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Nos campos da violência: diferença e positividade

Theophilos Rifiotis
Departamento de Antropologia
Laboratório de Estudos das Violências (LEVIS)
Universidade Federal de Santa Catarina

O campo de estudos da violência é um território estratégico para os

discursos da contemporaneidade. Ele ocupa um lugar central na luta pela posse

do presente, pela compreensão da experiência contemporânea, com seus mundos

marginais, a sua dimensão episódica e fragmentária, um tempo marcado pela

diferença, pela falta de finalidade das formações sociais. A violência, nas suas

múltiplas formas, é representada como um domínio da experiência social que

permeia as brechas da crise da modernidade e a busca de alternativas

interpretativas para a sociedade contemporânea1.

Os discursos que se identificam com a modernidade têm na violência uma

“parte maldita”, a marca de um passado - remoto, ou mesmo primordial -, uma

“sobrevivência”, como diriam os evolucionistas para sublinharem que o seu único

sentido seria o de ser um elo da cadeia que nos prende ao passado. Nestes

discursos a violência é representada como arcaica e exterior. Ela é apresentada

como uma parte estrangeira da experiência social, uma ameaça ao consenso, um

“arcaismo social” a ser eliminado. Assim, a erupção de situações de violência é

concebida como uma ruptura, provocada por um elemento não integrado, sempre

surpreendente e fora de tempo e lugar.

1 Texto apresentado no Seminário Linguagens da Violência (Rio de Janeiro, UFRJ, 1995). Um primeira versão deste
texto será publicada na História em Revista do Núcleo de Documentação Histórica da Universidade Federal de Pelotas,
sob o título “O Fantasma da violência. Reflexões sobre forças centrífugas e um objeto em revolução”.

1
O complexo jogo discursivo que procuramos caracterizar ao longo deste

texto, não se restringe a um simples embate entre duas tendências que poderiam

ser chamadas “moderna” e “contemporânea”. Entretanto, elas podem ser

pensadas como correlatas às diversas práticas sociais ligadas ao campo da

violência. Tudo se passa como se a violência fosse um elemento chave para os

diferentes discursos que competem na definição dos parâmentros legítimos para

pensar o tempo presente.

De um modo geral, as diversas correntes do pensamento moderno tendem

a uma generalização contraditória, pois ao mesmo tempo em que circunscrevem a

violência no quadro da criminalidade e do arcaismo, desenham um cenário para a

atualidade marcado pela desagregação social e o aumento sistemático e

incontrolável da violência2.

O nosso objetivo aqui é apenas o de procurar garantir, frente a uma

tendência homogeneizadora dos diversos fenômenos designados genericamente

sob o rótulo de “violência”3, um espaço para o nosso próprio discurso. O ponto

em que nos colocamos poderia ser chamado de antropologia da violência, sem, no

entanto, reduzir-se a um estudo culturalista. Por esta razão, interessa-nos, desde

Texto publicado em Antropologia em Primeira Mão (Programa de Pós-graduação em Antropologia Social /
UFSC), (19):1-19, 1997.
2 A obra de Jean-Claude Chesnais intitulada Histoire de la violence en Occident de 1800 à nos jours (Chesnais, 1981)
mostra esta flagrante contradição, particularmente na França, entre os dados estatísticos sobre a violência e os
discursos políticos e da imprensa.
3 Sob a noção de violência chamou-nos a atenção exposição de Luís Eduardo Soares quando se refere a violência
como uma “palavra-valise” (Entrevista no Boletim da Associação Brasileira de Antropologia, n.24, 1995). A idéia de um
fantasma da violência, que apresentamos a seguir, tem também o sentido de uma “tendência a homogeneizar as
observações relativas a fenômenos associados à violência”, que Soares obsevou corretamente, embora ele a designe
com a expressão “cultura do medo”, a qual nos parece muito ampla para dar conta da especificidade do nosso objeto.
Sem pretendermos abrir aqui um debate, registramos que seria interessante considerar-se a possibilidade desta “cultura”
ser uma conseqüência de um regime de práticas sociais circunscritas pela sociedade de “massas” ou por um regime de
impunidade (Dahrendorf, 1987).

2
logo, destacar a importância que se tem atribuído aos estudos culturais, e,

sobretudo, a urgência com que se solicita sua contribuição.

Entendemos que há pelo menos duas boas razões para uma atitude de

cautela face as expectativas que se desenham com relação a pesquisa. Em

primeiro lugar, porque no quadro atual dos estudos sobre a violência, há uma

concordância dos especialistas de que a pesquisa na área da “cultura” será

limitada se ela for reduzida a uma simples soma, mais uma parcela, mais uma

variável explicativa. Em outros termos, entendemos que a contribuição da

antropologia não seria efetiva para a compreensão das experiências sociais em

curso se ela fosse integrada ao campo da pobreza, da urbanização fundada na

migração interna, da desigualdade econômica e social, da exclusão social4. Por

outro lado, agindo pela premência, talvez não consigamos atingir a eficácia na

nossa ação, pois, submetendo-nos à urgência da atualidade nada nos garante que

o nosso pensamento não seja outra coisa que a sua própria duplicação. Por esta

razão consideramos necessária uma avaliação do campo em que se inscrevem as

nossas próprias práticas.

A demanda por estudos antropológicos da violência não pode contribuir

para ampliar um equívoco que seria, a grosso modo, substituir uma explicação,

digamos, “sociologizante”, por outra sua homóloga no campo da “cultura”. Afinal,

no estágio atual dos nossos conhecimentos, é problemático postular qualquer

4 Retomando os principais pressupostos da análise da violência, Alba Zaluar (ZALUAR et alii, 1994) mostra que
estamos num campo semeado de equívocos, em relação aos quais tem-se observado uma significativa dificuldade de
superação. Esta leitura nos estimulou a escrever o presente texto colocando as dificuldades que observamos frente aos
referidos pressupostos.

3
centralidade explicativa, seja ela, por exemplo, política, econômica, cultural5. Por

outro lado, ao evocar traços políticos ou culturais, tais como processo colonial,

escravidão, tradição patriarcal, ou mesmo machismo, racismo, etc, para explicar

as diversas formas da violência e os impasses do processo de democratização no

Brasil contemporâneo, colocamos barreiras ao nosso próprio pensamento. De

fato, a análise da violência através destes traços equivale a colocar paralelamente

a seguinte questão: trabalhando com categorias fixas e de sentidos

predeterminados, como poderemos superar a pressuposição de que a cultura é

estática e que a história é uma reprodução do passado?

Certamente não há novidade nestas considerações, porém ainda resta o

desafio de tirar delas as devidas conseqüências e de produzir a sua

concretização. Afinal, o óbvio tem sempre a sua importância garantida pela sua

capacidade de nos esconder os nossos próprios pressupostos e os nossos limites

interpretativos. É assim que muitos aspectos do estudo da violência não adquirem

a posição de categoria científica, como a sensibilidade, a dor, o sentimento, os

quais estão sempre presentes, até mesmo para o pesquisador.

5 No campo da cultura, o trabalho de Roberto da Matta, em “As raízes da violência no Brasil” (PAOLI et alii: 1982) é
certamente uma iniciativa da maior importância para o enfrentamento deste problema. O ensaio de R. da Matta é
instigante e oferece pistas produtivas para a pesquisa, tais como a idéia que a violência no Brasil serve tanto para
hierarquizar iguais, quanto para igualar diferentes. Entendida como um modelo operatório, esta idéia, entre outras,
torna-se uma poderosa matriz para a compreensão dos fenômenos ligados à violência no Brasil.

4
Os campos da violência

O quadro que estamos procurando caracterizar vem sendo construído

desde 1993, como um mapeamento dos estudos da violência no Brasil. Esse

mapeamento está baseado numa revisão bilbiográfica, e, sobretudo, na discussão

direta com pesquisadores sobre as tendências atuais no estudo da violência, que

tiveram lugar a partir da organização de grupos de trabalho e mesas-redondas nas

reuniões regionais e nacionais da Associação Brasileira de Antropologia (ABA)6.

Trata-se de um levantamento que, apesar de parcial e limitado, nos permitiu

organizar um painel preliminar deste complexo e diversificado campo de

investigação. Partimos, inicialmente, de uma proposta ampla, visando alargar o

intercâmbio entre pesquisadores e propiciar a troca de experiências e

informações, dando maior visibilidade à produção científica. Destas iniciativas

redundou a organização da Rede Aberta de Investigação da Violência (RAIVA)7.

Este conjunto de experiências, com seus pontos positivos e seus fracassos,

revelam aspectos importantes para o debate sobre o campo de pesquisa da

violência. Dentre os aspectos que pudemos identificar, apontamos, em primeiro

lugar, uma prioridade dos recortes temáticos, tais como criminalidade, gênero,

6 Referimo-nos particularmente a discussões que tiveram lugar nos seguintes eventos: IV Reunião da ABA-SUL
(Florianópolis, 1993), XIX Reunião Brasileira de Antropologia (Niterói, 1994), V Reunião da ABA-(Merco)SUL
(Tramandaí, 1995), Encontro “Tendências Atuais no Estudo da Violência” (Florianópolis, 1996), e XX Reunião Brasileira
de Antrpologia (Salvador, 1996). Além de vários encontros paralelos, como aquele que teve lugar em João Pessoa
durante a realização do VII Encontro de Ciências Sociais e da IV Reunião de Antropologia do Norte e Nordeste (1995).
7 A ficha de mapeamento da RAIVA e o arquivo com os dados dos inscritos podem ser obtidos via e-mail
(theo@cfh.ufsc.br). Para participar da lista eletrônica de discussão da RAIVA, basta enviar um mail para
majordom@server07.npd.ufsc.br, com o seguinte texto: Subscribe Raiva-L. Estaremos brevemente colocando na
Internet a nossa home page, procurando facilitar o intercâmbio entre os pesquisadores e agentes sociais dedicados ao
estudo da violência.

5
minorias étnicas, meninos de rua, conflito de gerações, etc, em relação ao recorte

dado pela violência. Isso ficou particularmente evidente quando os participantes

dos encontros dividiam-se entre um grupo temático e aquele com o recorte sobre

a violência, que recobria vários campos temáticos. Esta constatação revela-se

correlata a uma ambigüidade entre o recorte temático e o debate teórico. De fato,

a necessidade em aprofundar o debate teórico em torno dos impasses do estudo

da violência para avançar nas suas áreas específicas aparecia de modo conflitivo

para os pesquisadores que participaram das atividades organizadas pela RAIVA.

Esta constatação foi confirmada com a presença de colegas da Universidade de

Buenos Aires, que participaram do Encontro sobre “Tendências Atuais no Estudo

da Violência”, realizado no início de 1996 em Florianópolis8.

Considerando, esquematicamente, a produção científica sobre a violência

no Brasil, principalmente a partir dos anos 80, podemos afirmar que há uma

concentração no campo da cidadania e dos limites da ação do Estado. Sem

pretendermos realizar uma revisão desta ampla e diversificada produção científica,

parece-nos possível apontar uma convergência conceitual em torno dos termos

definidos na obra de Michel Foucault como micro-física9. Neste domínio teórico é

possível perceber-se a presença das relações de poder e da violência em todos os

lugares: nas relações entre pais e filhos, na escola, nas relações de trabalho, na

8 O evento contou com participantes do Projeto Integrado “Violência, Comunicação e Cultura no Brasil” (Universidade
Federal do Rio de Janeiro), da Equipe de Antropologia Política e Jurídica (Universidade de Buenos Aires) e do Grupo
“Violência, Cultura e Sociedade”do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de
Santa Catarina, que coordena as atividades da RAIVA.
9 A passagem dos estudos da violência como um elemento intelegível apenas no quadro das contradições estruturais
da sociadade de classes, para o domínio da micro-física, nos parece bem caracterizado em A Violência Brasileira (Paoli
et alii,1982); onde já encontramos também uma abertura para a abordagem antropológica no ensaio de Roberto da
Matta sobre as raízes culturais da violência no Brasil, referida anteriormente.

6
prisão, etc; por outro lado, as manifestações de poder e de violência moveriam-se

em conjunto em qualquer ponto da rede social, sem exclusividade explicativa para

as relações estruturais. Assim, entendemos que, pelo menos em primeira

aproximação, o estudo da violência está colocado num território em constante

disputa, que não pode pertencer a nenhuma ciência particular10.

Esta apreciação geral coloca em debate alguns traços que nos parecem

circunscrever os trabalhos atuais sobre violência. Sem pretender, de modo algum,

substituir uma revisão sistemática desta produção científica, o que seria uma

espécie de “crônica de uma morte anunciada”, destacamos os pontos teóricos que

nos parecem mais relevantes. Iniciamos lembrando a importância de

reconhecermos as inscrições sociais sobre o próprio discurso científico.

Para nós, as múltiplas faces da violência representam um espaço

aparentemente vazio, no qual o não-dito é moeda corrente, a precariedade

merece atenção e os “conceitos” devem manter-se próximos da experiência11.

Neste campo tão complexo, nós nos perguntamos como se poderia circunscrever

o discurso sobre a violência como uma “objetivação”, uma vez que ele nem

10 Entendemos território num sentido mais amplo do que aquele de um espaço onde se articula a porção de vida ou
uma sociedade determinada. Território é um espaço vivido, mas também um sistema percebido no qual o sujeito
percebe uma “familiaridade”. Ele é, portanto, um sinônimo de apropriação, um espaço do imaginário onde desembocam
toda uma série de comportamentos, investimentos semióticos, sejam cognitivos ou estéticos. Segundo Félix Guattari
(1986), nós estamos em constante processo de desterritorialização, ou seja, desfazem-se ininterruptamente os nossos
territórios. Nesse sentido, a empresa capitalística é uma máquina de reterritoralização, de domesticação, de
disciplinamento, pois ela é a volta de tudo o que se perde, de todas as ovelhas desgarradas da ordem da produção e das
relações sociais. A noção de reterritorialização, conforme veremos mais adiante, é útil para a própria delimitação do
campo de estudos da violência.
11 “Um conceito próximo da experiência é, a grosso modo, um conceito pelo qual qualquer um - um paciente, um
sujeito, no nosso caso um informante - poderia, ele mesmo, naturalmente e sem esforço, se servir para definir o que ele
e seus companheiros vêem, pensam, sentem, imaginam e assim ele compreenderá facilmente quando este conceito for
aplicado pelos outros da mesma maneira. Um conceito distante da experiência é aquele que os especialistas de uma
forma ou de outra - um analista, um experimentador, um etnógrafo, mesmo um padre ou um ideólogo - empregam para
apresentar seu objetivo científico, filosófico ou prático.” (Geertz, 1986: 73)

7
sempre é visível12, e, por outro lado, a violência é sempre um objeto em constante

construção. Para respondermos a esta questão, começamos expondo as nossas

primeiras interrogações face a ambigüidade encontrada nos estudos sobre a

violência. Voltamo-nos particularmente para um implícito que não tem recebido a

atenção devida por parte dos pesquisadores: uma espécie de negatividade

generalizada face a violência.

As experiências que nos servem de base para a construção do nosso

retrato dos estudos sobre a violência apontam para um dado inequívoco que

mereceria ser objeto de uma reflexão mais detalhada: referimo-nos à primazia

dada ao discurso denunciatório. O cenário está tão fortemente marcado que

poderíamos nos perguntar se não há uma prioridade do “discurso denúncia”, ou

seja, aquele que reclama o fim da violência, em relação “discurso analítico”.

Propositalmente estamos exagerando ao afirmar a existência desta polaridade,

mas ela nos permite colocar em questão a posição que estes discursos pretendem

ocupar e quais outros eles, implicita ou explicitamente, excluem. O discurso de

intervenção política direta não pode ser exclusivo: a revisão deve ser sempre

parte do tempo para a ação; e é sempre bom lembrar que os reclamos pelo fim da

violência não podem ser um projeto de estudo. Evidentemente, se é preciso

afirmá-lo, nós nos colocamos em defesa dos pobres, das minorias sociais, dos

que sofrem a violência policial, das mulheres e crianças que são alvo da violência,

12 A invisibilidade a que nos referimos é a mesma que tem a gramática para o falante de uma língua: falar implica na
mobilização de regras que não são conscientes para o sujeito enunciador.
De um modo geral, consideramos que a nossa percepção do mundo está irremediavelmente permeada pela nossa
experiência pessoal. Esta história, construída a partir de vivências concretas é, ao mesmo tempo, única e compartilhada
pelos nossos contemporâneos. É que a percepção e o objeto percebido são constituintes da mesma realidade. Esta é

8
e acreditamos que os discursos denunciatórios têm uma tarefa fundamental na

defesa da cidadania e na construção da democracia no Brasil13.

A valorização negativa implícita no discurso sobre a violência, científico ou

não, está na origem deste nosso trabalho. O que gostaríamos de destacar é que

a violência, para além do delito e da repressão, implica numa visão de mundo, e

que isto tem significativas conseqüências, principalmente, para os estudos que se

concentram na construção das subjetividades daqueles que vivenciam a

experiência da violência. É na perspectiva de uma abordagem, digamos, mais

vivencial, mais próxima das experiências concretas, que podemos começar a

pensar na pluralidade da violência e sua significação.

Percebemos a pluralidade da violência quando procuramos, por exemplo,

circunscrever o seu campo semântico. Deparamo-nos de imediato com um jogo

de linguagens onde diferentes tipos de fenômenos aproximam-se, enredando-se

numa teia discursiva cuja amplitude é sempre crescente. No nosso quotidiano,

referimos-nos à violência no esporte, no trânsito, nas ruas, nas prisões, ou ainda

com relação às precárias condições de vida, à fome, e, evidentemente, com

relação à criminalidade; mas há ainda a violência contra a mulher, contra a

criança, contra a natureza, e a violência nos rituais de sacrifício, violência física,

psicológica, simbólica, cognitiva... Esta série, cuja regra de formação é invisível,

pode englobar ainda: as relações de força, as tensões, as hierarquias, as

desigualdades sociais e as situações de conflito em geral. Diz-se que tudo está

uma razão fundamental para que o conhecimento da dimensão imaginária das práticas sociais seja considerada
prioritária neste campo de estudo.

9
contaminado por esta peste, que é preciso eliminá-la, antes que ela se torne

incontrolável e domine a tudo e a todos. É o quadro de paroxismo da violência.

Diz-se também que, com certeza, nunca foi assim... Os bailes funks, as gangs, os

neo-nazistas, a polícia, os traficantes, os assaltantes, os cinicamente chamados

"meninos de rua", os assassinatos em família.

Os mesmos “fatos” que nos permitem ver a violência, qualificam também a

sua própria dimensão. Em outros termos, é a crescente extensão do campo

semântico que nos leva a pensar que estamos frente a um constante e inelutável

aumento da violência. A própria memória, atualizando sem relativizar o passado,

atua como uma portadora de referências que avaliam a realidade presente como

uma degradação. A memória alimenta o medo, o qual se nutre da força do

fantasma que ela representa14. Neste sentido, se a violência é um fantasma,

diremos que ela não pode ser diretamente interrogada; é melhor deixá-la falar.

A violência nos fala através de um discurso catastrófico, que se espalha

dominando todo o nosso quotidiano. Diariamente os meios de comunicação

apresentam um balanço da violência, que, apesar de redundante, previsível,

realimenta o nosso próprio discurso. O seu léxico e a sua sintaxe são próximos do

discurso da prática médica: doença, epidemia, peste, remédio, tratamento,

gravidade... A violência é um "fantasma", sem hora, nem lugar, que está no

13 No momento em que concluímos a revisão deste texto nos associamos, juntamente com os colegas do Grupo
“Violência, Cultura e Sociedade” do Programa de Pós-graduação da Antropologia Social da UFSC, à Assembléia
Legislativa de Santa Catarina para a realização de um mapeamento da violência no Estado.
14 Tomamos o conceito de fantasia ou fantasma da discussão de Renato Mezan em Freud: Pensador da Cultura,
citando uma carta de Sigmund Freud, onde este afirma que: “As fantasias são construções defensivas, sublimações e
ornamentações dos fatos, servindo simultaneamente a propósitos de auto-exoneração” (Mezan, 1986: 187).

10
estranho da rua desconhecida, na noite escura. A violência é o caos, uma porta

aberta para o caos; ela é a falta do limite, o imprevisível.

O crescimento do campo semântico não abole um outro fantasma que

ronda o imaginário da violência: ela está sempre alhures, no outro. O

desconhecido é uma espécie de catalisador dos medos que se alimentam do

discurso alarmista sobre a violência. É interessante notar que, contrariamente ao

que se costuma pensar, a violência é “familiar”, ou seja, a sua ocorrência pode

envolver pertencentes de um mesmo grupo social, não apenas na chamada

“violência doméstica”15, onde são explícitas as relações de afetividade e mútuo

conhecimento, mas no interior de minorias sociais.

Por outro lado, cabe ainda lembrar que a questão é suficientemente

complexa; tudo se passa como se estivéssemos vivendo numa dimensão

paralela, pois o mundo que nos envolve está tornando-se cada vez mais previsível

e previdente, e talvez por isto mesmo estejamos cada vez mais preocupados com

qualquer índice de incerteza, tomado em si mesmo como uma ameaça. Ao

contrário do que se costuma destacar, e apesar das dificuldades da

democratização no Brasil, a nossa sociedade também vem desenvolvendo uma

participação social ampliada, com a luta pelo respeito aos Direitos Humanos e um

maior controle sobre as suas instituições de segurança, o que implica, ao mesmo

tempo, numa relativização do fantasma da violência e no fortalecimento de uma

expectativa de estreitamento das margens da violência.

15 Relatórios detalhados sobre homicídios nos Estados Unidos da América e na Inglaterra mostram que os números da
violência doméstica são tão significativos quanto o silêncio que se coloca em torno deles (Chesnais, 1981: 100-124).

11
O fantasma fala do aumento da violência, dos números "alarmantes", do

medo do outro, etc; mas afinal, o que entendemos por “violência”? Que objeto é

esse, do qual tentamos sempre nos afastar, e que se apresenta como uma força

apontando sempre para o exterior? Há outra maneira de pensar a violência para

além do círculo da sua negatividade e do campo da criminalidade? Tais

interrogações não são tão solitárias quanto se poderia pensar, nem são apenas

retóricas: elas são portas entreabertas que exigem o concurso de pesquisadores

de diversas áreas do conhecimento e estudos em vários níveis, uma tarefa

coletiva para aqueles que se dedicam ao estudo da violência16. De fato, os

problemas do campo específico em que situamos o debate poderia ser resumido

em torno de três ordens de questões:

a) negatividade/positividade da violência,

b) cumplicidade/vitimização,

c) violência e grupos minoritários

Pode ser frustrante para aqueles que esperavam um levantamento

sistemático da produção, ou uma tipologia, ou ainda uma periodização. Porém,

este não é o objetivo deste ensaio. Aliás, é possível que o quadro desenhado

nem seja representativo da produção na área, inclusive porque nem todos os

pesquisadores que são referências no estudo da violência participaram dos

debates aos quais nos reportamos anteriormente.

Em resumo, a partir das experiências relatadas constatamos que apesar do

número crescente de pesquisas, e dos conhecimentos já acumulados, há uma

16 Várias iniciativas neste sentido estão em curso, entre as quais poderíamos destacar, apenas à título de exemplo, os
trabalhos de Alba Zaluar e os do Núcleo de Estudos da Violência da USP.

12
demanda por uma sistematização do campo conceitual. Com este espírito, ao

invés de propormos um Grupo de Trabalho para a XX Reunião Brasileira de

Antropologia, consideramos mais produtivo a realização de uma mesa-redonda

que produzisse um painel da pesquisa atual e onde as questões mais gerais

pudessem ser colocadas17.

Diferença e positividade

A pergunta que nos propomos é a seguinte: os estudos específicos sobre a

“positividade” da violência, ou seja, a colocação do problema para além do círculo

da criminalidade e da fantasmagoria a ela associada, poderá contribuir para o

desenvolvimento deste campo de estudos? Ao permitir o resgate de um elemento

fundamental que é a percepção dos sujeitos concretos envolvidos em situação de

violência, ele contribuirá apenas para o estabelecimento de mais um relativismo?

Entendemos que apenas os estudos concretos poderão responder a estas

questões, e que eles poderão contribuir para o debate ético em torno da violência.

O discurso sobre a violência não compreende apenas a fala, nem é

consciente para quem o enuncia; ele também é o não-dito ou o silenciado, um

conjunto de enunciados, práticas e falas, que garantem a circulação das imagens

sobre a própria violência. O discurso sobre a violência é o leito de um grande rio,

cujas marcas de ambigüidade estão presentes mesmo no seu estudo.

17 Convidamos para esta mesa-redonda “Violência e Cultura no Brasil Contemporâneo” da XX RBA, realizada em
Salvador, os Professores Alba Zalur (UERJ), Ruben George Oliven (UFRS), Sérgio Adorno (USP), Luiz Eduardo Soares

13
De fato, tomando a antropologia como referência, podemos afirmar que as

constantes e recorrentes observações etnográficas mostrando a importância da

violência nas sociedades tradicionais, não foram suficientes para superar a

condição envolvente do fantasma da violência. Nos estudos etnológicos, a

violência foi banida: a imagem criada em substituição é a de sociedades onde a

violência está controlada, codificada, ritualizada, quando não abolida (Clastres,

1980: 171). Porém esta imagem coincide mais exatamente com sociedades sob o

signo da chamada paz branca, na consagrada expressão de Robert Jaulin.

Parece que projetamos sobre estas sociedades "pacificadas" um imaginário que

procuraria negar a nossa própria violência; evidencia-se aqui uma certa

abnegação da violência, ou seja, em geral, a antropologia recusa-lhe qualquer

positividade que não venha do seu estrito controle.

Encontramos a matriz básica para o desenvolvimento da nossa proposta de

pesquisa sobre a “positividade” da violência nos trabalhos de Pierre Clastres

(1980). Referimo-nos particularmente a noção de “sociedades contra o Estado”,

utilizada na análise da guerra nas sociedades indígenas. Para este autor, o

Estado funciona como um máquina de unificação, enquanto a violência e, em

particular a guerra, atuaria no sentido inverso. A violência pode atuar como uma

espécie de força dispersiva, voltada para a manutenção das diferenças, em

contraponto à homogeneização que a centralidade dos poderes procura instaurar.

Em termos de um possível modelo teórico, entendemos que a violência poderia

também ser pensada nos aspectos que fazem dela um elemento instaurador de

(ISER) e Carlos Alberto Messeder Pereira (UFRJ).

14
identidades locais (étnicas, culturais, etc) e da construção de subjetividades

através dos processos de socialização.

Se a generalização proposta acima for válida, pelo menos como metáfora,

poderíamos pensar que a sociedade abrangente seria composta de uma

multiplicidade de comunidades indivisas, obedecendo a uma lógica centrífuga,

como no caso das sociedades indígenas (Clastres, 1980: 206). Cada minoria,

grupo ou segmento social poderia, sob determinadas circunstâncias concretas,

colocar em prática formas específicas de violência para garantir a sua identidade.

No limite lógico da homologia entre “sociedades primitivas” e minorias sociais, há

conseqüências extremamente complexas do ponto de vista ético e que devem ser

consideradas: quais as implicações de considerarmos que os sujeitos envolvidos

em situação de violência estariam valendo-se de um instrumento para a

construção ou garantia de manutenção da sua subjetividade, ou seja, marcando a

fronteira com o que consideram exterior?18

Estas questões são, no nosso entendimento, preliminares para o

desenvolvimento da pesquisa no campo da violência, e não pretendemos, de

modo algum, reduzir o crime e a chamada “criminalidade organizada” a um

simples jogo de identidades e territórios. Nem se trata, por outro lado, de um

questionamento à luta pelos Direitos Humanos19, ainda que a instauração do

cidadão, um equivalente geral para além das diferenças da existência cotidiana,

18 Tendo presente a complexidade da questão ética envolvida, apresentamos no Encontro “Tendências Atuais no
Estudo da Violência” (Florianópolis, 1996), o texto “Entre dois amores... Apontamentos sobre um dilema ético no estudo
da violência: cidadania, democracia e diferença”.
19 Lembramos aqui as palavras de M.Godelier (1993:21): “Irei mais longe, e os senhores hão de permitir que eu afirme
que talvez haja formas de utlizar a Declaração dos Direitos Humanos que possam ser uma maneira perversa de denegrir
as outras culturas e de subordiná-las, antes de aniquilá-las.”

15
implique em limites para as identidades locais. De um modo amplo, gostaríamos

de sublinhar que não se pode excluir da pesquisa sobre a violência a possibilidade

de considerar que ela pode atuar, sob condições específicas, como um elemento

instaurador, positivo, negador dos processos de controle e homogeneização.

Além do mais acreditamos que este tipo de pesquisa pode vir a somar-se a outros

e produzir uma moderação, uma modulação da violência que também contribuiria

para dela nos protegermos (Maffesoli, 1987).

Essa perspectiva exige que sejam postas de lado as razões funcionais da

violência e a imputação natural da sua origem aos desequilíbrios sociais ou aos

esforços de adaptação dos sistemas econômicos, pois o que buscamos identificar

são as suas formas vivenciais. Por esta razão destacamos, em primeiro lugar, a

necessidade de desviar a nossa atenção da singularidade contida na noção de “a”

violência, para vermos a forma rara, particular na qual ela se manifesta. Assim,

consideramos fundamental a multipliação dos estudos etnográficos para que a

prática concreta não seja ofuscada pela força dos objetos reificados.

A violência é uma objetivação, uma espécie de significante sempre aberto

para receber significados, e não uma invariante, um objeto natural. Ao invés de

acreditar que existe algo como “a violência” em relação à qual “agressores” e

“vítimas” se comportam, deveríamos procurar ver como as coisas acontecem

concretamente. Seria interessante identificar quais práticas e discursos estão

sendo postos em jogo, pois é a partir deles que é construída a nossa própria

imagem do campo da violência.

A melhor descrição dessa postura metodológica foi dada por Paul Veyne

(1982), quando ele analisa a contribuição da obra de Michel Foucault e propõe aos

16
pesquisadores uma atitude de “densificação”, próxima da “descrição densa” na

antropologia interpretativa. Ele sugere uma descrição positiva dos objetos, livre

dos fantasmas da linguagem, sempre tendo em conta que todo objeto é correlato

a uma prática, e, portanto, nunca se deixa traduzir em “ideologias” ou “grandes

noções”.

De fato, o nosso problema inicial será o de descrever positivamente as

situações de violência, procurando identificar como elas são vivenciadas segundo

os diversos agentes nelas envolvidos. Assim, livrando-nos dos fantasmas que a

linguagem suscita em nós, poderemos voltar-nos para os atos e as percepções

dos sujeitos, evitando o caminho das grandes noções, como “a” violência, “a”

liberdade, que banalizam e tornam anacrônica a percepção dos sujeitos. Em

outros termos, com relação a violência, o nosso objetivo não está na definição de

limites da temática, mas naquilo que Paul Veyne chamou de “operadores de

individualização” (Veyne, 1983: 30), ou seja, reconstruir o conjunto das práticas

engendradas num determinado meio social, numa determinada época, procurando

identificar “rosto singular” projetado sobre a sociedade como um todo.

Finalmente, gostaríamos de lembrar que as reflexões contidas neste texto

procuram apenas apontar aspectos que nos preocupam no estudo da violência,

em particular a falta de um referencial teórico. A violência como um fantasma e a

sua característica de “força centrífuga” em relação aos processos de

homogeneização são as duas frentes de trabalho que vislumbramos na pesquisa

sobre a violência.

Esperamos que o esforço conjugado das diferentes pesquisas em curso

permita um salto em direção à crítica da noção de “forças centrífugas”, e nos

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aponte um princípio mais amplo, como foi feito na Física. Em síntese,

entendemos que estamos frente a um objeto em revolução, cuja órbita nos é

desconhecida, e que a única postura possível é a sua observação sistemática e

descrição positiva.

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