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ATRAVÉS DE ALICE – E O QUE ENCONTRAMOS POR LÁ
THROUGH ALICE – AND WHAT WE FOUND THERE “If I cannot deflect the will of Heaven, I shall move Hell”.
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Evelize Dalla Costa2 Gustavo Capobianco Volaco3 RESUMO O presente trabalho foi realizado graças ao desejo de demonstrar de uma forma clara como se dá a formação e significação de um sonho. Para tanto, buscamos na arte literária de Carroll elementos que representem o sonho, e para demonstrar esta articulação, escolhemos a teoria psicanalítica dos sonhos como a principal âncora na qual este trabalho se sustenta. As obras escolhidas para ilustrar este processo, foram Alice no País das Maravilhas e Alice no País do Espelho, ambas escritas por Lewis Carroll. Por tratar-se de uma pesquisa inteiramente bibliográfica, o método para construir esta outra articulação foi a análise de discurso, uma vez que tomamos as obras de Carroll enquanto elaboração de uma linguagem onírica, cuja melhor compreensão foi proporcionada pela inserção de um estudo linguístico embasado por Ferdinand F. De Saussure, estabelecendo relação com a teoria Lacaniana de que o inconsciente se estrutura como uma linguagem. Palavras-chave: Lewis Carroll, Psicanálise, Sonho

ABSTRACT This work was accomplished due to the wish of clarifying the process of formation and signification of a dream. To do so, we seek in the literary art of Lewis Carroll, elements able to represent a dream, and to demonstrate this articulation; we chose the Psychoanalytic theory of the dreams as the main anchor in which this work sustains itself. The chosen masterpieces to illustrate this process were Alice in Wonderland and Alice Through the Looking Glass, both written by Lewis Carroll. As this is entirely a bibliographic research, the method to build this other articulation was discourse analysis, for here, we take Carroll‟s masterpiece as an oneiric language, which better comprehension was provided by inserting a linguistic study embased by Ferdinand F. De Saussure, establishing relation with Lacan‟s theory that the unconscious is structured like a language. Keywords: Lewis Carroll, Psychoanalysis, Dream.

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FREUD, 1987, pg. 17 – “Se não posso dobrar os poderes supremos, moverei as regiões infernais.” Acadêmica da 10ª fase do Curso de Psicologia, do Centro Universitário Catarinense UNIVESC. Email para contato: uke.ish@gmail.com 3 Psicanalista; Graduado em Psicologia pela PUC-Pr; Pós-graduado em Literatura Brasileira e História Nacional pela UTFRP; Mestre em Letras na UFPR. Ex-membro da Biblioteca Freudiana de Curitiba Centro de trabalho em Psicanálise; Analista Membro Fundador da LETRA - Associação de Psicanálise; Membro fundador da Noutravia - clínica de psicanálise. E-mail para contato: gustavovolaco@hotmail.com

Por tratar-se de uma discussão oriunda de duas fontes cujo conteúdo é originalmente publicado em livros. Outras vezes. FREUD. conseguimos recordar destas imagens. embora quanto maior o esforço que fazemos.. conforme queremos demonstrar.” 4 capazes de nos perturbar profundamente e nem sabemos por quê. Para embasar esta pesquisa.. Algumas vezes a memória do sonho se vai. Para tal. . este trabalho se constitui no campo do método. como uma pesquisa bibliográfica. chamar nossa atenção a sua complexidade – através de uma forma ainda mais pictórica que o mundo onírico. Lewis. escolhemos a dedo certos autores que contribuíram grandemente para o estudo do onirismo e sua relação com o ser humano – relação esta de grande intimidade. pg. 1991. "Alice ficou olhando pensativamente para o cogumelo durante um minuto. como o cogumelo era exatamente redondo. “O estranho é aquilo que nos é mais familiar”. e fica alguma coisa – alguma marca – angústia. Rio de Janeiro: Imago. 6 GIL. Alice no país das maravilhas. Sonhamos com coisas tão absurdas que é difícil crer que fomos nós mesmos que as “criamos” de fato e deixa a pergunta: o que é Isso que. 48. achou que se tratava de uma questão difícil. faremos uso da teoria 4 5 O que é um sonho. Down The Rabbit Hole. Sigmund.. menos tudo parece se encaixar ou fazer o menor sentido. 1986.2 DESCENDO PELA TOCA DO COELHO. tristeza. pois é desenvolvida a partir de material já elaborado e coloca este tipo de pesquisa dentro do campo de pesquisas exploratórias. nossa mente é tomada por imagens confusas que causam sensações tão reais quanto o calor do cobertor que roça em nossa pele e são CARROLL. O Estranho. dúvida. L&PM Pocket. E.. sendo nós mesmos nos causa tanta estranheza5 a ponto de negarmos em vigília sua vigência imperativa? Este trabalho se anuncia enquanto uma tentativa de elucidar nossos sonhos – e por que não. com vistas a torná-lo mais explícito ou a construir hipóteses. segundo Gil6. desejo. que tem como objetivo proporcionar maior familiaridade com o problema. tentando descobrir quais eram os seus dois lados. afinal? Como é um sonho? Sabemos que durante a noite enquanto dormimos. Porto Alegre. 2010.

gente comum. Sigmund. e de que forma isso se relaciona diretamente com o “autor” do sonho. mas principalmente . Jorge Zahar. os sonhos. E. merecedoras da lembrança: “Os escritores (. 2 ed. Terá maior enfoque a teoria de Sigmund Freud sobre o inconsciente e sua via régia. no original. símbolos. para então entrar em cena o psicanalista francês Jacques Lacan. no original. 7 8 Do alemão. . por fim – e a todo momento – mas-nem-um-pouco-menos-importante. estas. Jacques. tal qual o fez Lacan.) costumam conhecer toda uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais a nossa filosofia ainda não nos deixou sonhar. Inconsciente. no conhecimento da mente. beberemos na fonte inesgotável da teoria do linguista Ferdinand de Saussure que nos introduzirá ao tema de fato deste trabalho. como isto “se produz”. elementos que estão presentes nos sonhos. já que nutrem em fontes qual ainda não tornamos acessíveis à ciência. ainda pelo viés da linguagem. para compreendermos um pouco mais sobre a língua e seus signos. escolhemos Lewis Carroll como o autor das obras de arte que irão contracenar com os mecanismos do sonho aqui apresentados: Alice no País das Maravilhas 9 e Alice no País dos Espelhos 10 . 10 Alice Through the Looking-Glass. Fez-se necessário um estudo sobre lingüística principalmente se levarmos em conta o aforismo lacaniano tantas vezes repetido “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”8. p. 2008. que nos possibilitará um retorno à psicanálise.e é essa nossa questão principal. Estão bem diante de nós. 18.. significados e significantes. O seminário. livro 11: os quatro conceitos fundamentais de psicanálise (1964).3 psicanalítica dos sonhos e apresentaremos seus pontos de vista sobre os mesmos. Rio de Janeiro: Imago.. 9 Alice in Wonderland. 1986.”11 Nada mais justo: onde a maioria dos mortais insiste no fracasso do recalque os artistas fazem operar o sublime. LACAN. Rio de Janeiro. 11 FREUD. Sonhos e delírios na gradiva de jensen. Por isto. que não são senão uma formação deste Unbewusst7.

e ao sabor da imaginação. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. das palavras e dos significados. disse o Gato. 2010. será provavelmente. 1987.o processo de recalcamento. completamente indiferentes à nossa lógica consciente e supostamente hegemônica. A interpretação dos Sonhos (I). É costumeiro constatar como a maioria das pessoas não dará muita importância aos seus sonhos se estes não lhes possibilitarem um vislumbre profético de alguma forma. – Então não importa que caminho você vai tomar.. disse Alice.. Mas. como teria um conto de fadas. descartada . FREUD. que possibilita ao leitor perder-se num mundo que parece alheio de qualquer regra. que caminho devo tomar para sair daqui? – Isso depende bastante de onde você quer chegar. à deriva . Alice no País das CARROLL. principalmente. pg 86. Não é um conto de fadas. por favor. . haverá um jogo de palavras incoerentes ou ao menos uma sentença que pede para ser decifrada. como teria uma fábula infantil. Se caminhar bastante. e construído com uma linguagem única.4 UM CHÁ MUITO LOUCO A Mad Tea Party “– Poderia me dizer. Arriscamo-nos inclusive a dizer que não é apenas uma fábula infantil – embora tenha sido escrita para crianças. Sigmund. tem algo de humano – não no sentido humanitário da palavra. e algo de cômico. Onde quer que você leia algo que foi assinado por Lewis Carroll.. O mundo de Alice dança no ritmo de um sonho – tudo toma forma e se despedaça diante de nossos olhos. repleto de “fantásticos absurdos” 13 . que nos referimos acima. mas algo que é próprio ao ser humano – o Sonho. – O lugar não me importa muito. Alice tem algo mais. tal qual faria um príncipe encantado. pois não há ninguém para salvar Alice da perturbação a qual este mundo novo lhe preenche. desde que eu chegue a algum lugar. Qualquer coisa mais absurda além disso. tal qual fez a protagonista das duas obras magnânimas do autor inglês.”12 Maravilhas e Alice no País dos Espelhos chamam muita atenção por seu cenário extremamente envolvente. pois certamente vai chegar a algum lugar. Algo de mágico. Talvez isto ocorra porque é assustador inclinar-se a 12 13 S eria impossível falar do criador de Alice no País das Maravilhas sem aventurarmo-nos pelo campo da língua. Imago: Rio de Janeiro..

já foram associadas ao mundo sobre-humano . Estes sonhos renegados e esquecidos são originados de algo que nos pertence. o nome de Sigmund Freud aparece entre os primeiros tópicos quando o assunto é sonho no geral. Em 1900. escapou de onde? Durante boa parte de sua existência. Diversos livros compostos de simbolismos e significados padrões foram escritos e intitulados de "O Significado dos Sonhos". 2008. portador de revelações míticas. Mas. precisas e perfeitas. e que isto segue uma ordem particular cujo único 14 LACAN. como se mantidos a salvo de nós mesmos. e ainda são utilizados por muitas pessoas. embaçando o pouco que escapou à censura para nosso alcance. pg 19 .justamente pela sensação aflitiva que este costuma deixar e prenunciados pelo tão comum “Durma Bem!”. Mas não que o sonho fala 14”. que se podia ler nele alguma coisa. quando pesquisamos em veículos de informação em massa. E este sentido “percebido” foi buscado através de diversos olhares. ainda que profundamente escondido. o homem tem tentado desvendar as imagens tantas vezes perturbadoras que lhe acometem durante o sono. também em vias de encontrar respostas nos sonhos . Assustador. lançou o livro A Interpretação dos Sonhos.5 olhar de perto para algo que é fruto de sua própria mente e sobre o qual não se tem “controle”. Um mundo de estranheza e desconhecimento para o homem. Existia também a crença de que os sonhos eram premonições e constituíam uma visão acerca do futuro ou de fatos obscuros ao olhar mortal. fenômeno este que se dá para todas as pessoas. mas quando Freud propõe uma articulação – uma lógica própria do sonho. enviado a ele pelos demônios e outras divindades da natureza. religioso ou clarividente.uma Outra Cena que foge ao nosso controle. “Tinha-se podido perceber que o sonho tem um sentido. O que há de tão aterrorizante no ato de dormir. todas escritas a fim de atribuir sem-tido àquilo que não o tem – seja ele de cunho sobrenatural. assim como de longe as estátuas gregas parecem tão simétricas. O sonho era uma porta para um além . E o quase inevitável oblívio vem antes que pudéssemos ao menos perceber o que repousa na superfície de nossos lampejos oníricos. causando impressões tão fortes que no percurso que data de nossa préhistória até os dias presentes.e sub-humano também. afinal? Mesmo hoje. Freud estudou grande parte da produção bibliográfica a respeito dos sonhos. mas basta aproximar-se para ver de perto as rachaduras e incongruências em sua estrutura. que causou grande repercussão por ser uma obra pioneira.

o que se esconde – reveste-se da máscara das imagens oníricas e nos abre as portas do inferno.) Como podem os sonhos aflitivos e os sonhos de angústia ser realizações de desejos? (. nosso segundo problema é: qual a origem da distorção onírica? 17 Freud também vai analisar seus próprios sonhos e de seus pacientes. O conteúdo do sonho. “A Interpretação dos Sonhos”. “sensações”... Freud levanta a seguinte questão: Não há dúvida de que existem sonhos cujo conteúdo manifesto é de natureza extremamente aflitiva. Freud postula logo inicialmente que. 17 Em alemão. auditivas e visuais que o sonho proporciona.) Por que é que os sonhos de conteúdo irrelevante. é quando surge a possibilidade de um novo olhar. que abordei exaustivamente. aquilo que se apresenta à margem e normalmente o que nossa memória consegue reter pela manhã.. sendo deturpados de sua “forma” original para um montante de imagens. as memórias sensoriais.... por exemplo. o sonho da injeção de Irma. todos eles acabam por lidar diretamente com seu conteúdo manifesto. que contrasta com o primeiro. por assim dizer. no qual os elementos do sonho que representam o verdadeiro desejo estão mascarados pela fachada do conteúdo manifesto. de modo algum. 17 FREUD. 152 . apesar de toda a riqueza em produção teórica acerca dos sonhos. Mas por que deveria ele precisar de qualquer interpretação? Por que não expressou diretamente o que queria dizer? À primeira vista. ou seja. e a interpretação mostrou-o como exemplo marcante da realização de um desejo. Não foi. E esta grande contribuição que a teoria Freudiana do sonho fez para este tema repercute grandemente mesmo após 100 anos desde seu lançamento. Se tentássemos ler esses caracteres segundo 15 16 FREUD. de natureza aflitiva. Mas terá alguém tentado interpretar esses sonhos? Revelar os pensamentos latentes que se encontram por trás deles? (. é expresso. mas sim no conteúdo latente. não expressam seu sentido sem disfarces? Tomemos. Em A Interpretação dos Sonhos. pg. numa escrita pictográfica cujos caracteres têm que ser individualmente transpostos para a linguagem dos pensamentos do sonho.6 padrão é não seguir um padrão. que mostram ser realizações de desejos. palavras. 1987. na tentativa de demonstrar como se dá esse processo de distorção. Assim. No quarto capítulo de A Interpretação dos Sonhos. Freud nos fala que o que contém o real significado do sonho não está no conteúdo manifesto. pois é justamente aquele que não “aparece”. como ele mesmo cunhou pela epígrafe 15 de sua Traumdeutung16. por outro lado. até mesmo. 1987. o sonho da injeção de Irma não dava nenhuma impressão de representar como realizado um desejo do sonhador. pg.

. a “monografia” do sonho também toca em dois assuntos: a parcialidade de meus estudos e o custo dispendioso de meus passatempos favoritos. pois é fácil de perceber como ele se dá. pg. 1987. partindo do que Freud nos traz. não são feitas com a intenção de serem entendidas. insuficiente e lacônico. pg. pg.. É possível descrever com clareza os detalhes do sonho se tentarmos assim que nos acordamos. é que o sonho tem uma linguagem própria.18 Ou seja..)Da mesma forma. a começar pelo mais notável deles. Freud aponta o que vai chamar de ponto nodal. pois não se apresenta completamente fiel aos pensamentos do sonho. embora seja muito difícil lembrar do sonho no restante do dia.. pois estas lacunas se tornam cada vez maiores ao passo que não fazemos uma organização acerca de seu conteúdo. é lícito dizer que as produções do trabalho do sonho. 270 FREUD.) (. 272 21 Idem acima.. ele não parece fazer muito sentido. Obviamente isto levanta a questão: qual o critério para que apenas determinados conteúdos consigam sua representação no sonho manifesto? Ao fazer uma segunda análise sobre o conteúdo latente do sonho sobre a Monografia de Botânica22. 1987. “Contudo. 275 . que nada mais é do que um centro para onde convergem diversos pensamentos do sonho. Este processo "lacunar" é o que Freud vai chamar de condensação21. Freud vai explicar dos mecanismos que causam tal distorção. apesar de toda essa ambigüidade. Por esta razão ele diz que a condensação se dá por omissão. Para ele convergiam numerosas cadeias de idéias(. seríamos claramente induzidos a erro.19”. pois apenas uma pequena minoria dos pensamentos dos sonhos será representada no conteúdo do sonho. pg.7 seu valor pictórico. Ao lembrarmos um sonho. que. Uso aqui a palavra "notável". pois é "curto. “(. 22 FREUD. a condensação. 1987. não apresentam a seus tradutores maior dificuldade do que as antigas inscrições hieroglíficas àqueles que procuram lê-las.)“botânica” era um ponto nodal sistemático no sonho. 18 19 FREUD. em geral. convém lembrar. não há possibilidade de uma interpretação do sonho que produza um significado fidedigno se partirmos diretamente daquilo que se destaca.. mas de forma incompleta e fragmentada. ou presumir que ele “diz” algo conforme se apresenta. em comparação com a gama e riqueza dos pensamentos oníricos20". O que se sabe. e não de acordo com sua relação simbólica. Para compreender como é que esta linguagem se articula. 1987. 325 20 FREUD.

uma pessoa. ou seja. costumamos encarar esse efeito como prova de que uma dose especialmente elevada de valor psíquico . pg. 23 FREUD. mas sim. 1987. No curso da formação de um sonho. no caso dos diferentes elementos dos pensamentos do sonho. diversos significados condensados em uma única representação. não se vestem de acordo com sua essência original. Freud23 diz: "Ao considerarmos um processo psíquico na vida normal e verificarmos que uma de suas várias representações integrantes foi destacada das demais e adquiriu um grau especial de nitidez na consciência. “A explicação desse fato fundamental também pode ser formulada de outra maneira: cada um dos elementos do conteúdo do sonho revelou ter sido “sobredeterminado” . A lacuna nada mais é do que um espaço vazio entre dois algos. também se aplica: não necessariamente o conteúdo latente vai sequer surgir ao palco. Mas agora descobrimos que. podem ser tratado como se tivessem um valor reduzido e seu lugar pode ser tomado. e usarão máscaras . que conseqüentemente os une. no sonho. pode-se "condensar" o termo condensação desta forma: os principais elementos que parecem dominar o palco de nossos sonhos manifestos. pois os pensamentos que convergiram. onde deveria existir outro algo. porque constituíam “pontos nodais” para os quais convergia um grande número de pensamentos do sonho." Novamente.jamais uma só – e que visam passar pelo porteiro que insiste em negá-los. fantasiar-se-ão. Invariavelmente. nem sempre os elementos que nos chamam atenção por seu conteúdo aparentemente importante são aqueles que deveríamos nos ater para fazer o trabalho de interpretação. Em suma. carregados como estão de um intenso interesse. e é por esta razão que determinado representante no sonho manifesto jamais terá apenas um significado. São os de valor aparentemente pequeno que contêm o pensamento do sonho.ter sido representado muitas vezes nos pensamentos do sonho. Nunca há qualquer dúvida quanto a quais dos elementos dos pensamentos do sonho têm o mais alto valor psíquico. 295 . O ponto nodal vai formar o representante no sonho manifesto. esses elementos essenciais. por outros elementos sobre cujo pequeno valor nos pensamentos do sonho não há nenhuma dúvida. uma palavra.8 Essa primeira investigação leva-nos a concluir que os elementos “botânica” e “monografia” penetraram no conteúdo do sonho porque possuíam inúmero s contatos com a maioria dos pensamentos do sonho. Quanto aos critérios de representação do sonho. porque tinham vários sentidos ligados à interpretação do sonho. Isto acontece mais ou menos como o processo lacunar. esse tipo de valor não persiste ou é desconsiderado no processo da formação do sonho. O inverso. como já disse Freud. seja ela um objeto.um grau particular de interesse – está ligada a essa representação predominante. encontram ligação com ele. tomamos ciência disso por julgamento direto.

Como vingança. ele não parece uma questão central no livro. embora ela olhasse para trás uma ou duas vezes. que faz seu début em Alice no País das Maravilhas. mas se fará presente diversas vezes. nunca mais vou voltar a esse lugar!”. 28 CARROLL. disse Alice muito confusa. as representações de pequeno valor dentro do sonho são aparentemente vazias. a Rainha o acusa de "matar o tempo" e o sentencia à decapitação. enquanto procurava seu caminho pela mata. agora que você me pergunta”. mas ele escapa. e usarão roupagens mais sofisticadas. assim como todos os outros que se fazem presente no País das Maravilhas. e nenhum dos outros dois27 deu a mínima para sua partida. Um Chá Muito Louco 25 . Na última vez que os viu. numa repetição inaudível apenas aos surdos.9 No entanto. disse o Chapeleiro. disse Alice. Chapeleiro e a Lebre de Março. Quando termina o primeiro verso. E é desta forma que saberemos quando um pequeno detalhe é relevante: no discurso do sujeito. Apesar disso. 25 26 27 "A MadTea-Party" Arganaz é o nome do rato que acompanha o Chapeleiro em seus chás. O Arganaz26 caiu imediatamente no sono. meio que esperando que eles a chamassem de volta. "Mad Hatter". O Chapeleiro é uma personagem que chama bastante atenção por seu ar arrogante e sem dúvidas. aparentemente insignificante. E isto se deve ao fato de que em um concerto proposto pela Rainha de Copas. extremamente maluco e desagradável. O Chapeleiro é um personagem. Alice fica furiosa com o Vendedor de Chapéus e deixa ao Chá sem mais nem menos. nem uma personagem que mereça destaque das outras. o Chapeleiro devia cantar uma canção. bem como ele prossegue com sua festa como se nada houvesse. e foi usada por ele para nomear esse personagem.. “Realmente. Essa grosseria foi demais para Alice. Algumas terão mais destaque. Mas dentro deste vazio. intitulado: Quem roubou as tortas? Em um julgamento organizado pela Rainha de Copas – que reina soberana 24 Do inglês.. “De qualquer modo. o Tempo os deixa preso às 18h para sempre. nem tanto.” “Então não devia dizer nada”. O Chapeleiro está sempre fora de sua casa com a Lebre-de-Março e o Arganaz bebendo chá. representados de maneiras diferentes. Às vezes os mesmos elementos. no capítulo VII. outras. A expressão inglesa "maluco como um chapeleiro" também precede a obra de Carroll. Usando como exemplo aqui o personagem Chapeleiro Maluco24. pg. “Foi o chá mais estúpido que já tomei em toda minha vida!” 28 Posteriormente o Chapeleiro só reaparece no penúltimo capítulo. “não acho que. como as lacunas. os dois estavam tentando enfiar o Arganaz dentro do bule de chá. ele vai aparecer vestido de farrapos. pois após uma longa discussão. Levantou-se muito desgostada e foi embora. 2010. 102 . hão de existir diversos elementos.

2010.. a pronúncia se diferencia se tomarmos o leste ou o oeste do atlântico. mas o Chapeleiro já tinha sumido. pg. suas grandes mãos se abriam para os lados. estudemos a palavra "Hatta": Hat significa. .. também. e essas são atitudes anglo-saxãs. 2010. Ora. cobrindo os olhos com uma das mãos.30” Um que vai. existem pequenas referências a ele durante todo o livro até que uma se descara das demais: no País dos Espelhos. No entanto. como se fossem dois leques. o Chapeleiro não participa durante toda a trama. o máximo que consigo fazer é ver gente de verdade.. Alice conversa com o Rei Branco quando este menciona dois mensageiros anglo-saxões: Dê uma olhadinha na estrada e me diga se pode ver algum deles voltando. ainda mais com essa luz! Todo este monólogo não teve o menor resultado.29 Ele consegue fugir. Majestade – respondeu Alice. o Chapeleiro é chamado a corte para servir de testemunha. também em ambos. uma vez que Alice estava olhando atentamente para a estrada. é chapeleiro. enquanto se aproximava. mas ao prestarmos atenção aos filigramas que formam o texto. tanto no inglês americano quanto britânico. sem nem sequer esperar para calçar os sapatos.. (Ele pronunciou o nome de modo a rimar com maia. acrescentou a Rainha a um do s oficiais. "Hatter" se pronuncia [hat-er]. e não mais aparece em Alice no País das Maravilhas. O que Vai se chama Hatta. finalmente. percebe? Para levar e trazer.) – O nome do outro Mensageiro é Hatta. porque assim ela quis: “Pode se retirar”.10 no País das Maravilhas – para acusar alguém de ter roubado suas tortas. e um que volta. Ele dá seu depoimento. Enquanto um leva. O outro mensageiro 29 30 CARROLL. – Mas ele está vindo muito devagar. Ele só age desta maneira quando está feliz. é dispensado pelo Rei e sentenciado pela Rainha a perder sua cabeça. “. Preciso de dois. e o Chapeleiro deixou a corte apressadamente. 155 CARROLL. No segundo livro de Carroll. Seu nome é Haigha. quando o oficial conseguiu chegar até a porta. é justamente [hatt-a].e cortem a cabeça dele lá fora”. em um tom invejoso. – Ele é um mensageiro anglo-saxão.) (... Sabendo que Carroll é inglês. – Agora estou vendo alguém! – disse ela. pg. chapéu. 128. Portanto. disse o Rei. – Na estrada não há ninguém que eu possa ver. No inglês americano. se retorcia como uma enguia e. – Ser capaz de ver Ninguém! E a uma distância dessas. – Gostaria muito de ter uns olhos aguçados como os seus – observou o Rei. "Hatter".) – Não são nada engraçadas – disse o Rei. o outro traz. e está fazendo umas coisas muito engraçadas! (Porque o mensageiro pulava para cá e para lá. enquanto no britânico.

32 CARROLL. 2010. Me refiro aqui ao segundo trabalho do sonho. está presente em grande parte do texto de Lewis Carroll pseudônimo que por si só. 33 CARROLL.34”. Ele segurava uma xícara de chá na mão direita e uma fatia de pão com manteiga na esquerda. por meio deles. de um livro a outro e pelo advento próprio ao significante. Logo em seguida. “Eles abriram caminho até perto do lugar em que Hatta. na medida em que. A única coisa que lhe deram para comer na cadeia foram cascas de ostras. condensação e deslocamento trabalham conjuntamente e dificilmente será possível observar suas ações isoladamente. faz menção à sua personagem no primeiro livro. “Os deslocamentos (. o outro Mensageiro. assim como o pão.possivelmente uma alusão à Lebre de Março que acompanhava o Chapeleiro nos seus chás em Alice no País das Maravilhas. e foram utilizados para facilitar a condensação. mas passaram pelo crivo de Carroll. pg. ainda que sutilmente. no entanto. Não é simples.33" Como citado anteriormente. pg. 131 34 FREUD. apreender a noção do deslocamento. Com isto percebe-se que houve um deslocamento desta personagem. Você pode perceber perfeitamente que ele está louco de sede. não levando em conta a distorção do nome. estava parado assistindo ao combate. nomeado por Freud desta forma e que. assim como a condensação. o Chapeleiro do primeiro livro não aparecera depois de ser perseguido pelos oficiais da Rainha.32” Apesar de o nome do Chapeleiro estar modificado. pg. 1987.) mostraram consistir na substituição de alguma representação particular por outra estreitamente associada a ela em algum aspecto. um único elemento intermediário comum a ambos penetra no sonho. 2010. chá e manteiga. 323 . e todos os elementos que vieram lhe fazer referência. 131. Haigha inclina-se para sussurrar no ouvido de Alice: "Ele acabou de ser solto da prisão. lembrando que os sonhos apresentam-se em cenas. fora encarceirado até o presente e solto recentemente. Em outras palavras. em vez de dois elementos. deixando a impressão de ser a mesma personagem. mesmo que haja uma preponderância de algum dos dois num contexto temporal – e isto é importante ressaltar. e não lhe deram tempo de terminar o seu chá quando foi preso. sua função mesma é uma fuga e nos escapa – tal qual o Chapeleiro 31 Todas as ilustrações de Alice no País das Maravilhas e Alice no País dos espelhos foram assinadas por Sir John Tenniel. condensa-se e desloca-se.. mas que passa despercebida num primeiro contato com o texto.11 chamado de "Haigha" é ilustrado31 no livro como uma lebre . Ao que tudo indica..

tal qual o trecho presente em Lã e Água. sentada em uma poltrona e tricotando. que de repente. examinando as prateleiras assim que seu olhar caía sobre elas. finalmente. menina? – indagou a Ovelha. com toda a gentileza. – Mas não pode olhar em toda a volta – a não ser que tenha olhos na parte de trás da cabeça. cada vez que ela olhava para qualquer prateleira a fim de ver exatamente o que havia nela. Estava no interior de uma lojinha escura. quinto capítulo de Alice no País dos Espelhos: “– Oh. Estava agora dentro de uma loja? E aquela criatura era realmente – era de fato – uma ovelha que estava sentada atrás do balcão? Por mais que ela esfregasse os olhos. se quiser – disse a Ovelha. – Muito me-lhor! Me-elhor! Mééé-lhor! Mééééé! – A última palavra terminou em um balido tão parecido com o de uma ovelha que Alice levou um tremendo susto. muito melhor! – gritou a Rainha. contentou-se em ir girando a cabeça. enquanto ela prosseguia. que aparentava muita idade. A loja parecia repleta de todo o tipo de coisas curiosas – mas o mais estranho era que. – Gostaria de dar uma olha em volta primeiro. finalmente. – As coisas aqui parecem flutuar! – disse ela. Bem. – O que você deseja comprar. e enfrente a ela havia uma Ovelha. com os cotovelos apoiados no balcão. tirando por um momento os olhos de seu tricô. – Eu ainda não sei ao certo – disse a menina. Alice esfregou as pálpebras e olhou de novo. depois de haver passado um minuto ou dois tentando inutilmente fixar o olhar em um objeto grande e brilhante. mas sei o que vou fazer – acrescentou. em um tom súplice. não conseguia modificar a cena que a rodeava. a prateleira em particular sempre estava totalmente vazia. se a senhora não se importar. assim. sendo que sempre se encontrava na prateleira logo acima daquela para a qual estava olhando. sua voz subindo até virar um guincho. – Vou seguir essa coisa até a prateleira que ficar mais em cima! Vai ser difícil ela conseguir passar através do forro! Pelo menos. parecia ter se enrolado em um novelo de lã. . quando um súbito pensamento passou-lhe pelo cérebro. – Você pode olhar para a frente e para os dois lados. Ela olhou para a Rainha. vemos que fugiu de nossa armadilha.. é o que acho. que algumas vezes parecia ser uma boneca e outras vezes tinha o aspecto de uma caixa de costura. ocorre que Alice ainda não tinha olhos nesse lugar e. – Essa coisa parece ser a mais provocativa de todas. Simplesmente.12 fugiu para disfarçar-se – e tão logo supomos tocar-lhe com os dedos. embora as outras ao redor estivessem tão apinhadas que nelas nada mais parecia caber. interrompendo o trabalho de vez em quando a fim e olhar para Alice através de um grande par de óculos grossos.. não podia entender o que havia acontecido.

2010. de pessoas. enquanto o resultado em outro caso pode ser o de um elemento isolado ter sua forma verbal substituída por outra37. pg 99. e que ela se revela numa mudança da expressão verbal dos pensamentos em causa. em geral. pg. novos valores. Assim sendo. coisas e afins.13 Entretanto. pois vem trazer à tona questionamentos acerca das palavras e sentenças ilógicas que Alice encontrou durante todo este tempo em sua jornada por estes países estranhos. e por essa razão tendem a se combinar exatamente do mesmo modo que as representações de coisas. "criando a partir de elementos de baixo valor psíquico. Era como se estivesse habituada a agir assim. 35 36 CARROLL. uma das personagens mais interessantes nos dois livros. num caso. que aparece vestida como um mensageiro. como se fossem coisas. e como resultado destes que se verifica a diferença entre o texto do conteúdo do sonho e os pensamentos do sonho36". e o resultado do deslocamento pode ser. contudo. “O trabalho de condensação nos sonhos é visto com máxima clareza ao lidar com palavras e nomes. pg. pg. 323 38 FREUD. Os sonhos desse tipo oferecem os mais divertidos e curiosos neologismos. 286 . A mudança do termo que se refere ao Chapeleiro é um bom exemplo de como se dá esse processo de deslocamento. há um deslocamento ao longo de uma cadeia de associações. a substituição de um elemento por outro. o deslocamento age pegando um elemento de intenso valor psíquico e destituindo-o dessa posição. 1987. 1987. que depois penetram no conteúdo do sonho. 1987. que existe uma outra espécie. FREUD. como é o caso da diferenciação na nomenclatura de uma nova personagem. “As análises nos mostram. mas leva um nome que faz referência ao que veio representar – O Chapeleiro Maluco.” 35 Também responsável pela distorção nos sonhos. que as palavras são freqüentemente tratadas. Em ambos os casos. 296 37 FREUD. É verdade. pois quando Freud menciona essa forma "pictórica" de representação ele não e refere apenas às imagens que emergem em nossos sonhos. 38” Outro exemplo da condensação de palavras em Alice no País do Espelho é a conversa que Alice tem com Humpty Dumpty. nos sonhos. até mesmo esse plano falhou: aquela „coisa‟ subiu através do forro e em direção ao telhado com a maior tranqüilidade. Isto também se trata de imagens sonoras. uma transferência e deslocamento de intensidade psíquicas no processo de formação do sonho. mas um processo de tal natureza pode ocorrer em várias esferas psíquicas.

escrita ou qualquer forma simbólica. um! A lâmina espessa Cortou navalhando sua espada vorpal! Deixou-lhe o cadáver e trouxe a cabeça. Surdiu farejando do bosque no meio: A gosma supura e a baba derrama! Um. 43" Podemos inclusive nos arriscar a dizer que. Pede a Humpty Dumpty que então explique a ela sobre significados das palavras que não conhece. ou seja.14 inclusive o sentido presente nas palavras valise 39 no texto de Carroll. Nota do Tradutor. meu filho valente! O fragor desse dia! O meu coração Em êxtase canta loução e contente! Era o Assador e os Sacalarxugos Elasticojentos no eirado giravam Miserágeis perfuravam os Esfregachugos E os verdes porcalhos ircasa arrobiavam. com olhos de chama. pg. Elástico é o mesmo que ativo. 33) 42 CARROLL. "elasticojento" é uma mistura de elástico com nojento.” (CARROLL. 2010. de onde podemos tirar diversos objetos não necessariamente relacionados – é que os sonhos contêm algo como um "sentido-valise". essa é uma palavra braquilógica. Prontamente. Você entende. em uma técnica chamada de nefelibatismo. O tagarelão. E assim. Em cismas imerso afinal descansou. ele responde: "Bem. dois! E dois. 2010. 33 43 CARROLL. meu filho. 40 Nonsense é uma forma de se comunicar pela fala. Voltou galufando em triunfo total! " Pois mataste destarte o Tagarelão? Vem dar-me um abraço. Pg. Cuidado. mas não admite ter entendido coisa nenhuma nele. "Jabberwocky41": “Era o Assador e os Sacalarxugos Elasticojentos no eirado giravam Miserágeis perfuravam os Esfregachugos E os verdes porcalhos ircasa arrobiavam. na qual interessa o som das palavras. como se fosse uma maleta em que você guarda ao mesmo tempo os artigos de toalete e uma muda de roupa íntima. 2010. ufichado em seu devaneio. o que se apresenta nos sonhos no que diz respeito às valises. configurando um novo sentido. pg. Observamos as tais palavras-valise no poema nonsense40 que recebeu o título “Tagarelão” na tradução de William Lagos.42‟ Alice elogia a beleza do texto. 116 39 . É como se desmembrássemos a representação do conteúdo manifesto do qual já mencionamos “Valise “ é uma pequena mala de mão. e não seu significado. Palavra-Valise é uma expressão para palavras que são derivadas de outras duas ou mais palavras. com o Tagarelão! Te morde com a boca e te prende com a garra! Escapa ao terrível Jujupassarão E foge ao frumoso e cruel Bandagarra! Cingiu à cintura sua espada vorpal E por longo tempo o manximigo buscou Da árvore Tumtum na sombra mortal. 41 “Lewis Carroll inventou uma série de palavras para esta poesia. Há dois significados empacotados em uma palavra só. na qual não há absolutamente nenhuma coerência e sentido. do original.

15 previamente. Ele trabalha o símbolo a expensas de seu significado. termos que correspondem a outras coisas – como é a pretensão dos dicionários. aquilo que se quer representar. de ordem simbólica. algumas pessoas definem a língua como um conjunto de nomenclaturas. podemos falar conosco ou recitar mentalmente um poema44”. 5 ed. se ignorarmos dezenas de fatores que complicam um pouco mais a definição do que chamamos de língua. esta. que usou os respectivos termos em sua própria teoria sobre linguística. ou seja. Sem movermos os lábios nem a língua. Lacan parte da teoria do lingüista Ferdinand de Saussure. para encontrarmos o pensamento do sonho. encontramos outra. rébus. composta de diversas palavras que remetem a outras coisas. A isto Saussure vai chamar de signo lingüístico e não é exatamente a junção de uma palavra com uma coisa. ainda que sensorialmente. Curso de linguística geral. utilizada como base para escrever sobre a metáfora e metonímia de Lacan. O sonho é uma produção inconsciente e também. mas o que encontramos é uma valise fechada. Quando a abrimos. a união destes dois forma o signo linguístico como faces de uma mesma moeda e. Saussure vai definir imagem acústica como uma impressão psíquica do som. feitas as necessárias modificações para tanto. enquanto a imagem acústica clama por algo a representar. Logo. A forma como essa linguagem do sonho se constrói é própria do inconsciente. Para Saussure. conforme citado por Saussure45. Pg. “O caráter psíquico de nossas imagens acústicas aparece claramente quando observamos nossa própria linguagem. 80 Idem acima. Quando fala sobre significante. O conceito é aquilo que carrega o significado. Saussure acabou substituindo estes termos por significado e significante. e assim por diante. Ela é de fato. No entanto. . e outra e mais outra. no que diz respeito à questão do sonho e daquilo que lhe faz menção. 44 45 Ferdinand de. uma imagem que se constitui no plano da forma. e palavras-valises. tratando-o como se fossem apenas significantes. São Paulo: Cultrix. através de enigmas. mas esta união da palavra com a coisa não se reduz a isso. pois o conceito precisa de uma unidade que se associe a ele em forma de uma representação. Como se sabe. “um reclama o outro”. mas de um conceito com uma imagem acústica. 1972. nos utilizaremos apenas do conceito de significado e significante. Não parece estar de todo errado. significado e signo. a linguística é um campo teórico e científico de infinitas ramificações no que diz respeito à língua e a linguagem.

81 SAUSSURE. vale ressaltar que “a própria arbitrariedade do signo põe a língua ao abrigo de toda tentativa que vise modificá-la. mas querem dizer a mesma coisa: mar. A massa. Mas como estes dois acabaram unindo-se para formar o signo. é que o sujeito não pode alterar o signo. Outro ponto que o autor coloca como fator determinante é a resistência da inércia da massa. pois ela “não deve dar a ideia de que o significado dependa da livre escolha do que fala. sea. 1972 pg. é a que oferece menos oportunidades às iniciativas. sendo naturalmente inerte. ou seja. As palavras diferem. 1972 pg. Esse fato capital basta para demonstrar a impossibilidade de uma revolução. A língua forma um todo com a vida da massa social e esta.16 respectivamente. que foi construída ao longo de muito tempo e da qual toda a massa faz uso constante. por diversas razões. pois a palavra não tem conexão com o conceito. É necessário. de todas as instituições sociais. colocar um porém nesta arbitrariedade.. Saussure coloca a língua como uma instituição social e faz uma analogia desta para com as outras instituições. aparece antes de tudo como um fator de conservação48. uma vez que esteja ele estabelecido num grupo linguístico47”. ainda que 46 47 SAUSSURE. “a idéia de „mar‟ não está ligada por relação alguma anterior à sequência de sons m-a-r que lhe serve de significante. pg. não está ao alcance do indivíduo trocar alguma coisa num signo. Em inglês. em francês. sempre teremos a língua como algo que herdamos de quem nos antecede. 81 48 SAUSSURE. Isto explica claramente a arbitrariedade que queremos demonstrar. “a língua sofre sem cessar a influência de todos.. cujas tradições impostas se dão livremente da ação da sociedade. pois não importa a época em que vivamos. mer. A forma como tudo que nos rodeia foi nomeado. no entanto. não importa qual46”. pois este grupo linguístico citado por Saussure. A língua é um sistema extremamente complexo e repleto de uma imensidão de signos. 1972. esta unidade mínima da língua? Uma das principais características do signo é sua arbitrariedade. 87 . Com isso entramos um pouco mais na questão de como os signos acabam se estabelecendo. mas algo que é concreto. poderia ser representada igualmente bem por outra sequência. nada mais é do que a própria cultura na qual a língua está inserida. quando acaba por formar um signo junto a ele. Prova disso é a própria existência de outras línguas. Justamente por ser algo o qual todas as pessoas fazem uso. sem arcar com suas conseqüências. é um ato impossível de ser comprovado. Mais do que isso. A língua. a não ser a posteriori.

seja capaz de dar expressão a mais de um dos pensamentos do sonho. há um sentido. para que uma coisa seja posta em questão. Há linguagem no inconsciente. Com isso entende-se que. 1979. 50 . ou até mesmo no trabalho de interpretar um sonho. mesmo sendo esta de difícil reconhecimento. descobrindo uma forma de palavras que. e há linguagem nos sonhos. que nos permite trocar por outros objetos de valor – neste caso monetário – correspondente. todo o campo do chiste verbal é posto à disposição do trabalho do sonho. enquanto depara-se com uma linguagem completamente nova e às avessas do que está habituado a “manipular”. o pedaço chapado de metal e formato circular que chamamos de moeda nada significaria. “Em alguns casos. o sujeito já está atribuindo significados a isso que é. E onde há linguagem. e isto só se dá pelo fato de que este signo existe dentro de um sistema de linguagem. significante. “Para determinar o valor de uma moeda de 5 francos.17 fosse mais consciente do que é. Dessa maneira. devido a sua ambigüidade. criando neologismos. Há linguagem no olhar. que lhe confere especificidade por sua oposição aos outros signos. no que é dito – e no não dito. por serem o ponto nodal de 49 50 Idem acima. é preciso saber primeiramente o que se pode trocar por esta moeda e que isso seja de natureza diferente. pg. Freud fala sobre um outro tipo de deslocamento que age diretamente na expressão verbal do sonho. age ao longo de uma cadeia de associações. ou seja. do qual falamos anteriormente. ainda que individualmente. não poderia discuti-la. Não há por que nos surpreendermos com o papel desempenhado pelas palavras na formação dos sonhos. por exemplo50”. se a ele não fosse atribuído um valor dentro deste sistema. tal qual seria em Alice no País das Maravilhas e tal qual seria num sonho. O ponto desta discussão é que em tudo que nos envolve há linguagem. ocasionando a substituição de um elemento por outro que tenha alguma ligação com o anterior. Desta forma. apud SAUSSURE. mesmo que ele aponte para todos os lugares e não saibamos para onde seguir. Outra questão que determina o signo enquanto parte desta linguagem é o “valor linguístico”. esse tipo de mudança de expressão ajuda a condensação onírica ainda mais diretamente. As palavras. LACAN. bem como sua posição dentro de uma frase. Embora isto seja verdade. seja pelo uso de novas gírias. ao tornar discurso estas “idéias” oníricas. Retomando A interpretação dos Sonhos. não o é de forma absoluta – o sujeito acaba modificando a língua. é necessário que se baseie numa norma razoável” 49. enquanto o primeiro tipo. há nos gestos. como pão. Pois. o valor do signo se dá pela relação com as outras palavras/significantes dentro deste sistema. por essência.

antes estranha e agora. Sonhar.Carroll nos desperta de nosso son(h)o dogmático de tudo saber e nos aponta o Real que não cessa nunca. e demandam uma interpretação que está oculta na polifonia do simbolismo onírico – esta. 324 Do alemão. nos rouba toda a possibilidade de totalidade. significante. em vigília. aquilo que no mais das vezes só em sonhos temos acesso? Isto que não se dá como uma estória. pois não raramente escutamos que o mundo dos sonhos pertence de fato. muitas vezes de difícil acesso. às crianças. irreconhecível. pg. Uma direção a qual seguir ou o significado das questões que não solucionamos. já tivesse modificadose. depois de conhecer dos sonhos. só a muito custo um significado. na estruturação de obsessões e fobias). jamais um enredo. essa linguagem que nos habita e nos articula a despeito de nossa vontade e que pode.18 numerosas representações. como se cada vez que lhe procurássemos no sentido antes encontrado. 1986. mas se estabelece enquanto uma significação contínua que não advém. É por esta razão que um sonho absurdo e sem sentido causa angústia. de não se inscrever. do que os habita e sua estrutura. o motivo de procurar a facilidade de um livro recheado de significados indexados por categoria do que buscá-la nos significantes do próprio sonho? Um sentido rápido e aliviador? E aqui. que escapa e foge de controle. Por fim. estruturalmente. construir Maravilhas se não sucumbimos ao recalque. fazendo menção ao filósofo Kant . sobretudo e para dizê-lo em poucas palavras.51” Estamos constantemente buscando por um sentido. de nosso delírio narcísico e egóico nos apontando que estamos impossibilitados de alcançar a completude de uma signoficação única. servem-se à vontade das vantagens assim oferecidas pelas palavras para fins de condensação e disfarce. Mas. podem ser consideradas como predestinadas à ambigüidade. tal qual Carroll. Seria esse então. e as neuroses (por exemplo. de olhos bem abertos. nos revela a verdade de que somos habitados pela linguagem que é. não se finda quando procuramos significados. ou seja. percebemos que aquilo que perturba no zum Träumen52 é o mesmo que perturba em Carroll – e talvez por isso ele leve a pecha de ser infantil. que por sua essência de nada dizer de forma cabal e pragmática. não menos do que os sonhos. impossibilitados de encontrarmos o sentido mas por procurá-lo achamos o sem-tido. jamais. . Não seria exatamente este ato de revelar – e desvelar. pois a impressão primeira que determinados sonhos nos deixam é repleta dela. uma vez que por ser de ordem simbólica o significado do sonho nos escapa. 51 52 FREUD. o non-sense fundamental que nos porta.

Sonhos e delírios na gradiva de jensen. 2010. São Paulo. LEMAIRE. CARROLL. LACAN. uma biografia. Sigmund (1987 – 1901) A interpretação dos Sonhos (I). São Paulo: Cultrix. Imago: Rio de Janeiro. 2008. Atlas. FREUD. LAKATOS. Ferdinand de. L&PM Pocket. Porto Alegre. São Paulo. L&PM Pocket. Rio de Janeiro: Imago. Antônio Carlos (1946) Como elaborar projetos de pesquisa. 3 ed. Lewis (1832 – 1898) Alice no país do espelho. 5 ed. 2010. 2 ed. FREUD. Jorge Zahar. 1998. Lewis carroll. 1987. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Campus. Jacques lacan: uma introdução. Record. Morton. 1986. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud.19 REFERÊNCIAS FREUD. . 1979. Curso de linguística geral.1981) O seminário. GIL. Sigmund. Eva Maria. 1987. 1991. 5 ed. COHEN. Rio de Janeiro. 2003. Atlas. Rio de Janeiro. SAUSSURE. CARROLL. Jacques (1901 . Porto Alegre. Sigmund (1987 – 1901) A interpretação dos Sonhos (II) e Sobre os Sonhos. Anika. livro 11: os quatro conceitos fundamentais de psicanálise (1964). Lewis (1832 – 1898) Alice no país das maravilhas. 1972. Fundamentos de metodologia científica. Imago: Rio de Janeiro.

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