HUMANIZAÇÃO DOS NEGÓCIOS/DESTAQUE-2

As empresas vivem
Economista, advogado e mestre em administração de empresas pela Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Jair Moggi fez ainda especialização em recursos humanos e administração financeira na Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas em São Paulo (FGVEAESP), gestão estratégica no Insead –European Institute of Business Administration, de Fontainebleau, França, e solução criativa de problemas na University of New York. Tem mais de 30 anos de experiência profissional. Ex-professor dos cursos de graduação da FEA, é diretor da Adigo Consultores, de São Paulo, atua há 18 anos como consultor e facilitador de empresas em processos de planejamento estratégico, sucessão/ profissionalização, transformação, ética empresarial, sustentabilidade, responsabilidade social, gestão empreendedora, liderança, coaching, conflitos e recursos humanos. É professor do MBA da FEA e autor de vários livros sobre o assunto, além de membro da Creative Education Foundation, sediada em Buffalo, nos EUA, da World Future Society, de Nova York; da Sociedade Antroposófica Universal, localizada em Dornach, Suíça; e da ASD-Association for Social Development, sediada em Zeist, Holanda.

Se a sua parece não respirar, revitalize-a: basta que pessoas e grupos descubram e incorporem conceitos arquetípicos ao seu jeito de ser e à sua atuação –e, portanto, ao seu processo de gestão. Esse é o segredo dos deuses. Por Jair Moggi
s empresas são organismos vivos por excelência. Em primeiro lugar, porque, sendo uma criação do ser humano –o ser vivo que é a obra-prima da natureza, podemos dizer–, têm com ele uma ligação ontológica, ou seja, a criatura divide aspectos comuns com o criador. Antes de existir de fato, uma empresa já existe imaterialmente, na mente de uma pessoa ou de um grupo de pessoas que têm como intenção um projeto, um ideal, uma idéia, um desejo ou um sonho. É como se fosse uma gravidez. É preciso lembrar que o que precede uma gravidez é muita emoção, como característica básica do ser humano vivo. Normalmente é o empresário que se “engravida” dessa idéia e ou engravida/seduz outras pessoas como futuros sócios, financiadores, clientes, fornecedores, familiares, amigos etc. A gravidez pode ser emulada por uma necessidade de mercado, o desejo de fazer algo diferente, a vontade de ganhar dinheiro prestando um serviço ou criando um produto para atender a uma necessidade humana específica –às vezes, até inconsciente. Em algum momento “dessa gravidez”, as dores do parto se fazem fortes e algo é parido no mundo. Qual é a primeira providência dos pais quando nasce uma criança? É ir ao cartório –à Junta Comercial, no caso– e registrar esse ser que o Direito Civil Romano, já há 2 mil anos, chama de “pessoa jurídica”. Na Junta Comercial, os pais têm de declarar o nome do novo ser (sua identidade), os sócios-fundadores (seus pais), entre outros requisitos. Então, a empresa, como todo ser vivo ao nascer, já traz uma história pré-natal, vem ao mundo impregnada dos valores e crenças das pessoas que a geraram, tem identidade e potenciais de realização, é depositária de sonhos e esperanças etc. Assim como o ser humano nasce, tem infância, adolescência, maturidade, velhice e desaparece fisicamente, também as empresas passam por fases de vida, ainda que possam não desaparecer fisicamente.

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Todos os seres vivos, sejam pessoas físicas ou jurídicas, caracterizam-se, entre outros aspectos, por apresentar processos vitais simultâneos para que seus objetivos possam ser atingidos. Desde que nasce até sua morte, o ser vivo está em constante processo de transformação e crescimento, sem perder sua identidade básica. Entre as principais características do ser vivo que são observadas também nas empresas –e cada vez mais– estão capacidade de reprodução e de regeneração, reação rápida aos impulsos externos, capacidade de aprendizado e desenvolvimento contínuo em seu nível de consciência, capacidade de adaptação rápida ao meio. O ser vivo, seja empresa ou indivíduo, é, além disso, interdependente, está sempre conectado com outros organismos e com o meio ambiente externos. O ser vivo é composto por órgãos complexos (nos animais superiores há coração, pulmão, estômago, rins etc.) e organiza-se a partir dos sistemas simples para os mais complexos, formando teias sutis e sensíveis numa verdadeira simbiose ou espírito de parceria, para que um todo exista de forma harmônica. Assim como há todo um sistema bioecologógico, podemos ver também que há um sistema ecológico empresarial. Em determinado nível de complexidade do organismo, certos componentes celulares são polivalentes, como os neurônios, que são capazes de assumir funções de outros neurônios. Essa polivalência tornou-se igualmente essencial no contexto empresarial nos dias de hoje. Recebendo impulsos do exterior, o ser vivo é dependente do seu meio ecológico, nutrindo-se nele ou dele. Sua ligação com o meio vai além, pois recebe e procura estímulos e recursos, processando e devolvendo contribuições ao ambiente que poderão criar e suprir carências de organismos externos maiores ou menores. É orientado por forte instinto de sobrevivência, mantém funções vitais básicas como alimentação,

O que são os arquétipos
O conceito de arquétipo tende a ser um daqueles que migraram rapidamente do universo da psicologia para o mundo dos negócios. Os arquétipos formam o cerne dos mitos das mais diferentes civilizações e culturas, eles estão presentes nos contos de fadas, nas obras de arte, nas lendas e mitos de todos os povos. São o que as pessoas não sabem que sabem. Todos nos identificamos, por exemplo, com obras de arte clássicas, que associamos ao arquétipo de beleza. Se procurarmos a beleza hoje, e conseguimos nos apoiar nesse arquétipo, ficamos plenamente satisfeitos. O mesmo acontece com vários outros arquétipos, como os de ordem, verdade, bondade, qualidade etc. Para os filósofos gregos, que queriam chegar aos princípios formativos do universo e, portanto, à essência da criação e das formas, esses princípios eram denominados de arqué e eram identificados com os elementos naturais, como a terra, a água, o ar ou a luz e o fogo. Essa representação simbólica, até poética, é necessária porque as palavras não conseguem explicar esses princípios. A importância dos arquétipos é reconhecida pelos psicólogos e terapeutas por darem identidade pessoal ou a um grupo e para fortalecer valores morais. Os arquétipos têm a qualidade de dar racionalidade ao mundo muitas vezes sem sentido que estamos vivenciando no atual processo acelerado de mudanças.

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digestão, reprodução, respiração e movimentação. Reproduz-se, evolui e se perpetua, aprimorando e sempre mantendo a ligação com o modelo original. Analisando todos esses paralelos, é natural intuir que as empresas funcionam como seres vivos também. É por essa razão que eles passam a ser, cada vez mais, um paradigma para modelos de gestão. INFLUÊNCIA NO MODELO DE GESTÃO Podemos comprovar com facilidade que algumas qualidades predominantes nos seres vivos jamais estarão presentes em modelos organizacionais baseados em princípios de rigidez que negam a vida, como a hierarquia tradicional ou os modelos mecanicistas de gestão que moldaram nossa civilização e nossa cultura empresarial atual. Quando as empresas trabalham com base nos princípios do modelo de gestão orgânico, elas metamorfoseiam e incorporam na cultura empresarial as qualidades e características típicas de um ser vivo, passando a responder com agilidade e flexibilidade às necessidades do mundo externo, usando a intuição com a razão nas decisões e enfrentando as dificuldades de forma criativa. Assim como nos demais organismos vivos, as células empresariais (indivíduos primeiro e grupos em segundo) têm no mesmo DNA os genes que orientam as pessoas e os grupos em direção à “chama sagrada da empresa”, à razão da sua existência, à sua missão, mesmo que cada uma pertença a um sistema ou processo organizacional diferente. Isso é o que possibilita às empresas condições de sobrevivência, crescimento e desenvolvimento em um ambiente de competitividade acelerada, à semelhança dos seres vivos que fazem isso ao longo de todo o seu processo evolutivo. Para as pessoas, o modelo celular ou de gestão orgânica cria condições e oportunidades concretas para o real aprendizado existencial individual e organizacional, revelando novos talentos, novas habilidades, agregando novas competências à cultura organizacional. COMO REVITALIZAR SUA ORGANIZAÇÃO É primordial que os primeiros níveis de comando –acionistas, presidente e outras lideranças-chave– se convençam e queiram transformar a empresa de forma genuína. Para tanto faz-se necessário que aprendam a trabalhar com conceitos de natureza orgânica, cujas proto-imagens arquetípicas induzem e permitem uma nova forma de pensar a organização, não como um sistema de poder, uma estrutura com caixinhas hierarquizadas e processos e funções bem definidas, como uma máquina ou um mecanismo, mas como um organismo complexo, vivo, fluido e pulsante, mobilizado pelo mistério da vida. Outro pressuposto é o incentivo ao contato face a face fazendo com que a empresa saia do paradigma da mera informação, levado ao extremo hoje em dia com a praga dos e-mails e outros recursos tecnológicos mal-usados, para uma comunicação verdadeiramente humana. Esse impulso, quando orientado por uma cúpula

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genuinamente identificada com a causa, propicia um clima de mais confiança e alinhamento entre as pessoas e grupos, mobilizando indivíduos e grupos para ações inovadoras e consistentes. Quem está interessado em mudar realmente as organizações já sabe que isso só é possível quando mudam também os indivíduos e os grupos que as compõem. Qualquer pessoa que deseje mudar também sabe quanto esse processo é difícil. Não bastam centenas de palestras e cursos, muitas vezes distantes da cultura e da alma brasileiras, indicando que a mudança é o melhor remédio. Esses treinamentos falam muito ao processo do “pensar” e, sem dúvida, se forem bem executados, podem ajudar a encontrar os caminhos da mudança. Mas são insuficientes, porque ignoram ou não dão à devida ênfase aos processos do “sentir” e do “agir” no dia-a-dia. Ou seja, para que essas transformações internas realmente ocorram, é necessário sentir e também agir no mundo externo de forma coerente com uma concepção filosófico-estratégica genuína. Por nossa vivência, é só esse fenômeno individual que leva às mudanças reais e duradouras. É impossível conseguir captar esse elemento intuitivo, que mobiliza as pessoas para a essência das coisas e para a ação no mundo a partir de um “insight profundo”, por argumentos racionais e lógicos que multifacetam a realidade, analisandoa de pontos de vistas individuais, parciais ou poluídos por uma abordagem maniqueísta quando não ideológica. Esse insight profundo –que implica captar a essência das coisas– acontece por várias vias, porém a mais comum é a da evocação de imagens arquetípicas. Trata-se de imagens primordiais que, na infância da humanidade, formaram o inconsciente coletivo de nossa espécie, exercendo influências fundamentais no processo de desenvolvimento dos indivíduos e dos grupos sociais. Elas estão presentes de maneira quase uniforme na ação das pessoas de todos os quadrantes do planeta em todos os tempos. Fazem parte daquilo que chamamos de “sabedoria primordial”. Quando uma pessoa ou um grupo descobre e incorpora modelos e conceitos arquetípicos ao seu jeito de ser e à sua atuação –e, portanto, ao seu processo de gestão–, é como se descobrisse um segredo dos deuses. Para conseguir pôr em operação os paradigmas emergentes –principalmente o da empresa orgânica, mas também os das empresas virtuais e do processo acelerado de globalização a partir de uma abordagem humanista por excelência–, é essencial introduzir os arquétipos na linguagem e no dia-a-dia empresarial.

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