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Nos dias atuais, os biocombustíveis têm, cada vez mais, sua importância reconhecida.

São fontes renováveis de energia, provenientes de matéria orgânica, e liberam na atmosfera uma quantidade significativamente menor de poluentes em relação aos combustíveis fósseis, como os derivados do petróleo. Enquanto os biocombustíveis provêm de matérias-primas que podem ser repostas em quantidade e velocidade proporcionais à sua utilização, sem se esgotar, os combustíveis fósseis não são renováveis e têm o preço atrelado à relação entre oferta e demanda. Ou seja, quanto mais escasseiam, mais elevado é o valor de venda, que também pode ser influenciado por conflitos em países produtores. Por isso, muitas vezes, ocorrem crises de alta do petróleo. Assim, os biocombustíveis tornam-se ainda mais competitivos. Outro importante benefício dos biocombustíveis é que eles permitem uma ciclagem do gás carbônico (CO2), um dos causadores do aquecimento global. O gás, que é eliminado pelos veículos, também é reutilizado pelas plantas (matérias-primas dos biocombustíveis) para a produção de biomassa, através da fotossíntese. O Brasil é reconhecido mundialmente por seu pioneirismo na introdução em sua matriz energética de um biocombustível produzido a partir da cana-de-açúcar: o etanol. Obtido, em nosso país, principalmente pela fermentação da sacarose do caldo de cana, o etanol passa a ter outras possibilidades de produção. Trata-se do chamado etanol de segunda geração. Para entender o que é esse novo combustível, o Grão em Grão entrevistou a pesquisadora em Biologia Molecular de Plantas da Embrapa Milho e Sorgo Cynthia Damasceno. Grão em Grão - O que é biocombustível de segunda geração e quais são suas principais matériasprimas? Cynthia Damasceno - É considerado biocombustível de segunda geração o bioetanol produzido a partir de diversas fontes de biomassa vegetal, dando-se preferência para matérias-primas não destinadas à alimentação humana. As matérias-primas podem ser espécies vegetais de alta biomassa dedicadas à produção do etanol de segunda geração ou resíduos de culturas utilizadas na produção do etanol de primeira geração, como o bagaço da cana e a torta da mamona, utilizados respectivamente para produção de etanol a partir do caldo da cana e de biodiesel do óleo da mamona. No Brasil, dentre as espécies de alta biomassa que apresentam grande potencial está o sorgo. Como pode ser produzido? O etanol de segunda geração é produzido a partir da biomassa vegetal, que é composta principalmente pela celulose, um polímero formado por cadeias de glicose. A quebra da celulose em moléculas simples de glicose permite a fermentação desse açúcar simples por microorganismos e subsequentemente produção de etanol. Um dos principais problemas da produção do etanol de segunda geração é o chamado pré-tratamento, que tem a função de desestruturar a parede celular, deixando os compostos mais acessíveis aos tratamentos seguintes. O pré-tratamento irá variar conforme o tipo de biomassa utilizado, o que torna o processo bastante complexo. Hoje, o custo do pré-tratamento é um dos principais gargalos da produção de etanol de segunda geração.

diferentes pesquisas já realizadas mostram que. diz Gláucia Mendes Souza. atualmente. o que econonomicamente é bastante interessante. são necessárias avaliações em escala piloto. que vem aprimorando as tecnologias relacionadas à geração de energia de biomassa. paralelamente aos estudos em laboratório. doutora em bioquímica pelo Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do Bioen. produzido a partir da palha e do bagaço de cana-de-açúcar. uma das maiores vantagens de utilização de espécies vegetais para bionergia. a maioria deles inseridos dentro do Plano de Apoio à Inovação Tecnológica Industrial dos Setores Sucroenergético e Sucroquímico (PAISS). A pesquisadora do Bioen diz que. . Na avaliação de Gláucia. Qual a importância do combustível de segunda geração? A utilização de biocombustíveis de segunda geração. Assim.Em que estágio estão as pesquisas na área? Apesar de no Brasil já existirem plantas-piloto para produção de etanol de segunda geração. "Pelo vigor das empresas envolvidas nesses projetos. Em termos ambientais. Futuro da produção A produtividade do etanol brasileiro atualmente é de 7 mil litros de álcool por hectare de cana plantado. "Projetos pilotos realizados nos próximos dois anos irão permitir uma tomada de decisão quanto a melhor tecnologia a ser utilizada pelo país em relação à produção de etanol de segunda geração". ou etanolcelulósico. Hoje. o custo de produção do etanol celulósico ainda é 50% maior que o de produção do etanol convencional. no momento. fruto dos bilhões de doláres investidos nos últimos anos. para identificação de possíveis gargalos no desenvolvimento do processo tecnológico. Há vários estudos em andamento. Mesmo assim. que recebe recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). principalmente devido ao alto custo das enzimas utilizadas.As pesquisas em torno do chamado "etanol de segunda geração". em um período de 3 a 4 anos. existem vários projetos piloto de etanolcelulósico saindo do papel. é nos Estados Unidos que a pesquisa está mais avançada. os desenvolvidos pelo Programa Fapesp de Pesquisa em Bionergia (Bioen). explica a pesquisadora. o Brasil terá condições de avaliar rotas em escalas que permitam decisões maduras em relação à construção das primeiras plantas em escala industrial no País". Porém. aumentando consideravelmente a produção sem alternar a área ocupada com cana-de-açúcar. por exemplo. Segundo ela. permitirá que se consiga extrair das espécies utilizadas maior quantidade de energia por hectare cultivado. como. inclusive com custos mais acessíveis das enzimas (responsáveis por transformar a palha e o bagaço em álcool)". principalmente a partir de resíduos de culturas alimentares ou mesmo culturas dedicadas à produção desse tipo de biocombustível. o etanol só é fabricado a partir da sacarose. Com o domínio da tecnologia de produção do etanol celulósico a produtividade sofrerá aumento de 30%. além do sequestro de CO2 da atmosfera. o Brasil apresenta todas as condições para produzir o etanol celulósico de forma sustentável e economicamente competitiva. prevê. iniciado em 2008. a produção de etanol celulósico permitiria aproveitar os outros dois terços da biomassa. Essas dúvidas passam pelas etapas de pré-tratamento e hidrólise. acredito que. o processo ainda não é economicamente viável em larga escala. "Os estudos e a avaliação em escala piloto trarão respostas para várias questões que atualmente precisam ser melhor esclarecidas. que corresponde a um terço da biomassa da cana. estão evoluindo rapidamente no Brasil. isso também quer dizer que menores áreas de plantio serão necessárias. "Estas avaliações estão sendo feitas com aplicações das diferentes tecnologias e se constituem em etapas importantes para a tomada de decisões no que se refere ao desenvolvimento de plantas de escala industrial". enfatiza. Projetos com etanol de segunda geração avançam no Brasil 25/10/12 .

no Brasil. Já existem patentes para uma substância que auxilia diabéticos e para uma fibra solúvel em bolachas. que é um alimento. . "Os americanos têm muito dinheiro e pesquisadores. A eletricidade excedente. vamos queimar o bagaço e a palha para produzir eletricidade. o custo atual do combustível à base de celulose já seria competitivo com o custo do etanol norte-americano. é realizada a partir de um microorganismo geneticamente modificado que soma as características das leveduras e das enzimas. conta. Segundo ele. ainda. A técnica. então. não consumida pelas usinas. anunciou deter um processo mais rápido e barato. Jaime Finguerut concorda com o colega. Buckeridge destaca que esse combustível terá que concorrer. e sim queimado em caldeiras e transformado em energia elétrica. um dos pioneiros nessas pesquisas nos EUA. Logo. Daí. Se o etanol for mais bem pago. a produção do etanol celulósico deverá ser. é de cerca de 40%. Os norte-americanos produzem etanol a partir do amido de milho. pensa diferente. com a chamada química verde. saindo de alguma torneira de uma usina real. gerente de desenvolvimento estratégico do CTC (Centro de Tecnologia Canavieira). dentro das próprias usinas. que é o caso da cana de açúcar". O que acontecerá no futuro será determinado pelo mercado. "A glicose que sobra é a mesma substância que temos no caldo utilizado na primeira geração de etanol. chamada de bioprocessamento consolidado (CBP). Buckeridge. que prevê para a safra de 2013 a produção dos primeiros litros de etanol de segunda geração. então vamos usá-los para produzir etanol de segunda geração". “Em relação ao etanol celulósico. e precisam subsidiar sua produção para tornar o preço do etanol do milho equivalente ao preço do etanol da cana de açúcar. Diferença entre as técnicas O etanol de segunda geração é produzido a partir do bagaço que passa por um processo de lavagem e pré-tratamento para que sua superfície fique maior. "No futuro teremos que fazer as contas para saber o que realmente irá valer mais a pena". esclarece Finguerut. é só aplicar a levedura e produzir o álcool". São instalações para o nosso tamanho de produção de álcool bastante pequena. do CTBE (Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol). Lee Lynd. é que as usinas brasileiras sejam flex e dominem até mesmo os conhecimentos da química fina. chegam a produzir 1 milhão de litros por ano. divisão da ciência que estuda compostos do bagaço e da palha da cana que possam ser comercializados e utilizados pela medicina e indústria alimentar. nós estamos num estágio um pouco antes da escala de demonstração. Os norte-americanos dizem que estão na frente quanto ao domínio da tecnologia. geralmente vendida para o sistema interligado de distribuição elétrica nacional. Existem também outras na Dinamarca. hoje com valor superior entre 30% e 40% do etanol brasileiro de primeira geração. completa o pesquisador. na Suécia. Nele são aplicadas enzimas que quebram a celulose do material em glicose.para 10 mil litros de álcool/ha. em cima de uma escala longe da comercial”. estima Jaime Finguerut. explica Buckeridge. mas não tem uma planta tão estudada e tão madura para fazer isso quanto nós. considera o biólogo. O que importa no final das contas. mas aponta que outros países estão um pouco à frente do Brasil. Recentemente. explica Marcos Buckeridge. que reduz em uma as quatro transformações que envolvem a produção do etanol celulósico. “Mas esses cálculos de valores são grosseiros. Nos Estados Unidos existem quatro instalações de demonstração já operando. "Se ele estiver pagando mais por eletricidade. acoplada à produção de etanol de primeira geração. O bagaço que sobra do processo para obtenção do etanol de primeira geração não é descartado. O Brasil tem cerca de 500 usinas de açúcar e álcool já em funcionamento. enquanto as nossas plantas produzem 1 milhão de litros de álcool primeira geração por dia”. Concorrentes da segunda geração A indústria brasileira pode até ser mais competitiva. mas a produção de etanol de segunda geração já tem fortes concorrentes.