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A Crucificação : Uma visão médica

Dr. C. Truman Davis

Anos atrás eu fiquei interessado nos as- técnica dos cartagineses e, como era comum os roma-
pectos físicos da paixão, ou sofrimento, de Jesus nos fazerem com qualquer outra coisa, eles rapidamente
Cristo quando li uma explanação da crucificação desenvolveram um grau muito alto de eficiência e habi-
no livro de Jim Bishop, “O dia em que Cristo lidade nesta técnica. Um número grande autores roma-
morreu”. De repente me dei conta de que eu tinha nos, incluindo Lívio, Cícero e Tácito, comentaram
simplesmente aceitado a crucificação por todos sobre isto.
aqueles anos — que eu tinha me tornado calejado Várias inovações e modificações são descritas
quanto a seu horror por causa de uma familiarida- na literatura antiga. Apenas uns poucos têm alguma
de muito grande com os detalhes sinistros. Final- relevância aqui. A porção superior da cruz, o tronco,
mente me ocorreu que, como médico, eu nem tinha o patíbulo, isto é, os braços, afixados mais ou
mesmo sabia qual a real causa imediata da morte menos entre 60 e 90 cm do topo. Este é o pensamento
de cristo. Os escritores do evangelho não ajudam atual a respeito da forma clássica da cruz, usualmente
muito neste ponto. Como a crucificação e o açoite chamada de cruz Latina.
eram tão comuns durante sua época, eles sem A forma comumente usada nos dias de Jesus,
dúvida consideraram uma descrição detalhada entretanto, era a cruz Tau, formada como a letra grega
supérflua. Por esta razão nós temos apenas as de mesmo nome, a qual se parece com a nossa letra T
resumidas palavras dos evangelistas: “Pilatos, maiúscula. Nesta cruz o patíbulo era colocado em um
tendo açoitado Jesus, o entregou a eles para ser entalhe feito no topo do tronco. Existe excelente evi-
crucificado... e eles o crucificaram.” dência arqueológica que este foi o tipo de cruz na qual
Apesar do silêncio do relato do evange- Jesus foi crucificado.
lho sobre os detalhes da crucificação de Cristo, A parte superior da cruz, entretanto, era geral-
muitos olharam para este aspecto no passado. Em mente permanentemente fixa no solo no local de execu-
meu estudo pessoal do evento a partir de um pon- ção. O condenado era forçado a carregar o patíbulo,
to de vista médico, eu sou grato especialmente à aparentemente pesando cerca de 55 quilos, da prisão até
contribuição do Dr. Pierre Barbet, um cirurgião o local da execução. Entretanto, sem nenhuma prova
francês que fez exaustiva pesquisa histórica e histórica ou bíblica, pintores da época do Renascimen-
experimental e escreveu extensivamente sobre o to nos deixaram pinturas de Cristo carregando a cruz
assunto. inteira. Muitos pintores e a maioria dos escultores de
Uma tentativa para examinar o infinito crucifixos também cometem um erro em mostrar os
sofrimento do Deus Encarnado em expiação pelos cravos perfurando as palmas das mãos. Relatos históri-
pecados do homem caído está além do objetivo cos romanos e trabalhos experimentais têm demonstra-
deste artigo. Entretanto, os aspectos fisiológicos e do que os cravos eram colocados entre os pequenos
anatômicos da paixão de nosso Senhor podem ser ossos do pulso e não entre as palmas das mãos. Cravos
examinados detalhadamente. O que o corpo de pregados entre as palmas rasgariam a carne entre os
Jesus de Nazaré realmente suportou naquelas dedos quando eles suportassem o peso de um corpo
horas de tortura? humano. Este conceito errado pode ter se originado a
partir das palavras de Jesus a Tomé: “Observe minhas
O método da Crucificação mãos”. Anatomistas modernos bem como antigos,
entretanto, sempre consideraram o pulso como parte da
Esta questão levou primeiramente a um mão.
estudo da prática da crucificação — isto é, a tortu- Uma placa pequena, conhecida como titulus,
ra e execução de uma pessoa pela fixação dela a descrevendo o crime da vítima, era usualmente carre-
uma cruz. Aparentemente, o primeiro uso conhe- gado na frente da procissão e mais tarde pregado na
cido da crucificação foi entre os persas. Alexan- cruz acima da cabeça. Esta placa, pregada no topo da
dre e seus generais trouxeram a prática da crucifi- cruz pode ter-lhe dado de algum modo a característica
cação do mundo mediterrâneo, para o Egito e da cruz Latina.
Cartago. Os romanos evidentemente aprenderam a
A paixão física de Cristo começou no em resposta aos apelos da multidão de que o Procurador
Getsemane. Dos muitos aspectos de seu sofrimen- não estava defendendo os interesses de César correta-
to inicial, aquele que é de particular interesse mente contra aquele mentiroso que dizia ser o Rei dos
médico é o suor ensangüentado. É interessante Judeus.
notar que apenas o médico Lucas menciona esta Não se pode afirmar se os romanos fizeram
ocorrência. Ele diz, “E estando em agonia, orava qualquer tentativa de seguir a lei judaica sobre o açoite.
mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se Os judeus tinham uma lei antiga proibindo mais do que
tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra” quarenta chibatadas. Os fariseus, sempre querendo se
(Lc 22:44). certificar de que a lei fosse estritamente cumprida,
Os estudiosos modernos tem usado todas insistiam que somente trinta e nove chibatadas fossem
as maneiras imagináveis para explicar o fenômeno dadas. Em caso de erro na contagem, eles podiam estar
do suor de sangue,. Aparentemente sob a errada certos de que não tinham quebrado a lei.
impressão de que ele simplesmente não ocorreu. Preparações para o açoite de Jesus eram feitas
Uma grande quantidade de esforços poderia ser de acordo com a ordem de César. O prisioneiro era
poupada através da consulta à literatura médica. despido de suas vestes, e suas mãos atadas a um poste
Embora muito raro, o fenômeno da hematidrose, acima de sua cabeça. O legionário romano tomava
ou suor de sangue, está bem documentado. Sob posição com o chicote, também chamado de flagellum,
grande estresse emocional, finos vasos capilares em sua mão. Este era um chicote curto consistindo de
das glândulas de suor podem se partir, misturando várias pesadas tiras de couro, com duas pequenas
então suor com sangue. Somente este processo já bolas de chumbo nas pontas. O pesado chicote era
é capaz de produzir grande fraqueza e possivel- brandido então com toda a força várias vezes contra os
mente choque. Embora a traição e prisão de Jesus ombros, costas e pernas de Jesus. A princípio as pesa-
sejam partes importantes da história da paixão, o das tiras de couro cortavam apenas a pele. Então, à
próximo evento no relato que é de significante medida que prosseguiam as chicotadas, elas cortavam
interesse do ponto de vista médico é o seu julga- mais fundo nos tecidos subcutâneos, produzindo pri-
mento perante o Sinédrio e Caifás, o Sumo Sacer- meiro um sangramento suave dos vasos capilares e
dote. Aqui o primeiro trauma físico foi infligido. veias da pele e finalmente jorrando sangue arterial em
Um soldado romano esbofeteou Jesus por ter fortes jatos vindos dos vasos sanguíneos dos músculos.
permanecido em silêncio quando interrogado por As pequenas bolas de chumbo primeiro produ-
Caifás. Os guardas do palácio então o vendaram, e ziam grandes e largas feridas que eram abertas pelos
o desafiavam a identificá-los à medida em que golpes subseqüentes. Finalmente, a pele das costas
passavam por ele e o esbofeteavam e cuspiam estava pendurada em longas tiras, e a toda a área em
sobre ele. redor era uma massa irreconhecível de tecido esmagado
e sangrento. Quando o centurião em comando percebia
Diante de Pilatos que o prisioneiro estava quase morto, o castigo era
finalmente suspenso.
Logo cedo, naquela manhã, espancado e
dolorido, desidratado e moído por uma noite sem
descanso, Jesus foi levado através de Jerusalém ao A zombaria
Pretório da Fortaleza Antonia, residência do go- O cambaleante Jesus foi então desamarrado e
verno do Procurador da Judéia, Pôncio Pilatos. Já tropeçava e escorregava no pavimento de pedra, mo-
conhecemos a história da ação de Pilatos, tentando lhado com seu próprio sangue. O soldado romano viu
transferir a responsabilidade para Herodes Anti- uma grande piada naquele provinciano judeu que disse-
pas, Tetrarca da Judéia. Jesus aparentemente não ra ser um rei. Eles jogaram um manto sobre seus om-
sofreu maus tratos nas mãos de Herodes e foi bros e colocaram uma cana de bambu em sua mão co-
enviado de volta a Pilatos. Foi então que, em mo um cetro. Eles ainda necessitavam de uma coroa
respostas ao clamor da multidão, Pilatos ordenou para completar sua zombaria. Ramos flexíveis cobertos
que fosse solto Barrabás e Jesus condenado ao com longos espinhos, comumente usados para alimen-
açoite e crucificação. tar o fogo das fogueiras no quintal, foram trançados em
Há muita discordância entre autoridades forma de coroa. A coroa foi pressionada em seu escalpo
a respeito do açoite como um prelúdio à crucifica- e mais uma vez o sangue jorrou copiosamente quando
ção. Muitos escritores romanos daquele período os espinhos perfuraram o tecido vascular. Após zomba-
não associam as duas coisas. Muitos estudiosos rem e baterem em sua face, os soldados tomaram a cana
acreditam que Pilatos originalmente ordenou o de bambu de suas mãos e bateram com ela em sua ca-
açoite como o único castigo imposto a Jesus e que beça, fazendo com que os espinhos penetrassem mais
a sentença de morte por crucificação veio apenas fundo em seu crânio. Finalmente, eles cansaram de seu
sádico esporte e puxaram o manto de suas costas. Na cruz
Este já havia aderido à massa disforme de sangue
À medida em que Jesus lentamente escorrega-
e plasma das feridas, e sua remoção, como uma
remoção descuidada de uma bandagem cirúrgica, va para baixo colocando mais peso nos cravos dos
causou uma dor excruciante. As feridas voltaram a pulso, uma dor horrível, lancinante partia de seus dedos
ao longo dos braços até explodir em seu cérebro. Os
sangrar.
cravos nos pulso exerciam pressão nos nervos médios,
um grande feixe de nervos que passam pelo antebraço e
Gólgota mão. Quando ele puxava o corpo para cima para evitar
Em respeito aos costumes judeus, os ro- este tormento, ele colocava todo o seu peso sobre o
manos aparentemente devolveram-lhe suas vestes. cravo através de seus pés. Outra vez havia cortante
O pesado patíbulo da cruz foi amarrado sobre seus agonia quando o metal do cravo rasgava os nervos entre
ombros. A procissão do Cristo condenado, dois os ossos dos pés.
ladrões, e a tropa de execução liderada por um Neste ponto, outro fenômeno ocorreu. Como
centurião começou sua lenta jornada ao longo da os braços estavam fatigados, grandes ondas de câimbras
rota que hoje conhecemos como Via Dolorosa. varriam os músculos, contraindo-os em profunda, con-
A despeito dos esforços de Jesus para tínua e intensa dor. Com estas câimbras veio a incapa-
caminhar ereto, o peso da pesada peça de madeira, cidade de puxar o corpo para cima. Pendurado agora
junto com o choque produzido pela copiosa perda pelos braços, os músculos peitorais, os enormes múscu-
de sangue, era demais. Ele tropeçou e caiu. O rude los do peito, ficaram paralisados e os músculos inter-
pedaço de madeira cortou como uma lâmina a costais, os pequenos músculos existentes entre as coste-
carne lacerada e os músculos dos ombros. Ele las, eram incapazes de agir. O ar podia ser levado para
tentou levantar, mas seus músculos humanos dentro dos pulmões, mas não podia ser exalado. Jesus
tinham sido forçados muito além do limite supor- lutava para se erguer a fim de conseguir respirar mesmo
tável. O centurião, ansioso para proceder à cruci- entrecortadamente. Finalmente, o nível de dióxido de
ficação, selecionou um espectador norte-africano, carbono aumentou nos pulmões e na corrente sanguí-
chamado Simão, o Cireneu, para carregar a cruz. nea, e as câimbras parcialmente cederam.
Jesus seguia, ainda sangrando e suando o gelado e
pegajoso suor daqueles que entram em choque. A As últimas palavras
jornada de aproximadamente 650 metros da Forta-
leza Antonia ao Gólgota foi finalmente completa- Espasmodicamente, ele foi capaz de se erguer
da. O prisioneiro teve novamente suas roupas um pouco para respirar um pouco de oxigênio revitali-
zante. Sem dúvida nenhuma, foi durante estes períodos
arrancadas exceto uma peça íntima que era permi-
que ele balbuciou as sete últimas frases registradas no
tida pelos judeus.
A crucificação começou. Ofereceram a evangelho.
Jesus vinho misturado com mirra, uma mistura A primeira: Olhando para baixo para os solda-
dos romanos que jogavam dados sobre sua vestimenta
analgésica e entorpecente. Ele recusou a bebida.
Ordenaram a Simão que colocasse o patíbulo no tecida sem costuras: “Pai, perdoa-os, porque não sabem
chão, e Jesus foi atirado de costas com os ombros o que fazem”.
A segunda: Ao ladrão arrependido: “Ainda ho-
de encontro à madeira. O legionário procurou pela
je estarás comigo no paraíso”.
depressão localizada na frente do pulso. Então
martelou um pesado cravo de cabeça retangular A terceira: olhando para baixo, para Maria, sua
através do pulso bem firme na madeira. Rapida- mãe, ele disse: “Mulher, eis aí o teu filho”. Então, vol-
tando-se para o aterrorizado, paralisado adolescente
mente, ele foi para o outro lado e repetiu a ação,
tomando cuidado para não lhe esticar demais os João, o discípulo amado, ele disse: “Filho, eis aí tua
braços, mas permitir alguma flexão e movimento. mãe”.
A quarta: O quarto clamor foi retirado do iní-
O patíbulo foi então levantado e colocado no lugar
cio do Salmo 22: “Deus meu, Deus meu, porque me
no topo do poste, e a placa dizendo: “Jesus de
Nazaré, Rei dos Judeus”, pregada no lugar acima abandonaste?”
de sua cabeça. Ele sofreu horas de pânico sem limite, ciclos
pavorosos de câimbras intermináveis, asfixia parcial
O pé esquerdo foi então pressionado con-
intermitente, e intensa dor enquanto pedaços de sua
tra o pé direito. Com ambos os pés estendidos, os
dedos apontando para baixo, um cravo foi pregado carne eram rasgados de suas costas por causa dos mo-
através do arco dos pés deixando os joelhos leve- vimentos de subir e descer o corpo esfregando as costas
contra a madeira áspera da cruz. Então outra agonia
mente flexionados. A vítima estava então crucifi-
cada. começou, uma dor profunda e esmagadora no peito à
medida que o pericárdio, a membrana que envolve o
coração, lentamente se enchia de plasma e come- para cima; a tensão dos músculos do peito não podia ser
çava a comprimir o coração. aliviada, e ocorria uma sufocação rápida. As pernas dos
dois ladrões foram quebradas, mas quando os soldados
A profecia em Salmos 212:14 estava se aproximaram-se de Jesus, eles viram que isto não seria
cumprindo: “ Derramei-me como água, e todos os necessário.
meus ossos se desconjuntaram; meu coração fez- Aparentemente, para se certificarem totalmen-
se como cera, derreteu-se dentro de mim.” te da morte, os legionários perfuravam com a lança
O fim se aproximava rapidamente. A entre as costelas, em direção ao pericárdio e ao coração.
perda dos fluidos tinha alcançado níveis críticos; o João 19:34 relata: “mas um dos soldados lhe abriu o
coração comprimido se esforçava para bombear o lado com uma lança, e logo saiu água e sangue”. Deste
pesado, grosso e já tóxico sangue aos tecidos, e os modo saiu um fluido aquoso da membrana que envolve
pulmões torturados faziam um esforço frenético o coração e o sangue do interior do coração. Esta é a
para inalar pequenos golpes de ar. Os tecidos mais conclusiva evidência post-mortem de que Jesus
profundamente desidratados enviavam ondas de morreu, não da usual crucificação por sufocação, mas
estímulo ao cérebro. Jesus soltou seu quinto grito: por parada cardíaca devido ao estado de choque e à
“ Tenho sede!”. Outra vez lemos no salmo profé- constrição do coração pelo fluido no pericárdio.
tico: “secou-se o meu vigor, como um caco de
barro, e a língua se me apega ao céu da boca; A ressurreição
assim me deitas no pó da morte.” (Sl. 22:15).
Uma esponja embebida em uma bebida Nesses eventos, tivemos um vislumbre peque-
muito comum entre os soldados romanos, chama- no do mal que o homem pode fazer diante de seus i-
da poska e feita à base de vinho azedo foi levada guais e diante de Deus. Esta é uma visão horrenda
aos lábios de Jesus. Seu corpo estava agora no provavelmente para deixar-nos desamparados e desen-
extremo, e ele podia sentir o gelo da morte pene- corajados.
trando em sua carne trêmula. Isto lhe fez brotar o Mas a crucificação não é o fim da história.
sexto grito, possivelmente pouco mais que um Quão agradecidos podemos ser porque temos uma
sussurro doloroso: “está consumado”. Sua missão seqüela: um vislumbre da infinita misericórdia de Deus
de expiação estava completa. Finalmente, ele pelo homem — a graça da expiação, o milagre da res-
podia permitir ao seu corpo a morte. Com um surreição, e a esperança da manhã de Páscoa.
último esforço, ele mais uma vez apertou seu pé
dilacerado contra o metal do cravo, esticou suas
pernas, elevou o tronco e inspirou longamente,
então soltou seu sétimo e último grito: “ Pai, em
tuas mãos entrego o meu espírito”. Este artigo é uma revisão de outro anterior do
mesmo autor, e que foi originalmente publicado pela
A morte Associação Média do Arizona na revista Arizona Medi-
cine.
Todos já estamos familiarizados com os O Dr. C. Truman Davis é formado pela Facul-
detalhes finais da execução de Jesus. Para que o dade de Medicina da Universidade do Tenesse. Ele
sábado não fosse profanado, os judeus pediam que faleceu recentemente e sua viúva autorizou a reprodu-
os condenados fossem retirados das cruzes. O ção deste artigo.
método comum de encerrar uma crucificação era
através da crucifratura, o ato de quebrar os ossos Traduzido por Christiano de Oliveira Lopes em 20/01/2003.
das pernas. Isto impedia a vítima de puxar o corpo