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Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo

CURSO PROFISSIONAL TÉCNICO DE APOIO PSICOSSOCIAL

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DISCIPLINA DE PSICOPATOLOGIA GERAL
MÓDULO 1 – Introdução à Psicopatologia

Natália Magalhães

Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo

ESCOLA PROFISSIONAL DE DESENVOLVIMENTO RURAL DO RODO

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ÍNDICE
Introdução 1. História da doença mental A. A psiquiatria nas culturas primitivas B. A psiquiatria na antiguidade C. A psiquiatria na idade média D. A psiquiatria no renascimento E. A psiquiatria na actualidade 2. Normalidade e patologia A. Conceito de Norma B. Conceito de Anormal C. Conceito de Doente D. Modelo Somático de Doença E. Modelo Psicanalítico de Doença F. Modelo Sistémico de Doença G. Modelo Comportamental de Doença H. Perturbação Psíquica enquanto Desvio da Norma 11 11 12 13 13 14 14 15 15 3 4 6 6 8 9

Natália Magalhães

Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo

I. Sintomas Psicopatológicos J. Dos Sintomas à Síndrome K. Teorias relativas à formação de sintomas/síndromes 3. Definição e limites da saúde mental 4. A definição de causa em psiquiatria 5. Nosografia das doenças psíquicas 6. Classificação das doenças psíquicas

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INTRODUÇÃO

Este manual refere-se à disciplina de Psicopatologia – módulo 1 (Introdução à Psicopatologia), enquadrada no 1º ano do Curso Técnico de Apoio Psicossocial. O módulo pretende dar a conhecer a evolução histórica da psicopatologia e apresentar os conceitos gerais da mesma, designadamente o tipo de classificação utilizada para caracterizar as diversas perturbações psicopatológicas ao longo do percurso desenvolvimental de cada indivíduo. Um outro aspecto a focar será a compreensão da psicopatologia a partir do estudo e da compreensão da normalidade estabelecida na comunidade social. De uma forma global, pretende-se realizar uma iniciação à linguagem da disciplina que decorre de diferentes critérios e de diferentes correntes do pensamento, como os conceitos de normal e patológico. Visa-se explicar as causas da doença numa perspectiva multidimensional e com diferentes

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abordar-se-ão os factores precipitantes de risco do estado da doença. Por fim.Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo abordagens. 27 Boa Leitura! Natália Magalhães .

História da doença mental As perturbações mentais existiam muitos milénios entrarem primitivos antes em de cena. junto à corte de um rei filisteu.  O rei Saul da Judeia alternava episódios de frenesi assassino com outros de depressão suicida.  O rei Nabucodonosor da Babilónia andava em quatro patas pensando ser um lobo. encontrado casos de insanidade anteriores.  Segundo a bíblia.Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo 27 1. Este rei tinha. os e psiquiatras escritos religiosos Alguns mitológicos conhecidos são:  O herói grego Ajax esquartejou um rebanho de carneiros que erradamente tomou como seus inimigos. por certo. o jovem David fez de louco ao procurar refúgio dos inimigos. dado que censurou os seus servos nos seguintes termos: “Será que me faltam casos de loucura ao ponto de ser necessário trazerem-me este homem a fingir à minha frente?”  Como se explicava na altura a causa da doença mental? Natália Magalhães .

 Segundo alguns antropólogos. privado de comida.  Ainda se regista a prática da trepanação em algumas tribos sem escrita.  Encontraram-se muitos destes crânios trepanados.  Se o paciente tivesse sorte. grandes buracos nos crânios dos seus semelhantes.  Esta abordagem consistia em arranjar saída material para os demónios. para o levar a fugir.  Os executores tornavam as coisas tão desagradáveis quanto possível ao diabo. exactamente pelas mesmas razões.  No entanto. a cura para a doença consistia em expulsar os demónios.  Desta forma. fustigado ou torturado. 27 frequentemente com sinais de que o paciente tinha conseguido sobreviver à operação. eram utilizadas técnicas menos brandas – trepanação. os procedimentos de exorcismo eram brandos – os demónios perturbadores eram acalmados pela música ou afugentados por meio de orações e rituais religiosos. Natália Magalhães . submerso em água a ferver ou em banhos gelados. por vezes.  O paciente era acorrentado. com alguma frequência.Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo  Uma das teorias mais antigas defendia que as pessoas perturbadas se encontravam possuídas por espíritos malignos. é esta a explicação para o facto de os homens da Idade da Pedra terem aberto.

Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo  A abordagem demonológica das doenças mentais atingiu o auge durante a caça às bruxas séculos XVI e XVII. nos 27 Natália Magalhães .

em invocação dos poderes celestiais e em exorcismo dos demónios.  As pessoas acusadas de feitiçaria eram amaldiçoadas.Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo  Este período foi marcado por inúmeros tumultos de ordem social. As terapias consistiam em magia. tendo-se verificado uma série de turbulentas caçadas às bruxas. outras sofriam de delírios vários ou de histeria.  Algumas destas pessoas eram senis. o que lhes dava poder para lançar feitiços como pragas.A Psiquiatria na Antiguidade Natália Magalhães . A Psiquiatria nas Culturas Primitivas  Nas Culturas Primitivas: a Doença Mental era explicada a partir de formulações fantásticas e irracionais. segundo a maioria das autoridades teológicas da época. política e religiosa.  Tais pessoas eram entendidas como uma ameaça à sociedade. B. etc. era atribuída a possessão demoníaca ou manifestação de descontentamento dos deuses.  Foram queimadas cerca de 500 000 pessoas. bem como por guerras. na maior parte da Europa. quem “tratava” das doenças mentais eram os sacerdotes e os feiticeiros. tomadas intencionalmente ou por acidente. encontravam-se possuídas por terem feito um pacto com o demónio. dilúvios. impotência sexual e azedar o leite. A. fome e peste que levaram à necessidade de encontrar bodes-expiatórios cuja punição pudesse contribuir para aliviar estes males. mania.  Alguns poderiam ter tido alucinações produzidas por 27 substâncias semelhantes ao LSD.

C.-50d.)  Galeno (131-200 d.)  Aristóteles (384-322 a.C.)  Platão (427-347 a.C.) Natália Magalhães .  No antigo Egipto.)  Asclepíades  Erasístrato (355-280 a. período histórico.C. Pensadores que começaram a desenvolver explicações racionais para a doença mental  Hipócrates (460-380 a.  No antigo Egipto.C.  Na antiga China. médicos cirurgiões já operavam o cérebro. já existiam alguns conhecimentos de farmacologia e farmacoterapia.)  Aurélio Cornélio Celso (25 a. já existiam alguns conhecimentos de farmacologia e farmacoterapia.Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo  Antiguidade: chamado Antes Idade de Cristo. compreendido entre os alvores dos tempos históricos e a queda do Império Romano do Ocidente. médicos cirurgiões já operavam o cérebro.C.C. subdividido em Antiguidade Oriental e Antiguidade Clássica. 30 séculos a. 30 séculos a.C.  Na antiga China.C. também 27 Antiga.

C.C. o raciocínio e a memória.)  Considerado o verdadeiro pai da psicologia. conceito monista (corpo e natureza eram manifestações da essência ideal). os juízos.)  Médico romano  Atribuiu ao cérebro o papel de controlador dos fenómenos mentais Natália Magalhães . defendendo a origem natural de todas as doenças. fobias. hemorragias e parto.)  Definiu o mundo das ideias. definição de corpo científico. psicose pós-parto.Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo  Santo Agostinho de Hipona (354-430) 27  Hipócrates (460-380 a.  Foi o pioneiro na classificação das doenças mentais: melancolia.C.C.  Aristóteles (384-322 a.  Galeno (131-200 d.  Fez apreciações sobre a imaginação. delírio tóxico e histeria.  Relacionou diferentes estados mentais com estados infecciosos.)  O 1º a tentar separar a medicina dos rituais mágicos.  Teoria das Ideias. demência senil.  Platão(427-347 a. estudou sensações e inteligência.

A Psiquiatria na Idade Média : A Idade Média é o período histórico entre a Antiguidade e a Época Moderna. A economia baseava-se na agricultura. Tradicionalmente. No entanto. … na Idade Média Dá-se uma regressão do pensamento científico. mobilidade e funções mentais  Defendeu que a doença mental tinha origem cerebral 27 C. apetite carnal e desejos  Defendeu que o sistema nervoso era o centro da sensação. os manuais de História apontam para o seu início o ano de 476. Natália Magalhães . As doenças mentais voltam a ser explicadas à luz de razões sobrenaturais.Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo  Dividiu a alma em razão e intelecto. coragem e raiva.

o conceito foi-se degradando e os doentes mentais. assim como um renovado entusiasmo pela cultura clássica 27 Chegada da primeira revolução Psiquiátrica  Ideologia humanista (“o homem como o centro do universo”) Aparecimento da Psiquiatria como especialidade médica  Para contrariar a superstição que dominava a época. instituições que eram casas de assistência e de reclusão. altura em que surgiu uma nova concepção de Homem e Natureza. os pobres e os abandonados pelas famílias eram recolhidos em hospícios. Contudo.  Grilhetas nos pés  Abstinência alimentar  Açoites  Promiscuidade Natália Magalhães . surge na Europa os primeiros asilos ou hospitais para os doentes mentais.A Psiquiatria no Renascimento: Renascimento designa os séculos XV e XVI da história europeia.Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo D.

livres dos um Natália Magalhães .  Foi considerado o 1º psicoterapeuta A partir do século XVI é restabelecido o carácter científico da psiquiatria.Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo Paracelso (1493-1541)  Defendeu que a doença mental era uma perturbação da substância interna do corpo. no qual os médicos e outros profissionais retomam as observações clínicas sobre o comportamento e as verbalizações dos doentes mentais. 27 Thomas Willis  Anatomista e neurologista  Descreveu a paralisia geral (sífilis) e a miastenia  Descreveu alguns casos de jovens que na puberdade entravam em “estupidez” (estado clínico que mais tarde veio a ser nomeado por esquizofrenia) Philippe Pinel (1745-1826)  Médico francês  Em Maio de 1798 libertou os asilados (muitos deles algemados durante 30 anos)  1ª tentativa de classificação das doenças mentais:   Manias ou delírios gerais Melancolias ou delírios exclusivos Demências Idiotias    Os pacientes com doença mental. a qual estava ligada à alma. das prisões e passaram a receber tratamento humanitário e orientação psicológica. ficaram maus tratos.

Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo 27 Natália Magalhães .

na nossa integração numa comunidade e para a continuidade da sociedade. as normas conferem:  Protecção  Segurança  Acolhimento  À sociedade. linhas de orientação) são inevitáveis na nossa vivência ordenada no mundo. as normas conferem:  Estrutura  Enquadramento Natália Magalhães .  Destinam-se à criação e manutenção de estruturas sociais  São necessárias à sobrevivência dos membros da sociedade (protecção contra o assassínio ou exclusão) e da própria espécie. Normalidade e patologia As normas (regras.  Ao indivíduo.Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo 27 William Cullen  Estabeleceu uma das 1ª classificações das doenças psiquiátricas com alguma base científica  Foi o autor do termo neurose 2.

atinge os objectivos da sua vida (a sua auto-realização). se desvia da norma de um determinado grupo. entre outros. fracassado. 3. sob determinadas circunstâncias. corresponde às exigências da sua própria essência (autenticidade) e do mundo. Resistir descalço. Graus ligeiros de subinteligência 4. Iniciar sozinho no Inverno um passeio de alpinismo 7. Exemplos de comportamentos que podem ser classificados como “anormais”.  Anormal é:  O que. dotes máximos numa esfera racional ou artística. e apesar da pressão exercida pelo sofrimento provocado por uma doença somática e/ou contra a pressão exercida pelo que é norma numa sociedade. Sentido negativo – atrasado. mas não como doentios: 6. e é Natália Magalhães . num determinado comportamento. Sentido positivo – superdotados. despido e com um mínimo de alimentação nos Himalaias Sã é a pessoa que. 2. Estes desvios surgem em dois sentidos: 1. atormentado. Determinados traços de personalidade 5. perturbador em relação à norma usual no país ou no grupo e que provocam sofrimento a terceiros Anormal não é equivalente a doente.Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo  Limites  Linhas de orientação 27  Em Psiquiatria:  Norma estatística – comportamento adequado da maioria das pessoas de um determinado sexo e de certos grupos etários numa determinada esfera sociocultural. dotes intuitivos especiais.

“Ficar doente. Eisenberg. pela sua elevada diferenciação. Doença é um desvio morfológico ou fisiológico. é quem não consegue ultrapassar.Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo capaz de estar à altura das suas tarefas (adaptação): alguém que se afirma na vida. Este modelo deve apenas utilizar-se relacionadas com doenças orgânicas:     Síndrome psicoamnésica A demência As psicoses “orgânicas” nas perturbações psíquicas Apesar da utilidade do modelo. à formação. Resumindo… São será  quem se auto-realiza  quem é autêntico  quem se adapta Doente será  quem sofre  quem fracassa  quem se aliena Segundo o Modelo somático. ao curso e ao prognóstico. não consegue estabelecer uma relação viva com os outros (aspecto relacional). sem que sejam demasiado extremas. 1979)  Natália Magalhães . à causa. unitária e encerrada em si mesma no que se refere ao quadro clínico. em Psiquiatria há sempre que juntar pontos de vista biológicos e psicossociais. é quem fracassa na capacidade de dominar a vida e o mundo.é quem. permanecer doente e curar-se são processos sociobiológicos” (Engel. 1977. 27 Doente : é quem sofre qualitativa e/ou quantitativamente mais do que a média aceitável para o seu país e para o seu grupo. as circunstâncias que se lhe deparam.

Exemplos de sintomas: Agitação Inibição Despersonalização Desrealização Delírio Modelo Sistémico de Doença em Psiquiatria Doença – perturbação psíquica como consequência de formas perturbadas de comunicação.  Relações familiares patogénicas  Família patogénica Natália Magalhães .Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo 27 Modelo Psicanalítico de Doença em Psiquiatria Neste modelo não existe uma definição explícita de normal. inicialmente entre a mãe e o futuro doente e mais tarde entre os membros da família em geral.manifestação de um conflito intrapsíquico entre o Supereu e o Id. Neurose . Psicose – ruptura do Eu com o meio ambiente. doente e são.

retraimento social. pode ser expulso da comunidade. autismo. 27 Perturbação Psíquica enquanto desvio da norma Quem quebra normas socialmente preestabelecidas. constituindo uma ameaça para a norma aparentemente segura. por ser considerado: Dissidente Marginal Aberrante Este julgamento global indiferenciado reunia: • • • • • • • • Santos e impostores Ascetas e filósofos Doentes mentais e bruxos Visionários e profetas Pobres e aqueles que voluntariamente se despojam dos seus haveres Vagabundos Foras-de-lei Prostitutas O que tinham em comum estas figuras? Tornavam-se incómodas. aceites..Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo Modelo Comportamental de Doença em Psiquiatria O comportamento “doentio” é aprendido. discurso confuso. Experiências desagradáveis com pessoas dão azo a tentativas de fuga – por ex. Medidas adoptadas inicialmente pela sociedade contra essas pessoas: Natália Magalhães . desviando-se assim da “lei”. comportamento bizarro Estas tentativas de fuga podem ter como modelo padrões étnicoculturais preexistentes. toleradas e nunca postas em causa.

Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo  Desterro  Morte  Tortura  Encarceramento Classificar como psiquicamente alterado ou doente um comportamento aberrante (desviante) depende:   Da situação em que ocorre o comportamento Da representação que a sociedade tem sobre o que é a doença psíquica Da forma como a doença se manifesta 27  Perturbação Psíquica como rótulo social  O “doente” é declarado “doente mental” pela sua sociedade. mediante a adjudicação (rotulamento.   É empurrado para um determinado curso de vida. estigmatização) de um estado psiquicamente anormal. A estigmatização de uma pessoa como “doente mental” passa a determinar significativamente o seu destino INVALIDEZ SOCIAL      EXPECTATIVAS DE RECAÍDAS EXONERAÇÃO PROTECÇÃO DESVALORIZAÇÃO PERDA DE RELAÇÕES PESSOAIS E PROFISSIONAIS Natália Magalhães .

de influências dos espíritos ou de transgressões de tabus  Conceito astrológico: doença como resultado da constelação das estrelas   Conceito moral de doença: associado à culpa e ao pecado. COMO SE CORRESPONDESSEM A SINAIS DE DOENÇA  HOSPITALIZAÇÃO FREQUENTE COM INSTITUCIONALISMO 27 Conceitos de Doença  Conceito mágico: doença como resultado de influências mágicas. TAMBÉM DE FORMAS DE COMPORTAMENTO E DE REACÇÕES. insegurança. Conceito Transpessoal de doença: doença como resultado de vivências durante o nascimento . EM SI NORMAIS. defesa Necessidade de tratamento O pedido de ajuda    Autoterapia Família. necessidade de apoio. de maldição. conhecidos Médico   Sintomas Psicopatológicos Natália Magalhães . dependência. ou de vivências em anteriores encarnações  O comportamento de doença implica:   A existência de queixas ou impedimentos O sentimento pático de medo. de bruxaria.Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo  INTERPRETAÇÕES UNIFORMES. de conjuro.

por ex.  Exemplos de circunstâncias :  Transição do estado vigil para o sono  Situações de cansaço  Situações de privação sensorial  Situações de expectativa sob tensão  Situações de vida de sobrecarga emocional  Situações de solidão (após a perda do companheiro de uma vida.)  Hipnose  Meditação  No sonho  Sob o efeito de alucinogénios  Os sintomas psicopatológicos não são meramente doentios.  Anormal não significa desde logo doente. e por si só. anormal ou. doentio. uma vez que todos esses sinais se podem igualmente encontrar no indivíduo são em determinadas circunstâncias. Síndrome – constelação de sintomas que surgem frequentemente relacionados uns com os outros. e que se destacam do habitual e quotidiano próprio das pessoas de uma determinada esfera cultural. A síndrome é assim uma combinação típica de um conjunto de sintomas. sem outra razão. mesmo. é.Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo  São modos de vivência e de comportamento. Natália Magalhães .  Nenhum sintoma psicopatológico isolado. 27 Dos Sintomas à Síndrome Sintoma – é a mais pequena unidade de observação em psiquiatria. reconhecíveis como iguais ou similares.

sonolência. por um lado. síndrome paranóide-alucinatória. estado de agitação. delírio. acinética e hipercinética). alucinose.  Síndrome perceptivas: síndrome de desrealização e de despersonalização.Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo Exemplos de Síndromes que surgem na prática clínica:  Perturbações da consciência: obnubilação. síndrome de ansiedade. 27 Teorias relativas à formação e sintomas/síndromes Porque surgem os sintomas? Porque surge determinada síndrome? Na maioria dos sintomas psicopatológicos não existe qualquer relação clara entre. síndrome hipocondríaca. síndrome catatónica (síndrome hipocinética. Obsessões e Fobias: síndrome anancástica.   Delirium: síndrome paranóide.   Perturbações mnésicas: síndrome mnésica. Natália Magalhães . coma. por outro. síndrome alucinatória. uma lesão comprovada e. estado crepuscular. etc.  Síndromes afectivas: síndrome depressiva. síndrome fóbicoanancástica. o sintoma. Síndromes de impulsividade: estupor. síndrome maníaca. estupor.

frequentemente originados nas experiências da primeira-infância. Por conseguinte.Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo 27 Na concepção Psicanalítica: Os sintomas surgem devido a conflitos entre as instâncias representadas pelo Eu. a terapia defendida é sempre a medicamentosa e os terapeutas são médicos. do “aparelho” psíquico. o Id e o Superego. influenciadas pelo clima de desenvolvimento. Dados Psiquiátrico-psíquicos (sistema AMDP) para formulação do estado psicopatológico de um doente: Natália Magalhães . no seu desacordo com a realidade externa. Determinada síndrome consiste numa constelação de conflitos inconscientes e de defesas contra a ansiedade. Na concepção médica: Defende que a patologia subjacente aos sintomas/ à síndrome é orgânica. Concepção Comportamental e Cognitiva: Interpretação dos sintomas como resultantes de aprendizagens nãoadaptativas ou de padrões disfuncionais de pensamento.

Espacial 3.Temporal 2. Diminuição da consciência 2. Expansão da consciência Perturbações da orientação 1. Turvamento da consciência 3. Estreitamento da consciência 4.Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo Perturbações da consciência 1.Situacional 4. Paramnésias Perturbações formais do pensamento Inibido Lentificado Circunstanciado Estreitado Perseverante Cismático Pressão de ideias Fuga de ideias Falar ao lado Bloqueio/rupturas de pensamento 27 Natália Magalhães .Em relação a si próprio Perturbações da atenção e da memória Perturbações da compreensão Perturbações da concentração Perturbações da capacidade de fixação Perturbações da memória 1. Confabulações 2.

Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo Incoerente/desagregado Neologismos Receios e compulsões Desconfiança Hipocondria Fobias Pensamento compulsivo Impulsos compulsivos Actos compulsivos Delírio Humor delirante Percepção delirante Intuição delirante Pensamentos delirantes Delírio sistematizado Dinâmica do delírio Delírio de referência Delírio de prejuízo e delírio de perseguição Delírio de ciúme Delírio de culpa Delírio de ruína Delírio hipocondríaco Delírio de grandeza Receios e compulsões Desconfiança Hipocondria Fobias Pensamento compulsivo 27 Natália Magalhães .

Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo Impulsos compulsivos Actos compulsivos Perturbações formais do pensamento Inibido Lentificado Circunstanciado Estreitado Perseverante Cismático Pressão de ideias Fuga de ideias Falar ao lado Bloqueio/rupturas de pensamento Incoerente/desagregado Neologismos Alterações da percepção Ilusões Alucinações acústico-verbais Outras alucinações auditivas Alucinações visuais Alucinações cenestésicas Alucinações olfactivas e gustativas Perturbações do Eu Desrealização Despersonalização Difusão do pensamento Roubo do pensamento Perturbações da afectividade 27 Natália Magalhães .

Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo Perplexidade Anestesia afectiva Pobreza afectiva Perturbação dos sentimentos vitais Depressão Desespero Aniedade Euforia Disforia Irritabilidade Inquietação interior Queixume/lamúria Sentimentos de desvalorização Sentimentos de sobrevalorização Sentimentos de culpa Sentimentos de ruína Ambivalência Paratimia Labilidade afectiva Incontinência afectiva Rigidez afectiva Perturbações da energia vital e da psicomotricidade Diminuição da energia Inibição da energia Aumento da energia Agitação motora Paracinésias Maneirismos/bizarrias 27 Natália Magalhães .

saúde mental é o estado de bem-estar no qual o indivíduo realiza as suas capacidades. bem com a integração na escola. Natália Magalhães . no trabalho e na sociedade.Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo Logorreia Variações circadianas Agravamento matinal Agravamento vespertino Melhoria vespertina Outras Perturbações Isolamento social Sociabilidade exagerada Agressividade Suicidalidade Auto-agressão Ausência de sentido mórbido Anosoagnosia Recusa do tratamento Carência de cuidados Perturbações do sono e da vigília Perturbações do adormecer Perturbações do curso do sono Encurtamento da duração do sono Despertar precoce Sonolência 27 Definição e Limites da Saúde Mental Segundo a OMS. trabalhar de forma produtiva e frutífera e contribuir para a comunidade em que se insere. pode fazer face ao stress normal da vida. A saúde mental proporciona aos indivíduos a realização intelectual e emocional.

A condição mental de cada sujeito é determinada por uma variedade de factores. Familiares e sociais (enquadramento social) e Económicos e ambientais (estatuto social e condições de vida). solidariedade e justiça social das nossas sociedades. 27 Natália Magalhães . nomeadamente:     Biológicos (genética e sexo).Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo Contribui para a prosperidade. Individuais (antecedentes pessoais).

isolamento e alienação. stress no trabalho ou na família. sensibilização).Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo 27 Modelo Funcional de Saúde Mental Sociedade e Cultura Factores Predisponentes Factores predisponentes Factores precipitantes Resultados -factores genéticos -factores relacionados com a gravidez e o nascimento -experiências da 1ª infância -ambiente familiar -circunstâncias sociais -ambiente físico Sociedade e Cultura -nível de bem-estar -saúde física -sintomas -conhecimento e competências -qualidade das relações estabelecidas Saúde mental e saúde física estão intimamente relacionadas. ambiente inafectivo. Minimiza-se ainda o stress familiar que muitas vezes está associado aos internamentos. campanhas na comunicação social (informação. desalojamento. Factores de Risco (para desenvolver doença mental) : acesso a drogas e álcool. Alguns deles são: a educação. desemprego. intervenção precoce em situações de crise. reduzir os custos com a saúde. Daqui decorre que a integração dos cuidados de saúde mental nos cuidados gerais prestados em meio hospitalar pode reduzir significativamente os períodos de internamento e. Promoção da Saúde Mental: A saúde mental pode ser promovida através de modelos de acções psicossociais interdisciplinares. aconselhamento individual e familiar. pobreza. ser rejeitado… Natália Magalhães . treino dos profissionais prestadores de cuidados sociais. assim. programas junto da sociedade civil. desenvolvimento de sistemas de saúde ocupacional.

 Importância do diagnóstico individual Observação do indivíduo como um todo: SER BIOPSICOSSOCIAL. porque… Diferentes causas resultam na mesma perturbação. participação social… 27 Relação entre a Saúde Mental e as diversas disciplinas humanas Definição de causa em Psiquiatria  Dificuldade em identificar as causas das perturbações mentais.  Organização das causas em Psiquiatria Factores Hereditários Factores Psicogénicos Natália Magalhães .Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo Factores protectores (ajudam à manutenção de saúde mental) : interacções interpessoais positivas. Diferentes perturbações resultam causas iguais.

Psicose como manifestação de doença somática Psico-síndrome orgânico (avitaminoses.Reacções e desenvolvimentos anormais Reacção imediata (acontecimentos de vida) Neurose Enfermidade psicossomática 3.Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo Facores Sociogénicos 27 Classificações em Psicopatologia  Classificação no sentido etiológico Etiologia “aitia” (causa) + “logos” (estudo) Doença de carácter endógeno Doença de carácter exógeno Doença de carácter orgânico Doença de carácter psicógeno  Classificação no sentido nosográfico Nosografia “nosos” (doença) + “grafia” (descrever) 1. Disposições anormais 4.Disposições anormais Da inteligência Natália Magalhães . Psicose como manifestação de doença somática 2. Reacções e desenvolvimentos anormais 3. Psicoses endógenas 1. doenças infecciosas) Psico-síndrome cerebral local (alterações da circulação sanguínea cerebral) 2.

quanto à sua origem em: Endógenas: Dependem de factores heredo-constitucionais Exógenas: Relacionadas com acontecimentos de vida marcantes Tóxicas Orgânicas Psicógenas (Neuroses. Reacções vivenciais.Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo Da personalidade 27 4. Doenças psicossomáticas) Natália Magalhães .Psicoses endógenas Psicoses afectivas Esquizofrenia  As Alterações psicopatológicas podem classificar-se.