A letra e o elã

Marcus André Vieira
Não há aí nada além de encontro, encontro, que se dá no casal, com os sintomas, os afetos, tudo aquilo que em cada um marca os rastros de seu exílio, como falante, (...) da relação sexual. Lacan, J. O Seminário livro 20, p. 198.

Afeto (e Coro) Costuma-se dar grande valor à emoção que sobe à cabeça. “É mais forte que eu”, ouçome dizer ao enveredar por estranhos caminhos e infringir minhas próprias regras de conduta. Tudo em nome da crença de que o coração, com relação ao pensamento e à razão, seria emissário da verdade mais verdadeira. Lacan recusa estes direitos ao afeto e nos adverte de que, apesar de dizer a verdade, ele engana. Paradoxo? Apenas aparente. É preciso inverter o sentido de nossos hábitos mentais quanto ao mundo do sentimento. O afeto, propõe Lacan, “vem ao corpo” e não provém dele, não é primordial, mas secundário. Efeito no corpo de um dizer, ele é “secretado” pelo discurso.1 Esta é a retomada lacaniana da sentença definitiva de Freud: “não há afeto inconsciente”.2 O inconsciente é um discurso. Ainda que alternativo às falas oficiais do ego, fragmentário e disperso, não deixa de ser discurso. Como todo discurso, ele produz afetos, mas não os contém. Não é habitado por eles e sim por significantes. “Estou triste” significa “há sofrimento”. Mesmo que um ator force suas lágrimas, que sua representação seja péssima, caso a tristeza se apresente ela será sempre triste. Esta é a verdade do afeto. Ele é o que é. Pode haver dúvida sobre suas origens, pode ser que sejam desconhecidos os significantes que determinam e sustentam um sentimento, às vezes contra todas as evidências conscientes. Apesar de não sabermos, muitas vezes, porque choramos, sabemos que estamos tristes. “É da essência de um sentimento ser percebido, ser conhecido pela consciência”, diz Freud.3 Desde que sejamos da mesma paróquia, o afeto é, em si, sempre conhecido. Ele engana, porém, ao levar a crer que nos conduziria ao real. Se Lacan propõe que o sentimento também mente é para que deixemos de supor que teria um sentido primitivo, mais básico e real que o das palavras.4 O real com que lidamos em uma análise não é deste tipo; não é um sentido, nem primitivo, nem energético (o de uma dócil energia vital que nos levaria adiante). Dito em nossos termos, o real é fora do sentido, por isso não haverá para nós significado primordial. Ele é vida, só que vida quando ela não cabe nas nossas vidas, quando excede e colide com as rotas de uma existência. Quando este real se apresenta, quando a vida fica “fora de si”, os afetos vêm tomar para si a intensidade do vivido fazendo-o retornar ao senso comum. Em lágrimas, riso ou outros moldes afetivos pré-estabelecidos, eles estão sempre à disposição para escoar um tanto de tudo o que não tem cabimento. É o que se definiu tradicionalmente como catarse, purgação.5

Pubicado em Latusa, n. 15, Rio de Janeiro, EBP-Rio, 2010, pp. 75-84 (ISSN 14154-6830). Este texto retoma parte do percurso do curso livre do ICP, Paixões em análise, ministrado na EBP-Rio em 2010 que, por sua vez, foi uma retomada do percurso de meu livro A ética da paixão (Rio de Janeiro, JZE, 2001). Agradeço aos participantes pelos bons encontros.

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ainda pré-analítico. Nele. se não posso imaginar o perigo. O temor e a piedade traduzem. não me compadeço. Reservemos para eles o termo emoção. Adotemos. esta redução corre o risco de ser tomada como uma ascese. dentre tudo o que o semelhante secreta em nós. para deixar mais claro. por definição. segundo Lacan. não posso temê-lo. enfim. o afeto seria sua trilha sonora. estamos tornando-os paradigmáticos.8 Do ponto de vista do afeto. mas ao real como fora do sentido. por mais brutal que isso pareça. é um empuxo ao universal.10 Inverter é. o modo como somos afetados pelo semelhante. ou bem tornamos esta singularidade um objeto palpável. O coro afetivo em nós realiza. um “comentário emocional” da ação. nos termos de Lacan. que atravessam os séculos estabelecendo-os como “tremer por si” e “tremer por outro”. eles tanto encarnam quanto amortecem o absurdo de nosso destino.6 Nossas maneiras de chorar e sorrir são recebidas por nós. A. Chamaremos. amplificam. como em um bloco de carnaval. de emoção. porém. definida por sua tradução alternativa ao katharsis aristotélico: purificação. fundidos na massa. outra vez. É exatamente essa capacidade de identificação imaginária com as situações expostas que 2 . é exatamente esta “conversão afetiva”. uma análise não caminha em direção ao sentido de uma verdade. O afeto nos afasta da singularidade. Se esse kit-cultura fornecido pelo Outro fosse um filme. fundamental: mais do que classificar os sentimentos de pena e medo como imaginários. o mais distante do real que nos habita. De fato. se não posso concebê-lo como objeto.7 Eles modulam. A. Para isso. aquilo que com ele se inicia e nele se esgota. a profunda contingência de que somos feitos. mas sim como decantação. no momento em que entramos na cultura. juntamente com os desejos e romances que nos constituem. singularidade. nos termos de Freud. É o que resume J. boa parte dos significados que carregamos vão se concentrando em cenas fundamentais e ditos marcantes. é o par temor e piedade. se não posso me identificar com quem sofre. os sentimentos agem como o coro do teatro grego. inclusive. É o que. estes são os que mais tipicamente o realizam. que nos afasta do essencial na análise.No entanto. como se ao progredir na análise fossemos sentindo cada vez menos e fossemos nos aproximando do anacoreta de Jung. tracemos uma pequena cartografia afetiva do percurso analítico. um dos nomes mais conhecidos deste real. Afinal. O ponto de partida. Miller ao definir este aspecto da experiência analítica como “operação redução”. Dos tantos sentimentos de que dispõe o dicionário afetivo do Outro. a catarse de maneira distinta. Com elas Lacan traduz os efeitos sobre o corpo da relação que batiza imaginária ou especular. em uma análise. o paradoxo de estarmos ao mesmo tempo o mais próximo possível de nosso corpo agitado e. Ela realiza. sustentando. já prontas. à minha frente. Miller. Ele faz o corpo vibrar no diapasão dos modos de sentir que ganhamos quando entramos na cultura. O termo não deve ser entendido como “elevação” ou “aperfeiçoamento”. mais que qualquer outro. como lembra J. mas perdemos em vida o que ganhamos em saber? Por isso Miller completa a operação redução com uma “conversão de perspectiva” que tentarei situar a partir de suas repercussões no plano dos afetos.9 Só haveria estas duas alternativas? Ou bem animadamente nos agitamos longe da singularidade do acontecimento. pois. Faremos nossas as definições aristotélicas destes afetos. suavizam. Por outro lado. Identificação (e emoção) Uma análise põe os afetos a trabalho de outro modo. distingue o medo da angústia e do pânico.

. não existe sem a visão de uma imagem que fixa e arrebata. novamente por definição. Mas a ela nossa singularidade escapa. das imagens do quotidiano. te vi. tal como nas aproximações técnicas entre o homem e o rato de laboratório. Lacan afirma: “O amor (. portanto.. portanto. Na paixão.. fascinação. A atualidade demonstra. Transferência (e Paixão) Nem tudo é emoção.13 Para uma referência mais próxima. espaço das trocas e das demandas. apesar de adquirirmos conhecimentos palpáveis sobre nosso sentimento – que passa a poder ser abordado por comparação. que nunca enxerga tudo. diremos que há sempre um ponto cego fundamental no coração do Outro. segundo Lacan. ligado a esses elementos opacos. Mas a captura amorosa parece atrelada a algo que insiste em um além ou aquém da imagem. algo que anima a imagem fascinante com que ele nos captura. do corpo..seleciona o que vai ou não para a manchete do jornal e faz com que milhares de mortos na África muitas vezes ocupem menos espaço que as atribulações dos vizinhos do bairro. diferentemente das emoções. que definiremos como o que mobiliza nosso corpo a partir de algo mais do que a imagem do outro. Verliebtheit. O amor-emoção. Ela não se esgota no que se vê mesmo quando é claramente desencadeada pela imagem. ofuscamento e cegueira. Chamaremos. de mais impensável”. de Fito Paez. sua particularidade e no que essa particularidade possa ter de mais opaco. como no amor à primeira vista. queijo-queijo quotidiano. vi. reproduzido e medido – nos perdemos dessa coisa desregulada e estranha que nos habita e que é o mais humano em nós.11 É bem verdade que no homem nada se reduz completamente à relação especular e às emoções que provoca. que se ouça “Um vestido y um amor”. O afeto provê sentido e o mais comum deles é o da continuidade entre homem e animal. das formas pré-estabelecidas.. examinado. no buscava nada y te vi. por visar a algo fora do sentido.) visa sempre. À paixão reservamos essa “carreira sem limites” do afeto que nos leva adiante. paixão tudo o que tenha um pé no plano especular. Por isso. pode nos levar além do mundo dos bens. para o melhor ou o pior.. Por isso Lacan define o temor e a piedade como afetos do que denomina “mundo dos bens”.14 O amor-paixão. definido por ele como “fascinação” ou “captura imaginária”.12 Esquece que assim procedendo. porém. Esta paixão fulminante terá para Lacan como cena emblemática o encontro de Werther com Lotte. o amor à primeira vista é isso. sempre em ruptura com o que se possa conhecer ou sentir.. Ela apóia a ecologia ambiente segundo a qual devemos espelhar-nos nos outros habitantes do planeta para encontrar nosso verdadeiro lugar no mundo . para além da captura imaginária. que só se liga ao que se pode ver é apenas. É o caminho da psicologia científica que faz de nosso sentimento e daquele do macaco um só. Seriam os pedacinhos de pão que Lotte distribuía às crianças a seu redor? Seriam las margaridas del mantel que juntabas? Ou los chinos que em Madrid fumabas? Esses e outros mil divinos detalhes são rastros desse além e parecem concentrar mais do acontecimento que a própria imagem do amado.15 3 . na voz de Caetano. te vi. Te. Compreende-se porque ela.todos irmãos diante da grande mãe natureza. é visionário. e que ao mesmo tempo nele não se esgote. que é possível desconsiderar as diferenças a ponto de esquecê-las. do pão-pão. Há a paixão. o ser do sujeito amado. pois nem tudo no sentimento é imaginário.

vamos assumir que são todas carreiras sem limites por estarem em relação com os rastros do real. mas no sentido que definimos acima. o saber essencial em uma análise não é um conhecimento. se apresenta. mas o de um prazer em sua face mortífera que tanto é encontro quanto perda. a particularidade opaca indicada por Lacan. um conteúdo de sentido que se pode adquirir. o corpo. de violenta perda de si. sempre fora de cena. É que numa análise não se sai de mãos abanando. Nestas formas paradigmáticas a paixão se apresenta em uma análise. em si. com um desapaixonamento? 4 . há um gozo da palavra que não se descarrega em afeto algum. escoando nas letras do corpo. fora do sentido é o que faz com que haja mais singularidade em uma cicatriz que em um rosto. nem o de que o analista se abstenha de colocar suas paixões a serviço do encontro analítico. signo com que o ferro do significante. então.20 Ele me distingue e define. É o rastro deixado pelos encontros com o Outro. Lacan acrescenta à lista a ignorância e na dança das três define a transferência. Este a-mais de vida. sob a condição. Com ela seguiremos até o desenlace do tratamento. mesmo que não me explique nada. Uma análise começa no momento em que se abre mão dos prazeres afetivos do semelhante em nome de algo mais. porém. ela seja tanto amor quanto ódio e ignorância. Não no que o termo assinala para o senso comum. o aqui e agora do corpo. pesar. quando passamos do amigo ao estranho. como conhecimento. trocar etc. sentido. que se presta à leitura. que porá em cena o além do mundo dos bens. O saber que nos interessa é o saber inconsciente no sentido que lhe dá Lacan com seu gosto pelos paradoxos: um saber que não se sabe. Como canta Chico Buarque em Eu te amo: “se nas travessuras das noites eternas já confundimos tanto nossas pernas diz com que pernas eu devo seguir?”. Se esse saber é fora do sentido e se o afeto é. nenhuma sabedoria. Não apenas o amor tem esse poder. que fica “fora de si”. do contrato à aposta. desapareça. em uma metáfora célebre de Lacan.18 Sabemos disso. É saber porque é letra. O essencial de uma análise caminha.16 Não é à toa que a psicanálise ganhou o mundo e segue firme e forte. No desespero desta condição encontramos o limite em que o “isso”. mais história em uma narrativa que em uma foto. o saber-traço é apenas trilho. por onde ele pode escoar sem ser tomado pelo sentido.Nos rastros do Outro. Cabe. a pergunta. Não poderemos demonstrá-lo aqui. no relato do sonho que em suas imagens. não qualquer um. marca seu gado.19 Entenda-se: “não se sabe” como conteúdo. fôrma que vem dar forma e continente ao gozo. de que o “eu”. o ódio também pode levar à dissolução subjetiva. A paixão confina. mas nunca é demais lembrar: um significante não é um significado. Do mesmo modo. A falta-a-ser do sujeito. como o que designamos acima como traço. Não é apenas o fato de que. Enquanto o saber-conhecimento é universal. ainda desconhecido. é trocada pelo que Lacan chamou significante. mais vida nos significantes que no significado. e da emoção à paixão. então. a paixão insiste e se mostra capaz de nos fazer esquecer seu suporte e sentido. sem ser. portanto. ali. Mas sabe-se de outro modo. em seu extremo com o gozo. com relação ao afeto. É que seu trabalho é conduzido pela paixão.17 Saber (e psiu) Mas o destino dado à paixão em uma análise é ainda mais específico. porém. o algo mais que sustenta a paixão. Além dele.

reluz. quando “. no máximo. voltar outras vezes. pois apenas aquilo que faz sentido para além de uma vivência singular... Não há como reconhecê-lo pelas formas pré-definidas dos sentimentos da cultura. quando o traço muda de estatuto e passa de pista a marca marco do surgimento de um “é isso” no lugar do “talvez não seja bem assim” de sempre. aqui. É a esta purificação que se refere Lacan. nem exatamente alegria. chegando a sugerir que os seguros-saúde cobrem dos analisantes uma tarifa reduzida. No entanto. o analista em último termo.Se na análise revive-se.21 Ética (e dizer) A este psiu de luz que acompanha os traçados de uma análise. No mais das vezes sem começo nem fim. mesmo sem cerimônia. Talvez por isso apresente-se mais do que o habitual. é uma função que. Pode ser intenso ou extremamente discreto. Por outro. nem mesmo. É apenas o tanto de libido que retorna quando nos liberamos do sentido. como num cinema. ou do psiu de luz de Guimarães Rosa. apesar de sustentada por alguém de carne e osso não 5 . um vaga-lume lanterneiro risca um psiu de luz”. aquilo que do acontecimento resta não convertido em afeto. „se não há entusiasmo houve análise. E mais: “analista”. não está no Outro da significação. nem paixão.23 No entanto. então. São nomes e cores no limite do sentido e que por isso mesmo nos libertam dos afetos associados ao drama de partida. É um modo de materializar pelo absurdo este mais de vida que não tem lugar no campo do sentido. Miller. por exemplo. como demonstrou recentemente J. da guerra quotidiana com o chefe às agruras da infância sob o jugo de um pai autoritário até se chegar a um traço repetido que as várias cenas desse jugo vão cristalizando. levando Lacan a propor que se estude o fato de que pouco se adoeça em análise. duplo. escreve Lacan em uma célebre formulação de sua “Nota Italiana”. que faz parte da experiência compartilhada. Lacan chamou entusiasmo. este revival está a serviço de uma redução que extrai da grande epopéia de uma vida suas coordenadas essenciais. não há como aprisionar o entusiasmo lacaniano em um registro afetivo específico. onde o romance se torna hai-cai. mas não analista‟. Por um lado. O processo é. Por isso mesmo. a transferência. Passa-se. nos visita sem dizer quando se vai.A. A.22 Não é emoção. Como se vincula a um não-sentido.24 É preciso ter em mente que o entusiasmo a que se refere Lacan nesta passagem é justamente o de uma passagem. a faca no pão vêm dissolver a névoa nostálgica em que se via emaranhado o sujeito. A tristeza das manhãs de silêncio ao lado do pai recém-divorciado perde o lugar quando o que se retém da vida melancólica desses momentos não tem em si nenhum sentido dramático. Um elã não é nada que se possa conhecer ou controlar. o excesso ganha a forma de afeto. Um modo de girar as chaves. Miller. os momentos cruciais de uma vida. Sabemos apenas que. felicidade ou animação. ou euforia. de que não poderemos tratar aqui) se situa no limite do campo afetivo. O entusiasmo em uma análise não tem mais essência do que esse esp de um laps. Foi o que engendrou em nosso meio o estereótipo do analista-entusiasmado. muito pertinentemente criticado por J. Ela acompanha o que se passa no plano da narrativa. como diz Lacan. não poderia ser um estado duradouro do ser. não tem como durar. Mas tem endereço. pois (assim como a angústia. um pigarro. se inscreve na duração. Um termo para traduzi-lo seria elã. naquilo que a cultura costuma chamar de entusiasmo. não tem como se prolongar e que pode.

Quando deixamos de buscar o segredo. É uma mudança. sempre além. que sempre tem consequências. a ética. Tornadas letras. aqui. mas o Outro mantinha-se sempre o mesmo. sem necessariamente definição prévia de valores. enfim. segundo Lacan. que faz da moral o conjunto das prescrições de conduta admitidas em uma época ou espaço coletivo determinado e da ética uma reflexão sobre a ação. tomada de posição. não há o agir puro. mas também leveza . ou endossá-lo. a cada dizer. pois só existe no átimo em que se inscreve em um dizer. Fazê-la. Lacan abre seu seminário sobre a ética da psicanálise com esta distinção. tudo muda. agora. aqui.feito de destituição e perda. Acrescente-se que isso não é trabalho realizado no céu das ideias sem relação com a vida prática. Em vez da analogia ou da fisiologia. para o sujeito. da seguinte maneira: o entusiasmo é o nome de um elã . A ação está embutida no próprio pensamento ético ou. São. não porque perdemos a fé na busca. descobre-se que elas sempre estiveram do nosso lado e não com o analista.que acompanha cada passagem da função analista para o lado do analisante. caber na vida que se leva é a exigência que preside o dispositivo analítico. mesmo quando não consciente. tudo o que se faz ganha inevitavelmente significado. uma nova relação com nossas ações. quando rastros tornam-se apenas balizas. Apesar de estabelecida pela travessia analítica. 6 . Ética e moral não serão. com seus efeitos sobre o corpo que Lacan assinala com o termo entusiasmo e não algum estado afetivo específico. renovavam-se e multiplicavam-se. em que só há ações narradas. Por isso são relativamente fixas. Basta lembrar que essa escrita não é fixa. mas sim no próprio segredo. Uma vez que toda ação humana se situa em um contexto simbólico. para reformulá-lo. há ação nos dois lados da definição de ética. nesta função. um “retorno ao sentido da ação”. treinados a tachar de obscurantismo tudo o que não se possa colocar em números. A promoção da ética em detrimento da moral é sustentada pela própria experiência analítica que em muitos aspectos é. renegálo. mas seu Outro a cada encontro é outro. retorno ao significado do que fez o Outro conosco e do que com isto fizemos. especialmente para ouvidos como os nossos. já como ação. Primeiramente é preciso definir que jamais tomaremos o termo no sentido habitual de código de conduta. Nossa relação com a alteridade se modifica. mais ainda no contexto de uma análise. um saber-fazer com o que se pôde escrever de seu gozo. Ao privilegiar a paixão em lugar da emoção.25 O elã se desprende da relação com o analista e passa a habitar o uso destes marcos.26 Talvez seja isso o segredo do que Lacan chamou estilo. é outra. Toda definição sobre o sentido de uma ação será ainda mais decisão. O termo é de manuseio tão delicado. As pistas imperavam. que precisarei de uma pequena introdução para justificá-lo. Uma reflexão sobre nossa ação deve ser entendida. modo singular de soletrar o que pode haver de encontro com os que cruzam nosso caminho. portanto. sinônimos. A afirmação lacaniana pode ser lida. pois é refratada pelo Outro a quem se dirige. Lacan introduz uma nova ferramenta para o analista com relação aos afetos. como diz Lacan.se confunde com ele. para que seja possível. no entanto.

7 . como parâmetro de nossa ação se ele é fora do sentido? Como nomear o que não tem nome como guia a não ser mergulhando nas profundezas do místico? É o que torna claro o entusiasmo. levando a tirada lacaniana segundo a qual se deveria estudar o fato de que pouco se adoeça em análise. ou. Prova maior de que não há como tomar este elã como matéria-prima de nossa ação. por isso foi parasitar. morada daquilo que no indivíduo resiste a seu papel de transmissor do gérmen e exige um lugar para si no mundo. É exatamente o que Aristóteles. que carrega o que em nós mais vibra e que. É necessário deslocar o foco dessa moral quotidiana para a reflexão ética por mais uma razão. É esse monstruoso da pulsão que devemos acrescentar ao que vimos nomeando como singularidade e que surge. quando era a princípio monstruoso tudo que do campo da sexualidade excedia o espaço matrimonial e da reprodução. neste grande campo. pernas e mãos se confundem. mas sua radicalidade é a mesma. a cena da consciência.Espera-se de um psicanalista que ele seja um homem de bem. O sexual. talvez fosse mais fácil perceber a posição extremada da psicanálise. é que só pelo absurdo materializa-se este mais de vida que não tem lugar na vida que se leva. o campo do eu. no sentido freudiano. leva à perdição do que em nós é comunidade. Os tempos mudaram. paradigma para Lacan do conjunto de regras de conduta articuladas ao campo egóico. Admitir que todos temos esqueletos no armário não é a verdadeira novidade. Talvez por isso apresente-se mais do que o habitual. O revolucionário na prática freudiana é que a morada de nossos monstros seja necessariamente o campo da sexualidade. Pode ser insignificante ou terrível. apanágio do eu e do coletivo. Monstruoso? O termo precisa ser situado. posto que efeito secundário incalculável. Somos. sempre um eu. espaço de diferença absoluta. sempre marcada pela violência de um desejo. já uma análise lida “no primeiro plano” com “um campo muito grande do que para nós constitui o corpo de desejos sexuais” em seus aspectos menos confessáveis. Bem-dizer Existe uma ética da psicanálise? Já que ela é uma erotologia. No sexo. mas em cada caso será aquilo que não se tem como “assumir” por ser incompatível com o ego e que. de longe a mais importante: uma análise se desenrola lidando necessariamente com coisas amorais. pronto a interagir alegremente no mundo. Vai contra as regras de vida do individual e força o eu no sentido de sua dissolução. e um isso. o analista em última instância. a partir do inconsciente. coloca “literalmente. sua ética seria a do desejo? Ora. em uma análise. não tem mais essência do que um psiu de luz. sempre carrega consigo violência e morte. como diz Lacan “fora do campo da moral”. a serviço da raça e. bocas. não há relação. É o que indica Freud quando distingue. de um lado a reprodução. pois visa o que é melhor para o indivíduo dentro de uma comunidade. o gozo. como tomar o desejo. É bem verdade que tem endereço. por isso mesmo. não há mãos dadas. Ele. do outro. que seja honesto e que saiba o que é melhor para seu paciente. fora do campo da moral.” “dentro da dimensão das anomalias monstruosas”. dessa forma. Lacan chega a sugerir que os seguros-saúde cobrem dos analisantes uma tarifa reduzida. a transferência. ou a pulsão freudiana. pois sempre há algo monstruoso no desejo de cada um. em análise. A moral está necessariamente articulada ao consciente. Em tempos vitorianos.

neste contexto. O vigor dançarino de Dionísio e a alegria como paixão do que nos aumenta a potência de agir poderiam ser caminhos para nos aproximarmos do que Lacan parece indicar. Lacan nos lembra que nisso pode-se também rir. de provocar risos e escândalo e de exigir que a cada esquina estejamos à altura do que nos apaixona. no centro da ética psicanalítica. instaurar um discurso ideal. Assim entendo a ética lacaniana do bem-dizer. tal como Bandeira e seu fogão. Em lugar de erigir para nosso objetos “a” um sentido maior. dentro das coordenadas significantes de uma existência. E é bem porque é o dizer. da promoção de um fora do sentido etéreo. Esse trabalho de construção pode ser vivido com o sentido do divino. Bastou um divino detalhe. com a força do divino pode-se retroceder aos limites do sentido. a cena primária de suas coordenadas de gozo. mas apenas ao preço de um paradoxo. que significa “roubar”. afinal. A ética do bem-dizer não apenas delimita pecados. sem nele se “envisgar”. coloca o desejo. Enquanto o entusiasmo resvala em uma ética do elevamento. o gaio sçaber é. certamente. em referência a Nietzsche. que sempre insiste sem consistir. No extremo oposto da fixação de Dante no objeto de sua paixão. “espetar” e que se afina com o que J. definida por Lacan como gaio issaber [gay sçavoir]. bem próximo. Seguirei. então. do que estamos chamando de elã. quando em sua Divina Comédia se vê perdido). Não é dizer o Bem. apenas inaugura-se ali a possibilidade de uma responsabilidade nova. nossas vidas serão sempre habitadas por um excesso que não deixará jamais de surpreender. mas ao menos uma virtude. o gaio saber de Lacan nos afasta da divinização do vazio e nos põe os pés no chão por deixar evidente o nonsense do riso é impossível sem as palavras. da vergonha ou do horror. sublimatório. pronto para pegar alguma coisa em uma ação que Lacan caracteriza como piquer. não há como elevar-se acima dele. que dá ao desejo seu lugar. Nenhuma sabedoria se depreende deste traçado do Outro em nós. Com seu gaio saber. pois é ele que conta. do escândalo. Sabe-se que quando viu Beatriz. Nada de dizer o Bem e nem mesmo de dizer bem. outra via com o contra-exemplo que fornece de Dante. porém. uma única vez. mas também a Espinosa. 8 . Não é uma técnica. em “Televisão” encontra uma maneira de afastar o paradoxo ao deixar o desejo em segundo plano e definir a psicanálise como uma ética do bemdizer. como se houvesse cura para o irremediável da linguagem com relação ao real. apaixonou-se pelo resto da vida. Nem é tampouco dizer bem. pequenos monstros cheios de vida. Somos o que dizemos. Miller define como “senso da oportunidade”.Lacan. deixar-se fisgar pelo sentido. A. às raízes de pura contingência desses elementos significantes e construir com eles. É percorrer as arestas da vida. porém. um batimento de pálpebra para sua paixão durar nesse e noutros mundos (ela chega a aparecer no inferno para ajudá-lo. É dizer. segundo Lacan. Ele só pode ser parâmetro de nossa ação como uma “medida infinita”. ao final de seu seminário sobre a ética da psicanálise. um olhar. mas também “furar”. Dez anos depois. pois. buscando o melhor possível a cada vez na obrigação de ser o melhor sempre. instaurar o ideal no discurso.

caricata e reduzida. 132. ça rate]. Os sonhos balançam as certezas apoiadas no “pão-pão. Cf. É descarga que resolve um acúmulo de tensão. p. Mesmo em sua versão pastelão. 149. A ética da paixão. um Outro sempre fora do alcance. as formações do inconsciente exploradas por Freud . renovavam-se e multiplicavam-se. apenas letras. esta exigência descobre na raiz do sentimento a certeza de que a vida só se oferece espremida nas entrelinhas do viver. pois tornam-se o modo singular de soletrar os encontros com os que cruzam nosso caminho. não porque perdemos a fé na busca. 9 . O Seminário.Riso Estamos sempre às voltas com o grandioso e o ridículo de nossas ações e pretensões. que só desponta quando em nossas obras os vícios são coautores. Com ele. irônica satisfação com o fora de esquadro da existência. os significantes. p. Tornadas. O riso é inevitável.dos erros que cometemos ao absurdos de que somos capazes. agora. Imago. Rio de Janeiro. ela deve sua força a um triunfo. queijo-queijo” da realidade quotidiana por apresentar um real que. S. mas sim no próprio segredo. 620. S. Não me refiro à gargalhada que a comédia pode provocar. 50. vol.demonstram como somos capazes de viver algo mais. A surpresa é que. Uma análise aposta nas recomposições desta matéria-prima levadas às últimas consequências. V. 1 Cf. livro 20. Ele só é possível graças à liberdade com relação ao cristal da língua que caracteriza as formações do inconsciente. apenas mais afeito à matéria-prima da linguagem do que às abstrações cômicas que ela sustenta. constituindo. JZE. mas seu Outro é sempre outro. às vezes vale mais. mas pela argamassa invisível do discurso. p. São tributárias do que Freud chamou processo primário. o riso assinala como a paixão pode ser divertida. p. Rio de Janeiro. Elas são relativamente fixas. Quando deixamos de buscar o segredo. Finalmente. que economiza o drama e apenas se diverte. em nada primitivo. Os tropeços e seus fracassos nos guardam das curas e soluções onipotentes e conduzem ao estilo. mas todas conduziam ao mesmo culpado. e Vieira. Elas não são constituídas pelas significações que nos comovem. 51. a relação com a alteridade se modifica. mas invariavelmente tomada em um contexto épico. 36. 2 Freud. Já o riso de que fala Freud é o de um gozo liberado da epopeia. ça rit. 1900-1969 (no que segue. Lacan distribui este algo mais da experiência analítica na manifestação de algo que em nós sonha. Lacan. 2001 (referida no que segue como EP). nova paixão. Afora essa comédia humana básica. as coisas mudam de lugar. EP. sempre composta em grande colagem surrealista. M. ESB. Edição Standard Brasileira. mesmo ensandecido. quando rastros tornam-se apenas balizas. Fazer caber esta satisfação na vida que se leva é a exigência ética que preside o dispositivo analítico. da torta no rosto do chefe. Rio de Janeiro. XIX. de opressão e libertação. do nonsense com que flertamos aos chistes que nos dizem . A. quero concluir. JZE. As pistas imperavam. tb. levada a sério. ESB) vol. J. Freud. p. na prática. que ri e que fracassa [ça rêve. O elã se desprende da relação com o analista e passa a habitar o exercício destas balizas. 190.

mais recentemente. p. J. 6 Para os afetos como conversão. 1985. Só silhuetas de árvores. Salvador. Sobre a “catarse” cf. S. mas que pode sustentar um furo no conhecimento. 10 Esta definição incorpora o aspecto do movimento. p. A. p. J. ele destaca como a relação com o inconsciente se mantém. verbete “Catarse”). 14 Ibid. 26 Nesta passagem Lacan centra tanto sua definição de final da análise quanto do procedimento do passe. que aproximar o passe mais da transmissão de um dizer que de um dito e o aproxima mais do par enunciação/satisfação que enunciado/demonstração (cf. Miller. S. Nova Fronteira. “La passe entre enthousiasme et béatitude“. 305. Miller. VII. vol. 325). Miller. livro 10. Ibid. vol. A. p. JZE. p. 7 Lacan. Outros Escritos. e a ignorância pela insistência em tomar o rastro por pista e se enveredar na busca do saber a ponto de abandonar tudo o que se conhece (cf. 13 Lacan J. Cf. 314. 714 e EP. Rio de Janeiro. 11 Lacan. pode ter havido final de análise. JZE. p. Lacan. o “poder mágico” de serem ao mesmo tempo matéria e anti-matéria. L. 37). 20 Cf. Contra Capa. E. A. 17 Lacan J. p. Quarto. 309 e Escritos. p. p. 21 “Fechei-me no quarto. Ornicar? Vol. 9 Freud. p. 5 Os padrões de manifestação afetiva estão no Outro e não no real (cf. cit. 1984. vol. livro 20. 74. J. p. 298 e Miller. JZE. Rio de Janeiro. Op. J. Com esta formulação. 629 e EP. ESB. “Coisas de Fineza”. Pela janela aberta entrava um cheiro de mato misantropo. n. Escritos. A. como oposto ao temor e à piedade (cf. Lacan. Rio de Janeiro. enfatizado por Lacan quanto à emoção no Seminário 10 e permite distingui-la da paixão. não necessariamente como o que defino aqui como “elã”. 38). J. p. 2008. 253). Lacan. p. O Seminário. livro 7. 156 e Lacan. p. p. mas analista. J. XX. 160. J. O Seminário Livro 7. concha sem pérola. pela exigência de eliminar a todo preço o detalhe insuportável. A. tb. ESB. livro 10. Escritos. ECF. A. Lacan. JZE. Lacan. que ela seja o desapego (cf. Note sur La dépression em psychanalyse”. XIV. p. “Identificação” é utilizado aqui no sentido de que se serve Freud para definir a identificação no teatro (cf. algo concreto. Lacan J. 315. Outros Escritos. O Seminário. O Seminário. O osso de uma análise. 287 e EP. Rio de Janeiro. J. Sigo. p. 313). vol. J. Destaca-se a importância da crítica de J. cuja forma mais matematizada é a notação “Sq” (Cf. EBP-BA. 19 É um significante que responde à paixão da transferência. Debrucei-me. Ibid. Paris. Lacan. p. JZE. Cf. Vieira. Rio de Janeiro. A. Rio de Janeiro. J. 2005. 59 e seguintes. Para a definição do temor e da piedade cf. 306). O Seminário. 297 e tb. p. é bem possível que tenha havido análise. p. p. 627). S. Miller. como veremos no que segue (cf.. “La belle inertie. ESB. XIV. 316. como estado. 86). 12 Ferry. 15 Ibid. ainda Laurent. 8 Ibid. Rio de Janeiro. 2010. J. “Minha gente”.3 4 Freud. 203-206. J. Lacan. Miller. 111. 32. p. sem chance. O Seminário. Cf. lição de 19/11/2008). Assim entendo a recente crítica de J. ao entusiasmo. S. ele opõe o entusiasmo. p. op. livro 1. Luc. 24 “Se ele não é levado ao entusiasmo. S. p. Esta é uma orientação totalmente decisiva” (Miller. p. O Seminário. p. 1998. J. 20). J. lição de 26/11/2008). ESB. Miller.. “Lacan empenha todos seus esforços em distingui-los [emoção e afeto] e desloca o afeto em direção à paixão. 225). retoma esta viragem como o prosseguimento da análise só que agora sem o analista. 2009. Para o “saber que não se sabe” cf. cit. Difel. 75. Rio de Janeiro. S. apropriado pelo analisante. EP. 297. Sagarana. Enquanto uma é movimento com relação ao Outro tomado como totalidade a outra não (Cf. 223. Se algum estado afetivo deve designar o exercício da psicanálise. Freud. nenhuma chance” (Lacan. 211). livro 1. o animal e o homem. 97. Miller ao estereótipo do “analista entusiasmado”. J. 316 e EP. Noite sem lua. Miller. ao essencial de uma análise. J. 129. como “acessos histéricos fixados na espécie”. p. A orientação Lacaniana. 161 e 232. O Seminário. livro 7. Rio de Janeiro. M. 22 Freud. 2001. se este relato não transmite uma satisfação com relação ao inconsciente. 1988. pp. aqui. Contra Capa. VII. p. A. 1988. Freud. As paixões do Ser. Restos.. lição de 19/2/68 e Cottet. Ibid. vol. JZE. pelo sonho de fusão na entrega do que se tem e do que não se tem ao amado. A. 1986. ESB. A. tendo como Outro a Escola de Lacan. O Seminário. J. o ódio. 142. apud EP. Parafraseando Lacan. 297. 16 O amor. 25 O passe é produzir uma leitura desse grão de escrita. O Seminário. 31. “Sobre os afetos na experiência analítica”. 18 As palavras têm. inédito. “Est-ce passe?” La Cause Freudienne. Ali. A. 1998. 10 . p. vol. 297 e Miller. 23 Lacan. p. livro 15 inédito. pp. que riscou um psiu de luz” (Rosa. A Nova ordem ecológica: a árvore. E um vaga-lume lanterneiro. J. livro 7. J. precisamente a paixão da alma. S. 1998. 106. apenas não mais a partir da relação com a pessoa que até então havia sustentado para o analisante a função analista (cf. Freud. XIV. Lacan. p. p. nos termos de Freud. J. mas AE. Rio de Janeiro. ESB. p. Guimarães. p. J.

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