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Hidráulica e sedimentação Todo sedimento siliciclástico resulta da ação de algum agente de transporte e deposição, seja ele água, vento ou fluxo gravitacional. Quando o sedimento é transportado e depositado por água ou vento, a conformação do produto será resultado da maior ou menor expressão de dois fatores centrais: tração e suspensão. Também terá influência o local onde ocorrem transporte e deposição, se subaéreo, subaquoso ou em águas profundas. A tração pode se dar de forma oscilatória, por influência de ondas, ou em resultado da ação de correntes. As correntes, por sua vez, podem ser unidirecionais ou bidirecionais. As correntes ainda podem ser constantes, ou decrescentes, ou inicialmente crescentes e depois decrescentes. Fluxos gravitacionais de alta densidade podem ser confinados ou desconfinados. Podem ocorrer contendo muita lama, pouca lama, sem lama, afetando areia ou cascalho. Os fluxos podem ainda ser turbulentos de alta ou baixa densidade, laminares ou granulares. Há ocasiões em que a água transporta o sedimento, e outras ocasiões em que o sedimento transporta a água. Estruturas sedimentares As estruturas primárias observadas em rochas sedimentares resultam da preservação de formas de leito, superimpostas ao sedimento do fundo como resultado da tração hidráulica do fluido sobrejacente, com a concorrência eventual de suspensão (decantação). Ao se mover, a água movimenta os grãos do fundo de forma previsível, permitindo a reconstituição da ação hidráulica original pela observação de seus efeitos. As estruturas secundárias resultam da deformação do sedimento após sua deposição, por ação mecânica, hidráulica, química ou biológica. • Regime de fluxo inferior é a corrente de baixa velocidade, que provoca transporte intermitente dos grãos, e é capaz apenas de formar estratificações cruzadas e ripples no sedimento do fundo. • Regime de fluxo superior é a corrente de alta velocidade, que provoca transporte contínuo dos grãos, e é capaz de gerar tapetes de tração no sedimento do fundo. O experimento de Harms et al. (1975), ao passar um fluxo de água com 20 cm de espessura com diferentes velocidades sobre sedimentos de diversas granulometrias, permitiu estabelecer algumas observações fundamentais: • • Para mover areia fina, é necessário que a água se mova a pelo menos 15 cm/s; para areia média, 20 cm/s; para areia grossa, 30 cm/s; para areia muito grossa, 40 cm/s (Figura 14-1); Microestratificações cruzadas, ou ripples se formam quando correntes entre 15 e 55 cm/s passam sobre um fundo de areia fina; ou quando correntes entre 20 e 50 cm/s passam sobre um fundo de areia média (Figura 14-2). Esta estrutura resulta da ação conjunta de tração e suspensão;

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Velocidades de água superiores a 150 cm/s formam antidunas. Figura 14-1: Formas de leito geradas experimentalmente pela atuação de um fluxo de água com 20 cm de espessura a diferentes velocidades (Harms et al. de crista reta (estratificação cruzada planar. O regime de fluxo superior se traduz em laminação plano-paralela. Figura 143) nas velocidades menores e de crista ondulada (estratificação cruzada acanalada.. com lineações de partição no topo das lâminas. ou 2D. Figura 14-4) nas velocidades maiores. em fundos de areia grossa em torno de 150 cm/s. ou 3D. em fundos de areia fina submetidos a velocidades de água entre 60 e 120 cm/s (Figura 14-5).• • • Areia média e grossa submetida a correntes entre 40 e 120 cm/s forma grandes ripples. também designada tapetes de tração. 79 . Essas formas de leito dificilmente se preservam. em fundos de areia média a velocidades na faixa de 120 – 150 cm/s. em que a forma de leito se desloca no sentido oposto da corrente. 1975).

Figura 14-2: Ripples de corrente. suspensão e fluxo gravitacional sob condições crescentes de energia. 2001). resultado de tração mais suspensão (Sumner. As estruturas sedimentares primárias resultam da interação entre tração e suspensão. ENERGIA 80 . e do nível de energia envolvido no transporte do conjunto águasedimento (Tabela 4). TRAÇÃO Estratificação plano-paralela Estratificação cruzada Ripples Sem movimento Pelagito SUSPENSÃO Camada maciça Pelitos laminados FLUXO GRAVITACIONAL Gradação inversa Gradação normal Paraconglomerado Tabela 4: Resumo do produto da ação de tração.

A Figura 14-3: Estratificação cruzada planar (2D). modelo em três dimensões. 2003). modelo em três dimensões. A. B. A Figura 14-4: Estratificação cruzada acanalada (3D). B. 81 A . exemplo real (Paim et al. A.. 2003).. exemplo real (Paim et al.

exemplo real (Paim et al. Observar as lineações de partição no plano de sedimentação. Figura 14-6: Laminação ondulada cavalgante (climbing ripples) forma estratos com diferentes ângulos.A Figura 14-5: Estratificação plano-paralela. 2003). A.. modelo em três dimensões. conforme a atuação relativa dos processos de tração e suspensão (Sumner. 2001). Qual o sentido do movimento da água? 82 . B. ou tapetes de tração.

Figura 15-1: vista geral de um leque aluvial em clima árido. Os primeiros se caracterizam pela seleção pobre. SISTEMAS DEPOSICIONAIS SILICICLÁSTICOS CONTINENTAIS E TRANSICIONAIS Leques aluviais em clima árido Os leques aluviais em clima árido são depósitos sedimentares grossos. 83 .15. que podem ser de falha. mal selecionados e normalmente se desenvolvem como lobos com topo convexo ao pé de escarpas. contêm clastos imbricados. são grão-suportados e apresentam gradação normal. Os processos sedimentares dominantes nos leques aluviais são os fluxos de detritos (debris flows) e os depósitos de inundação (sheetflood deposits). por serem matriz-suportados e pela ausência de estruturas sedimentares (Figura 15-2). Figura 15-2: Esquemas de fácies verticais dos sedimentos depositados por fluxos de detritos e por depósitos de inundação. pela orientação aleatória dos clastos. Os últimos são moderadamente selecionados.

. arenito com estratificação cruzada e Leques Aluviais Clima Úmido arenito com laminação plano-paralela (Figura em 15-4). 84 . Como definir a qualidade destes reservatórios? Leques aluviais em clima úmido A atuação mais consistente de correntes e torrentes resulta em maior grau de organização. formadas pelo empilhamento de camadas de conglomerado. 2003). Figura 15-4: Elementos e organização geral de um leque aluvial de clima úmido. normalmente em barras longitudinais.Figura 15-3: Exemplos de depósitos de fluxo de detritos (Paim et al.

construindo barras em pontal. e eventualmente de uma cobertura lamosa (Figuras 15-6 e 15-7). bastante sinuoso. Os sistemas meandrantes mostram em geral um só canal. de camadas arenosas com estratificação cruzada tabular ou acanalada. Os sistemas entrelaçados têm um canal principal. 85 . ao longo do qual são Sistemas Fluviais construídas barras longitudinais. As barras arenosas em sistemas fluviais entrelaçados compõem-se caracteristicamente de uma base erosiva. Cretáceo). Os sistemas anastomosados são formados por múltiplos canais. a correnteza tem a capacidade de transportar sedimentos muito grossos. • • • • Os sistemas retilíneos têm poucas ou nenhumas curvas e barras. Classificação Geral Retilíneo Meandrante Entrelaçado Anastomosado Figura 15-5: Classificação geral dos sistemas fluviais. Reservatórios deste tipo são importantes produtores no Recôncavo (Formação Sergi. de um pavimento seixoso. que se acumulam em barras quando sua força arrefece.Sistemas fluviais – classificação geral Os sistemas fluviais podem ser classificados de acordo com a geometria dos canais e dos depósitos associados (Figura 15-5). JuroCretáceo) e na Bacia Potiguar (Formação Açu. com cheias fortes e rápidas. Sistemas fluviais entrelaçados Os rios entrelaçados normalmente experimentam grandes variações no regime hidráulico. Nas cheias.

86 .Sistema Fluvial: Barras Longitudinais Figura 15-6: Características geométricas e estratigráficas das barras arenosas em sistemas fluviais entrelaçados. Sistema Fluvial: Barras Transversais Fm Serra Grande (Ordoviciano/Devoniano Inferior da Bacia do Maranhão) Figura 15-7: Características geométricas e estratigráficas das barras arenosas em sistemas fluviais entrelaçados.

edu/~mrbc/ENSTFall2001/MissRi ver1.uoguelph. mostrando a construção das barras em pontal. www. por definição.gif 87 . www. gradando para sedimentos mais finos com ripples no topo (Figura 15-9). Os rios meandrantes.Sistemas fluviais meandrantes Nestes sistemas as correntes são relativamente mais fracas. As barras em pontal constam em geral de camadas arenosas com estratificação cruzada na base.ca/~sadura/sedref/sd50. transportando sedimentos grossos e finos. constroem barras em pontal. Sobre uma superfície erosiva acumula-se um depósito convexo de areia fina com estratificação cruzada acanalada e afinamento para cima.tulane.JPG Figura 15-9: Esquema geométrico e estratigráfico simplificado de uma barra em pontal. construídas nos ramos convexos dos meandros às expensas da erosão nos ramos côncavos (Figura 15-8). Figura 15-8: Mapa esquemático de um trecho do Rio Mississippi.

saltação e suspensão. Figura 15-11: Processos de sedimentação nas dunas eólicas (Paim et al. como na Formação Juruá. As dunas raramente se preservam. 2003). carbonífero da Bacia do Solimões. mas quando isso ocorre destacam-se pela estratificação cruzada de grande porte (Figura 15-10). com freqüência bimodal.Sistemas eólicos O vento comumente constrói dunas de areia fina bem selecionada. A areia é transportada por rolagem. Atual Registro Geológico Figura 15-10: Dunas barcanas atuais e da Formação Guaritas (Ordoviciano da Bacia do Camaquã).. galgando a face da duna voltada para o vento ( leeside). Na face a sotavento (stoss side). Arenitos eólicos são bons produtores de petróleo. a areia se move por fluxo de grãos (Figura 15-11) ou se deposita diretamente da suspensão. 88 .

k12. figuras 15-13 e 15-14). 89 . Cretáceo da Bacia Potiguar. e as mais moderadas no Quarto Crescente e no Quarto Minguante (maré de quadratura). As maiores marés ocorrem na Lua Cheia e na Lua Nova (maré de sizígia). como nas marés de sizígia.Barras de maré Este ambiente está sujeito a grandes variações de energia.gif Figura 15-13: Esquema de uma barra de maré com estratificação cruzada variável (tidal bundle).ca. http://drake. Na Formação Açu. há reservatórios importantes depositados com influência de marés. As lâminas arenosas finas formam ângulos maiores com a horizontal quando a corrente é mais forte. pois as marés não só invertem o sentido da corrente duas vezes ao dia (enchente e vazante) como variam de amplitude conforme a fase da Lua (Figura 15-12). resultando em marés de maior amplitude quando Sol e Lua estão do mesmo lado (Lua Nova) ou em lados opostos (Lua Cheia).marin. formam-se depósitos de areia fina com estratificação cruzada com ângulo variável (tidal bundle. Figura 15-12: Esquema mostrando o efeito combinado da atração gravitacional do Sol e da Lua sobre os oceanos. Em conseqüência.us/stuwork/rockwater/wavetide/suntide. Em condições especiais. podem se preservar os estratos com estratificações cruzadas em sentidos opostos que caracterizam a estrutura sedimentar conhecida como espinha de peixe (herringbone) (Figura 15-15).

. correntes e marés. Permiano da Bacia do Paraná. 90 . Figura 15-15: Fotografia de afloramento mostrando estratificação cruzada do tipo espinha de peixe. formados próximo ao litoral em resposta à dinâmica costeira. somatório da ação de ondas. 2003). Cordões litorâneos e ilhas de barreiras São depósitos arenosos estreitos e alongados. Formação Rio Bonito. Associam-se comumente a estuários e lagunas (Figuras 15-16 e 15-17).Barras de Maré Figura 15-14: Esquema estratigráfico de barras de maré e exemplo real da Formação Rio Bonito em Cachoeira do Sul – RS (Paim et al. BR-282. próximo a Bom Retiro-SC (foto do autor).

As faixas da plataforma à profundidade de dezenas de metros estão sujeitas a regimes de ondas muito contrastantes por ocasião de tempestades. laguna e estuário. 15-23 e 15-24). formada por areia fina pela ação de ondas e marés (Paim et al. Fluxo oscilatório A ação de ondas forma ripples bidirecionais. com grau de simetria variável. 91 . o que pode originar no sedimento a estratificação cruzada hummocky (Figura 15-21). 2003)..Cordões litorâneos e ilhas de barreira Figura 15-16: Esquema generalizado de ilha de barreira. 15-19 e 15-20). a até dez vezes a altura da onda (Figuras 15-18. Esta estrutura se caracteriza por ripples bidirecionais de maior comprimento de onda e amplitude. truncando ripples bidirecionais de menor comprimento de onda e amplitude (Figuras 15-22. nas areias finas do leito marinho raso. Litoral Sul do RS Litoral Norte do RS Figura 15-17: Esquema estratigráfico da ilha de barreira.

2003).geology.edu/dave/o tln10.Figura 15-18: A onda provoca nas partículas de água movimentos circulares. Figura 15-20: Exemplos de ondulações simétricas formadas em areia fina pela ação oscilatória de ondas (Paim et al.. cada vez menores com a profundidade. 92 . 2003).. http://geoserv. ou dez vezes a sua altura. Esses movimentos podem remobilizar o sedimento do fundo a até metade do comprimento da onda.htm Figura 15-19: Exemplos de ondulações simétricas formadas em areia fina pela ação oscilatória de ondas (Paim et al.wmich.

a convexidade para cima dos ripples de maior comprimento de onda e a intensa bioturbação em rochas sedimentares fanerozóicas (Harms et al..Figura 15-21: Esquema da estratificação cruzada hummocky. 1975). São características desta estrutura os truncamentos dos ripples de menor comprimento de onda. A ação de ondas de tempestade superimpõe ao sedimento do fundo marcas de comprimento de onda maior do que as provenientes de ondas normais (McBride. 93 . 2003).

www.ees. km 113.JPG 94 .Figura 15-22: Exemplo de estratificação cruzada hummocky.edu/Geol/classes/geol318/hcs. Foto do autor. Ibirama-SC. Figura 15-23: Exemplo de estratificação cruzada hummocky. BR-470. Grupo Itajaí. Vendiano da Bacia do Itajaí.nmt.

umt.Figura 15-24: Aspecto da estratificação cruzada hummocky em testemunho recuperado pela Exxon.edu/geology/faculty/hendrix/g432/g432_L8.htm 95 . Notar as lâminas de arenito fino truncadas em baixo ângulo. http://www2.