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1 A IDEOLOGIA: A IDEOLOGIA ALEMÃ A PARTIR DE MARX E ENGELS Marion Machado Cunha Julho de 2006 INTRODUÇÃO A categoria ideologia apresenta

ao longo de sua história um terreno movediço, com definições variadas e explicações diversas no seio do marxismo. Entretanto a base original para se apreender essa categoria está em A Ideologia Alemã, escrito por Marx e Engels, em 1845-46, que dirigem suas críticas aos neo-hegelianos entre eles, Bruno Bauer e Max Stirner, e realizam um acerto de contas com Feuerbach. A ideologia Alemã foi publicada em 1932 pelo instituto de Marxismo-leninismo de Moscou, antiga União Soviética, e revisada e reeditada na década de 1960, com a incorporação de outros manuscritos encontrados, que compunham A Ideologia Alemã. Nossa intenção aqui é trazer para o centro do debate o avanço significativo que essa obra tem quanto à compreensão dessa categoria e também para confrontar com as diversas interpretações que consideram a concepção de ideologia construída por Marx e Engels como negativa e limitada. Apresentaremos citações do livro A ideologia Alemã, tradução de José Carlos Bruni e Marco Aurélio Nogueira do original em alemão, publicado pela editora Hucitec, especificamente da oitava edição, de 1991, demonstrando o quão profundas foram as discussões de Marx e Engesl sobre a ideologia, e que muitas das interpretações realizadas simplificam a dimensão efetiva desse fenômeno nas relações sociais, mergulhada na divisão social do trabalho e nas classes sociais. A Ideologia Alemã não só representa uma nova apreensão no terreno das discussões teóricas e filosóficas, mas como apresenta o materialismo histórico como força teórica para apreender a própria realidade e produção desta pelos homens, articulando a tese de que não existe nenhuma expressão do pensamento ou da consciência que não estejam condicionadas pelo modo como os homens produzem suas existências. É preciso fazer aqui neste texto uma investida para superar a visão da ideologia em Marx e Engels como ilusão invertida da realidade, ou falsa consciência, em função de ser expressão da classe dominante. Para isso, realizamos uma incursão no próprio pensamento dos autores presente em A Ideologia Alemã, de tal forma que possibilite não nos restringir as formulações do muitos interpretes dessa obra, mas aquilo que Marx e Engels realizaram. Evitamos ser simples repetidores de nosso desconhecimento, porque os lemos em outros autores e não neles mesmos.

toda forma de pensamento tem um caráter histórico e está determinado pela forma e pelo como os homens1 produzem suas existências. 27-28). como um “conceito pejorativo. como com o modo como produzem. portanto. Marx e Engels partem do princípio que O que eles [homens e mulheres] são coincide. denominando de maniqueístas os enfoques que tratam da ideologia como sendo idéias impostas de fora e alheias à realidade. em seu livro “A Face Oculta da Escola”. 12). 11-12). O que os autores sublinham como fundamental é que nenhuma atividade humana é uma expressão “pura” do pensamento e que qualquer atividade no plano da consciência se realiza em uma base determinada da produção da vida: Usaremos homens para nos referirmos a homens e mulheres. a compreensão produzida por Marx e Engels seguirá a definição dada por Napoleão. tanto com o que produzem. Napoleão usava essa categoria para afirmar que seus opositores eram “especuladores metafísicos da realidade” (1992. Para Löwy. Fernandez Enguita (1989). Tracy entrou em conflito com Napoleão.2 A OBRA DE MARX E ENGELS: A IDEOLOGIA ALEMÃ O termo ideologia apareceu em 1801 no livro Eléments d’Idéogie de autoria de Destutt de Tracy. Assumimos esse desafio de interpretação apontado por Fernandéz Enguita e nos conduzir para demonstrar que o conceito utilizado por Marx e Engels reflete uma compreensão profunda e complexa. p. 11). com sua produção. E que ela é apreendida no movimento entre a produção da vida material e nas relações sociais de produção. nos chama a atenção para as tentativas de reducionismo da concepção de ideologia em Marx e em Engels. sendo estas definidas como “resultado da interação entre os organismos vivos e a natureza. Esse filósofo pertencia ao movimento dos Enciclopedistas franceses. 1992. p. depende das condições materiais de produção (1991. a ideologia representava o estudo das idéias. p. um conceito crítico que implica ilusão” (1992. Segundo Löwy. p. Em A ideologia Alemã. 1 . o meio ambiente” (Löwy. O que os indivíduos são. Essa categoria foi apropriada por Marx e Engels. Entretanto. Ou seja. sendo chamado por este de ideólogo. portanto. Para ele. Entendemos que a Língua Portuguesa está carrega do sexismo machista presente nas relações sociais. a vida material.

idéias. Nessa primeira aproximação de Marx e Engels da ideologia está a compreensão do materialismo histórico da realidade. desde início.. o pensar. É bastante expressivo o sentido síntese da ideologia e a posição que assumem . como a linguagem da vida real.3 a produção de idéias. a base real que alimenta suas construções filosóficas de mundo.. a qual é determinante. As construções críticas e teóricas de Marx e Engels voltam-se rigorosamente para o movimento filosófico neo-hegelianos.) (1991. 36). 37). Marx e Engels. p. concepções. que como produtores atuam de um modo determinado. É preciso que. tal fenômeno decorre de seu processo histórico de vida (. O que determina o conteúdo histórico da humanidade é a produção material da existência. O representar. Esse fenômeno é compreendido por Marx e Engels como produto das relações reais e ativas estabelecidas pelos próprios os homens de acordo com o estágio do desenvolvimento da base material: E se. afirmando que as suas concepções produzidas têm na história material. enfrentam e se opõem às tentativas filosóficas de fazerem da história um resultado do plano da consciência. em cada caso particular. os homens produzem a realidade material. os homens e suas relações aparecem invertidos como numa câmera escura. Essa crítica é dirigida aos neo-hegelianos.35). nesse plano da discussão. Em outras palavras serve como balizadora para se referirem à consciência enquanto produto histórico e poderem conduzir suas análises contras as investidas de tratá-la – a consciência – fora do plano da realidade. entrelaçada com a atividade material dos homens. estabelecendo relações necessárias e indispensáveis para a própria vida humana. porque decorrem de um processo histórico material. de representações. Isto é. conceitos. entendida como produção material. Ao produzirem seus meios de vida. aparecem aqui como emanação direta de seu comportamento material (1991. a produção da vida material. estabelecem entre si relações sociais e políticas determinadas. p. para que eles forjem seus pensamentos. Ainda. enquanto base. a observação empírica coloque necessariamente em relevo – empiricamente e sem qualquer especulação e mistificação – conexão entre a estrutura social e política e a produção (1991. pois estes procuram destituir da história seu fundamento real. o intercâmbio espiritual dos homens. como se tive força própria. Inicialmente. a ideologia surge para Marx e Engels como categoria para designar as formas de consciência. está. Marx e Engels chamam a atenção que indivíduos determinados. autônoma. em toda a ideologia.

A ilusão não é distorção da consciência. independente da história).) não é a consciência que determina a vida. não produzindo nada além de sua própria aparência. de seu conteúdo humano-natural. presos à metafísica do “Espírito Absoluto”. A tentativa de destituir da história as condições de produção material do homem foi considerada por Marx e Engels como uma forma de expropriação do real histórico. (. Rejeitam não simplesmente a concepção filosófica dos neo-hegelianos. nada mais reflete que a própria condição da produção existente. p 37). Há nessa análise um ajuste de contas com os filósofos alemães. fazendo da história uma aparente realidade fruto desse universo de ilusões. mesmo sob ilusão dos metafísicos neo-hegelianos. como o “princípio da vida”. É um absurdo afirmar que Marx e Engels definiram a ideologia como “falsa consciência” ou como uma inversão da realidade. que promove “a consciência”. mas formulam a tese de que a tentativa de tornar a consciência ‘a locomotiva’ da história é apenas ilusão. Eles evidenciam o “absurdo” dessa concepção e. condicionada pelas relações sociais produzidas no “modo de produção” da vida.. a história concreta. separadas da história real. Marx e Engels valem-se de uma crítica cerrada para demonstrarem que essa ilusão dos neo-hegelianos. que desce do céu à terra. mas decorrente das condições efetivas da realidade concreta. . mas a vida que determina a consciência (1991. mas. ao mesmo tempo. não possuem valor algum (1991. 38). onde está a verdadeira consciência diante da falsa consciência. demarcam os fundamentos teóricos pela qual realizam as críticas aos defensores dos “céus” e as suas tentativas de dar ao real uma definição restrita e limitada às idéias. tomada em si mesma: Estas abstrações.. aqui se ascende da terra ao céu. p. mas sua forma aparente autonomia diante do mundo real. Disso a evidente ironia a “pretensão” ilusória dos neohegelianos: totalmente ao contrário do que ocorre na filosofia alemã. como se fosse o da consciência (ao teóricos que procuram promove-la. Marx e Engels aproximam a ideologia da ilusão. inevitavelmente. conforme o desenvolvimento social e natural.4 quanto às concepções filosóficas quando tratam do plano da realidade. Eles denotam uma compreensão de que ideologia expressa a realidade do mundo espiritual. Dessa postura. Se assim fosse eles jamais poderiam apreender o movimento histórico e as relações concretas entre os homens e a natureza. Se toda consciência deriva da base real da história.

no que Marx e Engels apóiam-se ao se referirem à ideologia como uma categoria que expressasse a forma de pensamento autônomo e independente da realidade material? Porque historicamente a divisão social do trabalho separou o trabalho manual do espiritual. é desde o início um produto social. cindindo os homens no próprio plano da produção da vida. 44). a existência material dos homens em suas relações de “intercâmbio” é que produz a consciência. e continuará sendo enquanto existirem homens (1991. ao contrário. a primeira forma de consciência Marx e Engels chamaram de “consciência gregária”. A partir deste momento. 44). o aumento das necessidades e ampliação populacional”. dando-lhe o caráter histórico necessário quanto ao seu desenvolvimento e o seu estágio. refletindo no plano intelectual. “desenvolve-se divisão do trabalho” (1991.5 Lembremos que toda a existência humana não é fruto da consciência. p.43). portanto. por conseqüência. p. permitindo aparentemente a este – o trabalho espiritual – um poder autônomo frente à matéria e ao pensamento: A consciência é. ou seja: Este começo e tão animal quanto a própria vida social nesta fase: trata-se de simples consciência gregária e o homem se distingue do carneiro unicamente pelo fato de que nele sua consciência toma o lugar do instinto ou de que seu instinto é consciente” (1991. irá definir a própria consciência. naturalmente. antes de mais nada mera consciência do meio sensível mais próximo e consciência da conexão limitada com outras pessoas e coisas situadas fora do indivíduo que ser torna consciente (1991. A consciência é histórica e depende das relações promovidas pelos homens entre si e o grau desenvolvimento atingindo em relação à natureza: Diante disso. e. A existência humana. p. 43). Agora. inclusive toda as mitificações: a consciência. Estamos aqui diante de uma afirmação fundamental para entender que a consciência sempre expressa a dimensão da relação homem e natureza. a . p. a divisão do trabalho torna-se realmente divisão apenas a partir do momento em que surge uma divisão entre o trabalho manual e o espiritual. A consciência só desenvolve com “o crescimento produtivo. produção e apropriação do mundo das coisas e do mundo dos homens.

É isso que Marx e Engels destacam ao realizarem a comparação entre a ideologia e a “câmera escura”. da filosofia. em função do desenvolvimento da divisão social do trabalho. condicionadas pela produção da vida material. mas para situá-la como uma categoria que sintetiza o mundo da idéias e produções intelectuais. Mesmo invertendo a realidade. da moral etc.44-45). o ‘São Bruno’ é o alvo mais reincidente de Marx e Engels. da teologia. como ‘espírito do espírito’. puras ou não. Eles lançam mão de uma analogia da imagem invertida de uma câmera escura para rechaçar qualquer tentativa de dar à consciência um conteúdo histórico próprio. mas que em cada uma de suas fases encontra-se um . Somente a partir dessa compreensão é possível entender porque Marx e Engels tomam a ideologia associando-a a uma câmera escura. ao negarem qualquer pensamento especulativo e metafísico da história. os quais procuraram dar à realidade a plena realização na consciência. desde este instante. independente de se apresentar autônomas ou não e com ou sem relações com a vida real e efetiva dos homens. Eles usam da metáfora da câmera escura para explicitar o quão frágil são as “especulações filosóficas” dos neo-hegelianos: Tal concepção mostra que a história não termina dissolvendo-se na ‘auto-consciência’. como a pretensão dos neo-hegelianos.6 consciência pode realmente imaginar ser diferente da consciência da práxis existente. disso. nas quais explicitam a condições dessa aparente inversão. O que eles realizam é uma justa formulação materialista da história. É possível observar que não há uma tentativa dos autores nesse primeiro momento de definir a ideologia como uma consciência invertida da realidade. a consciência está em condições de emancipar-se do mundo e entregar-se á criação da teoria. figurando a realidade de cabeça para baixo.. esquecendo-se do aprofundamento e implicações dessa primeira discussão das outras realizadas. Eles a usam não para definirem o que ela é. Nessa primeira construção. a ideologia como síntese “do mundo” da consciência serve para rejeição teórica e histórica das mistificações das idéias e deturpadoras da história operadas pelos pensadores neohegelianos. A ideologia nada mais expressa durante as críticas de Marx e Engels as formas de consciência. se referem à ideologia como categoria para resumir todas as formulações associadas ao mundo espiritual. E. realmente representar algo sem representar algo de real. Interessante é como ao longo da história do marxismo e de seus interpretes há uma tradição em afirmar que Marx e Engels conceituaram a ideologia como uma inversão da realidade e permaneceram presos à essa crítica. Nesse debate. ‘puras”(1991. ela pertence à própria realidade. p. O mundo das idéias pode se apresentar desconecto “aparentemente” da realidade material.

antagônico.. uma relação historicamente criada com a natureza e entre os indivíduos. a relação dos homens com a natureza é excluída da história.. Conseqüentemente. até o momento. analisar e interpretar os homens reais. as circunstâncias fazem os homens assim como os homens fazem as circunstância (1991. uma soma de forças de produção. depende “da forma com o que produzem como com o modo como produzem”. eles vão aproximar a ideologia da concepção de classe dominante.) a produção da vida real aparece como algo separado da vida comum. A segunda aproximação realizada por Marx e Engels da ideologia. Eles apontam para uma definição de a ideologia como uma forma interessada de um mundo humano dividido em classes sociais e. (. a consciência. Não há uma ênfase a determinação econômica. como. são acusados Marx e Engels.56). Com isto. enquanto relações e ligações dos homens entre si e a natureza.. p. afirmando que .. e evitando o erro da simplificação de concebe-la como ilusão invertida da realidade. ou tem omitido completamente esta base real da história. muitas vezes.) portanto. (. N’A Ideologia Alemã. ou toda forma de ideologia. não é apreendida em sua efetividade. como Marx e Engels apresentam logo em seguida: Toda concepção histórica. Esse é o momento “mais” crítico realizado pelos pensadores. tal concepção apenas vê na história as ações políticas dos príncipes e do Estado (.. das condições materiais produzidas.7 resultado material.57)..) (1991. E aqui incide a profundidade do queremos destacar quando nos referimos à ideologia como não representado um “valor negativo e pejorativo”. O que existe como essencial é a construção de uma concepção de história que tem no materialismo histórico o eixo teórico fundamental para apreender a existência do homem e sua produção material. como algo extra e supraterreste. ou tem considerado como algo secundário. quando desenvolvem os fundamentos do materialismo histórico para abstrair. sem qualquer conexão com o curso da história. No primeiro momento de sua obra eles afirmam que toda consciência é uma manifestação da realidade da produção material dos homens. já traz um conteúdo e um sentido preciso como uma categoria do materialismo histórico em seu aspecto fundamental. p. por isso. em síntese. O que está explicitado nesse debate com o neo-hegelianos é a forma como a história. como base para a produção da vida material e seu desenvolvimento. É necessário observar como eles vão associar a ideologia à classe e seus interesses.

mas que. os ideólogos. uma aparece como os pensadores desta classe (seus ideólogos ativos.73). É dado à ideologia o sentido de classe social e a relação desta com a condição de produção material. Os ideólogos de uma classe são aqueles que fornecem as idéias e as ilusões tanto para a classe que representam quanto para toda a sociedade. as idéias daqueles aos quais faltam os meios de produção.8 As idéias da classe dominante são. a classe que é a força material dominante da sociedade é. corporificadas na classe dominante. grifos nossos). conceptivos. fazem de suas necessidades de classe a necessidade de todos. entre aqueles que se constituem como pensadores dessa classe e aqueles que se relacionam passiva-ativamente: no interior desta classe. ao mesmo tempo. da qual essa classe veicula sua existência. Ainda. o pensamento. que fazem da formação de ilusões desta classe a respeito de si mesma seu modo principal de subsistência). Isso quer dizer que a idéia. enquanto que os outros relacionam-se com estas idéias e ilusões de maneira passiva e receptiva. As idéias dominantes nada mais são do que a expressão ideal das relações materiais dominantes. mas situa o papel que toda classe tem quando é expressão dominante das forças materiais de produção e dispõe dos meios de produção sob seu controle. pois são na realidade. as idéias dominantes. p. apenas ela é a expressão das relações materiais dominantes. Marx e Engels vão demonstrar que no seio da própria classe existe uma divisão social do trabalho. Eles não estão dizendo que a ideologia é uma ilusão. p 72. Não é a classe dominante que regula as idéias de uma sociedade. A classe que tem à sua disposição os meios de produção material dispõe. É fundamental ater-se a essa última afirmação para entender como é compreendida essa relação entre classe dominante e as idéias dominantes. os membros ativos desta classe (1991. dando a primazia ao pensamento em detrimento da compreensão do materialismo histórico. isto é. sua força espiritual dominante. a consciência são figuras (efeitos) da realidade material de produção. ou a condição unívoca de uma classe social sobre as outras. no processo de produção da vida material e as formas de consciência circunscrita a ele. Não há nenhuma definição de Marx e Engels quanto à ideologia ser a idéia dominante. Porque a . em cada época. ao mesmo tempo e em média. Isso não significa restritividade ideológica. ao mesmo tempo dos meios de produção espiritual. com um conteúdo totalizador de todas as classes. Se Marx e Engels afirmassem isso estariam eles invertendo a realidade como numa câmera escura. fazendo-as subsumirem diante das idéias dominantes. pensadores de uma classe. o que faz com que a ela sejam submetidas. A idéia dominante de uma época corresponde à classe dominante em função desta expressar a produção material dominante. as relações materiais dominantes concebidas como idéias (1991.

na estreita relação entre o “ser social” e a “consciência” do mundo social e natural. O que se pode sublinhar contra todas as tentativas de reducionismos imputadas à Marx e à Engels é que a ideologia subsiste como forma de interesse e expectativas de classe. pertencendo exclusivamente à classe. na época em que a aristocracia dominou. igualdade etc. desde. p. a apresentar seus interesses como sendo o interesse comum de todos os membros da sociedade. dominaram. condicionada e produzida pelas condições de produção da vida material. para expressar isso mesmo em termos ideais: é obrigada a emprestar às suas idéias a forma de universalidade.74. em função das condições da produção material da vida. terceira. e mais espetacular compreensão de Marx e Engels. pela riqueza e profundidade de seu pensamento. 72). de fidelidade etc. isto é. sem nos preocuparmos com as condições de produção e com os produtores destas idéias. quando a ideologia expressa a dimensão de classe. os conceitos de honra. ignorarmos os indivíduos e as circunstâncias mundiais que são a base destas idéias. portanto. as únicas universalmente válidas. mas como representante da sociedade. porque já se defronta com uma classe” (1991. Tanto é o cuidado conceitual que tomam Marx e Engels que em seguida na mesma construção lógica afirmam: Se. por exemplo. entretanto. Vejamos ainda: com efeito ainda. em relação à realidade histórica. se nos limitarmos a dizer que em uma época estas ou aquelas idéias dominaram.9 produção das idéias dominantes de uma classe precisa se colocar como universal. como dominante por ser ‘a força material dominante’. E. não como classe. se. ao passo que na época da dominação burguesa dominaram os conceitos de liberdade. p. na concepção do decurso da história. a . quando o pensamento se coloca como autônomo e procura se constituir como o motor da história. eles apreendem a ideologia situada na própria luta de classes. A ilusão aqui remete aos interesses de classe na promoção de referências extensiva às demais classes. destituído “aparentemente” de seu fundamento material. A classe revolucionária surge. Primeiro. (1991. à classe dominante. e sua necessidade. cada nova classe que toma o lugar da que dominava antes dela é obrigada. então podemos afirmar. A interpretação da ideologia em Marx e Engels permanece aberta. para alcançar os fins a que se propõe. Segundo. que. grifo nosso). E mais do que isso. Aqui entra um balizamento primordial que situa três formas fundamentais para o conteúdo histórico da ideologia. separarmos as idéias dominantes da própria classe dominante e se as concebermos como autônomas. e apresentá-las como sendo as únicas racionais.

Não é ilusão. concepções. não é falsa consciência. Ela representa as relações sociais em suas contradições e luta de classes no plano da consciência e nas formas como homens vão produzindo-se e representando-se no nível de idéias. destituindo o sentido que a ideologia carrega: interesse e luta de classes?. situando-o na produção material da existência humana. ou seja. Para finalizar é necessário problematizar: 1) a ideologia para Marx e Engels é inversão da realidade?. elevando o materialismo histórico como capaz de entender a produção da consciência.10 relação entre as classes e em seu próprio interior. no movimento entre a particularidade de uma classe e universalidade das relações sociais de produção. eles elevam à ideologia como conceito chave para apreender o conteúdo histórico. . figuradas nas e pelas classes sociais. no conjunto das contradições reais que levam o movimento e o desenvolvimento histórico. ou seja. no qual ela é produzida e atuante como necessária expressão para as diferentes classes sociais. formas de “intercâmbio”. enquanto relações sociais. em função das próprias condições materiais de produção da vida. da existência humana. atribuindo à Marx e à Engels a produção dessas orientações? A ideologia é tratada por eles com negatividade? Respondemos a isso com um não. Essa orientação para nós é mais representativa para entender a ideologia. Em A Ideologia Alemã. nem tão pouco as idéias da classe dominante. quando as especificidades de uma classe são transformadas como uma vontade geral de todos os membros de uma sociedade. 3) ou ideologia é uma ilusão?. A ideologia discutida por Marx e Engels traduz o fenômeno da consciência do ser social. Entender a história é também entender o próprio processo da produção ideológica. ela é o terreno concreto que Marx e Engels desmistificam as deturpações metafísicas. de acordo com a base material de produção. os sentidos “espirituais” do mundo real. mergulhado nas contradições antagônicas das classes sociais e na própria representação do mundo humano. O que se deseja quando são propostos esses sentidos. Pelo contrário. 2) a ideologia é a idéia dominante. tendo a base material da vida a fonte de sua. PARA NÃO CONCLUIR A ideologia é histórica e situada no movimento e desenvolvimento real da sociedade em função do modo de produção dominante. conceitos. que disputam o sentido a história.

São Paulo: Cortez: 1992. K. 8. A face oculta da escola. F. Porto Alegre: Artes Médicas. 1989. Ideologia e Ciência Social: elementos para uma análise marxista. F. LÖWY. . MARX. 1991 [1973]. & ENGELS. São Paulo: Hucitec. A ideologia alemã.ed. M. 8. ed. (Coleção Educação). M.11 REFERÊNCIA FERNÁNDEZ ENGUITA.