'A QUESTÃO ])0 DIAGNÓSTICO

,

Psicóloga Simone Roballo

A partir defendidas conceito

da compreensão

das concepções

de desenvolvimento

humano do .

por cada uma das principais de deficiência

teorias psicológicas,

e, consequentemente, impOltante teorias

ou de defeito daí decorrcntes, Destaco

considero

analisar, em um aí da

discursivamente, instrumento

o diagnóstico.

o fill1c'ionamento as filiações

dessas teóri~as

específico,

bcm como

questiono

dominantes

presentes que vão levar a uma classificação anormalidade, trilhando os caminhos

do sujeito nos domínios do patológico,

dos prejuí;OSi' .. -cIQq! dificuldades,

das falhas, dos hoje, de

déficits. Para tanto, faremos para classificar a Síndrome

uma análise de um dos manuais ,de Aspergcr, o Manual

oficiais utilizado, e Estatístico

Diagnóstico

Transtornos

Mentais, 4". edição - DSM IV - (APA, 1995). Tunes e cols. (1992), em seu artigo "Sobre da deficiência a Deficiência (DM) Mental", ao das duas

identificarem publicações

as cOlicepções

acerca

mental

no âmbito encontraram

científicas e no universo das práticas sociais e educativas, a médico-psicológica de desenvolvimento

vertentes dominantes: as com a concepção

e a social, e, analisaram-nas,

relacionando-

defendida pelas teorias psicológicas. segundo Tunes e cols. (1992), é a mais antiga e da psicometria, uma ciência da o homem a

A visão médico-psicológica, tomou uma proporção Psicologia, implantada

bem maior com o surgimento sot a ótica do Positivismo, criando instrumentos ~sta

que tende a fragmentar

como objeto de estudo, inteligência, relacionada a percepção,

que mcnsuram,

de forma estanque, está diretamente

a subjetividade. biológico,

visã~ da deflciência

com o determinismo

ou seja, "a noção de que existem pessoas

construídas com material intrinsecamente. inferior (cérebros mais pobres, genes de má qualidade ou coisas semelhantes)" (pág.1 O). Esta concepção de desenvolvimeríto é dccc5rrente da humanos. E

aplicação da teoria da evolução (seleção natural) que explica os fenômenos desta aplicação decorrem
'

as prúticas de segregaçào ,e.•e'rígenia. GOllld (1991), em seu

..

livro, critica a tese maior desta concepção que é a de determinar o valor do indivíduo c dos grupos sociais através ela medida da inteligência como quantidade Já as concepções desenvolvimento (1979) histórico-social soci"is, que tiveram sua origem isolada. na perspectiva de

proposto por Vygotsky,

consideram,

segundo Omote .

que a DM é fruto de um "status de determinadas condições

social adquirido",

ou seja, é um produto a situação

resultante

em que atuam os slljeitus envolvidos,

imediata

e o contexto

histórico

mais amplo.

Ele admite a existência

de condições

médicas incapacitadoras, porém, admite também que essas condições podem não ser a causa direta da deficiência, geralmente, consequência, E ele fala participação pois exist.~ à história do individuo deficiente, que é marcada, de inferioridade, que limita seu potencial e por

por um sentimento

traz efeitos negativos na sua auto imagem e em seus níveis de expectativa. também igualitária de condições do deficiente, sociais incapacitadoras,. que irão restringir a de

pois nicsmo que apresente

um desempenho

outras habilidades sociais e culturais,

adequadamente,

continuará

a ser encarado como deficiente. baixo de determinados

Causas

como nível sócio-econômico

indivíduos,

tambéni aparecem para explicar a deficiência mental. Da leitura atenta dessc Manual, reconhece-se forma Como é ali classificada médico-psicológica, que a Síndrome de Asperger da com a concepção "x" de quesitos no indivíduo, ou

e descrita, situa-se de conformidade de uma quantidade a patologia

pois a partir da idenlificação diagnósticos

numa lista de critérios

é que se estabelece

seja, a partir de um instrumento identificamos o portador da SA.

de medida que avalia de forma fragmentada

o homem,

Essa maneira está condizente

de conceber

a deficiência,

numa visão médico-psicológica, tradicional dominante, em

com a perspectiva

da Psicologia

científica

que o conceito de deficiente instrumentos

é definido a partir dos resultados

obtidos na aplicação de

avaliativos (testes ou escalas psicométricas). Werner (1997), analisa e critica dois modelos metateóricos, identificados

com o pensamento na compreensão Psicologia,

positivista,

que vão caracterizar

a racionalidade

científica moderna e o mecanicismo. A

cos fenômenos naturais c humanos: o organicismo em consonância com essa racionalidade

então,

científica,

vai

sofrer dos

influência de tais paradigmas transtornos

na formnlação,

classificação

e no sistema diagnóstico

mentais, como veremos a seguir. O modelo mecanicista, elaborado a partir da Física, considera ser decompostos do mundo. Os a natureza

uma matéria, facilitando,

composta assim, a

por elementos exploração e

que podem ordenação

e analisados, elementos são

mecanicamente

combinados

pela própria razão. Tcm-se no século XVII o predomínio de doença, que vão dar orígem às categorias denominadas patológicos são, a partirde então, definidos de por

dos conceitos mecanicistas normal e patológico. variações quantitativas.

Os fenômenos

Em termos epistemológicos,

no modelo mecanicista

o objeto se sobrepõe ao

sujeito, cabendo ao homem ter um papel passivo na construção do conhecimento. O modelo organicista no pensamento positivista vai se destacar no s0culo XIX em relação e se encontra presente que a considera um

de Comte

à sociedade,

organismo vivo, fruto de uma evolução do inferior para o superior. Desde a antiguidade, que o modelo organicista forma dinâmica vai estar presente no conceito de doença, representando-a A natureza seria o equilíbrio e a doença de

e totalizante.

qualquer

perturbação

desse equilíbrio,

o mal não estaria num órgão humano,

mas no homem

como um todo, como um sistema organizado. Pode-se concluir, provisoriamente, herança o sistema classificatório, quantitativo que o modelo mecanicista e associacionista vai deixar de o que

das doenças,

implica uma relação linear de causa e efeito, passível de ser quantificada diferença organicista, entre normal e patológico é quantitativa. Já na concepção

e prevista: a funcionalista-

a doença é a quebra do equilíbrio, não está em uma parte, mas está no todo são os

do homem e é toda dele e o que determina a diferença entre normal e patológico aspectos qualitativos tomados da perspectiva individualista.

A doença pode ser vista objetivando com o

nessa concepção uma

como um esforço do organismo totalizante do organismo que estamos

para curar a si próprio, e o equilíbrio

reestruturação

funcional

meio.(Canguilhem, funcionamento ao homem.

1995) Ressalte-se

falando aqui de função e não de

e que a noção de totalidade daria o caráter de acabado, logo a-histórico,

Os dois atuais manuais oficiais de classificação elaborados, Organização respectivamente, pela Associação Americana

de doenças, DSM e o CID, de Psiquiatria (APA) e pela forma

Mundial de Saúde (OMS), refletem a influência de uma determinada científica. Tais manuais trazem conceitos os de normal relacionados

de racionalidade modelos, equilíbrio,

a esses dois desvio e

organicista

e mecanicista,

como

e patológico,

deficiência e eficiência numa relação de oposição. Vejamos o funcionamento

discursivo do DSM IV (APA, 1995):

"Os Transtornos Invasivos de Desenvolvimento caracterizam-se por prejulzo severo e invasivo em diversas áreas do desenvolvimento: habilidades de interação social recíproca, habilidades de comunicação, ou presença de comportamentos, interesses e ativ,idades estereotipados. Os prejuízos qualitativos que definem essas condições representam um desvio acentuado em relação ao nível de desenvolvimento ou idade mentai do individuo" (pág. 65).

I"

.-1,.•.

,

"As características essenciais do Transtorno de Asperger são: prejuízo severo e persistente na interação social, desenvolvimento de padrões restritos e repetitivqs de comportamento, interesse e atividades. A.perturbação deve causar prejuizo significativo nas áreas social, ocupacional ou outras áreas importantes de funcionamento." (pág. 74).

o

uso dos termos "prejuízo", "estereotipados'"

e "desvio acentuado em

relação ao nível de desenvolvimento",

leva-nos a considerar que as caract"erísticas

apontadas nestes critérios diagnósticos apoiadas na noçno de "desenvolvimento" de níveis perfeitamente demarcados:

são definidoras

de padrões e parâmetros

e estno

enquanto uma categoría fechada, constituída

"Os prejuizos qualitativos que definem essas condições

representam um desvio acentuado em relação ao nivel de desenvolvimento ou idade mental do indivíduo" Vigotsky, em seu artigo sobre "Problemas Contemporânea" patológica conhecimento para (1989), fala da necessidade os fundamentos Fundamentais da Defectología

de urna nova direçno da investigaçno da defectologia, entendida como Para

reconstruir

teórico e trabalho científico prático sobre a criança com deficiência.

ele, a ciência deve dominar e explicar as diferentes formas de desenvolvimento estabelecer os ciclos e as mudanças deste desenvolvimento, seus níveis em sua diversidade.

infantil,

bem como suas variações e

"En realidad, existe una correspondencia total entre la peculiaridad de cada etapa evolutiva en el desarrollo dei nino y la peculiaridad de los diferentes tipos de desarrollo."( pág. 3) Outro aspecto que Rca bastanle evidente na caract~rizaçno da Síndrome pelo DSM IV (APA, 1995) é a ênfase no caráter quantitativo paradoxalmente problema, por determinações vista numa qualitativas, posiçno da deficiência, manifestado, o

em que a criança, como

que apresenta

é sempre

negativa,

evidenciam

os termos:

"tral1~torno","prejuízo", "pcl1'urbação".. Os teóricos que defendem a concepção deles Vigotsky, concepçno criticam os métodos psicológicos social acerca da deficiência, de investigaçno baseados dentre numa

quantitativa somente

de desenvolvimento considera e do o grau

infantil, pois, segundo eles, este tipo de da redução causada pelo problema, de

caracterizaçno esquecendo-se subjeti"idade mesmo

da estrutura

funcionamento

da. personalidade

- forma

- originada por este probiema. A individuaçno como o problema a ser tratado.

do sujeito se dá no lugar Para Vigotsky (1989), a

que o constitni

defectologia

só pode se firmar como ciência se estudar qualitativa,

seus fenôúlenos

e processos

numa perspectiva

partindo de premissas positivas.

"Com esta idea, ante la defectologia se abre un sistema de tareas positivas, teóricas y práclicas; la defectologia se hace posible como ciência, ya que adquiere un objeto de estudio especial, delimitado desde el punto de vista metodológico de estudio y de conocimiento." (1989, pág. 4)
Considerando "compensação", da deficiência, psicopatológicos próprio crianças indivíduo. os postulados de AdieI' que trabalha com a noção de

Vigotsky (1989) e demais teóricos que trabalham com uma visão social como Omote (1979), ao se referirem às crianças com problemas

criticam a posição de se buscar a causa em anomalias Para cles, a sintomatologia desadaptadas da disposição

orgânicas ou no peculiar das Esses

psicológica

socialmentc

é um fenômeno

sociológico

e psicológico.

autores postulam que certas alterações no meio podem favorecer a criança a desenvolver comportamentos de autodefesa, de voltar-se para si mesma, adotando uma couraça

biológica, para proteger-se l~ importante

deste mesmo meio. ressaltar que esses autores estão se referindo enfim, a deficiências que são provocadas aos deficientes por condições que

mentais, visuais ou auditivos,

físicas, ou melhor, por algum defeito orgânico

que traz uma forma de limitação,

parece não ser o caso do indivíduo com SA. Para eles, que defendem uma visão social da deficiência, desenvolvimento sentimentos a situação empírica acarretaria mais limitação, ainda, impedindo o

de outras habilidades desse indivíduo, uma vez que desenvolveria

nele

de inferioridade. Pensando desta maneira, podemos retomar alguns questionamentos feitos

anteriormente.

Haveria um sistema de defesa por parte do sujeito com SA? Como ele Do que cstamos falando quando falamos de "déficit de interação de classes, Na criança crianças com relações sociais desiguais de interação, ser uma e até mesmo ou seja, o formação

teria se constituído? social" injustas

em uma sociedade como no Brasil? que

com SA o déficit "preferem", já

isolamento

social

essas

poderia

secundqria psicológica Lembrando

a qual se referiu Vygotsky (I 939)? do que Omote (1979) falou a respeito das causas sociais que vão, a DM, no caso da criança com SA o próprio diagnóstico de

muitas vezes, determinar

déficit de interação pode imputar falta de interesse social, para determinadas

atividades

institucionalizadas,

a essas crianças, quando, na verdade, elas apenas o "demonst.ram"
dessa,mesma sociedade.

de forma mais radical que as outra~.crianças

Outro flutor que compartilha

dessa visno da deficiência,

como determinada

pelo social, é Jannuzzi (I985), reforçando dc certa forma as análises que vimos fazendo. Ela afirma que a deficiência dá "visibilidade" a um "modelo de homem, baseado

principalmente em atributos valorizados pelas relações sociais surgidas num determinado modo de produção" (em Tunes e cals., 1992). Essa autora coloca que a deficiência aos desvios - on nos casos dos portadores normas sociais estabelecidas históricas deficientc está ligada - às

da SA podemos pcnsar em resistência que reproduzem

e as práticas pedagógicas,

as expectativas do

de um grupo dominante. e o tratamento

Desta forma, ela considera que a caracterização a cle estão vinculados de se compreender à(s) ideologia(s).

dispensado

Omote

(1979) também determinados

coloca a necessidade

'as razões sociais pela quais

grupos sociais atribnem o rótulo de deficiente a outros indivíduos. da SA e do diagnóstico dominantes, classificatório sêio, pois, marcados grupos de foi

A caracterizaçêio pelas formações apontarem reconhecida ideológicas

pelo inieresse

de dcterminados

tal dificuldade oficialmente,

em outros. Por que somente

em 1994 esta síndrome

sendo que foi descoberta e descrita em 1944? Por que durante de Asperger, o médico vienense, nêio teve repercnssêio na na questêio da de uma época dos

quase 40 anos a descobelta comunidade ideologia, histórica científica?

Parece-nos

que essas respostas

encontram-se próprias

o que significa

dizer que as ideologias discursivas,

teóricas

dada, com suas formações

sêio dcterminadas

pelo conjunto

aparelhos ideológicos Gostaríamos memória discursiva

do Estado (Pêcheux, 1988). de chamar a1ençêio, para a prcsença da(s) ideologia(s) e inconsciente - não só relacionadas e de nma

- histórica

ao diagnóstico, Tunes e

como também cols.(1992), outra forma,

à pnítica terapêutica

c, principalmentc,

à prática cducacional.

finalizando porém

seu artigo, afirmam que há muito se fala e se pensa a DM de na prática ainda se encontra cristalizada a idéia - sentidos

sedimcntados decorrente sociedade

se reproduzindo, do determinismo

diria a AO - de que o problema biológico. Nessa corrente

está no indivíduo, o biológico, a

que enfatiza

"é um renexo fiel da biologia" (Gould, 1991), e ponco se pode fazer, então, por avaliações isoladas

por esses deficientes, já que o valor do indivíduo é determinado e quantitativas de snas habilidades.

Na verdade, com o diagnóstico,

o qne se encontra nas "escolas especiais"

é uma preocupação qual é a

pois é preciso se definir com maior rapidez. e precisão se a qnestêio do cncaminhamento

patologia da criança, nêio se perguntando mesmo de naturez.a patológica.

da criança é

Ou melhor, o que está se entendendo

por patológico.

Não podemos negar que a prática do diagnóstico trabalho institucional de delimitação,

classificatório, e controle

auxilia sobremaneira de uma determinada

o

organização

estrutura e funcionamento

escolar, e produz o efeito de clarificação

da patologia. da escola

Trata-se, pois, de um instrumento enquanto momento biológico ressaltando deficiência, incapaz, instituição contradição instituição social determinada

que diminui a responsabilidade

por um modo de produção, como estando trabalhar no indivíduo

pois a partir do - determinismo sempre da sua

em que se coloca o problema o que resta a escola o que ele não consegue

é tentar

com esse indivíduo, nunca se esquecendo

fazer, ou melhor,

dos seus déficits, e o que não conseguir é de rcsponsabilidade teria como prática

ser feito é porque essa criança é A escola, assim, enquanto da sociedade e a

o fracasso social,

do indivíduo.

a preservação

da estrutura

entre indivíduo e sociedade se resolveria tanto pela adequação

do indivíduo dos

à ordem, quanto pela correção da ordem através do aperfeiçoamento
individuos. Barbosa equivocados, diagnósticos também (2000), em seu artigo sobre como Ela prevenir critica

continuado

diagnósticos a prática dos

se refere

a prática

educacional.

formais e a da escola como produtores de deficientes, construídos c se legitimam por critérios

em que os conceitos Compara os

são socialmente diagnósticos

médicos.

com padrões externos de habilidades

e competências

e chama a atenção

para o fato de que os testes revelam apenas o que a criança não faz. Mas, voltemos aos emlilciados do DSM IV (APA,1995), e continuemos a

observar como o fllllcionamento "prejuízo", reproduzem "desvio", "perturbação",

discursivo

de certos termos, como certos efeitos

"transtorno", que

vai produzindo

de sentido

- e ajudam a construir - um imaginário específico para o desenvolvimento em que os sujeitos - enquanto tipo de interlocução com SA como sendo posições enunciativas -

das práticas psicopedagógicas irão estabelecer representação determinado do sujeito

e de interação "transtornado",

marcada

por uma

"prejudicado",

"desviante", "perturbado" em relação a um padrão, a lima norma ambígua, mas eficaz, no processo de Vigotsky, de discriminação considero, da diferença. Baseando-me nos conceitos de defectologia p3l1iculares diferentes da

que mesmo apresentando

funções

norma, a constituição falta, déficit:

desse sujeito não seria necessariamente

deficiente entendida como

"W. Stern plantea el seguiente postulado: las funciones particulares pueden representar una desviación de la norma y, sin cmbargo, la personalidad o el organismo en su conjunto pueden pertenecer ai tipo completamente normal. E/ niíio con defecto no es indispensablemente 1111 nino deficiente" ( 1989, pág.l O). Tomando como referência a problemática apontados por Bachelard e Canguilhem da descontinuidade que tratam e do conceito, da

nos trabalhos

do progresso

ciência, gostaria de me remeter, agora, à história dos transtornos na Psicologia.

mentais, do patológico,

É importante salientar que a primeira

tentativa de se colher informações

a respeito da docnça mental surge nos Estados Unidos com o censo de 1840. A partir daí, sc trabalhou no sentido de se definir uma nomenclatura fim de se diagnosticar os pacientes internados a primeira com nacionalmente transtornos aceitável a e e

psiquiátricos Diagnóstico

neurológicos. Estatístico transtornos diagnósticos

Em 1952, foi publicada

edição do Manual

de Transtornos mentais

Mentais (DSM I), considerado a atividade

o primeiro manual oficial de nos

a focalizar

clínica e, desde então, várias revisões

foram realizadas, estando atualmente na 4'. edi,'ão do DSM. Os avanços no campo das classificações da introdução diagnósticas estão descritos nos a

antecedentes necessidade

históricos, da 2'. edição:

do DSM IV (APA,

1995), para justificar

a necessidade de definições explicitas como um meio de promover diagnósticos clinicas confiáveis."; o surgimcnto do DSM III (...] "O DSM 111 introduziu um nlimero importante de inovações metodológicas, incluindo. critérios explicitos de diagnóstico, um sistema multiaxial e um enfoque descritivo que tentava ser neutro em relação às teorias etiológicas"; em relação à criação do DSM IV: 'Com objetivo de aumentar a praticidade e a utilidade c1inica do DSM IV , os conjuntos de critérios foram simplificados e esclarecidos, quando isso podia ser justificado por dados empiricos".(pàg.xvii) O que se observa diferiram ao longo dessas altenlções é que as nomenclaturas da fenomenologia, uma definição. já do O dos

muito, mas o que se busca é a mudança da etiologia, ou dc suas características passíveis

curso da doença progresso

de integrar

da psicopàtologia,

até agora, tem sido marcado

pelo aprimoramento

métodos investigativos,

por uma linguagem mais descritiva, pela clareza e simplicidade

dos critérios ou pelo uso de dados cada vez mais empíricos. Não existem rupturas, não se estabelecem descrevem relaciouados. as descontinuidades das filiações teóricas dos conceitos, conceitos não se

as transformações

ou a maneira

pel.a qual os diversos

estão

Segundo

Souza (2000), existe na Psicologia

e na Psiquiatria

uma prática

comum que é a de mudar os nomes das psicopatologias caráter pejorativo ou, melhor, diríamos, da contradição AD, a mudança de nomes pode provocar deslocamentos sentidos já produzidos, os sentidos fundadores

para tentar fugir do estigma e do constitutiva desse campo. Para a

de sentidos, mas não apaga os dos transtornos em que se

das classificações

psicopatológicos,

que continuam

a funcionar em uma memória

discursiva,

constittiem os sujeitos, e que retornam na forma de pré-construídos. Souza nomenclaturas o discurso possibilita (2000), em seu trabalho, refere-se também às diferentes

referentes aos Transtornos

de Personalidade. o discurso

O que existe de consenso é do certo e errado, A Psicologia o que

da moral social identificar

como regulador,

o normal e anormal como oposições.

e a Psiquiatria

vão trabalhar a relação entre normal e anormal como oposição, uma forma de conceber saúde e doença. diferenças Saussure (1974) afirma que na língua não há positividades, - o valor - se produz l1'adiferença, Um indivíduo só há só é

e que a significação

anormal porque não é normal, o que indicaria a presença de uma contradição uma oposição. A Psicologia

e não de

trabalha com relações de oposição quando investe em um os termos das dicotomias metodologicamente em termos de

dos termos e elimina o outro, e/ou correlaciona causa e efeito. A prática terapêutica procede

da mesma maueira, a

pois o objetivo desta prática é tornar o anormal o mais normal possível, eliminando diferença, não dando visil?ilidade ao normal que seria a referência para o anormal.

À Psicologia
importante padronização

e à Psiquiatria,

respaldadas

pela cientificidade,

couberam

papel na criação e atribuição dos rótulos, das classificações do comportamento normal,

nesse campo de.

inspirado no modelo do homem padrão, ou .. dos discursos de uma sociedade aceito - ideologicamente como falso, - saudável que a para

seja, no controle, seleção, organização dada. Qualquer produzido deficiente,

e redistribuição

pessoa que se desvie do padrão socialmente como anormal enquanto e desviante

- é considerado

e seu discurso homogênea

incoerente ... O homem, - foi imposto

uma totalidade ocidental

física e mentalmente psicologia classificar, pela área

ao. mundo

e é a esse modelo recorrem

e a psiquiatria rotular. Embora médica, outras

dominantes,
O

acadêmica

e cientificamente,

diagnóstico

clínico do sujeito patológico da sociedade, como

seja produzido colaboram

instituições

a escola,

decisivamente

na construção e reprodução-transformação

dessa rede discursiva. diferente, pois ele não adota explicitamente

O DSM IV (APA, 1995) tem um funcionamento oposições do tipo normal/anormal;. as afirmações

vfío se configurando

em torno da doença. Não precisam a causa, dizem que tudo não é, como se estivessem impedidos de dizer o que é e, conseqüentemente, Esse código intransferível localizador de cada portador de dizer como se trata, como se cura. contudo, é único e

de uma síndrome,

e possibilita apartá-lo dos outros homens e de sua própria subjetividade. nessa caracterização numa perspectiva discursiva da visão do diagnóstico da

Prosseguindo Síndrome de Asperger

médico-psicológica,

retomo, nesse momento

uma passagem da introdução do DSM TV em que se justifica o uso de uma classificação categorial:

"O DSM IV é uma classificação categorial, que divide os transtornos menlais em
tipos com base nos conjuntos de Essa designação de categorias transmissão de informações na fundamental usada em todos os 1995; xxi) Vimos que a classificação critérios com caracteristicas que o definem. é o método tradicional de organização e vida cotidiana, e tem sido a abordagem sistemas de diagnóstico médico ". (APA,

categorial

é justificada

por esses autores

para

garantir a transmissão correta

ela informação. Ora, como já afirmamos anteriormente, a

noção de comunicação

adotada por esse manual refere-se ao csquema "informacional",

pois o DSM IV para cumprir com seu objetivo deve produzir o efeito de clareza, de coerência, de objetividade, enquanto um sujeito - efeito-autor - que controla o que está

sendo dito e é a origem desse dizer; enquanto o avaliador, por outro lado, o sujeito-leitor
deve 11recuperartl
lIm

sentido ali escrito, um sentido unívoco e permanente, para que não

haja dúvidas no diagnóstico compreender a interpretação

do individuo.

Ora, analisar um enunciado, Compreender

para a AD, é

presente nos enunciados.

o sentido que ali. qual

está, produzido, não significa interpretar o que o autor quis dizer, mas compreender a posição que esse sujeito ocupa para ser autor desse enunciado. Voltemos questão ... Transcrevo diagnósticos

ao DSM TV (1995) e a nossa análise na busca de resposta a essa novamente, para facilitar o trabalho do leitor, os critérios

da Síndrome de Asperger, ali contidos, começando pelo item A que diz:

"A. Prejuízo qualitativo na interação social, manifestado por pelo menos dois dos
seguintes critérios: (1) prejuizo acentuado no uso de múltiplos comportamentos não-verbais, tais como contato visual direlo, expressão facial, posturas corporais e gestos para regular a interação social;

(1) fracasso para desenvolver relacionamentos apropriados ao nivel de desenvolvimento com seus pares; (2) ausência de tentativa espontânea de compartilhar prazer, interesses ou realizações com outras pessoas (por ex., deixar de mostrar, trazer ou apontar objetos de interesse a outras pessoas); . (3) falta de reciprocidade social ou emocional." (pág. 76)

Estes critérios pretendem saúde mental possam diagnosticar

ser objetivos

para que os profissionais

da área da

de maneira eficaz qualquer indivíduo. Observamos, qualitativo", espontânea", fazendo-me "fracasso", Úfalta de lembrar das e ao

contudo, que os termos-chaves "relacionamentos reciprocidade", "infelicidades" insucesso produzem

deste critério, como "prejuízo "ausência de tentativa e vagos,

apropriados", são extremamente

imprecisos

auslinianas,

ou seja, todo enunciado está fadado aos mal-entendidos que estes termos, da história

(Austin,

1990). No caso, diríamos dependendo

em sua ambigüidade,

mais de um sentido, em que o diagnóstico

de vida de cada leitor, da do paciente, em que para

circunstância

é feito, da situação sócio-econômica

situação de conflito/aliança ocorreram ilustrar
O

com os já-ditos

aí inscritos. Trago algumas situações com Síndrome de Asperger

nos meus atendimentos

com as crianças

caráter impreciso e incerto desses termos. Certa vez, no consultório, onde eu estava atendendo a uma criança aqui de como

diagnosticada M., precisei espontâneo.

como portadora interpretar

da SA, com 9 anos de idade, que denominarei seu que não posso deixar de considerar

um gesto

M. estava explorando sentado

uma caixa que continha vários brinquedos, distante e observando. Depois

enquanto

eu me encontrava muitos brinquedos,

na poltrona

de manipular

M. pega a peteca e fica passeando

pela sala com esse objeto na mão,

olhando para mim e passando na minha frente várias vezes, até que lhe pergunto se quer brincar. M. olhando para mim, dá um sorriso e balança a cabeça dizendo que sim.

Durante todo o jogo M. interage comigo, mandando quando erramos. Em estratégia entender
lima

a peteca para mim e rindo muito

outra sessão com essa mesma criança, ela realiza a mesma dc brincar de luta de espadas comigo. Posso

para me dizer que gostaria que M. utilizou

um tipo de interação que não era tão explícita,

ou melhor,

menos usual, porém foi espontânea

e eficaz a partir do momento que eu pude dar uma no sentido de troca, de inter-ação. neste item A do DSM IV

resposta a ele, estabelecer uma comunicação Um outro questionamento (APA, 1995). Como definir "interação"?

se faz necessário

Orlandi (1998 a) traz uma rellexão que propicia

a crítica ao que se tem dito da noção de interação, e que nos faz pensar em relação aos chamados "prejuízos" de interação dos sujeitos e reversibilidade. equivalentes, com SA, quando estabelece uma

diferença entre intercambiabilidade a substituição em diferentes forma mais de posições-sujeitos

A intercambiabílidade

possibilita

por exemplo, os discursos se equivalem Enquanto posições; que a reversibilidade, é a possibilidade, discursivo de por

alunos que ocupam a posição-aluno. complexa, exige movimento nessas

exemplo,

da posição-aluno

ter a mesma legitimidade

no processo

quando

confrontado

com a posição-professor

ou que não qucr dizer ocupar a posição do outro. na voz dominante. de interação que se tem ao

É com a reversibilidade Desta proporcionado psicólogo forma,

que se pode produzir deslocamentos poderíamos questionar a forma

aos alunos nas escolas, c que podem levar o aluno a scr encaminhado

para avaliação.

Para Orlandi (1998 a), o aluno deve falar do seu lugar dc estimular o aluno no aprofundamento histórico relevantes de sua posição, dos sentidos aí

aluno, mas cabe ao professor produzindo formulações

a partir de um trabalho

presentes. Ora, sabemos que essa é a maior dificuldade que o aluno produza deslizamentos formalmente; dificuldade

das escolas: criar condições para mecânica ou

de sentidos e não somente reproduza por uma . formação

determinada

social e dela fazendo parte. dada - que

Neste sentido, podemos afirmar que é a própria escola - de uma sociedade produz impedimentos

no processo de interação dos sujeitos, o que levaria os sujeitos

com SA a reagiram a exercer uma função - de autor - que os integraria a essa mesma sociedade que os exclui. Não poderíamos, ou prejudicada, portanto, classificar sua forma de interação em se integrarem a

como deficitária

mas talvez como urna resistência

um mundo de sentidos já estabelecidos

por efeitos ideológicos dominantes. que a ênfase dada é um

Quanto ao item C do DSM TV (A PA, 1995), observamos ao funcionamento funcionamento deste sujeito em uma organização

social e política determinada,

que deve ser eficaz de acordo com as normas estabelecidas.

"C. A perturbação causa prejuizo clinicamente significativo nas áreas social e ocupacional ou outras áreas importantes de funcionamento." (1995,pág. 76). A idéia que está subentendida ordem explícito dada historicamente. aqui é a de enquadramento observar do indivíduo a uma

É interessante

que não há um complemento

para o termo "funcionamento",

entendido

como funcional.

É possível, então,

questionarmos

o que seria funcional e para quem?

Em se trntando de escola, uma instituição

desta sociedade,

responderíamos,

que significa muitas vezes a realização de tarefas mecânicas inquestionável

e repetitivas e a submissão respaldada pelas

por parte dos alunos a um dizer, que se apresenta e de cientificidade. com Síndrome

noções de neutralidade em relação às crianças

Por esta razão, é comum ouvirmos a propósito

queixas,

de Asperger,

de sua inadaptação e se recusam Devemos, a .

escolar: não realizam as provas, não copiam tarefas do quadro-negro fazer exercícios, sendo consideradas "disfuncionais" ao ambiente

escolar.

pois, explorar o funcionamento enunciados

do disc\ll'so pedagógico,

as condições

de produção dos em

que marcam esses prejuízos sociais, bem como as relações ocupacionais capitalista, evidenciando psicológica, o entrecruzamento de diferentes

uma sociedade discursivas patologia.

formações

- pedagógica,

econômica, jurídica

- na base de um conceito de

Prosseguindo,

chama-nos

a atenção os itens D e E do DSM IV por serem

marcados por aquilo que o sujeito com SA não tem:

"E. Não existe um atraso clinicamente significàtivo no desenvolvimento cognitivo ou no desenvolvimento de habilidades de aulo-ajuda apropriadas à idade, comportamento adaptativo (outro que não na inleração social) e curiosidade a cerca do ambiente na infância. F. Não são satisfeitos os critérios para um outro Transtorno Invasivo do Desenvolvimento ou Esquizofrenia".(1995,pàg. 76)
Estes itens podem mesmo provocar. surpresas, eom tantas faltas,. prejuízos de linguagem e inadaptações, e de cognição. pOIS uma CrIança ou adulto problemas de atraso os

não aprescnta Sabcmos, contudo,

significativo pesquisadores

que, atualmente,

da área vêm demonstrando

interesse

por esses dois aspectos,

buscando

desvelar os problemas

que essas categorias trazem. 1S10,contudo, ao mesmo tempo, que para a compreensão da Síndrome de Asperger, acaba, muitas

traz inúmeros benefícios

vezes, por recolocar a ambigüidade Essa análise do DSM

e a imprecisão quanto à noção de patologia.

IV foi mais um passo de uma des-construção

iniciada e, ao mesmo tempo, mais um elel)lento que me levava a um processo tamhém já desencadeado seguidos. de construção e que me apontava caminhos a relação a serem necessariamente se pusera de forma

Uma nova forma ele conceber

teoria-prátiea

irreversível,

pois a descstabi I ização provocada na minha concepção

pela refíexão teórica que empreendera

proeluzia deslocamentos

de prática clínica e na relação direta com

as crialiças com a SA, em que uma nova "escuta" eomeçava a se instalar. A linearielade

da língua e a necessidade levaram-nos completamente batimento, decidimos,

de expor, de forma metódica, os passos de uma investigação, uma estrutura para csta dissertação que não reflete

a estabelecer

o ritmo real deste processo mencionado, constante entre teoria

pois havia o que AO cbama de dos dados. teóricas Assim, é quc, por

de ir-e-vir por trabalhar

e anúlisc propostas

neste ponto algumas

de Vygotsky

considerarmos

cst~r aí a grandc possibilidade

de se dar um passo, grande, no caminho

da construção sempre provisória.

CONHECENDO

A DEFICIÊNCIA POR OUTRO CAMINHO

Psicóloga Simone Roballo
A Psicologia, segundo desenvolve-se Yaroscheski, que tem social enquanto como objeto o homem, logo, é

em uma formação

principio

explicativo;

produzida por forças político-sociais e ideológicas em conflito e confronto e sujeita a influência dessas forças. Por isso, justifica o autor, a Psicologia apresenta diferenças radicais em sua orientação metodológica, logo, social e política, nos paises em que as forças produtivas se organizam diferentemente. A caracterização dos quadros patológicos, dentre eles o da Síndrome de Asperger, pode ser pensada, elltão, como uma proposição que integra esse campo disciplinar e, que portanto, podermos encontrar significa encontra-se, também, vinculada à(s) ideologia(s). Daí, mentais, assim considera a e uma visão social, o que duas vertentes na definição dos transtornos

denominadas por Yaroscheski: uma médico-psicológica que a primeira

seria a-social ou não-social, ou melhor,

cientificidade como sendo marcada pela neutralidade. Tunes, Rangel e Souza (1992), em um artigo sobre a deficiência mental, denominado "Sobre a deficiência Mental", articulam essas vertentes com a concepção de desenvolvimento humano, e falam, então, da existência de concepção "naturalista" e de uma concepção "social" dividindo o campo de trabalho da Psicologia. Outra questão Importante, que merece destaque nessa análise discursiva sobre a construção dos diagnósticos que possibilitam re-conhecer e caracterizar os quadros patológicos defendidos pela Psicologia, é o seu caráter empírico. Como sabemos a caracterização do quadro clínico de uma patolog'ia ou deficiência é definida pelo Manual Diagnóstico e Estatistico de Transtornos Mentais 4a. edição - DSM IV (1995) _ e considerado, hoje, como a classificação oficial que deve ser aplicável a vários "A utilidade e a de contextos com finalidades clínicas, educacionais e de pesquisa, é legitimado sob uma base empírica como podemos encontrar dito em sua introdução: credibilidade do DSM IV exigem que seu foco (...) esteja apoiado por uma ampla base empírica" (APA, 1995, pág.XV), o que revela sua coerência com os fundamentos uma ciência moderna dominante.

A Psicologia/Medicina para se firmar como uma disciplina científica, necessita encontrar-se "no verdadeiro", ou melhor, responder às exigências de forças políticas e ideológicas em alianças, conflitos e/ou confrontos. Tal proposição nos remete ao conceito de formação discursiva da Análise de Discurso referida a uma formação ideológica, que pensamos ser importante explicitar:

"A formação discursiva, se define como aquilo que determina o que pode e deve ser dito, a partir de uma formação ideológica, ou seja, a partir de uma posição dada em uma conjuntura sócio-histórica determinada" (Orlandi, 1999b, pág.43) Interessa-nos, portanto, traçar um paralelo entre a história do pensamento

científico, o surgimento da Psicologia enquanto ciência e a história da doença mental, evidenciando que, a partir do momento em que a Psicologia se firma como ciência e com o modelo diagnóstico c1assificatório daí decorrente, torna-se pouco a pouco oficial, dominante. Como o diagnóstico adquire uma natureza e um funcionamento diferentes, dependendo da concepção de desenvolvimento psicológico adotado, procuraremos, também, analisar os sistemas diagnósticos defendidos por diferentes correntes da Psicologia, a partir das duas grandes vertentes existentes na área de desenvolvimento, considerando constrói. Foucault reafirma, dessa maneira, que o Positivismo do século XIX se baseia nessa dialética, desprezando tudo que há de mítico, opondo-se, assim, ao pensamento clássico, quando afirma que a verdade da loucur'a é a razão do homem e que todo conhecimento a respeito da loucura será a própria razão, o desenlace da alienação. Neste momento histórico do século XIX, a loucura passa a ser vista como um mecanismo patológico da natureza, como uma doença e o que era visto, inicialmente, como espiritual e, depois, como a animalidade do homem que precisa ser
. I

propostas por Tunes e cols (1992): a naturalista ideológico através do imaginário

e a social,

o funcíonamento

que então se

domesticada, passa, então, a ser vista como uma alteração do sistema nervoso, do cérebro, localizada no corpo. É o início de uma visão que podemos denominar, naturalística, que recebeu grandes contribuições de Philippe Pinel, ao buscar nos.

aspectos orgânicos e/ou funcionais critérios para diferenciar os quadros de idiotia, retardo, cretinia. Em virtude da preocupação com o diagnóstico, Pinel propôs vários quadros de características ou sintomas através da anatomofisiologia. Para compreendermos melhor essa visão naturalística que se impõe a partir de então,

é importante ressaltar que ela não nasce propriamente no século XIX. Quando

. I" . m busca da racionalidade Werner (1997) fala da ruptura do pensamento teo OglCOe . científica, vinda com o Renascimento, ele evidencia como este também carregou em uma transformação no que se refere
SI

à concepção da Humanidade: o home~ passo~ a

ser seu próprio ponto de referência e não mais Deus. A busca.da compreensao da Vida

. .,

-

humana não estava mais na religiosidade, mas no "dom da inteligência" e no próprio corpo do homem. Assim, no século XIX, em um outro momento histórico, vemos uma

preocupação em se conhecer as origens do homem e várias teorias sendo elaboradas com essa finalidade, podendo ser englobadas no que chamamos de corrente

naturalística: teoria da evolução espontânea; o criacionismo, teoria da origem do homem por criação e a teoria da evolução de Charles Darwin. Esta última considera que os seres vivos são sistemas capazes de se auto-replicar e, ao longo de sucessivas gerações, evoluir. Essas replicações dariam origem a mutações, que sofreriam a

atuação de forças seletivas, justificando a idéia de evolução. A evolução ocorreria pela seleção natural. A teoria de Darwin trouxe uma nova - ou antiga deslocada? - contribuição às forrilas de vinculação do indivíduo com o melo: as das conexões de adaptação e de acomodação, contradição abolindo e/ou negando a tensão entre os contrários, própria ou seja, a

indivíduo-sociedade

de uma sociedade de classes como a

capitalista. Como na sua teoria em que a seleção natural destruía aquilo que não estava a serviço da adaptação, as funções psíquicas também foram consideradas instrumentos de sobrevivência e de adaptação ao meio, importantes fatores de

evolução. O princípio de adaptação ao meio explica as particularidades individuais, de acordo com essa concepção, sendo que o organismo é impulsionado a agir não só pela ação dos instintos, mas pelo próprio meio que obriga o organismo a adquirir novas formas de reação. (Yaroscheski, 1983) Esse movimento evolucionista se expandiu, atingindo, portanto, as Ciências

Sociais, aparecendo o darwinismo social, movimento que busca explicar as diferenças raciais, sociais e culturais entre os homens, fundamentando-se nos aspectos

biológicos, ou melhor, na hereditariedade. Galton estudando as diferenças individuais, concluiu que as diferenças de ordem psicoiógica devem ser explicadas a partir das diferenças corporais, ou seja, pela herança genética. A psiconeurologia, um campo médico-psicológico, interessou-se em explicar o problema estudo de certas peculiaridades do indivíduo realidades psíquicas especiais. O das perturbações nervosas e psíquicas que levam a alteração do

comportamento

buscava sua causa na anatomia.e na histologia do sistema nervoso.

Podemos, explicação realidade

assim,

evidenciar

que as teorias

evolucionistas

forneceram

uma

naturalística psíquica

para os fenômenos

humanos e compreender por naturalistas: a instauração

mesmo porque a médicos, fisiólogos,

foi inicialmente

explicada significaram

biólogos e físicos. Tais explicações naturalizada

definitiva de uma visão psicológicas. e

sobre o homem, adotada

ainda hoje por diversas correntes de uma memória

Temos, aí, pois, discursos fundadores sentidos irão se constituir, e emergindo

discursiva em que sujeitos pré-construído, e de um sentido

ainda hoje no dito enquanto

elidindo a realidade

do discurso pelo efeito de um sujeito fundante em que se constituem

primitivo. Discursos fundadores sujeito-psicólogo. Gould (1991), discordando também,

posições de sujeito, como a de

faz críticas

as posições

do determinismo

biológico, as difereuças que as

do darwinismo entre raças.

social, que afirma que o biológico determina Segundo este autor, os biólogos

entre pessoas, diferenças

já reconhecem

genéticas entre as raças são muito pequenas. Para Gould (1991), a evolução pela mudança nas sociedàdes e não a evolução biológica. "Os

cultural é a responsável

argumentos clássicos do determinismo bioiógico fracassam porque os caracteres que invocam para estabelecer diferenças entre grupos são, em geral, produtos da evolução cultural."
(Gould, 1991 ;347). A grande contribuição unidade entre a evolução de Darwin, na opinião deste autor, é o reconbecimento e das demais espécies. Entretanto, da

humana

Gould (1991)

afirma que a peculiaridade evolução, processos própria a cultural, que

do homem permite

vai permitir a introdução conhecimento

de um outro tipo de por

transmitir'

e comportamento

de aprendizagem base biológica

ao longo de gerações.

Ou seja, para Gould (1991 ;347) a permite a descaracterização do

do caráter

único do homem

determinismo exclusivamente

biológico, pois a inteligência do homem, que é um fundamento

biológico

humano é a base da cultura, e esta por sua vez vai criar um novo tipo de

evolução, a mais rápida e mais eficaz que a darwiniana. Para que pudéssemos pela Psicologia/Medicina, campo disciplinar Positivismo analisar o sistema atual classificatório se fez necessária essa análise discursiva de doenças utilizado da constituição do

da Psicologia,

que nos levou a concluir sobre o lugar central que o de seus instrumentos como

ocupa nessa história, e, portanto, na elaboração

os diagnósticos.

Como vimos, a Psicologia sc tomou vcrdadeiramente

ciência com o Positivismo,

quando a natureza da ciência afirma-se pela adoção do método empírico-experimental, distanciando-se estabelecer das especulações íilosófieas e procuranelo servir-se da lógiea para

seus objetos e metodologias.

Sob esse legado, a Psicologia

iniciou-se como

ciência formal. Ao buscarmos compreender percebendo a história ela Psicologia no mundo ocidental, fomos

que esse caráter positivista

que está na fundação dessa ciência persiste até uma árca fortemente é que podemos firmada sob os encontrar na

os dias de hoje, como no caso dos diagnósticos, critérios do racionalismo e cmpirismo.

E assim

"introdução" Mentais, marcados

da última versão do Manual

Diagnóstico

e Estatistico

de Transtornos critérios claras e

4'. edição - DSM IV (1995), objeto de análise dessa dissertação, por um tipo de cientificidade, capazes de classificar produzindo indivíduo efeitos de verdades

transparentes,

qualquer

pertencente

a qualquer

grupo

social e a qualquer cultura: "Acreditamos que a principal inovação do DSM IV não está em quaisquer de suas mudanças específicas no conteúdo, mas sim no processo sistemático e explicito pelo qual foi elaborado e documentado. Mais do que qualquer outra nomenclatura de transtornos mentais, o DSM IV está baseado em evidências empíricas" (APA, 1995). Em relação à formação do.s conceitos, Foucault (.I 986) também escreveu algo

que nos interessa discutir por estarmos tratando dos conceitos de normal e anormal, em sua historicidade, no campo da Psicologia. Para ele, não se trata de descrever mas de detenninar os

conceitos, de fazer seu levantamento, de esquemas conceitual como os enunciados

de classificá-lo, estão ligados.

segundo o tipo a formação Segundo

O que vai determinar estão relacionados.

é maneira

pela qual os diversos

conceitos

Foucault, "para analisar a formação dos conceitos não é preciso relacioná-los nem ao horizonte da idealidade nem ao curso empírico das ídéias" (pág.70). Com diagnósticos base nesses definidos trabalhos é que questiono a universalidade dos transtornos dos critérios que são

nos manuais de classificação

mentais,

utilizados para classificar diferentes pessoas, localizadas em diversas partes do mundo e por um tempo indeterminado, outro manual. DSM ou pelo menos, por um tempo, até que se elaborc na classificação a heterogeneidade eliagnóstiea, das situações um o

Apesar de buscar uma homogeneidaele não pode dcixar ele reconhecer

IV (1995)

encontradas

na clínica, quando diz que "também não exíste nele (no DSM IV) a suposição de

que todos os individuos descritos como tendo o mesmo transtorno mental são semelhantes em um grau importante" (APA, 1995, pág. XXI). E para facilitar o diagnóstico incluiu

conjuntos de critérios múltiplos, numa lista longa, onde o indivíduo a ser diagnosticado precisa apenas de apresentar um subconjunto dos itens de critérios. Ora, o que se

percebe é que o DSM IV reconhece a heterogeneidade, dado o estado atual do desenvolvimento Quanto às diferenças profissionais I, um

por não poder deixar de fazê-lo

científico, mas enfatiza o aspecto quantitativo.

étnicas e culturais, o DSM IV sabedor do uso que dele é feita por

de diferentes culturas - de sua eficácia ideológica -, traz em seu Apêndice cultural e glossário para síndromes se apresenta em um modelo ligadas à cultura". e tem como

"Plano para formulação este plano também

Contudo,

categorial

objetivo auxiliar o clínico a determinar o impacto do contexto cultural no indivíduo. Outro trabalho que me ajudou a dar os primeiros passos nesse novo processo construção Vygotsky, de conhecimentos mediada por uma sobre leitura as patologias discursiva em Psicologia foi a teoria principalmente de de os

de seus textos,

referentes à Defectologia. A revolucionário teoria de Vygotsky surgiu na União Soviética, no período pós-

compreendido

entre 1917 e ] 934, e centrou-se

na natureza

históricologo,

cultural dos fenômenos

psicológicos,

tendo por base o materialismo que não as do Positivismo,

histórico,

trazendo outras referências

epistemológicas

do Empirismo

ou do Idealismo, e confrontando-as. ele, como um produto social, produto cultural,

A mente humana passa, então, a ser concebida, por determinado; o homem como um ser acumulada,

historicamente

e sujeito

da história,

e a cultura,

sendo historicamente

influencia o desenvolvimento

do indivíduo.

"Para explicar as formas mais complexas da vida consciente do homem é .imprescindível sair dos limites do organismo, buscar as origens desta vida conscienle e do comportamento "categorial", não nas profundidades do cérebro, ou da alma, mas, sim, nas condições externas da vida e em primeiro lugar, da vida social, nas formas histórico-sociais da existência do homem". Vygotsky desenvolvimcnto elaborou uma teoria geral da Psicologia com enfoque no uma

e em uma perspectíva

analítico-histórica,

o que vai marcar

posição epistemológica no/do desenvolvimento, compreensão

diferente neste campo, pois, além de considerar o aspecto social trouxe o conceito de história, com tudo o que ele implica para a e

de uma formação social, buscando trabalhar a categoria da contradição,

não da oposição, entre indivíduo e a sociedade.

Vygotsky

(1989) considerava

que a concepção

tradicional

sobre

o

desenvolvimento era errônea e unilateral, porque não considerava todos os eixos, "esquecendo-se", por exemplo, do eixo do desenvolvimento histórico, não distinguindo natural e eultural, natural e histórico, biológico e social, quando se pensa no e quando se analisa o desenvolvimento de uma criança. Ou scja, ele considerava que as correntes dominantes - oficiais - tinham uma compreensão inadequada dos fenômenos que estudavam, pois ignoravam o movimcnto histórico e formulavam os problemas de forma positiva e a-histórica. As funções psíquieas superiores e as complexas formas eulturais de conduta, eom suas especificidades de estrutura e funcionamento, não eram investigadas. Por outro lado, fazia-se uma análise elementar e fragmentária dos elementos constituintes dessas formações psíquicas superiores que perdiam, assim, sua qualidade fundamental, pois quando reduzidas a proeessos elementares deixavam de ser
elas mesmas.

Vygotsky

(1989) criticou também a maneira com que a Psicologia

tradicional operava, substituindo o estudo da gênese pela análise da forma complexa de comportamento em diferentes estágios de desenvolvimento, dando uma idéia de que o que se desenvolve não é a forma em sua unidade e totalidade sempre inacabada, mas os elementos agrupados que, em suma, constituem em cada ctapa uma ou outra fase dc dcsenvolvimento de forma articulada. Para cle, a Psicologia não tinha conscguido explicar as difcrenças cntre os processos orgânicos e culturais do dcscnvolvimento e da maturação ao dividir o desenvolvimento em fases estanques, e não conseguia também responder porque determinado comportamento aparecia em determinada idade, nem a partir de quê, nem eomo se desenvolvia. Não trabalhando os conceitos de histórico e cultural, e tratando a estrutura, enquanto algo fechado c completo, essas correntes psicológicas iam penetrando, gradualmente, no fisiológico da atividade nervosa, e o histórico ia se diluindo no natural.. Vygotsky dcfcndeu a tcse dc que a Psicologia aprcscntava uma

complexidadc qualitativa quc só podcria scr apreendida a partir da relação dialética cntrc rcalidadc social c fenômenos tipicamente humanos, como a consciência e a linguagem. Com o materialismo histórico, como artcillto teórico sustentando suas posições, cle pensava o desenvolvimento histórico da sociedade humana cm suas condições materiais de existência, considerando as relações de produção de uma sociedade dada, e não somcntc do espírito humano, como vinha sendo posto pela Psicologia tradicional, quc, quando se refere à história, trata-a como a-social. O aspecto

histórico

das relações

sociais,

na tcoria de Vygotsky

não se refere à história como

sucessão de fatos no tempo ou como progresso das idéias, mas ao modo como o homem concreto, em condições objetivas, cl'ia instrumentos social, reproduzindo-transformando o econômico, e D)rmaS culturais em sua existência o social, o político e o próprio

cultural. (Chauí, 1989) O modelo modelos organicista histórico-cultural e mecanicista, vai conceber o homem como diferente dos (ser é

pois não o considera No modelo

só como um organismo histórico-cultural,

vivo), nem comparável constituído

a uma máquina.

o sujeito

intl'insecamente deparamo-nos

por relações sociais, culturais e históricas. Nesta concepção com uma nova compreensão atribuía importância o modelo epistemológica da relação

de Vygotsky, sujeito-objeto. ao sujeito, princípio

Enquanto o mecanicismo tratando-os

ao objeto e o organicismo estabelece o é

como dicotomias, dialética

histót'ico-cultlll'al

da interação

entre sujeito-objeto

e, considera,

que esta interação

mediada pelas significaçõcs No processos elementares enquanto os

que cada grupo social atribui a cultura. (Werner, 1997). psicológico de processos do ser humano, podemos Os distinguir processos ambientais, e são

desenvolvimento elementares

mentais

mentais

superiores. pelos

são de origem processos por elementos

biológica

e desencadeados possuem origem

fatores

superiores simbólicos,

histórico-cultural a linguagem.

caracterizados pensamento,

priucipalmente,

Nesta forma de para a

o aparato biológico

do indivíduo representa mas não as determina; de desenvolvimento humanas,

a condição necessária a aprendizagem das funções o que

formação das funções complexas, necessário culturalmente aprendizagem complexos e universal

é um aspecto psicológicas que a

do processo

organizadas antecede

e especificamente

significa

o desenvolvimento.

À medida

que os processos

mentais e o para

vão se formando, então,

os órgãos funcionais

cerebrais vão se constituindo, orgânica. Não existe,

desenvolvimento, Vygotsky,

representa

uma mera atividade

um sistema

interno "natural"

para cada função psicológica, a partir do aparecimento por

mas sistemas das funções ou por

funcionais interrelacionados, psicológicas superiores, 1995) as

que são organizados quais podem

realTulllá-los

substituição

compensação.(Lapa,

Este novo modelo psicológico, humano explicado dialético é formado por dinâmicas

portanto,

considera

que o desenvolvimento não pode ser O materialismo

interfuncionais,

e que o psiquismo individuais.

por uma lista quantitativa adotado por Vygotsky

de várias funções

levou a Psicologia

a considerar

a pessoa e a mente

como um todo em movimento e em relação contraditória. Ele desenvolveu leis gerais, uma teoria norteadora para a com]Jreensão do homem concreto. Para Vygotsky (1989), a Psicologia deve, para conhecer o desenvolvimento humano, saber como se formou a estrutura interfuncional de cada um.
A ênfase dada à interação, a
UI11

funcionamento específico entre as funções

elementares e complexas abriu uma nova perspectiva para se pcnsar o problema da patologia, do sujeito-deficiente, que aparece caracterizada em sua obra, "Os

fundamentos da Defectologia" (J 989). Este livro foi publicado em 1983, como parte integrante das Obras Completas de L. S. Vygotsky, editadas em seis tomos e preparadas para sua publicação por seus discípulos e seguidores. Este trabalho constitui a base teórica essencial do desenvolvimcnto da pedagogia especial cientilica. A defectologia, segundo Vygotsky (1989), deve estudar em que condições se dão as variações no processo de desenvolvimento. Nesta dissertação, lizemos uma leitura e análise - primeiras, diríamos - de seu trabalho no campo dessas variações e levantamos algumas hipóteses referentes ao desenvolvimento psicológico da criança com SA, à luz da tcoria histórko-cultural, dando alguns passos na compreensão do

homem concreto com SA, deixando para a tese de doutorado, um estudo mais aprofundado da dinâmica interfllliciona! dos indivíduos com Síndrome de Asperger, considerando os outros caminhos que tive que trilhar para compreender de forma consistente tal modelo. Como foi dito anteriormente, a peculiaridade do descnvolvimento infantil, para Vygotsky (J 989), está no entrelaçamento dos processos do desenvolvimento cultural e biológico, ambos convergindo, influenciando-se reciprocamente e formando uma única série: a formação sociobiológica da personalidade. Na criança deliciente não se observa a fusão desses processos, pois os planos dc desenvolvimento divergem quanto ao grau e a causa da divergência é o defeito orgânico. A defectologia tradicional, no entanto, está impregnada pela idéia de homogeneidade e unidade no proccsso de desenvolvimento infantil; e isto se deve ao fato de que a noção de cultura dominante está organizada em função de Um "tipo biológico humano" ideal, considerando uma formação social dada. Assim, a gradação e a sucessão do processo de apropriação da cultura estão condicionados ao

desenvolvimento orgânico da pessoa e, o desenvolvimento atípico não pode se lixar na cultura como uma forma diferente. Isso me leva a compreender um pouco mais o efeito ideológico da homogeneização tal como é pensado pela AD, ou seja, uma voz social

homogeneizante Vygotsky deficiente

procedendo

ao apagamento

de outras vozes para fazer soar a voz au que essa difieuldade da criança

(1989),

observamos

que ele eonsidel:a

em se inserir na cultura, alcança seu grau máximo psicológico-cultural,

no âmbito próprio do

desenvolvimento

isto é, na árca das funções psíquicas superiores,

do domínio dos procedimentos instl'llmentos cérebro, o pressupõe

e modos culturais de conduta. Assim, como o uso dos biológica do desenvolvimento normal da criança das mãos e do é a premissa

a premissa

desenvolvimento

psicofisiológico

indispensável

para seu desenvolvimento defeito, então, em um

psicológico-cultural. certo sentid,), produz dificuldades para o

o
desenvolvimento culturais diretamente os princípios

cultural,

ou melhor, sendo,

para uma adaptação as limitações das

do sujeito pessoas

aos padrões estão

dominantes. relacionadas,

Assim

deficientes

construídas e estabelecidas o desenvolvimento

pelo social. Para Vygotsky (1989), das crianças normais e defi.cientes uma

que fundamentam

são os mesmos, representando incapacidade.

o defeito uma limitação, mas não, necessariamente,

"En resumidas cuentas, el detecto por si solo no decide el destino de la sociales

personalidad, sino las consecuencias Essa limitação representaria

y su realización sociopsicológica." (pág. 30).
com determinada organização social,

um confronto/conflito

com a forma de lidar com a diferença, ind'ivíduos com defeito provocam

com a alteridade,

ao mesmo tempo, que tais individuais e sociais, bem

no outro, desconfortos

como desestabilizam

em um certo sentido a ordem estabelecida.

Temos aí, no trabalho de Vygotsky (1989), uma referência para se pensar o defeito orgânico, que dificultaria um lugar de bloqueio homogeneida,je, desenvolvimento dos instl'llmentos desenvolvimento a apropriação da cultura pela criança deficiente, como

para a integração

do indivíduo,

uma vez que a lei social é a do

a unidade.

O defeito orgânico

levaria, neste sentido, à limitação

psicológico-cultural psicológicos-culturais histórico (pág.19).

da criança, quc ele define como sendo o domínio criados pela Humanidade no processo do

Neste ponto, gostaria de discutir 'essa questão do defeito como característica da criança com Síndrome de Asperger. Sabemos pela bibliografia o presente incapacidade momento, orgânica, não apresenta evidências de que levantada que SA, até criança teria uma Os

essa

como a slll'dez, ccgueira,

afetando o seu desenvolvimento.

critérios definidores linguagem,

da SA, segunclo o DSM IV (1995), referem-se

ás áreas do uso cla

da interação social e cios padrões comportamentais.

Ora, á luz da proposta

de Vygotsky

(1989) para a defectologia,

podemos

questionar

a própria classificação Seriam realmente essas esses

aplicada aos comportamentos os "defeitos" amplamente diagnosticar da criança analisadas

dessa criança como patológicos. com SA? Poderíamos considerar

"dificuldades", para se

no capítulo anterior, como características uma vez que tais características da criança? Não

determinantes se referem esses

uma patologia,

às áreas do padrões de

desenvolvimento compol1amento

psicológico-cultmal

seriam

já um produto, um resultado da interação do sujeito com SA com uma

sociedade que não sabe lidar com a diferença? Pensando numa perspectiva vygotskyana, qual seria, então, realmente o defeito das funções elementares Para Vygotsky tempo que dificultaria obtenção (1989), o defeito possuiria na SA? ao mesmo

uma dupla função:

para a criança trilhar os mesmos caminhos da criança normal na estimularia a busca de outros caminhos, conduzindo-a

dos fins pretendidos, compensatórios.

aos processos Vygotsky engajaria

A lei de compensação à deficiência

é o postulado central da teoria de Toda criança com defeito se

no que diz respeito numa via

orgânica. um

compensatória,

alcançando

desenvolvimento

diferente.

Compensação psicológico,

não significaria significaria

aí uma substituição,

mas um processo criativo, orgânico, Podemos pensar de não-

estimular capacidades

a partir da deficiência. de. rupturas, por

no desenvolvimento sentidos novos, em

da criança com defeito em termos re-significação, pois

de produção caminhos

ela se desenvolve orgânico

convencionais.

E a criança

com SA, sem defeito

comprovado,

por quais

caminhos estaria se desenvolvendo? I~ importante ressaltar, mais uma vez, que, até hoje, não se encontrou considerando
O

na

Síndrome de Asperger nada de específico, médicas, que justificassem seu diagnóstico

exame físico e as condições

como patologia. No entanto, apesar do DSM (talvez porque ainda não se do a

IV (APA, 1(95) não fazer menção à etiologia da Síndrome têm evidências empíricas precisas - uma exigência

para garantir a "cientificidade"

DSM), há hipóteses sobre a possibilidade

de alguma disfunção cerebral para justificar genéticas.

SA, além das referentes a uma alta freqüência de. incidências

No entanto, parecem existir nas crianças com SA diferenças em suas funções psicológicas superiores. Observa-se, por exemplo, que essas crianças apresentam um

hiperdesenvolvimento defeito orgânico,

da memória. Talvez se fosse comprovada justificar

a existência

de algum

pudéssemos

um outro tipo de configuração (1989) considera, psíquica

das funções que uma desta

psicológicas função

superiores,

pois Vygotsky

em seu tratado, diferente. Nos

alterada

vai determinar

uma estrutura

limites

dissertação, momento: dificuldade

no entanto,

levanto apenas como hipótese

a ser aprofundada

em outro de uma

a de que o hipcrdesenvolvimento referente

da memória poderia ser decorrente

à atenção seletiva. Talvez os individuos com SA não consigam
seletiva, sendo, contudo, de análise importante - na

passar da atenção

difusa, geral, para a atenção pela palavra

pensar na função exercida construção-reconstrução perceptivo, considerando

- uma categoria

complexa

da atenção, enquanto centro móvel e dinâmico

para o campo A

que o sentido estável - literal - é produzido historicamente. o contato social, interação, linguagem,

forma, então, de estabelecer

seria diferente, e atenção difusa, daquela

marcado por essas funções psicológicas: que poderiam ser compreendidas

memória super-desenvolvida como lugares de

funcionamento

heterogeneidade

mostrada. o nosso processo de análise e compreensão da obra de

Mas, continuemos

Vygotsky (1989). A sua teoria de compensação

baseou-se nas idéias de Adler, W. Stern quc
O

e T. Lipps, que de uma maneira geral, consideram potencial que é ativada por situações

organismo possui uma reserva

dc perigo, e reage com muita mais força que
O

aquela necessária

para parar o perigo. Desta forma,

organismo

não só compensa

O

prejuízo causado, como aumenta consideravelmente A compensação que é inerente

sua proteção. e muito do

dá origem a um novo tipo de desenvolvimento, "normal" desaparece

ao desenvolvimento

ou se reduz em função do (1989), que se forma a

defeito. De forma semelhante peculiaridade secundária, do psiquismo

se podc dizer, segundo Vygotsky da pessoa deficiente, originando

uma formação psicológica sua insuficiência .

e nestas condições

ainda não se pode sentir diretamente

física. A ação do defeito na personalidade

da pessoa deficiente, acaba sendo secundária, seu defeito, mas percebe as dificuldades sociais de ser diferente. O defeito

indireta, pois o indivíduo não sente diretamente que resultam dele, ou melhor,

as conseqiiências

funciona como uma "luxação social", sua conseqüência direta é o decréscimo em sua posição social, o que significa que a interação, a comunicação sujeito assimétricas e hierarquizadas em função da deficiência. vai criar uma posição psicológica de dar-se-á entre posições de

O defeito,

que conduz à compensação,

peculiar para a pessoa deficiente, que Adler, citado por Vygotsky (1989) denominou sentimento de menos-valia, ou seja, uma valoração psicológica decorrente

da sua

própria situação social.

Vygotsky

afirma com muita propriedade

que somente através da criança, ideológicas

dessa posição é que poderíamos ou melhor, não do defeito

notar a ação do defeito no desenvolvimento mas, o defeito sustentado por formações

dominantes.

Diríamos que temos aí o estabelecimento

de uma forma de iudividualização

do sujeito em relação a uma sociedade, a um Estado. O que Vygotsky secundária (1989) vai, pois, denominar originada de formação pelas condições psicológica materiais

ou posição psicológica

de menos-valia

de existência considcrando

do indivíduo em uma sociedade dada, podemos analisar discursivamente, a categoria da forma-sujeito o indivíduo e o seu processo histórico - e inconsciente como sujeito-deficiente, pela ideologia, sujeitoe não em -

de constituição: menos-capaz,

com defeito se constitui

por sua filiação a redes de sentidos já existentes,

pelo defeito físico que apresenta.

Estão em jogo, portanto, formações

imaginárias

que cada sujeito "sabe" o lugar a ser ocupado enquanto deficiente. (1988), algo fala sempre antes, em outro lugar, sob o domínio

Segundo Pêcbeux das formações e o

ideológicas.

É nas formações

discursivas

que o sujeito adquire

sua identidade

sentido sua unidade,

é este o lugar em que o sujeito reconhece

sua relação consigo

mesmo e com os outros sujeitos. As palavras formações representadas ideológicas em relações

mudam de sentido de acordo com as conilitos e confrontos, que são dos -, no

de alianças,.

pelas formações

discursivas.

Aí se dá o processo

de constituição

sujeitos e dos sentidos, pela inscrição em uma memória do dizer - o interdiscurso domínio dos dizeres já-ditos que garantem a formulação Mas, paradoxalmente, o desenvolvimento em um processo dificultado do que será enunciado. vai

por um defeito

se constituir, de

criador, novo, de reconstrução, por Vygotsky de caminhos

com surgimento

novas vias de ação, denominadas Educação

isotrópicos.

O papel da

Especial seria, então, o de descobrir novas "vias colalerais de desenvolvimento 1989, pág.43), como a de historicizar a relação da criança com e na com crianças

cultural" (Vygotsky: sociedade. Vygotsky

critica a forma como as escolas especiais trabalham

portadoras de defeito e, apesar de seus escritos datarem da década de 30, ainda hoje suas críticas se fazem atuais: Essas críticas incidem, principalmente, sobre a falta de de

fundamentos procedimentos sensorial, daquelas

e princípios

para a educação mecanizados, superficiais

do deficiente, treino

o que leva a adoção

pedagógicos

comportamental,

estimulação

ou seja, atividades vias entendidas

que não vão contribuir

para a descoberta

como compensatórias psicológica

e, sim, reforçar ainda mais o defeito, secundária a que Vygotsky se referiu,

contribuindo

para a formação

produzindo o sentimento de inferíoridade. Ao secundária se falar do sentimento de menos-valia, da formação psicológica

decorrente

dos efeitos sociais, gostaria de retomar uma questão, penso que

importante,

levantada no decorrer deste trabalho referentes a~s sujeitos com SA, e que a da rcsistência. Talvez possamos considerar que os

será tratada no quinto capítulo: padrões de comportamento (APA,1995)

referentes à linguagem

e à interação social, que o DSM IV

trata como déficits ou prejuízos para c1asüficar a síndrome, sejam formas com a diferença, com de Asperger são

de reação a uma sociedade que não sabe lidar institucionalmente alteridade, considerando

que, em sua maioria, os casos da Síndrome

diagnosticados

com a entrada da criança na escola. pensar, assim, nos padrões de comportamento apresentados pelos

Podemos sujeitos
COIll

SA, apontados pelo DSM IV como "prejuízo

severo

e persistente na interação

social, desenvolvimento de padrões restritos e repetitívos de comportamentos, interesses e atividades" (1995, pág.74), como comportamento de resistência da sociedade. da maioria dos métodos de não caracterizam o dos sujeitos com SA

contra as exigências de unidade e homogeneidade

Vygotsky (1989) critica a concepção quantitativa diagnósticos,

pois estes somente revelam o grau de insuficiência,

defeito, nem levam em conta a estrutura da personalidade relação à formação defectologia social. Para Vigotsky também

originada pelo problema em para o problema da

esse tipo de explicação

influencia

o trabalho educacional

de crianças com deficiências, a

pois como a percepção

acerca destes alunos é a de que eles são "menos capazes", para reforçar esse imaginário, imaginário

prática tenderá a oferecer menos contribuindo construído historicamente pedagógica.

em uma formação social dada, que norteia e sustenta a prática então, uma compreensão do discurso pedagógico, pelo

Ganha importância,

lugar estratégico ocupado pela Escola. Silva (2000 b), em sua tese de mestrado "Um lugar de visibilidade deficiente enunciativo mental", já mencionada nesta disseltação, ocupa-se do sujeito

do funcionamento uma posição-sujeito

do sujeito-instituição.

Ela verifica como se constrói

através da denominação do Desporto (SEESP),

"Secretaria de Educação Especial" do Ministério da Educação e que se apresenta como enunciadores originários do

funcionamento

das Escolas

de Educação

Especial.

Tais instituições

se caracterizam, por um verdade

segundo Silva, por uma radical impessoalidade, enunciador incontestável deficientes, mostrando universal, dão ao acontecimento

cujos enunciados, lingüístico
O

sustentados caráter de

e de fixidez do dito. Quanto ao papel da escola em relação às crianças Barbosa (2000), também, trata em seu artigo, da questão da denominação, a "deficiência" como um termo usado para pessoas que têm um modo de diferente daquele que é valorizado pela escola.

vida social, cultural, drasticamente

Silva, citando Orlandi (1996), neste mesmo trnbalho, classifica pedagógico, assim como o discurso jurídico, como autoritários. como e funciona transmissor efetuando de informações, dá

o discurso

O discurso pedagógico, a estas um caráter através de da

ao apresentar-se cientificidade, metalinguagem, pedagógico

designações

e fixando

definições,

em detrimento

do conhecimento

do fato e do referente.

O discurso legitimado;

garante o dizer institucionalizado,

o saber é assim valorizado,

dizer é o mesmo que saber. Vygotsky, referências, moral" em seu tratado de Defectologia (1989), observo que ele faz

também, porém em menor proporção, insana), considerado um tipo

ao que ele chamou de "deficiência espe,cial de defeito orgânico ou é um

(moral

enfermidade. complexo

Aquilo que se tomou por um defeito orgânico ou uma enfermidade da disposição psicológica,

sintomatológico

peculiar de crianças socialmente social, sociológico, e não

desorientadas, biológico.

é um fenômeno

de ordem

psicológico,

Vygotsky definiu essas crianças como aquelas que manifestam

amoralidades

e violam as normas morais gerais, como as menores prostitutas, educar, e acrescenta, mor,al ou a demência. conduta vinculados ainda que esse nome, a insanidade moral,

as crianças difíceis de expressa a loucura de

Aqui, mais uma vez, vemos as questões morais, os problemas

à loucura, assim como escreveu Foucault (1997). A sensibilidade
moral, e/ou a ela na sociedade ser ser

antes religiosa, na Idade Média, passa, na era Clássica, à sensibilidade se articula, brasileira. acolhido, excluído. Em sua dissertação moral, que se legitima, prevalecendo até hoje de forma marcante,

principalmente

O louco não era mais aquele que vinha de outro mundo e precisava mas um problema de polícia, vindo daqui mesmo e por isso precisava

de mestrado, Silva (2000 b) faz referência ao discurso da para que os bons costumes sejam mantidos na/pela

cuidando

sociedade e, portanto, revelando um funcionamento manter o controle dos sentidos

circular, repetitivo, com objetivo de Segundo a autora, no

para que esses não deslizem.

discurso médico não se tem sujeito, se tcm a deficiência. indivíduo com falta, mas funcionando

Já no discurso moral, tem-se o porque a sociedade da deficiência é

como se ela não existisse, a superará,

dela tomará conta ou o esforço individual preenchido por esses dois discursos:

O não-sentido

o médico lhe dá o caráter científico,

dá-lhe um

nome, uma explicação,

enquanto o moral social diz como administrar

esse não-sentido

para fazer sentido numa sociedade. "Ao preencher a falia com o,sentido da moral, não se faz trabalhar o não-sentido que a falia coloca para o sujeito afetado por ela e para os outros". A

sociedade

preenche

o não-sentido

por

sentidos

que

lhe pareçam

"confortáveis",

administrando-os

através da moral ou da ciência. citadas por Vygotsky em seu Tratado de Defectologia com a insanidade moral, uma que violam nãode

Dentre as patologias (1989), poderíamos relacionar

a Sindrome de Asperger

vez que os critérios definidores as regras morais, sociais,

de tal patologia, seriam os comportamentos

ou seja, entendidos

por nós como comportameotos classificar os déficits da SA.

convencionais,

não-institucionais.

É assim que poderíamos

interação, de linguagem, Vygotsky para demonstrar socioeconâmicas indivíduo,

considerados

pelo DSM IV como determinantes ainda, os trabalhos

(1989) menciona,

de Blonski, Zalkind e col.

que se deve buscar a causa da deficiência moral no meio, nas condições e cultural-pedagógicas nas quais o indivíduo foi criado e, não, no moral é

fortalecendo

as nossas hipóteses e conclusões.

A criança deficiente

uma criança "desorientada" orgânica inata. Diriamos

no aspecto social e, não uma criança com uma deficiência também que essa desorientação de Pedagogia é produzida histórica e

culturalmente. Vygotsky

O Congresso

Alemão

Terapêutica,

em 1922, foi para moral como

um marco na perspectiva

de recusar a concepção

de insanidade

uma enfennidade. dos sentidos,

A insanidade moral não deve ser entendida, da vontade ou deformidade

pois, como deformação mas

defeito congênito

de algumas funções,

deve ser encarada como uma deficiência da educação moral do indivíduo. No entanto, as considerações mais atuais acerca do diagnóstico da SA

tentam buscar na deficiência dificuldade reconhecer

orgânica inata as explicações

para o que eles consideram chegam a estados de

das crianças SA no uso das capacidades que os indivíduos com SA possuem

sociais. Tais concepções o conhecimento

de atribuir

mentais aos outros, porém esses teóricos acreditam aplicar csses conhecimentos

que os SA tenham dificuldade inferem a respeito

a vida real. Nesse sentido,

de uma

disfunção na região pré-frontal relação dialética entrc

do cérebro como causa dessa dificuldade. e sociedade proposto pela teoria

Com base na de Vygotsky, uma falta, mas por uma diferencia

indivíduo

consideraríamos

que não se trata de disfunções

orgânicas para justificar

de uma a resistência

do sujeito - SA em interagir em um meio que sustentado de menos-capaz. Vygotsky

ideologia o coloca no lugar de sujeito-deficiente, o desenvolvimento de uma função psicológica da função psicológica

e o uso dessa função. Para ele o uso e

revela a interiorização está relacionada

superior, é uma função auto-reguladora

à vontade. Portanto, vemos, pois, ainda, nos dias de hoje, a tendência
diversas vezes nesse trabalho, de buscar no indivíduo a

da ciência, como já afirmamos

explicação

de padrões de comportamentos

diferenciados"que

esses teóricos consideram

"diminuídos",

apagando o fator histórico-social, da Psicologia, segundo

e porque não dizer político, Vygotsky (1989), que procuravam

As teorias

entender o indivíduo como um todo e não a partir de suas partes, sentiram a necessidade de entender a criança na relação com o meio. Molozshavi, considera que se analisarmos características, tendem de forma isolada citado por Vygotsky com deficiência (1989) moral, que são

as crianças

encontraremos seus interesses

como grosseria, negligência, de necessidades

egoísmo, observaremos elementares, que não

à satisfação

inteligentes, dolorosas.

que têm pouca vivência e uma sensibilidade Essas propriedades formariam

reduzida diante de situações em que o outro que a as

o caráter. Mas num experimento

meio, as condições aspeeto:

de produção fossem alteradas, essas propriedades amáveis, vivos e sociais. Molozshavi conclui

adquiriram dizendo

mais terno,

diminuição

de sensibilidade

da criança

seria uma reação

de autodefesa

eontra

influêneias patológicas Vygotsky aparente,

do meio. se referiu, ainda, ao que ele denominou inadaptabilidade de Psicopatia ilusória ou mas

que não pode explicar a profunda que a faz eonstitutiva

social do indivíduo,

produz um imaginário ideológica

de uma formação e psicológicos

social e que funciona são tão importantes

e politicamente.

Os fatores sociológicos

no desenvolvimento defeito

de uma criança que muitas vezes podem produzir a ilusão de um evidenciando que não estamos tratando de coisas do

ou de uma enfermidade, o que vem de encontro da SA.

empíricas, diagnóstico

com o que propomos

para a re-siginifieação

I

A proposta de defectologia que a deficiêneia

de Vygotsky (1989) tem, pois, como pressuposto da criança deficiente

não é um sistema de defeitos. O desenvolvimento

é visto, pois, como diferente e, não, eomo deficiente. Haveria uma variação qualitativa e
não quantitativa. O importante é eonhecer a estrutura e o funcionamento internos do

defeito. O seu trabalho,

nessa área, mereceu destaque,

pois se ocupou de conhecer a de crianças acerca

gênese dos defeitos primários e identificou no processo de desenvolvimento deficientes, sintomas secundários

e terciários, revelando com isso a compreensão da personalidade

das particularidades

da estrutura e funcionamento de se entender

da criança anormal. se deve a uma quer dizer, psíquieas

Essa forma diferenciada concepção político, superiores.

o problema

do patológico

de desenvolvimento desempenha papel

histórico-cultural, preponderante na

onde o histórico-social, formação das funções

Silva (2000 b) trab'alha analisando um funcionamento

em sua dissertação o efeito ideológico do diferente, disclJrsivas, em que o sujeit~ se

em que as formações

inscreve, determinam de.ficiente é diferente

o seu dizer, o que produz certos efeitos de sentido. Dizer que o pode ser uma forma de mascarar o termo socialmente, porque

como não é o sujeito que controla os sentidos, o diferente, que não é igual ao normal, vai signi Ficar deficiente. A concepção numa visão quantitativa elo dcfeito está baseada, nunca é demais repetir, como algo "natural", que o define como um

de desenvolvimento quantitativo

crcscimento

e como um aumento das funções psicológicas

e orgânicas que a patologia

já estão pré-determinadas

pelo biológico. De acorelo com esta perspectiva, desse desenvolvimento.

seria uma limitação quantitativa A defectologia qualitativa,

atual deve se basear numa concepção

de desenvolvimento

onde desenvolvimento,

segundo W. Stern, citado por Vygotsky (1989) seria do um

"uma cadeia de metamorfose". A partir deste ponto ele vista, o fator da singularidade indivíduo passa a ter um papel preponderante, qualitativamente pois a peculiaridade representaria

desenvolvimento de crianças

diferente e não ele menos capaz. O desenvolvimento características próprias, a criança deficiente porém por o de

com problemas

assumiria

atingiria o desenvolvimento caminhos diferentes reconhecer

de funções elementares

em funções superiores,

da criança normal. Trata-se, cntão, de um trabalho complexo ela criança com defeito, ou seja, o de reconhecer

a peculiaridade

a diferença

e criar conelições para que a criança possa atingir e desenvolver

suas funções superiores.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful