O Papalagui

Jamais Tuiávii pretendeu editar para a Europa estas falas ou discursos; nem mandar imprimi-los de forma alguma, porque se destinavam, exclusivamente, aos seus compatriotas polinésios. Se, contudo, sem que ele o saiba e, decerto, contra a sua vontade, comunicaremos ao mundo europeu que lê as falas deste nativo, é porque estamos convencidos de que para nós, brancos instruídos, pode ser útil conhecer a forma como nos vê, a nós e a nossa cultura, um indivíduo estreitamente ligado à natureza. Com os olhos dele ficamos sabendo como nós mesmos somos, de um ponto de vista que nos é impossível assumir. Podemos, principalmente os fanáticos da civilização, achar que é ingênua a maneira como ele pensa; talvez pueril, ou mesmo tola. Mas aqueles que forem sensatos e humildes terão, ao refletir, de concordar com muito do que diz.Tuiávii; e terão de auto-criticar-se porque a sua sabedoria não provem da erudição mas da simplicidade que é divina. Estas falas representam, por si, nada mais nada menos do que um apelo a todos os povos primitivos dos mares do Sul para que se libertem dos povos civilizados da Europa. Tuiávii, que despreza esta última, viveu na mais profunda certeza de que os seus antepassados indígenas haviam cometido o maior dos erros quando acolheram amávelmente as luzes da Europa. Tal qual aquela virgem de Fagasa que, do alto de um rochedo, repeliu com o leque o primeiro missionário branco, dizendo: "Vai, demônio malfazejo", também ele viu na Europa o demônio sombrio, o princípio que destrói, aquele do qual deve fugir quem quiser conservar-se puro. Quando o conheci, Tuiávii vivia pacatamente, segregado do mundo europeu, na pequena e longínqua ilha de Upolu, que faz parte do arquipélago de Samoa, na aldeia de Tiavéa, da qual era senhor e chefe mais importante. À primeira vista, parecia um gigante maciço, simpático, com dois metros de altura, de estrutura particularmente robusta. A voz, em contraste, era suave,

branda, quase feminina. Os olhos grandes, profundos, sombreados por espessas sobrancelhas, tinham algo de fantástico, fixo. Mas, quando de repente falava, mostravam-se calorosos, revelando disposição clara e benévola. Nada havia, quanto ao mais, que distinguisse Tuiávii dos outros nativos. Bebia a sua Kava (bebida popular samoana, feita com as raízes do arbusto chamado Kava); pela manhã e à noite, ia ao loto (serviço religioso), comia bananas, taro e inhame, observava todos os usos e costumes de sua terra. Eram só os mais íntimos que sabiam quanto incessantemente seu espírito fervilhava, à busca de esclarecimento, nos momentos em que, como se sonhasse, os olhos semicerrados, ficava deitado na grande esteira que tinha em casa. Ao passo que os indígenas, em geral, viviam tal qual crianças, apenas e exclusivamente no reino dos sentidos, totalmente e só no presente, sem perqüirir coisa alguma de si mesmos, nem do ambiente mais próximo ou mais distante, Tuiávii era de natureza excepcional, pois excedia de muito os seus semelhantes: isto é, tinha consciência, essa força íntima que nos distingue, mais do que qualquer coisa, de todos os povos primitivos. Talvez fosse desta singularidade que se originara o seu desejo de conhecer a Europa longínqua; aspiração ardente que já sentia quando ainda freqüentava a escola dos missionários maristas mas que só realizou quando adulto. Juntando-se a um grupo teatral popular que viajava pelo continente, visitou, faminto de experiência, sucessivamente todos os países europeus, ganhando, assim, um conhecimento exato das respectivas características e culturas. Mais de uma vez me espantou a precisão com que estes conhecimentos atingiam minúcias aparentemente insignificantes. Tuiávii possuía, no mais alto grau, o dom da imparcialidade que marca a observação acurada. Nada havia que o ofuscasse, palavra alguma que o desviasse de uma verdade. Ele via, por assim dizer, a coisa em si, se bem que jamais se arredasse do seu próprio ponto de vista, por mais que refletisse. Embora eu tenha vivido mais de um ano muito próximo a ele — eu era membro da sua comunidade —, Tuiávii só se abriu comigo quando nos tornamos amigos, depois que ele havia de todo superado, ou mesmo esquecido, o europeu em mim; depois que se convenceu de que eu amadurecera para a singeleza da sua sabedoria e de que dela não zombaria de maneira alguma (o que jamais fiz). Foi só então que me permitiu escutar trechos dos seus apontamentos. Leu-os para mim sem paixão, sem esforço oratório, como se aquilo que tinha para dizer fosse, por assim dizer, histórico; mas foi precisamente pela forma com que falava que tanto mais nítida e claramente me impressionou o que disse e me despertou o desejo de registrar o que ouvira. Foi só muito mais tarde que Tuiávii me entregou os seus apontamentos e me permitiu traduzi-los para o alemão. Segundo pretendia, a tradução devia servir, unicamente, para fins de comentários de minha parte, jamais seria um fim em si mesma. Todas estas falas são esboços, nenhuma

está concluída; nem Tuiávii jamais as considerou de outra forma. Depois da completa ordenação da matéria em sua mente, depois de reduzi-la à clareza derradeira é que tencionava iniciar o seu "trabalho missionário", conforme chamava, na Polinésia. Tive de deixar a Oceania antes que ele partisse nesta viagem. Por mais que haja ambicionado permanecer fiel ao máximo ao original, sem me permitir interferir em absoluto na ordenação da matéria, tenho, no entanto, consciência do quanto me escapou da natureza intuitiva de sua fala, do sopro de sua intensidade. Hão de me perdoar de bom grado aqueles que sabem quanto é difícil traduzir para o alemão uma língua primitiva, ou exprimir o que nela soa pueril sem dar impressão de banalidade ou insipidez. Todas as conquistas culturais européias são engano paraTuiávii.o insulano sem cultura; são becos sem saída. Isso poderia parecer arrogância, se tudo não fosse exposto com simplicidade maravilhosa, se não revelasse humildade. Sim, ele adverte aos seus compatriotas que se libertem do fascínio do Branco, mas o faz com melancolia, mostrando que o seu zelo missionário emana do amor humano e não do ódio. "Acreditais trazer-nos a luz", disse-me em nosso último encontro, "mas, na verdade, quereis é arrastar-nos para a vossa obscurida-de". Tuiávii vê as coisas e os fenômenos da vida com a honestidade e o amor à verdade de uma criança; esbarra em contradições, descobre deficiências morais profundas e, enumerando-as, recordando-as, transforma-as em experiência. Ele não consegue reconhecer em que reside o alto valor da cultura européia, se ela aliena o homem de si mesmo, o torna inautêntico, mais o desnatura, o piora. Ao enumerar nossas conquistas e começar, por assim dizer, pela epiderme, pela exterioridade, designando-as de modo absolutamente não-europeu e desapiedado, sem nenhum respeito, Tuiávii nos revela o espetáculo, embora limitado, de nós mesmos; espetáculo ante o qual não sabemos se é do autor ou do seu objetivo que devemos rir. A meu ver, reside nesta franqueza pueril, nesta falta de respeito o valor que têm para nós, europeus, as falas de Tuiávii e a razão para que sejam publicadas. A Guerra Mundial fez-nos cépticos em relação a nós mesmos; começamos nós também a questionar as coisas no seu verdadeiro conteúdo; começamos a duvidar de que sejamos capazes de realizar o ideal que temos de nós mesmos dentro de nossa cultura. Daí por que não nos devemos julgar demasiado eruditos. Desçamos, por uma vez, das alturas de nosso espírito até a maneira singela de pensar e ver deste homem dos mares do Sul que, ainda livre do fardo da instrução e ainda primitivo no modo de sentir e de pensar, nos ajuda a descobrir em que nós perdemos o sentido sagrado do homem, criando, em compensação, ídolos sem vida. Hom in Baden Erich Scheurmann ______________________________________________________________

I Como o Papalagui cobre a sua carne com muitas tangas e esteiras O Papalagui está sempre precupado em cobrir bem a sua carne. "O corpo e os membros são carne; só aquilo que está acima do pescoço é que é o homem, realmente": assim me falava um Branco, muito respeitado e tido como muito sábio. Queria ele dizer que só se devia considerar aquelas partes em que reside o espírito, com todos os pensamentos, bons e maus: a cabeça. A cabeça, sim, e se necessário também as mãos, o Branco permite que fiquem descobertas, embora a cabeça e a mão não sejam mais do que carne e osso. Aquele que, quanto ao mais, deixa que se lhe veja a carne não pode pretender à verdadeira moralidade. Quando faz de uma moça sua esposa, nunca o rapaz sabe se foi enganado, porque jamais lhe viu, até então, o corpo(1). A moça, por mais bela que seja, tanto quanto a mais bela taopu (2) de Samoa, cobre o corpo para que ninguém o veja, nem tenha prazer em vê-lo. A carne é um pecado, segundo diz o Papalagui, porque o seu espírito é grande, é o que ele pensa. O braço que se ergue, à luz do sol, para atirar, é flecha do pecado; o peito, sobre o qual palpitam as ondas do respirar, é habitação do pecado; os membros com que a moça convida para a siva (3) são pecadores. E também os membros que se tocam para fazer seres humanos, alegrando a vasta terra, são pecaminosos. Tudo que é carne é pecado. Um veneno existe em todos os tendões, malicioso, que salta de um homem para outro. O espetáculo da carne, por si só, é suficiente para envenenar quem a contempla, intoxicá-lo, corrompê-lo e tornálo tão abjeto quanto aquele que se deixa ver. É o que proclama a moral sagrada do homem branco. É por isto que o corpo do Papalagui se envolve, da cabeça aos pés, em tangas, esteiras e peles, tão justas, tão apertadas, que olhar humano algum, raio algum do sol as atravessa; tão justas que o corpo se torna lívido, branco, fatigado, assim como as flores que crescem no mais profundo dos bosques. Escutai, irmãos mais sensatos das muitas ilhas, que fardo um Papalagui carrega no seu corpo. Em primeiro lugar, envolve-o numa delgada pele branca, feita de fibras de certa planta, a chamada pele superior, que se atira para o alto e se enfia de cima para baixo, pela cabeça, peito e braços até as coxas. Por sobre as pernas e coxas até o umbigo, puxada de baixo para

se raspa com facas. andai descalços sob o céu enquanto o orvalho da noite cobre a relva. criado especialmente para este fim. os pés ganham uma pele macia e outra muito dura. quando muito. assim vos curareis de todas as doenças". são atadas. sem leite. Esta tanga quase sempre é cinzenta como a lagoa quando chove. As mulheres. por tudo isso o Papalagui tenta esconder a sua tolice. como. e ajuizado. como os pés ficam como se estivessem mortos e começam a cheirar mal. arame e fios. a terceira. dos quais o arrancam com violência pelas quatro tetas que têm em baixo. se bate e se coloca ao sol até enrijecer de todo. aliás. chifrados. Os seios ficam flácidos. Muito sadio era este homem. uma canoa para o pé direito. usam muitas esteiras e tangas. por causa de uma esteira que os aperta e vai do pescoço até o ventre e se amarra na frente e também nas costas. que consiste quase sempre em três partes: uma cobre a parte de cima do corpo. e só para aqueles homens que gostam de dar o que falar e de sempre andar atrás das mulheres. ao tornozelo de maneira que os pés ficam dentro de um estojo rígido. quase todos os pés europeus já não conseguem agarrar nem trepar numa palmeira. Estas canoas são amarradas. A pele macia. Sua pele se mostra sempre coberta de cicatrizes e esfoladuras devido aos cordões. pode-se esticar e ajustar bem ao pé. justo o suficiente para nele caber um pé. As duas peles são cobertas por uma terceira. Com isso o Papalagui fabrica uma espécie de canoa de bordas altas. de fato. na maior parte das vezes. dandolhe. Nem é o leite delas mesmas que dão. que é vermelha por natureza. tal qual o corpo do caracol. um brilho tal que os olhos não suportam o ofuscamento e têm de desviar-se. de tal forma que dão a impressão de ser uma peça só. É esta. fechado em baixo e com uma maminha artificial em cima. Viveu. Como isso é muito contrário à natureza — conforme até o Branco percebe —. feitas com a seiva ressecada da borracha. nunca é realmente colorida. mas o de animais vermelhos. É por isto que a maior parte das mães dão o leite aos filhos num rolo de vidro. as pernas. vem a chamada pele de baixo.cima. ao passo que a outra quanto mais dura. mas riram-se dele e não tardaram a esquecê-lo. à custa de muita esfregação. Por fim. durante algum tempo. sai nele para viajar e com ele dança. a tanga. as tangas das mulheres e das moças são mais finas que as dos homens. Aliás. tecida com os pelos de certo animal quadrúpede. na Europa um Papalagui que ficou célebre e que muitos homens vinham procurar porque lhes dizia: "Não é bom que useis peles tãos estreitas e pesadas nos pés. uma canoa para o pé esquerdo. mais grossa. a outra cobre a parte do meio. enroladas no tronco e nas coxas. em certo tempo. tal qual os homens. menos se ajusta. É feita com a pele de um bicho forte que se mergulha. mesmo que esteja quente como após a chuva tropical. na água. a peça do meio. feios. lanoso. As três partes prendem-se entre si por meio de conchas(4) e tiras. . O Papalagui usa-o do nascer ao pôr do sol. cobrindo com muita lama a pele do bicho. esteira que se enrijece com espinhas de peixe. propriamente.

que desce em ponta pelas costas. como os aros brancos de cal. muito luzidias. então. enquanto as mulheres apenas inclinam para diante a carga que trazem como se fosse uma canoa muito pesada. nos tornozelos. Cobrem. o álii. nunca. que se abre nos pés e os deixa descobertos. Em todo caso. As mulheres e moças quase sempre usam esta . rijo. e só que não cai da cabeça durante a tempestade e a dança. o homem e a mulher envolvem-se noutra tanga mais larga. fixa-lhe um prego de ouro ou uma conta de vidro. tudo pendente do peitoral. fica sem brilho. Através deste aro ele passa um pedaço de tanga colorida. o que significa: observam os mandamentos da boa moral. então. de um preto muito forte. Quando se usa esta roupa de festa. com as quais enchem uns baús em pé e ocupam muitos de seus pensamentos para saber que tanga gostariam de usar hoje ou amanhã. É comum o pescoço e os braços aparecerem. muitas esteiras de cor. convém que as moças se cubram muito e se diz com benevolência. feito o rabo de papagaio (6). sem daí resultar vergonha. por cima da qual. para as festas.e também podem ser de cor. é que o Papalagui tira todas as tangas. peles em cada dedo. Os homens sacodem estas casas que levam na cabeça sempre que têm de cumprimentar alguém. tem muita importância. Daí é que nunca entendi por que. também branco e também tratado a cal. do tamanho de uma folha de taro. nos fonos (5) nos banquetes. isto é. Do pescoço ao mamilo. Mas talvez esteja nisso a graça da solenidade: é que aí se permite aquilo que não se permite todos os dias. o chefe. os homens com um vaso preto. só que esta é muito mais bonita. e é por isto que muitos áliis importantes mudam todos os dias os peitorais e os aros de cal. imediatamente. Parecem-se com a tuiga (7) da taopu durante a dança de guerra. grossa ou fina conforme o sol brilhe mais ou menos. Jamais um Papalagui fica sem estes adornos na presença de uma mulher. curvo e oco feito o telhado de uma cabana samoana. Pior ainda é se o aro de cal enegrece. também as mãos levam peles brancas. todo tipo de enfeites. os homens quase sempre têm um só traje para festas. enquanto elas falam com muito interesse nos adornos com os quais fixá-los. porém. Só à noite. do qual quase nunca falam. uma só. enrolado no pescoço. tiras. descansa um aro mais alto. É a chamada roupa de ave. as mulheres com grandes malhas de vime ou cestos virados para cima. contas de vidro. a cabeça. usa um pedaço de tanga tratado a cal. quando vai para a esteira. Só os homens têm o pescoço e as costas sempre muito cobertos. Por isto se permite que os homens sensatos apenas segurem estas peles nas mãos. se pode ser curta ou comprida. que são pudicas. Enquanto as mulheres têm. Muitos Papalaguis também usam aros tratados a cal no punho. mostrando mais carne do que o homem. Este peitoral branco. aos quais prendem flores que nunca murcham. numa outra. Assim que saem da cabana para a rua. penas ornamentais. mas se enrola. tão estreitas que o sangue arde e corre para o coração. ou as coloquem na tanga abaixo dos mamilos. as mulheres e moças deixam que se lhes veja a carne do pescoço e das costas.

ele acha feio e disforme. O seu próprio nariz. sem a bela quentura que vem de dentro. para ele é bonito. é do aitu*? Existe idéia mais tola. que não sente o prazer verdadeiro. que a nossa carne fosse dura como a rocha do vulcão. Estas penas fazem o corpo suar e fazem o Papalagui pensar que está deitado ao sol. rainha das moças. poderiam pensar em outras coisas. mesmo que este não brilhe. colocam-se embaixo de um grande teto. ao passo que o nosso. Até as mulheres. ricamente bordada no pescoço. deliberações 6 É do fraque que se trata. cobre-se. ele que precisa cobrir-se tanto para evitar se envergonhar. Se eles deixassem ver a carne à vontade. as nossas pernas mexem-se como o cavalo selvagem. sem tanga que as amarre. sem mais tardar. que o corpo do Papalagui seja branco e pálido. portanto. Noite e dia. Assim que o Papalagui se deita na esteira. falam constantemente nas formas do corpo das mulheres e moças. Nota de Tuiávii: mesmo mais tarde. ela só o mostrará raramente. até a cabeça. quando saem para o sol. como ele. o que é natural. como se fosse grande pecado aquilo que é natural e bonito. Alegramo-nos ao ver a virgem que mostra seu corpo bonito ao sol e à lua. 7 Enfeite de cabeça. quando nós pensamos exatamente ao contrário. No entanto. Compreende-se. só devendo ocorrer na maior escuridão. É que o Papalagui em todas as coisas gosta de fazer uma sabedoria e uma lei a sua maneira. sempre redondo e mole. porque ao próprio sol o Papalagui não dá muita atenção. com as penas que se originam de uma grande ave e se juntam numa grande tanga para não se soltarem ou se espalharem para todos os lados. principalmente às donzelas. . como se a cor lívida da lua valesse mais que a cor do sol. Mas é assim que o Branco quer. 2 Moça aldeã. amados irmãos? A crer no que diz o Branco. deveríamos querer. Mas a carne é pecado. precupam-se muito em proteger a pele. se bem que pouco se veja. 4 Tuávii refere-se aos botões e elásticos 5 Reuniões. alegramo-nos porque a nossa carne encontra o sol. pontudo como o dente do tubarão. sem a cor da alegria. 3 Dança nativa.roupa de noite. * Notas: 1. e apenas de noite ou ao crepúsculo. nem pele que as contenha e não nos preocupamos com que coisa alguma caia da nossa cabeça. pensam nisso. Tolo. É porque o corpo das mulheres e moças se cobre tanto que os homens e rapazes desejam ardentemente ver-lhes a carne. cego é o Branco. e os olhos não revirariam nem a boca diria palavras impudicas quando encontrassem uma moça. certamente. evitando que se exponha à luz plena.

embora ambas as coisas sejam absolutamente uma só e a mesma. peles para as . E cada aiga não sabe nada da outra. Apolima. com muitos compartimentos e furos. como se entre elas não houvesse um muro de pedra mas. muitos até contentíssimos. para chegar ao lugar em que está escrito na parede o nome da família. à esquerda.II Dos baús e fendas de pedra e do que entre eles existe O Papalagui mora. Apesar disso tudo. Cada aiga tem para si uma parte especial do baú de pedra. os homens andam por estas fendas da manhã à noite. nada mesmo. ou embaixo. caso em que enchendo sempre o ar de fumaça e cinzas. tal qual a escalopendra*entre fendas de lava. Saváii (2) e numerosos mares. sim. na cabana. Vê-se. e se se encontram no buraco por onde entram e saem. enfeites para a cabeça. cumprimentam-se de má vontade. e vive no meio de pedras. ou mesmo na frente. São as ruas onde se construíram enormes caixas de vidro nas quais se mostram todas as coisas necessárias à vida do Papalagui: tangas. ou resmungam qualquer coisa. Manono. dos lados e por cima. então. como o marisco. Quase todas as cabanas são habitadas por mais pessoas do que as que moram numa só aldeia samoana. ou em cima. tal qual insetos hostis. A cabana em que mora parece-se com um baú de pedra em pé. Fumaça e cinzas que chovem nas fendas. à direita. além de areia dura entre os dentes. Neste lugar existe uma grande folha de madeira que se tem de empurrar com força para entrar na cabana. redondo. dando a impressão de estarem zangadas por terem de viver perto umas das outras. tem-se de subir por muitos galhos. A gente desliza para dentro e para fora da casca de pedra apenas por um lugar que o Papalagui chama entrada quando vai para dentro. e saída quando vem para fora. de fato. com pedras em volta. para saber se não é um inimigo. Mas isto é só para começar: tem-se de empurrar ainda outras folhas para estar. É muito comum nem saberem o nome umas das outras. a imitação graciosa de uma maminha que se aperta até que ressoe um grito e apareça a família. numa casca dura. por isto. em ziguezague ou em círculo. Se a aiga habita no alto. Nota-se que em algumas fendas há uma confusão para a qual as pessoas acorrem feito limo grosso. as pessoas recebem nos olhos e nos cabelos terra preta. Esta olha por um pequeno furo gradeado. tem-se de saber exatamente o nome da aiga (1) que se quer visitar. de modo que os altos baús de pedra parecem o limo dos pântanos. ou no meio. como se fosse a erupção da grande cratera de Saváii. embaixo do próprio teto da cabana.

Os ouvidos ficam surdos. mas existem muitas cidades. Homens que vivem como se fossem répteis na lagoa. estão cercados pela água límpida do mar e o sol pode chegar até eles com a sua boca quente. carne. legumes e muitas outras coisas. propriamente. a toda velocidade. a cidade é isso que falei. O Papalagui é um ente humano que pensa de modo especial: faz muita coisa que nada significa e que lhe faz mal. nem nuvens . que vão de uma ilha de pedra a outra. em parte. o recado chega ao lugar pensado. fino e comprido feito um verme. se chama Europa. gaba-se do que constrói. principalmente. sem ar leve. É um rugido geral. Todas estas ilhas de pedra estão ligadas entre si por meio de caminhos marcados.mãos e os pés. Ninguém pode entender o que o outro diz senão gritando. as pessoas no meio deles. Aí as cabanas são . As maiores são aquelas onde moram os chefes mais importantes do país. com a tempestade bramindo. feito compridos cipós. há perigos que ameaçam. por assim dizer. ele se jacta. rios. que deslizam sobre tiras metálicas. os homens gritam de alegria ou medo. em fios de ferro comprido. um grunhido. mas circulam e galopam a cavalo.tudo isso é o que o Papalagui chama "cidade". não precisa ir até à casa dele: sopra o que quer dizer em fios metálicos. sem azul do céu. nunca viram o Grande Espírito face a face. Entre todas as ilhas de pedra está o país que. muito rápido. florestas e também pequenas aldeias de verdade. um bosque. é mais agradável e não enlouquece como o rugido que se ouve entre as fendas de pedra. de todos os lados. sem uma árvore. o ir-e-vir. os homens não somente esbarram uns nos outros. mas apesar disso. como se fossem bichos debaixo dos corais. a areia preta. os rugidos. o barulhos. um céu claro. sua criação. no entanto. Tudo está ali exposto para atrair os homens. Nestas fendas. a fumaça negra. mesmo em caso de precisão extrema. mais rápido do que um bote de doze assentos. É grande o barulho. as pessoas batem com as peles duras que lhes cobrem os pés. todos gritam. pequenas e grandes. bela. bramido que. Mas pode-se também ir num navio terrestre. Aí vivem homens que nunca viram uma árvore. Todas as cidades estão espalhadas como se fossem ilhas no meio do mar: é comum umas estarem à distância de umas tantas braçadas pelo mar. Tudo isso: os baús de pedra com a quantidade de homens. O Papalagui tem orgulho das pedras que ajunta? Não sei. tem-se de conseguir uma licença especial e fazer uma oferenda. ou se fazem carregar em grandes baús de vidro. as fendas altas. Mais depressa do que uma ave voando. e dá frutos como a nossa. mas esses no entanto. onde a terra é. No entanto. de que tem muito orgulho. ninguém pode tirar coisa alguma. de muitos rios. alimentos verdadeiros como frutas. como se a gente estivesse no penhasco de Saváii. porque os cavalos batem com os cascos nas pedras do chão. mas há outras que se leva um dia de viagem para alcançar. coisas de comer. Portanto. um bater de pés. As crianças berram. um ronco. cruzando-se e entrecruzando-se. Para isso. Mas se a pessoa apenas quer dizer talofa (4) a um amigo de outra ilha. que está sempre cuspindo fumaça e que desliza. com árvores.

quer viva entre fendas. convencido de que tem mais direitos do que o homem do campo e de que o seu trabalho vale mais do que plantar e colher. pouco se importa. fendas. O caso é que precisam fazer muita força para dar comida aos homens das fendas e não compreendem por que estes se envolvem em tangas mais bonitas. O homem do campo admira os domínios do homem das fendas quando vai à cidade. têm de criar e abrigar o gado até engordá-lo e dar a metade ao homem da cidade. conforme ele pensa e quer. quer no campo. Chamam-se homens do campo e têm as mãos mais grossas do que os homens que vivem nas fendas e tangas mais sujas. sem vento. o Papalagui acha que tudo está bem. Literalmente: "gosto de ti " III Do metal redondo . 2. sem sol. o que nós queremos é permanecer fiéis ao Grande Espírito e não lhe sobrecarregar com pedras o coração. que a chuva lava e o vento torna a secar. fumaça e areia. Uma espécie de centopéia. sem luz. * Notas: 1. Vivem em luta com os da cidades porque têm de lhes dar a comida que tiram das suas terras. nem colhem. e este deixa o homem das fendas construir e armar os seus baús de pedra. Quanto a nós. O homem das fendas deixa que o homem do campo engorde seus porcos artificialmente. conforme está. no entanto. Cumprimento samoano. Família 3. têm de colher as frutas que o homem das fendas come. Mas esta briga entre as duas partes não chega ao ponto de se guerrearem: em geral. mas vamos obstar-lhe toda tentativa de construir baús de pedras em nossas praias ensolaradas e de matar a nossa alegria de viver com pedras. sujeira.também de pedra e possuem muitas árvores frutíferas. Mas comem muito mais. que já não seguram a mão de Deus. A vida deles é muito mais saudável e mais bela do que a dos homens das fendas. barulho.Três ilhas do grupo de Samoa 4. livres filhos do sol e da luz. porque não cavam a terra e não plantam. no entanto. doentes. e o homem das fendas canta e arruma quando passa pelas aldeias. Só homens loucos. por que não suam debaixo do sol. O homem das fendas. Deixemos ao Papalagui a sua felicidade duvidosa. É raro. nem têm de padecer o frio e a chuva como eles. por que têm as mãos mais brancas. Nestas aldeias vivem outros homens que sentem e pensam diferente dos que vivem na cidade. que acreditem nisso e invejam os outros a quem chamam de preguiçosos. podem viver felizes entre fendas.

Nem . Sorri da simplicidade com que pensas. Pensam todos os dias. dinheiro. seus olhos brilham. até dormindo. Todos os Brancos pensam nele. O dinheiro é o objeto do seu amor. é que são a verdadeira divindade dos Brancos. escutai com fé o que vou dizer e sabei como somos felizes por não conhecer a angústia e o pavor dos Brancos. Se quiseres ir aos lugares em que as pessoas se alegram. à felicidade. desde que o sol se levanta até que se deita. Todos. Onde quer que vás hás de ver teu irmão com a mão estendida. ao riso. lira. Tudo isto quer dizer dinheiro. muito papel pesado. pesado: sem tardar. é o que vêem o pai fazer. de metal. Tens de pagar por tudo. Todos os europeus! Se fores às fendas de pedra de Siamani (1) a todo momento ouvirás um brado: marco! E sem parar: marco! Ouves este brado em toda parte: o nome que dão ao metal brilhante e ao papel pesado em Falani (2) é franco. só assim é que vale para o grande Deus a adoração do Branco. devem nele pensar! É o que aprendem com a mãe. em todos os momentos no dinheiro. um cristão de verdade faz bem se tiver sempre diante de si a imagem do amor. franco. Podeis todos testemunhar o que o missionário diz: Deus é amor. pela esteira em que passas a noite. muita saliva lhe vem aos lábios. corromperam os missionários para que eles nos enganassem com as palavras do Grande Espírito. os Brancos. sorri. Pois o metal redondo e o papel pesado. à honra. a enfurecer-se contigo se nela nada puseres. ou um papel grande. na Itália. pronto a desprezar-te. tens de dar dinheiro pelo chão em que andas. marco. O dinheiro. não encontras esteira para dormir. se quiseres banhar teu corpo no rio. à consciência. Tens de pagar. Fale a um Europeu do Deus do amor: ele torce o rosto. e mais nada. Se estás inteiramente sem dinheiro. pelo metal redondo e pelo papel pesado. É necessário dizer que não é possível. é o verdadeiro Deus do Papalagui. Muitos há cujas mãos de tanto querer agarrar o metal e o papel ficaram tortas e parecidas com as pernas da grande formiga do bosque. xelim. pela luz que aclara tua cabana. não acalmas a fome nem a sede. em momento algum. todos! Até as crianças têm de pensar nele. E quase todos renunciam à saúde pelo dinheiro. na terra dos Brancos. Há muitos cujos olhos cegaram de tanto contar dinheiro. todas as horas. tens de dar muito metal redondo. ficar sem dinheiro. brilhante. Estenda-lhe. até à mulher e aos filhos. quer dizer. pelo lugar em que ergues tua cabana. Ele nos enganou. é tudo a mesma coisa. Tens de pagar se quiseres atirar num pombo. nos mentiu.e do papel pesado Irmãos sensatos. em que cantam ou dançam. se quiseres pedir conselho ao teu irmão. Te mandarão para o fale pui pui (4) falarão de ti nos muitos papéis (5) se não tiveres dinheiro. dinheiro. dentro de peles duras dobradas. À noite colocam-no debaixo do rolo onde pousam a cabeça para que ninguém o tire. que mais veneramos. que eles chamam dinheiro. Muitos que renunciaram à alegria pelo dinheiro. Carregam-no em suas tangas. é a sua divindade. Lira. se Deus é aquilo que mais adoramos. um pedaço redondo. no entanto. em Peletânia (3) xelim.

Do dinheiro que este produz. todos gostariam de ter muito dinheiro sem trabalhar). se levas uma canoa na água. por amor à justiça. terás dinheiro". sem membros. imediatamente também exigiriam pelo ar que se respira o metal redondo e o papel pesado. a simpatia do teu olhar para abrandar-lhe o coração. e que devia. fácil ganhá-los em troca de qualquer coisa. "Se trabalhares. se ouvissem o que digo na Europa. melhor te será a vida porque. De onde vem o dinheiro? Como é que se pode ganhar muito dinheiro? Oh! De muitas formas. és nada. Se é mulher. Só vi uma coisa pela qual. mais divertido. Basta fazeres o que chama na Europa "trabalhar". por teres morrido e também para o teu corpo baixar à terra. o trabalho que lhe sujou e endureceu as mãos. da qual todos podem participar quanto queiram: a respiração do ar. com o dinheiro que tem a mais. podes ter com ele tabaco.servirá de nada a humildade do teu sorriso. Se tiveres muito dinheiro. e pela pedra que rolarem sobre a sepultura em tua memória. imediatamente. se tiras a sujeira da frente da cabana dele. primeiro. ainda não se exige dinheiro. Se cortas o cabelo do teu irmão. a tua aiga tem de pagar por ti. Se ele é construtor de barcos. que não suja as mãos. arranja uma moça que trabalhe para ela. Na Europa. e quando morreres. Jogue um metal redondo na areia e verás que as crianças se atiram em cima. sem ter o direito de fazer nada que não seja bom para seu amo. na Europa. brigam por ele. faz que limpe os excrementos que ele próprio expeliu. nem quer pensar sobre isto para não ser obrigado a reconhecer que ela existe. quem assim procede fica com tempo para o trabalho mais importante. para ter sua cabana e sua esteira e mais algumas coisas. é o que diz uma regra moral dos europeus. Dá-lhe. és um homem sem cabeça. ficar todo para ele. Homem ou mulher. Nem todos que têm muito dinheiro trabalham muito. Podes ter tanto tabaco. é no entanto. É assim: quando um Branco ganha tanto dinheiro que dá para comer. ajudando. e não hesito em declarar que. tantos anéis e tangas quanto for o dinheiro que tenhas. (Por sinal. Até para nascer tens de pagar. com facilidade ou com dificuldade. Quanto mais dinheiro tens. podes ter muitas coisas. anéis. dormir. e cada um mais do que o outro. Ele abrirá a goela e berrará: "Miserável! Vagabundo! Ladrão!" Tudo isso quer dizer a mesma coisa: a maior vergonha que se pode inflingir a um homem. faz seu irmão trabalhar para ele. a atenção com que os olhos o buscam a todo momento. Mas acho que apenas se esqueceram disso. Existe aí uma grande injustiça que o Papalagui não nota. o outro deverá ajudá-lo a construir os barcos. portanto. consertar as tangas que se rasgaram. tangas bonitas. lavar a louça e as peles em que coloca os pés. se tens uma boa idéia. Não há quem não queira ter muitas coisas e por isto todos querem ter muito dinheiro. Mas é muito raro alguém jogar dinheiro na areia. o amo . mandando-a limpar a esteira suja. sem dinheiro. tendo-o. que se tudo exige muito papel pesado e metal redondo. beber. precisas dele para comer. Pois todos os europeus estão sempre à procura de novos motivos para exigir dinheiro. Diga-se. aquela que o agarra e guarda é a vencedora e fica contente. não cansa e dá mais dinheiro. Precisas ter dinheiro. Daí a ânsia por consegui-lo.

mas a verdade é que o dinheiro se multiplica como as folhas de uma árvore. Invejam-no. não é dada por sua nobreza. como as frutas podres quando cai a chuva tropical. Nem sonham em dar aos outros parte do dinheiro que têm para lhes facilitar o trabalho. São poucos os que assim pensam. nunca pude saber. a outra tem demais. sem recuperar jamais a saúde do coração. Ficam inchados de orgulho. tanto dinheiro que daria para aliviar o trabalho de cem. a força dos outros. ganharam para ele. porque jamais terá o bastante. então: ele é rico. certo dia.* comida. ou diz: "Quero ter cada vez mais dinheiro. Ele não sabe o que responder. Alegram-se porque têm os dedos bonitos. trabalhando. não lhes tira o sono saber que estão roubando. seus irmãos constróem os barcos para ele.tira-lhe uma parte. que nunca se sujam. até cem ou mais. e o homem vai ficando mais rico. Há muitos Brancos que amontoam o dinheiro que outros fizeram para eles. Aquela metade não tem tempo para deitar-se ao sol. E tu vês logo que o dinheiro o pôs doente. Como é possível isso acontecer sem qualquer feitiçaria brava. a todo momento. o brilho das suas idéias. A maior parte continua doente. que sua mente está inteiramente possuída pelo dinheiro. o amo já não faz coisa alguma senão deitar-se na esteira. nem assim lhes dá coisa alguma. Enfim. depois três. Dizem. se regozijando com o poder que a grande quantidade de dinheiro lhe dá. quanto guarda no seu forte baú de ferro que terremoto algum pode destruir. Agora é o próprio dinheiro que trabalha no lugar deles. levam-no para um lugar muito bem guardado e vão trazendo cada vez mais até que. no mundo branco. obcecado. Fazem isso sem que a consciência lhes doa. quanto dinheiro é capaz de ganhar por dia. até mil pessoas. água para beber". muito mais do que a maior parte dos outros. mesmo quando dorme. adulam-no muito e lhe falam com palavras sonoras. porque a alma lhe pende do metal redondo e do papel pesado. queimando rolos de fumaça. vendendo os barcos quando estes estão prontos e recebendo o metal e o papel que os outros. nem todos podem deitar-se ao sol ao mesmo tempo!" Com esta doutrina ele . Diz o Papalagui: "Todos os homens não podem ter a mesma quantidade de dinheiro.zer com todo esse dinheiro? Não podes ter mais na terra do que roupa. em número cada vez maior. e mais. mais e mais". Assim é que existe. Ele não pensa desta forma: "Irei deste mundo tal qual a ele vim. a maior e. pega no metal redondo e senta-se em cima do papel pesado com avidez e volúpia brilhando nos olhos. na Europa. Não os atormenta. Mesmo quando um homem tem muito dinheiro. força que tornam sua. metade que tem de trabalhar muito e se sujando enquanto a outra metade pouco ou coisa alguma faz. já não precisam fazer os outros trabalharem para eles. e mais. mas pela quantidade de dinheiro que tem. pois o Grande Espírito me mandou à terra sem metal redondo e papel pesado". põe mais dois irmãos trabalhando para ele. Com volúpia mandam muitos dos seus irmãos para o trabalho pesado a fim de poderem engordar e prosperar. Está doente. assim que pode. porque a importância de um homem. dedos limpos. bebendo kava européia. jamais deixará de apoderar-se do mais que puder. sem provocar enfermidades e nem injustiça. Se lhe perguntares: "Que vais fa-. coragem.

Em compensação. quando ainda não sabem falar. confunde e angustia completamente o coração. jamais se ajudou realmente homem algum a ser mais alegre. Quem não ama o dinheiro é ridicularizado. não há mesmo. ao passo que os vossos. a alma toda do homem.assume o direito de ser cruel. quando vos digo que com dinheiro. se perceberdes que vos falo a verdade quando vos digo que o dinheiro jamais dá alegria e felicidade mas. é sempre desonesto. atordoa-o para despojá-lo e é por isso que quase ninguém confia no outro. Mas não há Papalagui que renuncie ao dinheiro. cansados. porém. É por isto que não compreendo porque se envergonham tanto os que não têm muito metal redondo nem papel pesado e porque invejam o rico em vez de se sentirem invejáveis. vida. que reclama um alofa (7) pelo fruto que dá. "O país que mais dinheiro tem é mais feliz". Mas quando vos vejo os olhos e os comparo com os dos ricos áliis. Finge até. é bem possível que ele seja mau. luminosos irmãos. quem o ama tem de servi-lo e dar-lhe todas as forças. mente. diz o Papalagui. pelo contrário. o rico nunca sabe se as honras que lhe prestam são para ele mesmo ou para o seu dinheiro. Livremo-nos. Tem o coração duro. mais forte. do dinheiro. Nunca se sabe de que maneira e de onde o outro tirou a sua riqueza. nem que alguém tenha muito e o outro nada. "A riqueza (ter muito dinheiro) dá a felicidade". antes de mais nada. nem tanto papel pesado que dê para encher um baú. porque todos conhecem a fraqueza comum. assim também. então . Amemos os nossos nobres costumes que nos ensinam a desprezar aquele que exige alguma coisa pela sua hospitalidade. Não sejamos de coração como o Papalagui. somos pobres. e a nossa terra é a mais pobre que há debaixo do sol. são por causa do dinheiro. Na maior parte dos casos. enquanto viver. O Papalagui oferece-nos o metal redondo e o papel pesado para nos dar o seu gosto. É comum um Papalagui matar outro por causa do dinheiro. Não convém. sempre ameaça. Somos uns mendigos. por amor ao dinheiro. Já são muitos dentre nós os que se deixaram deslumbrar e se contagiaram com essa grave doença. mais feliz. vejo que os deles são sem brilho. o sangue frio. uns miseráveis aos olhos do Papalagui. Nós todos. só os vi nas crianças do Papalagui. todas as alegrias. tal qual a grande luz. Mata-o com o veneno das palavras. Jamais sabes se aquele que tem muito dinheiro tem bom coração. Amemos os nossos usos que não nos permitem suportar que alguém tenha muito mais do que o outro. porque até então nada sabem do dinheiro. Não temos tanto metal redondo. que pode sentir-se feliz e contente mesmo se o irmão junto dele está triste e infeliz. irradiam alegria. é "valea". quer dizer. Mas se acreditardes no que vos diz o vosso humilde irmão. saúde! Olhos como os vossos. porque todos que tratam com ele são maus e fazem mal. nem é bonito pendurar no pescoço muitos colares de conchas. Como nos favoreceu o Grande Espírito preservando-nos do aitu. pois o dinheiro é um aitu. quando quer botar a mão no dinheiro. força. Eles querem nos convencer de que o dinheiro nos fará mais ricos e felizes. não convém sobrecarregar-se com o peso do dinheiro que tira o fôlego do homem e a liberdade de movimento necessária a seus membros. abatidos. Quem apenas toca no dinheiro é tomado pelo seu feitiço. estúpido.

quem mais do que nós tem as coisas do Grande Espírito? Olhai em volta. mas não há Samoano nem Papalagui capaz de fazer uma palmeira . O coco é uma coisa. a imensa abóbada azul. Vou contar-vos. a praia com seu claro semblante e a pele macia da areia. IV As coisas em quantidade empobrecem o Papalagui Reconhecereis também o Papalagui por seu desejo de nos convencer de que somos pobres. as coisas dos homens. o prato. O álii. carregada de grandes flores que nos dão luz dourada e prateada. a grande água. Há coisas que o Grande Espírito é que faz. * Notas: 1 Alemanha 2 França 4 Inglaterra 5 Prisão 6 Jornais 7 Presente. E há coisas que são os homens que fazem. Tudo quanto fizermos será medíocre. a concha e a banana. que a toda hora se transforma. Por que é que havemos de ser loucos a ponto de querer mais coisas além das belas coisas do Grande Espírito? Jamais poderemos criar como ele cria porque o nosso espírito é por demais pequeno e fraco em comparação com o poder do Grande Espírito. acha que nos faltam as coisas que ele próprio faz com as mãos. longe. o apanha-moscas. o prato que se come. até onde a borda da terra sustenta a abóbada azul. o anel. lagostas. que não custam esforço nem trabalho algum. o que é uma coisa. os colibris e papagaios. e outros bichos aquáticos. sem ninguém. A nossa mão é fraca demais comparada com a sua grande e poderosa mão. capaz de enfurecer-se como um guerreiro e sorrir como uma taopu. a concha. conchas. a tanga. Podemos alongar com um pau o nosso braço. então. miseráveis e precisamos de muita ajuda e compaixão porque não temos as "coisas". a lagoa com suas holotúrias.havereis de detestar o metal redondo e o papel pesado como o vosso pior inimigo. Mas há duas espécies de coisas. amados irmãos das muitas ilhas. aumentar o oco da nossa mão com uma tanoa (1). pois nas coisas do Grande Espírito ele não pensa. o apanha-moscas. nem vale a pena falar disso. como o coco. o enfeite que se põe na cabeça. que custam muito trabalho e esforço: o anel. Tudo está cheio de grandes coisas: a floresta virgem com seus pombos selvagens. tudo isso são coisas. olhai longe. retribuição. quem é mais rico. Ora.

E o Papalagui está sempre procurando inventar mais coisas novas. Com as mãos febris. arrancando a floresta virgem com as suas montanhas. para os panos com que se enxuga. Mas é também por isto que nos inveja e deseja que fiquemos tão pobres quanto ele. verás uma quantidade de pratos. para tudo mesmo. ele faz inumeráveis coisas.nem o tronco de uma kava. ou um morro pelo qual escorreu a lava ardente -todos nós teremos saudades da palmeira. por isto. o Papalagui pega nas coisas. Ele faz muitas coisas quando apenas uma é suficiente. de tudo teremos saudades. da concha. imaginai que de repente venha a grande tempestade. e mais outra para a água. E para cada comida há uma tanoa diferente. Que tudo quanto vemos desapareça. não deixando sequer uma flor de hibisco para que nossas moças enfeitem seus cabelos. para a kava européia. contemplam-na. mesmo se cada habitante de uma aldeia samoana enchesse suas mãos e seu braços. para os pombos. não fazem mais do que fabricar coisas: coisas humanas que não sabemos para que servem e cuja beleza não percebemos. novamente. É por isto que milhares e milhares de mãos. ajunta-as. e outros panos mais. Ó irmãos. Destruindo. as costas curvas. prova que lhe faltam as coisas do Grande Espírito. para tudo. adoram-na. o Papalagui ainda faz uma pele para a ferramenta e para esta pele faz um pequeno baú e para o pequeno baú faz outro grande. o Papalagui com sua própria força pretende dar vida. Tem baús para as tangas. os lugares que chamam cidades. baús para as peles que põe nas mãos e para as peles que põe nos pés. assim. mais nada reste além da areia: que a terra fique parecendo uma mão chata. lá. seu olhar se ilumina de alegria quando consegue fazer uma coisa nova. a aldeia . depois de neles passar óleo. imagina ser o Grande Espírito. tudo ele coloca em peles e baús. As cabanas européias têm tantas coisas que. da manhã à noite. da floresta. Se fores à cozinha do europeu. O Papalagui acredita. decerto. estendida. para as roupas de cima e de baixo. tijelas. E todos logo querem ter a nova coisa. feito o doido que ajunta folhas murchas e com elas enche a sua cabana. levando todos os animais da lagoa. para as provisões de boca e para o livro sagrado. Lá onde estão as cabanas dos Papalaguis. sem as quais já não consegue viver. o rosto cor de cinza. Irmãos. porque a sua terra está muito triste. Quando do dorso da tartaruga faz uma ferramenta com que alisa os cabelos. com que limpa a boca. com toda a folhagem e todas as árvores. Porque está muito pobre. a fim de esquecer o que não tem. onde quer que vá as coisas do Grande Espírito. potes que nunca serão usados. a terra está deserta tal qual uma mão vazia e. Mostra que é muito pobre aquele que precisa de coisas em quantidade porque. para o coco. àquilo que matou. como se o iluminasse o sol do meio-dia. acreditai no que vos digo: ocultei-me atrás dos pensamentos do Papalagui e vi o que ele quer. o Papalagui fica louco. no entanto. que pode fazer coisas assim porque se julga tão forte quanto o Grande Espírito. para o metal redondo e o papel pesado. convencendo-se assim de que é o Grande Espírito porque faz muitas coisas. O Papalagui é pobre porque é obcecado pelas coisas. cantam-na em sua língua.

até que as suas casas se enchessem de coisas pequenas e grandes. de mais coisas se precisa. onde nada me atinge senão o brando vento alísio do mar. mas não é pela honra. de tal forma que não conseguia fechar os olhos. carapaças de tartaruga. Modelam também criaturas de barro mole. Os Papalaguis precisam fazer coisas. que qualquer fogo. vidro. Podeis acreditar que existem. Numa só cabana existem tantas coisas que a maioria dos chefes brancos precisam de muitos homens e mulheres que nada fazem senão pôr todas estas coisas nos lugares em que devem estar e limpá-las da areia que as cobre. arame. precisam guardá-las. senão. onde nada mais tenho do que minhas esteiras e o rolo em que ponho a cabeça para dormir. nem para medir a sua força verdadeira. arrumando-as. sem tirar.inteira não bastaria para levá-las todas. Pois o Papalagui embriaga de todas as formas o seu espírito e se convence de que não pode viver sem as coisas. da manhã à noite. em verdade vi. todas berravam com a boca das suas cores. que não minto. e poriam suas mãos em movimento. com toda a alegria sincera de que são capazes. se só tiver. com todas as nuances das cores. dançar à claridade do sol e dar aos corpos a alegria para a qual todos fomos feitos (2). Os Papalaguis cometem crimes a sangue-frio para se apossarem das coisas. Elas se prendem e se agarram a eles como formiguinhas de areia. Quem poucas coisas tem julga-se pobre. qualquer grande chuva tropical destrói. como cada um de nós. que seja alegre. é por isto que pouquíssimos dentre eles têm tempo para ver as coisas do Grande Espírito. na Europa. sempre obrigando a fazer outras novas. É por isto que as mãos do Papalagui estão sempre fazendo coisas. jamais fiquei tão desejoso de minha cabana de Samoa. eles sabem quanto é pobre a vida deles. tal qual o homem não vive sem comida. coisas que se estragam com facilidade. Jamais consegui encontrar a verdadeira tranqüilidade. nem pôr. No entanto. £ por isto que o rosto de muitos Brancos se mostra cansado e triste. Guerreiam entre si. para brincar na praça da aldeia. Quanto mais se é europeu de verdade. moças tão . irmãos. Foi por isto que jamais vi cabana na Europa onde pudesse deitar-me na esteira. sem tanga. sente-se triste. limpando-as. pedras coloridas e muitas outras coisas. Os homens e as mulheres do mundo dos Brancos sofreriam em nossas cabanas e correriam a buscar madeira do bosque. copiando todas as bonitas coisas de Deus. inventar e cantar canções alegres. que vos digo o que. apenas uma esteira e um prato. não haveria tantos Papalaguis que são muito estimados porque passam a vida inteira mergulhando pêlos em líquidos de várias cores e com eles jogando belas imagens em esteiras brancas. é só para ter as coisas. homens que levam à própria fronte o cano de fogo para se matarem porque acham melhor morrer do que viver sem as coisas. E mesmo a taopu mais importante passa muito do seu tempo contando as muitas coisas que tem. Não há Papalagui que cante. Sabeis. onde alguma coisa não me impedisse de esticar os membros. Todas as coisas brilhavam como relâmpagos.

mas cheias de dardos escondidos. o que o Papalagui diz. À tarde e à noite canta-se em todas as cabanas. As coisas deles é que valem muito. As comunidades samoanas reúnem-se com muita freqüência para brincar e dançar. quer dizer. Vi Papalaguis chorando de emoção ao contemplar tanta beleza. não lhe deram mais brilho aos olhos. é que valem mais. não lhe fortaleceram o juízo. curvados. precisamos velar e ter juízo porque as palavras do Papalagui são doces como a banana. coisas para nós. e para vê-las todas é preciso mais do que uma vida de homem. com movimentos livres e tão belos quanto a taopu de Matautu ou formas de homens que brandem a clava. até hoje não fizeram mais bonito o corpo do Papalagui. mas em primeiro lugar coisas para o Papalagui. Queria dizer que nós também devemos pôr as nossas mãos a trabalhar. cinzentos. Notas: 1. "Pois só assim eles terão verdadeiro gosto pelo trabalho". é animado pelo espírito mau e seu pensamento é carregado de veneno. o que nos quer impor. suas coisas. Nós também devemos ficar cansados. as coisas dele que são tantas e tão relampejantes e cintilantes. 2. Jamais nos esqueçamos de que só precisamos de poucas coisas além daquelas que são do Grande Espírito. com vários pés. Cada aldeia tem suas canções e seu poeta. fazendo coisas. disse então o homem inteligente. Ficam todos parados olhando. Estas coisas. A dança pratica-se desde a adolescência. no entanto. V O Papalagui não tem tempo . onde se fabrica a bebida nacional. e vem gente de longe para visitá-los e apreciar sua divina beleza. a beleza que eles mesmos perderam. capazes de nos privar de toda luz e de toda alegria. É muito agradável tanto pela riqueza da língua em vogais quanto pela sensibilidade musical muito apurada dos insulares. Os homens brancos gostariam de trazer para nós os seus tesouros. sim. Irmãos das muitas ilhas. Portanto. Recipiente de pau.que atraem e seduzem tanto e de tantas formas. para que nós também fôssemos ricos. A boca do homem branco nunca disse maior inverdade do que esta: "As coisas do Grande Espírito não valem". No entanto. embrulhados nas suas muitas tangas. ouvi da boca de certo homem que conhece a nossa terra. coisas. "Precisamos obrigá-los a ter necessidades". Necessidades. retesam o arco e perseguem o pombo selvagem na floresta: homens de barro para os quais o Papalagui constrói cabanas alegres. essas coisas de nada servem.bonitas. não são mais do que flechas envenenadas que matam aqueles em cujo peito se penduram. Ele nos deu os olhos para ver as suas coisas.

Chega a blasfemar contra Deus. no entanto. supondo que o Branco queira fazer alguma coisa. Só consigo entender isso pensando que se trata de doença grave. O Papalagui faz. gosta de meter para dentro da barriga muitos líquidos que saem das frutas mortas. até as crianças que mal se têm nas pernas usam na tanga. a máquina grita e um espírito bate no ferro que está do lado de dentro. "O tempo corre feito um corcel!". que se ensina às crianças. na qual lêem o tempo. produz-se mesmo muito barulho. ao mesmo tempo. daquilo que não se pode pegar e que. ou pendurada no pescoço. as mulheres. uma cara feia. Digo que deve ser uma espécie de doença porque. além da carne do porco e da vaca. leitura que não é fácil. ou se suspendem bem alto para serem vistas de longe. O Papalagui nunca está satisfeito com o tempo que tem.e acusa o grande Espírito por não lhe ter dado mais. de sair para o sol. ou namorar sua mulher. então. o Papalagui queixa-se: "Que tristeza que mais uma hora tenha se passado". aproximando-lhes do ouvido a máquina para diverti-las. o que acontece? Ele quase sempre estraga boa parte do seu prazer pensando. mas ele não consegue vê-lo. O segundo é menor do que o minuto. "O tempo voa!". há do lado de fora da máquina uns pequenos dedos. como um homem que sofre muito. Todos os pedaços têm nome: segundo. que se colocam dentro das cabanas. Mas. que seu coração queime de desejo. principalmente. juntos. O tempo que ele tanto quer está ali.O Papalagui gosta do metal redondo e do papel pesado. que não o diverte. ou quando alguém lhe dá um tempo — os Papalaguis estão sempre dando tempo uns aos . que o tempo está ali mesmo. se de repente vê que tem tempo. um grande estrondo nas cidades européias quando uma parte do tempo passa. e de outros animais horríveis. Nunca existe mais tempo do que aquele que vai do nascer ao pôr do sol e. ou passear de canoa no rio. isto nunca é suficiente para o Papalagui. Sim. Ao escutar este barulho. Fala muito no tempo. Mas também existem máquinas do tempo grandes e pesadas. taciturno. minutos e segundos formam a hora e são precisos sessenta minutos e uma quantidade maior de segundos para fazer o que se chama hora. redonda. por exemplo. diz muita tolice a respeito do tempo. Mas o Papalagui disso faz uma ciência importante: os homens. ao qual ninguém o obriga senão ele próprio. obstinado: "Não tenho tempo de me divertir". Para indicar que passou uma parte do tempo. ao trabalho que não lhe dá alegria. "Dêem um pouco mais de tempo": são as queixas do Branco. parece-se por dentro com as máquinas que existem dentro dos grandes navios. Divide o dia tal qual um homem partiria um coco mole com uma faca em pedaços cada vez menores. no entanto. ou atada com tiras de couro ao pulso. que todos vós conheceis. contra a sua grande sabedoria. dividindo e subdividindo em pedaços cada dia que se levanta de acordo com um plano muito exato. mas ele gosta. Fala em uma quantidade de coisas que lhe tomam o tempo. presa a correntes grossas de metal. certa pequena máquina. Esta máquina. agarra-se. fácil de carregar em dois dedos. existe: o tempo. este é menor do que a hora. hora. queixoso. e no entanto logo depois vem outra hora novinha. É uma coisa complicada que nunca entendi porque me faz mal estar pensando mais do que é necessário em coisas assim pueris. minuto.

é uma das ações que mais se aprecia — aí não se sente feliz. dizem: "Agora." Dá a impressão de que aquele que anda depressa vale mais e é mais valente do que aquele que anda devagar. ou está cansado do trabalho sem alegria. sou pobre. Não compreendi essa atitude porque ele andava sem pressa. prejuízo irreparável. ninguém lhe dava importância. que nunca se queixava de não tê-lo. talvez ninguém mesmo. Todo Papalagui é possuído pelo medo de perder o seu tempo. se fazem festas com flores e comes e bebes. a certos intervalos de tempo. Pouca gente há na Europa que tenha tempo. Vi um homem com a cabeça estourando. E então essas pessoas perdem a alegria e morrem mesmo dentro de pouco tempo. o Papalagui expulsou-o e recriminou-o: "Roubaste-me tempo demais! Quem não presta atenção ao tempo não merece o tempo que tem!" Só uma vez é que deparei com um homem que tinha muito tempo. rindo. Ter tantos anos significa ter vivido um número preciso de luas. esta possessão que não há médico que cure. De fato. Se alguém os faz parar. Por isso todos sabem exatamente (e não só os homens. a cara passando de vermelha a verde. Os outros passavam longe dele. com os olhos sorrindo. dizem. Tinha tempo. e desprezado. vê se aproveitas melhor o teu. passando um número muito grande de luas. pela primeira vez.outros. mas era pobre. sujo. e por onde passam levam a desgraça e o pavor por terem perdido o seu tempo. mas as mulheres e as criancinhas). Quase todos andam olhando para o chão e balançando com os braços para caminhar o mais depressa possível." "Mas devias saber". mal-humorados: "Não me aborreças. É um estado horrível. É perigoso esta maneira de indagar e contar o número das luas porque assim se chega a saber quantas luas dura a vida da maior parte dos homens. de fato. quando me perguntavam quantos anos tinha: "Não sei.. por isto. Muitas vezes percebi que achavam esquisito eu dizer. mansa. É por isto que quase todos levam a vida correndo com a velocidade de pedras atiradas por alguém. Calava-me e pensava que era melhor não saber. não vou demorar a morrer". a boca aberta feito a de um peixe agonizante. porque um criado tinha chegado um pouquinho mais tarde do que prometera. ou porque lhe falta o desejo. Quando lhe falei.. sou um bobalhão". suavemente. os olhos virados. isso é tão sério que. Todos prestam muita atenção nisso e. O Papalagui emprega todas as forças que tem e todos os seus . Esse pouquinho era para ele um grande prejuízo. não tenho tempo. viram a grande luz. fez uma careta e disse. Certos Papalaguis dizem que nunca têm tempo: correm feito loucos de um lado para outro. tristemente: "Nunca soube aproveitar o tempo. que contagia muitos homens e os faz desgraçados. O criado teve de ir-se embora. E está sempre querendo fazer amanhã o que tem tempo para fazer hoje. como se estivessem possuídos pelo aitu. quantas vezes a lua e o sol saíram desde que. mas não era feliz. batendo com as mãos e os pés.

O tempo tem de estar sempre perto dele. no entanto. ninguém pode negar. da sua loucura! Devemos devolver-lhe o verdadeiro sentido do tempo que perdeu. Serve-se da água e do fogo. Não pensa quase nunca em todos os homens. Devemos livrar o pobre Papalagui. nunca pensamos em ajuntá-lo nem em parti-lo. nunca corremos atrás dele. Até aí dou razão ao Papalagui. não o entende e é por isto que o maltrata com os seus costumes rudes. ele sempre tenha me dado a impressão de alguém a quem o Grande Espirito convidou para um fono. mas num só. dos relâmpagos que brilham no céu para fazer parar o tempo. É como se ele próprio tivesse mandado a palmeira crescer. gosta de descansar. com as mãos estendidas e não lhe dá descanso. Está sempre pensando de que maneira uma coisa pode lhe ser útil. Não precisamos de mais tempo do que temos e. só porque ela está na frente da sua cabana. está realmente certo. Vamos despedaçar a sua pequena máquina de contar o tempo e lhe ensinar que. Mas é que ele também diz: "A palmeira é minha". da tempestade. O Papalagui não espera que o tempo venha até ele. está certo. Mas o tempo é quieto. Mas para que todo este esforço? O que é que o Papalagui faz com o tempo? Nunca compreendi bem embora pelos seus gestos e suas palavras.pensamentos tentando alongar o tempo o mais possível. Nunca o tempo nos falta. de que forma lhe dá algum direito. sempre. temos tempo que chega. nunca nos enfastia. mesmo que não saibamos quantas luas nossas passaram. sempre. Ó amados irmãos! Nunca nos queixamos do tempo. dizendo alguma coisa. de deitar-se à vontade na esteira. Sabemos que no devido tempo havemos de chegar ao nosso fim e que o Grande Espírito nos chamará quando for sua vontade. amamo-lo conforme vem. que é ele mesmo. justamente porque o segura com força demais. dá asas às palavras que diz para ter mais tempo. do nascer ao pôr do sol. mas sai ao seu alcance. O Papalagui não sabe perceber onde está o tempo. Ninguém tem mais direito à sua própria mão do que aquele que tem a mão. não deixa que o tempo descanse ao sol. VI Deus ficou mais pobre por causa do Papalagui O Papalagui pensa de modo estranho e muito confuso. o homem tem muito mais tempo do que é capaz de usar. não é de mais ninguém". cantando. Quem diz: "Minha cabeça é minha. Põe rodas de ferro nos pés. pacato. . tão confuso. Acho que o tempo lhe escapa tal qual a cobra na mão molhada. Adiante-se aquele dentre nós que não tem tempo! Cada um de nós tem tempo em quantidade e nos contentamos com ele.

E existem. o mar. tudo transformaram em "meu" e "teu". de fato. O Papalagui precisa fazer leis assim e precisa ter quem lhe guarde os muitos "meus" que tem. na Europa. pertencesse a ele e não a Deus. im pedir que se tire do Papalagui aquilo que ele pegou para si. hás de ver sempre perto alguém que diz: "Isto é meu! Não pegues no que é meu!" Mas se pegares. o céu com as suas nuvens. no momento em que nascem. A palmeira é a mão que Deus nos estende de sob a terra. garantiu um direito. tudo isso são mãos de Deus. no entanto. porque não lhe tiram nada) sejam os melhores de todos os Papalaguis. Nem todos sabem os segredos. que estão fazendo mal porque todos fazem a mesma coisa. e nada mais. enquanto há muitos pegando muitas coisas para si. há também muitos que nada têm nas mãos. porque há uns que dele gozam mais do que os outros. Para ninguém pegar em coisas que o outro declarou como suas. por meio de leis. é quase a mesma coisa. bosque. te levam para o fale pui pui (1) e serás banido pela vida inteira. para que aqueles que não têm nenhum ou têm pouco "meu" nada lhe tirem do seu "meu". homens que mais não fazem do que impedir que estas leis sejam violadas. Podemos pegá-las e nos alegrar. como se. Nem sabem. De fato. Desta forma. uma fruta. teu é só. água. Até pode ser que aqueles que pouco têm nas mãos (porque não querem ofender a Deus. só um pequeno número de Papalaguis aproveita os belos e grandes lugares ensolarados. Há uns que recebem o seu "meu" (e é muito) das mãos do pai. certamente. muitas mesmo. o céu. os sinais misteriosos com os quais se consegue ter muitas coisas. montinho de terra. a árvore. enquanto muitos ficam na sombra e só . o Papalagui quer dar a impressão de que. muitas vezes. Mas são poucos. te chamarão gatuno. "Lau" em nossa língua quer dizer "meu" e também "teu". Se fores à terra do Papalagui e alguma coisa vires. que nem sempre se concilia com o que chamamos "honra". Os amigos deles os servos dos chefes mais importantes te põem correntes. e nem pensam nisso. como se fosse Deus quem lhe tivesse definitivamente cedido o que tem. Deus já não pode repartir igualmente a todos o seu Sol. Meu é apenas. £ o que. ou seja. o mar. Mas na língua do Papalagui quase não existem palavras que signifiquem coisas mais diversas do que "meu" e "teu". as nuvens que o cobrem. diz o Papalagui. o que me pertence. toda grama. senão ele. a palmeira. e só porque ousastes tocar num "meu" do teu próximo. Muitas vezes. e nada mais. o que pertence e o que não pertence a certa pessoa. Deus tem muitas mãos. realmente. o que é uma vergonha muito grande. que foi feito para todos. a flor. determina-se com exatidão. é necessário que se tenha uma coragem especial. Ninguém tem direito a essas coisas. Nem sabem fazer outra coisa. £ por isto que o Papalagui diz de tudo quanto existe por perto da sua cabana: "É meu".Mas a palmeira nunca é dele: nunca. uma árvore. mas não podemos dizer: "A mão de Deus é minha mão". Quase todos furtam de Deus sem sentir vergonha. e nem se envergonham. o que te pertence. toda flor. os homens lhe tiraram quase tudo. Toda árvore. Em todo caso Deus quase nada mais tem.

deixa que ele se desfaça. que a todos corrói a alegria de viver. Se pensasse direito. faminto. E há muitos Papalaguis pálidos de fome. Não sairá à procura dos que não têm o que comer. ou nenhum. Mas ele não se dá conta disso. . que persiste dia e noite. O Papalagui precisa estar sempre com as mãos e o pensamento segurando o que é "meu". O sono do Papalagui nunca é de fato profundo: precisa estar sempre de vigília para que não lhe seja tirado. um lugar onde colocar os pés. põe-lhe na alma o medo.recebem alguns fracos raios de sol. por mais que pense. dura. por isto é que Deus lhe manda muitos inimigos da propriedade. mando-te todos os sofrimentos"! Mas castigo muito pior do que o medo Deus impôs ao Papalagui. Deus já não pode se alegrar verdadeiramente. Como é que Deus havia de esquecer um dos seus filhos! E no entanto há tantos que procuram o lugarzinho que Deus lhes destinou! O Papalagui não ouve o mandamento de Deus e se dá o direito de fazer suas próprias leis. no fundo. os que nada têm querem ter. o maior desprezo nos vossos lábios. dos que estão pálidos de fome. Pelo contrário. Pode estar com a cabana cheia de mantimentos até o alto. E vede que é isso que o Papalagui faz a todo momento. declara que o que faz é honesto e justo. uma alegriazinha. sem parar. ávido. nada há que possamos segurar. mas é desonesto e injusto perante Deus. tem para todos um lugarzinho claro. medo de perder aquilo de que se apossou. Principalmente. E como o "meu" o atormenta. Também estes são raramente animados pelo zelo divino: é que chegaram cedo ou tarde demais para roubar. lhe pede? Vejo a zanga nos vossos olhos. É luta acesa. E mesmo que tenha cem esteiras nenhuma dá ao que nenhuma tem. mas coisa alguma dão. saberia que. Pelo contrário. mandalhe a velhice. Ó irmãos. Impôs-lhe a luta entre os que só têm um pequeno "meu". Manda-lhe a umidade e o calor para destruir o seu "meu". no entanto. que apodreça. que é que pensais do homem cuja cabana é tão grande que dá para uma aldeia inteira e que não oferece ao viajante o seu teto por uma noite? Que é que pensais do homem que tem um cacho de bananas nas mãos e não dá uma só fruta a quem. de noite. E também veria que se Deus nos deu a sua grande casa é para que todos nela encontrassem lugar e alegria. E mais ainda: dá ao fogo e à tempestade o poder de destruir-lhe os tesouros. São pouquíssimos os que pensam que Deus é quem foi roubado. mas coisa alguma ganham. pois já não é o mais alto álii sili (2) em sua grande casa. O Papalagui renega-o quando diz: "Isto é meu". castigo-te. o que juntou durante o dia. para todos existe certamente onde ficar debaixo da palmeira. e os que se apossaram de um grande "meu". E ela é bastante grande. que manda devolver tudo a Deus. o Papalagui saberia que coisa alguma que não sejamos capazes de segurar nos pertence. luta que todos têm de aturar. ou foram por demais inábeis. escarnecendo-o e dizendo-lhe: "Já que me tiraste de Deus. ou não tiveram oportunidade. Os que têm são obrigados a dar. E é raro ouvirem a voz do homem justo. onde parar. acusa-o e censura-o por não ter. muito mais do que ele e sua aiga comem em 100 anos.

as esteiras e os porcos. Se amasse os irmãos. senão a fruta apodrece em sua mão. "São meus! Não os tereis! Jamais deles comereis!" Mas como faria então a palmeira para dar novos frutos? A palmeira é muito mais sábia do que o Papalagui. todos os peixes do mar. pouco lhe importa sua coragem ou sua inteligência. Como as esteiras e os porcos não vão por si mesmos à procura dos pobres e famintos. Não existe em Samoa. o conceito de meu e teu no sentido em que o adotamos. a banana. para mostrar-lhe o nosso contentamento. e não às esteiras e aos porcos. Se Deus colocou muitos bens na mão de um homem foi para que repartisse com seu irmão. O sol é para todos nós. a sua grande inteligência. as . realmente. Deus estende a todos os homens as muitas mãos que tem e não quer que uns tenham mais do que os outros. Mas o Papalagui não sabe que Deus deu a palmeira. Mas o Papalagui o que honra são as esteiras e os porcos em quantidade que seu irmão possui. enquanto outros morrem de fome e passam dificuldades. Em todas as viagens que fiz. mas sim. apenas. o Papalagui também não vê razão para levá-los aos seus irmãos. de modo absolutamente natural. se os honrasse. Mas o Papalagui vive como se a palmeira quisesse retê-los. este astuto. se não vivesse lutando com eles pelo "meu" e pelo "teu". quer-nos convencer de que nada a Deus pertence. pertence a cada um aquilo que consiga segurar na mão. a sombra. nem miséria. ou não recebe honra alguma. nem que alguns digam: "O sol é para mim. para ti". mas é só a ele que honramos. Também entre nós existem muitos que possuem mais do que outros. para louvar a sua grande coragem. como alofa. Estas coisas fomos nós mesmos que lhe demos de presente. levar-lhesia as esteiras que não usasse para que eles participassem desse grande "meu". muitos porcos. todas as aves do bosque. daí porque os guarda para si. Se tudo estiver na mão justa de Deus. O Papalagui daria aos irmãos a sua própria esteira em lugar de atirá-los à noite escura.A palmeira deixa cair as folhas e frutos que estão maduros. não haverá luta. para todos nós usufruirmos e sermos felizes. O irmão que não tem esteiras nem porcos poucas honras recebe. o teto. É certo também que honramos o nosso chefe que tem muitas esteiras. para todos e não apenas para uns poucos dentre nós. O que ele respeita não são os irmãos. o taro precioso. os nativos sempre partilhavam comigo. Tapemos os ouvidos a quem diz estas sandices e pratiquemos a boa sabedoria: "A Deus tudo pertence!" *** Notas: 1 Prisão 2 Senhor Nota do Autor: Quem sabe que os indígenas de Samoa vivem na mais completa comunidade compreenderá o desprezo com que Tuiávii fala de nossa concepção de propriedade. O Papalagui.

coisas que aos fracos dentre nós podem até causar espanto e falsamente humilhar." Os insulares não conhecem a noção de furto. um enorme peixe? Não sei como ele consegue ir. O Papalagui parece ser realmente aquele que furou o céu. são os seus guerreiros mais valorosos. porque tudo pertence a todos. que para a nossa mente mais não são do que pedras pesadas. roubo. ao mesmo tempo é verme e cavalo. sem temor. a comida: tudo. da água veloz e deles dispõe à sua vontade. Temo até que muitos dentre vós percam a confiança em si mesmos ante semelhante força. Apossa-se do relâmpago bravo. observar quais são essas artes singulares do Papalagui. dou com as minhas palavras testemunho da verdade. de ilha a ilha. que jamais entenderemos. Porque grandes e dignas de muito admirar são as coisas do Papalagui. O Papalagui sabe fazer de tudo um dardo. e se enfia nos mais largos rios de água doce. Anda de barco de uma nuvem para outra. e tudo pertence a Deus. uma clava. o enviado de Deus. Desliza pelas montanhas. mais depressa que o mais forte dos nossos jovens remando numa canoa. quando se move? Que bate e se mexe tal qual os peixes da lagoa? É esta grande nadadeira que empurra o grande barco para diante. Sobe aos ares: sabe voar e eu o vi deslizar pelo céu como se fosse a gaivota. Vistes a grande nadadeira que ele leva no rabo. às quais eles obedecem. e deveis crer no vosso servo. porque o Papalagui tem o segredo de fazer o fogo quente ainda mais quente. só o Papalagui sabe: é um segredo que está dentro do grande peixe. a água veloz mais veloz ainda. Não foram raros os casos em que ouvi de um chefe estas palavras com que logo de início me saudava: "O que é meu é também teu. Como isso é possível. porque domina o céu e a terra como quer. É peixe e ave ao mesmo tempo. Ata rodas de ferro aos pés e galopa mais rápido do que o mais rápido dos cavalos. Penetra na terra.esteiras. E é a máquina que encerra a . por onde devo começar? Todos vós conheceis aquele grande barco que o Branco chama navio. E se eu vos contar tudo quanto os meus olhos espantados viram. do fogo quente. São coisas das quais não sentimos falta. Tem um grande barco para andar pela água e outro para andar por baixo do mar. Não é tal qual um grande peixe. através da terra. Ali é que está a máquina que dá tanta força à grande nadadeira. Irmãos amados. pelo rochedos. ainda que vosso bom senso vos faça duvidar do que narro. VII O Grande Espírito é mais forte que o Papalagui O Papalagui faz muitas coisas que não sabemos fazer. Vamos pois. Tranca-os e dá-lhes ordens.

E já que assim é. maior ainda do que o grande Papalagui. de mãos fortes. à noite. Tudo isso que presenciei e vos narro é apenas pequena parte do que meus olhos viram com espanto. A máquina é o grande mago da Europa. Se cantares uma canção. Com os olhos vê mesmo durante a noite. como se sua carne fosse tão clara quanto a água. e é ele que determina quem dentre nós deve morrer e quando. força que jamais homem algum terá. Dêem-lhe o mais forte ifi da floresta virgem: a mão da máquina despedaça o tronco. mãos que nunca se cansam. porque é certo que o Papalagui se esforça por ser igual a Deus. milhares dentre eles ficam pensando. pouca importância têm os prodígios que o Papalagui faz. irmãos amados. É a Deus. Agarra-os e os coloca na máquina que deve comê-los. destruiria Deus e se apoderaria da sua força. E fraco é aquele dentre nós. tão graciosas que nem as mãos mais delicadas de uma moça seriam capazes de tecer. pequenas luas. e vai tecendo da manhã à noite. o fogo servem. Com a maior facilidade o Papalagui será capaz de iluminar as nossas ilhas à noite. querendo. miserável é a nossa força diante da força imensa da máquina. Eu a vi tecendo tangas tão finas. tornando-as tão claras. e não houve jamais Branco que à sua vontade conseguisse determinar quando a lua se levanta ou em que direção os ventos sopram. irmãos. um feiticeiro. Mas vi prodígios maiores ainda. Crede. vence ondas e ventos. vê através de si mesmo. que a ambição do Branco é grande: está sempre querendo realizar milagres novos e mais imponentes. A máquina é a clava mais forte que o Papalagui tem. vagalumes. Deus é mais forte do que a máquina do Papalagui.grande força. tantas vezes quantas quiseres. Por seu gosto. que se impressiona com eles. a água. O que é uma máquina. Mesquinha. O Papalagui soube aumentar a força de todos os seus membros: com as mãos passa por cima dos mares e atinge as estrelas. Os relâmpagos obedecem e levam o recado. e é mesmo verdade. em primeiro lugar. e cuspi-los de noite em milhares de estrelinhas. minha inteligência não é capaz de explicar. Só sei que ela come pedras negras e dá em troca a sua força. e vê qualquer sujeira que na água exista. Já vos disse que o Papalagui agarra os relâmpagos do céu. corta cem. feito a mãe que parte o fruto do taro para os filhos. Põe na tua frente uma chapa de vidro e captura nela a tua imagem. que adora o Branco pelas suas obras e se julga pobre e . até mil tanoas num só dia. na maneira de ganhar vitórias sobre Deus. devorá-los. que o sol. mas Deus é mais forte ainda. O Papalagui é um mago. ele a captura e a devolve quando quiseres. indicando-lhes um caminho por onde devem ir para levar mensagens para os irmãos que moram longe. tão luminosas quanto o dia. com os pés. É comum ele fazer os relâmpagos das máquinas trabalharem para ele. Os ouvidos do Papalagui percebem qualquer sussuro em Saváii e a sua voz tem asas feito as aves. cuspindo montes e montes de tangas.

disse-vos eu. mais belas ainda são as altas cabanas que se erguem em honra de Deus. Magníficas. Assim. imponentes e enfeitadas são as cabanas dos áliis importantes que se chamam palácios. com uma floresta de coral. o homem deve alimentá-la com o próprio coração. uma clava talhada pela máquina? Uma máquina é um ente frio. que não sabe falar do seu trabalho. vistos à mais clara luz do sol. aos prodígios do Grande Espírito. Não cabe ao homem fazer isso. sozinho. máquina não há que não precise de quem a vigie. nem de longe. oculto em algum lugar. nem o seu espírito é capaz de fazer o mesmo. nem máquina alguma é tão requintada e artificiosa quanto a pequena formiga da areia que vive em nossa cabana. Quando atravesso uma aldeia a cavalo. ao passo que as asas do Papalagui são falsas. No entanto. é claro. a qualquer momento. Para que a máquina lhe dê os seus prodígios sem amor.todas as coisas prodigiosas do Papalagui têm um lado fraco. O Grande Espírito é que determina. em muitos casos. de quem a toque. De que me serve uma canoa. em meio a todas as tempestades. em comparação com um ramo da palmeira. Como é que poderei amar minha tanoa se uma máquina é capaz de fazer outra igual a qualquer momento. sem o verdadeiro calor da vida é tudo isto em comparação com uma só moita de hibisco que dá flores cor de fogo. sem o meu trabalho? Aí está a grande maldição da máquina: é que o Papalagui já não ama coisa alguma porque a máquina pode refazer tudo. no fundo. mas quando caminho a pé. máquina não há que não contenha uma secreta maldição. mas enquanto trabalha. mas a linda gaivota voa mais alto ainda e voa mais rápido que o homem. Jamais o Papalagui fiou tanga tão fina quanto as teias que Deus fia. Pois mesmo se os prodígios e habilidades do Papalagui parecem espantosos aos nossos olhos. O Papalagui desse modo vive sem jamais repousar. é quem as reparte como lhe parece melhor. e cada vez mais . as forças do céu e da terra. para chegar rápido a certa meta. E com isso ganha muito menos do que confessa. inebriante pelas cores e pelas formas. Mas o Papalagui está sempre querendo chegar depressa ao seu objetivo. grosseiro.indigno porque nem a sua mão. e as suas asas pertencem realmente ao seu corpo. a caírem com facilidade. Quase todas as suas máquinas servem. rude. que não sorri quando acaba. não é impunemente que o Branco tenta transformar-se em peixe. sem sangue. apenas. sim. tudo quanto o Papalagui faz nada mais é do que brincadeira de criança na areia. ave. sujeitas a se quebrarem. A mão poderosa da máquina faz tudo. mais altas. vejo mais coisas e o meu amigo pode me convidar para entrar em sua cabana. Raramente se ganha de verdade quando se chega mais rapidamente ao que se procura. cavalo e verme. Coisa alguma que o Branco tenha feito se compara. vou mais depressa. não têm mais importância do que talhar uma clava. O Branco voa até as nuvens. quando chega. do que o pico do Tofua*. que não pode mostrá-lo ao pai e à mãe para que eles também fiquem contentes. ou tecer uma esteira. Mas. outra meta o atrai. vai devorando o amor que encerram as coisas que fazemos com as mãos.

conduzir um navio pelo mar. ou tecer esteiras. O Papalagui até o momento jamais construiu máquina que o preserve da morte. Contentemo-nos. nem arte. mais tarde. Ele deve lhe ensinar a tecer uma esteira sem precisar olhar o que faz. e tantas vezes que se consegue fazê-la de olhos fechados e sem esforço algum. dizem: "Ele errou de profissão". não tenho . simplesmente. que lhe dê mais alegria ou felicidade. * Montanha de Upolu VIII Da profissão do Papalagui e da confusão que ela provoca É difícil dizer o que é profissão. passear. jamais fez coisa alguma maior do que aquilo que Deus faz a todo momento. uma só coisa. Ter uma profissão significa fazer sempre a mesma coisa. É uma coisa tão importante que dela se fala tanto na aiga quanto do que se tem vontade de comer no dia seguinte. A mulher larga a profissão assim que se casa. caminhar alegremente em direção ao que não procuramos mas vem ao nosso encontro. o homem quando se casa é que realmente se consagra à sua profissão.desaprende o que é andar. É por isto que vos digo: a máquina é um bonito brinquedo dessas crianças grandes que são os Brancos. Profissões há para homens e para mulheres. Por isto é que todo Papalagui. portanto. Nenhuma das suas artes deve assustarnos. deve decidir que trabalho vai fazer durante a vida inteira. muito antes do tempo em que o jovem se tatua. o velho álii leva-o a um homem que só faz isso e que mostrará ao jovem como é que se tece uma esteira. caçar pombos no bosque são profissões de homem. dar brilho às peles que se põem nos pés. Se o jovem álii quer tecer esteiras. Não há máquina. É uma coisa que se deve ter muita alegria ao fazer. Chama-se isso "escolher uma profissão". construir cabanas ou tecer esteiras é minha profissão. Nenhum álii dá a filha a um pretendente que não tenha profissão. É comum levar muito tempo mas. Se com minhas mãos outra coisa não faço além de construir cabanas. Mas se o Papalagui. se diz: "Ele tem uma profissão". mas todo Papalagui em uma. outra profissão. mas raramente isto acontece. Todo homem branco precisa ter uma profissão. e desprezemos o Branco quando ele quer brincar de Deus. nem encantamento que prolongue a vida humana. Papalagui sem profissão não pode se casar. são profissões de mulher. o que é a mesma coisa que dizer: "errou o tiro!" Isso é uma coisa muito séria porque é contra a moral adotar. Lavar roupa na lagoa. então. O Papalagui decente corre o risco de perder sua honra se disser: "Não posso fazer isto. chega a perceber que prefere construir cabanas a tecer esteiras. com as máquinas maravilhosas do artista que é Deus. larga o seu mestre e. assim que o jovem aprende.

nós o percebemos pelo seguinte: é que existem Brancos que já não podem correr pois criam muita gordura no ventre. mas. só escrevendo tussi. e inversamente. para apanharmos os caroços de taro nos pântanos. um dia. ele nada mais faz do que escrever uma carta depois da outra. Esse só^-ber-fazer-uma-coisa é uma grande fraqueza e um grande perigo porque qualquer um pode se ver. obrigados pela profissão. então. cozinhar frutas. quando anda. Deu-nos as mãos para nos divertirmos. que pule como criança. não lava os pratos em que come. ou "Minhas mãos não obedecem quando faço esse trabalho!" Tem o Papalagui tantas profissões quantas são as pedras da lagoa. Não há. Se alguém junta as folhas murchas da árvore da fruta pão. apenas colhermos frutas ou caroços. para nos defenderem em todos os momentos. não são capazes de dominar um cavalo selvagem porque estão sempre ocupados em olhar para as estrelas ou inventar idéias. Não enrola a sua esteira e a pendura numa trave. se lava os pratos em que come. É por isto que quase todos os Papalaguis só sabem fazer aquilo que é a sua profissão. Come peixes. dançando e brincando. Da mesma maneira como também é profissão: enrolar a esteira e pendurá-la numa trave. come frutas. a bem dizer. saber apenas uma coisa. Quando. apanhar frutas. em todos os casos. obrigado a remar numa canoa pela lagoa. quer dizer: esta é a sua profissão. e isso é sua profissão. O Papalagui não compreende isso. para nos servirem. de lavar os seus pratos. Tudo que se faz é uma profissão. Também é profissão ter idéias ou olhar para as estrelas. que tem a cabeça cheia de sabedoria e o braço cheio de força. é também uma profissão. para proteger-nos o corpo contra todos os inimigos. Não as deu para construirmos apenas cabanas. É só a profissão que dá a alguém o direito de ter uma atividade. como se . é capaz de enrolar e pendurar a sua esteira. Tudo que faz o Papalagui se transforma em profissão. Nem o chefe mais importante. mas não vai pescar. contra todos os mandamentos do Grande Espírito. mas não as tira da árvore. coisa alguma que um homem seja capaz de fazer que o Papalagui não transforme em profissão. Também é por isto que aquele que sabe escrever um tussi com várias cores não é capaz de remar numa canoa pela lagoa. em todas as ocasiões. com as mãos ou com a cabeça. como os puaas (2) porque têm de estar sempre parados. É raro ver um Papalagui que ainda salte. Pelo contrário. Mas que a sua atividade é errada. Escreve tussi e mais tussi. errada mesmo. O Grande Espírito nos deu as mãos para colhermos as frutas das árvores. pescar. Ter profissão quer dizer: saber apenas correr ou apenas provar ou apenas cheirar ou apenas lutar. é uma profissão. não vai para a cozinha cozinhar uma fruta. já não podem levantar e lançar um dardo pois suas mãos estão muito habituadas a segurar o osso que lhes serve para escrever e eles estão sempre sentados à sombra. um Branco diz: "Sou tussi-tussi" (1). lavar pratos. folgando de todos os modos.nenhum prazer". arrasta o corpo. sim. depois que fica adulto.

Mas. teríamos só metade da alegria. por exemplo. Não preciso dizer-vos como é grande a alegria de toda a comunidade depois de construir todos juntos a casa do chefe. teriam apenas a de erguer as estacas. ou seja o que for. E só poderiam festejar a construção. e os que tecessem os caibros não poderiam ajudar a cobrir a cabana com cana porque só teriam que entrançar caibros. dia após dia. todos os dias. como profissão. Existem menos palmeiras em . Mas que diríeis se só alguns poucos homens da aldeia pudessem ir à floresta abater as árvores e talhá-las em estacas? E estes poucos não poderiam ajudar a erguer as estacas porque a profissão deles seria apenas a de derrubar árvores e talhar estacas? E os que erguessem as estacas não poderiam entrançar os caibros do teto porque. finalmente. Mas se só houvesse Papalaguis que. talhá-las em forma de estacas. saltar não são decentes para um homem importante. ou peitorais. nega esta fraqueza. e isso sem cessar. é absolutamente necessário que eles levantem ou abaixem a mão ou que empurrem uma pedra pois é isso que faz andar ou regular a máquina que fabrica aros de cal. fossem buscar água na mesma fonte. ou empurram um pau. nem sol. e de outra forma mostra que é um aitu. Nem todos poderiam ajudar a apanhar cascalho na praia para forrar o chão porque só poderiam fazer isso aqueles que tivessem esta profissão. E a profissão é também um aitu que destrói a vida. É uma alegria construir uma cabana. afinal há de enfurecer-se. Estais rindo! E estou certo de que dirão como eu: "Se tivéssemos o direito de fazer apenas uma coisa e não pudéssemos participar de todos os trabalhos que precisam da força humana. nada fazem que exija esforço ou dê prazer. mas quem tiver de ir buscála da manhã à noite. depois de amarrar as estacas e tudo mais com fios de coqueiro. como se todos os outros membros e sentidos do vosso corpo fossem aleijados e mortos. cobri-las com as folhas secas de cana-de-acúcar. derrubar árvores na floresta. inaugurar a cabana aqueles que nela morassem e não aqueles que a tivessem construído. É agradável ir buscar água no riacho uma vez. sem luz. até várias vezes por dia. não: há uns que apenas levantam ou abaixam a mão.alguma coisa entravasse seu movimento. A profissão ainda prejudica o Papalagui de outra forma. segundo o modo de pensar do Papalagui. um aitu que ao homem insinua bonitas coisas mas lhe chupa o sangue. erguê-las. ou conchas para calças. É daí que vem a miséria maior do Papalagui.pois não há coisa que pese tanto ao homem quanto fazer sempre a mesma coisa. enquanto tiver forças. O Papalagui disfarça. em todos os momentos. sem movimento e seus músculos não têm mais animação porque a profissão os fêz sonolentos e mortos. há de querer romper as correntes que o prendem. No entanto. Hipocrisia: é que seus ossos estão duros. pular. dizendo que correr. ou talvez nenhuma!" E por certo chamaríeis louco todo aquele que pedisse das vossas mãos apenas um só trabalho. arqueá-las para fazer o teto e. até as crianças e as mulheres participam da festança. isso ainda poderia até ser para eles muito bom. numa sala suja.

pé. é todo um só. O homem. Mas o Papalagui nunca conseguiu nos fazer compreender por que havemos de trabalhar mais do que Deus exige para que possamos comer à vontade. Para tanto. Para ele. E é por isto que existe ódio ardente entre os homens que têm profissões diferentes. na verdade. Tussi-Tussi = aquele que escreve cartas.nossas ilhas do que. O Grande Espírito não quer. ou apenas pé. minha fala . sadio. que fiquemos cinzentos por causa das profissões. porque a profissão devora toda a sua alegria e não lhes dá nenhum fruto. Papalaguis com o rosto acizentado porque não gostam do que fazem. não acontecerá isso quando só uma parte tem vida e todas as outras estão mortas. cabeça são feitos para formarem um todo. cabeça. que quero julgar sem poder porque nunca tive profissão e nunca trabalhei como os europeus. na Europa. Todos guardam no coração uma coisa como um animal preso por grilhões. o Papalagui vive confuso. nem sequer uma folha com a qual se regozijem. as moças lavam as tangas nas correntezas do riacho. jamais com desgosto. nos divertirmos com as festas da aldeia. Por causa da profissão. mas é cantando que os jovens samoanos vão para os campos de taro. cheios de inveja e má-vontade. É claro que não quer pensar nisso. não é apenas mão. o desespero. Mão. Talvez este trabalho lhe pareça pouco. Daí vem a confusão. o coração se alegrará. que se rebela sem conseguir soltar-se. que não percamos a alegria de nossos olhos nem a agilidade dos nossos membros. O Papalagui suspira quando fala no seu trabalho. nem que nos arrastemos feito as tartarugas e os pequenos animais rasteiros da lagoa. * Notas: 1 Tussi = carta. Mas o homem justo. e pobre a nossa existência sem profissões. se me ouvisse falar. Todos estão sempre comparando as suas profissões. E aí é que somos diferentes dos Brancos. a doença. 2 Porco IX Do lugar onde a vida é de mentira e dos muitos papéis Amados irmãos do vasto mar. diria que sou louco. cantando. o irmão das nossas muitas ilhas faz o seu trabalho com alegria. cobrir a cabeça com um teto. fala-se em profissões elevadas e baixas. muito teria o vosso humilde servo a vos contar para conhecerdesa verdade sobre a Europa. certamente. E decerto. Se todos os membros e sentidos trabalham juntos. Ele deseja que continuemos orgulhosos e tesos em tudo quanto fazemos. se não for assim é melhor nada fazer. como se uma carga o sufocasse. embora todas sejam apenas atividades parciais.

e tão escura que ninguém reconhece quem está perto. batendo nele com os dedos abertos. sem se mexer conforme gosta. muitas linguetas. Desta parede. e assim que os olhos se acostumam à escuridão. Na parede brilha um raio de luz. embaixo. sem se enxergarem. sentado. O cinema é uma cabana maior do que a maior cabana de chefe de Upolu. mesmo assim. desordenados. Daí por que aquele Papalagui bate no baú: é para dar a impressão de que é por causa de seu barulho que "não se . movimentada. que assim como o mar não existe sem água. mesmo durante o dia. a grande água. que o grande baú vai apresentando. o peixe que consegue apenas bater os membros. e cada lingueta range alto. de uma garganta profunda. O lugar da vida de mentira! Não é fácil explicar-vos como é este lugar que o Branco chama cinema. explicarmos tão claramente que vos seja fácil compreender. para enfraquecêlos. rindo. digamos assim. batendo numas linguetas brancas e pretas. andando para cá e para lá. Os Papalaguis ficam sentados uns junto dos outros. tão escura que se fica cego quando se entra e mais cego ainda quando de novo se sai. que parecem Papalaguis de verdade. e a sala escura fica cheia de gente. todos calados. um barulho. luta com um baú. ele ficará como o peixe lançado à praia pela ressaca. muitor maior até. sonhadora. Por esta cabana as pessoas arrastam-se ao longo das paredes. vem um zumbido. saltando. tal qual existem em todos os lugares da Europa. de tal forma que produz guinchos selvagens. no entanto. não há dúvida de que falam. sem nadar. cada um sentado numa tábua estreita. por mais que se fique nervoso por não escutar nada. não seria possível contar tudo pois a vida do Papalagui assemelha-se à vida do mar cujo princípio e fim jamais se pode ver com exatidão. Tal qual homem algum conseguiria retirar a água do mar com o oco da mão. é a lua e não é. mais procurado do que a casa do missionário. às apalpadelas até vir uma moça com um fogo na mão a fim de levá-los até onde há lugar. sorridente. pessoas de verdade. pelo menos. assim não pode haver vida na Europa sem a vida de mentira e sem os muitos papéis. Este barulho todo é para desviar os nossos sentidos. existe este lugar misterioso. Mas não quero deixar de vos contar. a fim de acreditarmos no que estamos vendo e não duvidarmos de que é verdade. som algum. Em todas as aldeias da Europa. A vida do Papalagui tem tantas ondas quanto o mar. e pode ser tempestuosa. com vozes diferentes cada vez que é tocada. Escura. na escuridão. movendo-se. correndo. e todas as tábuas estão dispostas na direção de uma mesma parede. tal qual uma briga na aldeia. É como se fosse a imagem da lua na lagoa. mas não se ouve nada. dando a impressão de uma lua cheia. por mais que se preste atenção. palavra alguma. onde se vêem pessoas. Todos mexem com a boca. Se alguém tirar uma coisa ou a outra do Papalagui. é apenas cópia. também não me é possível trazer-vos o grande mar que é a Europa com a pequenez do meu espírito. vê-se um Papalagui que. vestidos como eles. que faz sonhar até as crianças e ocupa o seu espírito.precisaria ser tal qual a cachoeira que corre da manhã à noite e.

sem poder ralhar com a moça. o rico faz-se de pobre. como se fosse um igual. assim. É tal qual o estado que todos vós já vistes nos europeus. de delírio no . ou uma moça traindo o namorado. na qual só existe uma luz enganadora que um feiticeiro joga através de uma fenda estreita da parede do fundo. pertinho mesmo. ele próprio. aparecem uns escritos na parede. sem tomar fôlego. o homem furioso arrancando-lhe da tanga o metal redondo e o papel pesado. mas observa tudo como se fosse. que jamais viveu. a vida é de mentira. nem repugnância. nobre. quando saem do lugar onde a vida é de mentira. sem dificuldade. Servem somente para mostrar ao Papalagui todos os seus prazeres e pesares. O Papalagui. Estas imagens sem vida. Quando vê um homem forte. nesta luz. Absolutamente imóvel no seu assento de madeira. não sofre nada. Se se pudesse agarrá-los. vive a vida real. cada um vive uma vida de mentira. ou bonitos quando são feios. Participa dos grandes banquetes. São mudos. dão ao Papalagui muito contentamento. dor alguma. convencido de que nunca faria as loucuras que o outro faz. Enquanto seus olhos vêem estas coisas alegres ou horríveis. Quieto. fixa essa imagem e pensa consigo: "Eu sou assim!". Mas é certo que estes homens na parede são homens de mentira.escuta o que as pessoas falam. dão a impressão de que nos vêem. os mais belos homens perto de si. nem viverá na realidade. que o faz esquecer de sua vida de verdade. ou praticam ações más. Não sente medo. no entanto. de vez em quando. um ser de outra espécie. ele vê os olhos do álii saltando até morrer. Mas também vê o Papalagui roubando a moça de uma outra aiga. mas praticam-nas porque já não sabem diferençar o que é de verdade e o que é de mentira. ele pode se iludir com uma vida de mentira. fica com os olhos na parede. sem sentir vergonha. o fraco julga-se forte. O Papalagui vê as mais bonitas mulheres. sem poder salvá-lo. explicando o que os Papalaguis disseram ou vão dizer. quando bebem kava demais e ficam pensando que caminham pelas ondas. fonos. e é por isto que. Entregar-se a esta vida de mentira tornou-se uma verdadeira paixão para o Papalagui. como se não tivesse coração. comendo junto. que seriam incapazes de praticar na vida de verdade. Nesta sala escura. olha para tudo isso muito contente. Não sente. Na escuridão. não são homens de verdade. ao sol claro. É doentia esta paixão porque o homem saudável não vive a vida de mentira numa sala escura. o Papalagui deve ficar quietinho. que não é possível pegar neles. é que muitos Papalaguis. Parece que ele está mesmo ali. e outras festas. de que nos falam. o enfermo julga-se sadio. Tão grande. mas o Papalagui vê seus olhos brilhantes e seus movimentos. olha para a parede abrupta. enterrando-lhe os dedos no pescoço. ver-se-ia que são feitos apenas de luz. com calor. porque está sempre convencido de que é melhor do que os homens que ele vê no raio de luz. por causa desta paixão. suas tolices e fraquezas. sem ser visto pelos outros. Ele vê um homem furioso agarrando um álii rico pela garganta. O pobre faz-se de rico. nem socorrer o álii rico. às vezes. Usa. já não podem distingui-la da vida de verdade e enlouquecem. Julgam-se ricos quando são pobres. festejando junto. Também os muitos papéis produzem uma espécie de embriaguez. que não respiram. O que acontece. vê os chefes mais importantes dos quais jamais se aproximará.

branca. pela manhã e à noite. primeiro comeu um resto de taro de ontem. Que história é esta dos muitos papéis? Imaginai uma esteira de tapa. Pode-se ficar deitado. que se comunica com mais minúcias do que aquilo que é bom. ou seus porta-vozes disseram nos seus fonos. muito agradável. pensam." E assim por diante. até o que tal ou tal álii comeu. leu a Bíblia e cantou até a noite. O Papalagui quer estar informado de tudo que acontece no país. dobrada. É muito bonito. com todos os lados cobertos com inscrições miudinhas: estes são os muitos papéis que os Papalaguis chamam de jornais. depois foi tomar banho e achou. distribuindo os muitos papéis. lêem o que os chefes mais importantes. Saváii para saber o que os amigos fazem. imaginai que eles diriam o seguinte: "O pule nuu*de Matautu. Até as tangas com que estavam vestidos está dito. aqueles horrores. Tudo quanto acontece. dividida e outra vez dobrada. se cada um deles já meteu a cabeça nos muitos papéis. Coisa alguma acontece no país inteiro que não se conte fielmente. Sina. precisa comer bananas em quantidade. E lê.Papalagui. tem de ser comunicado a todos e. primeiro deu de mamar ao neném. O álii ainda está deitado na sua esteira quando uns mensageiros correm pelo país. aliás. é justamente o que é ruim. para pensar melhor. do despontar de um dia ao despontar de outro. no tal papel. aquilo tudo que um homem de mente sadia trataria de esquecer o quanto antes. como se contar o que é bom não fosse muito mais importante e mais alegre do que contar o que é ruim. Entretanto. prega os olhos naquilo que os muitos papéis contam. hoje de manhã. ou se está com a mente fraca. fartála. quer dizer. Para dar uma idéia do que seriam esses papéis em nossa terra. de volta. e isso está marcado direitinho na tal esteira. Manono. comemoram. o fato de alguém ter matado uma galinha ou um porco ou de ter construído uma canoa nova. E nestes papéis que está inscrito o grande saber do Papalagui que tem. o nome do seu cavalo. fina. A mulher dele. os dois ficam calados ou apenas repetem entre si o que os papéis disseram. deitou-se na esteira. do que apenas ouvir contá-la por uma boca estranha que nada viu com os . depois de dormir bem. para ser mais rico em idéias. uma bela flor de pua que pôs no cabelo para enfeitar-se. de meter a cabeça neles a fim de alimentá-la. até se ele próprio está com elefantíase. depois voltou para a cabana. E fica com raiva quando alguma coisa lhe escapa. É a primeira coisa que o Papalagui pega assim que acorda. para correr melhor. uma alegria ou uma tristeza a comemorar ou a lamentar em comum. calmamente. ao que parece. mesmo que sejam só bobagens. precisa encher a barriga com regularidade. tal qual o cavalo que. porque está sempre ávido de meter tudo para dentro de si mesmo. voltou para a cabana ao meio-dia. na esteira que os muitos papéis contam tudo. e todos os Papalaguis fazem o mesmo: lêem. depois foi pescar. nenhum dos dois terá novidades ou curiosidades a contar! Cada um dos dois traz na cabeça as mesmas coisas. sempre é mais interessante ter alguma coisa. o que a gente faz e não faz. Quem lê o jornal não precisa ir a Apolima. o que entristece. porque se dois irmãos se encontram. tudo está escrito ali: os pensamentos bons e maus. mas é ilusão. Isso é que o Papalagui chama "estar informado de tudo".

uma vara de pescar atirada à água. Não se trata do grande. nem força. todos os dias. muito mais idéias novas do que a cabeça de um só homem pode fabricar. que vê numa esteira escrita a própria vida. Quando olho daqui a mangueira que está atrás da igreja do missionário. junto com os muitos papéis. do poderoso espírito que o "missionário chama "Deus". a respeito do nosso chefe. É este saber que o Papalagui exerce da manhã à noite. O lugar em que a vida é de mentira. a atitude é a do guerreiro que abateu o inimigo. saberás ao meio-dia o que cada Papalagui tem na cabeça. que faz o homem pensar. Ele tem pena de nós. é espírito. redondos. nenhum fruto. O Papalagui entope a cabeça com este inútil alimento de papel: antes de digerir uma idéia. que a maior parte das idéias são fracas. que toma a imagem da lua pela própria lua. quando nos conta o que aconteceu. de tudo quanto ocorre. mas não a fortalecem. o peito alteia-se. a respiração torna-se mais profunda. onde só se elevam miasmas nocivos e nuvens de insetos que picam. * O juiz X A grave doença que é pensar sem parar Quando a palavra "espírito" vem à boca do Papalagui. mas do pequeno espírito que acompanha o homem. Exige que todo homem lhe dé a cabeça. seus olhos ficam grandes. Mas se reconheço que é mais alta do que a igreja. enchem nossa cabeça de muito alimento. confuso. é a mesma coisa que enchê-la de areia. que gosta do que não é real e que já não sabe reconhecer aquilo que é real. A mente do Papalagui é tal qual o pântano que sufoca no seu próprio limo. é que ele também nos diz o que devemos pensar a respeito disso e daquilo. é inimigo do que eu penso. fizeram do Papalagui o que ele é: um homem fraco. é preciso também tirar daí algum saber. não é espírito porque apenas a vejo. O jornal é também uma espécie de máquina que fabrica. no entanto. onde já não cresce nenhum verdor. de tudo que a gente faz. porque não exercemos este saber. Quer dizer. fixos. O espírito do Papalagui é como um tubo de fogo carregado.próprios olhos. idéias novas. dos chefes de outros países. os pensamentos. do qual todos somos imagens mesquinhas. o jornal é inimigo da minha cabeça. o que pensa. Acontece. Mas não é só isto que faz do jornal uma coisa tão ruim para a nossa mente. O jornal gostaria de fazer que todos os homens pensassem igual. povos das muitas ilhas. Ele . não basta apenas ver uma coisa. Se tiveres lido os muitos papéis de manhã. já está absorvendo outra nova. Pois este "espírito" é coisa de que o Papalagui tem orgulho especial. e consegue. não têm dignidade. saber alguma coisa.

É difícil para ele não pensar. dela não se afastam: "Que é que haverá atrás desta montanha? Talvez uma enseada profunda. Tem de estar sempre pensando. É assim que ele pensa. meu coração alegra-se sempre que vejo uma moça. esquece-se de cantar as cantigas do mar que os jovens cantam. é bom. ele é um homem dividido em dois pedaços. Bem. que exercemos pouco o saber que o Papalagui chama "pensar". O samoano inteligente estira os membros à luz quente do sol e não pensa em nada. talvez uma enseada estreita?" Entregue a estes pensamentos. em Upolu. mas não pega no taro. separadas do corpo. até obrigação. porque as idéias estiveram. a palmeira dobra-se à tempestade. a tempestade ruge". ou quem pensa demais. que não cai e a Saváii ele chega sem dificuldade. nem no palusami(2). a todo momento. é certo. E assim por diante. à sua maneira. . talvez tenha alguma utilidade pessoal para quem gosta desta brincadeira interior. os olhos do Papalagui assim que a vêem. nem ouve as brincadeiras divertidas das moças. Embora isso não o impeça de andar normalmente. a barriga. comer. Assim que a enseada e a serra ficam para trás. inteiramente errado. o Papalagui pensa imediatamente: "Como o sol está brilhando agora. de falar. mas sem sorrir. uma serra. pensa: "Quanto tempo vou levar para chegar a Saváii?" Pensa mas não vê a paisagem agradável que tem diante dos olhos. Mas a questão é saber se é estúpido quem não pensa muito. Pensa em coisas alegres. outro pensamento o atormenta: "Será que Vai cair um temporal antes de anoitecer? Será?" O Papalagui procura. quando o belo sol brilha. Mas é como se não tivesse viajado. e certamente eles também pensam de uma forma diferente da cabeça. estúpidos como os bichos selvagens. Se aparece na margem esquerda. O Papalagui está sempre pensando: "Minha cabana é menor que a palmeira. mas sem chorar. fora da canoa. como está bonito!" Isto está errado. no céu nuvens sombrias. tal qual um grande bloco de lava que ele não desloca. Há uma espécie de embriaguez nos seus próprios pensamentos. gosto muito de sair em malaga (1)". sim. A vida do Papalagui é. Por exemplo. É certo. os pés. Teria sido o mesmo ficar em casa. isto é alegre. é difícil viver com todas as partes do corpo ao mesmo tempo. naturalmente. por muitas formas. O Papalagui quase sempre vive um combate perpétuo entre seus sentidos e seu espírito. semelhante à de um homem que vai de canoa para Saváii e que. Só pensa no temporal que pode cair. ele fica preso em seus pensamentos: esses são os frutos da reflexão. então. porque o melhor é não pensar em nada quando o sol brilha. rir. mal se afasta da praia. Mas também pensa a respeito de si mesmo: "Sou baixo. Mas para o Papalagui o pensamento está sempre no meio do caminho. Ele deixa que a pele e os membros pensem por si. Mas o Papalagui pensa tanto que para ele pensar se tornou costume. absurdo. coação. todas as partes do corpo. Sente fome. necessidade. pensando: "Como o sol está brilhando. que beleza!" E continua pensando. as coxas. E comum ele viver só com a cabeça enquanto todos os sentidos dormem profundamente. Ele recebe o sol tanto com a cabeça quanto com as mãos.acha que somos pobres de espíritos. pensa certamente em coisas tristes.

Esta cabeça de pedra é muito maior do que era em vida para que o povo possa admirá-la bem e possa refletir na sua própria cabeça. deleitadas. "Como será a aurora do dia de amanhã? Que é que o Grande Espírito pensa fazer de mim quando eu for para o Saléfé'é (3)? Onde é que eu estava antes de os enviados do Tageloa (4) me darem uma alma?" É tão inútil pensar nisso quanto querer ver o sol de olhos fechados. na Europa. Porta-se como se as idéias fossem tão preciosas quanto as flores. responderá: "Porque não quero ser tolo. quando pensa. sente-se obrigada a comunicar seus pensamentos às pessoas que se sentem. As aldeias as transformam em chefes. Se as palmeiras e os montes pensam. sem ver o vasto mar. Triste sorte a daquele que pensa no que está longe. os bosques. Mas o que é provável é que pensem muito pouco. Quando alguém pensa muito e pensa depressa. na verdade. os montes. muitas maneiras de pensar e existem muitos alvos para a flecha do pensamento. a moça bonita. as palmeiras não teriam lindas folhas verdes. e não compreendo por que hei de amá-la. nem é possível pensar no que está longe. essas cabeças são muito honradas. e certamente se pensassem tão alto e tão selvagemente quanto o Papalagui. Conhecer quer dizer ter uma coisa tão perto dos olhos que . então. é bem um sinal de inteligência quem sabe encontrar seu caminhar sem pensar muito. deixa que façam tanto barulho quanto crianças malcriadas. tão pequena. o país inteiro põe luto. Atacou-os a doença grave que é pensar sem parar. existem muitas formas. O Papalagui fala muito nos pensamentos que tem. se bem que. Não o deixa sem alimento. ficam parados no mesmo lugar. diz-se. quando dançam na praça da aldeia. Se se perguntar a um Papalagui porque ele pensa tanto. embora não estejam mortos. Quando uma grande cabeça vai a uma aldeia. Ele próprio dá um bonito nome a esse desejo: "conhecer". O Papalagui ama. E os frutos cairiam antes de amadurecer. Na Europa se diz que pensar assim torna grande e alto o espírito. sem coisa alguma mesmo. o contentamento de uma moça." É valea (5) todo Papalagui que não pensa. Não vivem. da mocidade à velhice. e não sofre com o fato de que as idéias se devoram umas às outras. nem frutos dourados (pois todos sabemos que pensar envelhece e enfeia depressa). nem por isto fazem barulho. Em vez de despertar pena. tal qual o martim-pescador. Fala tanto nos pensamentos como se não tivesse importância alguma a bravura de um homem. sem alegria. olham para o chão. muito alegres. Nem a kava lhes sabe bem e. Além disto. Aqueles que tentam. Talha-se na pedra uma imagem da grande cabeça que morreu para se mostrar a todos na praça do mercado. Mas creio que isso não passa de pretexto e que certo impulso mau persegue o Papalagui: o que ele deseja. um mandamento divino que ordenasse aos homens pensar muito. Não adianta. honra o seu espírito e o alimenta com idéias da sua cabeça. pensar em como foi o começo. chora-se muito o que se perdeu. Se morre uma grande cabeça. é atingir os poderes secretos do Grande Espírito.Um espírito que nos atormenta desta forma é um aitu. sem coisa alguma. que é uma grande cabeça. realmente. Ele se comporta como se houvesse um mandamento.

mas tudo mesmo. conforme já tem de fato acontecido. Se bem. Levam estes livros para casa. comprimem-se muitas esteiras de pensamentos em pacotinhos. muitíssimo estranha. Daí porque é particularmente ruim. moços e velhos. E todos. sejam logo inscritos em umas esteiras finas. desprezível. Então. no entanto. de todas elas. dotado de certa força misteriosa. Para ele. como são as de qualquer samoano ajuizado. Ele parte todas estas coisas até o ponto de não haver mais o que quebrar nem partir. . eis porque todo aquele que está sempre desdobrando e desdobrando o seu pensamento é obrigado a reconhecer que continua ignorante e a deixar ao Grande Espírito as respostas impossíveis de descobrir. o Papalagui vê tudo. uma tirinha da tua pele. nem duas. Ele pega uma escalopendra. Mas aí chegar não é dado ao Papalagui e nem a força mágica dos seus olhos mais penetrantes jamais conseguiram pois o Grande Espírito não deixa que lhe tomem os segredos. num instante contaminam-se. atravessa-a com um pequeno dardo. amontoam-nos. arranca-lhe uma perna e quer ver que aparência tem essa perna separada do corpo. um cabelo. mas é também quase sempre o mais importante porque é por ele que se chega ao mais alto conhecimento. Esta procura. O Grande Espírito também não gosta da curiosidade dos homens e foi por isto que atou fortes cipós por cima das coisas. que aguça muito a visão. Eles engolem estas esteiras como se fossem bananas doces. e acabam afirmando que os homens são animais e que os animais são gente. Depois. Nunca. mas muitas vezes. de repente. Com este olho grande e forte. este desejo de penetrar tudo é uma ansiedade impertinente. se desorientam de mil maneiras. Extraviam-se e chega um momento em que a inteligência deles não consegue mais. penetrá-la. que tem mil mãos e que encerra a vontade poderosa de muitos grandes chefes. sem princípio nem fim. chamados "livros" que são enviados para todas as partes do país. de ter idéias naturais.se pode nela tocar com o nariz. tudo. tem-se de descer novamente. distinguir entre homens e animais. roem-nos feito ratos que roem a cana-de-açúcar. existem alguns. enchem com eles baús inteiros. o que aqueles doentes pensam é escrito por uma máquina. E não é uma vez só. que ela escreve sempre os mesmos pensamentos. Todos que absorvem estes pensamentos. é essencial. depois quebra a perna do animal para ver sua grossura. Quem jamais conseguiu trepar mais alto do que o topo da palmeira a que as pernas se agarram? Chegando ao topo. E por isto que existem tão poucos Papalaguis capazes ainda de pensar com sensatez. tal qual penetrassem numa floresta virgem sem trilhas por onde caminhar. tuas lágrimas. bons e maus. pois não há mais tronco por onde subir. esquisita. Arranca da perna uma lasca do tamanho de um grão de areia e coloca-a em baixo de um tubo comprido. que não cedem em sua paixão de querer saber e daí resulta que. diz o Papalagui que "estão impressos". de tanto pensar. brancas. Este ponto é quase sempre o mais minúsculo possível. isto é importante. é nefasto que todos os pensamentos. quer dizer. e até atravessá-la. de que forma está a este presa. que só o Grande Espírito possui. vezes infindáveis. doentes de tanto pensar. que os Papalaguis mais inteligentes e corajosos o reconheçam.

um fardo que fatiga o corpo. o nome de todos os seus grandes chefes. "Instrução" quer dizer: encher a cabeça de saber até as bordas. todos os animais. Sabe tudo. evitar tudo quanto nos prive da alegria de viver. e quando é que guerrearam. 3 Viajar 4 Prato predileto dos samoanos. Se fizeres qualquer pergunta a um homem que tenha instrução. A única coisa capaz de curar os doentes de tanto pensar seria esquecer e expulsar os pensamentos. a roer certa quantidade de esteiras com pensamentos. envelhece antes do tempo. Mas eles não farem isso ou só pouquíssimos. Quem tem instrução sabe a altura da palmeira. e isto é o mais importante. as estrelas. * Notas: 1 Inferno dos samoanos. nem podemos fazer coisa alguma que não nos torne mais fortes de corpo. obrigando-as. eu digo. Amados irmãos que não pensam: depois de tudo quanto vos disse devemos. O que sobra de tamanha confusão é o que chamam "instrução". Mesmo quem tenta escapar. Sabe de que tamanho é a lua. mais alegres e melhores de espírito. lhe tire a luz clara. Não devemos. e faça a cabeça brigar com o corpo.Da mesma forma metem-se na cabeça das crianças tantos pensamentos quanto se pode. no entanto. 2 O deus mais poderoso da lenda. por sua maneira de viver. é obrigado a se instruir porque todo Papalagui tem que saber e tem que pensar. todos os dias. querer imitar o Papalagui e aprender a pensar como ele pensa? Não. tira as forças. realmente. Precisamos. A "instrução" se espalha por toda a parte. a maior parte leva na cabeça um fardo. A maior parte. nos prova que pensar sem parar é doença grave que muito diminui o valor do homem. sobrecarrega-se com tantos pensamentos que já espaço não resta para que a luz penetre. todas as plantas. É o que se chama "formar o espírito". sempre pronta para disparar. Conhece todos os rios pelo nome. Só as mais sadias repelem esses pensamentos ou deixam que lhes passem pelo espírito como se fosse uma rede. de tudo que nos obscureça o espírito. e todos os países do mundo. o peso do coqueiro. 5 Tolo XI . tudo mesmo. A cabeça dele está sempre carregada de munição. Não há europeu que não dê os mais belos momentos da sua vida ao trabalho de transformar a cabeça no tubo de fogo mais rápido possível. ele te dispara a resposta antes de fechares a boca. O Papalagui.

não são todos dentre nós que o têm no coração. ele próprio vive na treva. filhos de um só Pai. que encheu de alegria e gratidão os nossos sentidos. Foi por isto que deixamos de adorar as estrelas da noite. aldeias onde. todos os frutos e todos os alimentos. porque foi porta-voz do Grande Espírito que os Brancos chamam Deus. e este é o mais importante dos seus mandamentos. como bons cristãos. resistíamos ao que nos ensinava. tempo houve em que vivíamos na escuridão e nenhum de nós conhecia a luz radiante do Evangelho. desde aí. Reconhecemos o Papalagui e o consideramos como irmão. agradecidos. este amor que cada vez mais nos enche com o seu Grande Espírito. que chamou de falsos ídolos porque não tinham dentro de si o verdadeiro Deus. Aprendemos que as ordens de Deus são boas porque hoje todas as aldeias vivem em paz. Sabeis que Deus nos manda amar uns aos outros e não matar. Não é ainda em todos dentre nós que Deus reside. não lhe fechamos as portas da nossa terra. mas com ele dividimos. porque a luz é só nas mãos que a tem. o Grande. eram surdos ainda os nossos ouvidos à palavra de Deus. vagávamos como crianças que não conseguem encontrar a sua cabana. e por todos os tempos o festejaremos. O Papalagui recebeu a luz antes de nós. havemos de ser-lhes gratos. crianças teimosas. embora o chame com a boca. Disse eu que o Papalagui nos trouxe a luz. antigamente. mas todos lhe somos gratos porque nos tornamos maiores e mais fortes desde que adoramos em Deus. O homem branco não se esquivou de nenhum esforço para nos trazer o Evangelho. a fim de que vivêssemos em paz uns com os outros. o poder do fogo e do vento. Reverentes. o nosso coração nao sabia de nenhum grande amor. O Papalagui trouxe-nos a luz. Por estes esforços. o Senhor do céu e da terra. todas as armas. por tudo isto que por nós sofreu. veio a nós para nos libertar da escuridão em que vivíamos. Mas ele só tem a luz na mão que estende para iluminar os outros. o honraremos porque nos trouxe a luz. sequer quando. ouvimos as suas palavras sensatas e majestosas que fazem cada vez maior o nosso amor. e nos voltamos para o seu Deus. Jogamos fora as nossas armas e.O Papalagui quer nos arrastar para a escuridão em que vive Irmãos amados. o grande senhor do céu. Por isto o honramos. . a luz magnífica que flamejou em nossos corações. tem o coração longe de Deus. O missionário do Papalagui foi o primeiro que nos ensinou o que é Deus e nos desviou dos nossos antigos deuses. o Maior chefe da tribo. não há mais guerra a devastar as nossas ilhas e todos se amam como irmãos. O primeiro bem que Deus nos fez foi o seguinte: com a ajuda do Papalagui nos tomou todos os tubos de fogo. só havia agitação e susto incessante. na maior franqueza. porque foi portador da luz. já a recebia quando os mais velhos dentre nós ainda não eram nascidos.

que as suas palavras e os seus atos se contradizem. ante as idéias de prazer. Não o penetrou a luz de tal forma que irradie e. nome que é tão belo quanto o mais belo dos cantos. Nós. ante o metal redondo e o papel pesado. O que há de pior é que se chama de filho de Deus e cristão. o que dizem cai no vazio. amor. Ser cristão quer dizer: amar a Deus poderoso e amar ao seu irmão. e quer nos fazer acreditar que é o fogo porque tem uma chama nas mãos. não éramos piores. Mas não podemos. é que ele pensa na existência de forças acima de si. e só depois amar a si mesmo. Deus só na boca. vivíamos no escuro. mas não com o corpo. nem o seu amor inclinam-se ante Deus. do que é. sim. De dia não se preocupa com Deus. É raro o Papalagui pensar em Deus. onde quer que vá. mas vive na escuridão. Posso dizer isso sem que Deus se encolerize. o amor tem de estar em nós tal qual o nosso sangue. luz que dissipa a treva que tudo aclara e aquece. se a luz de Deus realmente brilhasse nele. É só ódio. e sabe também que. Não é a luz que o alimenta. não devemos nos enganar a respeito do Papalagui para não sermos por ele arrastados à treva em que vive. Éramos maus. conhece a luz. Cristão chama-se a si mesmo o Papalagui. de senhores mais fortes do que ele. quando adorávamos as estrelas e o fogo. como se estivesse cansado.Não há para mim nada mais triste. o que dizem o vento carrega. filhos da ilhas. faz muito barulho. Os que falam em nome de Deus não o têm nas suas falas. 0 Papalagui. inclinam-se apenas ante as coisas. com a cabeça. do que ter que vos dizer isso. tudo ilumine a partir do seu coração. hoje. torce o rosto. Todos os Brancos chamam-se filhos de Deus. Nem aqueles que têm o encargo de falar de Deus nas grandes cabanas que constróem em sua honra. esta luz que também se chama amor. e falam feito as ondas que batem nos recifes. porque não conhecíamos a luz. Nem ele percebe mais. que não é luz. Quando a pronuncia. é só avidez. ante as máquinas. Cristão! Possamos nós chamar-nos cristãos por todos os tempos. Sabe que não agradam a Deus. coisa alguma me enche mais de luto o coração. ó amados irmãos das muitas ilhas. E amar quer dizer fazer o bem. teria de jogar-se na areia de vergonha. ainda que todos hajam recebido o ensinamento certo. O Papalagui nos trouxe a palavra divina. mas nem o seu coração. e rugem sem cessar. mas é a avidez selvagem do tempo. já ninguém os ouve. nem estes têm Deus no coração. mas ele próprio não compreende a palavra nem o ensinamento de Deus. mesmo quando rugem. E só quando a tempestade o apanha. quando a chama da sua vida quer se apagar. é a insensatez da profissão. como se a palavra nada significasse. ainda que todos saibam de Deus. é só hostilidade que o enchem. Mas é o que já se vê pela sua incapacidade de pronunciar com o coração a palavra "Deus". gancho que só serve para roubar. e é mau. Mas o Papalagui tem as palavras cristão. ser uma só coisa com o coração e a mão. afasta-o dos seus estranhos gozos. no entanto. das suas estranhas alegrias. realmente. Bate-as com a língua. O coração do Papalagui é como um grande gancho pontudo. e gostam que isso seja confirmado pelos escritos de certos senhores do seu mundo. Mas Deus lhes é estranho. o Papalagui. Compreende-as com a boca. Ele irá dez vezes mais ao lugar onde a vida é de mentira do que à .

Irmãos amados. mais ídolos do que jamais tivemos noutros tempos. Juremos também que haveremos de lhe dizer: "Afasta-te de nós com teus prazeres e teus gozos. Deus não é o que vive no melhor lugar dentro do coração do Papalagui. mostrou o que é. E é por isto que ele não faz a sua vontade. se ídolo é algo que. com tua avidez selvagem de riquezas que juntas nas mãos e na cabeça. cala a tua voz ruidosa.procura de Deus. o Papalagui tem. O Papalagui confessa. não te dou mais mandamento algum. contra a luz: a Europa se devora. então. iguais aos que têm dentes de feras e que não têm coração. A luz que tem na mão está para apagarse. para não nos deixarmos seduzir pela voz do Papalagui. levantemos nossos braços e brademos: "Cala-te. Deus disse ao Papalagui: "Sê o que quiseres. enche-me o amor por Deus. ele que nos chama selvagens. muito pecado no coração do Papalagui. enquanto não for alegre o teu rosto. que não tem Deus dentro de si. e sei que Deus mais nos ama do que a ele. longe. entretanto. com teu pensamento e teu saber que procuram e. faz que eles vejam como são os Papalaguis. que fala depressa e astutamente. com tua atividade demasiada e insensata. Irmãos. Mas Deus faz cair a cegueira dos olhos destes selvagens. contentamo-nos com as alegrias nobres e belas que Deus nos dá em quantidade". que nos mostre. com todas as tuas loucuras que te impedem de dormir tranqüilo na esteira e te inquietam. sabeis da notícia espantosa das coisas que acontecem contra o amor. afinal. Eles se matam. a destruição reinam. hoje em dia. o pavor. a fim de carregar em troca os nossos frutos e a parte maior e mais bela da nossa terra. o silvo do vento nas palmeiras. O sangue. FIM . Os seus caminhos estão escuros. além de Deus. Penso e digo: o Papalagui trouxe-nos o Evangelho como se fosse uma espécie de mercadoria. que está longe. com tua ânsia de ser mais do que o teu irmão. mais não se ouve do que o terrível bater das asas dos cães que voam e o grito das corujas. e sim a vontade do aitu. enquanto a imagem de Deus de ti não irradie como o sol". Não precisamos de nada disto. Ó vergonha! Ó horror! Com uma voz orgulhosa nos tirou as armas e falou o que Deus fala: "Amai-vos uns aos outros!" E daí? Ó irmãos. conduzindo-nos à claridade magnífica e com ela nos inunde para que amemos uns aos outros e tenhamos pleno de talofas o coração. tuas palavras são para nós o barulho da ressaca. Considero-o bem capaz disso porque vi muita sujeira. com a obra desatinada das tuas mãos. enquanto teus olhos forem vazios." O Branco. quer dizer. nada sabem. contra Deus. Que Deus nos ajude. Quando ele vier nos procurar. sim o caminho. que se tem no coração como o que há de mais digno de amor. não deixando que a sua luz nos cegue e nos leve ao erro. o amor por vós e é por isto que Deus me deu voz para vos dizer tudo que eu vos disse: para guardarmos nossa força interior. e saudável. Os Papalaguis se tornaram loucos furiosos. se adora e se venera.

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