NÚCLEO DE PESQUISA, EXTENSÃO E PÓS-GRADUAÇÃO FACULDADE DO SUL DA BAHIA

ISSN 1808-589X

Número 14 - Julho/Dezembro 2011
2 Revista Mosaicum, n. 14, Jul. Dez. 2011 - ISSN 1808-589X

FUNDAÇÃO FRANCISO DE ASSIS Presidente: Lay Alves Ribeiro FACULDADE DO SUL DA BAHIA Diretor-acadêmico: Valci Vieira dos Santos Diretor-administrativo: Curtius Marques Moura NÚCLEO DE PÓS-GRADUAÇÃO, PESQUISA E EXTENSÃO - NUPPE Coordenação: Jessyluce Cardoso Reis Revista Mosaicum Publicação semestral do Núcleo de Pós-graduação, Pesquisa e Extensão da Faculdade do Sul da Bahia Conselho científico: Abrahão Costa Andrade (UFRN) Bernardina Maria de Sousa Leal (UFF) Ester Abreu Vieira de Oliveira (UFES) Eva Aparecida da Silva (UFVJM) J. Agustín Torijano Pérez (Universidad de Salamanca) Jaceny Maria Reynaud (UFRGS) Josina Nunes Drumond (PUC/SP) Luiz Roberto Calado (Faculdades Alves Farias) Miguel Zugasti (Universidad de Navarra, Espanha) Nilson Robson Guedes da Silva (Faculdade Anhanguera de Limeira) Paulo Roberto Duarte Lopes (UEFS) Raphael Padula (COPPE/RJ) Ricardo Daher Oliveira ((Faculdades Alves Farias) Ricardo Jucá Chagas (UESB) Rodrigo Loureiro Medeiros (UFES) Sélcio de Souza Silva (UNEB/UCGO) Valci Vieira dos Santos (UNEB) Wisley Falco Sales (UESC) Conselho Editorial: Carlos Felipe Moisés Rodrigo da Costa Araújo Sélcio de Souza Silva Valci Vieira dos Santos Wilbett Oliveira
Revista Mosaicum Ano 6, n. 12 (jul.-dez. 2010). Teixeira de Freitas, BA. ISSN: 1808-589X 1. Publicação Periódica - Faculdade do Sul da Bahia. CDD 050 © 2009 Núcleo de Pós-graduação, Pesquisa e Extensão da Faculdade do Sul da Bahia (Fasb). Proibida a reprodução parcial ou total por qualqur meio de impressão, em forma idêntica, resumida, parcial ou modificada, em língua portuguesa ou outro idioma.

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Sumário

Editorial...........................................................................................................................5 Ética prática: o problema da eugenia liberal em Habermas.....................................9 Francisco Rômulo Alves Diniz Uma abordagem filosófica do Princípio Constitucional: “A dignidade Humana”................................................................................................23 Joelson Pereira de Souza - Cleonalto Gil Barbosa Dar ou não dar: eis a mendicância como questão social........................................30 Sebastião Costa Andrade - Alanna Mendes de Assis - Roseane da Silva Sousa O jogo textual entre autor e leitor contemporâneos em Os Emigrantes, de W. G. Sebald............................................................................................................37 Valci Vieira dos Santos Na galeria de espelhos: brincadeiras de vertigens e espelhamentos.....................46 Rodrigo da Costa Araújo Pelas vias de uma didática da obra de arte................................................................65 Eliana Gomes Pereira Pougy Música no ensino de frações: uma nova ferramenta apresentada por meio da modelagem matemática.....................................................................82 Gilberto Augusto Soares - Marger da Conceição Ventura Viana Rodney Alves Barbosa - Sebastiao Amilcar Figueiredo Santos Tiago Carvalho Araújo O Mal: terminologia e definições.............................................................................99 Sélcio de Souza Silva Registro de canibalismo em polydactylus virginicus na praia do Malhado (Ilhéus, BA).................................................................................................................105 Paulo Roberto Duarte Lopes - Jailza Tavares de Oliveira-Silva Ideval Pires Fernandes Normas para publicação............................................................................................109

EDITORIAL
A partir deste número [14] da Revista Mosaicum contaremos em nosso Conselho Científico com a colaboração dos Professores Dr. Miguel Zugasti, da Universidad de Navarra (Espanha), Sebastião Costa Andrade, daUniversidade Estadual da Paraíba e Luiz Roberto Calado, doutorando em Finanças Sustentáveis (Universität Bonn, Alemanha), Mestre em Administração e Economia (FEA-USP). No Conselho Editorial, receberemos as colaborações dos Professores Rodrigo da Costa Araújo, Doutorando em Literatura Comparada (Universidade Federal Fluminense) e do Prof. Sélcio de Souza Silva, Doutor em Ciências da Religião (Instituto de Filosofia e Teologia da PUC-Goiás). Além da indexação nas Bases de dados FAE/UNICAMP e Latindex, registramos a inclusão da Revista no Portal LivRe, desenvolvido pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), por meio do Centro de Informações Nucleares (CIN) para facilitar a identificação e o acesso a periódicos eletrônicos de acesso livre na Internet. O texto que abre esta edição - Ética prática: o problema da eugenia liberal em Habermas - do Professor Francisco Rômulo Alves Diniz, doutorando do Programa Integrado de Doutorado (UFPB, UFPE e UFRN), discute a postura habermasiana acerca da eugenia liberal. Apresentando os desdobramentos dos argumentos defendidos por Habermas e as suas bases de sustentação, o autor afirma que Habermas se apoia na intuição kierkegaardiana do direito de ser si mesmo, como princípio fundante, e sustenta a tese do direito de não-intervenção na vida de outrem sem a anuência do mesmo, em especial na vida intra-uterina em desenvolvimento. Em seguida, o Professor e Mestre em Teologia, Joelson Pereira de Sousa e o acadêmico em Direito Cleonalto Gil Barbosa (Faculdade Sul da Bahia) abordam, filosoficamente, o princípio constitucional “a dignidade da pessoa humana”, buscando compreender o conceito etimológico e jurídico dos termos Princípio, Pessoa e Dignidade. Discutem, ainda, o princípio em tela, por meio de três grandes concepções que buscaram criar uma norma justa para tutelar a dignidade humana: o Individualismo, o Transpersonalismo e o Personalismo. A intenção maior dos autores é provocar uma reflexão sobre a conquista da Dignidade no sistema social contemporâneo. Dar ou não dar: eis a mendicância como questão social, texto do Doutor em Ciências Sociais, pela UFPB, Poeta e Professor de Sociologia na Universidade Estadual da Paraíba, Sebastião Costa Andrade e das acadêmicas Alanna Mendes de Assis e Roseane da Silva Sousa do
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curso de Serviço Social (UFPB) aponta a mendicância como uma das expressões da Questão Social. Com base em pesquisas que relatam a sua origem e o seu agudizamento, pela crescente urbanização/industrialização, precisamente nos anos 1990, com o aumento gradativo da pobreza, devido ao desmoronamento do Estado face à “Era do Neoliberalismo”. Os autores questionam as pessoas “pedintes” esmolam por “precisão” ou “acomodação”. A Literatura ganha voz neste número com o texto Jogo textual entre autor e leitor contemporâneos em Os Emigrantes, de W.G. Sebald, do Prof. Valci Vieira dos Santos, Doutorando em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Estudioso de W. G. Sebald, o autor pretende discutir a profícua relação entre autor e leitor, em cuja interlocução se trava um jogo: o jogo textual e, para discorrer sobre esse jogo, lança mão do postulado de Wolfgang Iser, para quem o texto é composto por um mundo ainda a ser decifrado e, por isso, incita o leitor a ativar a imaginação, tentando interpretá-lo. Para o Prof. Valci, Os Emigrantes é uma obra literária que permite refletir sobre a presença desse jogo. Da galeria de espelhos, por meio de brincadeiras, de vertigens e espelhamentos, Rodrigo da Costa Araújo (UFF/FAFIMA) esboça um ensaio intertextual que busca refletir sobre o espaço visual de Maurits Cornelis Escher (1898-1972) e o espaço literário de Jorge Luis Borges (1899-1986) como construções em mise en abyme, como redes alegóricas que desnaturalizam os lugares regidos por estruturas determinantes ou fixas e até mesmo como vivências discursivas, espaciais e temporais que subvertem estruturas lógicas. A discussão deste autor encontra sedimentação no conto A Biblioteca de Babel (1941) e em Côncavo e Convexo (1955), questionadoras da realidade através de seus próprios códigos e elementos. A contribuição de Eliana Gomes Pereira Pougy, Mestre em Educação pela Faculdade de Educação da USP, vem Pelas vias de uma didática da obra de arte, texto que analisa o dispositivo saber-poder da didática e propõe a base epistemológica para a construção de uma Didática da Obra de Arte. Partindo da perspectiva pós-estruturalista, com destaque para a produção de Michel Foucault, Pougy faz uma arqueologia dos discursos didáticos da Bíblia, da Didactica magna, de Comenius, de O Emilio ou da Educação, de Rousseau e do Democracia e Educação, de Dewey e percebe que esses discursos compartilham, a despeito de suas especificidades e seus diferentes objetos, o mesmo paradigma geral segundo o qual se estruturam os saberes científicos da comunicação. Aproveita também a perspectiva pós-estruturalista, enfocando as ideias de Gilles Deleuze e Felix Guattari, e propõe a base epistemológica para a construção de novas formas de pensar a didática ou a relação educação-comunicação. Regidos por diversas mãos, o artigo Música no ensino de frações: uma
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n. o mal. Sélcio de Souza Silva.nova ferramenta apresentada por meio da modelagem matemática. 2011 . no Novo Testamento. Jailza Tavares de Oliveira-Silva (Universidade Estadual de Feira de Santana) e Ideval Pires Fernandes (Universidade Estadual de Santa Cruz) vem representado neste número pelo registro de Canibalismo em polydactylus virginicus (linnaeus. litoral sul do estado da Bahia (Nordeste do Brasil). Dez. doutor em Ciências da Religião (Pontifícia Universidade Católica de Goiás) desenvolve alguns conceitos relativos ao mal. o Canibalismo é registrado pela primeira em Polydactylus virginicus (Linnaeus. 1758) (actinopterygii: polynemidae) na praia do Malhado. os autores destacam os conteúdos específicos das áreas em questão por meio de uma oficina de modelagem na qual os alunos de Licenciatura em Matemática têm a oportunidade de aplicar conhecimentos e. Sebastiao Amilcar Figueiredo Santos (Faculdade do Sul da Bahia) e Tiago Carvalho Araújo (Faculdade de Filosofia. recorrendo a conceitos musicais no estudo de frações. dos Professores Gilberto Augusto Soares (Centro Federal de Educação Tencologica de Bambuí).0 mm de comprimento total capturado em março de 2005 na Praia do Malhado. Boa leitura! Conselho Editorial Revista Mosaicum. com a literatura vetero-testamentária. Nesse texto. ao mesmo tempo. Jul. Marger da Conceição Ventura Viana (Universidade Federal de Ouro Preto). discutirem novas formas de lidar com a matemática em seu futuro ambiente de trabalho: a sala de aula. em Ilhéus (BA). Segundo o autor. colaboração dos professores Paulo Roberto Duarte Lopes. O prof. O estudo em Ictiologia. na trajetória humana. Rodney Alves Barbosa (Faculdade do Sul da Bahia). elaborado por meio de pesquisa teórico bibliográfica e pesquisa de campo com uma análise qualitativa dos dados.ISSN 1808-589X 7 . 1758) (Actinopterygii: Polynemidae) com base em 1 indivíduo medindo pelo menos 24. Agradecemos aos colaboradores e à mantenedora por mais este número. sua terminologia e definições. personificação. município de Ilhéus. Ciências e Letras do Alto São Francisco) propõe o emprego de modelagem matemática em aulas do ensino superior.0 mm de comprimento encontrado no estômago de 1 indivíduo medindo 150. Para os estudiosos. pari passu. ganhará. 14. novas roupagens até adquirir. sempre presente nesta Revista. a partir da influência da tradição religiosa judaica.

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especially in the intra-uterine life in development. vertido para a língua portuguesa no ano de 2004 sob o título O futuro da natureza humana. Liberal eugenics. uma diversidade de perspectiva a partir da qual faz a análise da questão da eugenia nas sociedades liberais. Habermas Introdução Há décadas. ele apresenta os argumentos que sustentam a sua não aceitação dessa prática. A posição de Habermas em relação à eugenia liberal é clara e. Auf dem Weg Zu Einer liberalen Eugenik? . Apresentamos os desdobramentos dos argumentos defendidos por Habermas e as suas bases de sustentação. mas a reflexão acerca da bioética é bem perceptível a partir de 2001 com a apresentação de duas conferências (Escravidão genética? Fronteiras morais dos progressos da medicina da reprodução & Não é a natureza que proíbe clonar: nós mesmos devemos decidir) e com a sistematização de um pequeno livro intitulado Die Zukunft der Menschlichen Natur. We presented the unfoldings of the arguments defended by Habermas and its fundation bases. Habermas leans on in the intuition kierkegaardiana of the right of being himself. a ética aplicada ou prática tem ocupado as reflexões de Habermas. contudo. Meu propósito neste trabalho é reconstruir os principais argumentos que sustentam a posição de Habermas.ISSN 1808-589X 9 . 2011 . como princípio fundante. as first principle and he sustains the thesis of the no-intervention right in the life without the permission of the same. em especial na vida intra-uterina em desenvolvimento.Ética Prática: o problema da Eugenia Liberal em Habermas Practical ethics: the problem of the liberal eugenics in Habermas Francisco Rômulo Alves Diniz Universidade Estadual Vale do Acarau Resumo: O presente artigo trata da postura habermasiana acerca da eugenia liberal. 14. Eugenia liberal. Dez. fruto do desenvolvimento tecnológico e biotecnológico. e sustenta a tese do direito de não-intervenção na vida de outrem sem a anuência do mesmo. n. Palavras-chave: Ética. Habermas se apoia na intuição kierkegaardiana do direito de ser si mesmo. Revista Mosaicum. Key-words: Etic. Habermas Abstract: The present article is about the posture habermasiana concerning the liberal eugenics. Apresenta. no texto indicado. Jul. Esse pequeno livro resume os argumentos de Habermas relativos ao problema de uma eugenia liberal nas sociedades avançadas.

Num primeiro momento refaço as intuições que Habermas utiliza na sua análise: o ser si mesmo que ele toma emprestado do filósofo dinamarquês S. Ademais. 4). os projetos individuais de vida não se formam à parte de contextos partilhados intersubjetivamente. quem somos nós e quem queremos ser. no âmbito de uma filosofia prática. Não pretendo deter-me nos pormenores da TAC. Jul. como bem afirma Habermas: “A estrutura do cosmo e a natureza humana. ou seja. Frisch: “o que o homem faz com o tempo da sua vida” e que pode ser lida na perspectiva moral nos seguintes termos: “o que devo fazer com o tempo da minha vida?” pergunta essa que se imaginava ter respostas adequadas. p. 14. era possível viver sobre a égide de um modelo de vida correto. É desse modo que Habermas introduz a questão da identidade. A apresentação dos argumentos seguirá inicialmente a ordem do próprio texto. As condições para se pensar o problema da eugenia liberal: o ser si mesmo e a constituição moral a partir da interação linguística Habermas inicia o texto com uma questão que é feita no romance de M. de forma positiva. Kierkgaard e as articula com alguns pressupostos da Teoria do Agir Comunicativo (TAC). Entretanto. a saber. Noutros tempos. a moral e o direito. de acordo com Habermas. n. de forma implícita. as fases da história universal e da história sagrada forneciam elementos impregnados de normas. a pergunta pelo modo como cada um deve proceder em relação a si mesmo e ao demais funde as questões de caráter ético com as de caráter moral. A. a perspectiva que Habermas aponta de estar atento às mudanças provocadas pela técnica genética e sua implicação na autocompreensão ética da espécie humana com vistas a não perdermos de vista a identidade construída ao longo da nossa história e a preservação do ser si mesmo como condição de responsabilidade moral da pessoa humana diante da sua história e da história da espécie humana. Tais referências serão percebidas. Dez. O ponto final desse modelo é marcado. que aparentemente também ofereciam elucidação sobre a vida correta” (HABERMAS. mas que em tempos pós-metafísicos não há uma resposta pronta e acabada para tal questão. que embora esteja dividido em sete partes vou deter-me em apenas cinco delas. Mui10 Revista Mosaicum. de duas instâncias que servem ao mesmo tempo de suporte e motivação externa para balizar a construção da identidade ética da espécie. 2004. O liberalismo permite que “a sociedade justa” deixe ao critério de todas as pessoas aquilo que elas querem “iniciar com o tempo de suas vidas” (HABERMAS.ISSN 1808-589X . pelo modelo político liberal. na perspectiva habermasiana. 5). Contudo. analiso. É com base no pensamento de Kierkgäard que Habermas se propõe a pensar o sentido desse primeiro pressuposto – o ser si mesmo. Por fim. nos argumentos. 2004. Habermas se utiliza. p. no processo argumentativo. 2011 .

Habermas lança mão dos elementos presentes na filosofia do dinamarquês para uma tomada de posição frente à problemática da eugenia. Muito embora a ética kierkgaardiana seja pós-metafísica. o faz com vistas a não somente poder reconhecer a si mesmo de modo irreputável. mesmo que pós-metafísico é ainda marcado pela religiosidade e pela teologia. por ser o indivíduo a fonte das decisões morais. com os outros e com o absolutamente Outro. se configura numa autorreflexão ética e [. determinada pelo interesse infindável em que o projeto de vida tenha êxito [. (HABERMAS. marcados todos por um contínuo processo linguístico intersubjetivo no qual se formam os elementos fundantes de uma cultura e de um modo de Revista Mosaicum. Deus é posto como a instância não somente julgadora final das ações do indivíduo. Aplicada ao contexto dos avanços técnico-científicos e considerada a possibilidade de intervenções no curso da natureza. 2004. Somente assim ele faz de si uma pessoa insubstituível e um indivíduo inconfundível.. 9-10).] o indivíduo apropria-se do seu passado histórico. Assim. A leitura que Habermas faz de Kierkgäard é com vistas a destacar a responsabilidade que a pessoa tem por si mesmo e para com sua própria construção. a saber. ela possui ao mesmo tempo um valor normativo e força de orientação para as tomadas de decisões. Isso. No caso de Kierkgäard. 10). Trata-se do universo linguístico no qual todos os si mesmos surgem. em especial no campo das biotecnologias e do consequente redirecionamento do curso natural com vistas ao atendimento dos interesses e até caprichos humanos.ISSN 1808-589X 11 . p.. Kierkgäard é considerado o fundador da chamada filosofia da existência ou existencialismo que tem entre suas diretrizes fundamentais o destaque do indivíduo como único responsável pelas escolhas que realiza na vida. o contexto no qual Kierkgäard desenvolve sua filosofia justifica-o como um genuíno representante de um pensamento crítico em relação à filosofia dominante na sua época. o indivíduo. (HABERMAS. Esse universo é antes posto e é nele que cada indivíduo se situa como um si mesmo em relação aos outros. Ao se emancipar de uma reificação que ele mesmo se impingiu.. Jul.. ganha ao mesmo tempo distância de si mesmo”. A esse respeito afirma Habermas: “O indivíduo precisa recobrar a consciência de sua individualidade e de sua liberdade. tendo em vista as possibilidades de ações futuras. a filosofia absolutista de Hegel. 2004. se relacione consigo mesmo. mas como condição absoluta na qual é possível que o si mesmo seja. mas que também seja reconhecido pelos demais em função do modo como ele mesmo se vê.] a uma escolha de si mesmo. No entanto. capaz de escolher a si mesmo. efetivamente encontrado e concretamente rememorado. segundo Habermas. Habermas aponta mais um elemento que nos possibilita pensar o ser si mesmo. 14. n.to embora o ser si mesmo Kierkgäardiano. 2011 . Dez. pois é somente na medida em que a pessoa se torna consciente de si mesma é que passa a ter-se como tarefa. p. Além desse caráter reflexivo.

negando-lhes a possibilidade natural ou a liberdade natural de ser si mesma. É necessário considerar. pois parecem possuir limites mais extensos do que seres animados. Ao realizarmos tal redirecionamento. quando no estágio da vida adulta. Dez. Trata-se do que antes era indisponível e que com os avanços nas áreas técnicas e de modo especial nas biotecnologias tornaram disponível.ISSN 1808-589X . Outro aspecto abordado por Habermas quanto à questão da liberdade é a forma diferenciada como a mesma é vivenciada 12 Revista Mosaicum. mudamos as referências de valor e certamente o grau de responsabilidade perante nós mesmos e perante a natureza. Habermas se lança a especificar os aspectos presentes na moderna compreensão da liberdade. 2011 . a capacidade de manipulação genética. O conhecimento biotecnológico e sua implementação interfere na liberdade e estabelecimento de novos limites da autocompreensão normativa da espécie humana. Coisas inanimadas podem ser manipuladas de modos diversos.ser e interagir. quando se trata de pessoas ou mesmo embriões nos estágios pré-pessoais há que considerar o aspecto da vontade latente. 2004). Ora. há que se considerar que o grau de responsabilidade se amplia. ao mesmo tempo. é necessário também que assumamos a responsabilidade e os riscos frente a tal intervenção. n. como por exemplo. Na medida em que intervimos no desenvolvimento natural. atraímos para uma parte da natureza (a humana) a “responsabilidade” que é própria da natureza como um todo. por exemplo. tomar conhecimento de que fora “construída” segundo os interesses dos seus progenitores. a possibilidade de interferência na construção de um novo ser humano. essa expansão dos limites da ação humana. O desenvolvimento biotecnológico e a capacidade de intervenção no modo como a natureza têm se desenvolvido no curso da sua história e. mas saber que a implementação dessa intervenção afeta a nossa autocompreensão como seres responsáveis ou morais. do ponto de vista técnico-científico. Esses critérios devem pressupor uma autocompreensão do homem enquanto espécie o que implica a criação de normas que reflitam os valores pelos quais nos compreendemos. essas possibilidades ou nova estrutura de imputação resultam da confusão de limites entre pessoas e coisa (HABERMAS. Segundo Habermas. No tocante a questão da liberdade. vai exigir que se estabeleçam novos critérios para a pesquisa científica. É isso que compreende Habermas quando afirma não se tratar de uma atitude crítica cultural à compreensão da ciência. 14. no tocante às possibilidades de alteração do genoma humano. Nem sempre o desejo do manipulador coincide com o do manipulado. a fim de se estabelecer um design que seja apropriado aos interesses do manipulador. Jul. pois a suscetibilidade de manipulação de um ser vivo varia conforme o grau de vontade e consciência daquilo que é manipulado. que consequências podem resultar para a pessoa que fora manipulada e. porém. em que “assumimos” o controle sobre ela. Ao tornar disponível.

O que está em jogo é mais do que questões morais e legais. sendo a sua ação restrita. Quando se fazem leis que prescrevem condutas para comportamentos ainda não reais. Por outro lado. tendo a possibilidade de fazer os ajustes necessários conforme os graus de consciência da forma como fora construída ou educada. se supõe que eles sejam possíveis. ele parece usar o que Nietzsche chamou de experiência de pensamento. ou até como seres que esperam uns dos outros uma responsabilidade solidária e que tem igual respeito uns pelos outros? Que status devemos conferir à moral e ao direito para que um relacionamento social também possa se adaptar a conceitos funcionalistas e desprovidos de normas? (HABERMAS.por uma pessoa que nasce de modo natural que determina e é determinada no contínuo processo de socialização. Jul. refaço as questões postas por Habermas quanto às implicações morais de tais “experimentos”: Devemos nos compreender ainda como seres normativos de maneira geral. p. Outra é a liberdade da pessoa que fora programada geneticamente e que. uma realidade na qual. 14. de um lado. fora pré-determinado a ser de tal ou tal modo. Há. Habermas afirma que para além de difíceis questões morais. 2004). supor situações ainda não reais. (HABERMAS. seus projetos delimitados em função de sua programação e que pode se tornar problemática à medida que se a pessoa programada tem consciência do modo pelo qual fora manipulada obedecendo aos interesses do programador. mas reais e que se faz necessário pensá-los e avaliá-los. e outras que serão apresentadas mais adiante. certos eventos já ocorrem e que pesquisas e resultados atestam como possíveis e reais. Parte da argumentação de Habermas sugere. como bem afirma Habermas: com a pesquisa biogenética uniu-se ao interesse de aproveitamento dos investidores e à pressão dos governos nacionais. o desenvolvimento biotécnico revela uma dinâmica que ameaça derrubar os longos processos normativos de esclarecimento da esfera pública. Ele está se referindo ao que se encontra prescrito na Carta dos Direitos Fundamentais da União Européia. já se espera um comportamento conforme a programação. n. O poder de controle das pesquisas no campo genético que envolve ideologias liberais e interesses dos mercados. Desse modo. é também possível pensar que o ser si mesmo da pessoa programada geneticamente é diferente da pessoa gerada de forma natural. surgem questões de outra espécie (HABERMAS. isto é. Considerando que certos “experimentos” sejam não somente possíveis. 25). assim. 2004. Essas confluências de interesses apresentam muito mais problemas do que soluções visíveis.ISSN 1808-589X 13 . num processo de socialização. que reivindicam ações bem sucedidas. porém possíveis num universo hipotético. no entanto. Nesse contexto. Dez. alternativas possíveis a serem conRevista Mosaicum. 2004). ou seja. 2011 .

cito-o mais uma vez: hoje ainda notamos a obscenidade de tal práxis reificante e nos perguntamos se gostaríamos de viver numa sociedade que adquire consideração narcísica pelas próprias preferências ao preço da insensibilidade em relação aos fundamentos normativos e naturais da vida. se reconhece enquanto tal em função do ordenamento moral e jurídico no qual está inserido no mundo da vida. principalmente no que diz respeito ao DGPI (Diagnóstico Genético Pré-Implantação).ISSN 1808-589X . 14. 2011 . para que se possa tratar de forma terapêutica é necessário que se tenha o conhecimento para tal e para se ter o conhecimento é necessário que se realize pesquisas. p. Ao mesmo tempo. 2004. podemos perceber que os interesses que movem os progenitores a buscarem o melhoramento genético para seus descendentes muitas vezes ultrapassam a ideia das melhores chances numa disputa no processo de adaptação biológica. (HABERMAS. Para ele. somente após um exame genético. pois. n. A pessoa é também indisponível naturalmente. 31). 2004. amplamente comentada pelo próprio Habermas. dos “grilhões sócio-morais” do avanço biotécnico”. 28-9). Habermas reconhece a dificuldade de se respeitar a indisponibilidade e a intangibilidade da pessoa diante dos avanços biotecnológicos. p. com uma indagação que levanta a questão da dignidade humana: “é compatível com a dignidade humana ser gerado mediante ressalva e. A esse respeito. Porém. Dez. O que diferenciará uma da outra é a capacidade de justificá-las como relevantes. o que significa ser relevante? A questão da relevância nos lança a outros argumentos utilizados por Habermas para justificar sua posição. Nessa passagem. p. Nesse sentido. é que se pode falar em eugenia positiva e eugenia negativa. 2004. Habermas passa a se utilizar como parte do seu processo reflexivo e argumentativo de dois conceitos fundamentais para se entender o valor da dignidade humana e do ser humano enquanto tal. ao refletir sobre essa problemática. ser considerado digno de uma existência e de um desenvolvimento? Podemos dispor livremente da vida humana para fins de seleção?” (HABERMAS. Associados aos interesses estéticos estão os interesses de ordem econômica sustentados por uma ideologia liberal e garantidos por uma neutralidade do Estado. a saber: a intangibilidade e a indisponibilidade do ser humano. Habermas chama a atenção para o acompanhamento do quadro de 14 Revista Mosaicum.sideradas. às vezes é o prazer estético que os motiva. e essa indisponibilidade se dá também na representação corporal. inicia. À medida que se dão os avanços nas pesquisas. que se fundamentou ao mesmo tempo na medicina e na economia. a pessoa humana é intangível. A esse respeito afirma: “não se trata da supergeneralização social-darwinista de conhecimentos sobre a biologia. mas do afrouxamento. Habermas. (HABERMAS. 29). Jul. como por exemplo. posiciona-se de modo que se preserve a pesquisa científica e os casos em que sejam eticamente relevantes para a vida do embrião.

a moral. 1989. p. pois para se manter o mínimo de controle é necessário que haja parâmetros legais e morais para que se mantenha uma identidade social na qual as pessoas possam se reconhecer e se identificar. pensa um agente interligado a outros. À parte a questão da fundamentação. 2004. o direito e a autocompreensão ética da espécie Na primeira parte Habermas se utiliza de uma citação de Wolfgang van den Daelle que afirma: “aquilo que se tornou tecnicamente disponível por meio da ciência deve voltar a ser normativamente indisponível por meio do controle moral” (HABERMAS. n. (HABERMAS. tecendo assim uma rede intersubjetiva que tem a possibilidade de se chegar a consensos sobre o melhor modo de ser e de agir. conforme nos afirma Habermas na seguinte passagem: a elucidação da compreensão de si ou o asseguramento clínico da própria identidade requer um compreender apropriador . 14. A autocompreensão ética da espécie: a dignidade humana. só que ao invés de recair a responsabilidade sobre o indivíduo. Jul. Com o fim das justificativas morais fundamentadas nos moldes metafísico-religiosos. Dez. p. 2011 . abriu-se a possibilidade de uma fundamentação racional que tem ocupado os filósofos desde Descartes. Habermas segue o pensamento kantiano. Ele analisa em que medida a questão da manipulação genética toca em questões relativas à identidade da espécie tendo como pano de fundo as representações legais e morais. 106). Habermas se utiliza de duas perspectivas para realizar a análise do fenômeno da técnica genética: a indisponibilidade dos fundamentos genéticos de nossa existência corporal e a nossa autocompreensão enquanto seres morais.valores que devem nortear tais pesquisas. que têm buscado um modo apropriado de fundamentação moral. Essa tentativa de controle através da moral e do direito tem se mostrado vã.a apropriação da história da própria vida como também das tradições e dos contextos de vida que determinaram o processo de formação próprio. ele está mais interessado na questão de como a neutralização biotécnica entre o que cresceu naturalmente e o que foi fabricado. entre o subjetivo e o objetivo mudam a autocompreensão ética da espécie. ao processo iniciado na modernidade de um contínuo desencantamento do mundo e que. Porém. Esse fato se deve. com o passar dos anos. em ultima instância. tem argumentado considerando como é possível o controle através da moral. vemos a constante tecnicização da natureza como um todo e do homem em especial. proporcionando uma universalidade mediada linguisticamente. A esse respeito ele é enfático ao afirmar: Revista Mosaicum.ISSN 1808-589X 15 . 35). não tem proporcionado o efeito desejado de preservação do naturalmente indisponível como também não tem refreado o processo de desenvolvimento técnico. nessa parte do texto. passando por Hume e chegando até Kant. retomamos o problema de como Habermas.

Habermas resume essa discussão da qual toma parte o jurista Ronald Dworkin.podemos ter um quadro totalmente diferente se entendermos a “moralização da natureza humana” no sentido da autoafirmação de uma autocompreensão ética da espécie da qual depende o fato de ainda continuarmos a nos compreender como únicos autores de nossa história de vida e podermos nos reconhecer mutuamente como pessoas que agem com autonomia (HABERMAS. 2004. implicando assim uma complementaridade entre as partes (HABERMAS. mas que não tem se furtado às discussões acerca da questão: O deslocamento da “fronteira entre o acaso e a livre decisão” afeta de modo geral a autocompreensão de pessoas que agem de forma moral e se preocupam com a própria existência. para citar apenas este entre tantos conflitos não solucionados. do DGPI e o uso de embriões para fins de pesquisa. p. Esse ponto se justifica por entrar em questão se o embrião desfruta desde o início da vida da dignidade humana. Além disso. 36). sem recorrer a dimensões 16 Revista Mosaicum. 2004. n. a anterioridade da vida. Jul. p. há uma diversidade de situações indefinidas. Em seguida. A intangibilidade e a indisponibilidade ultrapassam o limite definido para a origem da vida.ISSN 1808-589X . Ele nos torna conscientes das relações entre nossa autocompreensão moral e o pano de fundo da ética da espécie. 2011 . defensor de uma concepção liberal relativa acerca da questão da eugenia. O que Habermas acrescenta a essa discussão é que algo pode ser considerado “indisponível” mesmo que em termos jurídicos não seja portador de direitos fundamentais inalienáveis. a vida não se torna digna porque teve um determinado início. Dez. Habermas defende um contínuo processo de vigilância legal e moral contra os constantes processos de reificação do ser humano. Isso significa que a discussão acerca da dignidade é antes moral do que jurídica. 40). (HABERMAS. O sentido de uma moralização da natureza humana é para permitir que tenhamos minimamente o controle sobre aquilo que somos e o que queremos preservar daquilo que somos. principalmente nos estágios iniciais da vida. etc. O argumento de Habermas acerca da dignidade toma como referência a questão do aborto. propõe uma constante discussão acerca da base natural indisponível e o reino da liberdade que tem se estendido com desenvolvimento da técnica genética. já na dimensão da escolha. é a condição primeira sem a qual não se pode falar em direito. Habermas discutirá a relação entre dignidade humana versus dignidade da vida humana. O primeiro espera impedir os desenvolvimentos da técnica genética apelando para a proteção absoluta do óvulo fertilizado. pois no caso de uma gravidez indesejada o direito de escolha da mulher colide com o direito de proteção do embrião. Ou seja. 14. em moral. 1992). Note-se que Habermas utiliza-se do argumento da indisponibilidade e da intangibilidade do ser humano em todos os estágios do seu desenvolvimento. mas por si mesma goza da dignidade que lhe é própria. Na prática há duas posições conflitantes os defensores da vida “pro-life” e os da liberdade “pro-choice”. Essa questão encontra-se ancorada no mundo dos valores morais.

47). protegem o corpo de lesões corporais e a pessoa de lesões internas ou simbólicas”. Por fim. Habermas entende por comportamento moral como uma resposta construtiva às dependências e carências decorrentes da imperfeição da estrutura orgânica e da fragilidade permanente da existência corporal (HABERMAS. mediada pelo uso da linguagem. Jul. n. Dez. p. 2011 .ISSN 1808-589X 17 . a dignidade humana não é uma propriedade. é antes a intangibilidade que só pode ter significado nas relações interpessoais e de reconhecimento entre as pessoas numa comunidade moral. para ele. 54). 2004. os valores morais estão expressos através dos Princípios Constitucionais e das normas que regem a vida numa sociedade através da forma da lei. Diz ele: considero essa “determinação” da moral como a chave adequada para responder a seguinte questão: independentemente das determinações ontológicas discutíveis. A fragilidade da moral pode ser sanada ou pelo menos amenizada quando encontra uma forma externa ou objetiva de expressão. de uma só vez. 2004). Habermas passa a demonstrar o significado do sentido moral em relação ao todo social. que se estrutura também de forma jurídica e é garantida a toda pessoa. mas o que antes é definido como digno na esfera pública de uma comunidade linguística.metafísico-religiosas. é sobre a égide da necessidade de proteção à vida humana pré-pessoal que Habermas encontra uma justificativa plausível para o uso de argumentos com base moral. É assim que o recém-nascido é identificado como um de nós e aprende a se identificar como membro de uma comunidade. Contudo. Supõe-se que as normas justas a que se Revista Mosaicum. “chamo de “morais” as questões relativas à convivência baseada em normas justas” (HABERMAS. Ele inicia definindo o que entende por moral. 2004. que. Assim. No entanto. como podemos definir o universo dos possíveis portadores de direitos e deveres morais?” (HABERMAS. p. Mas reconhece que o argumento da dignidade humana não é suficiente para fechar a questão do uso de embriões para pesquisa e o DGPI. essa é uma questão que apenas faço referência neste trabalho. 2004). Nessa tentativa. que se aplica a toda a vida inclusive e em especial a vida pré-pessoal e a dignidade humana. Muitas vezes. (HABERMAS. Em seguida. 2004. é o que confere dignidade à pessoa. 2004. E conclui: “ordens morais são construções frágeis. Habermas estabelece uma diferença entre o que se entende por dignidade da vida humana. 46). Habermas vai deter-se em pontos específicos da argumentação: uma delas é tentativa de se chegar a uma autocompreensão ética da espécie. p. 14. especificando que somente no processo de interação é que se pode entender a razão de se defender a vida no ventre materno. pois o que a define suscetível de valor não é necessariamente o fato do estágio do desenvolvimento. Ele inicia a “inserção moral numa ética da espécie” relembrando que a moral tem sua sede numa forma de vida linguisticamente estruturada (HABERMAS.

(HABERMAS. n. 66). apoia-se numa anterior autocompreensão compartilhada por todas as pessoas morais (HABERMAS. requer uma justificação do tipo racional no qual se vê a primazia do justo sobre o bom. Habermas prossegue se propondo a fazer uma diferenciação dos tipos autoritários e liberal de eugenia.refere Habermas tenham sido definidas a partir de um contínuo processo de discussão entre os participantes de uma dada comunidade ou nas sociedades pluralistas e complexas através dos processes democráticos de discussão. É nesse sentido que Habermas não vê sentido na primazia do justo sobre o bom. O quadro no qual se insere essa discussão (as sociedades pluralistas. mesmo as éticas religiosas procuram de algum modo se articular a partir de uma autocompreensão antropológica com a moral autônoma ou racional. Habermas está traçando um paralelo entre duas formas de fundamentação da moral: uma de caráter metafísico-religioso e outra de caráter racional. Esse processo de intervenção tecnológica na natureza vai gerar no mundo da vida uma incapacidade de desdiferenciar o que é produzido do que se transforma por natureza.ISSN 1808-589X . A questão que Habermas considera fundamental responder a partir da perspectiva apontada pela discussão anterior é saber se a tecnicização da natureza humana altera a autocompreensão ética da espécie de tal modo que não possamos mais nos compreender como seres vivos eticamente livres e moralmente iguais orientados por normas e fundamentos. e que. Em seguida. segundo a qual a dominação da natureza faz com que a espécie volte a ficar a mercê da natureza” (HABERMAS. mas que. p. passa a tratar da questão acerca do crescimento natural e fabricação. É em diálogo com Hans Jonas que Habermas percebe outro modo de ver a questão. orientadas por um Estado Constitucional e sob a condição pós-metafísica) com vistas a uma autocompreensão ética da espécie. as páginas de revistas e jornais num movimento que oscila entre realidade efetiva e ficção possível. Dez. não se podem saber em absoluto. O desenvolvimento tecnológico. 2004). p. Adorno e Horkheimer e 18 Revista Mosaicum. mas reage de forma que a ação humana se torna imprevisível. 64). quais as reais consequências da natureza frente às interferências realizadas. Por um lado evita entrar na discussão entre as concepções dialéticas de Hans Jonas. Diz Habermas: “A adaptação das formas sociais de produção e circulação aos avanços científicos e técnicos certamente faz prevalecer os imperativos de uma única forma de ação. 14. as pesquisas com transgênicos e a criogenia têm ocupado os programas televisivos. Significando que a natureza não é passiva. 2011 . 2004. Habermas vê tudo isso como exemplos de um desenvolvimento que não pode ser mais harmonizado com a autocompreensão normativa. justamente a instrumental” (HABERMAS. Jul. pois “Jonas desloca a tecnologia genética para o contexto de uma dialética do esclarecimento. Aqui. pela qual ainda pautamos a nossa existência. ou seja. ao mesmo tempo. 2004). 2004.

Há. por enquanto (pelo menos à luz do dia). qualquer interferência se dá a partir do dado material. Obviamente. sem um consenso tácito. Dez. em determinadas circunstancias. no entanto. Habermas trata dos limites morais da eugenia. uma consideração pertinente acerca da pessoa que fora programada: uma programação eugênica de qualidades e disposições desejáveis suscita considerações morais sobre o projeto. entre o subjetivo e o objetivo. ele tem o direito natural de ser ele mesmo. no caso da eugenia. com vista a corrigir males ou deformações e que se supõe o consenso da pessoa quando estiver em fase adulta. em função do interesse de uma terceira pessoa. p. 14.ISSN 1808-589X 19 . nessa última parte. Habermas afirma que essas divisões confundem o corpo com uma coisa e não consideram que. 84). ficando essa questão aos interesses do mercado. p. Ele percebe que a biopolítica atual. 2004. portanto quando a restringe especificamente em sua liberdade de escolha de uma vida própria (HABERMAS. coisificado. arremata Habermas: A eugenia liberal precisa se questionar se. Quando a intervenção é realizada com fins não terapêuticos e como não há como saber se haverá consenso por parte daquele que sofre a intervenção.) com vistas a atender às mais diversas expectativas.parte para elaborar as diferenciações propostas. Habermas aponta como limite que “a liberdade eugênica dos pais tem a ressalva de não poder colidir com a liberdade ética dos filhos” (HABERMAS. n. 2004. 2004). etc. 2004. só é possível devido à postura neutra do Estado liberal. mesmo sendo um filho. cria-se uma expectativa dissonante entre o ser programado e aquele que decidiu sobre a programação (HABERMAS. não poderia ter consequências para sua conduta autônoma de vida e para sua autocompreensão moral (HABERMAS. Habermas concebe que os processos de socialização se dão somenRevista Mosaicum. Há. As decisões eugênicas. do sexo. nas sociedades liberais. porém. Por fim. 69). Para ele. no entanto. Jul. p. que podem optar pelo melhoramento genético da sua prole conforme com aquilo que está disposto no mercado. Isso. este pode-se considerar como tendo sido fabricado. O que é diferente da pessoa que sofreu interferência em função dos interesses de uma terceira pessoa. 2011 . têm se tornado prerrogativa dos pais. Inicia afirmando que nas sociedades liberais todo cidadão tem a liberdade de seguir seus planos individualmente e nisso não há diferença entre quem nasceu naturalmente e quem foi programado. o corpo humano. Por fim. quando ela instaura a pessoa em questão num determinado plano de vida. não tem demonstrado interesse em melhorar geneticamente a espécie humana. 74). da inteligência. distinções feitas entre a eugenia terapêutica. A interferência se dá de acordo com os interesses dos pais (definição da cor dos olhos. esse plano de diferenciação envolve as ideologias políticas. o fato de a pessoa programada perceber a ausência de diferença entre o que cresce naturalmente e o que é fabricado.

altera-se também o significado do ser si mesmo. Ressaltamos que essas garantias devem estar presentes no ordenamento jurídico das sociedades democráticas de direito. pudemos ver que Habermas tem uma posição bem clara acerca da intervenção genética em embriões e o uso de embriões para pesquisa. pois acredita que os processos de socialização inadequados podem ser revistos por meio de processos psicoterapêuticos. 2011 . perder o significado. O foco principal de Haberma. há que alterar também o modo como ela se compreende e conseqüentemente as regras e os princípios que regem o comportamento dos homens em sociedade e seus referenciais morais. com sua ânsia de 20 Revista Mosaicum. impedindo-a de se compreender livremente como o autor único de sua própria vida” (HABERMAS. Ele vê como problemática. também. a pessoa tornar-se autor da própria existência. 2004. que nós nos autocompreendemos e que não se pode deixar a critério do mercado. considerando-o naturalmente indisponível e intangível. Para Habermas. Destacamos. 87). Considerações Finais Neste ensaio. psíquica e simbólica da pessoa humana. Habermas deixa claro por meio de sua argumentação que não se opõe à pesquisa como parte do desenvolvimento do conhecimento humano.ISSN 1808-589X . em princípio. na medida em que os princípios e as leis prescrevem condutas e vaticinam penas às transgressões. sendo anterior à toda moral e todo o direito. p. mas pondera. é desenvolvida considerando-se as pessoas nascidas de modo natural. Ele se utiliza aqui da dimensão emancipatória presente na psicanálise. Com a programação genética surge uma relação assimétrica na qual o ser programado depende irreversivelmente de outra pessoa. 14. como também a autocompreensão ética da espécie e a estrutura jurídico-moral que. a eugenia liberal afeta não apenas o poder ser si mesmo. foi a alteração na autocompreensão ética da espécie a partir da intervenção genética. O direito apresenta-se como a garantia objetiva da moralidade. Sua argumentação nos possibilita entender o valor “sagrado” do ser humano. Dez. é a garantia moral por excelência. que ela rejeita. Há a liberdade de. o argumento da dignidade humana e a dignidade da vida humana que. por meio da crítica a esse processo. mas que são irreversíveis.te na ação comunicativa e como esse processo é um contínuo e não se pode prever in totum o comportamento de quem nasceu naturalmente e de quem foi produzido. n. No tocante à questão das intervenções eugênicas. Destaca que a moral tem a finalidade de proteção material. inclusive. ao longo do texto. a partir dos valores que faz. podendo. Como decorrência disso. afirma que elas “prejudicam a liberdade ética na medida em que submetem a pessoa em questão a intenções fixadas por terceiros. pois ao alterar a configuração natural da espécie humana. Jul.

br/serviços/salade-imprensa/36-notícias/1972-empresas-ganham-incentivos-para-investir-em-pesquisa>. Disponível em: <www. 5 Atualmente. Art. ou seja.ISSN 1808-589X 21 . 2°.406 de 10 de janeiro de 2002. J. Conhecimento e interesse. I. n. Porém. Um aspecto destacado por Pinzani é que Habermas parte de duas perspectivas sob as quais enfrenta o problema da eugenia.Tradução de Karina Janini.crescimento natural e fabricação e 5 – limites morais da eugenia. Rio de Janeiro: Guanabara. De acordo com Pinzani. Cf. Ele usa esses conceitos em sentido jurídico do ius ad rem e do ius ad personam. Acessso em: 15 maio 2011. para se contrapor a um modo de fundamentar do tipo religioso ou metafísico. o destino da espécie humana. 165) “ao referir-se ao conceito de “pessoa” como oposto ao de “coisa”. mas uma racionalidade comunicativa construída por um contínuo processo de comunicação entre pessoas livres e racionais com vistas a buscarem um consenso acerca dos problemas que afetam a todos enquanto participantes da espécie. HABERMAS. se diz “justificação” ao invés de “fundamentação”. ______. Entendemos que Habermas institui valores com características universais que implicam uma universalização dos direitos. 2 O conceito de pessoa utilizado por Habermas é dito em sentido pós-metafísico e pósreligioso. Muito embora não trate de uma tese cosmopolita ao modelo de Kant. no caso brasileiro a defesa legal é apresentada a partir do Código Civil lei n° 10. a uma delimitação da temática considerando que os argumentos centrais que mais nos interessam encontram-se nas divisões acima indicadas. A universalidade pensada por Habermas não é uma racionalidade do tipo racional proposta sob categorias lógicas sintáticas. Notas As partes a que me refiro são as seguintes: 1 – o que significa moralização da natureza humana. 4 . essas prescrições não garantem universalmente o respeito às orientações axiológicas nela presentes.” 3 A Carta aprovada em Nice que garante o direito a integridade física e mental e proíbe as práticas eugênicas e a clonagem humana. p. 1 Referências empresas ganham incentivos para investir em pesquisa. São Paulo: Martins Fontes. Dez. Tradução de José Heck. independe do contexto social e histórico no qual são formulados. na minha compreensão. 2004. 2 – dignidade humana versus dignidade da vida humana. (2009. Cap. 2011 . 4 No caso da Alemanha a Constituição determina que o feto deve receber proteção a partir da nidação. ele pensa no ser humano enquanto espécie. Revista Mosaicum. Jul. Esta última é a perspectiva que ele assume quando pretende a universalidade. 1987. Código Penal Alemão § 218.capes. O sentido de pessoa é dado pelo direito. Este recorte se deve. que são os aspectos da ética e da moral. O futuro da natureza humana. O sentido que utilizo para o termo “fundamentação” aqui é uma fundamentação do tipo procedimental uma vez que Habermas não supõe valores que não sejam construídos comunicativamente.lucro.gov. 14. ele não o está utilizando em sentido ontológico e não está sugerindo que a pessoa possui uma santidade e uma dignidade invioláveis.http://www. 3 – a inserção da moral numa ética da espécie humana.

22 Revista Mosaicum. 1999. In: Tempo Social. Rev. 1(1). Habermas./dez. jul. LEI n. Direito e moral. v. 14. A. Tradução deMárcio Suzuki. 2011 . Dez. Para o uso pragmático. Paulo. OLIVEIRA. Porto Alegre: Artmed.ISSN 1808-589X . USP. Natal. FELDHAUS. de 10 de janeiro de 2002. v.7. a.______. L. v. 10. Belo Horizonte: Fundamentos. FREITAG. Jul. 3 n./dez. Lisboa: Instituto Piaget.406. v. ética da espécie e seus críticos. Estud. Porto Alegre: EDIPUCRS. 1989 MOREIRA. de. n. 1993. B. A fundamentação do direito em Habermas. n. PINZANI. 14. ético e moral da razão prática. Editora Jurídica Atlas. Recebido em aprovado em outubro de 2011. A. Novo Código Civil. 2007. 1992. Sobre a fundamentação. M. Revista Princípios. S. C. Social. A questão da moralidade: da razão prática de Kant à ética discursiva de Habermas. 2009. ______. 22. São Paulo set. Habermas.

Por fim. personalism and the Transpersonal. Discute. Dez. através de três grandes concepções que buscaram criar uma norma justa para tutelar a dignidade humana: o Individualismo. O princípio constitucional “a dignidade da pessoa humana”. de Emmanuel Mounier. mas que repercute ainda na consolidação da Constituição Brasileira de 1988. it seeks to provoke a reflection on the achievement of dignity in the contemporary social system. por vezes. buscando compreender o conceito etimológico e jurídico dos termos Princípio. through three major concepts that sought to create a fair standard to protect human dignity: Individualism. por se tratar de conceitos centrais no processo de afirmação dos direitos individuais em nosso tempo. subjetivo e. A relação filosofia e direito é entendida como pressuposto das condições nas quais a ciência jurídica se mostra capaz de responder por meio da objetivação os anseios de liberdade e justiça que a filosofia sempre ressaltou de modo reflexivo. Dignity. 2011 . destacando seu papel basilar na constituição dos ordenamentos. n. Pessoa e Dignidade. It also discusses the principle on screen. o princípio em tela. requer considerável discussão não só jurídica como também filosófica para ser compreendido enquanto Revista Mosaicum. O primeiro momento deste artigo consiste em explorar os sentidos atribuídos ao termo “princípio” em seu contexto jurídico. A compreensão dos termos pessoa e dignidade também merece ser considerada em uma abordagem mais filosófica. Keywords: Principle Human. o Transpersonalismo e o Personalismo. Personalismo. Finally. contido no artigo 1ª. a partir de uma leitura filosófica baseada na obra Manifesto a Serviço do Personalismo (1967). Por fim.ISSN 1808-589X 23 . inciso III. person and dignity. Palavras-chave: Princípio. ainda. da carta magna 1988. 14. Dignidade Humana. Personality Introdução O presente trabalho visa apresentar o princípio constitucional “a dignidade da pessoa humana”. ideológico. Jul. visa provocar uma reflexão sobre a conquista da Dignidade no sistema social contemporâneo. filósofo francês dedicado à defesa da liberdade da pessoa humana frente aos regimes políticos totalitários que massacraram a Europa nas décadas de 1930 e 1940. propormos uma inserção no personalismo como corrente filosófica que influencia de modo sui generes a formatação dos códigos legais a partir do Pós-guerra europeu. Abstract: this article is a philosophical approach to the constitutional principle of “the dignity of the human person” seeking to understand the concept of legal and etymological meaning: Principle.Uma abordagem filosófica do princípio constitucional “a dignidade da Pessoa humana” The dignity of the human person Joelson Pereira de Sousa Cleonalto Gil Barbosa Faculdade Sul da Bahia Resumo: este artigo traz uma abordagem filosófica do princípio constitucional “a dignidade da pessoa humana”.

determina movimentos ou mudanças. como um imperativo que deve ser acatado.ISSN 1808-589X . Devem-se ressaltar as diversas contribuições de amplitude histórica. 14. 676). A palavra princípio tem. como o governo ou as magistraturas de uma cidade. 2011 . cabe mencionar que “os princípios gerais do direito têm grande importância no preenchimento das lacunas da lei. ou seja. princípio no ordenamento jurídico tem a função de resolver conflitos de normas. 2009. para dizer que se trata de um homem de virtudes.norma maior de tutela da pessoa humana. que se deve entender por princípio? (p. o dicionário filosófico registra ainda que princípio é o ponto de partida do ser. as premissas de uma demonstração. Dez. em face de seu caráter normativo à falta de lei ou costume aplicável ao caso concreto. consequentemente. não simplesmente para servir de aconselhamento ou orientação. que norteia o ordenamento jurídico brasileiro. se há um conflito de normas. evidentemente.” (ACQUAVIVA. da busca pelo equilíbrio jurídico. embora não se mostrando expressos. que são os conceitos de pessoa e dignidade. 676). como por exemplo. princípio é ponto de partida e fundamento de um processo qualquer. os princípios devem ser invocados. O valor do Princípio para o direito Antes de adentrar em uma análise acerca do princípio em tela. Contudo. Jul. faz-se necessário ter uma noção fundamentada do conceito de Princípio. mais bem compreendido. O vocábulo “pessoa” (per + sonare: ressoar) 24 Revista Mosaicum. em seu Dicionário de Filosofia. Se houver um conflito de princípios? A solução deve surgir a partir da apreciação do caso concreto e esta será oriunda da ponderação. Para Reale (2007). 2009. Segundo Abbagnano (2007). n. estamos empregando. Dentre outros significados. Por esse viés. mas. que.” (ACQUAVIVA. É oportuno também se referir à noção de princípios gerais do Direito que são “os que decorrem do próprio fundamento da legislação positiva. e outra de ordem lógica. cultural e filosófica que possibilitaram ao legislador e ao Direito adotar tal princípio como fundamento no qual o estado brasileiro constrói as suas bases jurídicas e sociais. p. Quando dizemos que um indivíduo é homem de princípios. o vocábulo na sua acepção ética. um sentido lógico. aquilo que parte de um processo de conhecimento. p. com a sua decisão. sobretudo. a palavra princípio tem duas acepções: uma de natureza moral. porém. constituem os pressupostos lógicos necessários das normas legislativas. Logicamente. o que. é o entendimento que deve nortear outros entendimentos. Pessoa e Dignidade como Valores para o Direito O princípio “a dignidade da pessoa humana” é formado por dois signos linguísticos que merecem atenção etimológica para ser interpretado com magnitude e. de boa formação e que sempre se conduz fundado em razões morais. 50-1). do devir ou do conhecer.

honestidade. “pessoa é o ente ao qual a lei atribui direitos e deveres. (Acquaviva.632). “Em Roma. p. mas sim distinto de qualquer equivalência.. traz como metalinguagem as seguintes expressões e palavras: “Autoridade moral. o termo dignidade possibilita ao ser humano viver em uma condição íntegra e “confortável” na sociedade ou que pelo menos o mínimo para viver lhe seja assegurado pelo estado e pela sociedade. 14. Aspecto também confirmado pelo dicionário de filosofia que registra o termo atrelado a ideia de dignidade humana. Portanto. p. segundo o dicionário Aurélio. Pode-se dizer. Como “princípio da dignidade humana” entende-se a exigência enunciada por Kant como segunda fórmula do imperativo categórico: “Age de tal forma que trates a humanidade. sendo assim mero objeto utilizado para representação teatral. op. 2009. Nessa perspectiva. Jul. 2011 . como faz o vocábulo homem. concomitantemente. por não apresentar aspecto excludente. tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro. ao afirmar o seu próprio “eu”... Incube destacar que para o ordenamento jurídico brasileiro. Vejamos: Dignidade. pois sua condição de ser dotado de moralidade e humanidade são únicas e não possui preço.” (ACQUAVIVA.origina-se do latim. respeitabilidade. É possível afirmar que. que “para que haja respeito à cidadania é preciso promover as condições mínimas de dignidade humana a fim de que o “cidadão” esteja cônscio de seus direitos e deveres. que só se revela quando o indivíduo entra em relação com os demais indivíduos e. n. 2007. a ideia de pessoa representa um elemento ético. honra. juridicamente. 630). o valor do “eu” dos demais. transcendendo os limites biopsíquicos da sua individualidade (REALE. o termo passou também a designar o próprio ser humano. ainda. inserindo-se de modo ativo no seio social. p.cit. p. 2003. 326).” (MOTA. persona era a máscara que cada ator de teatro usava durante a representação. 632). p. Com o tempo. 2009. persona passou a denominar o papel representado pelo ator. apresenta sinônimos que se traduzem na valoração do ser humano tanto em condições físicas como emocionais.] a máscara jurídica da personalidade que dá ao homem a possibilidade de possuir direitos”. “[. e com o argumento de que cada pessoa representa um ou vários papeis em sua vida. Dez. no cenário da vida real. representa melhor juridicamente o ser humano. 242). O termo pessoa. Respeito a si mesmo.36). Nesse sentido. DOUGLAS. 2009. Compreender a ideia de dignidade como imperativo categórico significa estabelecer que o ser humano não possui valor relativizado. é levado a reconhecer. a fim de que a sua voz ou a da personagem fosse identificada” (Acquaviva. brio”. Persona é.” (ABBAGNANO. como nos orienta o pensamento kantiano. no entanto.ISSN 1808-589X 25 . amor–próprio. é preciso destacar que o conceito de dignidade humana repousa na base de todos os direitos fundamentais Revista Mosaicum. p. sempre também com um fim e nunca unicamente como um meio. O vocábulo dignidade. decoro. decência. O que justifica a sua adoção pelo legislador no texto constitucional de 1988.

no entanto. Por esse viés. p. 2007. Dez. [. políticos e sociais). eles difundiam a ideia de que “[. sustentava que a ordem social para ser justa deveria buscar como resultado a satisfação do indivíduo.... 2011 . que para que um princípio como esse surgisse em uma Constituição Federal houve um debate político. 2005. o Transpersonalismo e Personalismo. Os adeptos dessa concepção difundiam a tese de que seria necessário “frear”. um direito de resistência. 2007. contesta a espontaneidade da proteção dos direitos coletivos mediante apenas tutela individual. por meio de normas sociais e jurídicas. denominada de Transpersonalismo.” (REALE. a liberdade humana para garantir a igualdade entre os seres humanos. Individualismo A primeira concepção. “Daí a tese de que o Estado deve ter uma função primordial e essencial que se esgotaria praticamente na tutela jurídica das liberdades individuais” (REALE.] desdobram-se as perspectivas jurídico-políticas de uma concepção societista e coletivista do justo. que precedeu o conceito de princípio da dignidade da pessoa humana e adotado atualmente.. Cada indivíduo possui uma capacidade de liberdade. 26 Revista Mosaicum. 14. Ele está em condições de orientar a sua própria vida. o bem social ou o bem comum. histórico e filosófico que faz jus a um estudo envolvendo três grandes concepções. p. sem se preocupar muito com a essência humana. principalmente. Transpersonalismo A segunda concepção. que buscaram criar uma norma justa para tutelar à dignidade humana: o Individualismo. É preciso salientar. 2007. realizando seu bem. apontadas por Reale (2007). reputando-se equívocas todas as teorias que apresentam a “pessoa humana” como bem supremo” (REALE. Tal satisfação denominada de Individualismo encontrou fundamento nos ideais políticos e econômicos do Liberalismo no qual pregava a intervenção mínima do poder estatal. p.] cada homem. Nesse sentido. n. Jul. como na Constituição Federal Brasileira de 1988. Consagra assim a Constituição em favor do homem. “[. os patrimoniais contra os excessos cometidos pelo poder estatal.) Na verdade.. Nesse panorama. 241).ISSN 1808-589X . cultural.] (CARVALHO.(civis. Ele é por si só depositário e responsável de sua própria existência. o Transpersonalismo buscava a primazia do todo sobre as partes.. os adeptos dessa concepção buscavam salvaguardar seus direitos. 384). É nessa seara de reflexão filosófica que o conceito de dignidade da pessoa humana buscou fundamento para tutelar o ser humano e nortear juridicamente os direitos e garantias individuais contidos tanto na declaração universal dos direitos humanos de 1948. realizaria. p. Eles fundamentaramse nos ideais socialistas e no marxismo que defendiam a preponderância de valores e práticas coletivas. 240. mediante automático equilíbrio dos egoísmos. 240).

Elas têm.. haja vista que elas possibilitam que a pessoa humana conquiste pelo menos o mínimo necessário para sua sobrevivência. o Personalismo. [. O filósofo Emmanel Mounier (1905–1950). a saúde. Por isso. 2007. em estado de poder atingir um máximo de iniciativa. portanto. a denominada de Personalismo é a mais filosófica porque. ainda. de vida espiritual (MOUNIER. Fundamenta-se em reconhecer que “[. Jul. o lazer. uma constante axiológica do justo. inciso IV.ISSN 1808-589X 27 . p. de responsabilidade. Nesse sentido. atribuindo-lhe valor espiritual.. diferente das duas anteriores. sobretudo. é possível afirmar que o Brasil é uma civilização personalista? Vejamos o artigo 6º Constituição Federal: “São direitos sociais a educação. essa concepção busca reconhecer a pessoa humana em sua essência. afirma.” Tais garantias constitucionais são uma forma de salvaguardar direitos personalíssimos. visando consequentemente o equilíbrio social. 14. p. n. na forma desta Constituição. assim. a sua adoção pelo ordenamento jurídico brasileiro. 2011 . O Projeto Personalista e a Dignidade Humana na Constituição de 1988 Pode-se dizer. o que justifica. 242). a alimentação. e à infância.. que é o valor da pessoa humana. limitar o ser humano ou suas necessidades a questões meramente ideológicas ou patrimoniais e. buscou criar uma harmonia entre a dignidade da pessoa humana e o poder do Estado. principalmente a partir da Constituição Federal de 1988. Nesse sentido. trabalho. Dez. já que não estabelece o predomínio dos interesses individuais ou o predomínio dos interesses coletivos. evitando. 81–106). em seu Manifesto a Serviço do Personalismo. buscou ser mais completa. a segurança. um dos idealizadores do projeto personalista. buscou superar as duas primeiras. numa constante investigação em favor de uma compatibilização entre o bem social e a integridade do indivíduo enquanto pessoa. que dentre as três concepções aqui analisadas.” (REALE.. uma harmonia entre a ordem social e a dignidade humana.Personalismo A terceira concepção. todavia. apresenta-se como mais completa na tutela do justo e da dignidade humana.] no trabalho de composição entre os valores do todo e os dos indivíduos brilha um valor dominante. mas busca. sobretudo. a moradia. que: Uma civilização personalista é uma civilização cujas estruturas e espírito estão orientadas para a realização da pessoa que é cada um dos indivíduos que a compõem. o artigo 7º que trata dos direitos do trabalhador. a proteção à maternidade. Por esse mesmo viés. quer dizer. complementa que: Revista Mosaicum. a previdência social. procura atuar analisando a circunstância de cada caso. 1967. por fim último por cada pessoa. a assistência aos desamparados.] diferente da simples soma dos interesses individuais e superior aos interesses do indivíduo considerado materialmente. A partir do que preconiza Mounier.

que procura salvaguardar a dignidade da pessoa humana por 28 Revista Mosaicum. é preciso também citar o caráter personalíssimo código civil de 2002. será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade. cabe ao Estado nessa situação tratar essa pessoa de “forma desigual”. Dez. 14. paradoxalmente. a fim de assegurar-lhe a saúde necessária à sua sobrevivência. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Nesse sentido. da Constituição Federal considera essencial para uma existência digna. cada pessoa terá o direito de invocar esse dispositivo constitucional quando se sentir de alguma forma desprotegida pelo Estado. n. Assim. já que visa ao desenvolvimento pleno da pessoa humana por meio do conhecimento. com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo. O texto constitucional. O que faz também o art. garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal igualitário às ações e serviços para sua promoção. fixado em lei. se um ser humano for acometido de uma doença rara grave. pois visa à tutela da dignidade da pessoa humana por meio do trabalho com remuneração capaz de atender as necessidades vitais do ser humano numa sociedade capitalista. tutelar a dignidade pessoa humana. O mencionado artigo. O artigo 205. sob pena de infringir um imperativo constitucional. cujo tratamento seja caríssimo. lazer. o acesso a uma educação de qualidade: A educação. alimentação. tem como finalidade assegurar direitos personalíssimos. saúde. preparando-o melhor o para o exercício da cidadania. nesse artigo. ou seja. Por esse viés. Sendo assim. E este será obrigado a garantir. sem fazer qualquer distinção. Vejamos o artigo 196 da Constituição Federal: A saúde é direito de todos e dever do Estado. 2011 . higiene.ISSN 1808-589X . direito de todos e dever do Estado e da família. nacionalmente unificado capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família como moradia. proteção e recuperação.O salário-mínimo. se ela é um direito de todos. Pode-se dizer que se houver um conflito entre o Estado e a pessoa humana deve-se buscar a ponderação. o acesso a um tratamento digno para essa pessoa. buscando dar um tratamento igual a todos. haja vista que o conhecimento permite ao ser humano conquistar qualidade de vida via trabalho. educação. O mencionado artigo que trata de tema intrínseco à dignidade da pessoa humana que é a educação. em seus diversos incisos. visando ao pleno desenvolvimento da pessoa. atribuiu à saúde como sendo elemento essencial para garantir o direito à dignidade humana. Jul. vestuário. transporte e previdência social. este artigo também é personalíssimo. é um direito personalíssimo. e que esta esteja sempre a serviço da proteção à vida humana. sem sombra de dúvida. 5º da Constituição Federal ao tratar “dos direitos e deveres individuais e coletivos” buscando. sendo vedada sua vinculação para qualquer fim.

meio dos direitos da personalidade previstos entre os art. Jul. cujas raízes sociais estão fincadas na “meritocracia” e no sucesso individual. Nicola. mas mesmo assim. E são essas discussões que vão nos permitir trilhar na busca constante por uma norma justa para assegurar a dignidade da pessoa humana. habeas data. vale frisar. Dicionário jurídico Acquaviva. A ideia de dignidade humana. Mas devemos ser otimistas.ISSN 1808-589X 29 . SP: Rideel. o Brasil ainda é um país que despreza muito os seus cidadãos. mandado de injunção etc. Alexandre. educação. Cláudio. qualquer cidadão sabe qual é o mínimo necessário que precisa para ter uma existência digna.. a dignidade da pessoa humana ainda é uma conquista individual e não uma garantia legal de um direito. estamos distante daquela civilização personalista arquitetada por Mounier. n. ed. pois estamos no caminho. 81–106. SP: Martins Fontes. doutrina e jurisprudência. contidos no artigo 5º: habeas corpus. porque. mandado de segurança. jurisprudência e 1000 questões. G. 2007. 2005. os mais humildes e os que tiveram menos acesso a uma educação de qualidade. apesar de ser um conceito filosófico e abstrato. MOUNIER. Emmanuel. Belo Horizonte: Del Rey. DOUGLAS. e a conquista da dignidade perpassa por uma briga árdua. 4. MOTA FILHO. M. 2003. Sylvio Clemente da. cultura e um salário capaz de atender as necessidades básicas de cada ser humano. em diversas situações. Rio de Janeiro: Impetus. São Paulo: Livraria Moraes Editora. Manifesto a serviço do personalismo. pois o individualismo ainda é uma constante. apesar de termos uma constituição personalíssima que visa ao pleno desenvolvimento da pessoa humana via saúde. Dez. ed. ou seja. ed. 2011 . também. mas mesmo assim. mas também por meio da “consciência coletiva” e da convivência social. Infelizmente. Introdução à filosofia. são muitos que não conseguem ter acesso a esse mínimo. não só através de leis. Às vezes. 1ª a 5ª da Constituição da República Federativa do Brasil. comentários aos arts. Direito constitucional: teoria. é do conhecimento de todos. principalmente. 12. MORAES. Parte II. notados pelos aplicadores do texto constitucional e pela sociedade. Dicionário de filosofia. os “remédios” constitucionais. K. Atlas. 1967. 2007. Considerações finais A Constituição criou. 2009. Referências ABBAGANANO. sobrevivem em condições degradantes e não são. São Paulo. 5. p. 3. 14. CARVALHO. William Resinente dos Santos. ACQUAVIVA. Revista Mosaicum. 11 a 21. ed. Recebido em aprovado em outubro de 2011. ed. Direitos humanos fundamentais: teoria Geral. no exercício da convivência social. São Paulo: Saraiva. Direito constitucional. Miguel. REALE. 8. 2007.

with the gradual increase of poverty due to the collapse of the State against the “Age of Neoliberalism”. Na leitura do senso comum. marginalidade. Based on research pointing to their origin and intensified. Neoliberalism.. (SKANK. 2011 . Introdução Eu tô cansado de dar esmola Qualquer lugar que eu passo É isso agora. e perpassam sobre ele preconceitos associados à vadiagem. by increasing urbanization / industrialization. pela crescente urbanização/industrialização. Questão Social. nos indagamos se estas pessoas “pedintes” esmolam por “precisão” ou “acomodação”. Poverty. precisamente nos anos 1990. Palavras-chave: Mendicância.ISSN 1808-589X . como também o de 30 Revista Mosaicum. n. Social Question. 14. vagabundagem e periculosidade. Dez. we ask ourselves if these people “beggars” begging for “precision” or “accommodation “. Pobreza. precisely in the year 1990. 1994). Neoliberalismo... Abstract: The axis of discussion is the mendicancy as one of the expressions of the social question. Uma esmola pelo amor de Deus Uma esmola Meu! Por caridade. a imagem do mendigo aparece como um indivíduo totalmente à margem da sociedade. Com base em pesquisas que relatam a sua origem e o seu agudizamento. excluído do acesso a bens e serviços. Jul. Cd Calango. Key-words: Mendicancy. com o aumento gradativo da pobreza..Dar ou não dar: eis a mendicância como Questão Social Give or not give: this is the mendicancy as a social question Sebastião Costa Andrade Universidade Estadual da Paraíba Alanna Mendes de Assis Roseane da Silva Sousa Universidade Federal da Paraíba Resumo: O eixo de discussão deste artigo é a mendicância como uma das expressões da Questão Social. devido ao desmoronamento do Estado face à “Era do Neoliberalismo”.

para a cachaça. 2003). para adquirir um outro produto distinto daquele que se pede: uma moeda para um pão. a magreza exprime sua fome. que propicou o cresscimento e a urbanização das cidaddesse e estimulou a passagem de grande parte da população que vivia na zona rural para as grandes cidades. inúteis. tratou-se de uma ilusão. Jul. Aqueles que são denominados de vadios recebem tal rotulação pelo fato de acharem a atividade de mendicância muito mais prática. optando assim por ingressar nesse meio. como os distinguiremos daqueles que apenas querem se alimentar? Mas erá essa mesmo a questão crucial? Retrocedendo um pouco sobre a história da mendicidade.. cujos traços familiares transparecem quase estereotipados. não encontram outro meio de obter renda suficiente para suprir suas necessidades básicas. ou por não ter tido possibilidades e oportunidades de ascensão social. que desenvolvem atividades informais. hagiógrafos. que acarretou no agudizamento das configurações da questão social e. refletindo um pouco sobre a situação precária pela qual passavam esses miseráveis indivíduos. Michel Mollat (1989). Dez. Assim. A nudez significa a indigência total. mais do que a submissão ao patronato. afirmou que “o pobre verdadeiro era aquele que permanecia membro de um grupo. ou até mesmo de satisfação. desqualificados socialmente. e são comumente consideradas improdutivas. Com isso. Entretanto. embora esteja frequentemente em movimento. isolado ou Revista Mosaicum. mas como meio de comodidade. Nesse sentido. nos textos e na iconografia. consequentemente. pregadores e cartas para designar... [. um disseminador da desordem ou um propagador de epidemias”. Esses detalhes iconográficos correspondem. continua ele: se haviam estruturado os personagens do deficiente e do pobre. Compreendemos. elevou o número de miseráveis e famintos nas cidades.que seja sujo e/ou coitado. praticam a mendicância pelo fato de não se inserirem no mercado de trabalho. em busca de melhores condições de vida. existem pessoas mal intencionadas que recorrem à mendicância. que esses indivíduos. pois a industrialização sincronizada à urbanização trouxe um gradativo aumento da pauperização. senão não poderão se sustentar na sociedade capitalista. a presença do cão evoca a ausência de companhia humana. às vezes de modo fugidio. nem todos os praticantes dessa atividade podem ser considerados meros vagabundos. as deformidades e o bastão traduzem as deficiências fisiológicas. Por isso. O errante. entretanto. enquanto o número de mendigos representa a multidão dos pobres. n. às expressões e termos utilizados por cronistas. De fato. o esmolar. vivendo com os escassos recursos de seu trabalho humilde. preguiçosas e vagabundas (MATTOS. o mendigo. Mattos designa vagabundo como pessoas sem trabalho. as úlceras. em geral. os mendigos. 14.. Para alguns. não apenas para suprir àquelas necessidades básicas suficientes para se manterem vivas. antes. lembremos que esse fenômeno se intensificou no processo de industrialização.. 2011 . isto é.ISSN 1808-589X 31 .. o pobre e suas misérias. o desclassificado seria um rebelde.] O pobre anda sempre descalço. já que muitos realmente necessitam agir dessa maneira. marginalizados.

]” (Araújo. a grande massa de desempregados.ISSN 1808-589X . nas tarefas inferiores. assim como também a assistência do próprio Estado. as leis. espelhando a desigualdade social diante do desmoronamento do Estado frente aos ajustes econômicos. crítica e avaliativa Nosso foco principal neste artigo se delineia. posteriormente. mas também vivendo em estado de ansiedade.. 2011 . com o agravamento da questão social ocasionado pela redução dos empregos manuais. é nessa fase do Neoliberalismo que se agudiza e cresce no cenário cotidiano. na maioria das vezes subumana em que 32 Revista Mosaicum. à entrada das cidades.. aprendendo pouco. 2000. sabendo pouco. sobre a mendicância. p. nos ‘bicos ocupacionais’. falta de higiene. pois mediante a situação. período marcado pelo amadurecimento e expansão do Capitalismo de base neoliberal e. de acordo com Mota (1988). Sobretudo. são impedidos de ter acesso a certos lugares. discriminadas e rejeitadas pelo modo de vida ao qual são submetidos. com a burocracia estatal para a supressão de direitos sociais e trabalhistas. a sociedade e todo tipo de regras. Há alguns que. Dez. assim. nem ousam se aproximar de locais que possam ameaçar a sua natureza como individuo. Tanto o “pobre verdadeiro” quanto os “falsos” são escamoteados diante de uma sociedade moralista. contribuindo para a intensificação de trabalhos informais. Jul. para quem a “mendicância é uma forma de obtenção da sobrevivência e se dá no limite possível do processo de expropriação do trabalho nas sociedades de classes. Como consequência disso. para o termo de “moradores de ruas” ou “moradores em situação de rua”. 2001. resultantes do desenvolvimento de novas tecnologias. Mendicância: uma abordagem sistemática. substancialmente. os desempregados têm de se desdobrar no mercado informal. em que há vestígios de um gradativo aumento dessa população. Segundo Pereira (2001). neurose. indubitavelmente. [. geralmente. As pessoas que estão em situação de rua são. 14. privilegia “mecanismos de privatização”. a palavra mendigo desliza-se. à soleira dos mosteiros e castelos (MOLLAT. criminosos e subversivos quanto à ordem estatal. p. expresso pelos “bicos temporários”. sofrimento e insegurança social (PEREIRA.em grupo. ganhando pouco. tornando-se. desigual e excludente como a nossa. 1989. mas fica à porta. etc. de fato. Na atualidade. que. É nessa fase que cresce. 63-4). isso se expressa pelos seus trajes. 3). fragmentadas. diante de tantos constrangimentos. incertas. novos contingentes da população que ingressam o circuito da miserabilidade. de forma vertiginosa. ou seja. Já os “falsos pobres” são classificados como aqueles que negam a família. 53). p. n. linguajar informal. desde a crise social da década de 1980. Concordamos com Neyára Araújo (2000). na maioria das vezes. Frequentemente.

E como fica o respeito ao Estatuto do idoso e o Estatuto da Criança e do Adolescente? O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). que como destaca Telles (1992): Revista Mosaicum. Isso faz com que essa classe de desqualificados sociais recorra a essa forma de sustento. Essas ações do Estado. agravando muito mais a condição social em que se encontram.ISSN 1808-589X 33 . documentos. 60. de identidade como classe que possui direitos garantidos em lei. deixando claro. cobrarem por acesso a programas governamentais. estão passíveis de sofrer preconceitos. o acesso aos serviços e programas governamentais e o exercício da cidadania. são deveres dele.8% das pessoas em situação de rua não possuem quaisquer documentos de identificação. disponibilizadas pelo Estado.não possuem. e sim para a manutenção e reprodução do Capital. adolescentes e até mesmo idosos carregando em seu cotidiano a tarefa de sair às ruas para esmolar. sim. a falha no que concerne ao cumprimento das normas instituídas em leis. n. eles não são inseridos em Políticas Sociais. refletindo um Estado de descompromisso para com seu povo. particularmente aos mendigos. pois. Jul. salvo na condição de aprendiz”. assim.dados do MDS . preconiza que “É proibido qualquer trabalho a menores de quatorze anos de idade. pois como mencionamos acima . Sob essa lógica. Mais uma vez. na verdade. O mesmo pode ser considerado quanto ao idoso. se sequer se reconhecem como sujeitos de direito? Essa. na maioria das vezes. em sua maioria. como pessoas desvalidas da assistência do Estado e das Organizações Assistencialistas. ou até mesmo. então. ou até mesmo. de conformar a classe trabalhadora frente à reprodução do capital. pela falta de conhecimento. como forma de conter. 24.se encontram. eles se acomodam. subordinam cada vez mais o individuo ao sistema capitalista. em forma de políticas públicas. percebemos que a sua intenção não é de contribuir para a emancipação da classe subalterna. chegamos à questão da exclusão social. As Políticas Sociais são consideradas resposta às expressões multifacetadas da questão social. do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS). em seu Art. o que dificulta a obtenção de emprego formal. em sua maioria. quando. percebemos crianças. Nesse caso. Ao olharmos para esses indivíduos. destinadas a essa refração da Questão Social. De acordo com Pesquisa Nacional sobre a População em Situação de Rua (2008). e não mendigando. como as “bolsas”. 14. Isto se dá pela comodidade de sua situação. deduzindo que o Estado está sendo “bonzinho”. Em virtude disso. O que vemos nas nossas ruas é a crescente elevação da taxa de mendigos. que vivem da solidariedade das pessoas. a criança deveria estar na escola. que os vêem. Dez. Como podem. seria a questão crucial. podemos concluir que muitos deles são excluídos do acesso a Serviços Sociais. 2011 . Quanto aos sujeitos em situação de rua.

estigmatizados como indivíduos ameaçadores. em uma gradativa condição de exclusão social. e as mulheres com bebês no colo. No ato de mendigar. o desemprego se torna uma consequência natural. muitas vezes. visto que. Há os velhos. 7). Todos têm em comum os andrajos com que se vestem e a fuligem da pobreza que lhes cola à pele.ISSN 1808-589X . Fazem papel de pequenos palhaços involuntários no show das esquinas. Isso deixa uma parcela de desqualificados sem empregos. vadios e presos à ociosidade. padrões exigidos pelas novas formas de trabalho. De uns tempos para cá elas se especializaram em fazer malabarismos à frente dos carros. Há as crianças. e considerados como “não cidadãos”. 1992. diante de uma sociedade capitalista. 2011 .exclusão social constitui um fenômeno multidimensional que não se restringe à insuficiência ou ausência de renda. 2003). seja para alimentar certos vícios. nes34 Revista Mosaicum. quatro ou cinco bolinhas. Algumas são realmente competentes na arte de manter no ar três. marginalizados. podemos notar que a banalização da pobreza não choca mais como antes. há aqueles que recebem a contribuição de forma à vera. constrangimentos. nem arquétipo adequado. como indivíduos fragilizados. por diversas vezes. e submetidos ao relento. Demonstram que tiveram sagacidade e persistência para aprender. já que pedir. 14. e há também aqueles que agem simuladamente. sem a proteção do Estado. É necessário destacarmos que. já que. Outras vão mal. sinais do desvio social em que estão metidos (TOLEDO. há os que se apresentam em cadeiras de rodas ou muletas. sobretudo. com o exército industrial de reserva. esse contingente de desempregados aumenta ainda mais. p. e até mesmo são vítimas de violência física. diante da mendicidade. n. já que se distanciam cada vez mais do padrão exigido para se viver em uma sociedade consumista. O que explica essa falta de oportunidades é ofatode a sua maioria não ser mão de obra qualificada. mas expressa a combinação de várias desvantagens que impedem o excluído de pertencer à sociedade e de nela ser reconhecido como sujeito de direitos (TELLES. se tornam constantes alvos de repressão e de todo tipo de brutalidade. passados despercebidos. pois Nada mais familiar aos brasileiros do que as esquinas cheias de gente pedindo esmola. passam por humilhações. Dez. ou mesmo por falta de “coragem” para vender sua força de trabalho. os pedintes. É importante ressaltar que. Considerações finais Diante da exposição feita neste estudo. que vêm acompanhada com o Neoliberalismo. São. não ter estudos. Jul. É natural passar pelas ruas aglomeradas e se deparar com uma “horda” de miseráveis e pedintes de todos os tipos. o que pode ser sinal de talento também para outras coisas na vida. constrangedoramente mal. Entre os pedintes. muitas crianças. Percebe-se que a população em situação de rua vive em cima dessa linha de sujeitos à margem da sociedade. os bêbados. os barbudos.

Os lugares pelos quais a abordagem se torna mais frequente são as residências e os centros das cidades. torna-se bem mais proveitoso e cômodo. mas a multicausalidade. mas passível de transformação. achando que fizemos um favor ao pedinte. atraídos pelo intenso fluxo de pessoas. Entretanto. Esses indivíduos precisam sair do estado de “paisagem” que compõe as ruas e avenidas. Jul. Assim. Muitas vezes.te caso. 14. quando abordados. Sobretudo. Em suma. quando. Esse é o grande problema de dar esmolas sob a lógica da moralidade: não supera a situação. Devemos situá-la como problema que tem solução. certamente no movimento social de sua superação em direção a um outro mundo (social) possível. já que. percebemos que não poderemos continuar inertes diante dessa da Questão Social tão esquecida e “naturalizada”. o ideal seria “dar a vara e ensinar a pescar. de moléstias. Revista Mosaicum. caso contrário. Dentro desse prisma. ao invés de dar o peixe”.ISSN 1808-589X 35 . na verdade. sim. damos um trocado e vamos embora. nessa sociedade dita social-democrática. altivos e satisfeitos. o governo precisa priorizar sua atenção para se ter maior eficiência na execução de políticas de combate à pobreza. Destarte. entre outras urgentes. É sabido que dentre esses mendigos profissionais existe um contingente que se vale da idade avançada. Outro ponto debatido foi a questão do livre arbítrio das pessoas abordadas em dar ou não esmolas. Existem diversas reações e perguntas acerca da real necessidade proferida pelos abordantes. de geração de emprego e renda. estamos fazendo-lhes um grande mal. voltados a um plano de ação para conter as desigualdades de classes. as pessoas se questionam: realmente eles necessitam? Como será usada a contribuição recebida por eles? Por que não trabalham ou procuram “bicos temporários”? E em relação aos ditos “inválidos”. mas a alimenta. existem aqueles realmente necessitados da solidariedade humana. Para que haja uma intervenção mais eficaz das políticas públicas deve existir uma intersetorialidade de programas. 2011 . outros usam desa solidariedade apenas como solução emergencial e transitória. deslocando-se da margem que se encontram e se inserir como sujeitos conscientes. e há ainda aqueles que transformam o “pedir” em profissão. serão mesmo vítimas dessa moléstia? Diante de tantas indagações. já que ela se mostra tão escancarada no nosso cotidiano. há a vantagem de receber benemerências em forma de dinheiro. n. nos centros é maior o número de pedintes. difícil. Dez. deformidades físicas e/ou até mesmo de filhos menores para subsistir à custa da caridade alheia. fica-se a dúvida: dar ou não dar? Eis a questão! Mas essa não é a questão real. O fundamento para se explicar a pobreza não está relacionado apenas a uma questão monocausal que entrelaça a pobreza à insuficiência de renda. pois no momento é a única ajuda que lhes oferece.

. Elaine Rossetti.com. – Brasília: CFESS/ABEPSS. PEREIRA. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. População adulta de rua: a perversa exclusão social. 2005.politicasuece. de OB a 11/04/2000. Recebido em aprovado em outubro de 2011. MOLLAT. 3. seção 1. limites e desafios. 84. Ceará: UECE. In: Serviço social: direitos sociais e sompetências profissionais. VEJA. Serviço Social & Sociedade.. php?file.RBCE. Disponível em: www.pdf TELLES.3. 2. BRASIL.Acesso em: 15 maio 2011. Larissa Dahmer. Rosana Amador. _____.. São Paulo: Companhia Editora Nacional.cpihts. Questão social e direitos. Disponível em: http://www. Bauru. Walquíria Alves. Michel.ISSN 1808-589X . Os herdeiros da miséria: o cotidiano de mendicância no centro de Fortaleza. Brasil. 69-86) _____.br/media/pdf/mendicancia. Concepções sobre pobreza e alguns desafios para intervenção social. Ivanete. 2008. v. RAMOS. P. SP: Cortez. 2008. Brasília: Editora do Ministério da Saúde. 12 fev. Pesquisa nacional sobre a população em situação de rua. GOMES. CARNEIRO. In: Serviço social: direitos sociais e competências profissionais. Potyara A. Política Social: fundamentos e história. 2010. ed. 2005 . Expressões políticas da crise e as novas configurações do Estado e da sociedade civil. Santos. (Série E. Dez. jan/jul. 2008. Jul. Grafline. 7. Ministério da Saúde. 2004. S. Valney Rocha. Os pobres na Idade Média.M. Brasília. C. 2001. Legislação de Saúde). n. BOSCHETTI. Goiânia. A cidadania inexistente: incivilidade e pobreza. n. Revista. V da S. Políticas públicas de assistência social brasileira: avanços. 3. 2011 . Brasília: ABEPSS.. Texto apresentado no IV Congresso Internacional da Rede Brasileira de Cooperação em Emergências . CEGALLA. 36 Revista Mosaicum. Mendicância. 2003. Rio de Janeiro: Campus. a. Estatuto da Criança e do Adolescente.B. Unidade I. Brasília: CFESS/ABEPSS. p. Disponível em: www. 1989.rartreinamentos. Dicionário escolar de língua portuguesa.pdf. 14. São Paulo: Cortez. Anais. Temporalis. Edição 1 789. 2009.com/v6/admin/alunos/download. ed. Política nacional para inclusão social da população em situação de rua para consulta pública. 1992. 2001. Dissertação de Mestrado. n. PERREIRA. 88p.Referências BEHRING. 2009. ______.2) BRASIL.L. 2001.com. (Biblioteca básica de serviço social. MACIEL. 96 p. Doutorado. Domingos Paschoal.M.

is the literary work which will be focusing in order to reflect the respect of the presence of this game. lançaremos mão do postulado de Wolfgang Iser. nem perda. diante da provocação do autor. O leitor. para quem o texto é composto por um mundo ainda a ser decifrado. To expound on that game. for whom the text is composed of a world yet to be deciphered. também contemporâneo. In this sense. o texto pretende discutir a profícua relação entre autor e leitor.G. DE W. Nesse sentido. por seu turno. by Sebald Valci Vieira dos Santos Universidade Federal Fluminense Resumo: O autor contemporâneo. Os emigrantes. e por isso incita o leitor a ativar na imaginação. a fim de refletirmos a respeito da presença desse jogo. em cuja interlocução se trava um jogo: o jogo textual. de Sebald. SEBALD The textual game between author and reader in The emigrants. é a obra literária sobre a qual debruçaremos. Jogo textual Abstract: The author increasingly contemporary works with the indeterminate. 2011 . Wolfgang Iser A literatura contemporânea tem-se revelado um caleidoscópio cujas imagens se multiplicam à medida que o leitor tenta desvendá-la.ISSN 1808-589X 37 . Textual game O jogo do texto não é nem ganho. Dez. the text you want to discuss the fruitful relationship between author and reader. Ao tentar desvendar as muitas possibilidades que o texto literário coloca à sua disposição. deixa de ser mero “receptor” e passa à posição de sujeito ativo. Palavras-chave: Autor. by Sebald. n. ambiguous. The emigrants. o inacabado e com a desconstrução na constituição de sua obra literária. cease to be mere “receiver” and passes the active subject position. esse leitor se vê preso a um emaranhado de emoções. mas sim um processo de transformação das posições. we will launch the hand of the postulate of Wolfgang Iser. o ambíguo.JOGO TEXTUAL ENTRE AUTOR E LEITOR CONTEMPORÂNEOS EM OS EMIGRANTES. the unfinished and with deconstruction in the formation of his literary work. trying to interpret it. trabalha com o indeterminado. also contemporary. de Revista Mosaicum. and therefore encourages the reader to turn in the imagination. tentando interpretá-lo. Reader contemporary. Keywords: Autho. Para discorrer sobre esse jogo. The reader in turn before the author’s provocation. Jul. 14. Leitor contemporâneo. que dá uma presença dinâmica à ausência e alteridade da diferença. in whose interaction if hangs a game: the textual game. cada vez mais.

o que acaba por deixá-lo quase que permanentemente em estado de desassossego. 2002. pela primeira vez. fomos buscar no teórico e analista da estética da recepção. de modo que. mas profundo texto “O jogo do texto”.] Assim o texto é composto por um mundo que ainda há de ser identificado e que é esboçado de modo a incitar o leitor a imaginá-lo e. 107). Dez. Breisgau. publicado originalmente em 1992. o processo de transformação das posições com sua consequente troca de papéis. Pois não importa que novas formas o leitor traz à vida: todas elas transgridem – e. já que ele também foi um emigrante.. p. no entanto. 2011 . fundamentos para compreendermos a complexa construção que gira em torno da tão intrigada equação autor-texto-leitor. cuja seleção. a interpretá-lo. deixando-o sempre num estado de prontidão. Essa dupla operação de imaginar e interpretar faz com que o leitor se empenhe na tarefa de visualizar as muitas formas possíveis do mundo identificável. mas se vê desafiado frente ao jogo que é estabelecido entre ele e o texto. 14. modificam – o mundo referencial contido no texto. (Iser apud Lima. daí. inevitavelmente. na contemporaneidade. Ao depararmos com o seu “pequeno”. em sua biografia. coordenação e tradução se devem a Luiz Costa Lima (2002). cujo diálogo reflete o constante devir. de Sebald.ISSN 1808-589X . ao invés de se constituir num motivo para minar suas forças. portanto. Ora. revelando-lhe. acaba por renová-las. difícil foi para nós tomarmos posse de todas as informações contidas naquele “pequeno/grande” texto.. Wolfgang Iser. Já em seus primeiros parágrafos. Wolfgang Iser nos presenteia com opiniões fortes sobre o jogo que o autor trava com o leitor. a partir do momento em que deixou sua terra natal para estudar literatura em Freiburg. sentimo-nos um tanto encorajado à releitura de Os Emigrantes. Para “jogarmos” melhor com o texto de Sebald. alguns aspectos de sua vida. o mundo repetido no texto começa a sofrer modificações. Trata-se de uma das grandes obras literárias de Winfried Georg Maximilian Sebald. escritor alemão nascido em 18 de maio de 1944. Assim. em 2002. O leitor contemporâneo. por fim. Os Emigrantes. [. valem a pena buscarmos. quanto mais se sente provocado. Ao refletirmos sobre essas e tantas outras expressivas palavras do autor. Jul. distrito do Aligäu. n. “Escutamo-lo”: Os autores jogam com os leitores e o texto é o campo do jogo. embriagamo-nos diante da sucessão de colocações lúcidas a respeito da inter-relação autor-texto-leitor. o jogo da construção e reconstrução. publicado na obra A literatura e o leitor: textos de estética da recepção. O estado de desassossego. No segundo ano do 38 Revista Mosaicum.inquietações. foi lançado no Brasil. Nesse sentido. em Wertach. a relação entre autor e eleitor se dá no campo performativo.

cuja originalidade é flagrante. autobiografia etc. “Os emigrantes” segue esse diapasão.ISSN 1808-589X 39 . Ao longo das quatro narrativas constantes de Os emigrantes. e se transfere para a Suiça francesa. diário de viagem. usos e costumes de seu povo. para Manchester. abandona-o. Preocupa-se mais em reunir tudo aquilo que. melancolia. Já aí nos damos conta de tratar-se de um dos grandes escritores do século XX. atravessou a vida do narrador. Impelidos pela necessidade da partida. as peças de cunho histórico que não possuem tanto sentido nem tanta importância. e focaliza personagens prenhes de solidão. portanto. Gallen. W. Assim. As trajetórias abordadas se voltam para a história contemporânea da Europa. n.curso. eivado de problemas advindos de momentos históricos conturbados – o século XX se apresenta para o homem como um período de grandes promessas. 2011 . que passa a ser a tônica das quatro narrativas: cada uma delas centrada num personagem que. pois somos tentados. numa demarcação clara de estranheza. melancolia e saudade. ao depararmos com a obra de Sebald. No universo da obra. com uma estrutura narrativa/imagética nada tradicional. Sebald é autor de refinada e exuberante prosa ensaística (?). longe de familiares. encontramos o narrador que sai ao encalço de parentes emigrados no pósRevista Mosaicum. em Norwich. Jul. também. 14. Recolhe. não tem grande significado. bem como de suas andanças pelos mais diferentes lugares. em algum momento. após atuar durante um ano em St. exilados ou refugiados. uma das primeiras dificuldades e estranhezas que sentimos. escola secundária. o desajuste com o mundo contemporâneo. em seguida. atuando como professor até 1969. Volta à Inglaterra. para tornar-se professor-assistente de Literatura Comparada na Universidade de East Anglia. especialmente o Holocausto e a Segunda Guerra Mundial. cujo alvo não contempla a recolha de grandes episódios. a exemplo do povo judeu. contos. carregado do discurso ideológico do progresso e mascarado pelas perspectivas de um futuro que apontariam soluções para os graves problemas humanos de então -. deixam seus lugares de origem e passam a tentar a vida em países distantes. o discurso dos grandes feitos. reside no fato da impossibilidade de classificála. Aqui. Dez. Ao contrário. sofrimento e deslocamento. Migra-se. social ou econômico -. emigrantes. quando retorna à Suiça. A narrativa construída por Sebald parece-nos fugir desse fio condutor que empresta às grandes narrativas. aparentemente. e que não são legitimadas pela chamada história oficial. até porque nos deparamos. quase sempre. seu narrador é uma espécie de narrador sucateiro. G. a traçar rótulos. romance. Aliás. fornece o húmus necessário para que o narrador construa um trabalho de investigação também biográfica de seus personagens. o leitor dá de cara com as primeiras regras do jogo textual. pois lhe é difícil pretender inseri-la em algum estatuto literário: ensaio. a exemplo dos épicos. não importa qual o motivo – se político. onde é habilitado com uma Licenciatura em 1966.

A tensão se estabelece quando vêm à tona lembranças desse passado doloroso. aprioristicamente. O texto. Em 1960. 27). p. Isso decorre do fato de o narrador inventariar os escombros do passado. marcado por eventos trágicos. o jogo textual entre as partes que formam a imbricada equação literária: autor-texto-leitor. E o diálogo entre fotografia e narrativa acontece à medida que o(a)s fatos/histórias são delineado(a)s. Remetemo-nos. 40 Revista Mosaicum. São vidas despedaçadas pelos mais diferentes eventos que a história se encarregou de registrar. nos chama a atenção para o fato do autor combinar fotografia e narrativa. É como se a fotografia anunciasse o que está por vir e. por intermédio da vida pregressa de cada personagem. nascido na Lituânia e emigrado para Londres aos sete anos. com a fotografia que abre a primeira narrativa. Colocamos. a Henry Selwyn. na cidade de Praga. complementasse as imagens colhidas do texto impresso. um cemitério judeu. as imagens colhidas de nossa memória e as visualizadas na obra. Temos a impressão de que a fotografia convida o leitor (e convida mesmo) a refletir. quer dar conta de historiar a vida de um médico aposentado. por exemplo. chamada “Dr. Ao depararmos. Outro cariz que merece relevo diz respeito ao relato de memórias que continuamente se acham em tensão. mesmo se quisesse. quando tivemos a oportunidade de visitar. nesse sentido. quando diz que o jogo. sobre a qual eu não seria capaz de dizer nada. com sua flagrante dificuldade em relatar fatos que o machucam: Os anos da Segunda Guerra e as décadas seguintes foram para mim uma época cega e nefasta. de modo mais intenso. começa quando a assimilação desloca a acomodação no uso dos esquemas e quando o esquema se converte em uma projeção de maneira a incorporar o mundo em um livro e cartografá-lo de acordo com as condições humanas (apud Lima. A primeira das quatro narrativas longas. em 1899. tenta também re(costurar) a saga de famílias que deambulam por espaços os mais diferentes possíveis. e por isso mesmo propensos a serem olvidados. juntamente com o discurso construído nas linhas e entrelinhas da narrativa. (p. Com compaixão (des)medida. quanto tive de abrir mão do meu consultório e dos meus pacientes. segundo enunciado da própria obra. ao mesmo tempo. a respeito do que se pretende narrar no decorrer das linhas. Estas se tornam mais intensas. Jul. o texto. Instaura-se. voltamos incontinenti ao passado. num processo de ativação. 14. Refere-se. Dez. procedimento esse que atravessará toda a obra. emblemático.ISSN 1808-589X . Vejamos um excerto que consideramos. de novo. n. 2011 . Henry Selwyn”. à procura de um lugar que continuamente se transforma num não-lugar. aqui. 2002. capital da República Checa. portanto. as memórias são melhores dilatadas. 111-112). ao texto de Iser. em conexão.guerra dos Alpes para os Estados Unidos da América. rompi meus últimos contatos com o chamado mundo real.

pareciam todas de espelho escuro.A presença de vidas despedaçadas é. e por isso acreditamos valer a pena citá-las: [. n. A começar pela informação que o narrador dá ao leitor. A questão identitária também se coloca nessa tensão que o emigrante sente quando se depara com as adversidades. submete-se à mudança de nome para fugir das incessantes perseguições: [. 2011 . em Cambridge. não é apenas a horta que está nas últimas após anos de negligência.ISSN 1808-589X 41 . tendo em vista a proibição que os nazistas lhe impunham.] As vidraças das janelas. assim. o primeiro ano de serviço na Índia e o casamento com Hedi. Vieram o ano na Suiça. a quem calei ainda por muito tempo minhas origens. Outro sentimento que se avulta na obra.] Batemos várias vezes a aldrava de latão em formato de peixe. [. refere-se à permanente sensação de desterritorialização de Henry Selwyin.] Não é apenas a horta. e meu sobrenome de Seweryn para Selwyn. aguçando. segunda narrativa da obra. À espera. Henry Selwyn. da aversão de Paul a toda e qualquer hipocrisia. marcado pelos (des)caminhos da memória e pelas imagens de abandono e desolação que pintam cenários outonais. O resto da história você já sabe.. especialmente quando se referia às investidas da Igreja de Roma sobre seus alunos... é marcada pela interlocução entre fato e ficção... prosseguiu.. gemia e desabava sob o peso que depositamos sobre ela. embora também em Cambridge minhas notas estivessem entre as melhores.. 14. a guerra. 13). As andanças do personagem de um lugar a outro. Era como se ninguém morasse ali. 10). quando afirma ter sido Paul Bereyter seu professor no primário. 26)... violentando-se. que se coloca como um perito investigador. e que coloca o leitor num estado permanente de alerta.] mudei meu prenome de Hersch para Henry. (p. sente-se um ser deslocado. divididas em doze caixilhos. levaram o narrador.g.. Jul. logo no início de meus estudos de medicina. de um país a outro. (p. v. uma constante na narrativa. Dentro de sua própria casa. na tentativa quase sempre frustrante de exercer o magistério. apontando para as estufas vitorianas caindo aos pedaços e as latadas invadidas pelo mato. se este se pretende manter sintonizado com as sutilezas do discurso que marcam essa obra híbrida. Negar as origens. a imaginação do leitor e o cuidado que este deve ter com as piscadelas que a narrativa aponta. minha capacidade de aprendizado pareceu ter diminuído sensivelmente. sem que nada se movesse no interior da casa. Os cenários pintados com palavras são fortemente enriquecidos com as fotografias em preto e branco. Curiosamente. muitas vezes servia de passaporte para continuar vivo. de novo graças a uma bolsa. a construir as memórias de Paul. a própria natureza. ele sentia cada vez mais. Teria sido realmente? O leitor fica à espera de uma resposta que o convença. (p. do hábito de Revista Mosaicum. [. Algumas imagens ilustram nossas observações. as quais atravessam todo o texto: são memórias do curso primário. Dez. ainda mais.Selwyn. Paul Bereyter. disse dr..

por isso mesmo. As fotografias. e que. ganham ares realísticos. no intervalo de um mês. o leitor pode ser perder ao observar a nitidez das fotografias e o poder que elas exercem por se tratarem de imagens. a acreditar tratar-se de uma investigação biográfica. estado de alerta no leitor. uma pessoa que. sobretudo. revela ao leitor sua destreza em transformá-los em temas e motivos de grande significância. Por vezes. n. Dez. disse mme. Enfim. onde assumiu a posição de preceptor por intermédio de um correspondente de seu pai. Uma pequena fotografia de uma tarde de verão mostra quão pouco à vontade ele devia estar se sentindo nessa época: Paul aparece na extremidade esquerda. 42 Revista Mosaicum. Jul. 14. (p. A terceira narrativa tem como personagem Ambros Adelwarth. a ponto de querer tecer os fios da história de Ambros. As recordações do tio-avô ficaram profundamente enraizadas em sua memória. mergulhara da felicidade na infelicidade e se achava tão assustadoramente magra que parece quase ter atingido o ponto de fuga corpóreo. o leitor poderá deparar-se com armadilhas textuais. por outro lado. As peripécias do embusteiro são reforçadas com a presença de várias fotografias. na verdade. que somos levados. além de anotações e desenhos. Havia emigrado para os Estados Unidos há muito tempo. Landau concluindo por ora seu relato. já em sua adultez. com tal perfeição. mas escorregadia relação entre fato e ficção volta a ser a tônica neste conto. incontinenti. Paul viajou a Besançon via Basileia. em areia movediça. se traía em meio a atitudes e comportamentos saudosistas. Em “Ambros Adelwarth”. Sebald é. 53-4).Paul assobiar sem parar à medida que caminhava pelos campos. no trato com fatos e biografias aparentemente banais de pessoas também aparentemente comuns. quando reforçam e/ ou completam as ideias descritas no decorrer da narrativa. verificamos a capacidade do narrador de descrevê-la. Ao depararmos com a fotografia colocada logo em seguida ao texto acima citado. o relato de suas memórias demonstra. se de um lado se revelam ficcionais. a sensibilidade de um professor que tinha dificuldades de se revelar como tal. com maestria. Melancolia. de outro. A habilidade de Sebald. em detalhes. família.ISSN 1808-589X . 2011 . uma espécie de garimpeiro da palavra que. consegue causar. o tempo todo. Estado de alerta porque. voltamos a conviver com uma miríade de relatos que marcam o sofrimento daqueles que deixaram para trás seu país. a qualquer momento. o tempo todo. quando o narrador tinha sete anos. Vejamos o seguinte fragmento: No fim de outubro. o que nos faz corroborar o poder de fôlego e originalidade de Sebald. o leitor se sente pisando. saudade e estado de desassossego são temas recorrentes. e volta a visitar a família somente uma única vez. diante da capacidade do narrador de descrever cenas que. Ambros Adelwarth é um tio-avô do narrador. no verão de 1951. podem confundir o leitor mais desavisado. A tão imbricada. Ao ler essa segunda narrativa/memórias/relatos.

. Mas as peripécias do narrador ainda não haviam acabado.. fazem amenizar a dor da saudade. (p. Assim. o leitor se depara com a fotografia de uma agenda. na página 104 do livro. realmente. Pus a carapuça de cobre no General Electric Building. o narrador joga com o texto e com a descrição dos objetos e móveis contidos nela. sabe onde ele foi parar”. num perfeito relato de memórias. o fio que separa a literatura e a história é muito tênue. que continuaram construindo em Nova York até o início dos anos 30. Ao olharem para a tela. Como. [. Dentre as várias passagens constantes da narrativa. A pintura simbolizava o passado: o vilarejo e suas lembranças. Dez. Revista Mosaicum. pode ir para a nova yeshivá. 2011 . o esfacelamento da identidade dos emigrantes ganha um espaço privilegiado nessa narrativa. para onde a família emigrou. era como se as pessoas não apagassem de vez. A arte. Teria o narrador apenas transportado para o texto conteúdos do diário de Ambros dado a ele pela tia Fini. [. de estar perdido diante das múltiplas piscadelas que o texto dá.] Depois disso. Restava-lhes. Max Ferber dá nome a quarta e última narrativa do livro de Sebald. isso foi algumas semanas depois da Páscoa. por exemplo. senão viveriam “durante toda a vida uma saudade incurável de sua terra natal”.] Nem mesmo tio Kasimir. nas mãos de Sebald. ou se trata de mais uma estratégia de Sebald? Resta-nos a sensação de estar pisando. Não são poucas as passagens que fazem referências a lugares reais. cada lugar da sala guarda lembranças de uma época. onde precisam de funileiros como você. de alguma forma. Ao intercalar. Na verdade. e de 29 a 30 passamos um ano ocupados com trabalhos de chapas de aço no topo do Chrysler Building. que ocupa toda a folha e. em areia movediça. novamente. A tentativa de juntar os fragmentos de sua identidade é marcada por ações que.ISSN 1808-589X 43 . a possibilidade de suavizar o sofrimento ao fazer visitar aos parentes. apesar da Depressão. a escrita do eu passa a nortear as páginas seguintes da narrativa. enfim. 76). a fotografia da sala de estar da família. ( p. sua história. especialmente na construção de um dos edifíciossímbolo da “big apple”: o Chrysler Building. Jul. que eram incrivelmente difíceis por causa das curvaturas e inclinações. 73). que o levou consigo para Nova York enrolado num cilindro de papelão como presente de despedida dos pais. partir daí. Cada móvel. o passado: “A pintura a óleo na parede representa nosso vilarejo natal de W. 14. aqui. A relação fato/ficção também ganha.amigos. trabalhei ainda um bocado nos topos dos arranha-céus. n.. De repente. seu espaço. Vejamos a passagem: E então um dia. 88). entretanto. evidenciamos uma que consideramos significativa: o transporte de uma tela da residência da terra natal. à cidade de Nova York. da memória. (p. quando o narrador descreve os seus vários trabalhos em arranhacéus de Nova York. ele me chamou ao seu escritório.. mantendo perfeita interlocução entre texto/narrativa de eventos e fotografias. soube captar o espírito de seu tempo. reclinou-se na cadeira e disse: Você tem estômago para altura? Se tem.

agora sendo. 2011 . pretas no inverno. fui a Manchester novamente. já famoso. pastos de ovelhas. mas. me arranjaria no estrangeiro. vi indústrias desativadas. 156). muros de pedra. Sheffield -. mudarme para a Inglaterra. sobretudo. Alfreton. Nottingham. cumeeiras vazias.. A perda de raízes. pari passu. a fragmentação identitária da figura do emigrante persegue-o e torna-o um ser em desassossego. imagens de desolação. fornece ao leitor imagens especialmente do século XIX. Dez. pelas vastas planícies baixas de Isle of Ely. torres de resfriamento fumegantes. Peterborough. n. como os “teas-maid”. Manchester. vi cair neve. quando no outono de 1966 decidi. O certo é que a narrativa é tecida a partir do jogo impiedoso entre o desejo de ativar na memória todas as lembranças do passado e as tentativas de apagá-las. a quem o narrador conhece e com quem passa a conviver. (p. chuva e a constante mudança de cores no céu”. 180). de edifíciossímbolo de progresso e de espírito empreendedor. mas o sonho perdido em meio a paisagens insistentemente outonais. a exemplo da Great Northern Railway Company. desolação traduzida no olhar de passageiros e transeuntes que não mais viam na cidade de Manchester e vilas o futuro. (p. aparelhos e invenções que chegaram para revolucionar. na Alemanha. a chamada “Jerusalém industrial”. será o grande palco por onde desfilará o narrador.ISSN 1808-589X . pela primeira vez em muito tempo. mas velho e doente.] e assim. passa às mãos do narrador um pequeno diário contendo uma narrativa escrita pela própria mãe. as memórias são costuradas com base em fios que se entrelaçam à medida que as lembranças vêm à tona: imagens de cidade fantasma após os tempos áureos da revolução industrial. época em que a opulência de prédios monumentais é um reflexo do poder econômico de uma época lendária. 151). 44 Revista Mosaicum. vi passar lá fora vilas e cidades que se equivaliam em sua feiura – March. na condição de imigrante: Até meus vinte e dois anos. por diversas razões. mais ou menos seis horas de trem cruzando o país. através dos pinheirais e das charnecas desérticas ao redor de Thetford. nunca me afastei de casa mais do que cinco ou seis horas de trem. outrora em pleno funcionamento. e por isso. eu mal tinha uma ideia apropriada de como era o país e como eu. Através do diário. No palco de Manchester também desfilará Max Ferber. dependendo apenas de mim mesmo.A história inicia com o relato da chegada do narrador à Inglaterra. Loughborough. Nesse sentido. marcada pelas ruínas de um progresso que ficará apenas na memória de seus habitantes. montes de coque. Por outro lado. demolidas ou desativadas. despertador e máquina de chá ao mesmo tempo” (p.. o narrador tem acesso à história dela e do modus vivendi de toda uma geração que viveu antes da Segunda Guerra Mundial. Desolação diante das muitas chaminés. Ferber. a cidade-símbolo inglesa da industrialização. pintor judeualemão. e por isso “o sofrimento espiritual é praticamente infinito”: [. 14. Jul. A Manchester fuliginosa.

“que muitas vezes empacava durante horas e dias a fio. é claro. SELIGMANN-SILVA. 2005. sinalizando. Tal qual um terreno de difícil acesso. certa dose de discernimento para identificar o lugar do não-lugar. G. Márcio. Sel.ISSN 1808-589X 45 .a aculturação e o apagamento de usos e costumes. A escrita de Sebald é híbrida. Jul. Vidas desperdiçadas. É sempre uma cena muda. cortejos e paradas. 2011 . W. sempre havia um pretexto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. despe as luvas de esgrima. Recebido em aprovado em outubro de 2011. n. (p. desde a despedida dos meus pais no aeroporto Oberwiesenfeld. e não raro voltava para trás. 2010. Revista Mosaicum. De todo modo. arte. SEBALD. Dez. nunca mais falei e da qual restou em mim somente um eco. e que da época de Munique depois de 1933 eu me lembre pouco mais que de procissões. mas também exige de todos nós. 2005. Tira o chapéu. Como a história continua. E não somos? Referências BAUMAN. nem sempre leitores avisados. Rio de Janeiro: Contra Capa. A Literatura e o leitor: textos de estética da recepção. reforça a ideia de vidas desperdiçadas e despedaçadas.grifos nossos). Os emigrantes. por vezes estilhaçada. Imagino que a senhora cinza compreenda apenas sua língua materna. Hans Robert et al. o perigo que é rotular texto e impor estatutos literários.230). joga-as sobre esta mesinha aqui e se debruça sobre mim. para as quais. o cabelo lhe cai sobre os ombros. para o leitor contemporâneo. um murmúrio abafado e incompreensível. que minhas lembranças não remontem a além dos meus nove ou oito anos. também nós. HELENA. 2009. O excerto seguinte ilustra. Ficções do desassossego. inclusive da própria língua materna. de Luiz Costa Lima. prosseguiu Ferber. São Paulo: Cia das Letras. de cujos escombros histórias de vidas são resgatadas. e Trad. literatura e tradução. que desde 1939. Zygmunt. leitores da arte contemporânea. Talvez tenha algo a ver com essa perda da língua. a partir da representação através da arte. jamais trocamos palavra. em Munique. apresentando-nos uma escrita que se equipara a uma espécie de escrita arqueológica. não sei. ela se aproxima como um médico que receia ter chegado tarde demais à casa de um moribundo. JAUSS. 2002. São Paulo/Rio de Janeiro: Paz e Terra. Coord. Fecho os olhos num desmaio. envolvente. precisamos cuidar para não sermos tragados pela astúcia do embusteiro Sebald. Sebald vai construindo seu texto. Assim como o próprio narrador disse ter trabalhado arduamente na história de Max Ferber. o alemão. com esse soterramento. 183 . São Paulo: Ed. magistralmente. essa mesma escrita apresenta-se escorregadia. ao longo da qual fui(foi) constantemente atormentado por um escrúpulo que se fazia notar com persistência cada vez maior e que me(lhe) paralisava cada vez mais” (p. aqui e acolá. O local da diferença: ensaios sobre memória. 34. esse estado de coisas: Apressada. Assim. Lucia. 14.

Keywords: Place. ali está o mundo. espaciais e temporais que subvertem estruturas lógicas. O poder simbólico do 46 Revista Mosaicum. Tais reflexões terão como eixo e corpus o conto A Biblioteca de Babel (1941) e a obra Côncavo e Convexo (1955) com aproximações de conceitos desenvolvidos por Gerard Genette e Lucien Dällenbach. Labyrinth Pelo olhar estético e móvel É preciso conceber o escritor (ou o leitor: é a mesma coisa) como um homem perdido em uma galeria de espelhos: ali onde a sua imagem está faltando. Roland. provided the literature and other arts. Labirínticas. spatial and temporal structures that subvert logic. Sollers escritor. as networks allegorical places governed by denaturing determinants or fixed structures. Jul. as obras em questão são questionadoras sobre a realidade através de seus próprios códigos e elementos. como em um palimpsesto que esconde múltiplos signos. das particularidades. essas obras. It is considered that these benchmarks. do holandês Maurits Cornelis Escher (1898-1972). ali está a saída. p 51] Por extremamente visíveis. cada uma à sua maneira e código. they dismember the once established. the works in question are inquiring about reality through their own codes and elements. contribute to the overlap of routes and other modes of problematization read. várias interpretações. ainda que vertiginosamente. Abstract:: This paper aims to reflect on the intertextual visual space by Maurits Cornelis Escher (1898-1972) and literary space of Jorge Luis Borges (1899-1986) as constructions in mise en abyme. providos da Literatura e de outras artes contribuem para a imbricação de percursos e problematização de outros modos de ler. Palavras-chave: Espaço. Isso ocorre no cotidiano de qualquer leitor/observador ao acompanhar. das saturações. 2011 . 1982. do argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) e da litografia1 Côncavo e Convexo. frequentemente fatos de linguagem ou pistas sígnicas se tornam invisíveis. detalhes ou combinações presentes no conto A Biblioteca de Babel. Constructed so amazing and inconceivable. discursive experiences. Such reflections will have the body axis and the short story The Library of Babel (1941) and work Concave and Convex (1955) with approximations of concepts developed by Gerard Genette and Lucien Dallenbach.ISSN 1808-589X . Mise en abyme. n. uma vez que desarticulam o estabelecido. como vivências discursivas. Dez. Jogos de ilusão.NA GALERIA DE ESPELHOS: BRINCADEIRAS DE VERTIGENS E ESPELHAMENTOS In the gallery of mirrors: jokes and mirrors lightheaded Rodrigo da Costa Araújo (UFF/FAFIMA) Resumo: Este ensaio intertextual pretende refletir sobre o espaço visual de Maurits Cornelis Escher (1898-1972) e o espaço literário de Jorge Luis Borges (1899-1986) como construções em mise en abyme. Considera-se que esses referenciais. Games of illusion. Labirinto. interrogam uma rede espacial percorrida pelo olhar atônito ao mundo moderno dos detalhes. Mise en abyme. [BARTHES. 14. como redes alegóricas que desnaturalizam os lugares regidos por estruturas determinantes ou fixas. Fabricadas de forma surpreendentes e inconcebíveis.

no jogo de representações. de textos narrativos que. n. geralmente representada pela história dentro da história. uma forma para expressar-se. equivalências visuais ou narrativas. Ao pretender totalizar a experiência do olhar. como elemento e permutações. na metáfora do labirinto. certos contornos espaciais significativos. mas também o processo de enunciação e o código em que é feito o relato. de certa maneira. em sua forma.espaço. forma essa que dependerá muito mais de uma dinâmica dos signos do que de uma simples leitura dos detalhes. de uma nova experiência da temporalidade. De certa forma. ela mesma perde a dimensão das referências quando se estilhaça em signos ou em muitos fragmentos. Esse recurso metalinguístico será apontado no conto A Biblioteca de Babel. elas não fazem mais que captar em fragmentos e arranjá-los. nessas obras. inscrito e tomado em especular na metáfora do labirinto. Elas. Jul. A partir dessas constatações. 14. pois se atém ao que é factual e possível de ser submetido a um tratamento cronológico. o que não inclui apenas o enunciado. demarca fronteiras e leituras plurais. o significante espaço é lido como metáfora e signo múltiplo.ISSN 1808-589X 47 . assumir o caráter não-definido da figuração. 2011 . Tanto o espaço litográfico. de Escher. O espaço & os artifícios de mise en abyme Um dos recursos mais interessantes usados pelas artes contemporâneas para refletir sobre ela mesma é o emprego ou a técnica da mise en abyme. Com esse intuito. transformar-se em seu outro sem deixar de ser ela mesma . das passagens e das colagens -. a qualquer instante. 1977. confrontam-se com o problema da interpretação. A estetização do olhar. a construção espacial pode ser questionada em várias dimensões: ao pretender demonstrar certa unicidade. deixando de lado tudo aquilo que não se adequa ao sentido da continuidade.todas essas experiências do olhar urbano vão encontrar. atrelada à consciência de tempo. Dällenbach propõe para a mise en abyme que o fragmento reflexivo deve espelhar “o conjunto do relato”3. p. as duas obras não conseguem deixar de repor opacidade. criando simulacros de inteireza que se oferecem ao leitor. ao pretender ser transparente. repetições constituídas por infinitos pontos e ângulos em atitudes circulares. à enunciação e ao código” (DÄLLENBACH. Diz-nos ele que: “um espelhamento é um enunciado que reenvia ao enunciado. tomadas como texto semiológico favorecem a adoção de estratégias do olhar2. das durações perceptivas e procuram. o texto se torna um feixe semiótico em que se interatuam diversas linguagens. o esconderijo dos detalhes . pois ambos se utilizam desse procedimento para desconstruir um pretenso realismo e tornar evidente o jogo de suas criações4. Revista Mosaicum.o fato de que toda realidade possa. quanto o espaço da narrativa borgeana poderá. Dez. na procura de uma percepção. Nessa acepção de novos sentidos. de Jorge Luis Borges e na litografia Côncavo e Convexo. 62). cada qual a seu gesto e linguagem. na ficção ou na litografia.

não sendo possível uma separação absoluta entre elas: “em virtude de uma solidariedade de base. de Escher. Dällenbach propõe agrupar as especularidades em três categorias: a) a reduplicação simples: o fragmento mantém com a obra que o inclui uma relação de semelhança simples (por similitude). a repetição especular é um elemento gerador significativo de leitura. Todo tipo de mise en abyme funciona como um reflexo. Segundo esse estudioso. 55)”. Jorge Luis Borges Na visualização ou efabulação do espaço. 1977. que nos arriscaremos a formular como segue: é miseen-abyme todo espelho interno que reflita o conjunto do relato por reduplicação simples. 1977. 14. esta tripla repartição clama em si mesma por uma definição “pluralista”. esse reflexo dado pelo fragmento incluído não tem sempre o mesmo grau de analogia com a obra que o inclui. Essas três categorias em questão podem ser vistas tanto na produção poética de Jorge Luis Borges. enriquecida pelas nuances da reflexibilidade: Recusando toda ideia de simplismo. de Escher são perceptíveis as formas convergentes e divergentes revelando as diversas perspectivas. e assim sucessivamente (por mimetismo). ao infinito ou paradoxal (DÄLLENBACH. no conto. n. nos vem de André Gide. ainda. que também tem um fragmento que o reduplica. mas se levam pelos fluxos do devir que não cessam de invocar configurações. o 48 Revista Mosaicum. Ambos despertam semiologicamente a atenção aos detalhes da repetição e nos remetem à sutileza da subjetividade. deve ser considerado mise en abyme todo fragmento textual que mantenha uma relação de semelhança com a obra que o contém. um espelhamento da obra que o inclui. a uma segunda definição do processo de especularidade.A noção de mise en abyme. p. segundo Lucien Dällenbach (1977). Tendo em vista as nuances de similitude. assim. e é sem dispersar-se que sua unidade refrata em três direções (DÄLLENBACH. as três versões do mise en abyme não cessam de reenviar-se uma às outras. 2011 . 52). recortada no conto A Biblioteca de Babel. que não se atam em determinações estanques. Se em Côncavo e Convexo. que uma categoria remete à outra. tanto no conto quanto na litografia.ISSN 1808-589X . porém. b) reduplicação ao infinito: o fragmento mantém com a obra que o inclui uma relação de semelhança a tal ponto que ele também inclui um fragmento que o reduplica. c) a reduplicação paradoxal ou aporística: o fragmento reflexivo contém a obra que o inclui (por identidade). Jul. O estudioso ressalta. Dez. Dällenbach chega. como na litografia Côncavo e Convexo. Olhares em abismo Falar é incorrer em tautologias. p. que utiliza o procedimento recorrente em sua obra.

um agenciamento. em O mágico espelho de M.A Biblioteca de Babel . configurando. também fez o contista. a paixão transcrita em seus narradores toma conta dos detalhes. 1991. Dez. esse discurso . na lâmina do espelho. 14. como. 16). um acoplamento de raciocínio. n. vertiginosamente. formados pelo mesmo processo e produzindo modos de subjetividade que não dizem respeito ao sujeito em si. Como em A Biblioteca de Babel. p. Para entrarmos nas cidades de Escher. Com essas constantes retomadas. desdobra-se em alusões contemporâneas da virtualidade do espaço imaginário6. isso não parece ser diferente.ISSN 1808-589X 49 . da descrição e da montagem do discurso. e também na sua poética como um todo. e não pré-existem a ele como verdades universais. sempre num entrelugar. Este prazer é o centro da própria inspiração de Escher . Jul. Na ficção borgeana.encaminha e reforça esse olhar criando analogias que reenviam à construção do mito da torre (quanto ao aspecto físico) e. Escher e Borges estabelecem relações de composição a partir de um paradigma éticoestético. do espaço externo para o interno. no lugar de ganhos e perdas.transmiti-lo foi objetivo e fim de sua arte (ERNST. a postura de descoberta é importantíssima. C. Figura 1: Côncavo e Convexo (1955). o tempo e o espaço.reproduz também. Revista Mosaicum. O entorno faz parte da composição. de Escher (1898-1972). uma vez que implica uma conexão tensa entre percepção e ação. da alucinação propiciada pelo narrador pós-moderno que faz o leitor perceber enganosamente que ele irá recuperar o perdido. bem como o meio. o leitor se contrai e retrai indo e vindo da ficção para o real. na composição da cidade de Escher. todos os lados espaciais são valorizados. 2011 .próprio título como paratexto5 importante . Assim. Escher. já que criam estratégias de produção de conhecimento em que coexistem o ser. sua obra é embrionada e movida pela descoberta que o fascinava: Para um primeiro conhecimento. Por isso mesmo faz confissões ao leitor: “Basta-me. Segundo Bruno Ernst. basta só conseguir que cada observador se convença de que a “compreensão” da obra está ligada ao prazer duma descoberta.

o sujeito chega ao gozo pela coabitação das linguagens. opera-se um rito de passagem. O espaço se decompõe. retoma-se. este conto. aproximando do território da ciência. Essa entidade flutuante pode movimentar-se nos vários planos da narrativa. sucessivamente. fingimento. tal qual na representação da fita de Moebius. p. a racionalidade científica e envolve-se com essa lógica sem abandonar as estratégias imaginárias que aparecem nesse contato. delicadamente. abandonando o seu caráter continuum. o espaço surge entre duas formas ou sucede ser essas formas. a confusão das línguas não é mais uma punição. a sua caracterização panorâmica. p.por ora. em desdobramentos homogêneos. p. Para uma sensibilidade poética de um encontro com Jorge Luis Borges. 1995. 39). que trabalham lado a lado: o texto de prazer é Babel feliz” (BARTHES. Ruth Brandão confirma: Passando pelo limiar do espaço ficcional. que se repetem ad infinitum e em todas as direções. de Escher representa um deslocamento para uma outra ordem delirante: aquela em que a razão penetra o olhar e o faz buscar os caminhos da consciência crítica. Propositais. comprova que a travessia literária borgiana é tradutora do que diz o autor do livro Le plaisir du texte: “o velho mito bíblico se inverte. 14. Essa é uma topologicamente perfeita: nela a representação do infinito se desdobra “infinitamente” quer na forma de nós. o espaço se expande pela sucessão de formas adjacentes e repetidas em círculos sobre si mesmas. sujeito da escritura e sujeito da leitura sempre assumem canais diversos. 92). Dez. Além desse processo ilusionista. para desdobrar-se ou segmentar-se em particularizações. esses recursos de perversão e prazer do escritor e do artista descontrolam os mecanismos e os condicionamentos de leitura e visão. Torre de Babel. cuja circunferência é inacessível” (BORGES. Com Escher. que supõe travestimento. Por meio dela. torcido. fazendo ecoar essas vozes ficcionais ou vozes nem sempre reconhecidas como tais (BRANDÃO. ou outras quaisquer. trapaceando o leitor fascinado com vários mecanismos e jogos visuais. n. a experiência que Gaston Bachelard definiu como “a poética do espaço”: aqui o espaço deixa de ser apenas uma expressão de geometria linear newtoniana. 2011 . também. tematiza a metamorfose. num processo de ilusionismo que vai criar a primeira dimensão da ambiguidade entre realidade e ficção. Borges e Escher fazem da oscilação o tom irônico do jogo de esconde-esconde em que os circuitos se desencontram. mas também se desencolve para além de seus prórios limites.ISSN 1808-589X . num primeiro lance do olhar. o movimento é especular: a imagem se reproduz como um reflexo. Nos seus desenhos. quer nas figuras uniformes e adjacentes que se desenham através de uma única 50 Revista Mosaicum. de Escher. O espaço bachelardiano tem a ver com o perpectivismo da paisagem. 2001. Referindo-se aos jogos de espelhos na narrativa romanesca. Vertiginosos e demiurgos. 1973. ou então percorrem um movimento elíptico. a mudança e movimentação da forma. A imaginação de Escher busca. 10)7. Torre de Babel. Jul. repetir o preceito clássico: A Biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono.

o leitor toma a obra como uma geografia e sobre ela traça linhas racionais ou lúdicas que irão formar a paisagem de sua fruição8. Explorando. que a construção parece romper a grande aparência do desenho para tornar-se movimento. Aproximando-se das metáforas de Borges. Torre de Babel. em leituras semiológicas de espaços construídos ou imaginados. visualiza as cenas e faz dessas descrições. Os homens costumam inferir desse espelho que a Biblioteca não é infinita (se o fosse realmente. o infinito. só poder pensado (representado) de uma forma finita.Torre de Babel (1928). não o corpo-essência da arte. além de sua imaginação. Os olhos do leitor mergulham tão profundamente na materialidade dos espaços e efeitos.] (BORGES. Escher. obrigando-nos a ver aí. formas visuais e texturas. mas o jogo onde. de Escher retorna a si mesma. do mito. do discurso. xilogravura. escritor e pintor reforçam a marca da confusão babélica causada pelo inesperado. desconhecido ou desencontros linguísticos e visuais. com seus espaços que escondem outros espaços. na obra. a encantar-se com as imagens e repetições na arquitetura. Jul. inelutavelmente. entanto. em Côncavo e Convexo traça em pontes que se convergem e divergem simultâneamente. Torre de Babel. No vestíbulo há um espelho. de Escher sugere para o leitor essa lógica discursiva do mito bíblico e certa magia criativa. mapeando o espaço dos acontecimentos: Por aí passa a escada espiral. Nesse jogo de perspectiva. A torre central traça as linhas que vão redundar em outras torres. n.ISSN 1808-589X 51 . que se abisma e se eleva ao infinito. pela voz do narrador experiente e reflexivo. criativamente. Isso pode ser percebido quando ele diz. No Figura 2 . 2001..face. Juntos. ou esse jogo visualmente aparente. p. 92). seu passeio em espiral. para que essa duplicação ilusória?). De qualquer ângulo que se olhe. 14. descrevendo o infinito do desenho. o infinito de toda representação.. o desenho em preto e Escher branco é a evidência de que os olhos tendem a abismar-se no jogo das aparências. Revista Mosaicum. 2011 . que por sua vez repete essa mesma intenção e movimento. Os dois. prefiro sonhar que as superfíceis polidas representam e prometem o infinito [. por sua vez. também. Jorge Luis Borges. detalhes que se encaixam ou se entremeiam. está um daqueles fragmentos do discurso. que fielmente duplica as aparências. na literatura e na arte. Dez. tenta ir mais longe explorando a própria obsessão do narrador-filósofo pelo universo-biblioteca. O leitor.

como também fez e teorizou o semiólogo francês Roland Barthes. porque obviamente os espaços impõem certos limites. porque são um elogio ao mistério e preferem nele situar-se. Eles. Jul. Hipoteticamente essa resposta poderia ser encontrada na própria Biblioteca de Babel ou num mundo impossível e surreal criado visualmente por Escher . Nesse sentido. O texto imagético de Escher explora no olho contemporâneo. a frente transforma-se em seu reverso. na faixa do lado direito da litografia. por meio do discurso narrativo. detalhista e girante. representam o discurso do espaço que questiona certezas transformando-as em dúvida. 2011 .transmitem um clima tenso. escritor e artista plástico. como as do escritor argentino. espaços físicos que não admitem ser totalmente interpretados. apesar de utilizarem linguagens diferentes. As imagens de Escher exigem. mas transgridem esses paradigmas como criação particular de fruição. apenas os lagartos. o espaço explorado ou percorrido pelo narrador sugere o silêncio e o perfil sagrado da leitura individual e silenciosa. nesse jogo especular e nos intertíscios entre os significantes textuais e visuais.convergem o pensamento do leitor para o deslocamento. A parte superior torna-se parte inferior. na litografia. Mas provocando vertigens. As representações do artista plástico possibilitam. sempre girante com os efeitos da tela. vemos tudo de baixo. Na leitura de Bruno Ernest. Escher através da bandeira. Na litografia do holandês. uma certa impertinência do espectador. na infinitude das formas e combinações. 52 Revista Mosaicum. ambos . por outro lado. os vasos de flores e as pessoas podem assumir uma interpretação previamente definida. 14.ISSN 1808-589X . no canto superior direito. No entanto. essa ideia traduz-se no centro da tela onde tudo converge para a fonte. quando se ultrapassa o centro. nesse sentido. instaurase a sensação de cair num poço sem fundo. traz um símbolo que resume o contéudo da composição. pois tudo é direcionado e revertido de dentro para fora. a arquitetura espacial é côncava e a vista. O estranhamento surge na combinação inusitada de elementos diversos. As pessoas. porque são formados por representações arquitetônicos elaboradas sugerindo encaminhá-lo para alguma indagação ou resposta. a bandeira funciona como recurso metalinguístico da criação para o espectador mais atento. descobrindo semelhanças não experimentadas. pesado de seriedade ou formas significantes. as características do livro enquanto forma significante que não se repete visualmente do mesmo jeito. experimenta-se um recuo infinito do significado. os lagartos e os vasos de flores contestam essa inversão. como recria Borges.autor de mundos paradoxais. No conto. n. espaços fabricados em construções ou em côncavo e convexo ao mesmo tempo. Dez. concebem a leitura como gesto subversivo e não como digressão desloucada. misturados com signos que se desdobram em abismos. Na faixa média a interpretação é ambivanlente. Espécie de mapa visual. certo ar misterioso instaurado nos lagartos que fazem a moldura da tela. a reflexão sobre a impertinência da leitura porque destituem os signos de seus invólucros confortáveis. evocando enigmas sem mostrá-los.tela e texto . Com essa premissa. enquanto que Borges verbaliza. eleva-se a um zínite aparente.

não há como desenhar o formato da biblioteca e seus exágonos sem fim.Tanto a litografia. o caos não consegue se transformar em cosmos. uma pressupõe a outra. ambos (contista. das correções. nesse contexto. No holandês. Os corredores. Escher constroi a imagem para suscitar o que ela encobre. das traduções. Percebendo ou não esse caos ou detalhes. 2011 . que toda redução de origem humana resulta infinitesimal” (BORGES. na desordem da multiplicidade que é parodoxalmente nostalgia de unicidade. que. Borges com o narrador e Escher com o abismo visual. implicam olhar o próprio olhar. para que o outro tenha existência é necessário o intervalo entre os corpos. na medida em que sua geometria é a do infinito abismal. Com essa leitura. enquanto Borges desenha labirintos difíceis sem se deixarem percorrer . o verso e o reverso do ser e da vida. ou seja. Ambos.ISSN 1808-589X 53 . e paradoxalmente compensadora. limite ou referência espacial. Dez. 2001. superfíceis e metamorfoses registram a vida pulsante em transformação. através de inúmeras perspectivas. que suspeita a própria ação de olhar. leitor. em configurações plásticas do espaço. os espaços deslocam e extrapolam do próprio discurso que delinea alguma marcação. infinitos. repetições. divisões. Jul. Escher em seu desenho expõe de tal modo os paradoxos de autorreferência da linguagem. Ambos. a existência do não lugar habitado. matizam a existência e para tal. como de outro. Pode-se mesmo dizer que. instiga. se multiplicam. se frustra. artista) em suas criações confirmam que desenhar ou escrever o espaço é tarefa angustiante. 14. Labirínticos e fantasiosos. incompletos. Feito oráculos. como o conto podem ser tratados como o texto de gozo barthesiano. Como em Borges. se auto-reproduzem. Eles instigam o olhar que vai de cima para baixo ou de baixo para cima numa tentativa de mapear os limites. das páginas que se alongam nos pés de página. produzida pela sua ausência. vale dizer. é imprescindível um olhar sem conotação moral sobre a vida e disposto a aceitar os riscos dos devaneios. da formação do pensamento e processo da obra. tal como a protagonista Alice no Pais das Maravilhas. A planta baixa se desfaz por pura impossibilidade de deter a biblioteca. o vazio da existência. através do espaço. paradoxos. 97). Vida esta conduzida pela paixão. a repetição também é um elemento gerador nessa litografia: ela reproduz o semelhante. porque nunca termina. decifração semiótica que ordene o incompreensível e que. Em Borges. possibilidades de leitura. dos catálogos. pela ficção e pelo desenho. os dois. tudo confirma que o outro só existe na ausência. também poderá ser estendido ao fazer artístico de Borges: Revista Mosaicum. n. que não demonstra.esses jogos se armam e lançam em ilusões fractais: movemonos em espaços sem determinação a priori. “ A biblioteca é tão imensa. p. no entanto. um olhar plástico e sensível. Para compreender esses efeitos na obra.são sempre complexos. apenas sugere. isso é sugerido no título da obra que representa simbolicamente a outra face. vertiginosos. manipulam o espaço através de vários dualismos . dos livros. tanto de um. porque infinitos9. limitando a proliferação dos textos. como é possível constatar no fragmento abaixo de Escher e.

E essa paixão é maior do que qualquer paixão por pessoa. os olhos abrem-se de novo (ERNST. 14. Jul. além do processo criativo de mise en abyme espacial. é bastante rica a relação da obra em si com a própria teoria e crítica borgiana. penso que estou a fazer a coisa mais linda do mundo. Quando tenho êxito nalguma coisa. Se a dúvida assalta o leitor. No dia seguinte. possibilitando a emergência da pura simulação e encanto.ISSN 1808-589X . A imaginação preenche o vácuo deixado pela indefinição dos contornos e apaga o limite seguro entre o real e o inventado. Dez.Enquanto estou ocupado com alguma coisa. n. sento-me em frente dela enamorado. a simulação parece colar-se à performance da escritura e chocar o leitor pela contradição da cena retratada. é pelo fato de que o estilhaçamento do narrador-personagem e da imagem invertida abrirem caminho para a indecidibilidade labiríntica realçando a desconexão quanto ao destino das personagens e reforçando certo caráter de inconfiabilidade. o qual se multiplica buscando outras saídas. enganá-lo. Esse aparente descompromisso faz perder o rumo do olhar ou da narrativa que é trabalhado à maneira de um processo metalinguístico. mas para verificar possibilidades. Sua poética é um espaço em que se imbricam ensaios e ficções. p. Se o deslocamento e a desconfiança tomam conta da leitura. então à noite. 54 Revista Mosaicum. no entanto. 2011 . não necessariamente para formar um sentido. 1991. O olhar passa a ser tomado por uma função-câmera que espreita dissimuladamente um mundo que se assemelha a um quebra-cabeças sem molde. Em A Biblioteca de Babel. como também da literária se reflete especularmente no leitor/espectador que se vê enredado num movimento circular que não o permite definir no ato da leitura se as lembranças que se organizam pela memória do narrador-personagem tornam possível o relato literário ou se. assaltando o sujeito e tornando as coisas intangíveis para ele na medida em que são aceleradas em zoom. 18] A construção da narrativa visual. no tema e no cenário. envoltas por uma película que as distancia. Tal como o mito babélico. espocando em pequenas dramatizações testadas na própria “trama” textual/visual. já que a escrita/imagem firma-se sobre uma forma sofisticada de revisitação da antiga tradição de cumplicidade com o leitor e que essa nova versão pode. pelo contrário. O leitor abismado e em abismo Porque se tem de meter sempre o nariz na triste realidade? Porque se não pode brincar? Por vezes tenho a impressão: Pode ser assim? É de fato o meu trabalho suficientemente sério? [Escher. p. este não é ingênuo a ponto de pensar que o que lê/vê pretende ser um simples registro de experiências. uma vez que a imagem da concentricidade suscita simultaneamente uma expansão e um esgarçamento de uma delimitação precisa. a narrativa e a imagem vão se rearrumando. é a simulação das reminiscências que cria o artifício para a história dentro da própria história. se compondo. 18). 1991. Nesse contexto.

. Como o conto e a litografia. do mestre dos labirintos. Borges exacerba sua concepção de que o leitor deve ser um coparticipante da escritura. também. sob o pretexto de analisar a obra de um escritor imaginário. Dez.insinua dois argumentos. os periódicos que noticiam o evento propõem também à Inglaterra “o enigma de que o sábio sinólogo Stephen Albert morrera assassinado por um desconhecido. se se quiser tomar esta bifurcação. a estrutura literária do conto. assemelha-se com um “texto várias vezes codidificado”11. No entanto. é aqui o começo da nova história. refletindo-a em um suposto livro de contos redatado por Herbert Quain: “Para esses “imperfeitos escritores”. por exemplo. outro(s) jardim(ns): o lugar de origem do chinês. se possa decifrá-los em perda irrecuperável.não a melhor .ISSN 1808-589X 55 . voluntariamente frustrado pelo autor. Cada uma delas prefigura ou promete um bom argumento. Como o narrador do conto que elogia a biblioteca. p. 2001. Nele. camilhar-se-á nela como se peregrinou pela pista policial. Além de Revista Mosaicum. esse leitor espelhado na obra. Quain redigiu oito narrativas do livro Statements. da obra de Herbert Quain. o narrador insinua aquela que pode ser uma descrição do próprio relato. com uma produtividade intelectual. nesse raciocínio. passa a ser. a voz narrativa em “O jardim de veredas que se bifurcam” é bastante irônica. Aproximando-se do jogo babélico do conto A Biblioteca de Babel e da arquitetura arrojada e insólita de Escher. O leitor. também policial. há um deslocamento e flutuação de significados para o jardim13.114). O leitor. p. que tematiza esse viés narrativo-ensaístico e o papel do leitor é “Exame”. as duas obras apontadas -. ajustadas algumas peças. Se bem que o assassino do conto tenha sido preso e condenado à forca. distraído pela vaidade. Jul. Yu Tsun” (BORGES. fez com vários argumentos emprestados de diferentes autores. 2001. Se se quiser. o que garante sua abertura para diferentes leituras. um sujeito plural. Ao final do conto. enveredar por outra bifurcação. também. n. ela transporta o labirinto. acredita tê-las inventado” (BORGES. Assemelhando-se da estrutura do romance policial12. uma pluralidade de códigos10. ao desenvolver sua detalhada análise das fictícias obras de Herbert Quain. Neste conto. Uma . neste conto. “O jardim de veredas que se bifurcam” é outra trama labiríntica que se entrega à decifração e faz nascer enigmas que necessitam de vários esforços de encaixe a fim de que. premeditadamente.onde podemos encontrar os elementos essenciais ou metanarrativos para uma profunda reflexão sobre os caminhos da arte contemporânea. 2011 . Ler e ver. o projeto literário-labiríntico de Ts’ui Pên. Outro conto de “Ficções”. o passado comum a sua gente. aproximam-se. como também escrever e desenhar. O que corresponde na novela policial ao fim da história. esse conto re-elabora álibis e oferece pistas falsas que perturbam mais do que esclarecem o final previsível no gênero: prisão do assassino.89). ele vai propondo ao leitor pequenos e fascinantes resumos de argumentos e estruturas narrativas para que o próprio leitor se aproprie e dê seguimento às histórias como ele. harmonia restabelecida na sociedade. Borges. ainda. 14.como. cujo nome é legião. Quanto ao enredo.

O efeito que se produz no protagonista é o mesmo que se produz em quem ler a trama: a mise en abyme. n. de forma insólita. em que convivem autores. porque essas são infinitas. E. é justamente por isso que Davi Arrigucci Jr no prefácio do livro Ficções afirma a respeito de Borges: “É essa a forma que toma o pensamento feito arte. Outro conto especular é “O livro de areia”. A superposição. os livros às pessoas e à realidade. no texto. no entanto. Borges retoma fragmentos desenvolvidos em contos anteriores. escorregam. 2011 . reflexos e reflexos da escrita alheia. por isso. Tais leituras vêm à mente a partir da posição desse narrador externo que a tudo ironiza. personagens. “Disse-me que seu livro se chamava O livro de areia. autor das “Mil e uma noites” afirma que: “nessa superfície textual.ISSN 1808-589X . através da montagem das peças do texto: o jogo de xadrez. retratos. somente a ironia fina do escritor/leitor. 2009. não é bloqueada. a novela policial. as trilhas que o relato oferece para se chegar a um jardim levam a lugar nenhum. a toda espécie de transcrição artística” (2001. descrições. o conto parecer ser. se interpenetram na trama.estabelecer um hiato entre a palavra e o sentido na forma como toma o discurso. de certa forma. neste essa fantasia se expressa em um único livro. 26). torna-se impossível considerar a escrita borgeana como texto singular. O narrador-personagem compra um livro. porque nem o livro nem a areia têm princípio ou fim” (BORGES. além de desdobrar a metalinguagem infinita de que todo escritor é a soma de todos os escritores que o precederam. cores e texturas de Escher. a biblioteca infinita. a beleza da leitura. nada cobre o hiato entre um e outro. acima de tudo. um volume que se desdobra em um número ilimitado de página e que como as partículas da areia. postula a existência de um livro infinito. 14. Qualquer sentido. tênue e escorregadia. História e história se superpõem. exibe-se. Jul. povoada por muitos livros que continham infinitas vezes todos os textos possíveis. para existir em absoluta autonomia com relação à realidade. o qual o deixa perplexo pelo caráter fantástico de nunca se repetirem as páginas. as procuras e o labirinto14. Nesta trama.102). e. sempre avessa. precisa ser construído. Em Borges. Trata-se de uma narrativa condensada. o encontro do personagem com o livro e a leitura. Ficção e realidade. ícone do 56 Revista Mosaicum. reforça pelo tom fantástico. pertencente ao livro homônimo do escritor argentino. Isso fica mais evidente ao citar as “Mil e uma Noites” e retomar o mito de Sherazade como resgate do poder da narrativa para o ser humano desde os tempos imemoriais. na sua opinião. p. p. questiona e que prefere. a infinitude da literatura. “O jardim de veredas que se bifurcam” cria uma gama aberta de interpretações. isto é. uma reescritura d’A Biblioteca de Babel. é como se tudo se tivesse desgarrado de todo contexto histórico. esteticamente. em muitos aspectos. nesse caso. Se naquele Borges descrevia. a mistura infinita do livro com o mundo e descobertas. citações. ao falar da construção especular de Borges. carece de princípio e de fim. bifurcam. o ambiente resulta na eliminação de apresentações. Em particular. ou a vários. os seus componentes é que se deslocam. De qualquer maneira. Como peças de xadrez. Eneida Maria de Souza. Dez. em Borges.

“O livro de areia”. p.ISSN 1808-589X 57 . perfilado pela sutileza narcísica da metalinguagem. fios que trançam o tecido de insuspeitada polissemia e jogo visual. Desdobramento infinito e repetições conjugados. de um escultor da palavra refletindo-se num espelho mágico como um caleidoscópio. 2011 . caracteriza a eficácia da construção em abismo. explora elementos discretos organizados em função de uma combinatória.Capa d’O livro de areia. é constituída por linhas verticais e horizontais em duas cores. as telas entendidas como narrativas (de de Jorge Luis Borges Escher e Velásquez) giram em torno de Companhia das Letras/2009 seu próprio eixo. Jul. nesse sentido. aí retornando. Feito o espaço da biblioteca borgiana e o traçado da arquitetura de Escher. a postura do leitor diante do livro. mais e mais de desdobram e se adentram. n. exercícios ópticos e significativos em si mesmos. A cor funciona como elemento divisor do espaço. em última instância. que dão sensação de profundidade e transparecem ao rigor de sua construção. utilizada como paratexto da obra. A própria capa do livro. cumulando-se de séries significantes entrecruzadas. Dez. isto é. o que. em 1951.autor e marca registrada de seu traço individual” (SOUZA. o geometrismo rigoroso da figura de Maluf propõe o jogo perceptivo. os fragmentos retornam ao discurso e. Acompanhando as leituras do espaço em Borges e Escher. cujo fragmento faz alusão ao estudo para cartaz15 da I Bienal de São Paulo. 2001. 14. essa peça. Enquanto se desdobram. apresenta uma ilustração do artista concreto Antônio Maluf. numa poética voltada para si mesma. como do conto de Borges. parte da dinâmica e da experiência cinética abstrata com a composição e o movimento.406). tal qual um ritual literário. Ou mesmo o livro como metáfora do universo labiríntico da literatura. além de conter o significante “livro” no título. Os contos de Borges e Figura 3 . Revista Mosaicum. tanto da capa de Maluf. processam o adentramento vertiginoso que instaura a virtualidade significativa que entendemos por abismo. pode ser lido como espécie de metáfora da literatura. um conjunto de analogias que traz algum jogo/ pacto estético.

até porque os leitores sabem que é preciso superá-los. a construção das artes contemporâneas. instigam espaços suspeitos. estilhaçado. n. atributos desses lugares que se caracterizam por sua nãodomesticidade e sua ilegibilidade. a representação desses espaços não visa a negar a existência do centro como figurador da unidade. Mas mesmo assim eles entendem que são. porque são sempre mediadas por decifradores. difuso. 1991. o fascínio da palavra e da imagem. E. de corrigir. Esse jogo visual permite certa abertura ao infinito e às estruturas fractais. mas percorrem os movimentos incessantes dos fluxos das redes configurados pelos agenciamentos entre sujeitos-objetos-lugares.. para então aceitarem os desafios da vertigem. bem como ao descentramento tanto do lugar.. nesse caso. ambos se perenizam pelo próprio poder de imitar. do centro. que os códigos do espaço rearruma-se de planos e tramas. fragmentado. 2011 . Escritas ou visuais. investigadores atentos e detalhistas ou vasculhadores de signos. nem no objeto. Tudo parece pactuar. de valores estabelecidos pelos signos. pois se afastam da origem. nos quais qualquer ponto pode conectar com outro. moventes em saltos desmontáveis e conectáveis. Os leitores de Borges e de Escher.16] Espelho partido. estas poderão ser metáforas atribuídas às duas obras em questão. essas retóricas são constituídas por princípios de dispersão. A cidade de Escher e a Biblioteca de Borges instigam à visualização estética de espaços especulares. p. nem no sujeito. assim. não buscam unicidade. acabam se instalando em sua Biblioteca e cidade que não se deixam ler. Jul. que as suas figuras podem andar no mesmo momento e no mesmo lugar. mas auxilia a pensar o centro incluso em um espaço composto por diversos centros ressonantes e ordenados de forma descontínua. 14. espelhamente invertidos. propriedades. o jogo das várias linguagens dos labirintos.. com o leitor e com o olho.. Os recursos retóricos16 explorados nas duas obras estabelecem a multiplicação proposital de erros e enganos. centro ou origem. o que está em jogo é a representação. tanto escadas acima como escadas abaixo. Novamente nesse novelo especular. Discurso literário e visão.ISSN 1808-589X . livrar-se de sua doçura ou inocência. suas armadilhas e sua complexa estrutura. [. por isso mesmo. [ERNST. Dez. até porque assumem do mito babélico. dadas as múltiplas implicações que isso pode acarretar. indagação antiga que perpassa a crítica literária e as artes em geral. configurando-se uma rede falsa e promíscua que se alastra. e mais do que nunca.] Ele é construtor de mundos impossíveis. A potência do falso é atualizada porque. de se reagruparem.As potências do falso Escher mostra-nos como uma imagem pode ser simultaneamente côncava e convexa. quanto do sujeito observador que se dimensiona em vários 58 Revista Mosaicum. sem ponto fixo. trincado.

em geral. desse mundo estilhaçado em tanta mesmice? Não há como deixar de pensar essas obras quando vemos Gerard Genette caracterizar a poética barroca como um mundo de simetrias e inversões. Em uma de suas acepções. de Diego alguma espécie de intoxicação Velásquez Revista Mosaicum. luzes e rebuscamentos do discurso remetem semanticamente à lógica dos opostos que se encontram e se confundem nessa estética. O jogo de paradoxos. são possíveis perceber também. Nas vertigens.17 Retomadas barrocas Além das reflexões em esfera.Las Meninas (1656). imagem de outras imagens. aparecenos. como movimento de massas. pintor e escritor exigem a lógica que implica a coexistência do diferente e acesso ao intermezzo. marcas estilísticas do Barroco. o barroco se constitui pela quebra da centralidade da cultura européia resultante da descoberta do Novo Mundo. pela colocação do ser diante do abismo. Seu centro nervoso está.ISSN 1808-589X 59 . num desejo ardente de infinito. o real e o imaginário. surgem outras perguntas instigantes: qual é a lei desse círculo que não tem centro? Qual a origem desse caos. no entanto. o detalhe e a dispersão.perspectivismos. Metalinguísticos. por outro lado. instaurando o mundo cósmico e o mundo metafísico? Cósmico. ao gosto barthesiano pelo obtuso. multiplica aquele que se projeta ou é projetado no espelho. próprias dessa arte . e metafísico. 2011 . A Estética Barroca. a partir da ideia de que o abismo cósmico passa a ser um reflexo do abismo interior do ser. segundo suas ideias. 14. ao “entre” as formas e signos. segundo Helmut Hatzfeld em Estudos sobre o Barroco (1988).e também possíveis em Borges e Escher -. incontestavelmente. Dez. o juízo e a loucura. porque presente na relação do ser com o mundo e com os outros. assume ser. contrastando. Se tomarmos o espelho como referência e o intertexto barroco como pano de fundo para essas indagações. como impulso ascendente. nesses textos. formas. Jul. com a sensação de ser arrastado para baixo. A metáfora do espelho ou espelhamento das formas revela o mundo das aparências reforçado no barroco. na sensação de Figura 4 . antíteses. E as duas obras aqui focadas não fariam esse mesmo processo e reflexão. instaurando multiplicações sem cessar. n. um universo no qual está sempre presente o jogo de reflexos entre a vigília e o sonho.

Eles de certa forma. ilude o olhar . Os truques. forçando um renascimento a cada fruidor.15). que é apenas imaginada. 60 Revista Mosaicum. continua querendo existir. 2011 . com todas as variantes possíveis no espaço e no tempo” (HATZFELD. para enfrentar os olhares da obra sobre si mesmo (olhar olhado). A luz solar vinda através da janela lateral reproduz na dimensão do quadro uma outra janela pintada. . “o contraste entre a tentativa e a realização. 14. a dimensão crítica (autocrítica) de Borges e Escher consiste. ou seja. 1985. participando virtualmente no reflexo do espelho ao fundo e imaginariamente transportados para o fruidor. simplesmente porque o artista os colocou à frente do primeiro plano. entre o alto e o baixo. para ler Borges. de Velásquez propicia a fruição e a problematização de todos os “lugares comuns” na pintura. por um espelho perdido ao fundo da tela ou do ateliê. Enfim. diante do qual. nesta tela barroca.produz simulacros aonde o olhar vem perder-se. ao usar a mesma estratégia do desvio. O olhar que olha as meninas não vê a obra: é tragado para o interior de um espaço e de um tempo que continuam ali instalados bem no meio do presente. que neste espaço é obrigado a desviar-se do lugar narcísico da obra. a profundidade que é proposta no espaço pictórico.outro mágico ilusionista-. está o artista em plena ação de pintar. 93). aquilo que chamamos de obra. n. mas eles continuam ali. os tirou da cena enquadrada. O quadro surpreende os olhares de um público que não está sendo retratado. Em outras palavras. Dialogando com os deslocamentos sobre as representações do espaço em Borges e Escher. mas que observa criticamente uma cena. Nesse caso. 1988. Dez. retomam desse estilo o ponto de vista pictórico com perspectiva e profundidade. entre o interior e o externo. “a obra desloca o seu fruidor para a cena originária. As “meninas” olham a sessão de pose dos reis de Espanha para um retrato (que não aparece) e. estrategicamente colocado na sala. em construir ordenadamente a imagem da desordem proposta pelo Barroco. p. O espelho. Jul. estrategicamente. ele também olha os reis e fixa suas imagens numa tela. a tela Las Meninas. p. Velásquez. o Barroco introduz. Escher ou Velásquez é preciso buscar desvios. A magia é surpreendida pelo olhar. mas os olhos que vão sugerila” (ARAÚJO. fazem do olhar e do imaginário da obra a própria encenação pictural. De qualquer ângulo ou parâmetro de leitura.ISSN 1808-589X . usa as meninas para montar sua encenação: os protagonistas não estão onde deveriam estar (no primeiro plano). fugir à pregnância dessas figuras em direção aos lugares mais sombrios e perceber os jogos de imagens.pelo desejo de perder-se nos abismos da eternidade. de deslocamentos conceituais e espaciais que eles realizam. Além de elevar-se para uma espiritualização. O olhar percebe por desvio e o artista. que não é bem ela mesma em sua materialidade. fica sempre a sensação de que a cena que inspirou aquele momento retorna como reflexo se repetindo. A obra captura o momento de uma outra obra. E dessa cena sabese longinquamente. Na leitura de Rosângela Araújo. reproduz na dimensão real. em grande parte. como também percebemos em Borges e Escher. ou seja.

é também. o olhar do autor. ou mesmo. pois. uma relação crítica. que olhar seguir? Jogo de olhares? Jogo de espelhos? O mesmo pode-se dizer de Escher e Velásquez? Na tentativa de dizer esse discurso. relações. ambos problematizam a forma e criam mecanismos para o leitor/espectador interpretá-la. que capta um olhar sobre a cidade. Um cruzamento do texto e do Revista Mosaicum. que se mapeou e percorreu. assim. ao mesmo tempo. de retomadas diversas. até o infinito como quis e relatou o narrador do conto crítico e autocrítico de Borges. e antes de tudo. não existem nelas outros meios comunicativos além daqueles dados por elas. capta uma imagem. No caso desse recorte. que aponta a direção exata para o olhar do leitor. terão sido reais ou imagens da imaginação? Olhando todos esses olhares. As duas são.18 até que a realidade desaparece: o olhar do narrador-protagonista. 14.que submete a multiplicidade de seus elementos à uma ideia central. simples relacionamentos de objetos. 2011 . ou através da própria obra. colhendo e trazendo instrumentos que dão forma e montam os diversos ambientes. Dez. vai destruindo o “efeito do real”. essas obras desempenham uma complementação em mise en abyme . novas leituras. uma organização capaz de dar sucessões de impressões. a linguagem. tanto Jorge Luis Borges como Escher produzem uma atividade autorreflexiva de suas próprias criações artísticas. Um pouco. Essas obras enfocam o papel fundamental da imagem artística. nesse ensaio. isto é. por si só metalinguístico. (In) conlusões: armadilhas do texto e da imagem A arquitetura em mise en abyme. Essa trajetória definida entre áreas espaciais serve para dar continuidade e articular o discurso. representar o indizível ou o irrepresentável condena-se o artista a uma outra atividade paradoxal: procurar destruir. pela própria crítica. seus modelos. têm de ser comparados com os seus meios circundantes. extrapolando seus limites da visão com uma relativa obscuridade que mais esconde do que revela. centrado na procura e na investigação. um ato comunicativo especial que se realiza totalmente através de seus códigos. fornecendo aspectos da vida. sugerindo análises significativas. Dito de outra forma. Essa escolha recai na verdade sobre o caráter do cenário. gestos que ativam uma outra atenção e estão presentes num contexto mais amplo. memória e fragmentos de espaços. Jul. principalmente. vertiginosamente. ambiguidades e sugestões. a relação inevitável da intertextualidade presente nessa produção.espécies mesmo do que elas traduzem. certo passo a passo para o leitor seguir e interpretar. em função disto se completam com a narrativa: elas chamam à visão como fator fundamental na percepção humana. os livros que lê. isto é. infinitos abismos. colocando uma imagem dentro da outra sucessivamente. Em A Biblioteca de Babel e em Côncavo e Convexo vale dizer que elas implicam um movimento de crítica e autocrítica. produzindo. Com esse olhar.ISSN 1808-589X 61 . Inacabadas. criar mecanismos linguísticos para algum entendimento. n. é isso. E estes.

12. texturas. só se pode entrar num plágio desvairado. 1995.47). Após desenho feito com materiais gordurosos (Lápis. bastão. A ponta do novelo: uma interpretação de Angústia. fragmentada. Rodrigo da Costa. Annablume. 14. p. 6. Jul. Para ler “O Prazer do Texto”. Como a Biblioteca de Borges. p. decifradores. de Graciliano Ramos é: CARVALHO. R. Lúcia Helena. Ática. Trata-se de um método de impressão a partir de imagem desenhada sobre base. que esta angustia aproxima-se do que MONEGAL afirma a respeito do conto “O Jardim de veredas que se bifurcam”: “O Labirinto e o livro são. o ver e o escrever. a literatura e a imagem. sabiamente afirma que: “Impossível não associar a Biblioteca de Borges à biblioteca também babélica de Umberto Eco. ela faz vacilar suas bases históricas. UFF. Almagesto. um mundo onde o saber de multiplica. de Ruth Silviano Brandão. reserva de saber. copistas. também. 6 Quanto a esse mesmo raciocínio ler o artigo Jorge (Luis) Borges: o guardião de Babel. p. 61. 62 Revista Mosaicum. Lucien. p.olhar. por toda uma hierarquia de monges funcionários que também custodiam os livros e fazem deles suas vidas” (BRANDÃO. e. tudo o que se encontra na periferia do texto. 5 Por definição.S. a pedra é tratada com soluções químicas e água que fixam as áreas oleosas do desenho sobre a superfície. só pode ser dita entre as linhas). BRANDÃO. A fruição se realiza no desconforto (às vezes também como certo enfado) do leitor. Lucrécia D’Aléssio. L. afirmar histericamente o vazio da fruição”. Nesse sentido. da narrativa pós-moderna e da imagem. segundo Roland Barthes em Le plaisir du texte. 1983. altera sua fisionomia de acordo com o uso de pena. segundo Gérard Genette. [In: http://www. muito mais do que peças acessórias ou circunstanciais. Niterói.RJ. em particular de zinco. A estratégia dos signos. Buenos Aires. ou ainda. ou elementos de uma prática editorial. conhecida como “pedra litográfica”. A autora. tudo aquilo que acompanha. transgressora. a sua maneira. A flexibilidade do processo litográfico permite resultados diversos em função dos materiais empregados: em lugar da pedra. 8 A fruição. prolonga ou está em torno do texto. só se pode falar “em” ele. a biblioteca dessa mal localizada abadia é habitada por escribas. sujeito e objeto dentro do mesmo espaço: o da linguagem espelhada. é o indizível.itaucultural. a não ser que seja atingido por um outro texto de fruição: não se pode falar “sobre” um texto assim. de O Nome da rosa. São Paulo. n. labirinto de livros. Roland Barthes: uma babel feliz. 1977. “escrever”) é descoberta no final do século XVIII por Aloys Senefelder (1771-1834).). Testes de cor. essencialmente. 7 A esse respeito. ler o livro: DIEGO. São Paulo. In: BRANCO. por sua vez. 2 Ver o livro FERRARA. “O texto de fruição está fora-de-prazer. pasta etc. de Graciliano Ramos. 1993 e o artigo de ARAUJO. cada vez mais são usadas chapas de plástico ou metal. José Luis De. fora-da-crítica. 41-52. 82-136. sempre que possíveis mergulhados semiologicamente no processo da mise en abyme. n. Revista Querubim. O desenho. leva-o à crise da sua linguagem.ISSN 1808-589X . miniaturistas. o paratexto é. 1995. lugar proibido. 3 Ver DÄLLENBACH. lápis ou pincel. br/aplicexternas/enciclopedia_ic Acesso em 29/05/2009]. a. A impressão da imagem é obtida por meio de uma prensa litográfica que desliza sobre o papel. “pedra” e graphein.2010. podem constituir-se em eficientes estratégias textuais integradas à estrutura literária. graus de luminosidade e transparência conferem às litografias distintos aspectos.C. 9 Vale ressaltar aqui. ela é inter-dita (ou seja. São Paulo. 2011 . Literaterras: as bordas d corpo literário. Dez. Notas 1 A litografia (de lithos.org. em geral de calcário especial. Perspectiva. 4 Outro livro maravilhoso que explora e aprofunda a noção de mise en abyme na narrativa Angústia. contribuindo para a edição do livro e sua recepção enquanto tal. culturais e psicológicas. 1981. de Roland Barthes.

16 Ver o excelente livro: GRAWUNDER. dos quais alguns não têm saída. [.1985. S/Z. 15 Muitos consideram esse cartaz como o marco do design modernista no Brasil. Martins Fontes. 100). e vice-versa. Revista Querubim. 10 Vale lembrar aqui a clássica obra de Barthes que fala da pluralidade desses códigos. UFSM. 2005. São Paulo. p. ARAUJO. Roland. Roteiro trágico de um herói. J. 81-90. p. 2001. Assim. Essa identificação entre as duas categorias distintas se transforma então. 1970. p. A poética do espaço. pode ser considerado como símbolo da inteligência. nº 12. p. Seuil. Revista Mosaicum. Prefácio. Sollers escritor. In: _____. Santa Maria.pois. BARTHES. adquirindo o status de informação artística apenas quando a linguagem não tem outro ponto de referência a não ser o próprio suporte. Borges y la ciencia ficcion. L’obvie et l’obtus: eEssais critiques III. os elementos de suporte e linguagem deixam de significar isoladamente para criar uma relação de cumplicidade absoluta. pp. 513. 2011 . como assevera Chevalier (1998. ou como “a vontade de representar o infinito”. da consciência por oposição ao inconsciente. Paris. em La Structure du texte artistique define a obra de arte como “texto várias vezes codificado” [1973. 1998. 13 De acordo com Chevalier (1998. ver o livro Borges y la ciência ficcion. BARTHES. da busca de conhecimento. ele também passa a ser codificado várias vezes pela obra. Para ler “O Prazer do Texto”. O mesmo processo aqui. de. Jogo de espelhos: Borges e a teoria da literatura. 1982. Rio de Janeiro. 1982. Referências ABRAHAM. o que garante sua abertura para diferentes leituras: “ Esta capacidade de um elemento de um texto de entrar em várias estruturas contextuais e de receber. Roland.. 12 Para esse viés de leitura. ARAUJO. ARRIGUCCI JR. 18 Ver BARTHES. R. (CHEVALIER. Niterói . tido como um entrecruzamento de caminhos. O conceito que norteia o cartaz da I Bienal e toda a produção modular de Maluf são os postulados da “equação dos desenvolvimentos”. Globo. de Carlos Abraham. em informação artística concreta. de Roland Barthes. 515). Borges ou o conto filosófico. uma significação diferente.ISSN 1808-589X 63 . Ano 06. grifo do autor) 14 O labirinto. 82-136. n. Achiamé. p.. 1996. Ed. pp. os altos conhecimentos e dons da inteligência e da alma são o jardim da clara percepção interior: Em nível mais elevado. Maria Zenilda. é uma das propriedades mais profundas do texto artístico” [1973. Seuil. Dez. ROSÂNGELA N. BACHELARD.] o jardim representa um sonho do mundo. Jul. Olympio. Gaston. Rodrigo da Costa. 1993. 532). 1982. São Paulo. A palavra mascarada: sobre a alegoria. 17 Aqui faço alusão ao elegante livro do semiólogo Roland Barthes. Carlos. Buenos Aires. que transporta para fora do mundo. Littérature et réalité. 102]. Paris. Universidade Federal do Ceará. Rio de Janeiro. da ordem por oposição à desordem. 1982.RJ. Davi. o jardim é um símbolo de cultura por oposição à natureza selvagem. Nara Maia. Quadrata.2010. pode ser contextualizado na postura do leitor. Rio de Janeiro. 9-26. ANTUNES. Paris. p. Tempo Brasileiro. p. L’effet de réel.103]. uma só e mesma coisa: o Universo” (1980. Lisboa. In: Ficções. de reflexão por oposição à espontaneidade. Fortaleza. conforme o caso. Esta equação seria uma igualdade entre os elementos de linguagem e o suporte no qual estão sendo aplicados. UFF. 14. Seuil. 11 Lotman.

São Paulo. O espelho mágico de M. Littérature et réalité. [pp. Brasiliense. In: Schwartz. 2001. cores. 1977. Santa Maria. ERNST. 1991. BORGES. L’obvie et l’obtus: essais critiques III. São Paulo. DIMAS. Figuras. O jardim de veredas que se bifurcam. HATZFELD. São Paulo: UNESP. 1973. O pensamento vivo de Jorge Luis Borges. Lucrécia D’Aléssio. São Paulo. Seuil. LOTMAN. 1983. Perspectiva. 1980. Ed. Paris. de Graciliano Ramos. DÄLLENBACH. Annablume. Escher. 1988. figuras. 1982.S. La Structure du texte artistique. 1998. A Biblioteca de Babel. São Paulo. sonhos. 1996. São Paulo. 1993. Ficções. Lúcia Helena. Taschen. 1973. Paris. 2011 . São Paulo. 405-412. (Org.) Borges no Brasil. Bruno. São Paulo. Borges: uma poética da leitura. Perspectiva. ____. BRANCO. Rio de Janeiro. formas. Seuil.ISSN 1808-589X . CHALHUB. SOUZA. costumes. Na ponta do novelo: uma interpretação de Angústia. São Paulo. p. São Paulo. 1972. 64 Revista Mosaicum. In:______. Colônia: Alemanha. R. In:______. Arlindo. 1987. Cristina. CHEVALIER. A palavra mascarada: sobre a alegoria. Paris. Seuil. Globo. Jorge. FONSECA. Le plaisir du texte. 1981. Recebido em aprovado em outubro de 2011. Emir R. GHEERBRANT. Borges. Lucien. Estudos sobre o Barroco. 2009. autor das Mil e uma noites. 1984. Gérard. Eneida Maria de. L’effet de réel. Dicionário de símbolos: mitos. Dez. 101-114. 91-100]. GRAWUNDER. São Paulo. Paris. ____. Youri. CARVALHO. n. 1994. Ática. Jean. MONEGAL. Borges: disfarce de autor. Tecnoprint. Espaço e romance. GOMES JR.. Helmut Anthony. Seuil. Gallimard. ____. SP: Educ. ____. 2001. Rio de Janeiro. Le récit spéculaire: essai sur la mise em abyme. 1991. L. 2001. Poética do erótico. São Paulo: Perspectiva. Escuta. GENETTE. Antonio.C. 14. 1982. Paris. UFSM. A estratégia dos signos.C. S/Z. 1995. Samira. Globo. MACHADO. Paris. gestos. 1982. p. A Ilusão especular: Introdução à fotografia. O livro de areia. Seuil. ____. Maria Zenilda.____. Ática. Alain. Seuil. Jul. Paris. FERRARA. _____. Ficções. José Olympio. Jorge Luis.1970. Palimpsestes: la littérature au second degré. Companhia das Letras. números. In: _____. Guilherme Simões. BRANDÃO. Perspectiva. Literaterras: as bordas do corpo literário. São Paulo.

Foucault foi o principal teórico que. Didática. Still from a post-structuralist outlook. n.PELAS VIAS DE UMA DIDÁTICA DA OBRA DE ARTE Journey along a didactics of the work of art Eliana Gomes Pereira Pougy Universidade de Mogi das Cruzes Resumo: trata-se de um artigo teórico. a despeito de suas especificidades e seus diferentes objetos.ISSN 1808-589X 65 . 2011 . Comunicação. o mesmo paradigma geral segundo o qual se estruturam os saberes científicos da comunicação. a partir da era Moderna. de cunho filosófico-educacional. Essa didática. notably on Michel Foucault’s work. Também a partir da perspectiva pós-estruturalista. Keywords: Education. Ruído. a filosofia. que entende a relação didática como agenciamento e a comunicação como redundância e observação. Em nome do diálogo democrático. A partir da perspectiva pós-estruturalista. o mundo da criação. of Rousseau’s Emile. the world of creation. observing that these discourses share. can help us to understand the moments at which the process of teaching and learning occurs between the world of noise and that of the construction of meaning. whose aim is to analyze the knowledge-power device of didactics. and the communication as redundancy and observation. one can propose a Didactics of the Work of Art. Just as Deleuze and Guattari affirmed the existence of a pedagogy of the Concept. despite their specificities and different objects. Communication. pode-se propor a existência de uma Didática que é da Obra de Arte. aquilo que era dever de alguns passou a ser um direito de todos: sem sombra de dúvidas. and to propose the epistemological basis for the construction of a Didactics of the Work of Art. Such didactics. Abstract: this is a theoretical article of a philosophical-educational nature. the article expounds the epistemological basis for the construction of new forms of thinking didactics or the education-communication relation. e percebe-se que esses discursos compartilham. da igualdade social e da liberdade de expressão. Based on the post-structuralist perspective. podemos falar e ouvir como em nenhum outro tempo histórico. visando analisar o dispositivo saberpoder da didática e propor a base epistemológica para a construção de uma Didática da Obra de Arte. the text realizes an archaeology of the didactic discourses of the Bible. Dez. Jul. nos provou que o falar e o ouvir fazem parte de uma estratégia do poder disciRevista Mosaicum. comunicação e didática A história nos mostra que. as artes e as ciências se uniram para permitir que todos possam comunicar-se eficaz e igualitariamente. de forma metodológica. which understands the didactic relation as agency. Assim como Deleuze e Guattari afirmaram que existe uma pedagogia que é do Conceito. propõe-se a base epistemológica para a construção de novas formas de pensar a didática ou a relação educação-comunicação. of Comenius’ Didactica Magna. faz-se uma arqueolo gia dos discursos didáticos da Bíblia. enfocando as idéias de Gilles Deleuze e Felix Guattari. and of Dewey’s Democracy and Education. em nome da democracia. da Didactica magna de Comenius. now focusing on the ideas of Gilles Deleuze and Felix Guattari. com destaque para a produção de Michel Foucault. Palavras-chave: Educação. Noise. 14. do O Emilio ou da Educação de Rousseau e do Democracia e Educação de Dewey. pode ajudarnos a compreender os momentos em que o processo de ensino e de aprendizado se processa entre o mundo do ruído e da construção de sentido. Didactics. the same broad paradigm according to which the scientific knowledges of communication are structured. Linguagem. em nossos dias.

compreende-se que as estratégias didáticas são um dispositivo do saber-poder. em sala de aula. criam ilusões e convencem-nos de que somos autônomos. foram criadas teorias científicas.plinar e controlador que caracteriza o nosso tempo e que tem origem em outros tempos: cristalizações que retornam diferentes. do O Emilio ou da Educação de Rousseau e do Democracia e Educação de Dewey. Jul. A ideia geral sobre linguagem que permeia os discursos didáticos. como algo que se deve negar e ocultar ou mesmo ‘consertar’ para que a transmissão das mensagens ocorra sem problemas. a despeito de suas diferentes formas. analisados por mim em minha dissertação de mestrado mediante a arqueologia do discurso. 2011 . que preconiza a separação e a dicotomização entre sujeito e objeto do conhecimento. opinam mais. consequentemente. isso se traduz nas estratégias didáticas que. ou de uma diferença entre o que se ensina e o que se aprende. os professores planejam mais.ISSN 1808-589X . método desenvolvido por Michel Foucault. objetos da cultura. como ruído. mas que continuam a existir.. O paradigma da comunicação que entende o ruído como exceção faz parte de um outro paradigma mais forte e poderoso que sempre esteve presente no pensamento ocidental: o paradigma da disjunção. respondem mais. seduzem. Dessa forma. testadas e comprovadas. os alunos falam mais. O paradigma da comunicação entende o ruído como uma exceção. 14. obras de arte. que resultam no controle absoluto do falar e do ouvir na escola: só o que mudou foram os mecanismos de controle. desde a mais tradicional até a mais renovada. reivindicam mais e os professores são ‘ouvidos’ das mais diversas maneiras: por meio de filmes. Assim. propõem mais e os gestores ouvem mais. que preconiza a linguagem como representação do real e que não compreende toda a complexidade do pensamento humano. desde a mais técnica até a mais crítica. mas como uma regra. podemos afirmar que o ruído existe e faz parte do processo de comunicação não como uma exceção. relatam mais. possui sua especificidade e tem uma parte ativa do processo de comunicação. buscam garantir o diálogo pedagógico ideal. E o que une todas as formas de didática. Na Educação. Entretanto. Um paradigma funciona como uma estrutura de pensamento arraigada. A continuidade do poder se mantém por meio de estratégias diversas que enganam. Na administração escolar. de suas especificidades e de seus diferentes objetos. em busca do diálogo pedagógico ideal. Dez. organizam mais. deriva de uma imposição dos detentores do saber oficial e resulta principalmente na conceituação do que é ou não verdade. n. é o paradigma geral segundo o qual se estruturam os saberes científicos da comunicação: o paradigma da transmissão de mensagens e. é a ideia de que a linguagem trabalha com signos que servem para representar e 66 Revista Mosaicum. como o discurso da Bíblia. E como tal. baseadas nas teorias pedagógicas. a ideia de não-transmissão.. Desde que Dewey afirmou que educar é comunicar. da Didática Magna de Comenius.

a razão capta todas as relações que constituem a realidade e. valora determinadas produções e mantém um mercado de produtos culturais e os jogos do poder (GUATTARI. 14. caóticas. A segunda consequência do uso da linguagem comunicacional na Educação é a valorização da linguagem lógica em detrimento da linguagem mitológica. também. entendemos a intuição como uma compreensão global e completa de uma verdade. que se tornou. ensinar linguagem não é algo natural. O uso da linguagem lógica na Educação estruturou o modo como professor e aluno se comunicam em sala de aula. Em outras palavras. o aprendizado também não. 2011 . por meio da intuição. De uma só vez. o que se avalia neles é se o significado dos conceitos e das ideias transmitidos ou mediados pelo professor foi compreendido e assimilado. No entanto. a verdade. a significação é o conhecimento para nós. de um objeto ou de um fato. caso os signos utilizados pelo professor não signifiquem aquilo que deva ser ensinado e aprendido. para nós. De um modo geral. Esses signos possuem um código comum de representação que deve ser conhecido tanto pelo professor quanto pelo aluno. ROLNIK.ISSN 1808-589X 67 . Esse valor está presente principalmente na forma como avaliamos o aprendizado de nossos alunos. A atividade racional possui duas modalidades: a intuição e o raciocínio. desordenadas). algo que faz parte da cultura. Caso o professor e o aluno não possuam o mesmo código de representação. entendida como aquilo que cria civilizações. Dez. às emoções e aos sentimentos (paixões cegas. à crença religiosa (a revelação divina) e ao êxtase místico (inconsciência). A definição que fazemos de nós mesmos é de que somos seres racionais. para nós. Entretanto. algo natural. Isso é tão enraizado em nossa cultura que nunca questionamos essa necessidade. o conhecimento racional é mais importante porque ele trabalha com provas e demonstrações. a comunicação não acontece. o modo como os saberes são organizados no currículo e o valor que damos ao significado dos conceitos e das ideias. A razão obedece a determinadas regras que nem chegam à nossa consciência quando pensamos. em algum momento do processo. O raciocínio trabalha de forma diferente: ele é o processo do conhecimento. n. e sim algo construído histórica e socialmente.significar as coisas do mundo e as ideias. aparências). Em geral. e caso a resposta do aluno não seja adequada à significação comunicada a ele pelo professor. o conhecimento está ligado à razão e seus princípios. O conhecimento racional segue determinados princípios que são opostos ao conhecimento ilusório (costumes. e trabalha com o discurRevista Mosaicum. O conhecimento pode se dar. A principal consequência na Educação desse modo de pensar a linguagem é a necessidade que se criou de se ensinar linguagem para as crianças a fim de que elas sejam detentoras do código comum de representação usado para a comunicação. Jul. preconceitos. Por essa via. Em nossa tradição filosófica. 2005).

2004). Desde o pensamento moderno. 2011 . os sujeitos se encontram em busca da re. mas sob as condições gerais universais e necessárias da objetividade e da razão. discursos que ganham o status de verdade (Chauí. de compreender e de representar suas ideias. Por isso. Dez. o sujeito do conhecimento é a própria razão. no século XVIII. A filosofia se divide. Foi a partir das ideias de Kant que as ciências humanas herdaram a tarefa da metafísica de tentar alcançar a realidade e os fenômenos dessa realidade. o conhecimento tem como centro a figura do sujeito do conhecimento. Esses conceitos. suas qualidades e características. As diversas didáticas usadas para ensinar utilizam linguagens e conjuntos de signos para transmitir ou comunicar os saberes aos alunos. e a realidade acaba por ser entendida como estruturada pelas ideias do sujeito. Para ele. são aquilo que costumamos chamar de saber. para nós. Por meio dos recursos didáticos. Essa é a questão principal que moveu mudanças no modo como encaramos o conhecimento. que fazemos parte da civilização ocidental contemporânea. a metafísica kantiana também é chamada de idealista.ISSN 1808-589X . comu68 Revista Mosaicum.significação dos mais variados conceitos sobre os objetos do conhecimento. A partir de suas ideias. conceitos esses que vêm sendo acumulados pela humanidade. 2004). 2004). e existem correntes que aceitam que a razão é adquirida. O conjunto dos métodos para ensinar e aprender os saberes tem como objetivo principal o aprendizado e a compreensão por parte do alunado dos conceitos já criados e habilitar os aprendizes a usar a linguagem como representação. O conhecimento racional cria teorias. 14. numa sala de aula. Ao aprender. o sujeito do conhecimento é uma estrutura universal e idêntica para todos os seres humanos em todos os tempos e lugares. ou seja. E é também chamada de filosofia da Consciência. principalmente com o discurso que generaliza e universaliza. Jul. Há que se perguntar. porque ela influi diretamente no modo como organizamos os saberes (aquilo que aceitamos como verdades) e no modo como os transmitimos de geração a geração. pois dá prioridade para o sujeito do conhecimento ou para a consciência de si reflexiva. em relação a isso: existem correntes filosóficas que aceitam que a razão é inata. n. na qualidade de consciência de si reflexiva ou atividade permanente racional que conhece a si mesma (Chauí.so. então. as pessoas incrementam sua inteligência ou a faculdade que possuem de conhecer. Por isso. porque ela vai das ideias produzidas pelo sujeito em direção às coisas. como adquirimos a razão ou o conhecimento racional. Uma das soluções para esse impasse que mais marcaram a história do pensamento ocidental foi desenvolvida por Immanuel Kant (Chauí. nasceu a divisão entre as ciências empíricas e a filosofia transcendental.

busca-se a transmissão de informações mediante um diálogo pedagógico.. a língua possui um caráter social. Entretanto. olham-se. o silêncio e mesmo a total apatia. evoluem em seu desenvolvimento cognitivo. No caso da Educação. outros aspectos passaram a ser incorporados ao encontro pedagógico ideal. 14. clara. muitas vezes. a repulsa. ao aprender. as pessoas presentes numa sala de aula recebem informações necessárias e adequadas. aquele que reflete sobre sua prática a fim de torná-la melhor. Nesse encontro ideal. o professor renova sua prática. a atração. sobre o fazer escolar. o professor pode se orientar por uma Didática Geral. sobre as contradições presentes na sociedade. percebemos que nesse espaço sempre existiram trocas inesperadas. acontece o prazer. É no espaço da sala de aula que as pessoas efetivamente esbarram-se umas nas outras. muitas vezes. Para os linguistas. sem distinção. os alunos atingem uma posição superior na hierarquia do saber. a alegria. a frustração. segundo a tradição filosófica clássica. utilizadas conforme a disciplina. Entretanto. à frente de seu tempo. Num encontro pedagógico ideal. ou seja. A segunda consequência é que o desenvolvimento da inteligência leve à critica da significação. Dez. toda a sociedade acaba por se desenvolver. isso também não garante a transformação daquilo que é real e imperfeito em ideal e perfeito. a crítica cai sobre a pragmática. Em geral.. Por meio da reflexão e da crítica à prática e da proposta de novas ações. É também no espaço da sala de aula que o professor fracassa. 2011 . tocam-se. ou seja. a euforia. a solução encontrada para o problema da Educação é buscar técnicas e tecnologias que. este acaba por ver-se num beco sem saída. cheiram-se. Ser capaz de usar corretamente os códigos da língua abre as portas aos saberes acumulados na história da humanidade e. É no espaço da sala de aula que. mediante a aplicação de suas ideias. garantam a assimilação dos significados por parte do aluno. já é lugar comum a busca por um tipo de professor: o professor crítico. e uma enorme sensação de impotência o abate. Prova disso é o enorme investimento que o governo e as empresas vêm fazendo para equipar as escolas com tecnologias de ponta em comunicação e informação. a incompetência. Assim. Levar saber ao povo significa capacitar todos na linguagem denotativa. num encontro pedagógico ideal. devido ao surgimento da lingüística. No começo do século XX. n. uma didática que se aplica a qualquer área do saber. o desinteresse. A lingüística compreende a linguagem por duas dimensões: a fala e a língua. e diversas didáticas específicas. a sedução. a tristeza. A principal consequência desse modo de pensar é a de que o ensino da língua deve ser levado a todos. perdendo o Revista Mosaicum. Invariavelmente. dessa forma.nicações úteis e objetos culturais. matemática e lógica. e também devido à nossa tradição filosófica. Em nossos dias. científica. Quando vivenciamos um processo de ensino e de aprendizado em uma sala de aula real.ISSN 1808-589X 69 . a agressão. aliadas ao trabalho pedagógico. Jul. a raiva. a crítica recai sobre as instâncias maiores que ele.

Segundo Chauí (2004). Em nome desse medo. criar novos métodos de ensino. defender a ideia de que o erro ensina. A arte de ensinar por essa via. não existe. O que existe é a errância fazendo parte de um processo de transformação do saber. traçam uma linha rizomática e se perdem no nonsense da busca pelo sentido. ações de exclusão as mais diversas veem sendo praticadas há anos nas escolas em todo o mundo. aceita-se que o professor também possa dar a volta por cima. tanto por parte do aluno quanto do professor. essa constatação não me faz. enquanto houver vida.controle sobre o processo de ensinar. O resultado da constante ressignificação. qualquer forma de ruído na comunicação entre professor e aluno é considerado algo errado. No entanto. o erro. Infelizmente. Infelizmente. Nesses momentos. é esse aspecto que mais nos amedronta quando a comunicação entre professor-aluno-conhecimento não acontece de forma adequada.ISSN 1808-589X . como o inverso do acerto. acabei por descobrir novas ideias que vêm surgindo1 e que têm a filosofia da Diferença como base. 14. sempre em construção. Em minha pesquisa (Pougy. novos fluxos de transmissão de conhecimento. Jul. É nesses momentos que pode acontecer aquilo de mistério que faz surgir a poética ou a criação na sala de aula. Para que mesmo que estamos aqui? Nesses momentos. 2011 . e da eterna insatisfação em relação ao diálogo ideal que deve existir entre professor e aluno são uma bola de neve recheada de pessimismo e desânimo. Esse não é o meu objetivo. Além disso. o envio e a recepção de mensagens significativas fogem pelo ralo. Por essa via. a filosofia da Diferença se interessa mais pela singularidade e particularidade e menos pelas semelhanças e 70 Revista Mosaicum. desenvolver um estilo próprio de dar aula. A isso. o que existe são sempre acontecimentos. nesses momentos. Dez. reconhecese que um aluno possa aprender criando. escapam pelo ar. sua própria didática. dou o nome de didática poética. torna-se a poieses de ensinar. n. escoam pelas frestas das portas e das janelas. enxergamos aquilo de mistério que faz com que o ruído surja no processo de comunicação. de modo algum. e não apenas recriando ou ressignificando mensagens significativas. E é nesse emaranhado de afeições e percepções que os objetivos de um encontro pedagógico ideal. E desejo pelo novo. ruim. é também nesses momentos ruidosos e caóticos que podem surgir novas vias de comunicação. desmotivador. principalmente de acordo com as ideias de Gilles Deleuze e Félix Guattari. mesmo que utilizemos todos os recursos didáticos disponíveis para comunicar um saber aos nossos alunos. Entretanto. fazendo diferente. para a didática comunicacional. singularidades. Em geral. Para a filosofia deleuzeana. 2006). a sala de aula pode se tornar o palco da indisciplina e até mesmo da violência. em contrapartida à didática comunicacional. novas ligações sinestésicas.

A filosofia da Diferença faz parte de uma linha de pensamento que quebrou as concepções filosóficas e cientificas que eram tidas como verdadeiras. quem sofre essa mesma crítica é a didática. as diferentes culturas singulares. n. como suas partes ou seus momentos. sobretudo. causa. ou seja. antes da estrutura da linguagem. A maior diferença entre o pensamento que aceita a diferença e o pensamento científico clássico é em relação à causalidade dos fenômenos. singularidade das diferentes culturas. Essa forma de pensar muda totalmente a conceituação de linguagem e de comunicação. interessa-se pela multiplicidade e pela diferença entre as ciências. Nos últimos anos. que entende a pragmática como o estudo daquilo que foge às constantes da linguagem. a epistemologia da educação vem reconhecendo o caráter transdisciplinar da educação. Dez. Jul. é autopoiético. por seus impasses e problemas insolúveis. a sintaxe e a semântica. 2002. 31) e a epistemologia da comunicação também vem buscando a formação de um campo acadêmico transdisciplinar e a afirmação de um “estatuto transdisciplinar da comunicação” (Lopes. A linguagem: estrutura ou uso? Para Deleuze e Guattari. A filosofia deleuzeana compreende a pragmática ou o uso da linguagem como o elemento de base de que dependem a lógica.ISSN 1808-589X 71 . 14. Além disso. p. Essa ideia é muito providencial por que vivemos um momento em que os estudos da linguística colocaram a pragmática numa encruzilhada e fizeram com que perdesse sua definição como campo de estudos. 2003. agenciar devires. sua incerteza e a busca do “conhecimento do conhecimento” (Morin. pelos limites de cada uma delas e. A estrutura depende da função. em lugar de voltar-se para a ideia de uma cultura universal que conteria dentro de si. Por ter um caráter Revista Mosaicum. fazendo parte de um movimento contemporâneo crítico da compartimentação disciplinar que foi construída na história das ciências. a causalidade é circular e o conhecimento é autoprodutivo. p.identidades. Para a filosofia da Diferença. a filosofia da Diferença compreende alguns aspectos presentes na linguagem e na comunicação que outras não conseguem explicar. Ao contrário da lingüística. Inspirando-se nos trabalhos dos antropólogos. em vez de buscar uma ciência universal que conteria todas as ciências particulares. Essa quebra de paradigmas da ciência resultou em um novo modo de pensar que se caracteriza pela interdisciplinaridade e por novos modos de entender o que é sujeito e o que é objeto. 1. Por seu caráter inovador. pluralidade. vem a função. o efeito é. Deleuze e Guattari entendem a pragmática como a condição mesma da linguagem. 2011 . ao mesmo tempo. interessa-se pela diversidade. Em Educação. 290). E a principal função da linguagem é agenciar: agenciar fluxos.

A expressão é uma máquina semiótica coletiva que enuncia. ao invés de uma linguagem formada por signos. um regime de corpos. um 72 Revista Mosaicum. é singular. o linguista propõe que a linguagem é sempre formada por não-signos. 14. Na filosofia deleuzeana. antes de tudo. Por essa via. Da mesma forma. Jul. um empirismo que privilegie a relação entre os conceitos e a vida. a ideia de estratificação e desestratificação. Diferentemente da definição do estruturalismo que explica que a linguagem é formada pelo par significante e significado. o referente ou o significado. Como já foi dito. O conteúdo é uma prática.interdisciplinar e não específico. variação. Quem usa a linguagem não é um Eu nem uma consciência. compreende o uso e a função das ciências. O oposto a essas figuras seria a substância semioticamente não formada. n. 2003. p. existe um campo de substâncias semioticamente não formadas. 2011 . a que o linguista deu o nome de matéria. de formalização e de aformalização. Quem se expressa na linguagem é uma máquina de expressão. no entanto. 40). O conteúdo expresso pela máquina de expressão não é o objeto. Para Deleuze (Deleuze. não aceitando a separação vida-linguagem. Uma máquina abstrata. as figuras. a didática vem sendo tratada como um campo indefinido. uso. Uma singularidade que percorre homens. Parnet. a Educação é. essa matéria não formada abre caminho para o estudo de semióticas independentes de semiologias significantes. prática. ao pressupor como base filosófica um empirismo radical. é essencial. baseada em entidades prévias. animais. 1998). Assim. o que existe é uma relaçãode pressuposição recíproca conteúdo-expressão. Ela permite a ideia de função da linguagem. que carregam uma significação e que têm como oposto não-signos.ISSN 1808-589X . e muito menos entendendo a linguagem como representação do real. segundo Foucault (2004). Para Hjelmslev. que abdica de uma concepção de linguagem transcendental. que se manifestam por uma substância de expressão e uma substância de conteúdo” (Malberg apud Almeida. nem o significante pode expressar as coisas (expressão) nem o significado pode representar aquilo a que se refere (conteúdo). algo que salta de uma singularidade para outra. Dez. Ele sugere uma nova repartição do campo semiótico: ao lado das formas e substâncias formadas (de expressão e de conteúdo). plantas. é um enunciado nos moldes foucaultianos. que formulou a noção de que os signos são “uma solidariedade entre uma forma de expressão e uma forma de conteúdo. pelo contrário. A filosofia deleuzeana. que não estão fundadas sobre a bipolaridade significante-significado. Hjelmslev chamou sua lingüística de fluxos uma lingüística imanente. os signos sem significado. É algo que não é nem individual nem pessoal e que. Deleuze e Guattari buscaram suas ideias sobre linguagem dos estudos do linguista Hjelmslev. Mais do que uma relação significante-significado. a filosofia deleuzeana pressupõe a relação entre os elementos da linguagem – sempre em variação – e a vida. ou seja. dematérias desestratificadas.

Deleuze e Guattari (1995a) definem os estratos como recaídas. Os agenciamentos são elaborados por formalizações de expressão e de conteúdo que se dão em estratos. o conteúdo ou enunciado possui forma e substância e é por excelência tecnológico. p. formados por desestratificações. um campo associado e uma materialidade. 14. O caos é o fora.enunciado possui um espaço de correlações. são idades da história. 2003). (Deleuze. disseminam-se uns nos outros. porque o plano de consistência é traçado pela Máquina Abstrata. Dez. o conteúdo age no mundo. Entretanto. então. que lhe fornece consistência. Revista Mosaicum. e que também as desmancham. onde tudo é real. Nos agenciamentos. Todo agenciamento pode ser medido pelos movimentos de territorialização. Os agenciamentos são invenções. movimentos que conjugam formas. O conteúdo opera modificações no mundo exterior. p. n. que existe “simultaneamente desenvolvida no plano desestratificado que traça. um sujeito. eles fazem parte de um plano de consistência. como reterritorializações. Tal como a expressão. também. opera conjunções de fluxos de desterritorialização. conjuntos de vizinhança homem-utensílio-animal-coisa. 2003. movimentos. 87). A questão que se coloca. desformando-as. que visibiliza. não possuem uma relação dual. existe apenas como forma engajada em um agenciamento complexo e coletivo. são culturas. pelo contrário. Territórios e desterritorializações não são opostos. os devires se territorializam. um plano onde todas as metáforas são abolidas. Jul. os estratos não seguem uma sequência ordenada. expressão.] é difícil expor o sistema dos estratos sem parecer introduzir entre eles uma espécie de evolução cósmica ou mesmo espiritual. e eles são. Ele é carregado de estratos. não há ideologia. Um agenciamento é ao mesmo tempo um agenciamento maquínico de expressão e um agenciamento coletivo de enunciação. desterritorialização e reterritorialização que acontecem em seus fluxos. mantêm-se. As formalizações de expressão e de conteúdo se dão em agenciamentos. o exterior. Ele constrói contínuos de intensidade. como se eles se ordenassem em estágios e passassem por graus de perfeição. emite e combina signos-partículas. mas envolvida em cada estrato cuja unidade de composição define e mesmo erigida pela metade em certos estratos cuja forma de preensão ela também define” (Almeida.ISSN 1808-589X 73 . O plano de consistência não é o caos. é como se dão as estratificações? Como se dão a nomeação e a identificação das coisas? Quando os signos surgem? Segundo os filósofos: [. fugas. de tensões. 86). ou qualquer formalização da expressão. Guattari.. O conteúdo é uma máquina social técnica que torna visível. Todo agenciamento possui uma tetravalência: conteúdo. estabilizando-as. são livros.. A linguagem. são quadros. são encontros. de lembranças. de desterritorialização (Almeida. estratos ou territórios e linhas de desestratificação. eles possuem pressuposição recíproca. 1995a. 2011 . O enunciado não é ideologia.

14. Por exemplo: um cristal expressa sua forma a um meio amorfo que lhe é exterior. a forma do conteúdo torna-se lingüística. Aqui. mas que. ao mesmo tempo. opera por símbolos compreensíveis e opera modificação no mundo exterior. Além desse aspecto. a expressão determina o conteúdo como se fosse um molde. Ela se reproduz. Conteúdo e expressão. conteúdo e expressão diferem-se pela dimensão e ligam-se por indução. orgânico. as línguas formais. novas ferramentas. se prolonga nas ferramentas. por exemplo. n. b) distinção real-real. c) distinção real-essencial.ISSN 1808-589X . por um processo pelo qual uma energia se transforma em outra de natureza diferente. para liberar palavras e sons codificados(Deleuze. na qual se instaura uma ressonância de expressão. Aqui. estratificando um bloco de devir germemeio-cristal. que não são necessariamente uma essência humana. a expressão se dá por intermédio dos signos. inclusive cruzando espécies. 1995a). comunica-se com as outras espécies por transdução. Por exemplo: a molécula expressa porque ela percebe e reage em relação a outras moléculas com as quais troca energia e cria vida. produzindo novos estratos. Nesse estrato. criando novas funções. 2011 . O que varia de um estrato a outro é a natureza da distinção entre conteúdo e expressão. fazendo com que o agenciamento maquínico funcione como um metaestrato. Aqui. a partir de sujeitos. é interiorizado e incorporado pelo germe que originou o cristal. estratificando um bloco de devir macaco-vírus-homem. desterritorializandoas. Por exemplo: a mão.Um estrato serve de substrato a outro. novos usos. Nesse estrato. que perde sua função de receber alimentos. aqui. se ligam por tradução. linguageiro. A unidade elementar da linguagem que se dá no estrato linguageiro não é o signo. na qual se instaura uma sobrelinearidade de expressão. Jul. Dez. 74 Revista Mosaicum. a expressão desterriotorializa as coisas do mundo e dos seres. a expressão vai de um estado a outro continuamente. é a palavra de ordem. Guattari. mas diferem realmente e se ligam por transdução. ela é autônoma e possui um limiar de desterritorialização. constituindo o meio associado. interferindo nelas. na qual se instaura uma linearidade de expressão. Segundo Deleuze e Guattari (1995b). sendo que nas três há sempre uma distinção real entre expressão e conteúdo: a) distinção real-formal. estratificando um bloco de devir sujeito-signo-ferramenta-objeto. Nesse estrato. Um vírus. a expressão compõe conjuntos de traços formais. expressão e conteúdo possuem a mesma dimensão. Aqui. geológico. como forma geral de conteúdo. por sugestão. a comunicação se dá por tradução. A filosofia deleuzeana define três tipos de diferenciação entre as formas de expressão e de conteúdo. A tradução é diferente em cada agenciamento. não seguindo um padrão de significação transcendente. que também transforma as substâncias e as coisas. Nesse estrato. Por exemplo: a desterritorialização da boca. Meio e cristal se comunicam por indução.

que dá a visão ou a sensação. Jul. n. compreende-se que a linguagem não é apenas representação. Segundo Deleuze e Guattari (1995a). ou seja. como diz Joyce. existe uma outra função da linguagem que acontece no estrato linguageiro e que ultrapassa os limites e os restitui à equivalência infinita de um devir ilimitado. constituindo um caosmo ou. é o pensamento não acabado que busca realizar ressonâncias entre planos distintos. uma enunciação nos moldes foucaultianos: uma função que possui um conjunto de condições de existência. As palavras de ordem são pressupostos implícitos. No movimento de desterritorialização dos devires.as palavras de ordem redundam nas palavras e nos atos. que se transformam.O uso menor da linguagem pode ser entendido como a produção de arte. redundando nas mesmas palavras. Ele justifica a existência dessa função não como algo ruim. é apenas uma condição da linguagem. O pensamento rizomático é acentrado e não hierárquico. Deleuze e Guattari (1995a) trabalham dois tipos de imagem do pensamento: de um lado. sempre imanente. o rizoma. a linguagem agramatical. mas uma composição do caos. não é a verdade ou a mentira. A arte precisa de um método que varie com cada autor e que faça parte da obra de arte. uma imagem do mundo. É um processo que não para de se formar. Quando nessa função. falso. é criador de diferenças.ISSN 1808-589X 75 . 14. não ser transmissão de informações. a arte não é o caos. mas a indisciplina das linguagens sem ordem. a linguagem pode não ser um código. A obra de arte é um ser de sensação: Revista Mosaicum. consistência e sentido. A linguagem é sempre relativa a um agenciamento. um processo feito de platôs que estão sempre no meio de agenciamentos do desejo que trabalham sobre fluxos semióticos. Entretanto. que é um composto de perceptos e afectos. A obra de arte no pensamento deleuzeano Para Deleuze e Guattari (2000). a expressão se dá desordenadamente. nem quesua função principal seja comunicar informações. direções movediças. no meio de um rizoma. um caos composto. para Deleuze (2003). É o discurso indireto. sempre presente. Para os filósofos. o modelo raiz e. materiais e sociais. Portanto. que não tem começo nem fim. a significação não fundamenta a verdade. são regimes de signos que perpassam a sociedade e formam regimes mistos. 2011 . Dessa forma. de uma identidade infinita. do outro. feito de dimensões. o que se opõe à linguagempalavra de ordem não é aquilo que chamamos de ruído. ou de qualquer outra unidade de linguagem. Ele é um sistema aberto apto a montar cadeias. A significação. Dez. sem estrutura. e o uso menor da língua como a produção de literatura ou a produção de arte. é a palavra de ordem que faz da palavra. na disciplina da gramática. ela a condiciona. aos processos de territorialização e desterritorialização. errado. Em Mil Platôs.

abrindo. o interessante é aquilo que não tem sentido. o professor formula questões que possuem respostas prontas. embora a tomada de consciência do personagem conceitual se faça progressivamente e surja freqüentemente depois. no meio de alguma coisa. a filosofia não pode ser comunicação: para comunicar é preciso ter um conjunto de coordenadas comuns que coincidam com a opinião (Bianco. não tendo nada a ver com um programa. aquilo que tem sentido e aquilo que não tem. os problemas se dão e. 2011 . interessante e o não interessante. Assim. transversalmente. a partir de um acontecimento que faça sentido e que force o pensador a pensar. 1298). misturando. Os três planos devem lutar com o caos e com sua instância contraposta: a Doxa (o bom senso e o senso comum). Um pensamento transdisciplinar. o bom senso e o senso comum são inúteis para o pensamento porque coincidem com o dogmatismo. Em vez de boa vontade do pensador. não subordinada ao ideal do saber absoluto. mas também não vem depois. A Doxa. Compreender que o pensamento possui uma função criadora modifica totalmente o modo como compreendemos o saber que agora pode ser definido também como uma função e não como uma forma ou uma força.ela existe em si. os principais elementos do pensamento não são as categorias do verdadeiro e do falso. a anticriação. n. Muitas vezes. O plano de composição se constrói à medida que a obra avança. o pensamento sem imagem busca favorecer o encontro do pensador com forças que façam o pensamento ultrapassar o seu estado de torpor. O plano de composição estética não vem antes dos compostos de sensações.ISSN 1808-589X . Todas as atividades criadoras constituem um ato de resistência à Doxa e à comunicação. transversal. A arte e a filosofia recortam o caos e o enfrentam. p. Jul. Dez. reconhece-se 76 Revista Mosaicum. A arte não pensa menos que a filosofia. O plano de composição da arte. 14. Por essa via. 1998). Para o pensamento sem imagem. e a errância passa a fazer parte da relação processual de construção do sentido. 2005. a ponto de certas extensões de um serem ocupadas por entidades do outro. Para a imagem dogmática e clássica do pensamento. o aprender torna-se a passagem viva entre não-saber e saber e transforma-se numa tarefa infinita. Essa é a nova função do pensamento proposta por Deleuze e Guattari (2000). Esse é o eterno retorno do diferente. a criar conceitos e não a reconhecer a Ideia. E é exatamente esse bloco que se conserva. que começa sempre pela diferença. desfazendo e refazendo compostos cada vez mais ilimitados. o plano de imanência da filosofia e o plano de referência da ciência deslizam um no outro. Por isso. não sendo preconcebido. a aprendizagem passa a implicar o criar e não as soluções ou a Ideia (Deleuze. A verdadeira obra de arte é aquela que consegue tornar um momento do mundo durável ou fazê-lo existir por si. com eles. Assim. mas que possibilita a sua construção. Nesse sentido. mas não no mesmo plano de corte. isso sim. a Opinião. suas soluções. mas pensa por afectos e perceptos. são. A obra de arte se dá num plano de composição.

pois para os filósofos. algo novo. mais do que um ato de transmissão e de recepção mensagens. Consequentemente. Ideia. o ensinar passa a ser encarado como um ato de colocar problemas aos alunos. 14. subjetivos. o Filocom vem buscando uma nova teoria da comunicação. Para que ocorra o evento comunicacional. que se dá pelo atrito dos corpos e das expressões. A comunicação como redundância De acordo com pesquisas que vêm sendo realizadas pelo departamento de Filosofia da Comunicação da ECA-USP (Filocom). A esse coeficiente. Dez. o pensamento como representação é incapaz de pensar a diferença em si mesma. A principal crítica da filosofia de Deleuze e Guattari é em relação à imagem do pensamentocomo representação. Em outras palavras: o pensamento representacional faz perguntas já formuladas e dá respostas predeterminadas. na economia dos processos comunicacionais. uma combinação de múltiplos vetores (sociais. coordenado pelo professor Ciro Marcondes Filho. Desde meados dos anos 1980. relacionada às soluções cujas condições já estão dadas. mas acaba necessariamente acontecendo na presença muda. Para a teoria da informação de Shannon. dá-se o nome de redundância. Ele não acontece necessariamente entre pessoas que se relacionam para essa finalidade. nos olhares. Revista Mosaicum. históricos. porque já o condiciona a uma imagem implícita e préfilosófica. mais decodificável é a informação (Mattelart. uma informação pode ser mais ou menos codificável. culturais).ISSN 1808-589X 77 .que é do aprender e não do saber que a condição transcendental do pensamento deve ser extraída. principalmente porque o tempo do pensamento é puro ou uma condição de direito (o tempo se apodera do pensamento) e não é o tempo empírico do pensador submetido a condições de fato. ou seja. que entende que o pensamento possua uma boa natureza e uma boa vontade. Para o grupo. que o pensador queira naturalmente o verdadeiro e que o pensamento tenha uma afinidade com a verdade (bom senso). ela possui um determinado coeficiente de comunicação. no contato dos corpos. é necessário que haja uma continuidade de comunicação. um acontecimento. Dessa forma. e a avaliação do aprendizado deve ser do processo de construção e solução dos problemas e não apenas da solução adequada à Ideia. Para Deleuze e Guattari (2000). Essa imagem clássica do pensamento não entende um método para o pensar. o pensamento passa a ser uma atividade servil. 2011 . algo que ocorre num ambiente. permitindo que se realize. n. o conceito filosófico possui um estatuto pedagógico. a partir dela. o ato comunicacional é um ato de redundância e de observação de mensagens. reduzindo-a à tranquilizadora identidade do conceito já criado. é preciso que haja a criação de um processo comunicacional. ou seja. existe uma pedagogicidade que é a do conceito. 2002). Quanto mais redundante. temporais. Jul. a comunicação é aceita como um processo social. uma sequência de seleções.

a recognição. também propõem uma didática que é da Obra de Arte. Essa mensagem. Quanto mais redundante for uma mensagem. Por uma didática errante. no fluxo. Nesse sentido. a comunicação é aceita como um mecanismo de autorregulação. mais ela se torna presente num determinado sistema ou genciamento. e pode manter-se num determinado agenciamento com uma potência mais forte ou mais fraca. são também os meios simbolicamente generalizados de comunicação. corrigido. O entendimento é um entendimento passageiro e não chega a ser um consenso. Comunicar não é transmitir mensagens É redundar informações num pulsar constante. é um acordo passageiro. os valores. transformando-os em algo a ser consertado. o dinheiro. a arte. não possui um emissor original. vindos de uma longa cadeia de emissores no tempo e no espaço. os meios improváveis. 2011 . mas vários. a Didática da Obra de Arte pode nos ajudar a compreender os momentos em que o processo de ensino e de aprendizado se processa entre o caos e o conhecimento. um ente vivo e novo. em busca de sentido. dependendo das forças do desejo de poder presentes nesse agenciamento. enfatizando a ressignificação. a verdade científica. no mundo do ruído e da construção de sentido. 78 Revista Mosaicum. ela é que torna possíveis os sistemas sociais. uma singularidade que surge e que pode se desmanchar a qualquer momento. aquilo que cria o sentido.ISSN 1808-589X . é a seletividade que se constrói no processo de comunicação. Os signos gerados na comunicação são um julgamento. Segundo penso. o amor etc. Tanto a produção e redundância de mensagens quanto a observação se dão no movimento. um modo como um sistema observa-se a si próprio e aos outros ou. são como uma forma criada durante o processo. anulado. n. A comunicação funciona como um processo no qual acontece a produção de diferenças e também como uma observação. 14. não posso deixar de pensar que as ideias de Deleuze e Guattari além de proporem uma pedagogia que é do Conceito. A didática comunicacional rejeita o ruído. Dez. sempre em movimento.O tempo dessa comunicação se realiza apenas no momento em que se identifica a distinção entre um mero sinal e uma informação. Ao buscar a comunicação. tais como o poder. acaba por cercear possibilidades de criação de novos sentidos. e os media são elementos que podem ser livremente acoplados ao processo de comunicação. a representação e o feedback. Jul. os meios de comunicação não são apenas os meios diretos e os meios de massa. redundante e poética: a didática da obra de arte Por tudo isso. Dessa forma. mesmo. o quase caos.

geológico. Mais do que valorar as verdades possíveis. 14. EviRevista Mosaicum. O papel do professor é o de alguém atento. com tudo o que isso implica em termos de risco e de esforço. por transposição. nesse estrato. do quase caos. sem fala. O devir mestre. Apenas o estrato real-essencial é linguageiro. n. a Educação deve juntar uma verdade particular a um contexto global e a didática deve compreender o uso menor da linguagem e da comunicação. real-formal. a língua oral: Uma aula implica vocalizações. Nele. um ser que inspira seus alunos por ser um verdadeiro apaixonado pelo saber nômade. dessa forma. nesse estrato do agenciamento escolar. ensaiado. amar o assunto da aula. implica até uma espécie de – eu falo mal alemão – Sprechgesang [canção do discurso]. E é por isso que o devir mestre deve estar atento ao modo como se dão a expressão e a enunciação em cada estrato do agenciamento de ensino e de aprendizado. agenciar enunciados. verdadeiras obras de arte pedagógica. ao mesmo tempo em que participa dela. Parnet. organizar os signos. Esse momento acontece na desterritorialização dos devires. O devir mestre deseja um agenciamento que propicie a interação no espaço da sala de aula e construa seu próprio método. Nesses momentos. Nesse quadro. o devir mestre usa a voz. Jul. Deleuze e Guattari (1995b) dividiram os estratos do agenciamento em três tipos: real-formal. O terceiro e último estrato. Além disso. Dez. O devir mestre. acontece no momento em que a máquina de expressão tende ao agramatical. compreendemos que um agenciamento de ensino e de aprendizado constitui-se como um espaço de expressão e de enunciação e não de representação e comunicação.ISSN 1808-589X 79 . O primeiro estrato. real-real. real-real e real-essencial. opera por signos. 2005). por transferência molecular. O principal objetivo de se compreender o processo de criação em sala de aula é trazer a errância para perto do professor. senão não quer dizer nada” (Deleuze. como por inspiração. preparado. Aqui. Ensinar significa também aventura e abertura ao diferente. a formação do professor deve ser vista como uma oportunidade de exercício de autonomia e de maturidade profissional. o que o fará produzir. real-essencial. o professor deve estar atento à construção de sentido. a expressão se dá por transdução. é físicoquímico. pode inspirar seus alunos. Em Mil Platôs. para mim. sem fala. O segundo estrato. é orgânico.Podemos pensar que o momento de poieses num agenciamento de ensino e de aprendizado pode ser visto como o momento do ruído. ao invés de apenas transmitir informações. 2011 . Deleuze afirmou que “Uma aula quer dizer momentos de inspiração. sem signos codificados. por trocas moleculares. pode expressar conhecimento por sensações. a expressão se dá por tradução. é linguageiro. Nele. sem signos codificados. Numa sociedade que se pretende educativa. Quando pensamos como Deleuze e Guattari (1995a). o papel do professor não pode ficar confinado ao de um mero transmissor de verdades feitas. em conjunto com seus alunos e com os signos presentes no processo de ensino e de aprendizado. o devir mestre deve se preparar. Nele. a fala. a expressão se dá por indução.

redundando mensagens de forma intensa e cujos meios são os valores como o amor. No estrato linguageiro. M. a fim de dominar o caos e transformá-lo em verificação. Educação & Sociedade. p. G. 2004. 1998. novos seres. DELEUZE. também. as figuras estéticas.dentemente. Dez. COMENIUS. 1990. p. n. 1995a. Estudos deleuzeanos da linguagem. o poder etc. são continuamente construídos. 2001. GUATTARI. devem ser flexíveis e estar em contínua atualização e. a amizade. A. Numa educação rizomática.. 2005. Moravia. Paris. 2003. criação: pedagogia do conceito e resistência. Assim.org/didaticamagna/didaticamagna-comenius. Entretanto. Disponível em: <http:// www. Eles possibilitam descobrir novos atalhos e estabelecer novas conexões: os mapas abrem novos caminhos. aquele que traça o mapa do agenciamento do qual participa. set. Didática magna. no agenciamento de ensino e de aprendizado também acontecem desterritorializações.html>. São Paulo: Paulus. Acesso em: 20 set. BÍBLIA SAGRADA. 1633. fugas. Há mitificações. Desde o primário é assim. I. 1994. o respeito. Jul. edição pastoral. Nesse espaço. Disponível em: <http://www. Acesso em: 18 set. F. desterritorialização e reterritorialização dos devires e. E eu acrescentaria: os mapas propõem também múltiplas saídas.culturabrasil.htm>. Deleuze e Guattari (1995a) comentam que os mapas não têm um único ponto de chegada ou de partida.br/fe/tef/filoesco/foucault/art07. o plano de referência da ciência se configura em proposições. BIANCO. Referências ALMEIDA./dez. O mais importante é a relação entre a voz e o conceito (Deleuze. São Paulo: Ática. 2005. em territorializações técnicas e tecnológicas. Faz parte de todos os professores. pode ser muito útil traçar o cinemapa: o mapa dos movimentos no agenciamento. G. 1289-1308. menor. Fundação Calouste Gulbenkian. constituindo a possibilidade para a criação de um plano de composição da arte. em paradigmas. Diferença e repetição. n. DELEUZE. o devir mestre deve ser.unb. o devir mestre traduz o conhecimento em palavras de ordem. É aí que podem surgir as obras de arte. 80 Revista Mosaicum. para isso. o dinheiro. Parnet. Campinas. Convite à filosofia. Rio de Janeiro: Graal. G. São Paulo: Unicamp. Mil Platôs. novas formas. pessimismo. e a linguagem se apresenta como agramatical. 26. v. 93. E é aí que o devir mestre redunda informações e observa o agenciamento a fim de manter a autoprodução do agenciamento. J. 2005. CHAUÍ. 2011 . 14. Otimismo. 1. Desejo e prazer. 2005. ______. São Paulo: Editora 34.ISSN 1808-589X . v. ‘Viu as unhas dele?’ etc. um devir cartógrafo. por isso. 10). o devir mestre deve estar atento ao movimento de erritorialização.

br/pt/lv/o_emilio. M. São Paulo: Escuta. J. ROLNIK. ______..php?option=com_content&task=view&id=67&I temid=51>.br/nucleos/filocom/home. GUATTARI. Genebra. Disponível em:<http://www. São Paulo: Loyola. 1995b. 2006. M. 2005. Dissertação (Mestrado). FOUCAULT.. 2005. São Paulo.php>. Democracia e educação. Recebido em aprovado em outubro de 2011. P. 2002.Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. n. São Paulo.usp.eca. LÉVY. 1998. P.html>. Acesso em: 5 out. A arqueologia do saber. _____. J. 2005. J._____. 2004. Acesso em: 04 jul. Disponível em: <http://www. C. DELEUZE. Acesso em: 10 nov. Micropolítica. O Emilio ou da educação. 2006. S. cartografias do desejo. 1998. POUGY. 1762. São Paulo: Editora 34. A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. Pelas vias de uma didática da obra de arte. Nova teoria da comunicação.org. Revista Mosaicum. Jul. oestrangeiro. v. FILOCOM. Dez. G. 2004. E.spleb. 2000. F. Mil platôs. 2005. G. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 2. SP: Loyola. 2011 . Disponível em:<http://www. 1979. São Paulo: Companhia Editora Nacional. PARNET.net/index. MATTELART. Rio de Janeiro: Vozes. A. ROUSSEAU.ISSN 1808-589X 81 . O abecedário de Gilles Deleuze. O que é a filosofia? São Paulo: Editora 34. História das teorias da comunicação. 14. Diálogos. DEWEY.

Mathematics. Keywords: Modeling. apresenta os conteúdos específicos das áreas em questão através de uma oficina de modelagem na qual os alunos de Licenciatura em Matemática têm a oportunidade de. Education. Elaborado através de pesquisa teórico bibliográfica e pesquisa de campo com uma análise qualitativa dos dados. não são fáceis de serem modelados. Music. Ciências e Letras do Alto São Francisco Resumo : este artigo trata do emprego de modelagem matemática. ao mesmo tempo. Para ser trabalhado em sala de aula. it has the specific contents of the areas concerned through a modeling workshop in which students of Licentiate in mathematics will have the opportunity to apply knowledge and discuss new ways of dealing with math in your future workplace: the classroom.Música no ensino de frações: uma nova ferramenta apresentada por meio da modelagem matemática Music in the teaching of fractions: a new tool provided by mathematical modeling Gilberto Augusto Soares Centro Federal de Educação Tencologica de Bambuí Marger da Conceição Ventura Viana Universidade Federal de Ouro Preto Rodney Alves Barbosa Faculdade do Sul da Bahia Sebastiao Amilcar Figueiredo Santos Faculdade do Sul da Bahia Tiago Carvalho Araújo Faculdade de Filosofia. a sala de aula. Developed through theoretical research and bibliographic field search with a qualitative analysis of data. Isso não é segredo. Dez. Música. utilizando conceitos musicais no estudo de frações. o que ele deve ou não deve observar. mas nem todos os conteúdos são fáceis de serem trabalhados na prática. Jul. 14. 2011 . ou seja. em aulas do ensino superior. Matemática. descobrir e aprender através do modelo estudado além de levar em consideração o que este já sabe a respeito do conteúdo a ser trabalhado através do modelo e dos conteúdos que são pré-requisitos para o estudo em 82 Revista Mosaicum. Introdução O professor de matemática dispõe de uma infinidade de aplicações para seus conteúdos no contexto da sala de aula. Palavras-chave: Modelagem. Abstract : this article deals with the use of mathematical modeling in higher education classes using musical concepts in the study of fractions. um modelo matemático deve atender às necessidades do aluno. Educação. n.ISSN 1808-589X . aplicar conhecimentos e discutirem novas formas de lidar com a matemática em seu futuro ambiente de trabalho.

14. formado por 05 (cinco) alunos de cada ano (1º ao 4º). O objetivo deste estudo é sugerir uma proposta de ensino da matemática . é claro. Como forma de aplicação do estudo então realizado. Diante o que foi dito até aqui pergunta-se: como utilizar a música como tema de uma atividade de modelagem matemática com alunos do curso de formação de Professores de Matemática? Essa questão se refere a alunos de graduação. visto que os acadêmicos já apresentam uma bagagem de informações na maioria das vezes suficiente para compreensão de alguns modelos formados através da música. foram utilizados livros. p. Jul. As atividades. Isso se deve ao fato de que temas considerados simples e fáceis dentro da matemática podem ser tratados através de modelos que exigem uma quantidade de informações que vão além do tema modelado. n. pois ela envolve um grande campo de conhecimentos.questão. inclusive. 2ª parte) como utilizar o modelo matemático da “música” no ensino de frações. 2011 . em 03 (três) partes com uma duração total de 04 (quatro horas):1ª parte) o que é modelagem matemática. monografias e anais. Os modelos extraídos da música são uma ótima opção para trabalhar temas matemáticos com alunos do ensino superior. A elaboração desse projeto de pesquisa tem como base a pesquisa teórico bibliográfica realizada através de material já elaborado.ISSN 1808-589X 83 . revistas. artigos.3ª parte) para finalizar será realizada uma entrevista coletiva com esses futuros professores (mesa-redonda filmada) objetivando a discussão da utilização da Modelagem Matemática como recurso Didático-Pedagógico no ensino de Matemática em geral e de frações especificamente. Sendo assim. conhecimento musical.a Modelagem Matemática . modelo matemático e modelação matemática. Com o intuito de melhorar a qualidade do aprendizado entre os futuros professores e consequentemente a qualidade do ensino nas escolas ao passo que estes assumam as responsabilidades que lhes cabem.como forma de unir o conhecimento teórico e as situações reais que se encontra matemática. onde ha um enfoque em frações e também uma questão teórica sobre Modelagem Matemática que é um importante assunto para futuros professores. Formação de professores O modelo que vem sendo usado na formação inicial de professores de matemática vem criando bacharéis com licença para lecionar tem sido questionado. periódicos. será ministrada uma oficina para 20 alunos do curso de Licenciatura em Matemática da FASF – Luz selecionados de forma de se obter um espectro variado de professores em formação inicial. De acordo com Pires (2000.10) “os próprios professores egressos desses cursos os questionam e defendem uma formação adequaRevista Mosaicum. serão apresentadas ao grupo. Dez. Uma entre tantas outras áreas em que podem ser montados interessantes modelos matemáticos é a música.

Lei das Diretrizes e Bases da Educação Nacional. 2011 . 1995. são transmitidas aos alunos desses cursos por profissionais formados em outras áreas que nem sempre dominam o conteúdo matemático. Esse fato se deve talvez pelo fato de “a matemática ser a mais antiga das disciplinas e que mais se internacionalizou. ainda. Da mesma forma Santos (1995. n.10) diz que “a concepção que orienta as licenciaturas é teórica. mas não tira também a responsabilidade que cabe aos professores. 1999. p. por sua vez. 14.... p. Fica então difícil se criar um profissional reflexivo que pense no meio em que vive de uma forma crítica. pois “as disciplinas de conteúdo são atribuídas a cientistas da área específica e ministrada por metodologia tradicional” (Baldino.ISSN 1808-589X . Já as disciplinas pedagógicas. nem sempre com um curso que licenciatura. este afirma que “o ensino da matemática é uma atividade humana assombrada pelo fracasso. p. como sugere a Lei das Diretrizes e Bases.da e de qualidade [. Baldino não culpa somente professores pelo fracasso do ensino da matemática nas escolas. Infere-se assim que o professor em formação não teve contato com as disciplinas de formação pedagógica. a maioria dos alunos continua fracassando na aprendizagem e a maioria dos professores continua fracassando no ensino” (1999.]”. 12). seu processo pedagógico pôde se cristalizar de um modo acrítico” (SANTOS. a um problema que traz dificuldades para introduzir inovações nos cursos. 10) afirma que “não há coerência entre o modelo de formação dos professores em formação e o modelo de 84 Revista Mosaicum. Jul. p. O capítulo IV da LDB. 228). desprezando-se a prática como importante fonte de conteúdos da formação. e transmissão de informação é praticamente a única estratégia no processo de ensino” e completa dizendo que com isso “entende-se a aprendizagem como assimilação passiva de informações”. p. Cumpre destacar que nos cursos de formação de professores de matemática o conteúdo matemático é transmitido ao professor em formação por outro profissional que domine o conteúdo. p. 12) afirma que é possível perceber que ao longo de sua formação inicial os professores passam por um processo no qual os saberes necessários à sua prática lhes foram impostos numa relação mais ou menos passiva. a autora: Nesses cursos.. formação inicial de professores de matemática.. Dez. que trata da Educação superior. ao longo do curso cabe ao professor em formação um papel passivo e receptor de informações e executor de propostas e não de co-participante do planejamento do próprio processo de formação. no Artigo 43 (quarenta e três) parágrafo I (primeiro) diz que a Educação Superior tem por finalidade “estimular a criação cultural e o desenvolvimento do espírito científico e do pensamento reflexivo” e completa no fim do parágrafo III (terceiro) que esta ainda deve “desenvolver o entendimento do homem e do meio em que vive”.. Segundo. 221). Pires (2000. Pires (2000.

Estudo realizado por Chamie com estudantes do 1º ano do segundo grau (Ensino Médio) relata a aversão que muitos alunos têm à matemática nas escolas. Segundo Bicudo (1994. modos de ação [. Esses símbolos são usados diariamente por professores e alunos de matemática em fórmulas. clareando o seu significado.problema”. na mais acentuada contribuição para a função seletiva. na prática. p. Revista Mosaicum.. entre outras coisas. Nos relatos os estudantes falam. Entretanto.. Dez. palavras.] atividades de simulação de situações . lhes sugerem [. 1994).. quando abusamos do uso de símbolos e não nos preocupamos em trabalhar a compreensão dos mesmos.. com pouca ou nenhuma repercussão da maioria dos educandos. signos. As dificuldades em matemática apresentadas pelos alunos acontecem porque: muitas vezes. na descrição de conceitos e muito mais. por um lado. D’Ambrosio diz que “o homem. entretanto.]. p. compreendida apenas por aqueles que foram anteriormente “preparados” para “decodificar” tais informações.. classificatória e excludente do sistema escolar. 2004 p. o experienciado e a expressão da significação (símbolos. uma pessoa que se dedique a estudar música aprenderá a decifrar seus códigos”. conseguimos o efeito contrário: dificultamos o processo de aprendizagem da matemática (Zuchi. Um processo que pode ser usado para decodificar a linguagem matemática e os mistérios que suas fórmulas escondem é mostrar. Linguagem e modelagem Tanto a matemática quanto a música usam uma linguagem específica. Jul. a linguagem matemática desenvolveu-se para facilitar a comunicação do conhecimento matemático entre as pessoas. 2011 . 49). na sua luta pela sobrevivência procura conhecer a natureza e com ela viver harmoniosamente. n. 2005).ensino e aprendizagem que. formulas e regras que lhes são apresentadas (Chamie. por outro lado. via de regra. numa aprendizagem pouco significativa. nas disciplinas de formação pedagógicas. Em outras palavras. Na busca da compreensão idealiza representações da realidade e age sobre ela modificando-a” (apud FRANCHI.63) “a linguagem carrega em si a distância entre a experiência vivida. das dificuldades em interpretar os dados. que têm resultado.. por exemplo. os educadores matemáticos têm denunciado já há algum tempo que o ensino tradicional da matemática tem se caracterizado pelo caráter reprodutivo dos seus conteúdos e pela autoritária das suas práticas pedagógicas.. 51) corrobora com esta afirmação ao dizer que uma partitura musical..ISSN 1808-589X 85 . é complicada e indecifrável para quem não a conhece. Nesse sentido. não se estabelece comunicação na aula de matemática entre professores e alunos em virtude da ampla utilização da simbologia matemática. Zuchi (2004. 14.

Pires (2000. p. Mas é importante lembrar que a transformação da própria prática. p. Bassanezi aponta a necessidade de “procurar um equilíbrio entre teoria e prática. Este realmente é um conceito que apesar de às vezes não ser admitido pelos professores é o praticado. 65) afirma que: a orígem das ideias matemáticas é resultado de um processo que procura explicar e entender fator e fenômenos observados na realidade. assim como sua plasticidade e beleza. Dez.a Modelagem Matemática. Tais representações constituem o que se costuma chamar de modelos matemáticos. Existem vários outros métodos para ensinar que fogem do formalismo encontrado nas salas de aula. segundo Borges et. n. Um pouco sobre música A música usa uma linguagem muito apurada.ISSN 1808-589X . Jul. 1995). mas que não é de difícil entendimento. mas. Borges et al. 14.o que os conceitos representam.12) e dão um grande impulso na direção de um dos novos e interessantes caminhos que o ensino de matemática vem tomando . da um suporte concreto ao ensino. p.. aplicação e avaliação compõem a Modelagem Matemática. O desenvolvimento dessas ideias e sua organização intelectual dão a partir de elaborações sobre representações da realidade. além de atribuir-lhes significados”. (2003).14) diz que “há uma ideia bastante generalizada no sentido de que a Matemática é um conhecimento à parte que pouco tem a ver com as demais áreas de conhecimento”. mas não se constitui em uma aplicação efetiva” e modelos matemáticos constituem várias formas de representação da realidade. Sobre a importância do uso da Modelagem Matemática. (2003.51). al. 86 Revista Mosaicum. enquanto ferramenta para o entendimento de outras áreas do conhecimento” (apud BEAN. Ressaltando ainda que a Lei das Diretrizes e Bases e autores como Pires consideram como competências profissionais de um professor “capacidades de relacionar vários campos da Matemática para elaborar modelos. cuja obtenção. no caso deste trabalho o modelo usado é frações. 2001. p. “a utilização de jogos e materiais didáticos. resolver problemas e interpretar dados” (2000.1) aponta a modelagem matemática como um “método de ensino que integra as disciplinas e relaciona os próprios conteúdos de matemática entre se. Mudanças essas que trazem benefícios à educação de um modo geral. 55) define modelagem Matemática “como um processo de criar um modelo matemático baseado em hipóteses e aproximações simplificadoras”. A Modelagem Matemática é uma ferramenta imprescindível nesse aspecto. p. p. apesar de não resolver todos os problemas do ensino de matemática. Bean (2001. 2011 . mostrando o valor intrínseco da matemática. 2005. já é um bom sinal de mudanças (Santos.. D’Ambrosio (apud Brito.

Esses sinais gráficos são “bolinhas” de forma oval que são dispostas sobre as linhas e espaços do pentagrama. LÁ e SI ( Cardoso. c) a execução simultânea de vários sons. n. Dez.Segundo Priolli. a música é “a arte dos sons. proporcionados segundo a sua duração e ordenados sob as leis da estética” (1989. Figura 2 . será técnica. como realmente tem que ser. 1973). 6). MI. RÉ. o que não pode desviar nossa atenção e fazer com que sejam extraídos dela a sua importância e a importância da riqueza de seus conteúdos. Jul.ISSN 1808-589X 87 . Para que uma música seja escrita. p 38) define como música “a arte de manifestar os diversos afetos da nossa alma mediante o som”. 2011 . 1989). como se verifica na Figura a seguir: Figura 1: Pentagrama Fonte: Dados primários da pesquisa De acordo com Priolli (1989). chamada de harmonia (Priolli. na maioria das vezes. SOL. usados quando necessário de acordo com necessidade do músico. Nesse sentido. Cardoso (1973. e. seguindo as leis de agrupamentos de sons. FÁ. chamado de Pentagrama ou Pauta. p. um tipo de código que não pode ser decifrado sem um pré-estudo. 14. que pode ainda ter um complemento superior ou inferior de linhas e espaços. Essas notas recebem o nome de DÓ. b) ritmo: combina valores dos sons de acordo com seu movimento. combinados de acordo com as variações da altura. mas também terá que aguçar a sensibilidade. que são chamadas de Linhas e Espaços Suplementares Inferiores e Superiores (Priolli. “os sons são representados graficamente por sinais chamados notas”. ambos enumerados de baixo para cima. execução e apreciação desta: melodia. A definição de música. 1989).Notas Fonte: Dados primários da pesquisa Revista Mosaicum. usa-se uma linguagem específica. Existem três elementos em que a música é dividida e que são fundamentais para criação. ritmo e harmonia: a) melodia: combinação de sons dispostos sucessivamente formando o que se pode chamar de sentido musical. A música é escrita sobre um conjunto de cinco linhas e quatro espaços paralelos dispostos horizontalmente.

Mi. está a nota Ré. Si (CARDOSO. está posicionada a nota Lá.Segundo Med (1980). dispostas acima ou abaixo da 2ª linha. seguindo a clave de Sol. Fá. Para melhor entendimento. dando assim nome de sol à nota representada sobre essa mesma linha (CARDOSO. e na primeira linha suplementar a inferior encontra-se uma nota Dó. 14. na primeira linha acima da segunda linha está posicionada a nota Si e assim por diante. Figura 3: Clave de Sol Fonte: Cardoso (1973) Observe que no primeiro espaço acima da segunda linha. na primeira linha abaixo da segunda linha se encontra a nota Mi. 1973). clave “é um sinal colocado na extremidade esquerda da pauta que dá o seu nome a nota colocada na mesma linha e. seguem ordem natural das notas musicais: Dó. Dez. Ré. Do mesmo modo a próxima figura mostra que no primeiro espaço abaixo da Segunda linha se encontra a nota Fá.Notas acima da segunda linha Fonte: Cardoso (1973) Veja também (Figura 5) que no primeiro espaço abaixo da primeira linha. pela relação com a primeira”. usaremos neste trabalho somente a clave de sol assinalada na segunda linha da pauta.1973). Jul. Lá. com isto. As demais notas. 2011 .Notas Abaixo da Segunda Linha Fonte: Cardoso (1973) 88 Revista Mosaicum. n. Figura 4 . Sol. fixa também o nome das outras notas.ISSN 1808-589X . Figura 5 .

Figura 7: Figuras de notas Fonte: Cardoso (1973) Revista Mosaicum.Pode-se observar até aqui que as notas musicais são identificadas de acordo com a posição em que se encontram sobre o pentagrama respeitando a clave usada na composição.ISSN 1808-589X 89 . Segundo Med (1986). E de acordo com a duração recebem formas e nomes diferentes (CARDOSO. 2011 . haste e colchete (MED. Figura 6 . “valor é o sinal que indica a duração relativa do som e do silêncio”. Jul. as notas musicais têm valores de duração diferentes.1986). Mas é importante também ressaltar que além da localização. n. Dez.Partes da Figura Fonte: Dados primários da pesquisa Veja agora quais são as figuras e seus respectivos nomes usados para representar os valores de duração de uma nota musical. Uma figura que representa a nota e seu valor pode ser formada por cabeça. 14.1973).

Valores negativos Fonte: Borges (2005) Outra figura que também determina a duração de uma nota é o Ponto de Aumento. e a semifusa que equivale a metade da fusa e 1/64 da semibreve (CARDOSO. p. 28) “é um sinal que. Veja a representação gráfica dos valores citados acima: Figura 8 . p. Ou ainda. colocado à direita de uma nota ou de uma pausa.1973). de acordo com Borges (2005. 14. E ainda completa afirmando que “pausas são sinais gráficos que indicam maior ou menor duração de silêncio”. 2011 .São sete os valores positivos das notas musicais. é um “ponto justaposto do lado de um valor e serve para aumentar a metade de seu valor”. Logo em seguida vem a mínima. também conhecidos por “figuras negativas ou pausas.Valor comparativo das notas Fonte: Dados primários da pesquisa Segundo Borges (2005. p. que vale a metade do valor de uma semibreve. Jul. aumenta-a de metade do seu valor. Seguindo. Por final. Gubaua (1977. “os valores negativos. O maior valor usado hoje em dia é a semibreve. determinam a ausência de som”. 13) diz também que “a cada valor positivo corresponde um valor negativo”.75). são usadas a fusa que equivale a metade a semicolcheia e 1/32 da semicolcheia. Depois a semínima que vale a metade da mínima e um quarto da semibreve e a colcheia que vale a metade da semínima e um oitavo da semibreve. que segundo Med (1986. Veja no gráfico abaixo como são representadas e a quais valores positivos as pausas correspondem: Figura 9 . n. p. tem-se a semicolcheia equivalente a metade da colcheia e 1/16 avos da semínima.ISSN 1808-589X . 90 Revista Mosaicum. Dez. 61).

a mínima. Jul. 31) como sendo “uma linha curva posta sobre ou sob figuras [.] de mesma altura. 42) define compasso como “conjunto de tempos forte e fracos. 14. p. p. separados por barras.Figura 10 . Sendo assim. definidas por Cardoso (1973..ISSN 1808-589X 91 . que vale o dobro de uma semínima. não tem valor fixo. p.podem ter acentuações fortes e fracas”. pois. Gubaua (1977. Dez. soma-lhes a duração. de acordo com Cardoso (1973. 19). ou seja. série de ritmos. 2011 . Isso quer dizer que se for estabelecido que a semínima equivalha a um tempo. valores estes que são por sinal diferentes devido ao fato de que para cada nota o ponto de aumento representa um valor. e é a esse espaço de duração que se dá o nome de tempo”.20) diz que “as figuras que representam o valor das notas têm duração indeterminada. e este ainda classifica como tempo ou Unidade de Tempo. E para fazer a divisão dos compassos em frações exatas de tempo é usado as barras ou travessões.” Na música encontramos ainda os compassos que de acordo com Cardoso (1973. p. isto é.Ponto de aumento Fonte: Dados primários da pesquisa A Figura 10 mostra duas notas pontuadas e os respectivos valores dos pontos. p. terá a duração de dois tempos e a semibreve que é o dobro da mínima terá a duração de quatro tempos por ser equivalente a quatro semínimas.. Ainda sobre compasso e tempo Priolli (1989. Na representação dos valores as notas estão unidas por uma linha chamada ligadura que é definida por Med (1986. afirma Med (1986.. distribuídos em medidas de igual duração. uma semínima equivale a duas colcheias Revista Mosaicum. o “valor que se toma por unidade de movimento ou.”é uma das partes em que está dividido um trecho musical”. ou. Tomando ainda a semínima como unidade de tempo a colcheia valerá meio tempo.19) como “linhas verticais que separam os compassos”. 19). 80). n.. “são as partes ou movimentos em que está dividido cada compasso. Para que as figuras tenham um valor determinado na duração do som esse valor é previamente convencionado. é a “divisão de um trecho musical em séries regulares de tempos”. p. p.

Veja abaixo um quadro com outros valores usados em denominadores de frações que representam compassos: 92 Revista Mosaicum. n. 1989). Quadro 1 . p. Seguindo o mesmo processo e tomando ainda a semínima como unidade de tempo tem-se que a fusa equivale a 1/8 de tempo e a semínima a 1/16 de tempo. lembrando que uma colcheia equivale a duas semicolcheias.três (para o ternário) e quatro (para o quaternário)”. Jul. que de acordo com Priolli (1989. sendo estes conhecidos como compassos ternários e compassos quaternários os que têm seu tempo agrupado de quatro em quatro (PRIOLLI. 14. Os algarismos que servem para numerador dos compassos simples são: dois (para o binário). E este ainda afirma que “o denominador indica a figura que representa a unidade de tempo” (p. No exemplo usado acima. Neste trabalho serão apresentados somente compassos simples. Seguindo então essa afirmação.22) “o numerador determina o número de tempos do compasso. Esses são os chamados compassos binários. isso faz com que o valor de cada semicolcheia equivale a ¼ de tempo.ISSN 1808-589X . A representação de compassos é feita. representa-se um compasso binário que tem como unidade de tempo uma semínima pela fração 2/4. p. 22). Fração essa que de acordo com Priolli (1989. que se refere a uma semínima equivalente a 4ª parte de uma semibreve.21) “são aqueles cuja unidade de tempo é representada por uma figura divisível por dois”. segundo Gubaua (1977. a fração 2/4 tem como denominador 4.e. 2011 . Dez.Tempo de duração das notas Fonte: Dados primários da pesquisa Os tempos são agrupados nos compassos em porções de dois em dois.43) “por frações ordinárias ou letras”. p. São agrupados também em porções de três em três.

cada uma com duração de ¼ de tempo. O compasso 2 foram usadas duas semínimas. O compasso 1 foi preenchido com apenas uma mínima pois esta equivale a duas semínimas (que está sendo usada como unidade de tempo). cada uma vale ½ tempo e o 4º e último compasso apresentado está montado com uma semicolcheia e uma pausa deste mesmo valor. No compasso 3 foram apresentadas três colcheias (duas delas com os colchetes unidos) e uma pausa de mesmo valor. como o fato se estar sendo usada uma clave de Sol faz com que a nota musical apresentada seja uma nota Dó. Jul. n. de acordo com o denominador quatro. cada uma equivale a metade da semínima. sendo cada unidade de tempo representada por uma semínima. podem-se ver vários tópicos citados. O numerador da fração apresentada no início da pauta indica que se trata de um trecho composto por compassos binários. 1 + ½ .Distribuição em Compassos 2/4 Fonte: Dados primários da pesquisa Analisando esse pequeno trecho. 14. cada uma equivalendo a um tempo. Veja agora um quadro montado com o valor total de cada compasso: Compasso 1º Compasso 2º Compasso 3º Compasso 4º Compasso Valores Representados Pelas Notas Soma Total dos Valores 2 2 2 2 Quadro 3 . mais um semínima pontuada que equivale ao valor de uma semínima ligada a uma colcheia. logo a divisão do tempo será feita. de dois em dois. localizada no terceiro espaço.Valor do Denominador 1 2 4 8 16 32 64 Figura a qual o valor se refere Semibreve Mínima Semínima Colcheia Semicolcheia Fusa Semifusa Valor da figura com relação ao compasso Considerada como unidade Metade da semibreve 4ª parte da semibreve 5ª parte da semibreve 6ª parte da semibreve 7ª parte da semibreve 8ª parte da semibreve Quadro 2: Números que servem como denominadores de frações Fonte: Dados primários da pesquisa Veja aqui possíveis combinações de valores usadas em compasso binário: Figura 11 . 2011 . ou seja. Dez.ISSN 1808-589X 93 .Soma dos valores em um compasso 2/4 Fonte: Dados primários da pesquisa 2 1+1 ½+½+½+½ ¼ +¼+1+ ½ Revista Mosaicum. pelas barras.

Jul. O compasso 1 foi preenchido com apenas uma mínima pontuada que equivale a três semínimas (que está sendo usada como unidade de tempo). três colcheias e duas semicolcheias somando assim 1 para semínima. assim como anteriormente. de acordo com o denominador quatro. A unida diferença notável. somando assim ½ de cada colcheia e 1 da semínima e ½ do ponto acrescido a esta. além é claro da montagem dos compassos. 14. equivalentes a um e dois tempos respectivamente. ½ para cada colcheia e ¼ para cada semicolcheia.Distribuição em compassos ¾ Fonte: Dados primários da pesquisa Seguindo a mesma análise feita no trecho musical mostrado anteriormente pode-se observar que este ( Figura 12 ) se trata de um trecho escrito em clave de sol no qual. Sendo cada unidade de tempo representada por uma semínima. No compasso 2 foram usadas uma semínima e uma mínima.ISSN 1808-589X . Veja o quadro montado com os valores citados acima: Compasso 1º Compasso 2º Compasso 3º Compasso 4º Compasso 3 1+2 ½+½+½+1+½ 1+½+½+½+¼+¼ Valores Representados Pelas Notas Soma Total dos Valores 3 3 3 3 Veja aqui possíveis combinações de valores usadas em compasso quaternário: Quadro 4: Soma dos valores em um compasso 3/4 Fonte: Dados primários da pesquisa Figura 13 . No compasso 3 foram apresentadas três colcheias (duas delas também com os colchetes unidos) e uma semínima pontuada . é que a fração do início da pauta usada para indicar qual tipo de compasso será usado tem agora numerador 3. Dez.Veja aqui possíveis combinações de valores usadas em compasso ternário: Figura 12 .Distribuição em compassos 4/4 Fonte: Dados primários da pesquisa 94 Revista Mosaicum. E o 4º compasso vem montado com uma semínima. foram usadas apenas notas Dó. o que indica que se trata então de um trecho musical escrito em compasso ¾. 2011 . n.

Soma dos valores em um compasso 4/4 Fonte: Dados primários da pesquisa Procedimento adotado na oficina: “como utilizar o modelo matemático da “música” no ensino de frações” Aos alunos selecionados para participarem da oficina especificada na segunda parte da pesquisa serão apresentadas atividades referentes à ligação que a matemática. uma colcheia (½ tempo). que tem agora numerador 4. o que indica que se trata então de um trecho musical escrito em compasso 4/4. A turma será então separada em grupos nos quais cada grupo terá alunos de um único período. tem com a música. Ao termino dessas atividades. com uma mudança na fração apresentada no início da pauta. Foram apresentados primeiro alguns exercícios referentes ao conteúdo musical exposto no referencial teórico deste trabalho. símbolos e alunos.ISSN 1808-589X 95 . cada equivalente a um tempo. os participantes da oficina já não terão mais receio de usar os símbolos musicais pois houve então com essa atividade uma quebra de barreiras entre. esses exercícios terão basicamente atividades como completar compassos e dar nomes e valores as figuras apresentadas. 2011 . O compasso 1 foi preenchido com apenas uma semibreve pontuada que equivale a quatro semínimas (que está sendo usada como unidade de tempo). adaptado e ajustado de acordo com as diferentes interpretações que surgirem. Os exercícios serviram para familiarizar os participantes que não tem nenhum conhecimento musical às regras e símbolos usados na música. trecho escrito em clave de sol no qual no qual foram usadas apenas notas Dó. e uma pausa de mesmo valor. E no 4º compasso uma mínima (2 tempos). de acordo com o denominador também quatro. usada para indicar qual tipo de compasso está sendo usado. Agora é hora de apresentar a estes alunos um problema musical a ser modelado. uma semínima (1 tempo). O problema consiste em: Revista Mosaicum. 14.A mesma análise feita nos dois trechos anteriores atribui-se a este. dois tempos. Sendo cada unidade de tempo representada por uma semínima. No terceiro compasso foram usadas quatro semínimas. No segundo compasso foram usadas uma mínima. no conteúdo específico de frações. que representa silencio neste ponto. n. uma semicolcheia ( ¼ de tempo) e duas fusas (cada uma com 1/8 de tempo). Veja o quadro montado com os valores citados acima: Compasso 1º Compasso 2º Compasso 3º Compasso 4º Compasso Valores Representados Pelas Notas Soma Total dos Valores 4 4 4 4 4 2+ 2 1+1+1+1 2 + ½ + 1 + ¼ + 1/8 +1/8 Quadro 5 . Dez. Jul.

ISSN 1808-589X . facilitando assim todo o trabalho pois os alunos terão apenas que conferir se os compassos foram preenchidos corretamente. Dez. que é um professor versátil. Nas duas opções as músicas já devem estar escritas na pauta com um espaço ocioso no final desta para que possa ser escrita a finalização proposta. Em qualquer uma das opções de trabalho escolhidas.a) compor uma finalização para um pequeno trecho musical composto por um músico anteriormente para este trabalho ou com por uma finalização para uma música folclórica selecionada previamente. ou a aula. bem prepara96 Revista Mosaicum. as diferenças contidas em cada um. 14. alguns desses programas reduzem a velocidade da música sem alterar a tonalidade original da gravação. Cakewalk e Sibelius são de grande utilidade nesse tipo de trabalho pois eles com o auxilio de um instrumento musical ( teclado com entrada e saída MIDI ou interface USB ) copiam em uma pauta as notas executadas pelo musico que o opera. mais agradável são muitos e variam de professor para professor e cabe a cada um descobrir com qual metodologia ele se identifica melhor. Para tirar as dúvidas. Existem programas de computador que podem auxiliar muito neste trabalho caso os alunos apresentem uma grande dificuldade em escrever na pauta aquilo que está sendo ouvido ou executado. usando a modelagem como método de ensino com modelos extraídos da música. dificuldade esta comum até mesmo para muitos músicos ( principalmente iniciantes ). n. b) caso na turma tenham alunos com um conhecimento musical mais avançado pode se pedir para que o grupo ouça um trecho musical selecionado previamente. Jul. Meios de se tornar uma sala de aula. podem haver divergências entre os grupos nas redações das músicas. dependendo do tamanho e do grau de dificuldade da música escolhida). Ao final da atividade os grupos poderão então montar uma única partitura com os trechos corretos de cada grupo. já que a parte musical foi feita pelo programa. 2011 . e escreva-o na pauta musical. E poderão logo em seguida fazer alterações caso sejam necessárias ou o resultado não tenha agradado aqueles alunos que a comporam. chegando a um modelo final que possa ser acatado por todos. após a execução de cada trecho proposto. sem duvida nenhuma. as partituras escritas pelos alunos devem ser entregues a um músico convidado e este as executará. Mas de uma coisa todo aluno gosta. o que facilita o trabalho de cópia da mesma ). Todo ou parcialmente. Considerações finais Este trabalho teve em mente acrescentar uma pequena parte a um imenso leque formado pelas diferentes formas de se ensinar matemática. A música ou o trecho musical deve estar gravado em um CD de áudio ou em mp3 para ser usado em um computador com o auxilio de programas específicos para o trabalho com áudio (a segunda opção é mais viável pois. Os alunos perceberão então. Softwares como Encore.

Temas e Debates (Blumenau).]. Universidade viva. Edda. U. LEI DAS DIRETRIZES E BASES DA EDUCAÇÃO NACIONAL – Lei Nº9. Dez. São Paulo.N. Blumenau: FURB. BICUDO. BASSANEZI.96.A. BARBOSA. de 23. M. 1998.O. 13. MASCARENHAS.. S. Águas de Lindóia: [S. PIRES. In: CASSOL. CARDOSO.12. n. J. CAMPOS.. D. 1986. Competência e compromisso político na formação do professor de matemática. CURI. p. (Eds. jan/jun. C. ZETETIKÉ – Cempem – FE – Unicamp – v. V./EDUSP. S. C. 1 CD-ROM.).. 1995.. Pesquisa-ação para formação de professores: leitura sintomal de relatórios. PAGOTTO. A Articulação do sentido.ISSN 1808-589X 97 . São Paulo. J. 8. P. Engenharia didática: um referencial para ação investigativa e para formação de professores de matemática. SP: Editora da UNESP. n. 11 ed. n. p. 1999. A. D. 2004. E. 213. Educação matemática. n. seminários e debates. 23. C. Educação Matemática em Revista. Anais. Campinas: Papirus.. M. São Paulo. BIEMBENGUT. M. R..M. 2011 .A. Ruy. 1977. G. E. 2000. ed Brasília: MusiMed. PIETROPAOLO. B. IV Conferência Nacional sobre Modelagem e Educação Matemática. a. G. O que é modelagem matemática? Educação matemática em Revista.7. C. Referências BALDINO. São Paulo: Irmãos Vitale. Curso completo de teoria musical e solfejo. V. Feira de Santana (Bahia). PIRES. 2002. 79-80. Ensino-aprendizagem com modelagem matemática. 1998. R. Educação Matemática: da teoria à prática. C. PIRES. 1988. R.U.. 1996. 2005. Anais. KNIJNIK. B.. M. série. São Leopoldo: SBEM/UNISINOS. Possibilidade de compreender-se o conhecimento matemático segundo a abordagem heidggeriana. 2005. 1. A organização das licenciaturas: práticas atuais e perspectivas de mudanças.M.C.P..U. Este professor com certeza sempre terá ótimas aulas para seus alunos e estes com certeza sempre estarão dispostos para as aulas deste professor. BORGES. A forRevista Mosaicum. 5. a.7. Modelagem matemática e implicações no ensino-aprendizagem de matemática. 1999. 9. R. VI Encontro Nacional de Educação Matemática. G. C. PEREZ. 376-385. SBEM.M. M. 2001.do e que tem segurança do que fala à frente de sua turma. Anais.. n. C. Rio Claro: IGCEUNESP. LADRIÈRE. D`AMBRÓSIO. CURI. BEAN. Modelação matemática: a matemática no dia-dia e o dia-dia na matemática. 14. WOLFF. 8.. Novos desafios para os cursos de Licenciatura em Matemática. M. C. p. 07 e 08 de nov. Jul. Teoria da música. São Paulo: Atual. MED. 1973. São Paulo: Contexto. v.P. de 20 de dezembro de 1996 D. CARNEIRO. IX Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino.. 3. T.394.

PRIOLLI. P. Centro Universitário São Camilo. v.-jun. 4. 1995. Educação Matemática em Revista. M. P. ZETETIKÉ (Campinas). 2000. v. Santa Catarina. Recebido em aprovado em outubro de 2011.. 2011 . a. F. I. B. POLETTINI. Dez. 2004. SANTOS. ed./dez. abril de 2001. jan. História de vida relacionada ao ensino da matemática no estudo dos processos de mudanças e desenvolvimento dos professores. TIPLER. L. 4. n. Educação Matemática em Revista. Harmonia da concepção básica a expressão contemporânea. v. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos. A formação do professor de matemática reflexivo: uma necessidade. 1. n. 14. A Física. mecânica: oscilações e ondas. 16.mação continuada na PUC/SP. 6. n. 1996. Cadernos. a. 11. A importância da linguagem no ensino de matemática. v. 2004. 8 – n.1 ZUCHI.5. Jul. ed Rio de Janeiro: Casa Oliveira de Músicas. 10. out. de F. 4. São Paulo. termodinâmica. 9/10. n. 98 Revista Mosaicum.ISSN 1808-589X . M. A.

win. Personification. ganhará. tais como From (2003). o termo kakos é utilizado 50 vezes e ponēros 78 vezes para a personificação do mal no diabo e nos homens. os quais nortearão nossa discussão acerca do mal e futuras pesquisas nessa temática. No Novo Testamento. Terminology. Ricouer (1988) and Sanford (1988). his terminology and definitions. Revista Mosaicum. n. Na trajetória humana. pari passu. Keywords: Evil. Palavras-chave: Mal. Na trajetória humana. Ricouer (1988) e Sanford (1988). Personificação. Jul. 2011 . pari passu. simplesmente não há a existência do mal. apresentaremos algumas definições de autores. COLIN. fazer um resgate da terminologia do mal.O Mal: terminologia e definições Sélcio de Souza Silva Pontifícia Universidade Católica de Goiás Resumo: Buscar-se-á. a partir da influência da tradição religiosa judaica. Definitions Introdução Buscaremos neste ensaio. tais como From (2003). a partir de algumas definições de diferentes autores. no Novo Testamento. no Novo Testamento. 2000. novas roupagens até adquirir. com a literatura vetero-testamentária. with the literature of the Old Testament. No mundo ocidental. which will guide our discussion and futures researches on this subject. com a literatura vetero-testamentária. from the influence of the Jewish religious tradition. 1235-36). Para tanto. Terminologia. nesse ensaio. o mal. apresentaremos algumas definições de autores. marcado pela cultura judaico-cristã. a partir da influência da tradição religiosa judaica. os quais nortearão nossa discussão e futuras pesquisas nessa temática. esses termos são representados pelos vocábulos gregos kakos e ponēros. 14. sua terminologia e definições. o mal. personificação. Terminologia No decorrer dos tempos. mau e maldade foram apresentados. pari passu. os termos mal. novas roupagens até adquirir. sob várias formas. ganhará. O termo kakos já fora utilizado por Homero quando como contraste com agathos. Em algumas culturas. the authors present some definitions. new clothes up personified until they embody the New Testament. Para tanto. Dez. personificação. a depender da cultura religiosa.ISSN 1808-589X 99 . Definições Abstract: Search will be in this essay to develop some concepts about evil. To this end. In human trajectory the evil. such as From (2003). Ricouer (1988) e Sanford (1988). usados no Novo Testamento para expressar as falhas ou a inferioridade de uma coisa e o caráter eticamente negativo e religiosamente destrutivo de uma pessoa ou pensamento (COENEN. desenvolver alguns conceitos relativos ao mal.

ele não é abstrato. o mal só poderá ser vencido através do arrependimento. A enfermidade física teria sido a punição pelo pecado. a exemplo de: a) O mal que lesa a existência da pessoa (kakos é visto como castigo divino. apresentando-se 26 vezes somente nos escritos paulinos. os roubos. as cobiças. p. 804). 24). o termo kakos é empregado na Septuaginta para designar ra e rā ah e ocorre 227 vezes.NVI. p. b) O mal é aspecto do comportamento moral. enquanto que para Demócrito. pois. embora se pensasse que fosse satã a levar os seres humanos a pecar” (SCHIAVO. o mal é considerado como a falta de luz ou de conhecimento e. Todavia. kakos assume. uma vez que se trata de um justo castigo de Deus e cabe ao homem derrotá-lo pela experiência salvífica com o Cristo ou com Deus. injusto. a devassidão. o engano. as imoralidades sexuais. isto é. a inveja. não originários de Deus: Pois do interior do coração dos homens que vêm os maus pensamentos. os adultérios. destruidor.ISSN 1808-589X . 22-30). às tendências más que existem nele. Jr 7. e somente o próprio Javé quem pode tirá-lo). personificada na pessoa do diabo. o mal é tratado no Novo Testamento como produto dos próprios sentimentos humanos. Dez. é. cuja pessoa não havia maldade. 3. o mal é a ausência do bem. Sócrates e Platão. Algumas definições Essas concepções ganham sentido social. 2000. A sociedade é má porque. Entre os pitagoreanos. a calúnia. mas concreto (Sl 8. n. o ser humano é inclinado para o mal. os homicídios. seja ele em seu sentido físico ou moral. SILVA. “Acreditava-se que demônios e espíritos eram responsáveis por todos os males físicos e moral (o pecado). ou seja. inferiores ao bem e. Esse dualismo luztrevas. embora se torna mais frequente os termos ponēros e harmatia para designar o pecado. o mal era visto como princípio metafísico. 2011 . 14. a ignorância do homem é a fonte de todo o mal. pois é 100 Revista Mosaicum. conseqüência do pecado. a arrogância e a insensatez. O mal designa inúmeras significações. Em contrapartida. praticado contra a própria vontade humana porque está na sua essência e só será extinto pela força sobrenatural divina contra a força sobrenatural demoníaca. as maldades. verdade-maldade se aproxima dos ensinamentos de Jesus (Mc 3. pois o significado de maligno. mau. 2000. 71). No Antigo Testamento. O termo akakós (inculpável) refere-se a Cristo.significando mau contrário a bom. da ruína e da corrupção. Jul. Nos escritos cristãos. quando se atribui ao homem social a responsabilidade pelas suas más ações em detrimento do outro. a fim de expressar o mal e a culpa pessoal. em Agostinho. configurando 50 vezes no Novo Testamento. Deus é o autor dos dois espíritos: o bom (luz) e o mal (trevas – Belial). por isso. do seu semelhante. nela. Esse mal. Todos esses males vêm de dentro e tornam o homem “impuro” (BÍBLIA SAGRADA . Para Plotino. cuja narrativa evangélica divide o Reino de Deus e de Satanás.

desde o antigo testamento. O pensamento do homem evoluiu e. Agostinho e Gregório Magno. Segundo a interpretação da teoria do resgate. em Deus. Dez. o homem nasce com a capacidade de pecar. para este autor. 235). etc. 2005. que. o cristianismo nunca o ignorou. n. 1988. tanto o mal quanto o bem. teologicamente. “satã e sua legião de demônios eram poderes reais e a ajuda sobrenatural era considerada essencial para que a humanidade não fosse destruída por eles” (SANFORD. Gregório de Nissa e Irineu. 14. Ricoeur (1988). Revista Mosaicum. aflição produzida pela morte de entes queridos. trata do mal como um desafio à teologia e à filosofia. atribuiu-se a origem do mal como procedente de Deus. 163-64). origem do sofrimento. Se for verdade que o “impulso ao mal” somente é possível depois do homem emergir da unidade original com a natureza e adquirir consciência e imaginação. ele também criou a Torá como seu antídoto [luz. baseados nas teorias da reconciliação. A experiência do mal. Essas discussões e debates muito fomentaram os grandes pensadores do cristianismo primitivo. o autor busca desenvolver seu trabalho. considerados grandes mestres. 24). Segundo esse autor. 231-33). pode causar no ser humano a lamentação: Daí a surpreendente variedade de suas causas: adversidade de natureza física. Jul. compreendendo a teoria do resgate e a teoria da vitória. p. no Ocidente. Esse autor percorre pelo caminho hermenêutico na tentativa de dar uma explicação para a simbólica do mal e a sua interpretação. embora saibamos que. p. não fora mais possível. vencedora do poder do mal. 1988. como um lado demoníaco de Deus: Demon est deus inversus? Em suma. o mal moral é um sofrimento infligido no ser humano. isto significa que apenas o homem tem capacidade de pecar. no decorrer dos tempos. mas pode voltar encontrar a si mesmo e redimir-se por intermédio de seu próprio esforço sem um ato da graça divina. juntamente. na lógica do paradoxo. cuja análise busca “superar” a contradição entre a existência de Deus e a existência do mal. de certa forma. sentimento de indignidade pessoal. sabor] (FROMM. a partir do sofrimento. Se. o problema do mal. no que diz respeito a sua origem e definição. perspectiva assustadora de mortalidade própria. (RICOUER. Na visão judaica.“dotado de ‘ideias malignas’” (FROMM. de regredir e de perder-se. não deixa de ser um problema ao ser humano. principalmente quando é visto. estavam. segundo o pensamento de Ricoeur (1988). grandes representantes do Oriente e. O Talmude resume este ponto de vista da seguinte forma: “Se Deus criou a inclinação para o mal. doenças e enfermidades do corpo e do espírito. Desde a discussão dos primeiros padres da Igreja primitiva. 2011 . historicamente. diante da cruz de Cristo. em um dos seus trabalhos. O mal. 2005. afirmar. Os primeiros pensadores cristãos. não está totalmente resolvido. mostram-nos algumas explicações sobre a temática do mal e do seu poder limitado. p.ISSN 1808-589X 101 . A partir de uma perspectiva histórica. a exemplo de Orígenes. da dor e da morte.

166). buscou-se. Anderson (apud SANFORD. p. Em outras palavras. capítulo 32. A natureza humana permanece vulnerável demais às influências do mal. ainda. o reino do céu e o reino da terra. eram paradoxais. contraditória ao pensamento cristão acerca do mal. os terremotos e outros tipos de calamidades originadas da natureza e não. Segundo Sanford (1988). O mal. mas no homem. Sanford (1988) demonstrar que Jung “está muito próximo ao pensamento cristão original no que diz respeito ao mal” (SANFORD. A preocupação primeva desses religiosos era a de explicar e. a atitude cristã. até mesmo o diabo. 1988. Este autor apresenta-nos as ideias de Jung.com outras assertivas de tentativas de explicação do mal. que. Segundo Origines (apud SANFORD. 1988). correspondente aos dois lados de Deus. mostrando que Deus é capaz de matar e fazer viver e. 194). apresenta alguns autores. era preciso que ela travasse uma luta contra o mal. Assim. versículo 39. para que isso acontecesse. a exemplo de Philp que refuta a ideia de Jung de que Deus contém o bem e o mal em si-mesmo. pois “ela não conflita com os fatos empíricos” (SANFORD. 1988. 2011 . A partir de uma revisão das objeções de Jung contra a privatio boni de Agostinho. simplesmente a responsabilidade pela criação do mal não era suficiente para explicar a existência de outros males. Deus havia permitido o mal para que a alma humana pudesse desenvolver-se e. ao menos para os pensadores cristãos. a fim de confrontar o pensamento de Jung. sendo parte do plano de Deus. A acusação é de que a privatio boni e outros pensadores cristãos não deram a atenção devida ao relacionamento de Deus com o mal. isto é. a mão má de onde procede o mal. desenvolvido a partir da psicologia de Jung (p. 188). na explicação do mal. p. e Anderson que busca mostrar que a “doutrina” privatio boni não nega a realidade do mal. tornar a curar. as doenças. n. a mão esquerda torna-se a maligna. Esse pensamento vem de encontro com o pensamento da privatio boni. segundo Sanford. portanto. propriamente. de uma escolha moral do homem. p. 1988. rejeitando o lado obscuro do si-mesmo”. isto é. 191). Seguindo esse raciocínio. no homem. 168). 1988. p. permanece metafísica. 179) faz uma analogia da doença e da saúde. 1988. Colocar. tais como os naturais. p. “absolver Deus de qualquer responsabilidade pelo mal” (SANFORD. Jul. para Jung. seria também salvo no tempo escatológico. Para Clemente (apud SANFORD. cuja ideia principal é de que a quaternidade1 seja uma representação simbólica de Deus. “recusou aceitar o lado sombrio da personalidade. 192). e Jung está correto quando diz que não deveríamos ser muito otimistas nesse aspecto” (SANFORD. p.ISSN 1808-589X . “somente poderá ser superado pela virtude do poder superior de Deus. Deus tem duas mãos capazes de fazer o bem (mão direita) e fazer o mal (mão esquerda). para isso. 14. Esse pensador cristão cita Deuteronômio. percebeuse que essas contradições. Por outro lado. Essa analogia procura 102 Revista Mosaicum. Dez. defender a ideia de que a origem do mal não está em Deus.

não só a explicação para o mal, mas também mostrar que a doença também é uma personificação do mal e ela deve, portanto, ser “expulsa” do corpo humano. A analogia de Anderson (apud SANFORD, 1988, p. 179) nos possibilita uma melhor compreensão do pensamento do mal perpassado na simbologia imaginária do povo cristão que perdurou durante séculos e que ainda é tão forte em nosso meio. A doença é considerada um mal, uma “diminuição” ou “privação” da saúde. A doença, por si só, não pode existir, embora isso não venha a negar a sua existência, uma vez que nem todas as pessoas são “perfeitamente” saudáveis, pois se assim fora, não existiria certamente as doenças. A hipótese de Sanford é de que
Se uma doença consegue destruir completamente um organismo saudável, essa doença também deixa de existir. Por exemplo, se uma pessoa sucumbe a uma doença como a cólera, e uma vez que a saúde do corpo daquela pessoa foi totalmente destruída, a doença da cólera deixa de existir, pois como pode haver uma doença exceto num meio relativamente saudável? A bactéria da cólera continuaria a existir, mas não seria considerada doença até que fosse ativada num corpo saudável. Até destruir um organismo ela seria inofensiva (SANFORD, 1988, p. 179-80).

Sanford (1988) encerra seu livro afirmando que, no estudo da ontologia do mal, o problema do mal não pode ser solucionado tanto no plano intelectual quanto no emocional. Segundo sua visão, “o mal pode ser necessário para fazer emergir a totalidade [...]” e que ele “somente poderá ser superado pela virtude do poder superior de Deus. A natureza humana permanece vulnerável demais às influências do mal, e Jung está correto quando diz que não deveríamos ser muito otimistas nesse aspecto”, uma vez que, na vida do ser humano, “há certa proteção contra o mal, e quando o centro da personalidade é estabelecido, tal indivíduo é amparado por uma força sobre-humana para resistir e superar os poderes do mal”. Em suma, “o que deprecia ou destrói a totalidade chamamos de mal, e aquilo que sustenta, impulsiona ou mantém a totalidade chamamos de bem” (SANFORD, 1988, p. 178-192). Considerações finais A partir dessa relação e definições entre bem e mal, deparamo-nos diante de uma série de questionamentos, tais como: quais funções sociais o mal exerce? É possível identificar, a partir dessa relação entre a experiência negativa vivida pela maioria das pessoas e a resolução desse estado de anomia, a quem se atribui o “mal” experimentado e a quem coube ou cabe a resolução desse mal? A sociedade, a si mesmo ou a Deus? Quem realmente é o mal? A sociedade, o homem ou, conforme a experiência religiosa, uma entidade superior capaz de causar situações anômicas na trajetória humana? Na busca dessas, entre outras respostas, propomo-nos, buscar num futuro trabalho de campo, compreender se, realmente, o mal, nos dias atuais, é personalizado. E se sendo, como se apresenta na sociedade atual
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e quais são, portanto, suas possíveis identificações.
Nota
1

A divindade cristã é uma em três pessoas. Dentro do drama celeste a quarta pessoa é indubitavelmente o diabo. Na versão psicológica mais inofensiva ele é meramente a função inferior (Ver Sanford, 1988, p. 176).

Referências BÍBLIA SAGRADA. Nova Versão Internacional. Traduzida pela Comissão de Tradução da Sociedade Bíblica Internacional. São Paulo: Vida, 2000. CHAUI, Marilena. A nervura do real: imanência e liberdade em Espinosa. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. COENEN, Lothar; COLIN, Brown. Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2000, p. 12351242. CROATTO, J. S. As linguagens da experiência religiosa. São Paulo: Paulinas, 2001. ELIADE, Mircea. Imagens e símbolos: ensaios sobre o simbolismo mágico-religioso. São Paulo: Martins Fontes, 1991. RICOUER, Paul. O mal: um desafio à filosofia e à teologia. Campinas: Papirus, 1988. SANFORD, J. A. Mal: o lado sombrio da realidade. São Paulo: Paulus, 1988, p. 152-194. SCHIAVO, Luís; SILVA, Valmor da. Jesus: milagreiro e exorcista. São Paulo: Paulinas, 2002. TERRIN, Aldo Natale. O sagrado off limits. A experiência religiosa e suas expressões. Trad. Euclides Balancin. São Paulo: edições Loyola, 1998. Recebido em aprovado em outubro de 2011.

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REGISTRO DE CANIBALISMO EM POLYDACTYLUS VIRGINICUS (LINNAEUS, 1758) (ACTINOPTERYGII: POLYNEMIDAE) NA PRAIA DO MALHADO, ILHÉUS (BA) Cannibalism is recorded for the first time in Polydactylus virginicus (Linnaeus, 1758) (Actinopterygii: Polynemidae) in Malhado beach, Ilhéus municipality, state of Bahia south littoral (northeastern of Brazil). Paulo Roberto Duarte Lopes Universidade Estadual de Feira de Santana Jailza Tavares de Oliveira-Silva Universidade Estadual de Feira de Santana Ideval Pires Fernandes Universidade Estadual de Santa Cruz
Resumo: Canibalismo é registrado pela primeira em Polydactylus virginicus (Linnaeus, 1758) (Actinopterygii: Polynemidae) com base em 1 indivíduo medindo pelo menos 24,0 mm de comprimento encontrado no estômago de 1 indivíduo medindo 150,0 mm de comprimento total capturado em março de 2005 na Praia do Malhado, município de Ilhéus, litoral sul do estado da Bahia (nordeste do Brasil). Palavras-chave: Canibalismo. Peixe ósseo. Polydactylus virginicus. Brasil. Abstract: Cannibalism is recorded for the first time in Polydactylus virginicus (Linnaeus, 1758) (Actinopterygii: Polynemidae) with basis in 1 specimen measuring at least 24,0 mm of length found in gut of 1 specimen measuring 150,0 mm of total length gathered in March, 2005 in Malhado beach, Ilhéus municipality, state of Bahia south littoral (northeastern of Brazil). Key-words: Cannibalism. Bony fish. Polydactylus virginicus. Brazil.

Introdução Polydactylus virginicus (Linnaeus, 1758), pertencente à família Polynemidae e conhecido como parati-barbudo, é a espécie mais comum da família no Atlântico ocidental, atinge um tamanho máximo de 32,0 cm de comprimento e ocorre desde Nova Jérsei (EUA) até Necochea (Argentina) (RANDALL, 1978; MENEZES, FIGUEIREDO, 1985; MOTOMURA, 2004). Os membros de Polynemidae são peixes epibênticos encontrados em águas subtropicais e tropicais de todos os oceanos; a maioria das espécies ocorre em águas costeiras e estuarinas embora algumas vivam inteiramente em água doce; geralmente ocorrem em fundos lamosos e arenosos em profundidades menores que 150 m embora juvenis sejam encontrados em
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a maioria dos Polynemidae geralmente se alimenta de diversos peixes e crustáceos.ISSN 1808-589X . 14. mantido congelado e posteriormente fixado em formol 10% e a seguir transferido para álcool 70% sendo depositado na coleção do Laboratório de Ictiologia (Departamento de Ciências Biológicas) da Universidade Estadual de Feira de Santana (Bahia). oceano Atlântico ocidental). Discussão Como principais predadores de ecossistemas estuarinos e costeiros.0 mm de comprimento (apenas cabeça e parte do tronco estão presentes) e que foi encontrado em um estômago de 1 exemplar desta espécie medindo 150.0 mm de comprimento 18 camarões pequenos e restos de 2 peixes de pequeno tamanho enquanto Carvalho Filho (1999) afirma que P. o alimento encontrava-se meio digerido e seu volume atingiu 0.3 ml. virginicus se alimenta geralmente de invertebrados bentônicos. O material aqui citado foi coletado por pescadores com rede de arrasto denominada calão em um trecho da Praia do Malhado sendo. 2011 . virginicus baseia-se em 1 indivíduo desta espécie medindo pelo menos 24. Material e métodos A Praia do Malhado localiza-se na zona urbana da sede do município de Ilhéus (litoral sul do estado da Bahia. 2004).0 mm de comprimento total cujo sexo não pode ser determinado e que foi coletado na Praia do Malhado em março de 2005 com auxílio de calão. n. Jul. após a captura.vegetação marinha e poças de maré (MOTOMURA. Resultados O registro de canibalismo para P. Dez. espécies do gênero Filimanus Myers. Cervigón (1966). observou no tubo digestivo de um exemplar de P. 2004). 1936 possuem numerosos rastros branquiais adaptados para se alimentarem de plâncton (MOTOMURA. na Venezuela. o maior e mais importante desta região (Anexo A). o estômago encontrava-se cheio. não é considerada própria para banho devido aos dejetos que chegam através de um canal que corta bairros da cidade mas sustenta vários pescadores artesanais e agregados e encontra-se sob influência do Porto do Malhado. nordeste do Brasil. Figueiredo (1985) e se encontra registrado sob o número LIUEFS 10191. virginicus pelo extremo posterior truncado da maxila superior com base em Menezes. Feltes (2002) afirma que a maioria das espécies de Polynemidae alimen106 Revista Mosaicum. virginicus com 137. 3 camarões e 5 Crustacea Decapoda não identificados também estavam presentes. O indivíduo canibalizado pode ser reconhecido como membro de Polynemidae pela presença dos raios livres isolados das nadadeiras peitorais e identificado como P.

1999.E. Rome: FAO Species Identification Guide for Fishery Purposes and American Society of Ichthyologists and Herpetologists Special Publication. 3: bony fishes part 2 (Opistognathidae to Molidae). Agradecimentos Aos pescadores da Praia do Malhado pela cessão. Caracas: Estación de Investigaciones Marinas de Margarita. na crença de que poucas espécies foram estudadas. Motomura (2004) considera que. Dez. CERVIGÓN. 5. Quidemir e Genivaldo. de matéria orgânica digerida e formas jovens de Crustacea Decapoda seguido por camarões. Los peces marinos de Venezuela. Austin (2004) afirmam. Tomo I. aos membros da colônia Z-34 (Ilhéus).. Santos et al. sudeste do Brasil). para a costa ocidental de Porto Rico (Caribe). Jul. Referências CARVALHO FILHO. em ocorrência. às universidades estaduais de Feira de Santana e de Santa Cruz pelo apoio proporcionado. P. (1987) registram hermafroditismo para P. 2002. SP: Melro. nordeste do Brasil) entre 1991 e 1992 identificaram 14 itens alimentares com predomínio. F. pelo auxílio para a conservação dos peixes adquiridos. 3. peixes e alguma matéria vegetal. sea turtles and marine mammals. peixes e crustáceos. A biologia dos membros de Polynemidae no Brasil ainda é pouco conhecida. matéria vegetal e poliquetas. n. virginicus alimenta-se principalmente à noite ingerindo em sua maior parte crustáceos seguido por quetognatos. Fundación La Salle de Ciencias Naturales.tam-se principalmente de poliquetas. peixes.T. n. 2011 . sedimentos. especialmente Márcio.R. Lopes e Oliveira-Silva (1999) analisando a alimentação de 43 exemplares de P. 1966.0 mm de comprimento procedente de São Sebastião (estado de São Paulo. 14. Em nenhum desses estudos foi observada a ocorrência de canibalismo. mas também quetognatos. Nota sobre a alimentação de Conodon nobilis (Linnaeus) e Polydactylus virginicus (Linnaeus) (ActinopRevista Mosaicum. a maioria dos Polynemidae apresentam protandria com mudança de sexo de macho para fêmea com o crescimento do indivíduo. FELTES. confirma-se esse como sendo o primeiro registro de canibalismo para a família Polynemidae com base em sua ocorrência de P. (Ed. mediante venda. Peixes da costa brasileira. especialmente grandes camarões e que P.D.M. v. Polynemidae. LOPES. virginicus da Praia de Jaguaribe (estado de Pernambuco. virginicus ingere principalmente crustáceos. In: CARPENTER. A. J. poliquetas.ISSN 1808-589X 107 . do material aqui citado. que P.). Hilton. The living marine resources of the Western Central Atlantic. Austin. ed. virginicus. R. virginicus em 1 exemplar medindo 250. K. OLIVEIRA-SILVA. Desse modo. anfípodas e algas.

Polynemidae). estado de Pernambuco. 2011 . H. O... Ilhéus. J.L. H. L. FAO Species Catalogue for Fishery Purposes. Western Central Atlantic (fishing area 31).P. J. n. FAO species identification sheets for fishery purposes. XVII. 53-9.. 1758 (Pisces. v. ANEXO A: Mapa indicando o local de coleta (Praia do Malhado. n. 1987. Teleostei (4). Jul. 14. R. Ars Veterinaria. n. Dez. FIGUEIREDO. 3. Bahia). Bioikos. p. 3. 1. An annotated and illustrated catalogue of polynemid species known to date. 2004. C. In: FISCHER.ISSN 1808-589X . 135-137. 1985.V. 2. SANTOS. RANDALL.S.. Manual de peixes marinhos do sudeste do Brasil. LOPES. On the reproduction of Brazilian fishes. 12.E. v. V. MENEZES. n. PAULA. MOTOMURA. A hermaphroditic parati-barbudo Polydactylus virginicus Linnaeus.V. Polynemidae. W. Recebido em aprovado em outubro de 2011. Threadfins of the world (family Polynemidae).A. (Ed. N. São Paulo: Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. p. 1999. 108 Revista Mosaicum.terygii: Haemulidae e Polynemidae) na Praia de Jaguaribe (Ilha de Itamaracá). 1978. 1-117. p.A. Rome: Food and Agriculture Organization of the United Nations.). LOPES.

Se o texto estiver em língua inglesa. considerando o contexto sociocultural. Na segunda folha. gráficos. resenhas: até 5 folhas. Obs. 2011 . francesa. Trabalhos publicados em anais de congressos podem ser considerados pelo Conselho Editorial. 4 Notas explicativas: deverão ser inseridas no final do texto. deve constar o título. e devem ser inéditos. o autor apresentará também o resumo em língua portuguesa. conclusão. b) espaçamento 1. Dez. c) endereço. Os parágrafos devem ser justificados e sem recuos.: É imprescindível o envio das ilustrações em JPEG ou TIFF com boa resolução. em até 10 linhas. Quanto às resenhas. No corpus do texto devem constar Na primeira página devem constar: a) título. O abstract deve ser devidamente revisado por profissional da área para não comprometer a indexação da Revista. metodologia. c) fonte: Times New Roman. nacional ou internacionalmente.ISSN 1808-589X 109 . em ambas as línguas. com os devidos títulos e apresentar referências de sua autoria/fonte. inglesa. com boa resolução. No texto.5. ensaios e resenhas bibliográficas. 14. Os textos podem ser redigidos em língua portuguesa. Revista Mosaicum. Os textos enviados para apreciação crítica devem contribuir analiticamente para o saber. Jul. 2 Quantidade de páginas: a) artigo/ensaio: entre 15 e 20 folhas. apenas com a inicial maiúscula. Resenha de obra com mais de 24 meses pode ser aprovada.) devem ser apresentadas em arquivo separado. O título e os subtítulos devem ser alinhados à esquerda. tamanho 12. espanhola e italiana. d) e-mail. f) credenciais (da maior titulação para a menor). Não use nota de rodapé para informar as credenciais/titulação do autor ou fazer referências a citações no corpo do texto. autoria. FORMAS DE APRESENTAÇÃO DOS TEXTOS 1 Formatação: a) papel A4 (210 x 297mm). As resenhas devem ser redigidas em língua portuguesa.NORMAS PARA PUBLICAÇÃO A Revista Mosaicum tem como objetivo ampliar as discussões para o conhecimento científico por meio de trabalhos originais de pesquisa em forma de artigos. b) nome(s) do(s) autor(es). seguido de tradução para o inglês. referência e notas (se for o caso). incluindo as ilustrações. mas não é incentivada. Todos os artigos e ensaios deverão apresentar obrigatoriamente o resumo na língua em que foi escrita e em inglês (abstract). não estando sob consideração para publicação em nenhum outro veículo de divulgação. seguido de três palavras-chave. d) margens: 3 cm superior e esquerda e 2 cm inferior e direita). 3 Ilustrações: todas as ilustrações (figuras. n. em negrito (títulos) e em itálico (subtítulos). desde que estejam em forma final de artigo. revisão de literatura. os autores devem fazer as indicações dos locais em que as ilustrações serão incluídas. e) instituição a que pertence (m) e. tabelas. prioridade será dada à atualidade das resenhas. resumos. fotografias etc. a introdução.

ISSN 1808-589X . Os textos não aprovados poderão ser submetidos outra vez para análise. inclusive de tradução. que por eles respondem judicialmente. de acordo com a NBR 6023:2002. da ABNT. latim ou outro idioma devem ser destacados em itálico. são reservados.br 9 Direitos autorais: Os textos enviados para publicação são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es). com pelo menos dois avaliadores (avaliação por pares). 13 Destaques de termos: os termos e/ou expressões em inglês. conforme normas da ABNT (NBR 10520:2002).edu. Aspas devem ser usadas somente para citações diretas com menos de 3 (três) linhas e para expressões deslocadas do seu sentido literal. 11 Exemplares: serão fornecidos gratuitamente apenas ao autor principal de cada artigo dois (2) exemplares do número da Revista em que seu artigo foi publicado. 14 Revisão: os textos devem apresentar linguagem objetiva. 7 Citações: as citações textuais devem seguir a NBR 10520. Jul. ano de publicação e página (se for o caso). A Revista não se obriga a revisar textos que apresentem desvio da norma padrão. para preservar isenção e neutralidade. nunca use as expressões ibid. francês. da ABNT. Dez. Para publicar em outra revista os autores deverão solicitar autorização aos editores da Revista. desde que sejam adaptados às normas de publicação e/ou atendam a orientação que. 6 Referências: as referências devem conter todos os elementos essenciais do(s) autor(es) citado(s) e deverão ser apresentadas em ordem alfabética no final do texto. Será permitido citar parte do artigo ou do documento sem autorização dos autores. desde que citada a fonte. 110 Revista Mosaicum. Os textos devem se adequar à nova reforma ortográfica. n. concisa. 12 Textos não aprovados: o prazo para resposta ao primeiro ou único autor do artigo/ ensaio ou resenha é de 90 dias contados da data do recebimento na Revista Mosaicum. atendendo critérios de seleção de conteúdo e normas formais de editoração. op cit. 10 Avaliação: as colaborações serão submetidas à análise do Conselho Editorial. 8 Envio: a versão digitalizada deve ser enviada para: revistamosaicum@ffassis. o Conselho Editorial julgar necessária. A Revista não se obriga a devolver os textos não aprovados. por ventura.5 Sistema de chamada: as referências do(s) autor(es) devem ser citadas no corpo do texto com indicações do sobrenome. 14. ou assemelhados no corpus do texto. A Revista se reserva ao direito de não informar os motivos pelos quais os textos não foram aprovados pelo Conselho Editorial. À exceção de apud. defeitos de argumentação e ideias confusas. Adota-se o sistema de avaliação anônima (Blind review) para análise dos textos encaminhados para publicação. sem identificação da autoria. além de clareza e coesão. 2011 . Os direitos.

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