Temporada 03 Capítulo 45

Faça a Coisa Certa
By We Love True Blood

I saw it but didn't believe it; I didn't believe what I saw.

Sophie-Anne caminhava atrás dos guardas, podia sentir o pavor deles em ter que lidar com Eric. Ela tinha certeza que não aconteceria nada, ele havia se declarado culpado, não tinha motivo para impor resistência. “Meninos, meninos... Ele é grande, tem cara de mau, mas não morde. Não ajam como criancinhas assustadas com o bicho papão.”, ela disse batendo nos ombros deles, se sentia como uma professora. Os três se voltaram pra ela não demonstrando muita coragem. Ela nem queria pensar onde a Autoridade arrumava vampiros tão inúteis. O grupo parou em frente à cela. Eric estava de pé em frente às barras de prata com as mãos para trás e os encarando com um sorriso no rosto. O primeiro guarda se adiantou e abriu a cela com as mãos tremendo. Os outros dois se aproximaram, o segundo segurava com luvas a algema de prata e o terceiro empunhava uma arma apontada para o peito de Eric. “As mãos para frente.”, o primeiro guarda disse entre dentes. Eric correu os olhos pelos três guardas e deu um sorriso para Sophie-Anne. Retirou as mãos das costas e as colocou em frente do corpo lentamente, como se tivesse todo tempo do mundo. O guarda pediu a algema para o segundo que entregou rapidamente, e se afastou na direção do corredor. Assim que ele se aproximou com a algema, Eric deu um passo proposital para trás. O guarda titubeou, percebeu o sinal de perigo. Sophie-Anne observava a cena com desdém, ela quem teria que fazer o trabalho sujo. Ela empurrou para longe o guarda que segurava a arma. Em seguida agarrou o primeiro pelo pescoço, puxou para junto de si, arrancou a algema das mãos dele, e o jogou do outro lado do corredor. “Vamos acabar logo com isso.”

Ela disse abrindo um sorriso mesmo tendo a pele da mão sendo corroída pela prata da algema. Parou em frente a Eric, balançou a algema, a pele estava em carne viva. “Não está doendo muito?”, ele perguntou com cinismo. “Se continuar me fazendo perder tempo, menino.” Ela puxou as mãos dele com violência e apertou a algema nos pulsos. Em seguida se afastou da cela, gritou numa voz estridente para os guardas o levarem. Ela não gostava de perder a compostura. Não se sentia feminina fazendo isso. Os guardas empurraram Eric para fora da cela com a arma encostada na cabeça dele. “Por que não fazem o serviço aqui mesmo?”, ele perguntou olhando para os pulsos queimando. “Nossos amigos americanos não querem. Eles guardam muito rancor.”, ela fez um aceno com a mão para que começassem a andar. “Vão se dar ao trabalho de me mandar para os Estados Unidos para uma execução...” “Eles pediram e nós acatamos.”, ela disse passando os dedos na palma da mão que estava se curando por causa da prata. “Como sempre fizeram...” “Os mexicanos irão penar para achar alguém como você.”, ela disse apertando o passo e caminhando ao lado dele. “É um elogio?”, ele perguntou olhando de lado. “Um assassino quase perfeito, mas que cometeu um único erro. Sabe que não toleramos morte de civis sem motivo, Eric. Sabe muito bem disso.”, ela novamente soou como uma professora. “Ele era um traficante procurado.” “Cunhado do prefeito. Não imaginei que cometeria um erro tão primário.”, ela balançou a cabeça. “Políticos sempre conseguem o que querem.” “Através dos tempos dominamos Reis e Rainhas, não finja que se esqueceu disso.” “Não esqueci de muitas coisas.”, ele disse com um olhar distante.

“A Europa está comemorando até agora a sua futura execução. Vários nobres estarão indo assistir. Pena que não poderemos transmitir. Seria mais importante do que o julgamento de O.J.Simpson.”, ela riu. “Fico feliz em ser o bobo da corte.” “Ah, querido! Você irritou tanta gente, não tire o direito de comemorarem. Um dia você iria ser pego.” Eles pararam em frente à pesada porta de ferro. Sophie-Anne se afastou para um dos guardas abrir a porta. Eric foi empurrado sem gentileza e continuou seguindo pelo corredor. Passaram por mais uma porta, só que dessa vez com barras, como as da cela. Ela caminhava quieta ao lado dele, não tinha mais o que falar para um vampiro que estava à beira da morte. “Adeus, Eric. Espero que não guarde ressentimentos.”, Sophie-Anne disse parando em frente ao elevador. Ele respondeu com uma aceno de cabeça, em seguida entrou no elevador com os guardas. Lançou um último olhar para ela antes da porta fechar. E assim, a história de Eric chegou ao fim na Autoridade Mexicana. Ela logo teria que voltar para a Europa e sair do Terceiro Mundo. --------------------------Delilah olhava apreensiva para as câmeras de segurança. Observava SophieAnne escoltando Eric pelo complexo das celas oficinais. Ele só estava ali para poderem mostrar para a mídia o quanto os vampiros estavam humanizados. Ela sabia que era besteira, eles continuavam tão implacáveis quanto antes, apenas não atacavam humanos indiscriminadamente. O celular vibrou no bolso, ela pulou de susto e o pegou rapidamente. Olhou para o visor e viu o nome de Bastian piscando sem parar, alucinado igual ele. “Onde você está? Não pode ficar longe, não teremos muito tempo.”, ela disse exasperada. “Quando eles entrarem no elevador. Sim, eu já te disse.” Ela desligou o celular irritada. Usariam a saída de Eric para criar uma confusão na Autoridade e ela conseguir pegar o celular de Leroy sem ele perceber. Teriam uma janela de meia hora no máximo para agir, era a duração dos alarmes. Sophie-Anne caminhava lentamente com Eric, conversavam como se nada estivesse acontecendo. Ela admitia que estivesse curiosa para saber o que falavam. O único ponto positivo de Eric ir embora para os Estados Unidos, era que Sophie-Anne também iria e Santiago voltaria a ser Magistrado.

Mas, ela teria que descobrir qual era a de Leroy. Quando ela enfiava algo na cabeça, tinha que ir até o fim. Torcia para não ter envolvimento com Santiago. Ela prezava seu criador acima de tudo, ainda mais por ele ser tão vulnerável. Sentia como se fosse o anjo da guarda dele, os olhos potentes que ele não tinha, os ouvidos que escutavam algo distante, a força do corpo para protegêlo. Bastian era a super inteligência que ela não tinha, ele aprendia qualquer coisa rapidamente, sem dificuldades. Talvez por isso fosse tão confuso e seria um eterno adolescente. Ela notou que estavam quase chegando aos elevadores. Ela pegou o celular, teclou rapidamente o número de Bastian. “Prepare-se, eles estão chegando.”, ela disse excitada e desligou o celular. Levantou-se e ficou em pé perto da porta, mas ainda de olho nos monitores. Havia inventado uma desculpa para tirar os guardas dali. Ela era respeitada por todos, não tinham motivo para duvidar quando disse que precisavam reforçar a segurança no primeiro andar para a saída de Eric. A porta do elevador de Eric fechou. Ela também saiu pela porta da sala e começou a caminhar calmamente pelo corredor. Não poderia dar na vista sobre o que iria acontecer. De repente, os alarmes começaram a soar nos corredores. O celular dela tocou, dessa vez era Sophie-Anne que gritou desesperada do outro lado da linha. Delilah correu usando a velocidade vampírica. Não demorou a chegar nos elevadores onde tinha visto Eric pela última vez. Sophie-Anne batia na porta do elevador desesperada. “O que está acontecendo?”, ela disse perdendo a compostura. “Não sei. Eu estava na Sala de Controle observando a escolta.”, Delilah disse fingindo preocupação. “Estão ajudando ele a fugir? Não pode ser coincidência.”, ela gritou. Antes que pudesse responder, outros vampiros surgiram preocupados com o que estava acontecendo. Todos falavam ao mesmo tempo, alguns imaginando que fosse um ataque dos humanos para matarem Eric. Delilah andava de um lado para o outro, inclusive entre os vampiros procurando Leroy. Por sorte, a altura dele o fazia se destacar dos outros, ela não demorou em encontrá-lo parado na entrada do corredor do outro lado. Ela teve a ideia de fingir que não o viu e ligou para ele. “Venha para o terceiro andar.”, Delilah gritou no celular quando ele atendeu.

Ele respondeu que já estava ali, que ela deveria fazer exame de vista. Leroy não era muito educado, era um brutamontes. Não gostava dele perto de Santiago. Ela o viu guardar o celular no bolso esquerdo no interior do paletó. Leroy se aproximou impondo respeito com sua altura. Sophie-Anne ligava desesperada para os seguranças no primeiro andar para que fechassem a saída. “E no quinto andar? Ele pode fugir por ali.”, ela disse desesperada. “Irei até lá.”, Leroy disse se afastando. Delilah sentiu uma tremedeira no corpo, não poderia deixá-lo se afastar antes de pegar o celular. Ela olhou em volta, havia uma vampira mais velha que era telefonista parada perto de Leroy. Ainda existiam telefonistas, a Autoridade tinha uma infinidade de linhas codificadas para não correrem risco de grampo. Como havia uma confusão de vampiros falando sem parar. Delilah fez um movimento brusco ao se aproximar da vampira mais velha, e a empurrou na direção de Leroy. Os três caíram no chão, Leroy primeiro, a senhora em cima dele e Delilah no chão ao lado deles. Na confusão de corpos dos três, ela correu para ajudar a mulher e Leroy a se levantarem. Ela passou a mão sutilmente pelo paletó aberto e puxou o celular sem que ele percebesse. Ele estava extremamente contrariado com a queda, e querendo se livrar logo da mulher. Ela ficou feliz por ser vampira, seu movimento só seria visto em câmera lenta. Ela guardou o celular no bolso de trás da calça, pediu desculpas para os dois, disse que estava nervosa com a possível fuga de Eric. Voltou-se para SophieAnne e disse: “Voltarei para a sala de controle, ficarei em contato com os guardas.” A outra apenas concordou com a cabeça, estava bufando de raiva esperando o outro elevador chegar. Delilah se afastou caminhando rapidamente, mas sem levantar suspeitas. Bastian havia parado o elevador de Eric forçando uma pane. O sistema geral iria entender como uma invasão e ligaria os alarmes. A Autoridade tinha alarmes muito sensíveis, até um rato passando perto de um sensor poderia acionar. E Bastian como um bom rato de computador, sabia exatamente como e onde agir. Ela passou diretamente pela sala de controle, caminhou mais alguns metros, virou a esquerda num corredor e subiu pelas escadas de emergência. Bastian a esperava no segundo andar, dentro da minúscula sala de limpeza.

Pegou o celular do bolso de trás e o observou atentamente. Era simples, sem frescuras e nada moderno. Como Leroy, ela pensou sufocando uma risada. Ela andou com cuidado pelo corredor que levava até Bastian. Alguns vampiros passaram como uma sombra por ela, estavam correndo. Esperou que sumissem de sua vista, assim que desapareceram, ela abriu a porta e entrou. O lugar era uma salinha estreia, havia armários nas duas paredes, e vários produtos de limpezas espalhados em prateleiras, vassouras presas na parede ao lado dos armários. Bastian estava sentado no chão com o notebook no colo, digitava sem parar, completamente focado na tela. “Faça a sua mágica.”, ela entregou o celular para ele. “Que susto.”, ele tirou o fone do ouvido. “Não deveria estar distraído ouvido música.”, Delilah disse nervosa. “Preciso pra relaxar. Se me descobrem ferrando os alarmes de novo... vou acabar fazendo companhia pro Eric do outro lado.” “Ele ainda está vivo.” “Não por muito tempo.”, ele retrucou. “Anda logo, não temos tempo.”, ela olhou para o relógio no pulso, acionou o cronometro, tinha pelo menos uns 20 minutos. “Tá bom, tá bom.” Bastian pegou o celular, retirou a bateria e começou a tentar tirar com os dedos o Sim Card que ficava embaixo da bateria preso num compartimento de aço. Ela se incomodou com a demora, ele simplesmente não conseguia tirar. “Deixe-me tentar.”, ela disse pegando de volta o aparelho. Com a ajuda da unha retirou o pequeno cartão do compartimento, estendeu para Bastian com um sorriso. O rapaz pegou num movimento irritado. Em seguida, colocou o cartão num adaptador maior e inseriu na lateral do notebook. Ele acessou um programa no computador, digitou algumas linhas de códigos e números começaram a pipocar na tela. Ela não conseguia o sistema operacional que ele usava, deveria ser coisa de hackers, ela pensou dando de ombros. “Vai demorar?” “Estou quebrando o código.”, ele disse se mexendo de maneira incomoda no chão.

Os números pararam de se mover, havia um fundo preta na janela principal do sistema e algumas linhas brancas. “Pronto... o que quer acessar?” “Veja a lista de contatos.” Ele digitou novamente, clicou com o pequeno mouse em algo na tela. “Odeio usar o Touch Pad.”, ele fez uma careta. “Não vivo sem essa belezinha.”, ele deu um tapinha com o dedo no mouse. “Bastian, só temos 12 minutos.”, ela disse impaciente. “Não tem lista de contato. Nem estou surpreso, um cara como Leroy não tem amigos.” “Consegue acessar as ligações?” “Sim.”, ele digitou novamente. “Não tem muitas, falei que ele não é social.” “Quantas?” “Umas 30.” “Isso é muito.” “Não é mesmo.” “Ele não é popular como você.”, Delilah revirou os olhos. “Chata!” “São números diferentes?” “Na verdade, ele recebeu as ligações de um número restrito.” “Não dá para descobrir?” “Levaria mais tempo, e não temos isso.” “Droga. Quando foram feitas as ligações?” Ele passou os olhos rapidamente pela lista, separando mentalmente as datas. “Você não vai acreditar.”, ele deu uma risada. “O que?” “Pelo menos umas 15 ligações foram no dia da morte de Jason.” “Não acredito.”, ela se abaixou ao lado dele, puxou o notebook com força. “Isso não é coincidência.”

“No Shit, Sherlock!”, ele disse rindo. “Odeio quando você usa essas frases irritantes em inglês.” “Você não entende de gírias.”, ele disse emburrado. “E agora?”, ela ficou de pé, andava de um lado para o outro na sala estreita. “Tenho que descobrir com quem ele fala...” “Roubar o computador dele? Ir até a casa dele?” “Nem sei onde ele mora.” “Santiago sabe.”, Bastian também ficou em pé. “Descubra onde fica. Invente alguma coisa, você é perito nisso.”, ela disse sorrindo de canto. “Sim, senhorita.”, ele bateu continência. Retirou o Sim Card do adaptador e estendeu para ela. “Tenho que ir. Você sabe a saída.” “Nem imaginava que tinha outra escondida.” “Você não sabe de nada, Bastian.” Ela saiu pela porta, caminhava pelo corredor arrumando o cartão novamente no celular. Colocou a bateria enquanto descia as escadas para o terceiro andar. Faltavam alguns minutos para o alarme parar de tocar. Ela voltou velozmente para os elevadores. Sophie-Anne estava de braços cruzados esperando dois vampiros abrirem a porta do elevador. Delilah disse que não aconteceu nada de anormal no saguão. Sophie-Anne deu de ombros, estava mais preocupada em descobrir se Eric tinha saído do elevador. Ela caminhou entre alguns vampiros que ainda estavam lá, provavelmente Sophie-Anne mandou o restante fazer algo produtivo em vez de ficarem ali preocupados. Olhou em volta para ter certeza de que Leroy não tinha voltado. Deixou o celular cair no chão, obviamente ele o perdeu por causa da queda de minutos atrás. Ela sorriu diante do plano perfeito que criou do nada. Os alarmes pararam de tocar, o elevador de Eric voltou ao terceiro andar. A porta se abriu, um dos guardas estava desesperado. Um deles se assustou quando o elevador parou de funcionar e atirou no outro guarda. Eric estava parado num canto com as mãos vermelhas de sangue por causa da prata, tinha um sorriso nos lábios, observava a confusão com um olhar divertido.

O guarda foi atingido na cabeça, não iria morrer, mas não voltaria feliz sabendo o que aconteceu. Delilah deu de costas e voltou até a sala de controle antes que Leroy voltasse para encontrar o celular. Agora tinha que pensar como iria até a casa dele, seria tão mais fácil se ele tivesse um escritório no prédio. --------------------------------Sookita ignorou no celular mais uma chamada de Tara. Desde o dia anterior ela mandava mensagens insistentes e ligava sem parar. Não estava com vontade de jogar conversa fora, fingir que tudo tinha voltado ao normal. Sendo que não tinha. Fazia uma semana que descobriu a verdade sobre Eric, uma semana que tentava recuperar o que tinha perdido por causa dele. Jason não voltaria mais, Eric evitou isso arrancando o coração de seu irmão. Ele quis se vingar pela mentira dela, por Bill, por tudo o que aconteceu entre eles. Enganou, manipulou e a deixou em frangalhos. A perda de Jason não era o suficiente, ele tinha que levar até as últimas consequências. Ela passava horas imaginando onde perdeu o controle das coisas. Será que teve algum dia? Em alguns momentos amaldiçoou o dia que conheceu Bill. O bom vampiro ajudando uma frágil velhinha trazer as compras para casa. Vovó Adele gostou dele imediatamente, viu em Bill o par perfeito para a neta solitária. E o melhor, a neta não precisaria ter filhos, não passaria a maldição de ler pensamentos para crianças inocentes. Mas, ela tinha deixado à situação correr como um trem desgovernado. Mais uma vez acatou um desejo de sua vó, passando por cima do que ela queria. Havia se apaixonado por Bill, não poderia negar isso, ele trouxe alegria para a vida tediosa dela. Acreditou ter entregado o coração para ele, só que descobriu que seu coração continuava vazio e algo vazio precisa ser preenchido. Eric preencheu o que faltava, com toda a sua força, personalidade e maldade. Ela se entregou para o monstro e não percebeu que a consumia lentamente por dentro. O casamento com Bill tinha melhorado, ela tentaria levar adiante. Não tinha mais que fugir para os braços de outro. O ódio que sentia por Eric seria o suficiente para apagar os momentos que tiveram. Ódio é tão poderoso quanto o amor, quando se alastra, não tem como conter. Com esse pensamento ela se sentou no sofá em frente a enorme televisão. Acompanhava com afinco as notícias sobre a confissão de Eric e a iminente execução. Um link ao vivo numa emissora de notícias da tv a cabo mostrava o avião fretado pela Autoridade para levar Eric para os Estados Unidos. Bill disse que os americanos conseguiram o que almejaram durante anos a fio. Ele também

se sentia vingado, principalmente por Lorena. Eric escapou por muito tempo, algum momento teria que se dar mal. O celular tocou no colo de Sookita, ela olhou para o visor e a foto de uma sorridente Tara surgiu. Não entendia essa insistência da amiga. Ela desligou o celular, não queria ficar irritada. Soltou um longo suspiro, uma foto de Eric na boate com pose de vampiro ameaçador surgiu na televisão. Sookita sentiu um arrepio e mudou rapidamente de canal. Um barulho na janela atraiu a sua atenção, pelo menos foi o que pensou ter ouvido. Não enxergava do lado de fora por causa das cortinas. Ela deu de ombros, deveria ser o vento. Voltou à atenção para um programa de culinária. Bill estava perto de se levantar. Os dois voltaram a ter as conversas noturnas diárias. Só que o barulhou voltou insistente. Sookita se levantou de uma vez, praguejando alto. Não que tivesse fazendo algo importante, mas não queria ser interrompida. A sala tinha três janelas duplas, uma ao lado da outra e dava para o lado esquerdo da mansão. Puxou as cortinas com força e quase gritou de susto quando se deparou com a cara de Tara grudada no vidro. “O que faz aqui?”, Sookita disse. Tara fez um movimento apontando para o ouvido, não conseguia ouvir com a janela fechada. Sookita balançou a cabeça e abriu a janela para Tara entrar. “Como entrou?” “O mesmo caminho que você usou aquele dia. Sorte que me contou.”, Tara disse ofegante. “Pelo jeito quer muito me ver.”, Sookita fechou a janela. “Por que está me ignorando? Por acaso é prisioneira?”, Tara se sentou no sofá, ajeitou a bolsinha que carregava e jogou as pernas em cima da mesa de centro. “Não estava a fim de conversar. Ficou me espionando? Como adivinhou que eu estava aqui?” “Sorte.”, ela deu uma piscada, e não mencionou que ficava ligando na esperança de ouvir o celular de Sookita e descobrir onde estava. Ela ficou horas ali fora esperando o momento certo. “Agora isso não vem ao caso. Preciso que faça algo.”, Tara virou para trás e a encarou. “Não vou sair, não tem filme bom no cinema.”, Sookita parou atrás do sofá, focou a visão na televisão.

“Parece que estou tendo um Déjà vu. Igual àquela vez que...”, Tara iria dizer Eric, mas não ousou continuar. “Você lembra.” “Eu lembro.” “Sei que provavelmente não vai querer.”, Tara se levantou, deu a volta no sofá e parou ao lado de Sookita. “Não vai mentir para eu encontrar alguém?”, Sookita virou de frente para Tara. “Quero que leia a mente de Lafa.” “Por quê?” “Ele foi hipnotizado.” “Como sabe?”, Sookita perguntou incrédula. “Mariano descobriu. Lafa está passando um tempo com ele. Coitado, está sofrendo assédio sexual todos os dias.”, ela disse rindo. “Lafa não estava com a polícia?” “Ele fugiu, aprontando como sempre, cansou de ficar em local sujo. Eu pedi um favor para Mariano, Lafa não tinha onde de esconder.” “Você está fechando a sua mente pra mim. Está escondendo algo.”, Sookita disse cruzando os braços. “Jamais faria isso. Estou sendo super sincera.”, Tara levantou a mão. “Palavra de escoteira.” “Nunca fomos escoteiras.”, Sookita deu um sorriso de lado. “Eu sei, eu sei.”, Tara se mexeu impaciente. “Vai me ajudar?” “Não quero me envolver, desculpe. Ele viu Jason, você sabe... sendo morto.”, Sookita se afastou. “Por mim e por Lafa?” “Agora não.”, Sookita insistiu. “Ela disse que você iria negar.”, Tara mexeu na bolsinha que carregava. “Ela quem?” “Acho que um dia irá me desculpar.” “Pelo que?”, Sookita perguntou sem entender. “Por isso...”

Tara se aproximou de Sookita com uma das mãos para trás. Com o outro braço segurou no ombro dela como se fosse abraça-la e antes que Sookita pudesse reagir, Tara tapou o nariz dela com um lenço até a amiga cair desmaiada no chão. “Puta merda...”, ela disse olhando Sookita caída no chão. Em seguida pegou o celular na bolsinha, discou um número, esperou atender do outro lado. “Pam? Eu tive que usar o Plano B.”, Tara respirou fundo. “Venha pelo caminho que te falei.” ---------------------------Jessica sonhava com imagens estranhas, principalmente o anjo na fonte em frente à casa dos avós de Alcide. Antes ela só sonhava com sexo, sangue e nada de seres alados em sonhos. Havia dado sangue na noite anterior para Alcide, esse poderia ser um problema, ela foi se deitar sem repor o sangue perdido. Acordou sentindo o corpo pesado, a cabeça latejando. Mesmo sendo morta, não significava que estava livre de certas dores. Pelo menos cólicas menstruais não atormentavam mais, uma das vantagens em ser vampira. Absorvente interno nunca mais, apenas um belo de um pinto tinha o direito de se enfiar dentro dela. Ela sentiu um cheiro estranho no quarto, cheiro de pelo de lobo. O olfato dela captava o tempo todos esses cheiros horríveis, ela se sentia num Pet-Shop. E imaginar que passaria por isso durante um tempo. Mas, não era Alcide. O cheiro dele era diferente, exalava medo. Já esse que estava lá, exalava força. “A princesa acordou.”, o irmão de Alcide apareceu ao lado da cama. “Saia do meu quarto.” “Seu quarto? Já está tão confortável assim?”, ele sentou na beirada da cama. “Não te interessa.”, ela abraçou as pernas na frente do peito. “Eu vi o que vocês fizeram...”, ele começou a falar. “No verão passado? Assisti a esse filme e achei uma porcaria.”, ela deu de ombros, sabia exatamente o que ele queria dizer. “Se eu quiser posso dedurar vocês dois.”, Francisco ameaçou brincando com a ponta do lençol na cama. “Faça isso. Seria um favor.”, ela encolheu os ombros.

“Não entendi. Você não tem medo de Alcide morrer?” “Se eu pudesse já tinha feito o serviço.” “Por que vai se casar com ele?”, ele perguntou se aproximando dela. “Fui obrigada.”, Jessica disse emburrada. “Parece que voltamos nos tempos coloniais.” “Bem que reparei, você é muita areia pro caminhão dele.” “Sou areia pra caminhão de muita gente. Inclusive o seu.”, ela esticou a perna que tocou na cintura de Francisco. “Não faço vampiras.” “Não faço cachorros.” “Chegamos num acordo.” Ele estendeu a mão, Jessica deu um tapa. Não iria apertar a mão daquele babaca, mesmo sendo um Alcide mais jovem, e bem mais esperto. “Quer que eu chame seu avô para poder contar?”, ela disse com uma ponta de esperança. “Ah! Meio que perdeu a graça. Achei que seria interessante você e Alcide sofrendo um pelo outro.”, ele voltou para a ponta da cama. “Como você disse que não se amam...” “O inferno são os outros.”, ela disse baixinho. “Um impuro não pode ser nosso líder.”, ele fechou as mãos como se quisesse socar alguma coisa. “Não me importo com nada disso. Só quero sair daqui.” “Pensou que ninguém descobriria que deu sangue pra ele? Aqui as paredes, as árvores, a terra, tudo tem ouvidos... iremos preparar uma surpresinha pra Alcide.” “Surpresa?” “Caçar coiotes não tem graça, é muito fácil. Com seu sangue no corpo dele, terá que caçar algo... mais forte.” “Por que está me contando isso?” “Quero ser seu amigo.”, ele deu de ombros. “Ou futuro marido?”

“Ah, ele te contou. Não sei se seria comigo, mas eu sou o próximo na linha de sucessão.”, ele a encarou de maneira penetrante. “Você quer foder Alcide. No pior sentido da palavra.” “Seria um belo arranjo para nós. Eu não te obrigaria a transar comigo. Você não precisaria me satisfazer.”, ele disse não contendo a excitação. “Pelo jeito você ficou pensando muito nesse plano.”, ela disse desconfiada. “É o certo, é a melhor coisa. Meus avós gostam de você, não me pergunte o motivo, mas gostam. A velha não para de falar em você. O velho vai te desvirginar...”, ele ficou de pé, andava de um lado para o outro. “Não sou mais virgem.” “Imaginei que não. Mesmo assim continua tudo perfeito. Só Alcide está sobrando nessa história.”, ele disse com os olhos brilhando “Nesse seu plano perfeito, não tem um que eu possa cair fora daqui?”, ela sentou na beirada da cama, queria se livrar logo dele. “Uma vez aqui, não sei sai mais.” “Nenhuma mulher pode sair?”, ela perguntou incrédula. “Pode, claro. Acompanhada de seu lobo.” “Vocês não podem ficar em cima o tempo todo. Um dia uma delas irá fugir.” “Acredite, não tem como sair... e é melhor nem tentar.” “Por que todo esse medinho?”, ela perguntou furiosa. “Meu avô já te contou o que guardamos?” Ela concordou com a cabeça, era a única coisa que a mantinha ainda ali. Descobrir sobre esses seres diferentes, seres que os vampiros desejavam e odiavam. Os ensinamentos de Emilio ainda ecoavam na mente de Jessica. “Então, eles são um pouco tímidos, não gostam que saiam espalhando por aí sobre eles.” “Eu não falaria nada. Prometo.” “Mentira. Seu povo adoraria botar as mãos em um deles.” “Seu avô disse que são perigosos para nós vampiros.”

“É bom manter a lenda, manter que são apenas o monstro embaixo da cama.”, Francisco sentou ao lado dela. “Eu vou te contar algo, mas isso te deixará mais presa conosco.” “Mais histórias? Que saco...”, ela deitou na cama. “Não é história. O sangue deles é infinitamente melhor que o de vocês. Se você provar, irá querer sempre.”, ele disse solene. “Vida e morte não combinam... seu avô falou essas baboseiras filosóficas.” “Um pouco não faz mal... a quase-morte é tão prazerosa. Meu pai contou uma história de que antigamente, muito mesmo, vampiros eram como zumbis querendo cérebro, mas era por causa desse sangue... eles vagavam por isso.” “Como eu nunca soube disso?” “Porque quase dizimou sua raça e a raça deles. Era uma simbiose ao contrário.” Ela balançou a cabeça chocada, tudo o que sabia era mentira, ou melhor, tudo que nada sabia. Havia toda uma história com seu povo, e ela não havia atingido ainda a superfície. Bill sabia disso? Ela teria que um dia perguntar pra ele. “O que acontece se experimentar um pouco?”, ela havia perguntado para Emilio, mas ele se recusou a responder. “Se quiser...” “Você tem?” “Tenho.” “Me dê um pouco.” “É corajosa, gostei de ver.”, ele bateu palmas. “Só se aceitar o meu plano.” “Alcide morrer?” “São palavras suas... não minhas.”, ele se levantou caminhando em direção à janela. “O que você vai fazer?”, ela quase gritou, mas não queria chamar a atenção dos moradores da casa. “Vai depender do que você quer, Jessica.” “O que?”

“O Rito de Passagem será na floresta que circunda a cidade. Não vou falar mais nada além disso.”, ele abriu a janela. “Você quer que eu mate ele?”, ela disse baixinho. “São palavras suas...”, ele repetiu. “Só temos a ganhar, pense nisso.”, ele piscou e saiu pela janela, desceu pelo telhado sem dificuldade. Logo mais ela teria a aula do dia com Emilio, teria a conversa diária com Constance. E decidir se mataria Alcide. Não que fosse algo muito difícil de escolher. --------------------------Ela abriu os olhos lentamente, tentou se sentar, mas não conseguiu. Tudo a sua volta girava sem parar. Sookita apertou a testa com uma das mãos, soltou um gemido de dor. “Ela está acordando.” Ouviu a voz de Tara, parecia distante, como se estivesse num outro plano. Se lembrava de que assistia televisão, e recebeu a visita de Tara. Depois tudo se apagou estranhamente. “Finalmente.” Uma voz parecida com a de Pam respondeu. Sookita conhecia aquele tom de voz arrogante. Que tipo de sonho estranho estava tendo? “Ela não parece muito bem.” Sookita sentiu o toque de Tara no rosto. Ela se encolheu institivamente, confiava na amiga, mas não sabia o que estava acontecendo, por que se sentia tão mal. “Dane-se. Não posso esperar mais.” Uma mão gelada agarrou Sookita pelo braço e a colocou sentada. Ela apertou os olhos para enxergar melhor, as imagens estavam embaçadas. “Acho que exagerei na dose.”, a voz de Tara soou pesarosa. “Exagerou?”, Sookita disse mantendo a cabeça imóvel esperando que a tontura passasse. “Olha... foi para o seu bem. Eu tive que fazer.”, Tara respondeu sentando ao lado dela. “Fazer?”

“Te colocar pra dormir.” “Agora vêm as lamentações...”, Pam fez uma careta. “Por isso estou assim?”, Sookita perguntou forçando a vista para encarar Tara. “Bem, é... você não viria se eu falasse a real.” “Não estou em casa?”, ela olhou em volta, ainda sentindo a cabeça girando. “Está na minha casa.”, Pam disse estendendo um braço ao lado do corpo e mostrando a ampla sala de estar. “Sookita, ela não te fará nada. Só queremos descobrir uma coisa.”, Tara se adiantou antes que o assunto saísse do controle. “Eu fui sequestrada de novo e pela minha melhor amiga?”, Sookita se colocou em pé, cambaleou e quase caiu, mas foi segurada sem vontade por Pam. “Vai arrancar também o resto do meu dedo?” “Não é sequestro... é apenas um convite forçado.”, Tara também ficou de pé. “Bill notará minha falta...” “Ah! Nem se preocupe. Eu mandei uma mensagem avisando ele pelo celular. Você foi ao cinema com sua melhor amiga aqui.”, Tara apontou para si. “Achou que vou te dar um aumento.”, Pam disse com um sorriso de canto. “Fico feliz em ajudar no emprego de Tara.”, Sookita comentou sem esconder a irritação. “Devolve o meu celular.”, ela estendeu a mão e Tara devolveu. “Duas vezes já, amiga.”, Tara se lembrou de que conseguiu o emprego porque usou a história de Sookita como dançarina a seu favor, na verdade tentou emprego para as duas, mas só ela conseguiu. “Como me tirou da mansão sem ninguém ver?” “Vampiros servem pra isso. Te empurrei pela janela, Pam te pegou e voilá...” “Me empurrou? Não acredito, eu estou sonhando, só pode.” “Sua amiga te trouxe forçada, lide com isso.”, Pam falou rispidamente. “Quero que leia a mente de Lafayette.” “E se eu não quiser?” “Não usarei éter pra te apagar.”, Pam puxou Sookita pelo braço. “Como se eu tivesse medo.”

“Eric é um idiota que pensava com o pau. Eu não tenho um...”, Pam encostou o rosto no de Sookita, as presas a mostra. Ela estremeceu diante da menção de Eric. Ainda tinha na cabeça as imagens dele preso, sendo tratado como devia e logo estaria morto para sempre, pela segunda vez. “Eu posso ler e inventar o que quiser. Você jamais saberá a verdade.” “Veremos o quanto a verdade te assusta.” Sookita olhou para trás, Tara as seguia de cabeça baixa. A tontura estava passando, ela conseguia observar melhor a sua volta. Havia janelas que tomavam a parede toda em volta de toda a sala, ela notou as luzes da cidade pequeninas e distantes. Estavam num apartamento. Ela achava estranho vampiros gostarem de janelas, a casa de Eric também tinha janelas enormes. Passaram em frente uma porta que provavelmente era a cozinha, Sookita deduziu, também achava estranho eles manterem cozinhas. Talvez fosse uma maneira de manter uma humanidade em suas pós-vida. Depois caminharam por um estreito corredor, ela era arrastada por Pam, olhava toda hora para trás, queria ter certeza que era seguida por Tara. Entraram numa sala de televisão que também era escritório. Tinha uma mesa perto de uma parede e no outro uma televisão de tela plana, um sofá confortável em formato de L. Novamente as janelas tomavam uma parede, Sookita olhava boquiaberta para a cidade lá embaixo, provavelmente estavam nos últimos andares do prédio. Lafayette estava sentado quieto na ponta do sofá, assistia televisão absorto. Os pensamentos dele estavam confusos, Tara obviamente manteve os dela fechados para Sookita não acessar. “Você o hipnotizou.”, ela disse se soltando de Pam. “Essa bicha doida não calava a boca.” Tara revirou os olhos e encarou Sookita com uma expressão de apoio. “Ande logo com isso que faz.”, Pam falou se sentando na mesa e cruzando as pernas torneadas. “O que você que saber?” “Se Eric matou Jason.” “Ele já confessou.”, Sookita disse com aspereza. “Pare de enrolação.”, Pam fez um movimento impaciente com as mãos.

Sookita passou por Tara, lançou um olhar de desprezo para a amiga. Não imaginava que seria traída por Tara dessa maneira, ela sabia o quanto a morte de Jason ainda era recente, o que tinha acontecido com Eric. O quanto ela queria ficar longe dessa história toda, não queria mais se envolver. Mas, lá estava ela, mais uma vez envolvida até o pescoço. Ela se aproximou de Lafa, o olhar dele esgazeado, ele nem prestava atenção no que realmente passava na televisão. Gostaria de não ler nada na mente dele, que tudo estivesse apagado, odiaria ser obrigada a assistir a morte de Jason. Sentiu a mão tremendo quanto pegou o pulso direito dele. Ela respirou fundo, entrando na mente dele, expirou lentamente as imagens que surgiam. Apertou o pulso com força, a veia pulsando nos dedos dela. Respirou fundo mais uma vez, a imagem vinha em velocidade, dessa vez das últimas lembranças para trás, como se visse um filme que terminou e voltasse devagar para o inicio. Viu Lafa sendo trazido para o apartamento de Pam, a empolgação dele com todo o luxo que via, através dele descobriu que estavam numa cobertura. Pam era tão rica quanto Eric. Depois respirou fundo novamente, as imagens voltavam para trás. Lafa se deitando ao lado de Mariano, fazendo carinho no rapaz, tentando beijá-lo. Sookita puxou mais fundo ainda, agora via imagens de Lafa morando num motel sujo, dias e dias com nada acontecendo. O tédio dele consumiu o corpo dela. Até que o viu chorando desesperadamente ao lado do La Puta Madre, de repente uma nova escuridão na mente dele. Quando passou essa escuridão, Sookita viu através dos olhos de Lafayette, Jason caído no chão, arqueando o corpo e soltando o último suspiro. O coração dele ainda batia na mão do vampiro, que não satisfeito comeu em algumas mordidas o coração todo. Ela quase vomitou diante da visão, pois Lafa sentiu o mesmo. Ele ficou paralisado de medo, não conseguiu reagir, assim como ela não conseguia. Queria gritar, correr até o vampiro, mata-lo com as próprias mãos. Lafa amava Jason, assim como ela. Mas, ele se foi, sem um coração, nada podia ser feito. E o coração continuava batendo em pedaços no estomago podre do vampiro. As imagens voltaram alguns minutos atrás, Jason lutava sem sucesso no chão com o vampiro. Rolavam de um lado para o outro. Até que as forças de seu irmão se extinguiram e o vampiro se posicionou em cima dele, afundando a mão no peito de Jason e puxando vagarosamente o coração. Os gritos de dor, o pavor de Jason ecoava em sua mente, seus olhos não queriam continuar vendo aquilo. Mas, era obrigada, tinha que ir até o fim. Por ela, por Lafa, por todos.

Os olhos do vampiro brilhavam com intensidade, um tom de vermelho de sangue, de morte. As imagens foram mais para trás. O vampiro estava de frente para Jason, sorrindo cinicamente. Os cabelos escuros, a roupa preta e alto como Eric. Só que não era Eric. Só tinham a altura em comum, de resto eram completamente diferentes. Ela forçou a mente de Lafa, não havia sinal de Eric. Mas, ela tinha visto Eric ameaçando Jason, viu na mente dele, na mente do Executor, não foi fabricado, ele esteve lá. Avançou mais uma vez alguns minutos atrás, lá estava Eric jogando Jason no chão, mas olhando em volta preocupado, principalmente para cima do prédio, ele ouviu um barulho e se foi. As imagens de Lafa daquela noite acabavam nesse momento, o quebracabeça estava terminado. Bastian evitou que Eric matasse Jason, mas não evitou que Leroy terminasse o serviço. Por que ele? Teria sido a mando da Autoridade? Ela soltou o pulso de Jason e caiu no chão, começou a sentir um enjoo crescendo no estomago. Sempre ficava assim quando se forçava na mente das pessoas. Não conseguiu aguentar e vomitou no tapete felpudo de algum animal na sala de Pam. “As duas irão limpar isso.”, Pam tapou o nariz. “O que você viu?”, Tara perguntou sentando no chão ao lado de Sookita, evitando respirar por causa do vomito. “Eric...”, a voz dela tremeu. “Não foi ele.” A dor daquela verdade atingiu seu peito, ela se forçava para voltar a respirar, se forçava a aceitar o que viu, se forçava a aceitar que obrigou um inocente a se entregar. “Quem foi?”, Pam gritou se colocando atrás de Sookita velozmente. “Leroy.” Sookita apertou a mão no peito, ela havia perdido Jason e Eric na mesma noite. Um para algo sinistro e outro para o horror que existia dentro dela. Eric teve motivação para matar Jason e não o fez. Ele pediu para ela confiar e ela não o fez. “Ainda dá tempo de alguma coisa?”, Tara perguntou olhando preocupada de Sookita para Pam. “Não sei, não sei.”, Pam mexia nos cabelos desesperada. “Ele foi para os Estados Unidos faz algumas horas.” “O Executor.”, Sookita disse numa voz baixa. “Preciso encontrá-lo.”

“Foda-se o Executor. Não temos tempo pra isso.”, Pam gritou exasperada. “Só ele poderá salvar...”, ela não tinha coragem de dizer Eric. “Tem certeza?” Sookita confirmou com a cabeça. Falava e respondia no automático, como se algo tivesse apagado dentro dela. “Merda... vou ter que fazer algo que não quero.” “O que?”, Tara perguntou passando os braços em volta de Sookita. Lafayette olhava a cena sem entender o que havia acontecido. O cérebro dele parecia que pulsava, como se alguém tivesse enfiado algo nele. Ele se encostou no sofá, depois perguntaria que zona era aquela. “Só tem uma pessoa que pode ajudar... Eric irá me odiar por isso.”, ela disse pegando o celular, as mãos dela tremiam. Sookita ouviu e via a movimentação na sala ao longe. Começou a chorar, sem sentir as lágrimas quentes escorrendo. A mente dela vagava para Eric sendo morto, indo embora porque ela quis assim. Ela desejou a morte dele, ela não sabia lidar com ele, não o entendia, não confiava, ela o odiava. Ele a desafiou desde que se conheceram, ele a tirou do lugar comum, ele a fez se sentir viva mesmo sendo morto. E em troca ela deu a morte.

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