo idéias ou intuições frequentemente surgidas ao decorrer das aulas e logo registradas sob forma de breves lembretes.10 Procedimentos Metodológicos A presente pesquisa. Explicitamos que o trabalho foi realizado em uma Unidade de Internação (UI) da Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente (CASA) que atende ao sexo masculino. planos de aula. Nesta segunda opção. sendo realizados registros sistemáticos em diários de campo. também conhecidos como adolescentes em conflito com a lei. em um estudo qualitativo. Para coleta de dados utilizamos a análise de documento (ENCCEJA. observação e registro em diários de campo ao decorrer de um bimestre o que compreendeu 16 aulas. De acordo com Laville e Dionne (1999. chamadas analíticas.

A seguir apresentamos as análises das unidades de significado relacionadas às categorias temáticas e para melhor compreensão do leitor abaixo estão destacados alguns trechos dos diários de campo objetivando explicitar melhor os resultados obtidos. Mas não vieram muitas contribuições neste questionamento inicial.70). Nas duas primeiras aulas. sendo diário de campo. Resultados Neste estudo identificamos duas categorias decorrentes das observações dos diários de campo.11 Após o encerramento das aulas do bimestre. formando as seguintes categorias temáticas: A) participação/envolvimento dos adolescentes nas aulas e B) relação professor-aluno. “as categorias são empregadas para se estabelecer classificações. Pedi que os adolescentes apresentassem o outro para mim e para os demais. são evidenciadas atitudes discentes ao decorrer das aulas. realizamos procedimentos que tinha por objetivo conhecer melhor os alunos bem como me apresentar. pois havia novos alunos de modo que não os conhecia bem como os mesmos ainda não me conheciam. trabalhar com elas significa agrupar elementos. Conforme Gomes (2004). número correspondente ao dia da aula em algarismos romanos de I à VIII. Na categoria A) participação/envolvimento dos adolescentes nas aulas. são identificados os procedimentos utilizados pelo professor junto aos adolescentes. bem como o envolvimento destes com o professor. desde a inicial que fizemos as apresentações e também o planejamento participativo até a última aula. Na B) relação professor-aluno. Em seguida fizemos a escolha do tema gerador que foi muito rico.unidade de significado . (DCI-1-B).categoria). pedia que o próprio adolescente se apresentasse. então comecei a explicação de como poderíamos elaborar um planejamento. contendo trechos que são analisadas nos resultados. A identificação dos diários de campo (DC) foi realizada através da numeração dos mesmos. Fizemos apresentações. idéias ou expressões em torno de um conceito capaz de abranger tudo isso” (p. Nesse sentido. número da unidade de significado e sua categoria (DCnº. analisei as anotações do diário de campo. e quando algum não manifestava interesse por também não conhecer o outro. bem como se daria a participação discente no mesmo. pois possibilitou que todos opinassem na escolha e mais do que isso apresentassem seus argumentos . Iniciei dizendo que faríamos um planejamento e logo perguntei se alguém já havia feito um e se sabia como poderíamos fazer.

12 para assim definir qual o tema gerador que seria contemplado ao decorrer das aulas. considerando a falta de árbitro e que conseguiram resolver os problemas dialogando e não agredindo uns aos outros. que o jogar na transparência nada mais era que respeitar as regras e o adversário. os alunos desenvolveram a atividade. Mas em alguns momentos era necessário retornar a explicar que aula de Educação Física não é sinônimo de aula na quadra. entreguei as bolas. Importante ressaltar que nenhum dos dois grupos manifestou interesse em vivenciar como esporte. estavam eufóricos para que eu desse a bola. Aproveitamos para discutir sobre o respeito e a união tema gerador levantado por eles. assim o professor participou junto aos alunos. laterais e demais marcações. Foi explicado no início que não haveria árbitro. Num momento posterior em um jogo coletivo que vivenciamos. após ter falado disseram que jogariam na transparência. então pensei em fazer diferente do que estava acostumado. Ao chegarmos na quadra eu estava com uma bola de basquete e uma de futsal. E logo em seguida iniciaram uma atividade em sala. até com um pouco de dificuldade. em uma das aulas mudei minha estratégia. não havia adolescentes para formarmos duas equipes de futsal com número correto de jogadores. Os alunos estavam habituados a esperar que explicasse as possibilidades de atividades que aconteceriam durante a aula. muitos foram pedindo para descansar e vivenciar um jogo que exigia menos desgaste físico. mas com intenção de identificar se era realmente o que queriam. (DCV-1-B) Alguns alunos se direcionaram para a tabela e começaram a praticar um jogo chamado 21. e que teria que chegar a um consenso sobre as decisões de falta. utilizando as regras. no qual vence quem somar primeiro 21 pontos. tempo e espaço da modalidade esportiva que utilizavam a bola. não podendo passar desse número na somatória dos lances convertidos. Pude perceber o quanto estas práticas faziam parte do cotidiano . já percebendo que as aulas de Educação Física não estariam restritas ao espaço da quadra. e que já estávamos todos cansados. no qual tem dois jogadores na linha e um goleiro. Depois de terem jogado. e iniciaram uma prática chamada “melê”. e o objetivo é manter a bola no alto e finalizar sem que a mesma quique no chão. eu já tinha uma prévia noção do que fariam. Outro grupo foi ao gol oposto a tabela que o primeiro grupo estava usando. e deixei que fizessem as atividades que tinham interesse. (DCIII-2-B) Neste jogo foi evidente a autodisciplina dos envolvidos.

temos que considerar o processo histórico da mesma no âmbito da escola. realizando as atividades com sua intencionalidade direcionada em suas ações. que vivenciavam nas ruas de suas casas ou campinhos do bairro. a todo instante temos que estar atentos com eles. A medida que participam das vivências do futsal e dos jogos. e sim. como propostas que apresentam mudanças. refletindo sobre nossas condutas. Nessa aula evidenciamos o quão importante é valorizar os conhecimentos discentes. possibilitando que pesquisas desta natureza superem a visão quantitativa para que não sejam vistos como meramente relatos de uma experiência. O processo de conscientização ocorre a todo o momento. alguns momentos surgiam discussões sobre a falta de transparência no jogo por parte de alguns . Com essas observações pretendemos refletir sobre a adequação de novas estratégias para a Educação Física para adolescentes que cumprem medida socioeducativa. escolheram o futsal. reflexões e ações.13 das brincadeiras e jogos que vivenciam nas ruas. Assim. e após discutirmos as possibilidades de esportes. De certo modo ao analisar as escolhas dos alunos. mas de um modo que favoreça a interação e participação dos mesmos desde o planejamento torna-se mais significativa na vida dos educandos. para eles foi muito significativo praticar os jogos que fazem parte do repertório de vida deles. Ao decorrer das vivências realizadas nas aulas de Educação Física. No que diz respeito à Educação Física. e alguns vivenciaram as duas possibilidades de jogo. além de conhecermos e reconhecermos o saber prévio destes alunos percebemos um maior envolvimento dos alunos. houve uma unanimidade pelo elemento cultural esporte para ser desenvolvido no bimestre. pois os mesmos atribuem sentidos diversos ao que fazem. Considerações Consideramos que as aulas de Educação Física que permitem a participação discente não apenas como reprodutores de movimentos. os adolescentes foram aumentando o envolvimento/ participação de modo que até passaram a colaborar na realização das atividades. pois tem influências de várias concepções ou tendências pedagógicas. particularmente devido aos mesmos compreenderem o sentido e a intenção de aprender o conteúdo acordado no planejamento participativo e um relacionamento respeitoso entre professor e alunos. contribuindo na organização de circuitos. buscando ensinar e aprender juntos. pois todos participaram das atividades.

28. P. pareciam que nunca haviam perdido que nunca tinham vivenciado a derrota e tornavam a humilhar os perdedores. E. D. M. L. M. autoconhecimento e resiliência . E. Práticas Corporais Alternativas: Massagem. Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. 2005. n. Porto (Portugal): Porto Editora. Educação Física na Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor – FEBEM/SP: Uma análise da proposta de 1992 a 1994 segundo os discursos dos professores. Brasília: Líber Livro. jan. R. BIKLEN. a medida que valoriza o conhecimento do aluno. no início das aulas os que venciam falavam disso até o término do dia como forma de brincadeira com os que perderam que muitas vezes não aceitavam a perda.2.. V. 1994. autônomo e emancipado. realizamos outra discussão. pois grande parte das situações se os adolescentes fossem resolver sozinhos utilizariam da agressão física e verbal para tentar resolver os conflitos. e caminha para o desenvolvimento de um cidadão crítico e reflexivo. GOMES-DA-SILVA. n. Por uma didática da possibilidade: implicações da fenomenologia de Merleau-Ponty para a Educação Física. Assim podemos considerar que uma perspectiva dialógica pode contribuir no processo de ensino e de aprendizagem. Quando realizavam os jogos propostos. ANDRÉ. Brasília. G. e col. Coordenação de Publicações. Este aspecto demandou muitos diálogos para que compreendessem não haveria somente momentos de perdas ao decorrer da vida. E. 55-61. ARAUJO. 2002. C. 2009. CONCEIÇÃO.8(2) pp. Secretaria de Educação Fundamental.. FEF-UNICAMP.. W. BODGAN. Campinas. S. A. KUNZ. e o retorno foi positivo tanto na discussão quanto nas avaliações feitas ao decorrer das aulas. BETTI. Revista Brasileira de Ciências do Esporte. Referências ANDRADE. Estudo de caso em Pesquisa e Avaliação Educacional. Revista Mackenzie de Educação Física e Esporte. Estatuto da Criança e do Adolescente (1990). 6ª ed. Então fazia intervenções de modo a promover uma reflexão coletiva sobre o que seria adequado fazer. mas também houve a necessidade de fazer uma intervenção junto aos que venciam que mesmo as vitórias sendo alternadas. 2007. MEC/INEP.14 adolescentes. p. Brasília: Câmara dos Deputados. Livro introdutório: documento básico: ensino fundamental e médio. DF. 1997. Após o encerramento deste tema. Dissertação de mestrado. e que necessitariam ser resilientes.. _______. M.possibilidades de trato pedagógico no cotidiano da educação física escolar. L. 2008. Ministério da Educação/ Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais. . BRASIL. 39-53. havia os vencedores e os perdedores.

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