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MILTON SANTOS
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. (60 km) do litoral. Mas, como o gado era necessário tanto
.para a alimentação da população de Salvador, como para as
dos engenhos e dos operários agrícolas, uma corrente de tro­
cas se est:.abeleceu mediatamente. Mas, nos últimos anos do
século 17, o ouro foi descoberto em Minas-Gerais.
acontecimento provocou, de um lado, o deslocamellw
de grandes massas de população para o interior, onde, de inÍ­
cio, se ocuparam da exploração mineira unicamente e, de ou­
tl'O l:ado, a necessidade de abastecer essa
Isso levou à multiplicação das fa.zendas de gado, estabe­
lecimentos consagrados à criação nas zonas semi-áridas do
Estado da Bahia, como de um modo mais geral no Nordeste
brasileiro. O rio São Francisco tornou-se, então, a via de co­
municação entre o Nordeste e o centro do pais, entre a região
de produção e a região de consumo e em conseqüência suas
margens vieram a se povoar. Ainda hoje se reencontram os
antigos pousos na localização de cidades e vilas atuais. Rio
das boiadas, rio dos currais são de11'Ominações que vêm dessa
época.
Por outro lado, a descoberta do ouro no Estado da Bahia,
na.s terras altas da Chapada DiaInantina, em meados do sé­
culo 18, teve como conseqüência o comêço de povoamento
dêsse planalto.
Salvador se beneficiou, então, do trafégo de gado e do
ouro; é o início uma organização do espaço pm que Sal­
vador se afirma de um lado como praça comercial que abaste­
cia uma 'Vasta região do Estado do Piauí até Minas Gerais; e
de outro lado como pôrto de exportação não sômente para· o
açúcar e o fumó, como para o ouro.
Salvador é, assim, a metrópole de uma região muito mais
extensa .que o seu "arriere-pays" no século precedente. Essa
região era multo ma!:; vasta. que o atual Estado da Bahia.
Ela justapõe, desde então, uma área menor, valorizada pela
39 o CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
agricultura comercial (o RecôncavO') e uma outra, muito mais
vasta, valorizada pela agricultura de subsistência e pela. cria­
ção extensiva (o Sertão). Tal justaposição, desde êsse mó­
mento, vai se refletir sôbre e evalução demográfica da cidade.
As primeiras tentativas, um pouca frouxas, de organiza­
ção de um ma.is largo espaço regional são seguidas, entretanto,
da transferência da Capital do Brasil, em 1763, para o Rio de
Janeiro, lugar escolhido pelo govêrno português para centra­
lizar a saída do ouro em um só põrto, mais próximo da zona
de exploração aurífera. Nesse momento, a. exploração de ouro
se enfraquecia na Bahia e os antigos mineradores se haviam
fixado como agricultores naquelas terras altas, ou voltado
ao litoral.
A população da cidade quase não cresce entre o meio e o
fim do tSéculo 18.
O amortecimento da evolução demográfica de Salvador
está seguramente em relaçãO' com êsses dois elementos, mas
principalmente, com o fato de que ela perdera 00 lugar de pri­
(
meira cidade da colônia, em vista da transferência de impor­
(
tantes serviços e numerosos funcionários.
E' assim que termina o século 18. Salvador já cont.ava
com uma população de 40.000 habitantes, cifra que, aliás, já
havia ,sido atingida em meados do século, conforme vimos.
3 - A ORGANIZAÇAO DO ESPAÇO REGIONAL
.No inicio do século 19, o oura de Minas Gerais começa
também a se esgotar. A exploração aurífera e diamantífera do
Estado da Bahia tinha decllnado também. :tsses fatos provo­
caram uma volta ao litoral; segue--se-lhe um. renascimento
agrícola, estimulado pelo alargamento dos mercados europé'us,
r.esultante dos primeiros efeitas. da revolução industrial, que
nesse momento ganhava o continente. De outro lado, no que
(
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!
PRINCIPAIS TRABALHOS DO AUTOR:
o POVOAMENTO DA BAHIA, SUAS CAUSAS ECONÔMICAS
Salvador, Imprensa Oficial da Bahia, 1948.
OS ESTUDOS REGIONAIS E O FUTURO DA GEOGRAFIA - Sal­
vador, Imprensa Oficial da Bahia, 1953.
UBAITABA, ESTUDO DE GEOGRAFIA URBANA - Salvador, Im­
prensa Oficial da Bahia, 1954"
O PAPEL METROPOLITANO DA CIDADE DO SALVADOR - salva­
dor, 1954.
(
ZONA DO CACAU, INTRODUÇAO AO ESTUDO GEOGRAFICO, 2."
edição - São Paulo, Companhia Editôra Nacional (Coleção
(
Brasiliana). 1957.
(
ESTUDOS DE GEOGRAFIA DA BAHIA - em colaboração com J.
Tricart, Tereza Cardozo da Silva e Ana Carvalho - Salvador.
Universidade da Bahia e Livraria Progresso Editôra, 1958.
(
"LOCALIZAÇAO INDUSTRIAL EM SALVADOR", in Deraldo Jacobina
e MIlton Santos Localização Industrial. - Salvador, Edi­
( ções de Planejamento Econômico, 1958.
(
A CIDADE COMO CENTRO DE REGIAO - Salvador, Universidade
da Bahia e Livraria Progresso Editôra,. 1959.
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Prefácio
A medida que a estrutura econômica das sociedades vai
se transformando, c.om a preponderância das
flário e terciá1"io sôbre o primário, a distri'Ouição demográ­
fica modifica-se, paralelamente, no sentido do adensamento
e tias concentrações urbanas" A civilização contemporânea
é uma civilização da cidade. Países há, corno os Estaclos Uni­
onde a população rural já representa apenas 13,5% no
total dos habitantes do país. 2ste fenômeno é universal, e
não parece haver perspectivas de ser sustado, pois, embora.
existam indícios de satJuração d:D setor industrial, o terciário
cada dia mais avulta de importância, a ponto de haver quem
veja nisto a característica do mundo do futuro. E se existe
uma possibilidade de ruralização da indústria, o terciário,
etapa final, é típico da vida urbana; é a própria essência da
cultura das cidades.
evolver ac.elerado, - pois é a partir da revolução
industrial que a taxa de incremento da-uroonização se inten*
sífica fortemente, - quebrou os padrões tradicionais da. vida.
citadina.
Até então a cidade era uma criação harmônica, resultan­
te de fatôres físicos e c;ulturais confluentes; era, sobretudo, um
l ellômeno social, espontâneo, embora vinculado em geral às
necessidades econômicas de uma submetida _ÇE.
sões suaves. Desde então os centros urbanos passam a ser
úma' criação consciente, atendendo ao imperat:ivo da concen­
42
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MILTON SANTOS
na Capital; um verdadeiro parasitismo daí terra, que êles en­
caravam como uma fonte de renda e iam visitar uma vez por
ano. De outro lado, vários ciclos de sêca expulsaram do ser­
tão milhares de pessoas que, então, vieram para o litoral, upro­
veitando as facilidades de transportes. t:sses retirantes ctiri­
giam-se para Salvador na esperança de encontrar ai trabalho
e melhores condições de vidro. Mas, afinal, a maioria se em­
pregava como domésticos em casas de famílias abastadas ou
da classe média, cu então se entregavam a tôda espécie de pa­
rasitismo urbano.
Essa afluência de imigrantes vai refletir-se na paisagem
pelo alargamento do quadro urbano, que estava mais.ou me­
nos imutável desde a primeira metade do século 18. Para o
sul surge o bairro da Vitória, constituído por grandes e belos
p;::,lacetes, rodeados de jardins, residências de uma burgue­
sia enobrecida pela exploração da terra. Para o norte for­
mam-se bairros habitados clas.ae média e pobre. Essa ex­
tensão da cidade tornou-se possível pela instalação das novas
vias de comunicação e meios detransporte: em 1855 são cons­
truídos viadutos para ligar Nazaré e Barbalho, Federação e
Pedra da Marca; em 1868 a cidade já possui os primeiros trans­
portes coletivos; em 1869, novas emprêsas de transporte se '
irutalam; em 1874, inaugura-se o elevador hidráulico (Ana
Carvalho, crescimento Recente da Cidade do. Salvador, para
favorecer as comunicações da Cidade Alta com la, Cidade
Baixa, que é o centro comercial.
Os primeiros Aterros sistemáticos, eP1bora elementares,
são feitos no parto. Sôbre o espaço conquistado à baía mon­
tam as ruas Cons. Dantas, Portugal e Miguel Calmon mar­
ginadas por grandes edifícios. Na rua Miguel Calmon as
r.onstruçoo.c;. ocupam apenas um lado e sôbre o outro se en- ­
contram os cais.
O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOH.
4. AMORTECIMENTO DEMOGRAFICO E INTRODUÇAO
DOS TRANSPORTES MECANICOS
A abcHção da escravatura., quase no fim do século 19, em
· 1888, vai tflazer sérias conseqüências para atividades agn­
co,las baseadas sôbre o trabalho dos escravos. Além dis.so, a
,cultura da cana de açúcar e a indústria açucareira do Re­
côncavo faziam-se de acôrdo com métodos quase imutáveis
desde o primeiro século da colonização. Essas duas causas
são' as responsáveis pela sua decadência.
O Estado de São Paulo, grande produtor de café, cuja
cultura e comércio permitem a acumulação de grandes capi­
· tais, começa sua industrialização no i,picio do século. Durante
a primeira guerra mundial a indústria paulista conhece um
grande impulso e depois não pára de crescer.
Nesse momento, quando a economia açucareira entra em
decadência, os cacauais do sul do Estado começam a produzir
· segundo uma escala comercial. Então, o pólo da economia
t
(
· estadual e a fonte de recurso para o Tesouro se transferem
para a zona cacaueira. Entretanto, culturaJ famílial que se (
afirmava com dificuldade (ver nosso Zona do Cacau, Intrc­
·dução ao EstUdo Geográfico, 2.8. 00., Companhia Editôra Na­
, cionaa, São Paulo, 1957» a cultura do cacau não estava em
. condições de permitir uma acumulação de capitais Em favor
da cidade do Salvador, cujo parto, contudo, concentrava tôda
a -exporta.çãope cacau para o estrangeiro .
Assim, exaltamente quando o Brasil se encaminhava para
.. a industrialização, Salvador se ressentia da falta de capitais
disponíveis para continuar 08 timidos esforços feitos no do­
.. minio da indústria têxtil no fim do século anterior. A ci­
· dade continuava fiel a.o seu antigo papel de pôrto e cidade
·
Por' causa disso, ela não tardou a perder seu pôsto de se­
gunda cidMe brasileira, quanto à população, lugar que ela
9
(
MILTON SANTOS 8
(
canvertidas em ruínas e cemitérios, passem. a ser méros aglO­
(
merados de "frios cuoos entregues a bêstas menos destT'l.lido­
(
Tas que o homem".

* *
o trabalho que o Prof. Milton Samtos apresentou à Uni­
I,
versidade de Strasbourg, como tese para dO'Jltorado em
Geografia Humana -O Centro da Cidade do Salvador - e
cuja edição em português ora é lançada em conjunto peltJ
Universidade· da Bahia e Livraria Progresso Editôra, é um
belo exemplar de um novo tipo de estudos! que começa a ga­
nhar terreno entre nós, com a nova geraçoo de geógrafos.
(
Tais estudos caracterizam-se pelo abandooo da velha
(
cpncepção da Geografia como uma ciência arpenas do espacial,
(
q1J,ando ela também o é do temporal. Desta nova posição
( conceitual decorre uma outra atitude metodológica, que
encara o fato geográfico como eminentemente dindmico e
não estático. Dai ser a Geografia moderna uma ciência alta­
mente especulativa e indagaàora
l
e não UmaJ atividade de
anacrônico descritivis1fl'l). Dai a riqueza da sua contribuição
como ciência aplicada, mobilizando todo um acêrvo de fatos,
agora conhecidos na sua verdadeira significação, através de
uma amostragem sucessiva de cortes esDruturais, que funcio­
( nam como ootras tantas lâminas de laboraft6rio para um per­
feito diagrWsticp do· fisiologia e da anatomia da cidade.
(
Nesta linha é que ogeágrafobaiano conduz o seu estudo.
Não admira, por isto, que o seu-primei,'o capítulJO, introdutó­
rio, seja um retrospecto da vida da cidade do Salvador, desde
(
q'!te surgiu c,idade-fortaleza, alcandorada nos cimos das es­
( carpas centrais, cujo derredor acidentado seu fundador afei­
çoou ao modo de 16sso, ampl.iado e conjugado aos diques,
(
um século 71lJtlIis tarde, por 4stes magníficos construtores
hidráulicos que são os flamengos. Não admira ainda que vá
O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
.\.
b1.tscar na pesquisa econômica e demográfica, Os mananciais
necessários para explicar tôda ai funcj.onalidade da nossa po­
voação "grande e forte", já agora despida dOs encargos de
base militar, para asswmir o papel de centro dinâmico de tôda
Uma! enarme área, que dominava, no século XVIII, das regiões
auríferas do n:tJrte de Minas, aos longínquos sertões de pas­
toreio do Piauí.
O seu preciso condensado da história d e s t ~ quatro sé­
culos de vida da nossa Salvador, - base de vigilância e sen­
tinela do imenso litoral brasileiro, séde de administração e
elemento polarizador da vida da colônia, pôrto de exportação
de todo aquêle vasto "arrrere-pays" e mercado consumidor
da produção sertaneja ou da orla marítimcn, - é um primor
de concisão. E se dêle discordamos em detalhes, - como
quanto à verdadeira expressão ec,onômica da Bahia nos pri­
meirO's diaS' do .século XIX, por êle muito subestimada no
nosso parecer, ou em relação ao estado estacionário dos en­
genhos no curso dD mesmo sécullo, de que existem verossí­
meis testemunhas em contrário, como, por exemplo, com a
construção dos pouco estudados engen1uJs centrais, - con­
cprdamos naquilo que de mais típico se apresenta como a
característica da vida e da função da cid4de do Salvador na
economia da BahiaJ de então: o póTto.
SOmente através de uma análise des;[la espécie é possível
compreender a cidade, acompanhando seu crescimento, os
seus fatÓTes determinam.tes e condicionantes, para que se
possa prevêr o seu futuro em prop01'ções físicul'J e humana;:;,
projetando a sua expansão em fUnção dêstes.
Daqui, destas aU'als esplanadast e dos vales úmidos, par­
tiram os primeiros movimentos de e--rpansão; Salvador foi a
encruzilhada necessária dx:J açúcar, do fUmo, do ouro, dos
couros e peles, num sentido, e noutro, a dos escravos e dos
colonos livres, dos instrumentos rudimeniare8 e das tentait­
'VQ.8 de inovações redentoras, da <1I'denação ;urídica e das tra-
L
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046 MILTON SANTOS
de SalVad.or. O cacau, desde 1939, é exp.ortado s.obretudo
pelo pôrto de Ilhéus, mas c.ontinua a influir sôbre a economia
-urbana da Cidade d.o Salvad.or de duas maneiras:
1) a indústria de transf.ormaçã.o primãria faz-se princi­
palmente na capital d.o Estado, estand.o na zonru de produção
o apenas uma fábrica;
2) os negócios bancários e as .operações' de câmbi.o, a
maÍ\1r parte das .operações de crédito c.omercial e agrícola,
o 'c.ontinuam a fazer-se em Salvador e dessa f.orma a capital
do Estad.o - que nã.o é mais o pôrto d.o cacau - tem aindaJ
.o papel de capital financeira em relação a êsse produt.o. oUP.
fato ela .o é para tôda a ec.on.omia agric.ol81 do Estado. O
númer.o de pessoas ligadas a.o "c.omércio de papéis" (1.000
em 1940) sobe a 2.000 em 1950. As nOVas fortunas c.onstruí­
das a partir de 1940 são numerOS86.
progresso agríc.ola explica .o f.ortalecimento da an­
o tiga função urbana de residência doo proprietári.os rurais.
Em 1950, segundo os dados do recenseamento, 19,07% das
pr.opriedades cacaueirag não eram dirigidas pelos pr.oprioetá­
ri.os, mas por administradcTes (tais expl.orações representa­
. vam 32,50 % d3. superfície cultivada total e 35,68 % do valor
da produção). lSEO representava mais ou menos 4.000 pro­
prietários ausentes de suas fazendas, e residindo certamente
em Salvador e a .outra metade no Rio de Janeiro e nas prin­
aglomerações da própria região do cacau. Mas a.o
lad.o d.os cacauicultores há também muitos plantadores de
cana de açucar, sisal e criadores, que moram na capital.
Desde que a cultura d.o cacau se estabilizou (as zonas
. píorieiras sã.o, agora, de fraca extensão) a área de produção
perdeu seu papel de atração em. relação aos excedentes da
mão-de-obra agríCOla da região semi-árida. Então essa mão­
de-obr9, dirigiu..,se para, Salvador, que é a única cidade capaz
o de absorver, ante mal d.o que bem, êsses excedentes. N.o con­
;junto da en.ome região de influência de Salvad.or, quase não ,.
o CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR 47
há cidades médias, c.onf.orme já vimos. Apenas três têm mais
de 30.000 habitantes e nã.o são capazes, bem como as outras,
ainda menores, de reter .o gr8lnde número' de emigrantes das
(
áreª-l rurais. Entre 1940 e 1950 A cidade recebeu um excedente
dem.ográfico de 126. 792 pessoas, das quais os imigrantes, (
cêrca de 89.671, representavam 70%. Desde 1950 a Capital d.o
EStadD da Bahia aumenta, em média, de 15.000 habitantes
cada ano, dos quais pelo menos dois terços vêm do interi.or.
Alguns dados .obtidos pelo Recenseamento de 1950 trazem
o testemunh.o de outros aspectos dessa emigração de prove­
niência rural com destinação a Salvador. O grande númer.o
de pessoas que não sabiam ler, nem escrever, mais ou menos
113.000 (31 % dos maiores de 5 anos); o número de mulheres
em relação aos h.omens decresce (eram 119 por 100 homens
em 1940 e sã.o 117 por 100 em 1950); n.os grupos de idade
ativa a. pr.oporçã.o dos homens aumenta, em relação ao total
(20-29 anos: de 45% em 1940 para 45,4% em 1950; 30-39
anos: de 45% para 45,7%; 40-49 anos: de 44% para 45,8%;
50-59 anos: de 42,2 % para 43,3 %) .
Em 1950 moravam em Salvador 322.486 pess.oas com mais
de 10 anos de idade. Entretanto, apenas 47% dessa cifracon.s..
(
tituÍ!l.m a. p.opulação ativa. Isso significa que 150.247 pessoas •
as quais 37.309 (25%) são empregados ccmo d-emésti­
cos, na maior parte dos casos uma f.orma de sub-emprêg.o, pois
são admitidos c.om salários quase miseráveis, pam obterem
alimentação e alojamento. (Entre as pessoas da classe serviços;
em 1950 (44. 686) apenas 7.379 .o -faziam em estabelecimentos
oficialmente instalados. As demais eram d.omésticas).
Assim, 171.486 pessoas c.om mais de 10 anos de idade, em
1950, constituem em 1950 a população não-ativa, Úlc1ustve
aquél23J que não têm ocupação estatisticamente definida.
Dentre êsses, 25.769 são considerados de condição inativa; (,
726 "não estãD c.ompreendidos nos .outros ramos OU mal
defÍilidós" e 145.717 têm ati'i1daaesdoméSticas-e-nâ<frenti­
meradas e são esc.olares ou éstudalltes.
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Prefácio à Edição Francesa
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Bahia de Todos os Sarntos e de Todos os Poetas, Bahia,
a Afro-Brasileira, teve sem historiadores e seus sociólogos. O
professor Milton Santos quis ser o seu geógrafo, procuraltdo
(
compreender as relações complexas entre os homens e a na­
(
tureza, entre o passado e o presente. Sem abandono do rigor
(
científic,o, analisa as aparêncials para melhor compreender
as almas.
(
Com prudência, o professor Milton Santos limitou seu
estudo ao próprio Centro da Cidade do Salvador, mas sem
nunClD o isolar arbitràriamente do resto da aglomeração ur­
bana, nem de um uarrrere-pays" cuja extensão variou no de­
cur8Q dos séculos. O estudo, que brilhantemente lhe valeu o
tiítulo de Doutor da Universidade de Strasbourg, inscreveu-se
em bom lugar entre a crescente série de publicações geográ­
ficas brasileirCDB. Trabalho cientifico e universitário, o do
professor Santos não é, por- -outro lado, desprovido de valor
prático. Na geografia passa-se o mesm.o que em outras dis­
ciplinas para as quais os limites entre (11 pesquisa pura e a
pesquisa aplicada € cada vez mais convenc;,onal. E estou
certo de que Milton Santos, geógrOfjo e professor, jamais se
apreseni'4 dissOCiado do Milton Santos, cidadão de Salvador.
Eis aí um bom""lV1'º _ q ' l L e L C01J1O tal, não tem mais neces- ,
.<:idode de prefácio... :2ste se justifica inicialmente pela ami­
zade que nasceu entre nós há já muitos anos, quando, em
(
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50
MILTON SANTOS
construído sôbre os manguezais aterrados com lixo. r.a penin­
sula de Itapagipe.
O contraste não é mais nítido porque as residências dos
pequenos comerciantes, das pessoas que exercem. uma pro­
fissão liberal, agricultores médios e funcionários públicos re­
presentam uma espécie de transição entre Os palácios dos
ricos e os miseráveis casebres dos pobres. Em geral. essa elas­
se média é quase inteiramente ligada à terra, o que explica
o nível de vida de vários funcionários e de outras pessoas,
cujos ordenados seriam por si sós insuficientes para equili­
brar seu orçamento. A presença em Salvador de numerosos
agricultores representa, assim, um elemento de equilíbrio na
formação de iSua estrutura urbana.
O período mais recente da evolução urbana provocou o
crescimento de seu comércio interior, a formação de um
núcleo comercial na Liberdade, bairro pobre que atualmente
tem mais ou menos 160.000 habitantes, mas influenciou so­
bretudo o comércio grossista, ligado ao papel portuário da ci­
dade. Em conseqüência :termina-se -ai construção de uma ver­
dadeira cidade nova de tipo americano, ao lado do parto.
As linhas de transporte !Se multiplicam, a c1rcuIação é
cada vez mais intensa..
Mas a cidade vê diminuir, cada dia que se passa, sua zona
de ihfluência;--Ao;Nordeste, ao longo da via férrea quede­
manda o Estado de Sergipe, a cidade de Aracaju disputa com
Salvad:,Ü'r a maior influência. O mesmo acontece no Extremo­
Sul do Estàdo, onde cresce o papel comercia! de Vitória,
Capital do Espírito Santo. O vale de São Francisco está.
<iujeito às· influências das principais cidades de Minas Ge­
rais e de P.ernambuco. A cidade baiana de Juàzeiro, que é
a capital regional do São Francisco médio, prolongann vale
não apenas a influência de Salvadar, como a do Recife, Capi­
tal do Estado de Pernambuco.
O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
51
Essa: perda de influência regional, êsse retraimento da
área metropolitana deve-se, principalmente, ao fato de que
BaIvador foi incapaz de organizar convenientemente seu es­
paço regional e à ausência de dinamismo próprio à cidade.
Enquanto o Brasil viveu uma: fase simplesmente comercial,
a Capital do Estado da Bahia podia continuar, através uma
larga parte do pa!s, a distribuição dos produtos recebidos pelo
seu pôrto. Mas quando São Paulo, Rio de Janeiro e outras
cidades Se c-rientaram para a indústria, protegida aliás, por
barreiras alfandegárias, o papel de redistribuição tornou-se
insuficiente para guardar 8J Salvador a possibilidade de man­
ter com sucesso as antigas correntes comerciais, principal­
mente porque seus meios de transporte eram deficientes e
precisavam de ser remodelados.
Em 1954, enquanto a indústria de São. Paulo represenL::­
va prcdução de 100 de cruzeiros, empregando
440.000 operários, as cifras relativas a Salvador eram 2 bi­
lhões e 400 milhões de cruzeiros e 15.000 operários.
Como a cidade não foi capaz de Se industrializar, seu
nível de vida médio também não se eleva no rítmo desejável, e
o interior agríCOla não encontra o encorajamento de que ne­
cessita. Por isso êie se empobrece cada vez mais e sua p0­
pulação emigra para Salvador. Assim, aquêle nível de vida
médio tem tendência a baixar cada vez mais, em conseqüência
da presença de uma enorme população que não produz, e
anula os esforços daqueles que produzem. Assim, a popula­
ção urbana aumenta em percentagem alarmante. Isoo, lJO­
rém não se deve ao dinamismo próprio à cidade. mas pelo con
trário, à ausência, de dinam.i8mc> e de ação sôbre a SUa zona"
de influência.
Para irmos até o fundo das coisas, como última razão
dêsses fatos temos o velho papel, presente desde 03 inícios
da história urbana, de pôrto de exportação produtos de
uma. agricultura comercial realizada em seu "arriêre-pays",
um verdadeiro pôrto "colonial" que manobra somente gran­
(
(
(
16
(
(
MILTON SANTOS
(
recente da cidade e a expansão de suas atividades conduziram
à modificação da fisionomirtJJ.o qmtro, provocan.do o apare­
(
cimento de grandes edifícios, construídos nos espaços
(
ou substituindo velhas casas. E' a 8sse conjunto que os baia­
nos chamam "A Cidade", quando se refere'ln à parte alta
e "O Comércio", quando falam da parte baixa do centro de
Salvador. E' aí que a vida urbana e regional encontra o seu
cérebro e o seu coração.
(
gsse quadro, tão rico de sugestões e de problemas" atraiu
a nossa atenção. Tivemos o desejo de o interpretar, de de­
mcmstrar o mecanis1J7;{) de SueD elaboração, verificando a na­
tureza dos problemas e sua hierarquia.
(
, Essa tarefa - a tentativa de fa2er um retrato do centro
da Capital do Estado da Bahia - nos pareceu temerária
(
algumas v8zes. Entreta.nto, as dificuldades surgidas em meio
do caminho não nos desencorajaram; continuamos a analisar
( . com o máximo de objetividade possível os elementos que ca·
prichosamente se ctmjugaram para a elaboração de um qua­
(
dro tão complexo.
(
Não podemos esquecer as primeiros trocas de idéias com
(
nossos bons colegas e amigos da Universidade de São Paulo,
(
J. R. de Araújo Filho, Aziz Nacf.b Ab'Soiber e Antônio Rocha
Penteado e com o antigo secretário-assistente do Conselho Na­
de GeografiJJ, o saudoso profes8f.J1' José Verlssimo, dos
quais recebemos os primeiros incentiDos, para a realização de
nossas pesquisas. Em 19S6,'qua:nd'o do Congresso Internacio­
nal de GeogrGfia do Rio de JaneirO, os professdres Jean Tricart
e Michel, ROchefort, __ diretor e assistente do
Instituto de Geogrf:Lfia da UniDersidade de StrasbOurg, esti·
veram em SaltJad.or, ocasião em que fizemos um largo debate
a prop6sito do tema escolhido, cu;os limites, então, puderam
,- ser fixados por nós. e BUgesWes foram-nos ex­
tremamente preciosos e nos acompa1ÚUl.ram durante tMa a
fase dà coleta de dados.
I ;
I
O CENTRO DA ClDADJ: DO .$J\t,VADOR
Em 1957, o prof. Tricart voltou ao Brasil, para colaborar
em trabalhos de geografia aplicada, pedidos por organismos
do gov8rno brasileiro e baiano, com o objetivo de ajudar o
planejamento da região s8ca do Estado da Bahia e do Nor­
deste brasileiro. Isto n08 permitiu expor-lhe 08 resultados de
nossas pesquisas, dando-lhe a ocasião de formular certas crí­
ticas que utilizamos tanto para pesquisa de novos elemen­
tos, como para melhor elaboração de um plano para a ex­
posiç(io dos problemas em estude.
Desde que chegamos à França, em novembro de 1957,
twemos a oportunidade de ouvir os conselhos do prof688or
Pierre George, da Sorbonne, do professor Pierre Monbeig, di­
retor do Instituto de Altos Estudos da América Latina, na.
Universidade de Paris, e nODas observações do professor Ro­
clefort.
Em Strasbourg, o professor J. Tricart nos deu outr(J8
sugestões, inicialmente sdbre a apresentação de certos fatos
e seguiu de perto a elaboração do presente trabalho. O pro­
fessor Juülard sempre 008 aconselhou com seu melhor inte­
r8sse e boa-vontâde. Ajudou-nos com. 8.00 grande experi8ncia
e conselhos para a resolução de oorio'S problemas, inclusive
a correçiW do plano original. Um e outro diretores da nossa
tese, sempre estiveram à nossa disposição para uma troca de
idéias indispensáveis e foram infatigáveis nesSa tarefa. Sua
ajuda bó-névola nos foi preciosa. Devemos agradecer ao pro­
fessor E. Juillard pelo encorajamento que 8le nunca cessou
de nos testemunhar .

i
I
Devemos, também, mencionar a extrema amabüidade do
dr. Artur Ferreira, diretor da Inspetoria Regional ... _
da Bahip.., aplacando à nossa disposição Os seus
arquivo8, seguindo o desenvolvimento de nossas pesquisas e
acelerq:JU;Ü), pesS09lmente, a reali.2ação de certos inquéritos
lora da rotina da sua repartição. Queremos acrescentar uma
palavra de qratt4ão à 3enJwrita Ana lJi(u da Silva
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,: - Esta carta foi tirada do LiVl'O Guia da Exeurslo do xvm Congresso Intemadonal
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de Geografia para a Bahia, de autoria de Elza KeUer de Souza e Alfredo Porto Do­
m.ingues e representa os Indiees de aridez no Estaclo.
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INTRODUÇÃO
A ambição de estudar geogràficamente o centro de uma
grande cidade, antes mesmo da análise dos seus problemas
específicos pode conduzir a uma série de questões mais gerais
sôbre o valor geográfico de tal quadro.
Será que o centro de uma cidade, por maior que ela
seja, pode fornecer uma pais:agem capaz de justificar um es­
tudo geográfico separado? Não sera isso o equivalente a per­
guntar se o centro urbano constitui em si me.qmo uma rea­
lidade geográfica?
De fato, se a indivisibilidade da paisagem é um dos pos­
tuladosde base da geografia, o estudo da cidade, seja. como
éforma de atividade, seja como forma de organização, cons­
titui uma prova indi.scutivel de que nossa ciência a.tingiu
sua maioridade e de que podemos nos considerar como pos­
suindo um campo próprio de estudos.
A formação e o desenvolvimento da região e do organismo
:urbano'são intimamente ligados, -do mesmo modo que os düe­
rentes elementos dêste último o são no iliterior da cidade. Os
estudos de geografia urbana desmonstram-no muito clara­
mente. Isso não exclui, entretanto, o fato de que os l"lemen­
--.tos da estrutura urbana possuem, cada qual, características
próprias, -uma individualidade que nos leva a. distinguir em
uma cidade vários conjwtos, cuja arrumação gera o 'lue
se chama de estrutura urbana,correspondendo às diferentes
formas.· de utilização e organização do espaço.
(
OOUPAÇÃO 00 ESPAQO-1957
ZON/\S:
COMEIIGIAL


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25
(
MILTON SANTOS 24
(
( . A presença de grandes espaços vazios provocados pelos
aterros do pôrto, constitui também uma explicação para a
persistência de estruturas antigas na Cidade Baixa. Na Ci­
dade Alta, os regulamentos de proteção aos aspectos histá­
ricos exercem, indiretamente, um pa,pel na conservação do
quadro. Mas êstes são fatôres particulares que se acrescen­
tam a outras causas mais gerais de degradação dos velhos
bairros.
(
Enfim, fôrças de transformação e fôrças de resistência
(
entram em luta e dão como resultado seja a criação de uma
( paisag.em inteiramente nova, seja a transformação ou ada.pta­
ção da paisagem antiga, que, então, se degrada.
(
(
Isso é devido, de um lado, ao sítio escolhido para. a ins.ta­
lação da cidade, acarretando no decurso da história urbana
(
uma especialização das funções que agora é bem nítida: uma
Cidade Baixa, próxima. ao pôrto, construída pelo homem na
pro.pOrção do desenvolvimento do papel portuário e comercial
da cidade, e onde se abriga o comércio grossista e "de pa­
(
péis"; uma Cidade Alta onde vive a quase totalidade da popu­
(
lação e cujo centro dispõe de maior pa.rte do comércio de re­
( talho. Mas é a própria estrutura da vida econômica regional,
'0 contraste entre o poder criador e renóvador das atividades
ábrigadas na Cidade Baixa e a relativa fraqueza das demais
atividades sediadas na Cidade Alta, que explica essas dife­
( renças.
( E' um mecanismo de fôrças interdependentes, razão pela
qual, ao lado dos quarteirões utilizados pelo comércio e por
outras funções, devemos, também, estudar- os da Cidade Ve­
lha, onde, hoje, se comprime uma população heterogênea e
pobre. Na verdade, ambQs os aspectos constituem um verda­
(
deiro conjunto.
( Os transportes, por sua vez, se sãü uma conseqüência, Um
resultado do dinamismo urbano, adaptando-se antes mal que
\
bem às estruturas antigas, são, por outro lado, uma cauSa de
(
(
(
(
O CENTRO DA CIDADE DosALVAnOR
r
transformação não apenas da paisagem como da estrutura,
pois estimulam a implantação de novas funções nas ruas a
que servem.
E' êsse quadro complexo, resultante do encontro de fatô­
res tão diferentes, que constitui o objeto dêste estudo e que
nós experimentaremos explicar.

Não podemos compreender o centro de uma cidade ;Se­
não como um organismo protelforme, sujeito a um processo
permanente de mudança. Podem-se, entretanto, admitir
como sendo objeto dêste estudo os distritos da Sé e do Passo,
na Cidade Alta, e da Conceição da Praia e do PUar, na Ci­
dade Baixa. Com efeito, o comércio ocupa, também, os eixos
da circulação nos bairros v1z1nhos, como São Pedro, Santana,
Mares e mesmo na Vitória. Mas é naqueles quatro distritos
que predominam as características fundamentais e pensamos
não deformar a realidade quando os tomamos como ponto
de apoio.
A complexidade dos problemas presentes, a multiplici­
dade das relações entre Os diversos elementos do conjunto
. são responsáveis pela dificuldade que encontramos para ela­
boração de um plano de exposição que devia a um só tempo
não excluir nenhum dos problemas apresentadõs -ê ,()B- ar­
rumar segundo uma ordem lógica. Nossa opção pelo plano
seguido, ao qual chegamos, graças à colaboração e críticas-­
dos diretores desta tese, representa apenas uma escolha e,
por isso mesmo, não significa. a exclusão de outros caminhos
que talvez pudessem ser seguidos com um sucesso mals fácU.
li
Tal escolha, arbitrária. O estudo daf.or­
mação da' cidade e da' evolução da região, objeto do primeiro
.' capítulo, corresponde à necessidade de compreender como a
evolução da região e a formação da cidade se processaram,

58
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MILTON SANTOS
ponde à parte mais larga; êle cresceu desde o primeiro século, I
I
mas aumentou ainda nitidamente agora, pois
uma planície conquistada pelo homem sôbre o mar e próxima
ao pôrto, e onde se construiu uma verdadeira massa: de novos
edifícios.
o::
* *
Se examinarmos mais de perto a evolução da Cidade do
Salvador reconhecemos a sucessão de cinco períodos do ponto
de vista da população:
1.0 -uma fase inicial, independente da atividade regio­
nal da cidade, e em que apenas funcionam Os papéis de cen­
tro. administrativo, religioso e militar, até o final do século 16;
2.° .:...- um período de crescimento lento, até o século 18,
que reflete os primeiros esforços de valorização de uma área
em expansão;
3.° - um período de creseimento rápido, provocado pelos
progressos da agricultura nas áreas de ocupação mais antiga,
pela expansão da agricultura em outras regiões, por uma
melhor organização do espaço e por um grande êxodo rural,
provocado por novos ciclos de sêca durante o século 19.
4.°- um novo período de crescimento lento - lento na
escala brasileira - que corresponde à crise das primeiras cul­
turas comercia.is, à atração demográfica exercida pela nova
cultura industrial, o cacau, durante os 40 priméiros anos deste
século;
5.°- O períOdo atual, de crescimento novamente acele­
rado, isto é, de fortalecimento da agrícola, não ape­
nas nru zona do cacau, mas também em certas regiões do Nor­
deste, trazendo conseqüências para a vida urbana e por ou­
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PRIMEIRO CAPíTULO
FORMAÇÃO DA CIDADE E
EVOLUÇÃO DA REGIÃO
(
A cidade do Salvador, antiga Capital do Brasil, conta
(
atualmente com mais ou menos 550.000 habitantes. Cidade
(
fundada em 1549, é a Capital dO' Estado da Bahia e a mais
antiga. cidade brasileira. Foi, durante três séculos, a aglo­
meração urbana mais importante e mais populosa do Brasil,
O' seu pôrto era o principal do país. Hoje, entretanto, em
oemseqüência do deslocamentO' para o sul do eixo da E'cono­
(
mia brasileira, perdeu o pôsto que tinha antigamente: é ape­
·nas a quarta cidade do país, quanto à população, se bem
que O' períodO' atual revele um certo dinamismo.
E' uma cidade cuja paisagem é rica de contrastes, devi­
dos não só à multiplicidade dos estilos e de idade das casas,
à variedade das concepções urbanísticas presentes, ao pito­
'rescO' de sua popUlaçãO', constituíela. de gente de as
côrés miStl,lIada na.s· ruas, mas,--tam6éíii:-ao seu sitio, O'U
ainda. melhO'r, ao conjunto de sítios que ocupa: é uma cida­
(
i de de colinas, uma cidade peninsular, uma cidade de praia,

,
(
llmacldade que avança para o. mar com as pal'ailitas das
(
. "invasões" de· .andaIes, como é fre­
qüente diZer-se, pois 00 centro se divide em uma Cidade Alta
e uma Cidade Baixa.
(
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II_.....'..-.L ... _.­ ..... __ .•.• ..... _"" .,,' .....- •• , ••. ' .. .. ,[ ',;;.!!!i.: .• IQI".f,õ.iiíii. ..-..!..:-.... ......
62 MILTON SANTOS
atual Baixa dos Sapateiros) e uma segunda linha de colinas
foi colonizada. No terceiro período formam-se vários bairros
que se aproveitam da instalação das linhas de transporte cole­
tivo. A cidade se espraia para o norte e para o sul, princi­
palmente sôbre .as dorsais. Na península de Itapagipea, ocupa­
çálo é mais densa.
1940
'Q
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1950
llll!llJlJ ESTADO DA BAHIA
SALVAOOR
Durant.e o quarto período a cidade não cresce como c
havia feito no período precedente, mas os tra:balhos do pôrto
·-sãó iniciados e grandes aterros se fazem.
-;Jr
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O CENTRO DA DO SALVADOR 63
Durante o quintoperiodo, o centro se desenvolve mais
ativamente, bairros ricos são construídos, as "invasões" se
formam, os vales começam a ser ocupad'OS por construções e
as praias se valorizam com luxuosas casas de morada.
ESTADO DA BAHIA.
Distribuição da população por grupo de idades
MUNICíPIO DE SALVADOR
Recenseamento de 1920
Origem: PUblicações de Recenseamento
Grl,IIS lia Idade I
..
H.msls allberas
0-20 I
61.489 65.363
21 e mais· ·70.1f30 85.931
Total.....
I
132.128 151.294
Telal
126.861
156.561
283.422
(
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8G MILTON SANTOS
\
a sua fON.una, a despeito do sítio, o JIlelhor para os objetivos
(
iniciais, mas que se mostraria hostil desde que outras fun­
ções 'se viessem juntar à primitiva.
A colina serviu a Tomé de Souza para edificar, em 12
(
meses, a sua cidadela de casas. de sopapo, cobertas de palha,
que êle cercou de muros também de taipa. Fora das mu­
(
ralhas foram dadas grandes concessões de terras às ordens
rengiosas.
(
Nessa época, Portugal era uma espécie de balcão da Eu­
(
ropa, que já começava a tomar g6sto pelos produtos tropica.i.s:.
Os portugueses que possuíam uma técnica da cultura da
cana de açúcar, aprendida nas ilhas dos Açores, reconhe­
ceram as boas condições de 0010 e clima da região em tôrno
(
de Salvador; puseram-se, então, a praticar aí essa cultura.
(
Havia, entretanto, um os índios, que aniquila,.
ram os primeiras esforços e desencorajavam os lavradores.
Mas foram expulsos do Recôncavo, mais ou menos em 1560.
E' nesse momento que se. começa a plantar a cana de açúcar

de modo continuado, sobretudo nas pro:xim1da.des dos rios.
Os engenhos precisavam de água para fabricar o açúcar e
(
para o transportar até o parto de Salvador, donde 05 navios
(
transatlânticos de então o levavam à Europa.
No fim do século 16, a cidade contava com 8.000 habi­
tantes. Sua função portuária crescia, ao lado das funções
( pr1I:dltivasl a.dm1ni.&trativa e militar. Essa função portuá­
ria adquiria importância à proporção que a cultura da
(
se estendia, m8.s não sômente por essa razão. Salvador expor­
(
tava açúcar, mas, por outro lado, era um parto de entrada
<
de escrav.os que se mandavam buscar na Africa para traba­
1l.lA'r .na. agrlcultura. Tal comércio favoreceu uma outra cU,l­
(
tura., ao lado da da cana de açúcar, nas terras vizinhas ipl­
(
próprias aos canavta.is:foi a cultura do fumo, que ràpidamen­
( -te'sewínou o. tabA-eo era a melho.r moeda
paras compra ·de esCravQS nas costas d'Afl'ica. Uma ter.. .
o CEl\TRO DA CIDADE DO SALVADCR
37
ceira zona, próxima às precedentes, especlalizou-se na pro.­
dução de produtos alimentares indispensáveiS à. alimentação.
das regiões, que eram nitidamente monocultoras.
Salvador· apr.o'veitava a valorização da região circun­
dante, rrimeiro porque presidia às trocas, que se faziam, so­
bretudo, por via d'água, e depois porque erra. o único entre­
posto para !Co abastecimento dessa área, em relação aos pro.­
dutos que recebia de Portugal.
Nesse momento começa a se esboçar o papel que ela de­
sempenhará em tôda a sua história: o de um pôrto de expor­
tação de produtos agrícolas não consumíveis localmente, bem
como o de pôrto de importação de utilidades que é incapaz
de pr.cduzir, mas de que necessita, seja para a sua própria
população, seja para a do seu "a'l'Tiere- pays".
Então, Salvador vê juntar-se à sua primitiva função
administrativa e militar um papel de metrópole regional. Po­
deríamos dizer que nesse momento começa a ter um papel
verdadeiramente urbano. E' a Capital econômica do Recôn­
cavo.
2. INCORPORAÇãO 00 SERTÃO A ZONA DE
INFI.U1i:NCIA DE SALVADOR
Em meados do século 17, a população urbana. de 881­
vadorera de mais ou menos 10.000 habitantes. No f1m. dêsse
século era já de 20.000. No meio do século 18; contavam-se
40.000. Assim, a população urbana dobraVa de 50 em 50
anos. _.-. ­
o século 18 representa o alargamento da zona de influ­
ência da cidade. O Recôncavo era ocupado desde o século pre­
cedente e. cana de_
a criaçã!) para as terras vizinhas.. Um regulamento estabele­
cera que' a criação não se fazer a menos de 10 léguas
---.cf ......

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CAPíTULO II
AS FUNÇÕES DO CENTRO DE SALVADOR
A Cidade do Salvador aparece, em relação ao Estado da
Bahia, como uma espécie de réplica, guardadas as devidas
pr.oporções, ao que na França, por convenção, se denomina
"Paris e o deserto francês". No caso, é uma grande cabeça
sustentada por um corpo frágil. De fato, macrocefalia e po­
breza: rural são interdependentes.
Tôda a história econômica regional proporcionou a Sal­
vador uma concentração de funções e recursos, sempre e cada
vez maás forte, em relação ao resto do Estado. Em 1954, por
exemplo, seu pôrto recebeu a metade dos navios que tocam
nos portos baianos (1246 para 2490), sendo a tonelagem, sen­
sivelmente, mais elevada (3.690.000 para um total de
4.533.000). Tal desproporção só não foi mai'Or porque o pôrto
de Dhéus realiza quase tôda exportação do cacau, que, aliás,
é o mais importante produto do Estado. Tôdas as exportações
foram feitas por intermédio de Salvador, naquele mesmo
ano de 1954. Enquanto os bancos que têm sua sede no interior
do Estado possuem um capital total inferior a duzentos mi­
lhões, os da Cidade do Salvador alcançam 1.662.000.000. Em
1954 !os depósitos bancários atingiam, em Salvador, 78% e os
empréstimos 71 % para a totalidade do Estado. Esta primeira
cifra tem um valor ainda mais significativo quando é sabido
(
{
l
40 MILTON. SANTOS
\
( concerne à cana de açúcar, as conseqüências da guerra de
(
Cuba, que lÍavia desorganizado o respectivo comércio mun­
d1al,são favoráveis ao Brasil. A cana de açúcar conhecia en­
(
tão sua época áurea. Enfim, o Estado da Bahia é nesse mo­
( mento 'um grande produtor de café no Brasil. A produção de
(
algodão e a valorização das terras florestais do sul do Estado
com a: plantação de cacau tomam incremento.
(
Além disso, as estradas do gado haviam semeado peque­
nas aglomerações não apenas no nordeste do :Estado da Bahia
e do Brasil, como .sôbre as marge-ns do rio São Francisco.
~ s s e s embriões de cidade eram longínquos traços de união
entre a cidade-pôrto e um mundo rural que praticava umg, po­
licultura alimentar e vivia quase em economia fechada, so­
(
mente rompida pelo comércio de gado, cujas· estradas eram
( utilizadas tam.bém para0 abastecimento das populações das
regiões São-franciscanas e nordestinas. Assegura va-se, dêsse
. modo, a maior extensão da zona de influência de Salvador. A
cidade exportava. produtos de um grande valor comercial, cul­
l tivados nas praximidlades. Isso lhe tornava possível a orga­
I
nização de um grande espaço em que distribuía as mercado­
I(
rias recebidas de fora. Seu pôrto, muito animado, é a base
(
da importância regional da cidade.
(
Na segunda metade do século 19, o Estado da Bahia está
(
na vanguarda quanto ao desenvolvimento ferroviário do Bra­
( sil. De um lado é começada e se continua a construção da es­
trad81 de ferra em direção ao rio São Francisco, abordado em
dois pontos, as cidades de Propriá e de Jtiàzelro. A vl9. férrea
segue pràticamente o traçado das estradas tradicionais do
( . gado .) é a atual.· Viação Férrea Federal Leste Brasileiro). De
outro lado, as mais importantes portos do Recôncavq,.as .cl·
dades de Santo Amaro, Nazaré e Cachoeira, escoadouros,res­
pectivamente, das .regiõesde produção da .cana de açúcar,
café e f ll,."o, fazem construir, com seus próprios capItais. ,es­
o CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR 41
visava a urna penetração maior, seu objetivo era alcançar o
Alto Sertão onde a extração de diamantes·,ganhàra novo in­
cremento.
, Essa organização sub-reglonal do espaço se refletiu sô­
bre o desenvolvimento de cada um dos· portos marítimos. as­
sentados sôbre o limite da navegação nos riOlS e marca a pai­
sagem urbana de um modo muito característico: Os sobrados
que hoje, belos porém degradados, são a lembrança de um
rico passado.
Então o Recôncavo tem a população mais densa do pais.
Por várias vêzes, através dos seus senhores de engenho, dirige
fi politica nacional.
Mas essas capitais sub-regionais apenas fazem penetrar
em meio rural as influências da Cidade do Salvador; centra­
lizam a produção agrícola do Recôncavo e do Sertão e reen­
viam-na à Capital do Estado, donde ela é diriglda para a Eu­
ropa. Essa organização de um espaço sub-regional reforça a
dflpendência dai região defronte em relação à cidade do 8al.­
vador. A cidade encontra, assim, a oportunidade de. concen·
trar ainda· mais Qs recursos financeiros, econômicos, sociais
e políticos, concentração que vai prosseguir sempre.
1!lsse conjunto de circunstâncias favoráveis ao fortale­
cimento do papel metropolitano da Cidade do Salvador refie­
te-se sôbre a população que, nesse mesmo século, se multipltca
por cinco. Em 18':2, eram 129.000 0$ habitantes, em 1890
eram 1'14.000 e em 1900 eram 206.000, enquanto em fins d'l
século 18 havia 40.000 e em 1805 apenas 45.000.
. Tal evolução demográfica não corresponde apenas aos
efetivos indispensáv:eUtll.Q.org8lJlismo urbano para o ex:erci­
tradas de ferra de penetração para servirem às zonas que lhes
cio de suas funções: de um lado os progressos·da agricultura
são tributárias. No entanto, ,o .caminho deterro de Cachoeira encorajaram. numerosos lavradores a virem fixar resJdência
I
I
Foto 1 - Salvador. Cldad..e de 2 andares - Fotografia obtida em 1958, onde se nota o nparecimento de edifi­
c1ds em altura na Cidade-Alta. A parte da Cidade-Bai xa, que é vista no clichê, não recebeu um povoamento
de: arranha-céus e se deteriora.. Vêm-se, ainda, no ca nto esquerdo, o Elevador Lacerda e ladeiras, ligando a
Cidade-Baixa à Cidade,-:Alta. Sob a ladeira da Montsn ha, alguns arcos são ocupados com casas de residências
I e artezanatos.
' ..
I
MILTON SANTOS 44
conservara até 1890. E' então a cidade de São Paulo que ocu­
pa essa classificação. Entre 1920 e 1940 a cidade do Recife a
ultrapassa e Salvador é a quarta cidade brasileira. O cresci­
( mento demográfico entre 1900 e 1940 é quase insignifiea·n­
te, na escala brasileira do crescimento urbanO'. Conta com
(
200.000 habitantes em 1900, em 1940. O recensea­
(
mento de 1920 Ihe atribui 280.000, cüra que consideramos
exageradamente alta.
lSsse amortecimento no ritmo do crescimento demográ­
( fico está ligado, de um lado, aos farores já mencionados e, de
outro lado, a uma. mudança das cc·rrentes migratórias. As
( ,
pessoas do Nordeste eram expulsaIS pela sêca, ou por um
( ,
superpovoamento relativo, devido à alta natalidade e a uma
( eerta estabilidade da técnio3i agrícola. Dil'igiam.,se, então,
para a zona nore.sta.1 do sul, que desbravavam para fazer pl1an­
(
tações de cacau. Até 1920, a prcduçã') de 48.000 toneladas
deve corresponder a uma ocupação de ao menos 80.000 hecta­
res.; havia ainda áreas cuja produção ainda não era comercial.
Teriam sido necessárias ao menos 8.000 fami1i1i6 para desbra- .
var e manter as plantações. Entre 1920 e 1940 a produção de
cacau aumenta de quase 100.000 toneladas. lSsse 8lumento
( j
é o equivalente a 100.000 hectares, isto é, ao trabalho de
ma1s ou menQ3 16.000 familias. A zon81 ca.ca.ueira é, assim,'
um verdadeiro exut6rio que substitui a Capital do Estado
no papel de receptáculo da população nordestina exceden­
tária. SalvadOt' é assim aliviada da presença dêsse.s. exce­
dentes agríccW, econômicamente marginais. E' a ex:pl!,ca­
ção reQ.l da atenuação da curv'aI demográfica. da cidade do
Salvador nos primeiroS 40 anos do século 20 e, especialmente,
entre 1920 e 1940.
(
. Se os 'progressos da agricultura ca.caueira acarretam, por
( um lado, um amortecimento dai eVOlução demográfica da Cs.-.
pltal do Estad.a da Bahia, reforçam, por O'utro ladO'.. seu tra­
(
O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR ,5
tôd:ai a parte pela navegação maritima, com a construção de
grandes navios, obrigaram à remodelação dó parto, que c0­
meçou em 1913, mas terminou sõmente depois de 15 anos.
Envrmes aterros se fizeram, para permitir a construção de
moderno cais, consentindo aos grandes na,vioso acostamento.
A revolução dos mel-os de transporte, após a chegada do auto­
móvel em 1901, a instalação do bonde elétrico em 1914, c0­
mandam as modificações do quadra e o crescimento da ci­
dade. Para corresponder às novas necessidades da circulação,
várias ruas :tiveram de ser alargadas. Pôde-se, então, cons­
truirnovos edifícios, nas .áreas em que se situavam os que
então foram demolidos. Aparecem, tlmidamente, os primeiros
arranha...céus, sôbre os aterros de. pôrto, na Cidade Baixa, cons­
trufd'OS por bancos e· grandes emprêsas comerciais e, na Ci.
dade Alta, ao longo das mais importantes vias de circulação,
com o objetivo de abrigar serviços públicos, hotéis, jornais,
etc ..
O comércio interior :também se desenvolve nesBé período,
colonizando a rua Ch1Íe e a avenida Sete de Setembro (São
Pedro), onde se encontra. parte. do comérciO' de luxo, a rua
Dr. J. J. Seabra (Baixa. dos Sapateiros) , com um comércio
retalhista pobre, e a calçada., cujo comércio está ligado aO'
mesmo tempo à estaçãcr ferroviária e ao bamo de ltapagipe,
que em 1940 eontava 44.000 habitantes.
5. -O CRESCIMENTO'RECENTE DA CmADE
Depois de 1.940 a cultura doca.ca.u estab.tl.iza-se.e 08 pre­
ç:o..s intemaclon.ais elevam-se considemveImente. Outras cul­
turas industriais são introduzidas ou est1mUJ.1Idas na região·
do Nordeste da Bahia, cujas .copdições naturais são favom­
veis.:,o sisal,& mamona, a carDa.úba ,e o"" ouricurL Um au­
mento de preços favorece o fumo. A extr8iÇão da plaçava.at1va­
d1c1onal papel de pôrto e praça comercl.a1.0 grande aumento
\ se sôbre o litoral. Todos pelo pôrtC
de . tonelagem a e;xpGrtar, bem COJru) osprQgl'essos obtidos em
l,
l,
I
(
(
72
MILTON SANTOS
aUmentam o comércio da cidade e do Estado, são transpor­
tados, geralmente, pela rodovia. Isto é conseqüência da Irre­
gularidade dos transporte::- m.aritimõs',' ·devida a um número
insuficiente de navios para fazer a cabotagem. Por outro lado,
a desproporção' entre exportação e importação encareCe as des­
pesas de transporte e subordina a entrada dos navios ao frete
possível.
MOYIMENTO DO PORTO DE SALVADOR (1956)
COMÉRCIO EXTERIOR

MERCADORIAS I '121,( (I;r$ 1.000)
Ton.
Exportação:
1.° Fumo em fôlha ................ , 22.171 614.480
553.185 2.oDerivados do cacau ............. 1 15.926
3.° Cacau em amêndoas .......... .
4.0 Café' em grão ................ ..
5.
o
Fibra de sisal .........•.........
6.° Mamona em bagos ............ .
7.0 Piaçava ....................... .
8.0 óleo de mamona •..............
9.0 Cêra de carnaúba .. .' .......... .
10.0 Cêra de Hcuri ................. .
Importação:
1.0 Trigo em grão ................ .
15.317
5.879
19.315
23.767
2.506
3.155
731
242
109.029
92.377 I
350.970
205.514
162.967
138.872
63.926
51.798
47.989
19.164
5.408.271
232.660
-2.
0
Bacalhau •..........•.... ,'.,; ' .... 5.277 164.552
3.0 Equipamento para perfuração de
poços .......... ,.. , .; ......... '" 1.152 83.833
4.° Querosene ..... , .............. . 39.089 . 79.907
5.0 Arame farpado ...........•..... 5.661 77.412
6.° Gazol1na de aviação .......•... 16.838 48.160
7.0 óleo p/motor de explosão ..... . '39.743 46.731
- 8.° Tubos, cabos de aço etc. . ..... . 3.556 32.072
-9.0 Navios e barcos a motor ....... 1­
'lO'
..u ...
nA 4110
-,,'2, .. ".1.0
10.0 Leite em Pó .............. ; ....1 883 24.087
73 o CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
o pôrto exporta os produtos da economia regional e im­
(
porta prcdutos alimentares e manufaturados; as necessida­
des da vida quotidiana acarretam uma outra função ao pôrto,
a de os produtos de subsistência. O Recôncavo, ainda
hOje, é o grande fornecedor dêsses produtos, para uma cidade
pràticamente sem perüeria rural imediata. O transporte
das mercadorias faz·se p:::·r "saveiros", barcos a vela, cuja
capacidade varü entre 12 e 15?toneladas. São, mais ou me­
nos, 5.500, e não s6 ligam a Capital do Estado ao Recôncavo
como a outros portos do litoral atlântice, do Estado.
Esta dupla função acarreta uma também dupla organi.
zação do espaço portuário. Ao lado da extensão de cais, cons­
truída especialmente para os grandes navios, há as "rampas"
onde podem abordar os saveiros. São. duaE: a "Rampa do
Mercado", logo; ao lado da Praça Cairu e a da Agu? de 1\1:'2'­
ninas, no final da Av. Frederico Pontes, ambas, muit'O pito­
rescas e ricas de côr local. Recebem um 3. multiplicidade de
produtos agrícolas: farinha, frutas, legumes. Assim como o
"grande pôrto" aC2.rretou a instalaçã::, do grande comércio
nas proximidades, o outro provocou o aparecimento de feiras
ao ar livre, espécie da "feira onde vêm se abastecer
os comerciantes de outras feiras, 03 pr:->pr:etários de arm:­
zém:, vendas e b:3.rracas, os restaumntés c ilOtéis, vended:­
res ambulantes e donas de casa previ-dente,.
Cada uma dessas atividades portuárias criou, direta ou
indiretamente, uma pa,isagem própria. De um lado, a fun·
çã.o de entreposto e a de direção tendem a separe.r-se, fato
que resulta na presença de grandes armazéns e depósitos
do pôr to, além dos grandes edifí.cios modernos servindo aos
escritórios. O "pequeno põrto", por sua vez, provoca o apa­
1
recimento de mercados; mas, como êles se tornaram, desde
há muito, insuficientes, observa-se o surgimento de barra.cas
de madeira, visivelmente provisórias, e constituem ver­
dadeiras ruas.
ti
49
(
(
4a MíLTON SANTOS
(
(
E' dificll admitir que a Cidade do Salvador abrigasse
( 25.769 aposentados: tad cifra àe'l.re. compreender aquêles prO'­
prtetários agricolas que escolheram a Capital como sua resi­
(
dência. .
(
As 145.717 pessoas do grupo "atividades domésticas não
(
remuneradas e escolares" merecem um exame mais demorado.
A população de Salvador compreende 42 .127 meninos
de 10 a 14 anos. A taxa de escolaridade para os meninos de
7 a 14 anos é de 61 % no ensino primário. Podemos, então,
admitir que 24.200 crianças freqüentavam a escola de pri­
meiras letras entre os 7 e os 14 anos. Mais ou menos 20.000
vão à escola secundária e à universldáde. As pessoas casadas
são 89.000, o que deve corresponder a um máximo de 45.000
espôsas. Admitindo que haja 5.000 casais ilegítimos, teremos
Ulll. totai dé 99.000 pessoas. Há, a'SSim, uma diferença de
, 50.000 péssoas e entre estas devemos incluir:
1.0) maridos eem profissão estatisticamente definidas;
(
2.
0
) meninos de mais'de 10 anos que não têm
{
nem vão à escola;
( ,
3.0) os subempregados (engraxates, enceradores, lava­
costureiras, camelôs, etc.); ,
4.0) um verdadeiro exército de tios, tias, sobrinhos, sobri­
(
nhas, pr1mos e primas, afilhados e até mesmo amigos e cama­
( radaS'qúc:fvêm-dO Últerior e pesam sôbre os orçamentos,domés­
ticos já deficitários, isto é, agravam a pobreza e as condições
(
devida já 'difíceis das camadas menqs favorecidas da popula­
< ção.
(
., ,Todos êsses fatos podem, explicar que a média per-capita
(
, . compras no comércio de retalho tivesse sido de apenas
Em 1952, umaenquete
são Nacional do Bem.Éstar 8()C1aI estabeleceu qUe os recur­
o CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
quanto as despesas subiam a 274 cruzeiros em média. Se obser­
varmos que êsses algarismos são médias, é fácil chegar a con­
clu...C:Óes a propósito das condições de vida de uma grande parte
da população.
A multidão de rurais que invadiu a cidade não encontra
emprêgo porque o setor secundário é reduzido e o terciário
quase inelástic:;'. E' por isso que se exerce uma enorme pres­
são sôbre os órgãos do govêrno, de que resulta a admissão
de um número de funcionários sempre crescente, várias vêzes
superior às necessidades reais da administração. O govêrno
do Estado queixa-Se constantemente de que o funcionalismo
consome sozinho mais de 60% do orçamento estadual. A mes­
ma lamentação se Ouve na Prefeitura. Mas nem um nerr.
outro, deixa de nomear novos empregados.
Os funcionários (12.735 em 1950), (*) a maioria dos
profiFsionais liberais e ocupados em atividades sociais (11.637),
os pequenos e médios comerciantes, os agricultores que têm
uma renda média, constituem as classes médias. Acumulam,
muitas vêzes, as rendas agríCOlas com os ordenados do govêr­
no ou os proventos das profissões liberais.
Essa composição social da população vai se refletir direta­
ménte sôbre a organização do espaço urbano. Os banqueiros,
os grandes exportadores e importadores, as pessoaS' enrique­
cidas pelo comércio ou pela indústria, os agricultores mais
. abastados, os especuladc'l'es imobiliários fazem constru!t' pa_
lacetes ou belos e luxuosos imóveis de apartamentos nos bair­
ros ricos da Graça e da Barra ou ocupam a fachada marítima
com_ construções modernas em estilO' funcional. Os marginais
os espaços vazios sem mesmo indagar quem é o
proprietário e aí constroem verdadeiros "bidonviUes", bairros
inumanos onde Vivem seja como fôr; êsses bairros são cha­
mados "invasões"; o mais impressionante de toci.os. é,aquêle _
sos médio.s por pessoa atingiani 240 cruzeiros mensais en­
(.) Em 1958, sàmente a Prefeitura COnta COm 8.000.
(
I
(
l
76 77
r
MILTON SANTOS
exportação e importação; b) um comércio varejista, subdivi­
dido em varejo rico e pobre; c) um comércio de alimentação
e d) um comércio de rua.
'li) O comércio grossi8ta é essencialmente ligado ao põrto,
fato que explica, na região, sua importância em relação ao
resto do Estado e, na aglomeração mesma, sua localização na
Cidade Baixa.
A Capital concentra quase todo o comércio grossista do
Estado. Em 1950, enquanto o comércio varejista represen­
tava 45,60% do. total do Estado, o comércio grossista repre­
sentava 83,88%.
Moviment},a comercial em 1950 (milhões de cruzeiros)
Cidade do Salvador Estado da Bahia
Comércio grcssista I 3.300 3.900
Comércio varejista I 1.100 2.500
o comércio grassista tem interêsse de permanecer bem
próximo aos bancos, estando êstes, igualmente, atraídos pelo
pôrto. Exercem uma espécie de atração recíproca uns sôbre
os outros. Mas, não se pode afirmar que o pôrto seja um fator
exclusivo para a concentração, em Salvador e no interior da
j
aglomeração, do comérCio grossista na Cidade Baixa. Desde
1940, a maior parte da .produç:.ão de cacau, que é o mais impor­
tante produto de exportação do Estado, não"mais se escoa pelo
pôrto de Salvador e sim pelo de Dhéus, sôbre o litoral da pró­
pria zona de produção. As grandes casas exportadoras, as co­
operativas de exportação e as organizações governamentais,
como o Instituto de Oacau da Bahia, contiIÍuam a ter sede em
Salvador. Isto se deve ao fato de exigir a expor.tação para o
O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOlt
estrangeiro uma imensa burocracia, concentrada exclusiva­
mente :Q,º,ma carteira especializada do Banco do Brasil, banco
oficial que dá 'O preço do dia e regula o pagamento de letras
de câmbio e dos prêmios que o Estado confere aos produtorl.:'s.
E' fácil explicar , então, porque as casas de exportação, que
gozam de uma função -intermediária entre os agricultores e o
ClDADE ALTA
L.E('?E'NDA
8 (,Ol"\ER(!"O GI'tOS'!lO
RETA.L:rt'H'$.TA
.?!....:. 'Iot K'II( ,... .. "."" ..... ""If V. ....
co....s.'&
... """ v.. " .... ,.,. ..,.;,......;""",
banco oficial, têm interêsse em manter tais operações à dis­
tância da zona de produção. Resistiram à instalação, em
Ilhéus, de um outro escritório especializado, capaz de fazer
as mesmas operações que em Salvador. escritório foi,
poréD:i.;fü.ridado, há dois anúS, na agência local do Baneõ do
BrasU em Ilhéus, instalação que fortalece a função da cidade
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/
MILTON SANTOS
52
des somas de dinheiro, do mesmo modo qUe manipula gran­
des tonelagens de mercadorias, isto é, seln as reter.
Essa função. de pôrto comanda as diferentes fases de
sua evolução como metrópole, de acôrdo eom os diferentes pro­
dutos de que a cidade foi e continua a ser. o entreposto.
Além disso, a função portuária explica a "criação" de um
sitio, adaptado a ela própria. 1!:sse sitio artUicial, como os
demais elementos naturais do sitio urban'O, ocupados à
proporção e segundo as condições da evolução urbana, dão
à cidade um dos elementos de sua originalidade.
6. A OCUPAÇAO ATUAL DO smo.
A Cidade do Salvador ocupa agora! um conjunto de sí­
tios, onde podemos distinguir seis elementos:
1.0) as praias do litoral atlântico;
2.0) o escarpa de falha, sôbre a bala de Tôdos os San­
.tos, com 60 a 80 metros de desnivel entre a Cidade Alta e
a Cidade Baixa, exposta e poUCoi erodida, falésia que se pro­
longa na direção SSE-NNW sôbre mais ou menos 20 quUô­
metros;
3.0) o rebordo e a plataforma do tôpo do escarpamento,
na Cidade Alta;
4.0) os morros-, colinas e vales do seu reverso, formando
um verdadeiro taboleiro residual, colmatando granitos e
"gneiss";
5.0) a planície construída pelo homem, estreita e plana,
qUe se estende ao pé do escarpamento;
6.0 a península de ltapagipe forma.da. de terrenos cre­
táceos afogadOS pelo mar durante o quaternário e apresen­
tando um relêvo de colinas médias (Aziz Ab'Saber - A Ci-
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78
MILTON SANTOS
'de Ilhéus como pôrto de exportação; apesar disso' a maior parte
das transações ainda se faZ em Salvador.
Esta atividade de "papéis" é muitas vêze.s confundida
com 'R própria atividade bancária. Vãrias firmas exportadoras
,têm seu próprio setor bancário, que goza das mesmas vanta­
'gens que os bá.ncos. Isto aumenta sua influência sôbre o
mundo rural, que lhes confia seus produtos e fica cada vez
mais d(;;>endente dos exportadores. Com êsse setor bancário
. BAIXA .. v .... ,,"'l.
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as casas comerciais podem obter do banco oficial certos privi­
légios, obtidos, a.J.1ás, pelos bancos particulares, como por
exemplo; o· redesconto' das notas <ie crédito. AssiIn, paltici:'
pam; do comércio da moeda, que emprestam
,aos agricultores com uma usura comercial, ou seja, 12% ao
AnO. Dessa maneira as casas exportadoras se cOlocam numa
:piosiÇão ainda mais vantajosa em relação aos clientes do in­
.. do poiS podem lheS adiantar dinheiro para os
.:tri1bJllhOS 8.grlcolas,praticando, simultâneamente, uma usura,

O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR '19
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PRIMEIRO CAPíTULO
FORMAÇÃO DA CIDADE E
EVOLUÇÃO DA REGIÃO
A cidade do Salvador, antiga Capital do Brasil,· conta
atualmente com mais ou menos 550.000 habitantes. Cidade
fundada em 1549, é a Capital dO' Estado da Bahia e a mais
antiga, cidade brasileira. Foi, durante três .séculos, a aglo­
meração urbana mais importante e mais populosa do Brasil,
o seu pôrto era o principal do pais. Hoje, entretanto, em
ccoDseqüência do deslocamentO' para o sul dO' eixO' da E'cono­
mia brasileira, perdeu o pôsto que tinha antigamente: é ape­
nas a quarta cidade dO' país, quanto à população, se bem
qUe o período atual revele um certo dinamismo.
E' uma cidade cuja paisagem é rica de contrastes, devi­
dos não só à multiplicid'8de dos estilos e de idade das casas,
à variedade das concepções urbanísticas presentes, ao pito­
resco de sua população, constituída, de gente de todaJg. as
côréS místl,lrada nas" -áo seu sítio, ou
aind-!l, melhor, ao conjunto de sítios que ocupa: é uma cida­
de de colinas, uma cidade peninsular, uma cidade de praia,

• uma cidade que avança para o mar com as palatitas das
de Itapngipe; Cidé:fdtfdé'dõis andares, êomo é fre­
qüente dizer-se, pois O' centro se divide em uma Cidade Alta
e uma Cidade Baixa.
,
J
-
57
(
(
MILTON SANTOS 56
dade do Salvador - "Boletim Paulista de Geografia" n. o 1J.,
julho 1952, p. 62).
Dêsses elementos do sitio, () quinto é quase inteiramen­
te artificial, pois foi o ho.mem que pouco a pouco construiu
a planície muito estreita que acompanhava a base da es­
carpa. Também são artific1aJ.s, porque ganhos sôbre o mar,
mads particularmente sôbre os mangues, os terrenos hoje
ocupados com as "invasões" da península de Itapagipe, ca­
sas de gente pobre construídas 1niclalmente à moda das pa­
lafitas e depois sôbre terrenos "fabricados" co:mdepósitoB
de lixo.
Entretanto, os próprios terrenos em que Tomé de Souza
construiu . as primeiras casas da cidade, bem no coração do
centro, sôbre a esplanada do tapa da escarpa, sofreram ni­
velamentos. l!: onde hoje se encontram a Praça Municipal
e a rua da Misericórdia.
:Qsse espaço urbano não está ocupado de maneira ho­
mogênea. Nem mesmo é inteiramente ocupado. QuandO' se '<
(
chega a Salvador de aVião, divisa-se uma massa considerá­
( vel de construções bordando a península do lado da baía,
( uma estreita faixa de casas do. lado do mar e filas de habi­
tações seguindO' os antigos caminhos rurais que ligam QS'
dois litorais.
Há 20 anos, de um modo geraI, as emstruções limita­
(
vam,« à pla4aforma do tôpo da escarpa, sob uma ,forma li­
(
neate preferiam; as dorsaisd8Sçol1ijãS;_Õ-.pOvoamento irra­
diava ao longo dOS antip ca.min.hos e das linhas de trans­
porte coletivos, mais t:,ecetltes. De3prezava, dêste modo, os
vales onde, pertinho do centro, pulul8lVam casas de gente po­
bre e hortas; estas representavam uma solução cômoda, em­
bora precária e insuficiente, do problema do abastecimento
em frutas e legumes de- uma cidade pràtJcamente .sem subúr­
bio rural imediato. O'primeiro vale a ser 'ocupado foi a Baixa
dos Sapateiros, ai por 1835.
._ - - - ~ · - - ~ i - " ----",..-"
I
O CEN'IRO DA CIDADE DO SALVADOR
Nestes últimos anos, o crescimento da população e as
novas técnicas de construção e de urbanismo valorizaram os
terrenos em declives. As obra.s públicas multiplicam o valor
dos terrenos nos vaIes, que começam a ser colonizados, prin­
cipalmente por uma população abastada que expulsa, pouco
a pouco, os primeiros ocupantes, isto é, os pobres e as hortas.
De outro lado,a: chegada de milhares e milhares de novos
emigrantes não somente provocou a extensão das superfícies
construídas, como .soluções heróicas, com0 à que jâ mencio­
namos, na península de ltapagipe, na pequena enseada dos
Tainheiros. Vários milhares de habitações foram construídas
ali, nestes últimos anos, para abrigar pessoas pobres. Mas
são hoje substituídas por gente da classe média, embora ISO­
mente nas ruas que se beneficiaram com obras públicas e fa­
cUidades de transporte. As praias atlânticas também se po­
voaram recentemente. Os terrenos foram supervalorizados
pela construção de uma auto-estrada: ligando o aeroporto de
Ipitanga ao centro da cidade e pela especulação que a isso se
seguiu. E' uma zona de residência rica.
Entre essas construções recentes: que beiram a praia e a
massa das que rodeiam o antigo nódulo urbano, restam enor­
mes vazios, em tôdas as direções, de quando em quando inter­
rompidos pelas casas que margelam os caminhoSl, e pelos jar­
dins e hortas nos vales.
A área mais densamente ocupada da Cidade de Salvador
corresponde grosso modo ao centro, parte mais ã.ntiga da ci­
dade, cujo sitio é o que apresenta maiores dificuldades de uti­
~
lização. 1llsse fato naturalmente surpreende o viajante mal
prevenido da história urbana, pt;ds é causa de vários dos mais
graves problemas que trazem conseqüências para tôda a ci­
dade.
E' uma faixa. de dois quilômetros de largura máxima, de
mais ou menos seis qu1i&metros de extensão, acompanhando
. a bata de Todos os santos. O centro da aglomeração corres-
J
I
• •
24 MILTON SANTOS O CENTRO DA CIDADE DO SALVMJOR 25
r
A presença de grandes espaços vazios provocados pelos
aterros do pôrto, constitui também uma explicação para a
persistência de estrutur86 antigas na Cidade Baixa. Na Ci­
dade Alta, os regulamentos de proteção aos aspectos hist6­
ricos exercem, indiretamente, um papeI na conservação do
quadro. Mas êstes são fatôres particulares que se acrescen­
tam a outras causas mais gerais de degradação dos velhos
bairros.
Enfim, fôrças de transformação e fôrças de resistência
entram em luta e dão como resultado seja a criação de uma
paisag.em inteiramente nova, seja a transformação ou adapta­
ção da paisagem antiga, que, então, se degrada.
Isso é devido, de um lado, ao sitio escolhido para a insta­
lação da cidade, acarretando no decurso da história urbana
uma especialização das funções que agora é bem nítida.: uma
Cidade Baixa, próxima ao pôrto, construída pelo homem na
propOrção do desenvolvimento do papel portuário e comercial
da cidade, e onde se abriga. o comércio grossista e "de pa­
péis"; uma Cidade Alta onde vive a quase totalidade da popu­
lação e cujo centro dispõe de maior parte do comércio de re­
talho. Mas é a própria estrutura da vida. econômica regional,
. o contraste entre o poder criador e renóvador das atividades
ábrigadas na Cidade Baixa e a relativa fraqueza das demais
atividades sediadas na Cidade Alta, que explica essas dife­
renças.
E' um mecanismo de fôrças interdependentes, razão pela
qual, ao lado dos quarteirões utllizados pela comércio e por
outras funções, deVemos, também, estucJ.ar. os da Cidade Ve­
lha, onde, hoje, se comprime uma população heterogênea e
pobre. Na verdade, ambQs os aspectos constituem um verda­
deiro conjunto. .
transformação não apenas da paisagem como da estrutura,
pois· estimUlam a implantação de novas funções nas ruas a
q u ~ servem.
E' êsse quadro complexo, resultante do encontro de fatô­
res tão diferentes, que constitui o objeto dêste estudo e que
nós experimentaremos explicar.

Não podemos compreender o centro de uma cidade De­
não como um organismo proteiforme, sujeito a um processo
permanente de mudança. Podem-se, entretanto, admitir
como sendo objeto dêste estudo os distritos da Sé e do Passo,
na Cidade Alta, e da Conceição da Praia e do Pilar, na Ci­
dade Baixa. Com efeito, o comércio ocupa, também, os eixos
da circulação nos bairros vizinh<lS, como São Pedro, Santana,
Mares e mesmo na Vitória. Mas é naqueles quatro distritos
que predominam as características fundamentais e pensamos
não deformar a realidade quando os tomamos como ponto
de apoio.
A complexidade dos problemas presentes, a multiplici­
dade das relações entre OS diversos elementos do conjunto
. são responsáveis pela dificuldade que encontramos para ela­
boração de um plano de exposição que devia. a um só tempo
não excluir nenhum dos problemas apresen.tados e 06- ar­
rumar segundo uma ordem lógica. Nossa opção pelo plano
seguldo, ao qual chegamos, graças à colaboração e críticas­
dos diretores desta tese, representa apena.s uma escolha e,
por isso mesmo, não significa. a exclusão de outros caminhos
que talvez pudessem ser seguidos com um sucesso mais fácil.
(1
Tal escolha, entretanto, ~ ã o foi arbitrária. O estudo da l..or­
Os transportes, por sua vez, se são uma conseqüência, um
resultado do dinamismo urbano, adaptando-se antes mal que
bem às estruturas antigas, são, por outro lado, uma cauSa de
inação. da cidrute e da' evolução da região, objeto do primeiro
.' capítulo, corresponde à necessidade de compreender como a
evolução da região e a formação da cidade se processaram,
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tro lado o aumento da população de sUbempregadOs e desem­
pregadcs, resultantes de um êxodo rural sempre crescente.
O crescimento da população urbana durante os séculos
(
1'7 e 18 merece uma reflexão. Será justo cons1derá-Io como
'1fI" O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
lento, . levando em conta os progressos demográ.ficos doS' sé.­
culos postelÍores? Na realidade não podemos ãriã..i.isar ês.se
crescimento, a não ser â. luz de vários fatOres intervindo em
... um dado momento e em um dado lugar .
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MUNICIPIO 00 SALVADOR
HOMENS MULHERES
_1940
ª19S0
Essa evolução demográfica corresponde à evolução na
t
do sitio pelo organismo urbano. Duratlte o primeiro
penado, a c.idade se·Umitou<à,plataforma, ao t6pa do escar­
yamento. No segundo, estendeu--se sôbre as ccUnasdos re­
bordDIS da esplanada, atravessou o _vale do r1o- das Tripas {a
1
\
)
INTRODUÇÃO
A ambição de estudar geogràficamente o centro d ~ uma
grande cidade, antes mesmo da análise dos seus problemas
específicos pode conduzir a uma série de questões mais gerais
sôbre o valor geográfico de tal quadro.
Será que o centro de uma cidade, por maior que ela
seja, pode fornecer uma paisagem capaz de justificar um es­
tudo geográfico separado? Não será isso o equivalente a per­
guntar se o centro urbano constitui em si meRmo uma rea­
lidade geográfica ?
De fato, ~ a indivisibilidade da paisagem é um dos pos­
tulados de base da geografia, o estudo da cidade, sei a. como
'forma de atividade, seja como forma de organização, cons­
titui uma prova ind.Lscutível de que nossa ciência atingiu
sua maioridade e de que podemos nos considerar como pos­
suindo um campo próprio de estudos.
A formação e odesenvolvimento da região e do organismo
.urbano·são intimamente ligados, domesm() modo que os dife­
rentes elementos dêste último o são no iriterior da cidade. Os
estudos de geografia urbana desmonstram-no muito clara­
mente. Isso não exclui, entretanto, o fato de que os l"lemen­
-tos da estrutura urbana possuem, cada qual, características
próprias, uma tndividuaHdade que nos leva a. distinguir em
uma cidade vários conjW1tos, cuja arrumação gera o 'lue
se chama de estrutura urbana, cottespondendv às diferentes
formas de utilização e organização do espaço.
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o CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
MILTON SANTOS 64

DE SALVADOR
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Indústrias de transformação ......... . 31.435
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Comércio de mercadorias ............ . 22.581
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Prestação de serviços ................. . 44.686 UJ
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( N mento ............................. . 15.507 U
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Profissões liberais .................... . 1.484 U ! ; Cb C') .... I
(
Atividades sociais .................... .. 10.153
2 .1
e ... Administração Pública, legislativo Jus­
. tiça ............................... . 6.200
li) _ li) Q Defesa Nacional e Pública ............ . 6.535
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Atividades domésticas não remunera­
2
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Atividades não compreendidas nos ou­ ,1

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clarados .......................... . 726
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16
MILTON SANTOS
recente da cidade e a expansão de suas atividades conduziram
à modificação da fisionom:la. ..do provocando o apare­
cimento de grandes ediffcios, construídos nos espaços vazios,
Olt substituindo velhas casas. E' a êsse conjunto que os baía­
nos chamam "A CidadAt', quando se refere'ln à parte alta
e "O Comércio"I quando falam da parte baixa do centro de
Salvador. E' aí que a vida urbana e regional encontra o seu
cérebro e o seu coração.
'2sse quadro, tão rico de sugestões e de problemas" atraiu
a nossa atenção. Tivemos o desejo de o interpretar, de de­
monstrar o mecanismo de 8'l/.,a elaboração, verificando a na­
tureza dos prdblemas e sua hierarquia!.
Essa tarefa - a tentativa de fazer um retrato do centro
da Capital do Estado da Bahia - nos pareceu temerária
algurn.a.s véus. Entretanto, as dificuldades surgfda8 em meio
do caminho não nos desencorajaram; continuamos a analisar
com o máximo de objetividade possível os elementos que ca­
prichosamente se oonjugaram para a elaboração de um qua­
dro tão complexo.
Não podemos esquecer as primeiras trocas de idéias com
nossos bons colegas e amigos da Universidade de São Paulo,
1.. R. de Araújo Filho, Aziz Nacj,b Ab'Saber e Antônio Rocha
Penteado e com o antigo secretáfiO...assistente do Conselho Na­
c,ional de GeografiCIJ, o saudoso profes801' 10sé Veríssimo, dos
quais recebemos os primeiros incentivos, para a realização de
nossas pesquisas .Em J.956,qua1tdo do Congresso Internacio­
nal de Geografia do Rio de lanltiro, os professôres Jean Trlcart
e Michel. diretor e assistente do
Instituto de GeogrCLfia da Universidade de StrasbOurg, esti­
veram em Salvador, ocarião em que fizemos um largo debate
. a propósito do tema escolhido, cujos limites, então, puderam
-- ser fixados por e wgestóes foram-nos ex­
tremamente preciosos e 1W8 acompanharam durante tMa a
fase dá coleta de dados.
O CENTRO DA PO .SAf.,VADOR l7
Em 1957, o prof. voltou ao Brasil, para colaborar
em trabalhos de geografia aplicada, pedidos por organismos
do govêrno brasileiro e baiano, com o objetivo de ajuãar o
planejamento da região séca do Estado da Bahia e elo Nor­
deste brasileiro. Isto noS' permitiu expor-lhe os resultados de
nossas pesquisas, dando-lhe a ocasião de formular certas cri­
ticas que utilizamos tanto para pe3quisa de nOVOs elemen­
tos, como para melhor elaboração de um plano para a ex­
posição dos problemas em estudo.
Desde que chegamos à França, em novembro de 1957,
ttvemos a oportunidade de ouvir os conselhos do professor
Pierre George, da Sorbonne, do professor Pierre Monbeig, di­
retor do Instituto de Altos Estudos da América Latina, na
Universidade de Paris, e novas observações do professor Ro.­
clefart.
Em Strasbourg, o professor J. Tricart nos deu outr(L8
sugestões, inicialmente sôbre a apresentação de certos fatos
e seguiu de perto a elaÕC1ração do presente trabalho. O pro­
fessor JuUlard sempre nos aconselhou com seu melhor inte­
rêsse e boa-vontáde. Ajudou-nos com 8.u.a grande experi8ncia
e conselhos para a resolução de várias problern.a.s, inclusive
a correçoo do plano original. Um e outro diretores da nossa
tese, sempre estiveram à nossa disposição para uma trooa de
idéias indispensáveis e foram infatigáveis nessa tarefa. Sua
ajuda benévola nos foi preciosa. Devemos agradecer ao pro­
fessor E. Juillard pelo encorajamento que éle nunca cessou
t de nos testemunhar.
I
Devemos, também, mencionar a extrema amabüidade do
clr. Artur Ferreira, diretor da Inspetoria Regional de
tica1!{u7J,icipal da Bahia, colocando à nossa disposição Os seus
arquivos, seguindo () desenvolvimento de nossas pesquisas e
aceleran#D, a realização de certos inquéritos
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fO'ra da rotina da sua repartição. Queremos acrescentar uma
palavra de gratiti40 à :senhorita Ana l.iitu Silva
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MILTON SANTOS 68
.... que Os demais 29 % de empréstimos feitos 'fora da cidade ser­
viram à principal atividade regional, que é a agricultura, in­
cluindo o financiamento da produçã:o cacaueira, que repre­
senta 70% da economia do Estado. E' evidente que OS agricul­
,tores fizeram uma grande pa.rte - talvez a maior - de suas
operações financeiras IlaI Capital do Estado. Com 562 dentre
os 21.085 estabelecimentos comerciais do Estado da Babia,a
Cidade do Salvador viu, em 1954, um movimento de capitais
no valor de Cr.$10.640 milhões contra Cr.$24.282 milhões em
todo o Estado. Seu comércio grossista/ representava 83,88%
do total do Estado e I() varejista 45,60%. Mais da metade
(55%) da produção iridustrial baiana real1za-se na Capital,
porcentagem que aumentaxá. se retirarmos do cômputo global
as indústrias extrativas e agrícolas.
Esta concentração das funções vitais do Estado é dupli­ .. ., .
cada pela concentração dos serviços e quadros: 60% dos mé­
dicos, 73% dos engenheiros, até mesmo 35% dos agrônomos;
tôdas as Faculdades, 80% das Escolas Normat&, 40% dos
nâsios, etc.. '
-.
Tal quadro dá. uma idéia da importância regional da Ci-.
dad(i do Salvador e de sua função em relação ao Estado .'
\ "'.
Mas, assim como a história econômica regional favoreceu ••:. .
Salvador com êste acúmulo de funções. a história urbana con- •
duziu à concentração de quase tadas estas funções nos dis-
tritos centrais. A permanência da locaJ,izaçáo do pôrto,.liI.___ .
atração que sôbre a.a atividades comerciais e admi-.
nistrativas; a localização da es-tação ferroviária na proximi­
dade do centro; a fraqueza dalndÚ$tria, Incapaz de criar
grandes bairros; a expamão da cidade sôbre as linhas .de
cumeiada, tendo como resultado um plano que não permitiu
a formação de centros secundários nos bairros; tudo isto teve
.. ·
por conseqüência a concentração das funções nos bairros een-.
trais. Há. exceções; a presença e um certo número de Indús- .
trlas em Itapaglpe (di,tr!loB dos Mar .. e Penha). devido aos .
..
Prefácio à Edição Francesa
Bahia de Todos os Samtos e de Todos os Poetas, Bahia,
a Afro-.Brasileira, teve seus historiadores e seus soci6l0g0s. O
professor Milton Santos quis ser o seu ge6grafo, procurando
compreender as relações complexas entre os homens e a na­
tureza, entre o passado e o presente. Sem abandono do rigor
cientifico, analisa as aparêncicJ$ para melhor compreender
as almas.
Com prudência, o professor Milton Santos limitou seu
estudo ao pr6prio Centro da Cidade do Salvador, mas sem
nunclll o isolar arbitrdriamente do resto da aglomeração 1J,r­
bana, nem de um tlarrrere-pays" cuja extensão variou no de­
curso dos séculos. O estudo, que brilhantemente lhe valeu o
tJítulo de Dou;tor da Universidade de Strasbourg, inscreveu-se
em bom lugar entre a crescente série de publicações geográ­
ficas brasileirCJ.IB. Trabalho científico e universitário, o do
professor Santos não é,· por. ·outro lado, desprovido de valor
)
prático. Na geografia passa-se o memno que em outras dis­
ciplinas para as quai8 Os limites entre CJ.I pesquisa pura e a
pésquisa aplicada ê cada vez mais convenqonal. E estou.
certo de que Milton Santos, ge6grOJfo e professor, jamais se
apresenta dissociado do Milton Santos, cidadão de Salvador.
,> Ei8 afu1n bom--Mvrg tal, não tem mais neces­ •
$ido.de de prefáciÔ... 2ste se ju3Ú/ica inicialmente pela ami­
zade que nasceu entre n6s há já muitos anos, quando, em
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o CENTRO DA CIDADE DO SALVAD0I'1. n
terrenos desocupadcs oferecerem vantagem ali, por ocasião
do impulso industrial do fim do século passado, e o centro se­
cundário que se formou na: Liberdade, bairro proletário, den­
samente povoado.
Assim as funções do centro são muito representativas
quer da vida urbana, quer da vida regional. E' neste sentido
que as devemos estudar.
1 - A FUNÇÃO PORTUÀRIA
A função portuária da Cidade do Salvador existiu desde
o início da: vida urbana e foi desde logo uma condição neces­
sária à realização das outras funções. Com efeito, se o au­
mento da importância de Salvador corresponde, através dos
ao crescimento de sua função comercial, é, verdadei­
ramente, ao seu põrto que a cidade deve aJ possibilidade. de
comandar as relações entre um mundo rural produtor de ma­
térias-primas, que sofrem em parte uma :transformação pri­
niária, e um mundo industrial (seja do sul do Brasil, seja o
estrángeiro), comprador de matérias-primas e fornecedor de
produtos manufaturados de que a cidade e sua região têm
necesSidade.
., é, sem dúvida, a carácteristic,a' do põrto' de
Salvad:or, estreitamente ligfLdo, ,desde os primeiros tempos, à
economia regional, inicialmente do Recôncavo e, depois, de um
teritário mais. extenso. Bem característico de um pôrto de
exportação de matérias-primas é o fa,to de que entre as expor­
tações que, 1956" representavam 2.472.200 :OO().
96 %, isto é, 2,4 bilhões eram representados por sômente la
produtos. Entre estes, apenas 252 ,tinham sofrido uma trans­
formação primária. local, como os óleos· brutos e· pastas. :1l::stes
últimos produtos representam 109.029 toneladas sôbre um
total de 135.069 exportados pai' Salvador, em 1956. A impor­
tação,num valor sensivelmente inferi:.,r (Cr.$1.300 milhões,
em 1955), foi de pl'Odutos alimentares, com­
bustíveis e equipamentos. ps produtos ,manufaturados, que
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8 MILTON SANTOS O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR 9
convertidas em ruínas e cemitérto8, pa,88em a 8ert' méros aglo­
merados de "frios CUbo8 entregue8 a M8tas menos d.estr1Jido­
ras que o homem".
*
* *
o trabalho que o Prof. Milton Somt08 apresentou à Uni­
versidade de Strasbourg, como tese para do'!üorado em
Geografia Humana -O Centro da Cidade do Salvador - e
cuja edição em português ora é lançada em conjunto pela
Universidade da Bahia e Livraria Progresso Edit6ra, é um
belo exemplar de um novo tipo dee8tudos que começa a ga­
nhar terreno entre nós, com a nOVa geraçoo de geógrafos.
Tais e8tudos caracterizam-8e pelo abando11D da velha
cpncepção da Geografia como uma ciência arpe:nas do espacial,
q1Ulndo ela também o é do temporal. De.st'a· nova posição
conceitual decorre uma outra atitude metodológica, que
encara o fato geográfico como eminentemente dinâmico e
não estático. Daí ser a Geografia moderna uma ciência alta­
mente especulativa e indagadora, e não U11Ull atividade de
anacr6nico descritiVÍ81r/X}. Daí a riqueza da sua contribuição
como ciência aplicada, mobilizando todo um acêrvo de fatos,
agora conhecidos na sua verdadeira significação, através de
uma amo8tragem sucessiva de cortes e&fJruturais, que funcio­
nam como ootras tantas lâminas de laboratório para um per­
feito diagnósticp dai· fisiologia eda anatomia da cidade.
Nesta linha é que ogeógrafo baiano conduz o seu e8tudo.
Não admira, por isto, que o seu-primei1'0 capítufj), introdutó­
rio, seja um retrospecto da vida da cidade do Salvador, desde
q'u.e surgiu c,idade-fortaleza, alcandorada nos cimos da8 es­
carpas centrais, cujo derredor acidentado seu fundador afei­
çoouao modo de' f6sso, ampl.ia.do e conjugado ao8 diques,
um século 11lJt1i'ls tarde, por magníficos construtores
hidráulicos que são os flamengos. Não admira ainda que vá
.\.
buscar na pesquisa econ6mica e demográfica, os mananciais
neces8ários para explicar t6da QI func!onalidade da nossa po­
voação "grande e forte", já agora despida dOs encargos de
base militar, para assumir o papel de centro dinâmico de t6da
umlll eTlJClTme área, que dominava, no século XVIII, da8 regiões
auríferas do 1l1JTte de Minas, aos longínquos senões de pas­
toreio do Piauí.
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O seu preciso condensado da história quatro sé­
culos de vida da nossa Salvador, - base de vigilância e sen­
tinela do imenso litoral brasileiro, séde de administração e
elemento polarizador da vida da col6nia, p6rto de exportação
de todo aquêle vasto "arriere-pays" e mercado consumidor
da produção sertaneja ou da orla marítimlll, - é um primor
de C01icisão. E se dêle discordamos em detalhes, - como
quanto à verdadeira expressão ec,on6mica da Bahia nos pri­
meirus dia8 do ,século XIX, por êle muito subestimada no
noS80 parecer, ou em relação ao estado estacionário dos en­
genhos no curso dx> mesmo século, de que existem verossí­
1'1l.ei8 testemunhas em contrário, como, por exemplo, com a
construção dos pouco estudados engenIuJs centrais, - con­
cprdamos naquilo que de mais típico se apre8enta como a
característica da vida e da função da cidade do Salvador na
economia da Bahia de então: o p6rto.
Somente através de uma análise des,(la eSlJ)écie é possível
compreender a cidade, acompanhando seu crescimento, os
seus fatôres determinamtes e condicionantes, para que se
possa prevêr o seu futuro em proporções físiC1.8 e humana::;,
projetando a 8ua expansão em função dêstes.
Daqui, destas aU'Ols e dos vazes úmidos, par­
tiram os primeiros movif1ientos de expansão; SalvaOOr foi a
encruzilhada necessária dD açúcar, do fumo, do ouro, dos
couros e peles, num sentido, e noutro, a dos escravos e dos
colonos livres, dos instrumentos ruáimentares e das tentati­
vas de inovações redentoras, da ordenação jurídica e das tra­

75
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MILTON SANTOS 74
Tudo isto não acontece sem que o espaço seja disputado
pelos dois ramos da . atividade portuária. Ainda hoje, a ne­
cessidade de construir os entrepostos frigorificos e, principal­
mente de ampliar o cais, apresenta, novamente, o problema e
com tôda SUa intensidade. Procuram-.se as soluções, como, por
exemplo, deslocar o pôrto dos "saveiros" para a península de
Itapagipe.
1!:ste dilema acarreta, entre outras conseqüências, a de
agravar cada 'vez mais as condições, já por demais precárias,
das ins,talações da feira de Agua de Meninos, pois sua conser­
vaçãJ é reduzida ao mínimo durante êste tempo de espera.
2 - A FUNÇAO ADMINISTRATIVA
A função administraUva data da, própria fundação da
cidade, criada, como já vimos, para abrigar o primeiro govêrno
geral do Brasil. A esta fUnção deveu a cidade a maior parte
de SUa população inicial. Ela nunca deixará de ser importante,
a.través de tôda a evolução urbana, tendo somente uma crise
provocada pela transferência da Capital õo país para o Rio
de Janeiro, em 1773. Entretanto, esta crise teve seus efeitos
minorados pelo fato de não. ter Salvador perdido sua função
de Capital de província, durante o Império, e do Estado, após
a prOClamação da República, em 1889.
Atualmente, a função admjnistrativa é das mais impor­
tantes. Salvador a direção de quase tôdas asre­
partições do Esta;do, sejam dependentes do govêrno- do pais,
sejam as que dependem do Estado mesmo. Há ainda oS' ser­
viços da própria municipalidade. Esta. atividade permite viver
a um grande número de funcionários, número certamente
mais elevado. do que oas verdadeiraS necessidades dos serviços'
Aproveitam-se indiretamente da função adminJstzativa n1nne­
.rosos intermedlários de grandes e pequenos serviços públicos,
fornecedores, etc., sem falar na animação que a presença doa
O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
empregados públicos pode dar, e verdadeiramente dá, às ou­
tras funções a começar pelo comércio.
A função administrativa que, desde o inicio da vida ur­
bana, enriqueceu a paisagem com construções especialmente
concebidas, constitui, hoje, uma das atividades capazes de
transformar o quadro urbano, isto é, o centro, onde se insta­
laram. Os serviços públicos situam-se, preferencialmente, na
Cidade Alta, mais ou menes agrupados no núcleo primitivo,
em tôrno ao Palácio dos Governadores, que conserva o mesmo
local da primeira construção, datada de 1549. Entretanto,
tem-se verificado, recentemente, a tendência de transferir
para a Cidade Baixa a sede de alguns serviços que têm inte­
rêsse na localização mais próxima do centro da vida finan­
ceira. Juntam-se, agora.:, aos outros serviço.s públicos, ligados.
à função portuária da cidade, serviços instalados há muito
tempo na Cidade Baixa, como a Alfândega e a Associação Co­
mercial.
A administração eclesiástica tem uma grande impcrtân­
cia, havendo mesmo um cardeal-arcebispo em Salvador. De
fato, a função religiosa da cidade não cessou desde a sua fun­
dação. E' ela responsável ppr vários traços do passado na
paisagem de hoje: '() palácio do Arcebispo e as imponentes
igrejas do século XVIII.
3 - A FUNÇAO COMERCIAL
o centro abriga quase tôda a atividade comercial da ci­
dade. Realmente, fora. dos distritc6 centrais, o comércio de­
senvolve-se apenas em tôrno da estação ferroviária, na Cal­
çada, servindo a ltapagipe, além do comércio da Liberdade,
bairro no qual vive a quinta. parte da população de Salvador.
'-,......... .
A atividade comercial do centro da cidade desenvolve-se
sob quàtro diferentes aspectos: a) um comércio grossista, de
I
LE CENTRE DE LA VILLE DE SALVADOR
ÉTUDE DE GEOGRAPHIE URBAINE
TÉSE dpresentddd à Fdculddde de
Universidade de Strdsbourg/ pdrl!
do Doutorado de Universidade e
com a menção «tnh honordble, avec
citdtions du jury». - Strdsbourg ­
letrds dd
obtenção
aprovadd
les Feli­
1958.
~ _ . - ---_.
{
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MILTON SANTOS
~
o Centro da
Cidade
,
do Sal vador
Estudo de Geografia Urbana
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<
PUBué"'CÕES DA UNIVERSIDADE DA BAHIA
IV-4
1959 BRASIl.
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( 78 MILTON SANTOS
(
'de Dhéus como pôrto de exportação; apesar disso a maior parte
das transações ainda se faz em Salvador.
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Esta atividade de "papéis" é muitas vêze.s. confundida
(
com 'a. própria atividade bancária. Várias finnas exportadoras
\ seu próprio setor bancário, que goza das mesmas vanta­
'gens que os JJancos. Isto aumenta sua influência sôbre :o
mundo rural, que lhes confia seus produtos e fica cada vez
mais € dos exportadores. Com êsse setor bancário
(
_ CIDADE BAIXA
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Dibil [. .
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(
as casas comerciais podem obter do banco oficial certos privi­
légios, obtidos, aliás., pelos bancos particulares, como por
(
exemplo, o· redesconto . das notas de crédito. Assin:I., pa.1t1cf­
pam; oficialmente, do comércio da moeda, que emprestam
,aos agricultores com uma usura comercial, ou seja, 12% ao
.ano. Des&lmaneira as casas exportadoras se colocam numa
:posiÇão ainda mais vantajosa em relação aos clientes do in­
\
te.çlor.. do l!:stado, poiS podem lheS adiantar dinheiro para os
. :tlil.lmlhoà 8.grlcolas, praticando. simultâneamente: uma usura,
.
O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
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'. Fi,rmas. exportadoras de cacau e outros produtos regio­
nàis, como Wildberger ou Corrêa Ribeiro,' tên;t seu próprio

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6
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.'
tração industrial, básico ao desenvolvimentO' capitalista. A.
esta altum, entrt:.tai'i;to, a nova filosofia da vida, impregnada
do êxito social mediante o enriquecimento, arumenta as pres­
sões, sem que, simultâneamente, hou.vessE: uma preocupação
quanto ao processo específicp do crescimento urbano.
A cidade, que até então era uma exteriorização de formas
sociais integradas, subordina-se ao mecanismo da usina,
para a qual a mão-de-obra des1.!1i'vaniza-se, assumindo o papel
de mero fat9r físico de "insumo". Deforma-se aquela "orques­
tração completa de tempo e de espaçd', substituída pela sin­
fonia atônita de desequilíbrios de tõda a sorte. As componen­
tes c,ult1lrais perdem tôda significação hierárquica, e impera
a subordinação de tõda a vida daJ comunidade ao determinis­
mo econômico da prodwção.
Na base dêste tipo de transformação do conceito e da
estrutura da cidade está todo um cpmplexo de desajusta­
mentos, que vão dos aspectos infra-humanos dos corlJiços,
das favelas, dos "slums", dos "bidonvilles", às carências ali­
mentares, sobretudo qualiJtlativas, ao congestionamento dos
transportes, resultante da concordâncial cronométtica dos ho­
rários de- trabalhas, às deficiências de tôda a aparelhagem dos
sistemas de distribuição de serviços. Ao lado disto, a inca­
pacidade para organizar o novo tipo de vida, como, por exem­
plo, para absorver em tipos úteis de atividade as disponibi­
lidades das horaS! de lazer, a quebra de disciplina social, nos
"stratus" das classes menos fa1XJTecidas aUamente sugestio­
nadas pelo "efeito de demonstraçÕ;O" dos padrões de vida
das classes possuidoras, contribui para ampliar Os quadros
dêste cortejo de angústias, que vão geramdo um novo qua­
dro endêmico de uma patologia individual ou coletiva SUl­
-generis, tipificada no aumento de moléstias mentais e car­
diácas, na elevação dos índices de criminalidade, num estilo
educacional excessivamente profissionalizado e imediatista,
etc.
JM
o CENTRO DA CIDADE DO SALVADilR 7
Reconstruir a cidade, reintegrando-a na sua função pri­
mordial de ponto onde se concentram os destlinos da civiliza­
ção, e onde esta triunfa do próprio tempo pelo a'grupamento
de várias camadas representativas de cada época, é a granel€ : {
tarefa do nosSlo século. O desafio recebido da imprevidência,
c mesmo da inconsciência, dos nossos avós, da idade- do car­
vii o, do feiTo c do petróleo, tem de ser respondido pela 171,0­
bilização de todos os conhecimentos qUe a técnica e a ciên­
cia puseram ao nosso alcance. Mais de metade da população
do mundo, isto é, cêrca de dois bilhões de pessõas, vive'm
hoje dentro dos limites urbanos. E cresce dia. a dia o seu
número, sem qU() a infra-est1'utura seja projetada para rece­
bê-la em futuro próximo; pois a triste verdade é que-rams (
são as cidades, grandes cu pequena.s, que tenham elaborado
(
um plano para um "habitat" harmonioso e equilibrado dos
seus deD::;.endentes, os quais já lhes batem às portas. O que
nos domina ainda, é tõda umt:/l polític(l do momento pre­
sente, de remendos frustrados e de acomedações penosas, dei­
:;,;ando aos que chegam, a i'rágica herança de aglomerados sem
luz, sem a.r, sem alimentos, sem transportes, sem alegria, sem
dignidade e sem beleza.
A Geografia Urbana, à teoria locacional e ao planeja­
m.ento regional das cidades cabe a grande rf.'sponsabilidade
de modificar êste triste cenário, esta mísera real'idade. E para
isto, não lhes bastará todo o instrumental científico ou téc­
nico; ser-Ihes-á também obter, talvez até preU­
minatrmente, uma modificação da atitude do homem em
ção ao espaço no qual terá de decorrer a vida de S€'US suces­
sores.
Neste sentido o trabalho iniq.al será de promoção, de
mobilização da opinião mundial, eSIClarecendo-a quanto às
origens, à formação, ao crescimento, às possibilidades c aos
de,st'i'nf)s d0 cidade. ne:ii;tinos que precisam ser bem interpre­
tados e compreendid€ Js, para evitar que as nossas metrópoles,
(
{
.•A.!!i>'*....
MILTON SANTOS 82
{
mesma. Todavia, o sempre número de imigrantes
rurais, que gravam os recursos da população ativa, torna im­
(
possível um desenvolvimento ma.is notório do comércio· vare­
( j:ista, fato que se refiete na diferença entre seu próprio qua­
dro e o -do comércio em grosso.
(
'1
( O comércio varejista rico encontra-se nas ruas d9 co­
ração da Cidade Alta, seguindo as linhas doo transportes
coletivos, em direção. aos bairros ricos. O comércio varejista
pobre ocupa a Baixa dos Sapateiros (rua Dr. J. J. Seabra),
{ artéria principal do tráfego de veículos coletivos que se di­
rigem aos bairros da classe média e pobre.
(
, I
O comércio varejista de luxo encontra-se principalmente
nas ruas Chile, Misericórdia, Ajuda. Carlos Gomes, quase tôda
(
(
a avenida Sete de Setembro e uma parte da avenida
\ Angélica. SObre um total de 310 entregas feitas 'a dom1cflio
(
por um magazine da rua Chile, durante uma semana de maio
de 1957, 240 foram feitos a clientes que habitavam nos bairros
(
ricos, sendo o resto entregue a outros, nos bairros ãe classe
(
média.. A êste· tipo de' comércio acba-se ligada a freqüência
. das ruas onde está instalado: a rua Chile constitui uma es­
pécie de vitrine da .cidade.
Tal comércio, sobretudo seu desenvolvimento atual, acar­
(
reta uma supervaloriZação dos espaços disponíveis e, por ou­
(
tro lado, atrai outros tipos de comércio, com uma cada vez
(
mais forte ou acentuada tendência à especialização. São
aproveitados os acessos ou halls ..nov:os.ou antigos,
pés-de..escádã,· para inStalar pequenos 10j;as de Iem­
(
brança.s ou de discos; os restaurantes emi.gtam para as ruas
(
transversais, instaIando-se nos andares; desaparecem OS cafés
onde se podia ser atendido sentado, e que eram numerosos há
cinco anos, substituídos por leiterias, onde se pode fazer pe­
(
(
quenas refeições de pé. O comércio _'J'8It'ejistapobre é feito,
'(
essencialmente, rua,Dr. J.J..Se&brãc"'(BaiD"dos Sapatel­
'ros) e transversa1s, prolongando-se até a Snva Jardim. Não
Foto 3 _ Ainda uma fotografia a mesma paisagem antes de 1950
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o CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
r
.:,se encontram grandes magazines e casas de artigos de luxo
"ou .altamente especi.allzadas: Predominam as lojas, onde são

r -vendidos artigos de segunda necessidade.

!
Parece que à concentração do comércio varejista no cen­

tro da Cidade Alta. está ligado um cada vez maior número de
'<!inemas, visto que os cinemas de bairros, mais recentes, ofe­
recem um número mais restrito de sessões.
Em 1956, os bairros centrais contavam com 11 des 23
cinemas existentes. Entretanto, dispunham os mesmos de
. 12.074 lugares, enquanto os 12 dos outros bairros apenas 80­
ma.vam 7.517, aí incluídos 00 2.359 de dois cinemas da Cal­
çada, perto da estação ferroviãria, e que não podemos classi­
ficar entre os cinemas de bairro. Neste mesmo ano, os cine­
mas do centro venderam 4.071.043, compreendendo as
526.666 daqueles da Calçada.
A relação entre a distribuição dos cinemas e a função
comercial varejista se constata pela localização e a categoria
das salas do espetáculo. Na Pr. da Sé, rua Chile, Pr. Castro
Alves, os cinemas são confortáveis, com ar condicienade e
preços elevados. Na Baixa des Sapateiros, não oferecem con­
fõrto e são baratos. Na Cidade Baixa não há cinemas.
c) Um comércio de alim.entCiÇão, de primeira necessidade,
praticado quase exclusivamente por espanhóis, aparece tam­
bém no centro da Cidade do Salvador. São armazéns, pada­
açougues. Tal comércio deve sua existência, de um lado,
à presença, no próprio centro, de uma massa considerável de
pop'Qlação, necessitando. abastecimento e, por outro lado, a
possibilidade, procurada pelos habitantes dos bairros exte­
mre" de encontrar ali preços mais vantajosos. Esta últúna
razão explica a' concentração de casas de produtos aJ.iIxren­
. Baixinha (rua Pe. Ágostinho Gomes) e na Visconde
de São Lourenço, (Forte de S. Pedro) que delimitam o cen­
:tro comercial da Cidade Alta. Contudo, êsse comércio de pri­
84
-1'
MILTON SANTOS
meira necessidade acha-se disseminado por todos 0.<; setores,.
ocupando, principalmente, as esquinas. Na Cidade Alta, o c0­
mércio, formando um verdadeiro cinturão ladeado pelas ruas
residenciais, é uma explicação para êsse fato.
A crescente valorização do espaço, no centro da cidade.
acarreta uma tendência ao deslocamento dos estabe1ecimen­
tos, que, todavia, mantêm-se no limite entre a zona comer­
cial e a residencial;
d) O comércio de rua ocupa um lugar relativamente im­
portante. E' representado quer pelas feiras livres, 'Jnde são
vendidos produtos de alimentação e caseiros, quer pelOS
camelôs e vendedores ambulantes.
A presença, de uma população pobre, no centro, provo­
cou a constituição de um comércit> de produtos alimentares.
não somente nos magazines, mas também nas feiras.. Na Pro
Dois de Julho, rua Visconde de São Lourenço e proximidades
da Pro São Miguel, sôbre um terreno desocupado, funcionam
feiras. As duas primeiras, nas extremidades do centro comer­
cial são menos representativas das necessidades do mesmo;
servem sobretudo a outros bairros, enquanto a terceira abas­
tece, principalmente, a população do centro, onde ocupa o co­
ração mesmo. Antes estava situada na Pro José de Alencar,
donde foi deslocada pelo aumento do trãfego.
Podem ser ainda citados outros mercados,em tôrno do
centro e perto do pôrto. A feira de Agua' de Meninos é a
mais importante da cidade; espécie de feira grossista, é um
verdadeiro entreposto em relação às demais .feiras urbanas.
-I
I
A da "Rampa do Mercado" exerce funções comparãveis, se
bem que em escala reduzida. Essa função grossista explica-se
pela proximidade do pôrto, onde encostam os saveiros carre­
f
gados de produtos do Recôncavo. ... j
Além das feiras "sedentárias", hã um verdadeiro comér­
cio ambulante. E' comum encontrar, ao ar livre, sõbre os pas­

85 O CENTRO DA CIDADE DO SALV ADGR
sei2S, uma variedade de mercadorias, anunciadas aos gritos
pelo.:> camelôs. A Pr. Cairu é uma e::pécie de quartel-general
dêste gênero de atividade. - ....
Junnt Silveira (A Bahi!ll e a Voz dos Trovadores, Tip.
SENAI, Salvador, pág. 9) assim de:screye essa paisagem: "a'O
redor da estãtua, funciona o comércio de bugigangas: came­
lots com seus maravilhosos medicamentos, vendedores am­
bulantes de camisas de homem, brincos baratos para senho­
ras, gravatas de quarta classe, meia::., mil e uma quinquilha­
rias; fotógrafos, cem enormes aparelhos antigos e desajei­
tados, qUe revelam fotos em dez minutos; cegos que mendi­
gam com .seus violões, acordeons e tamborins, homens e crian­
ças que vendem ,coleções de poesias popu13res". quadlO
tão bizarm reproduz-se no Terreiro de Jesus (Pr. 15 de No­
veml:1ro) e, se retirarmos o fotógrafo e o cego cantador, é o
mesmo na rua Chile, a principal artéria da cidade. Os co­
merciantes fazem uma verdadeira guerra aos vendedores. am­
bulantes, sob pretexto de que engarrafam o trânsito. Na
realidade, porém, é a concorrência dos preços baratos que
os preocupa.
Um outro aspecto do comércio de rua é o constituído
pela "bôlsa. de automóveis", que se instalou, exatamente, na
rua dos bancos, rua Miguel calmon, bem em frente dos Ban­
cos do Brasil e Bahia. Automóveis ali ficam estacionados, com
,f.eus vendednres, os quais discutem na rua mesmo com os pro­
váveis compradores. E' um dos mais interessantes negócios
da c.idade,
4 - A FUNÇAO BANCARIA
A estrutura econômica regional e a estrutura da orga­
nização bancária brasileira dão grande relêvo ao banco em
\
relação às outras. funções mas, por outro lado, tra­
/
zem-lhe a impossibilidade de exercer, perfeItamente, sua
função criadora. Se, de um lado, os bancos têm interêsse no
I


(,
(u
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')
t
1
f
86 MILTON SANTOS
financiamento das. atividades comerciais, incluindo a agri­
cultura comercial e atividades puramente especulativas, com()
a especulação imoblliâria, resta-lhe uma pequena margem
para o funcionamento da indústria. e da pequena agricultura.
Excetuando o Banco do Brasil, que é o banco oficial, todos
os demais emprestam dinheiro a curto prazo e juros eleva­
dos, sempre com a garantia individual de um terceiro, pes­
soa física ou jurídica. ltsse mecanismo contribui, sem dúvida.
para reforçar algumas fortunas particulares, mas não pode
colaborar para o aumento da riqueza coletiva. Tal mecanis­
mo leva também à persistência da estrutura econômica já
estabelecida, cheia de conseqüências para a vida regional e
urbana. Nesse sentido, o banco pode ser considerado como
uma verdadeira atividade "conservadora", destinada quase
exclusivamente ao puro e simples comércio do dinheiro. Isto
seu enorme poder.
Em Salvador, a análise da atividade bancária leva a dis­
tinguir,; com exceção do banco oficial, 3 outros tipos de ban­
.l};,iOB bancos estrangeiros; 2) os bancos nacionais; 3) os
bancos regionais ou loclLis.
, _Os bancos estrangeitos são especializados, sobretudo, no
cpmércio de exportação e importação e na transferência dos
gep6sitqs ,de. seus clientes.
Os- bancos da rêde nacional são organizados no próprio
Estado, com ramificações em outros, havendo organizações
principalmente de São Paulo e Minas Gerais. Tais organi­
zaÇõesfinanciam o comércio de exportação e importação, a
agricultura comercial e a especulação imobiliária, bem como
a indústria, embora em menor escala. Tendo em vista a es­
trutura econômica regional, e na falta de informações mais
póde-se dizer que esta atividade bancária, como a
ptec:feiJéiiie,-leva. os capitais para fora do Estado.
-l:.'I \ ..c"1' f • ."
us banccs .. --eg1onais O" locais "'a-H.";,,, .......n""A
I:J!'> t'\ t'*"1O - .• - .... t r-"""u..&,.I,.I, "t'... ........."" v
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" Jlt'F". -,,'; '.' '! .......',
89 o CENTRO DA CIDADE DO SALVADOlt
mercial e especulação imobiliária, que asseguram uma mais
rápida movimentação de fundos. Nesta categoria podemos
incluir as "casas bancárias" (bancOs com um capital infe­
rior a um milhão de cruzeiros) e os setores bancários das
grandes firmas exportadoras. Isto explica porque os bancos,
ligados estreitamente ao comércio e, conseqüentemente, ao
pôrto, tenham preferido a Cidade Baixa para suá instalação.
Ali os negócios financeiros criam quarteirões fortemente es·
pecializados, nas ruas Miguel Calmon, Portugal e Av. Estados
Unidos.. Excluem-se desta concentração o Banco Nacional do
Crédito Cooperativo e o Banco do Nordeste, organizações go­
vernamentais, sediadas um pouco distante.
E' na Cidade Baixa que se acham as principais sedes ban­
cárias, enquanto na rua Chile, São Pedro, Calçada e Baixa dos
Sapa.teiros há escritórios secundários, a.s. "agências metropo­
litanas" .
Somente três estabelecimentos bancários têm sede na
Cidade Alta. Dentre êles, um é particular e de capital redu­
zido. Um outro é a Caixa Econômica Federal, cujas opera­
ções (empréstimos imobiliários, penhores de jóias, etc.) orien­
tam a sua localização para perto da maior parte da popula­
ção. Paradoxalmente, esta instituição é a única que mantém
um guichê secundário na Cidade Baixa. Pelas mesmas ra­
zões· o Banco Hipotecário Lar Brasileiro tem sede na Cidade (
Alta.
o desenvolvimento do comércio na Cidade Alta e na Cal­
çada levou os bancos a abrirem agências metropolitanas, so­
bretudo na rua Chile e Ajuda onde se encontram sete delas.
Novas foram abertas em São Pedro, Baixa dos Sapateiros e
Calçada, estas sob a influência das indústrias de ltapagipe e
do comércio. Para fazer uma idéia da valorização da rua
Chile como localização bancária basta acrescentar que uma
casa de chá, de enorme clientela,. fec,hou recentemente suas
portas para acolher um guichê bancário, bem como o fato,
1
,
(
(
(
90 MILTON SANTOS
(
já mencionado, da ocupação de algumas partes do Palácio
(
do Govêrno por um guichê secundário do Banco do Estado.
(
(
5 - A FUNÇAO INDUSTRIAL E ARTESANAL
(
Em 1955, para 514 estabelecimentos considerados indus­
(
triais e fábricas em Salvador, 192 se localizavam nos quar­
teirões centrais. Se, todavia, são considerados, estatistica.­
(
mente, industriais, preciso se torna assinalar que, para a
(
maioria, a fabricação é sobretudo artesanal. As classes de in­
dústrias e o número médio de empregados são dois elementos
(
bem significativos do fato. Um total de 3.960 pessoas encon­
(
travam-se ocupadas nessas emprêsas, o que dá uma média de
20, aproximadamente, para cada estabelecimento. Na reali­
(
dade, sõmente 159 estabelecimentos contavam mais de 5 ope­
(
rários (414 para a cidade inteira), sendo que a maior parte
(
dos estabelecimentos empregavam entre 5 e 25 pessoas. To­
(
daVia., algumas têm, excepcionalmente, efetivo superior a
100 operários. São três: dois moinhos e uma marcenaria-es­
(
cola, o Liceu de Artes e Oficios. A grande maioria, tendo me­
< nos de 25 operários, .são principalmente artesanatos, ligados
à vida íntima da cidade. As necessidades diárias e imediatas
da população urbana aí são satisfeitas, muitas vêzes sem in­
termediárIo comercial. São, exatamente, pequenas fábricas,
dispondo de um setor comercial.
Tendo acima de 25 empregados, porém menos de 100.
('
encontram-se estabelecimentos cuja atividade leva a perma-­
. necer bem próximos dos quarteirões comerciais ou do mer­
( ,
cado. Isto explica porque há uma verdadeira concentração
dêsses estabelecimentos nos quarteirões centrais. Todos os
(
jornais ali estão" bem como 32 das 33 tipograf1as e editô­
(1 ras, 30 da.s. 41 casas de confecção de vestuário; a totalidade,
exceto 3, das fábrica8Qe calçados, as duas de refligeranteâe­
(
os 3/4 das padarias. Paradoxalmente, aparece uma serraria,
( ; de localização antiga, numa ponta. de rua.
( I
Palácio
°Estado.
IAL
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tatistica..
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DISTRIBUiÇÃO DOS OPERÁRIOS P·ELOS SETORES
5500
CADA FIGURA REPRI::.::lENTA 100 OPERÁRIOS
- - - - - - - ~ - - - - - - - - - - - - - - - - . - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
94
MILTON SANTOS
DISTRIBU'ICÃO DOS
COM MAIS DE 5 OPERÁRIOS
,
Estas indústrias, salvo exceções, são sobretudo
mentáres ao comércio, verdadeiro setor industrial de
zines. Orientam·se segundo as necessidades das casas comer-
I
(
(
O CEl\'"TRO DA CIDADE DO SALVADOR 95
ciais, destinando sua produção a um consumo quase imediato,
sem constituir estoque nas suas pequenas oficinas. Comu­
mente a razão comercial dos estabelecimentos que fabricam
e dos que vendem os produtos é a mesma. Não é raro que uma
loja mantenha atrás ou num sótão um pequeno artesanato
cujos produtos aparecem nas suas vitrines ... O melhor exem­
plo é o da.s. casas de calçados da rua Dr. Seabra. Estas
quenas indústrias utilizam produtos semi-acabados e os trans­
formam para o consumo, ao qual fornecem, então, produtos
acabados.
(
Entre as indústrias do centro, 2 escapam a esta generali­
zação; elas não têm um pequeno número de empregados e sua
atividade não é voltada para a vida íntima da cidade, assinl
como não fornecem produtos acabados. Referimo-nos aos
Moinhos da Bahia e do Salvdor. Sua presença é explicada
pela atração universalmente reconhecida às indústrias dêste
tipo pelas instalações portuárias. O Liceu de Artes e Ofícios,
escola prOfissional consagrada também à fabricação de mó­
veis, com 306 empregados, permanece bem no centro da cida­
de onde sempre esteve instalado.
\
(
A Cidade do Salvador não é uma cidade industrial, como
já foi assinalado. Êsse fato, ligado à presença de um quadro
antigo, à disposição de funções incapazes de criar um quadro
próprio, leva à localização, nos quarteirões centrais da cidade,
de certas indústrias. e artesanatos, relativamente numerosos
em relação ao conjunto da cidade .

• •
A importancia do centro de Salvador emrela.ção à cidade
provém de- dois fatos: a concentração antiga e cada vez mais
acentuada dos recursos financeiros, técnicos e sociais da
97
( )
(
(
MILTON SANTOS 96
(
região na Capital do Estado e a acumulação das funções ur­
(
banas nos distritos centrais da cidade. Com efeito, e por isso
,(
mesmo, o centro é indiscutivelmente representativo da vida
( urbana e regicnal.
(
O estudo das funções que êle abriga revela. antes de
( tudo, a função metropolitana de Salvador, como cabeça de
uma região cuja atividade econômica é, sobretudo, a produ­
(
ção de matérias-primas, exportadas, na sua quase totalidade.
(
em estado bruto ou após uma transformação primária. A pre­
dominância desta agricultura cOmercial na vida econômica
regional explica a importância dos bancos e das casas de
importação e exportação. Esta caracterfstica refletiu-se, a­
inda, sôbre as outras funções: o comércio varejista, relativa­
mente fraco, e a quasi inesistência de indústrias. A função
adminisb'atíva, concentrada na Capital do Estado, favorece
a concentração, das outras funções, que ela alimenta e es.ti­
muJa de modo mais ou menos representativo.
Em resumo, podemos afirmar que as atuais funções de
Salvador são funções antigas -transformadas em virtude da
sua cada vez maior importância (estas são as funções admi­
nistrativa, portuária, comercial, religiosa) ou funções mais
<
recentes, mas que resultam diretamente e dependem das an­
tigas: as funções bancária' e industrial, estreitamente liga­
( das à função comercial, o. que explica,. no caso da indús­
tria, a importância que a mesma tem nos distritos centrai&.
Consta.ta-se, função portuária s0­
brelevou desde inicio da vida urbana às outras funções.
Esta função, ligada história do crescimento urb!'lDO, é res­
ponsável pela permanência. da localizaçãlo das outras fun­
( ções. de modo que estudar as funções urbanas de SalvadOr 6
quase a mesma coisa que estudaras funções do centro da ci­
(
dade. Esta. carcteri!tica deve ser fixada quando se abordam
(
seus distritQs centràis. A 'aDálise das antigas formas da vida
( urbana e das funções atuais, como delineamos no capítulo

O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
anterior e neste, é. realmente, indispensável, quer à compre­
ensão da paisagem, quer da. estrutura dos quarteirões do cen­
tro, objeto dos seguintes capitulas.
A paisagem atual e seu conteúdo humano, seeial e eco­
nômico exprimem, ao mesmo a evolução e o
atual das funções urbanas. As funções antigas, presentes
ou desaparecidas, marcam a paisagem atual pela presença
de monumentos e velha..s casas. Estas se degradaram e, per­
dendo sua função de residência rica, abrigam hoje uma po­
pulação pobre.
As novas funções ou a rene·vação das antigas funções
transformam o quadro antIgo ou criam um quadro
sôbre o qual tentaremos fazer o estudo nos capítulos ,S.e­
guintes.

,-
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·?I
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!j _. Est::. !otografía mostra nítiàa a esra rpa da f&U.a que separa os dois níveis da Cidade,
- - - - - -
.
- - - - - - , - - - - - -- - - - - - - ­
Foto 'i - itste clichê é um detalhe da Cidade-Baixa, onde se pode observar ainda melhor a justa-posição dos _11­
, pedos de sua paisaçeIn, .
--------------- ..... --------------------------­
+
Foto 9 - Outro aspecto da Cidade-Baixa•. vendo-se
tio fundo o Elevador Lacerda. - As velhas casas
vão pouco a pouco, cedendo lugar aos .arranha­
ceus, na parte construída antes dos mais. recentes
. aterros.
.....
Foto 10 - O fenômeno apontado na fotografia
anterior, nesta se nota em detalhe.
~ ..
I
CAPiTULO I I I
A PAISAGEM URBANA E A VIDA DO
CENTRO DA CIDADE
Dois fatos são- bem característicos da paisagem central
da cidade do Salvador. Ela ê sobretudo marcada pelo sitio
que ocupa: uma Cidade Baixa, sôbre a planície estreita, quase
tôda inteiramente construída pelo homem durante os quatro
(
Eêculos da evolução urbana; uma Cidade Alta, assentada sô-­
bre colinas e vales; e, separando êsses dois elementos, a es­
carpa de falha.. Tais denominações (Cidade Alta e Baixa)
(
apareceram quando a cidade tinha os limites que, hoje,
(
coincidem com os dos bairros centrada. Não têm mais sentido
.para a cidade tôda, desde que a mesma se estendeu sôbre (
um conjunto de sitios diferentes. Todavia, essa designação
conserva todo o interêsse em relação à parte central. E' por
isso que a repetiremos constantemente.
Outro aspecto de· Salvador que imediatamente atrai a
atenção ê o verdadeiro antagonismo, num perímetro reIa.ti­
vamente reduzido, entre as diferentes concepções de urbanis­
mo e arquitetura .
Devido a êsses dois fatos, Salvador oferece àqueles que a
ela chegam por vi..a, marftima o e$petáculo de um presépio,
suas casas parecendo empilhada.s umas sôbre as outras, bem

101
(
MILTON SANTOS
( 100

(
como a viva e chocante impressão de contraste a quem per­
corre as ruas do centro: largas avenidas retilíneas, sôbre
as superfícies planas conquistadas ao mar, ladeadas de altos
e luxuosos imóveis de construção recente, na Cidade Baixa,.
ruas estreitas e sinuosas da Cidade Velha, enladeiradas, com
casarões degradados; várias gerações de ccnstruções

na rua Cblle, Av. Sete de Setembro, Baixa dos Sapateiros, das
quais as mais recentes sucederam, simplesmente, às mais an­
tigas, desadaptadas funcional ou especul8ltivamente. As
{
casas mais altas parecem apostar um recorde de altura com
( as ricas igrejas, os velhos templos.. E' essa vizinhança quase
surpreendente, tÔda. essa desordem aparen·te que dá beleza e
colorido próprio a essa parte da cidade. Ao lado do. asfalt()
(
moderno, as velhas ruas pavimentadas de pedras irregulares,
( "coração-de-negro", nos levam ao passado sem sair do presen­
te. 1i:sse aspecto da cidade inspirou o romancista Stefan Zweig
(
quando diz: "Em Salvador podemos, em dez minutos, estar
(
em dois, três, quatro séculos difel"entes e todos parecem genuí­
(
nos", e quando acrescenta: "o velho e o novo, o presente e
(
o passado, o luxuoso e o primitivo, 1600 e 1940, tudo isso re­
úne-se para formar um todo, numa das mais tranqüUas e maiS
(
agradáveis paásagens do mundo."
<
Entre os espaços construidos, os espaços vazios: ruas,
praças, superfícies não-edificadas, jardins de mosteiros e a

escarpa de falha.
(
Durante o dia, êsse centro, verdadeiro nó de comunica­
QÕes, anima-se com " passagem de milhares de veiculas .
doS os tipos e idades, angustiosa e tncessante circulação que
dá, talvez uma idéia. exagerada do dinamismo próprio da cida­
de. A cireulaçio dQs baianos, também considerável, aumenta
nos últimos momentos da tarde. Retoma uma certa animação
dUraRte a entrada e safda dos cinemas. Aliás, êsse centro ja­
mais fica inteiramente deserto, mesmo nas horas mortas. Se
as casas novas não Bão habiltadas, as antigas abrigam uma
popúlação pobre.
O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
1i:sses aspectos completam-se e explicam-se mutuamente.
A variedade dos traçados,- as ..gerações de construções, êsses
pedaços do tempo cristalizados na paisagem urbana, signifi­
cam muito mais que as preferências urbanísticas ou arquite­
tônicas de uma ou de outra época: são o mosaico dos sécu­
los, mas representam também a sucessão das técnicas, tôda
a evolução da vida urbana, a soma do passado e dos moder­
nos modos de ser, cuja incorporação à vida urbana não se
faz sempre segundo o mesmo ritmo.
E' a todos ê..lISes aspectos que podemos chamar o centro da
Cidade do Salvador - centro histórico, religioso, administra­
tivo, turístico e de negócios. Tentaremos, agora, explicar
êsse quadro.
A. A PAISAGEM
1. - A ELABORAÇAO DO QUADRO
O sitio, um sitio difícil que constitui uma das origina­
lidades da cidade atuaI, foi escolhido em função da finalida­
de primitiva da aglomeração: administrativa e militar. Era
preCiso construir Salvador bem perto do mar para facilitar
as comunicações com a Metrópole. Era preciso, também, edi­
ficá-la SÔbre a escarpa, sÔbre o dorso das colinas, para defen­
· dê-la dos possíveis ataques, seja de estrangeiros, pelo lado
do mar, seja dos indios, vindos do interior. Tomé de SOu­
za agiu bem,qu.andQ _escolheu a plataforma no cimo da es­
carpa, caindo quase em ângulo .reto SÔbre a baia e oferecen­
do, por outro lado, a possibilidade de conter as águas no va­
le, formando um dique, útil à defesa da cidade. Como ob­
servá Aziz Ab'Saber, cito p. 62, "a escolha do sitio para a
.fundação de uma cidade e capital administrativa respondia
a·quase tôdas as exigências da época e concordava com as
· circunstâncias históricas que orientaram a das
· terras portuguêsas na América Tropical".
'.
(
102
103
-'-'- ....". .....
(
O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
MILTON SANTOS
"
Tomé de Souza trouxera do Reino o plano,segúndo o
qual devia ser construída a cidadela; era um plano gecmé-
NO 1'1/04 DO sÉcu\.o XVI
"".1••",.•.,... _J#t ......... if...... ' ... h ..
'#.t., (.,., ."'/.C&t;. dilU( ... " ....t•• t:,.'*,f:.. ....
',.". (). .• /li. $.",."
eSGALA 1:'-000
trico, adotado já para :outras. aglomerações, criadas pelas
autoridades coloniais (Aroldo de Azevedo, p. 200). As irre-­
gularidade.s do sítio, porém, deformaram o quadrilátero idea­
lizado na Metrópole. Entretanto, mesmo atualmente, pode­
-se perceber a intenção dos fundadores no traçado grosseira­
mente em tabuleiro das ruas da parte mais antiga de Salva­
dor. E' uma observação de Teodoro Sampaio (n. o 34, p. 199),

no comêço do século: "através das vestimentas mod.ernas
com as quais se veste Salvador, senre-se ainda a ordem que
o fundador a princípio deu". Para obedecer às ordens deI
Rei, certo de "que, se havia de descobrir como afeiçoar ao
local escolhido a traça da praça forte", o plano foi um pouco
modificado, mas o sítio também recebeu alterações.
Onde hoje se encontram as ruas da Ajuda e a Praça
(
Municipal, houve obras de terraplanagem; foi aterrado um
(
fôsso, na rua da Misericórdia, e, ao contrário, outros fossos
foram cavados na altura das ruas 28 de Setembro e da Pra­
ça, aproveitando as naturais.
Teodoro Sampaio (n.
ó
34, p. 28) assim reconstituiu a
cidade depois da sua fundação: "a nova cidade surgiu como
de improvLso, nos moldes de um acampamento, com três ruas
longitudinais mais largas e duas transversais mais estrei­
tas, além de duas praças. O palácio do governador, a igreja
de N. S. da Ajuda, a Casa da Câmara, os serviços públicos,
tudo é construido da mesma maneira e coberto de palha, o
único recurso existente até que o pedreiro melhorasse sua
arte· e pudesse obter melhores coberturas. As casas eram bai­
xas, os alÚ)s como à moda d9s índios. Erm:n tão.sõ­
mente abrigos, sem confôrto algum... enfim, no conjunto,
a cidade apresentava o triste aspecto das cidades portuguê­
sas, sem estética e sem outra nota alegre além do seu largo
horizonte sÔbre o mar e a vigorosa vegetação circundante."
A cidadela foi, em seguida, cercada de muros de arga­
massa e ti:pha somente duas portas: a porta do carmo e a.
porta. de SãO-Bento. Por volta de 1551 já algunS-habitan­
tes começaram a cultivar jardins fora dos muros, mas nin­
1
105
104 MILTON SANTOS
guém tlnhcL coragem de se estabelecer, com mêdo de assaltos
pelos indios. (Thales de Azevedo, n.
o
21, p. 114).
No exterior dos muros é que foram construídos os con­
ventos, aproveitandO-se das vastas cóncessões que o govêmo
lhes havia feito. A cidade situava--se, somente, nas cotas de
55 a 60, no fim do século XVI. Ao nOl"te encontrava--se já o,
convento dos Carmelitas; ao sul, o dos Beneditinos; a leste,
o dos Franciscanos. Por essa oCasião, êles cercavam a cidade,
( pois a oeste está o escarpamento e a baía.
( A necessidade de comunicação com a metrópole para o
abastecimento, os inícÍlOs de Salvador como pôrto do Recôn­
('.avo levaram à construção de ancoradouros muito elementa­
(
res ao pé da escarpa, sôbre a praia que constituía então tôda
( a Cidade Baixa. Surgem, assim, próx:imo à Igreja da Con­
ceição da Praia, o "pôrto dos pescadores" e outros. Em 1596,
o juiz Baltazar Ferraz comprou terrenos junto a essa igreja,
para construir um cais e um -entreposto de açúcar. Mo­
rava perto da Praia (assim se chamava, então, a Cidade
Baixa) e fêz aterrar do lado do mar, na direção do Pôrto dos
Pescadores, mandando também quebrar as pedras que tra­
(
.ziam prejuízo ao movimento dos' navios (Almeida Prado, n.o
( 31 p. 175).
( Até o fim· do século 16 o bairro aristocrático se achava
derredor da praça central. 'Mas, em meados do século 17,
em tômo dêsse centro allnhava-se já um verdadeiro cinturão
de boas casas de campo pertencentes a pessoas abastadas,
-enquari.tO- os pobres e os comerciantes moravam na PraIa-.
Os negociantes - tinham posição socIal-importante.
(
Essa segreg&ção soctal completava.:.se com o bairro dos
pescadores, no ."Balgado", próximo à Igreja de N. B. da Con­
(
ceição e na base das ladeiras, pelo bairro dos ourives, dos
(
e outros artesãos. Nos vales f1zeram-se bortas.
..
O CENTRO DA CIDADE DO 5ALVADOR
,
i
apenas a sede da administração civil e eclesiástica, o bairro
comercial encontrandO-se embaixo (Thales de Azevedo, n.o
21, pag. 188). Dã-se então, a primeira migração. Os sol­
dados ocupavam a metade das casas da. rua da Ajuda e
também as prostitutas, das quais um cronista da época di­
zia que era preciso "desembaraçar a cidade dessa praga tão
contagiosa... " (Thales de Azevedo, idem, idem.) As pessoas
de posse mandavam construir em S. Bento, Vitória, Des­
têrro, Saúde, e Santo Antonio Além-do-Carmo, sempre sôbre
plataformas e colinas.
Na. parte baixa da cidade havia jã uma aglomeração.
com aproximadamente 2 quilometros de extensão, que for­
mava uma única rua, onde se encontravam tôdas as lojas da
cidade e os trapiches do pôrto.
A falta de terrenos para construir na Cidade Baixa. ex­
plica a um tempo a forma linear que tomou essa parte da
Cidade, acompanhando as indentações da base da escarpa e
o aparecimento dos primeiros sobrados, cujo andar térreo era
utilizado pelo comércio, enquanto os superiores eram a mo­
13.dia dGS comerciantes. Nesse momento começava já' a .:e
esboçar uma especialização de funções, entre a Cidade Alta
e a Cidade Baixa.
No decorrer do século 18, Si prosperidade da cultura da
cana de açúcar e da exploração do ouro refletiram-se SÔbre
a fisionomia da cidade; ela foi embelezada pela. construção
de sobrados dos quais uma grande parte aos maus
tratos do tempo. Podem ser notados no centro, com suas
portas em estilo barroco, esculpidas em pedra e encimadas
pcl' b!"2.sões de nobreza. Foram edificadas diversas igre­
jas; outras, mais antigas, foram restauradas. Receberam,
então, aquela pintura dourada. que hoje é uma das origina­
-1idades--de salvador-.-Eram tão numerosas em 1739 que o
l-­
vice-rei, () -conde Gaiveias, manifestou ao rei de Portugal sua - Em meados do sécu1.o.17, a cidade crescia, em iunção do
inquietude.. progresso do RecÔnca'Vf(). Nesse momento, o centro era
106
--'I' '1"
, '._,..
MILTON' SANTOS
Na Cidade Baixa, construíam-se edifícios de quatro e cin­
co andares; uma rua ..da Preguiça até a Jequitaia,
"tendo de 8 a 9 mil pés de comprimento" e quase no meio
da estreita planície, tendo, entretanto, nesse lugar cêrca de
800 metros de largura; cinco ruas formavam um dédalo de
vilas, pequenas e sujas, conquantc. habitadas por gente rica.
A Cidade tinha já então a fisionomia que guardaram
até hoje as partes antigas do centro, que já estava inteira­
mente construído, exceto o vale onde agora se encontra a
Baixa dos Sapateiros, ocupada sômente no século seguinte.
Durante o século 19, o crescimento da cidade e o alarga­
mento de suas funções refletem-se principalmente na Cidade
Baixa. Fazem-se novos cais sôbre aterros para melhoria do
pôrto. 1!:sses aterros estendem a Cidade Baixa até :o lado
par da rua Miguel Oalmon. O outro lado é pelos
cais. Sôbre êssesaterro,s. são construídos grandes imóveis, de
utiliza,ção comercial sobretudo.
No fim do século, a intr.cdução dos primeiros bondes de
burro permitiu uma maior extensão do perímetro construi­
do, e provoca a migração da pa.ite mais abastada da po­
pulação que abandonava o centro, seja na sua parte alta
como na parte baixa. Esta concentrava todo o comércio
"bem sortido e de gõsto moderno", "localizado pero do ca,is"
e "cujas lojas se fecham durante a noite, tornando-a quase
deserta", conforme está em uma descrJção de 1880
(Durval Vieira de Alencar, Descripções Praticas da Província
da Bahia, Tipografia! do uDlário da Bahia", Salvador, 1880) .
Na Cidade achava-se o centro administrativo e
religioso. Novas casas são consttuídas wrém sem qualquer
ordem. Uma carta real de Dom João V, no dia 2 de abril
de 1739, objetivou resolver'a sugestão. Mas IÍ.ão o conseguiu.
No comêço do século 19, peSsoaS que moravam na praça da
Piedade "queiXavam-Se de' 'que um proprietãrio queria rou­
obar 12 palmOs -à rua, para a.umentar sua casa... sem mes­
mo se preocupar com a dificuldade que isso acarretaria para
FotO 11 Rua Miguel Calmon. No lo. plano, edifícios que se
encontram entre 05 primeiros a serem construidos sóbre os recenres
aterro do pônoo Os prédios no fundo da fotografia são mais
recentes.
(
(
(
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.
(


o CENTRO DA CIDADE 00 SALVA!X1R 10'7
o .tJ:ânsito das seges e outros veículos. H (Madame Luiza Fon­
seca, n. o 24)' FÓi aSsim 'que foi crescendo' a Cidade Alta,
mais ou metIOI:i"assimétricl" acrescentando-seao núcleo inicial
deq.a1o de ruaS, ruelàs e becos que hoje a ca,.
.. · . .
.. , 20 é o das .grandes transformações do centro.
A . introdução dos mecânicOs (o automóvel em
1901, o bo.nde elétrico em 1904) exige a adaptação da ve­
lha estrutura urbana às novas necessidades. E' in.dispeIlSá­
veI' alargar e retificar as ruas estreitas, traçadas para servir
à época diferente.
Nos 8.IlQ3 10, alargaram-se as ruas da Chi­
le, Ajuda e Avenida Sete, na Cidade Alta. Nos anos 20 é na
Cidade Ba.bda· que se fizeram. retüicações e alargamentos:
nas ruas Portugal e Conselheiro Dantas qúe se prolongam
uma a outra, há uma dissimetria, isto é, o tipo e a ida­
dade' das construções não são os mesmos em .cada lado da
rua. E' o lado íinpar que apre:.enta: hoje o maior número
de construções modernas; há quase 20 anos, passava-se o
trário. As obras de retificação fizeram-se sõmente no lado di­
reito, onde, em conseqüência, novos prédios se levantuam.,
Do outro lado as casas··se tomaram velhas e preferiu-se
substitui-las por construçóeB inteiramente nova.c;, sendo es­
ta solução a. menos 'onerosa, por motives.obvias. Aliás', essa
dissimetria vem de mais longe. Em meados do século 19,
. quando. seampUaram. os quebra-mares. para alargar o pôr­
to, .edifícios· que davam. o único lado da
rua Miguel Calmon e sôbre as rua.s Portugal e COIlS. Dantas,
lado impar.;. Por isso é que urbanistas devem ter preferi..
do o lado par, quando quiseram urbanizar a rua, no comê-­
ço dêste século.
.,. , ...
,De > l)lOdo geral, essas z:etificaçÕ"'...s e alargamentos
UJ:ll. mais intenso ea constru­
ção de tt-ovai-C!I.Sa8';-EntretmÍto, as ruas para!ela$ ,e tra...nsver,.
seu . antigo' aspecto . .A construção do novo
Foto 13 - A dissemetria da rua Conselheiro Dantas. Ã direita, prêdios
bem modernos, e à esquerda, edifícios de meia idade.
,
,J
108 MILTON SANTOS
pôrto 'corresponde ao aumento do tráfego em relação com
os progressos da cultura cacaueira. Sôbre os terreJ.1lCS "fa­
bricados" com os aterros, aJ.guns novos imóveis começam
a ser contruídos a partir de 1928, por exemplo na rua Mli­
guel Calmon os do Banco Econômico da Bahia, do Banco do
BrasU, Companhia de Seguros Aliança da Bahia, o do Insti- I
tuto de Fomento Econômico da Bahia, na praça da Ingla- "
terra.
Mas é llI) período cujo inicio fixa.remos em 1940 que o
grande crescimento da cidade, influindo naturalmente .sôbre
I
o centro, vai conduzir a uma transformação mais sensível na.
paisagem. Na Cidade Baixa os enormes vazios começam a
~ , I
st:'r preeenchidoo por uma nova geração de casas com vários
andares, ananha-céus cujo estno é sensivelmente diferen­ i
te do que caracterizara o período precedente; e largas aveni­
das são abertas. As casas mais antigas das ruas Portugal e
Cons. D8;ntas são jogadas' abaixo. Reconstrói-se por tôda.à
I
parte.
Em 1940, na Cidade B a ~ , havia poucos prédios com' 5
andares, que eram maior parte, edifícios coloniais, co­
lados ou quasl à escarpa. A rua Cons. Dantas, que então
era a rua principal, tinha 10 casas com cinco andares, 6
com quatro e 3 com três andares. Exceto a rua Cons. Dan­
tas, apenas a avenida dos Estados Unidos tinha duas casas
com 5 andares e uma com 4: ela contava com apenas 3 imó­
veis no total. Imóveis com 4 andares havia 3 na rua Por­
tugal, um na praça da Inglaterra, um na rua da Alemanha,
um na rua da Argentina. Hoje, os imóveis com mais de 8
andares são cêrca de 50, nessa parte da cidade.
Na Cidade Alta também se procedeu a substituição se­
melhante ao longo dàs vias de éirculação. Não atingiu a­
penàs os prédios mais antigos, mas tambéin os que foram cons­
truídos' durante o perlooo imediatamente precedente. A rua
ChUe 'e a a.venida Sete de Setembro transformam-se. Para
'\ ....
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r7
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os PRÉDIOS DA CI DADE- BAIXA'
L EG &:'11& 'DA. :
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RECENTE-.:. G
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Vel.HOS
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o CENTRO DA CIDADE DO ,111
desembaraçar a circulação abriu·se no centro a grande pra­
ça da Sé, .::acrificando algUns monumentoS, e alargoú-se tam­
bém a rua Carlos Gomes.
Em tôda a Cidade Alta, antes de 1940, 'havia um
imóvel com 8 andares: era um hotel, na rua Chile. Nessa
rua havia ainda um imóvel com 5 andares (outro hotel), três
com 4 e oito com 3 andares. Na rua Ruy BarbOsa havia sete
imóveis com 3 andares e os outros eram mais baixos. Na rua
da Ajuda.• atual rua Padre Vieira, havia um imóvel com 4
andares e sete com 3. Em 1957, a situação é diferente. Na
rua Chile, há dois imóveis com 10 andares, um com 9, um
com 8, três com 7. um com 5, dois com 4, nove com 3, e qua­
tro com 2. Termina-se a transformação da rua Ruy Barbo­
sa; apaJ.'ecem várlosprédios com 8 e 9 andares: eram sete já
em .1957. Um dos lados da rua da Ajuda se beneficia da mo-.
demização da rua Chile, pois os estabelecimentos têm geral­
mente duas fachadas, uma sôbre cada rua. (algumas vêzes
três" se há uma rua transversal, como no caso do Edifício
Sul-América). Do outro lado da rua a; lm6veJs Com mais
de 7 andares são em de cinco, cifra. considerável em
relação à extensão da rua, que é pequena. .
O nódulo do centro alto começou a. perder seu aspecto
linear, pois o comércio e os serviços públicos desl?ordaJ.'aJ;n
sôbre as ruas da Ajuda, Padre Vieira e Ruy Barbosá, lade­
adas, agora, por ediffcios com vários andares. Na rua car­
los, Gomes, paralela-à-avenida Sete de Setembro, altos editi­
cios surgiram. lIlatsncentemente., a' praça da Sé tam.bêm
está, conhecendo os Uúc1cs de sua transformação, pois grau­
dese belos arranha-céus constroem-6e . af.
O aumento do tráfego entre a. Cidade atm' é a. CI­
dade Alta, bem como a introdução do Impuseram
--&abertura-de novas ruas (como a.rua ViscOnde de !l&ilá) ou
i
I
o melhoramento e a diminulçio' de declive de outras exJs..
tentes.
!
I
,
r .....
,---- -------­

112 'MILTON SANTOS
2 -:.. OS ESPAÇOS CONSTRUíDOS
Em resumo, se levarmos em conta apenas a trama das
rúas, encontraremoS no centro da cidade dois conjuntos
um plano regular, os quais são por construções
postas irregularmente e que formam dois conjuntos. Os dois
primeiros resultam, ambos, de uma vontade predeterminada.
. Mas, ao lado dêsse caráter comum, oferecem contrastes, de­
vidOS ao sitio e à idade das construções: um fica na Cidade
Alta forma quase tôda a cidade velha, com suas casas
deterioradas, um plano em xadrez, acomodando-se sôbre um
sítio ingrato; as ruas são estreitas e sinuosas, enladeiradas,
:mal pavimentadas. O outro acha-se na Cidade Baixa, agru­
pando sôbre a planície artüicial ,construções recentes, belas
e bem cuidadas, avenidas largas, retilíneas, bem pavimen­
'
Ao lado dessas duas áreas com um plano regular, as duas
outras, irregularmente dispostas, düerem entre si seja ,pela
forma, seja pela idade das construçõel) . .Assim, derredor
dos dois nódulos em xadrez, na Cidade Alta como na Cidade
'Balxà, esboça-se um dédalo de ruas cuja única homogenei­
dade derivá do fato' de que são tôdas as duas formadas de
velhas casas, acomodanda-se mais mal do que bem às condi­
ção do sítio. Mas, sôbre a estruturá primária velo mOntar
u,ma estrutura secun4áriaj 'esta mesma está em via; de trans­
formação. Sua forma não é compacta, não constituindo ver­
dadeiiâmente uma zona, mas verdadeiras faixas, aO longo 11
dos antigos caminhos, que sé béin recentemente,
!'
dOs modemOS'zneios de cir.culação; mais bon­
. des: ',rua Gh1le,avenida Sete de, Setembro, Baixa d9S Sapa­
. teiros;. as primeirassôbre as dorsais e a 'Última em um
São ruas comerciais, onde se avizInham casas de época::; e
estilos düerentes.
113 o CENTRO DA CIDADE D'') SALVADOR
Não é düícil reconhecer, por' sua idade e fisionomia, a
existência de diversos tipos de construção. nessa parte central ..,
de Salvador:
,1) casas velhas e degradadas, mal conservadas, construÍ­
das em um estilo colonial português, tendo três a cinco an­
dares: são os sobr,ados. Na Cidade Baixa tiveram originària­
mente uma função mista: o comércio e a residência. O co­
mércio fazia-se no térreo e a residência ocupava os andarES
superiores. Mas, na Cidade Alta tinham uma função exclusi­
vamente residencial, comportando geralmente um andar tér­
reo sôbre-elevado 'OCupado com salões, os andares ocupados
com quartos, morada dos senhores e um ou vários subsolos,
onde viviam os escravos e domésticos. A topografia facilitava
a construção dêsses sUbsolos, que não tinham fachada sôbre
a rua;
2) casas maiS! recentes, ditas de "meia-idade", tendo
entre 4 e 6 andares, que representaram uma primeira adapta­
ção às novas necessidades e funções urbanas, nas primeiras
décadas do século 20; são conStruções administrativas ou ex­
clusivamente comerciais, lojas nos andares térreos e quartos
em cima. utilizáveis por "SeI'Viços e hotéis;
3) arranha-céus, tendo, ge.mlmente, seis andares e mais,
em cimento-armado, e de utiliZação exclusivamente comer­
cial ou administrativa., como.os precedentes. Düerem das
casas de meia-idade não apenas por motivo de SUa idade, mas
tanibém por causa e da arquitetura;
4) 'construções baixaS; servitido de armazéns e depó­
sitos, pertinho do' pôrtO;
5) ,as igrejaS e os que, em maioria, datam
408 séculos 17 e 18;
6) as igrejas e os monumentos que foram' construídos
parª- substituir ?Sque desapareceraJllquando da abertura dos
cortes necessárlós à' cirêulação' (Igrejas da Ajudá e de S.
Pedro) .
115
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114 MILTON SANTOS
3 ESPAços VAZIOS
Mas, entre os espaços construidos, há também
tes espaços vazios. Além das ruas e as praças, de cuja evolu­
ção já falamos; ainda temos: .
a) os terrenos resultantes de demolições;
b) a escarpa de falha;
c) as roças dos conventos.
a) Os espaços va2i08 que resultam das demolições surgi­
ram seja da necessidade de alargar as ruas, seja por evolu­
ção natural. O lado impar da. rua Visconde do Rio Branco
ilustra o primeiro caso e um grande pedaço da Preguiça o
segundo. Ambos têm como caráter comum o estarem como
que reservados para a construção, mais tarde, com fins comer­
ciais, em virtude de se encontrarem no coração mesmo do
centro. No caso da rua Visconde do Rio Branco (ladeira da
Praça), as razões que encontramos para êste estado de coisas
são as seguintes:
1) relativa incapacidade das atividades do centro da
Cidade Alta para se criarem um quadro próprio e, em con­
seqüência, o aproveitamento do quadro anteriormente exis­
tente;
2) as ativ:t.dade& capazes da criação de um quadrO pró-.
prlo preferem fazê..lo aproveitando a locaUzaçio comercial
tradicional; por isso constroem sôbre. a rua Chile e avenida
Sete. Entretanto; agora se começa a construir na ladeira .
da Praça, mas é um aspecto 'recente da evolução do (enômeno,
Ugado sem. dúvida à mudança dos pontos de inicio dos trans­
porteS coletivos.
No segundo caso, isto. é, ocaso da Pregt1iça., ae. càusas
são as segui1'ltes: ' . .
O CENTRO DA CÍDADE DO SALVADOR
J
1) distância relativa até o centro bancário: o centroban­
cárlo agrupa as atividades do de negócios da Cidade
Baixa.
'2) a presença, bem perto dêsse centro bancário, de ter­
renos nus, cujo preço de custo é quase igual ao dos terrenos
da Preguiça. fato diminui as possibUidades de cons­
trução.
b) .o eBCarpamento de falha é hoje quase que reduzido
ao· papel de passagem entre a Cidade Baixa e a Cidade Alta.
E' atravessado por ladeiras, íngremes ou atenuadas, e por as­
censores: por um deCreto municipal (n.o '101 de 4 de março
de 1948) .é expressamente proibido construir sôbre a escarpa,
visando à proteção da paisagem. Mas antigamente encontra­
va-se ai 1lin considerável número de construções, de que res­
taram algumas. São sobfetudo casas com duas fachadas,
dando uma sôbre um dos flancos do declive. Jorge Amado
(n.
o
1'1, p. 39) chamau-8S.de ·'casas-eseada" ou "arranha-céus
ao Viee-versa", "como ··se fÔiSSem grandes e bizarras escada­
rias". '.'
c) .O$. terrenos que pertencem.às ordefI.s religioBas cons­
tituem enormes propriedadés, grarÍ.des roças, no coração mes­
mo dà,' cidade: É, certamente, um fenômeno comum a várias
cidades, comO Roma, por exemplo.
. Etn Salvador, conforme já vi;m.os, os conventos estavam,
......._..._......J!einieio, fora das portas da. cidade. Depois, as cases se aper­
······tam derredoJ:. dos mosteiros, mas respeitam semprt' os llmites
das ecieslést1cas, onde, aliás, f1zeram-secons­
truções certamente para atender' a necessidades financeiras
das ordéns. Aquêle fen6merio atenuou-se sem dúvida. em Sal­
vadOr, pois: as ordéns nem sempre ricas foram 'Obrigadas a
eonstruk e a céder lotes mediante um aluguel mensal ou
-anual. Alnda.hoje..ê.treqf1ente verlficar-s6bre a portada das
caaas a existência 'de bras6es que atestam à propriedade dos
CODVeatos:. . .
116 MILTON S'ANTOS
Em 1956, o Convento de S Bento possuía 32casa.s em
suas proximidades, o do Destêrro 29; o de São Francisco 25
e o do Carmo 11. Isso sem contar com as centenas de casas
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que são construídas sôbre terrenoS qesua propriedade e que,
pertencentes 'embora a paItiqtilares,' sãoobrigàdas a pagar
'aos'mosieirOs uma renda"anual: '., " " ,.
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: Todavia, os. terrenos que as ordens para ·seu
próprio uso são enormes. Oomportam as
',ventuais, a Igreja (às vêzes duas, como nocaso'de S. Fran­
:cisco ,e do' e grandes c!i>m, bananeiras e outras
árvores frutíferas. Bem no coração da cidade, cu bem perto,
.Xi1*#' JF,'.'::
.117 o CENTRO DA· 00 S.t\LVADOR
/'
encontramos as roças da CatedraI, e dos Conventos de São
Francisco, CarIDO, São Bento, Destêrro, Lapa e Mercês.
O Convento de São Bento possui 2,564 m.2 para seu' uso
próprio, 13.033 m2 alugados e 10.469 m2 não construfdog.
I'
O Convento do Destêrro, fundado em 1678, tem 15 107 m2
nã.o-.construídos e' as' construções ocupam 6.378 . m2. O Con­
vento das Mercês, tem 21. 283 m2 de área não-construída e
2.937 m2 ocupados com edifícios. O Convento da Lapa tem
14.403 m2 não-construídos e o mosteiro ocupa 3.430. Não
nos fOi possível obter dados nos Conventos da Pie<f:ade, do
Carmo e de São Francisco. Mas, podemos admitir que o,con­
junto das propriedades religiosas ,n.ão-construídas, no centro
da Cidade, atinja 100.000 m2 e perto do dôbro se le.varmos em
consideração os edifícios conventuais e as casas de aluguel,
São números a reter e guardar, sobretudo, em à
superfície dos próprios distritos centrais:'Conceição da Praia
- 277.209 ni2;Sé -' 308.226m2; Passo - 189.296 m2.
4 - AS . CONSEQtmNCIAS DA ESCOLHA DO' smo
UM CENTRO ·EXCiNTRIcO " ,.
Quando a cidade se limitava à área que hoje ocupam os
distritos centrais, nos arredores não havia senão casas espar­
sas. de Souza em ,1587 40, p. 262)
que" . .. a terra que esta. cidade possui e que tem de 6 a 12
quilômetros de volta, é quase tOda ocupada com ponuues.
onde São culuvádOs' frutaS DePois.·a 8glomera­
ção tendo creséido, aparecem' arrabaÍdeS, ligadOs à cidade­
zinha, por primitiVos; Em' '1635 '1ala.se de
çÕeS'pl6speras"(ThàlesdeAzevédó, n.0 21; p" 133)."
.. ... . .". .. '. .. '
J) ,,A. cidacie"primitiva começa a desempenhar um papel de
centro local, .que aumentaráap6s.o-aparectmento de outros
exteriores." O·, papel de· centro, regional, aumentado
pela conquista agrícola ·do' Recôncavo,provoca o, seU

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119
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1,
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MILTON SANTOS 118
mento. A cidade se espalha sõbre as cumiadàs, desprezando
os vales, em conseqüência das contingências do slti'O 'e da
história urbana. (O primeiro vale ocupado foi a Baixa dos
Sapateiros, quase em meados do século 19). A cidade cresce
paralelament'e à baia. A atração do parto provocá a perma­
nência de localizaÇão do centro de atividades onde êle tinha
inicialmente sido instalado e os antigos caminhos l'UI'8Js
transformam-se em ruas, ligàndo os arrabaldes aos bairrOlS
do centro da cidade.
novos bairros, mesmo no comêço dêste século, são
lineares, seguindo as dorsais. Tal forma de expansão impediu
a criação de nódulos comerclaisem todos os balrros e a orga­
nizaçãi> de comunicações entre êIes. '2sse conjunto de fata­
res favoreceu o centro único com uma concentração de ativi­
dades e dos transportes, cujas vias se superp6em aos antigOs
caminhos rurais. O centro tem cada. vez mais uma posição
central, em relação ao resto da cIdade. Hoje, Se é
perfeitamente mas assim mesmo constitui uma,
encnJzDbada, 1lJIl8. encruzilhada em dois andares, de a
circulação urbana.
B-A VIDA
5':"'- A CIRCULAÇAO E SEUS PROBLEMAS
Hâ quatro_grandês siSíelnas .de transpor.tes coletivos em
Sàlvador: na Cidade Baixa, o pl'inleira dêles serve à peninsula
de ltapaglpe e 80s novos baJrros que aCOÍnpanham a rodovia
Bahia-Feira de de Janeiro. ,Os veículos partem da
praça C&lru, na saft:ta inferior do Elevador L&eérda ..Dois ou­
'trOS Sistemas estão na Cidade Alta, servindo às l1nbàs' ch,ama­
das "de cúDa" OS 'quats correspondem,
-modo, àO.s bairros do sur e dó norte,· respectivamente. TMaS
éssâs Unhu tennlnaDt muito próximo uma das outras.· 0$

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t
I
O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
elevadores e planos-inclinados, que formam o quarto .siste­
ma, ligam a Cidade Alta e a Cidade Baixa.
Há dois elevadores, o Lacerda e o Taboão, e dois planos­
-inclinados, o Gonçalves e o Pilar. Substituem os ascensores
e guindastes construidos pelas ordens religiosas para estabe­
lecer ligação com os portos pertencentes aos conventos e
aquêle "elevador engenhoso", construido pelos jesuítas e
observado pelo viajante Jr.a.ncês Pirard em 1610' (Almeida
Prado, n.
O
31, p. 179) . A denominaçãO de Guindaste dos 11:1.­
dores, dada à rua em que fica a sua parte inferior, é bem
significativa.
O Elevador Lacerda, que inicialmente funcionara a vapor,
foi inaugurado em 1869. Depois de 1928 sofreu uma como!
pleta transformação; agora é em cimento-&rmado e mov1do
per eletricidade. São necessários apenas 15 segundos para
uma viagem. bela tôn'e faz parte da paisagem urbana
e constItui uma espécie de cartão-postal obrigla,tório da
cidade.
Em 1957 êsse sistema foi uti1!zado por 37,7 milhóe3 de
sageiros; 105 mil passageiros diárlQs. mais ou menos, dOS quais
a metade utilizou o Elevador Lacerda. Sôbre cada grupo de
quatro pessoas que tomaram o ônibus ou a bonde, uma tomou
o elevador. Tais números dão uma idéia aproximada do grande
movimento de população entre os dois nfveis da cidade, idéia
que pode ser completada levando-se em conta o enorme trá­
fego de automóveis que se faz pelas ladeiras que ligam o co­
ração do centro alto com a Cidade Baixa.
:&:sse conjunto de fatos provoca a concentração da clreu­
laçâ'J, o estrangulamento do trAns1to no centro da cidade.
O crescimento da cidade, a ampliação de suas funções de
rf,!laçãO e .lntimas, o alargamento do espaço reservado ao t»­
Inércio, o. aumento ãa tornaram angustiosa. apas­
sagem de veículos pelas ruaS comerciais, 8Obretudo as m81s
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'120 MILTON SANTOS
antigas; decidtu;.i;e aabertura ou o alargamento de ruas, o
desvio do tráfego, o deslocamento um pontos iniciais, a su­
pressão. de certas paradas e medidas outras, tU(fO no obje­
.tivode diminuir a confusão do trânsito .
. O fatO de se encontrarem as ruas mais antigas exatamen­
te ncig bairros centais traz o agravamento do conflito entre as
formas antigas da organização urbana e as exigências do
tráfego moderno. E' &se trMego do centro de Salvadór que
contribui .a dar uma idéia talvez exagerada do dinamismo
da cidade. Tais ruas eram adaptadas à tração animal. A in­
trodução de veículos a motor fêz-se em um quadro não adap­
.tado; alguma,s. modificações' foram introduzidas, mas foram
entretanto insuficientes' para resolver êsse grave problema.
O a:largamento das ruas Chile e da Ajuda e d.a. avenida Sete
de Setembro, no comêço do século, o alargamento das ruas
Carlos Gomes e Visconde do Rio Branco; a construção de uma
grande praça central após a demolição da. velha igreja da Sé
e de 4 quarteirões das redondezas, a construção de um via..
duto entre essa nova. praça da Sé e a rua da Ajuda, trabalhos
.realizados nos anos 3G,. -são as. principais obras feitas com o
objetivo dereadaptar o centro antigo dl;l. cidade à mtensidade
do Lráfego que diàriamente a anima .
. . "'. Tâ.is readaptações, entretanto, não constituíram uma so­
lução satisfatória ao problema, que se agrava. de mais em
mais .. Outras soluções têm sido adotadas, para permitir aos
veicules andAr mais Até 1943, mais ou menos, os
veículos que partiam do centro para.' a periferia da cidade
sômente .. aos que participam do .sistema da
Cidade Baixa) dirigiam-se todos à Praça· Castro Alves, onde
todos Os da linha ,de "cima" demandavam a Praça
da Sé, enquárito as COletivos da liilha de "baixo" atravessa­
yam 'a, Ajuda, à. rua Visconde do Rio
,(ladeira até. a. rua 01:.. Sapa.tei­
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123
j
o CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR

(
'A primeira mudança que provocou, aliás, muitos pro­
(
testos da população, consistiu em fazer subir pela rua 28 ,.de
(
'setembro os veiculos coletivos da linha "de baixo", descendo
Práça; isto paSsar pela Praça Castro (
't AIyeS. modo, êles não atravessavam a parte mais con­
· gestionada do centro de atividades, não o tocando senão em
,uma de suas eXtremidadeS. A. expansão do comércio, o cres­
, , .
do tráfego, os. quais aumentam na proporção do cres­
cimeItbo urbaqo, determin.ara.m uma dissociaçã.o cada' vez
· maior 'dos pontos iniciais dos ,coletivos, uma verdadeira mi­
(
gração na direção do exterior. Lembramo-nos que há 20 anos
(
todos os transportes coletivos atravessavam a Praça castro
-'Alves' '6 paravam aí . Hoje estão dispersos os pontos de par- (
-tida' dos ônibus' e bondes que' vão para os diferentes bairros.
(
Os ,bondes e ônibus da linha de "cima" têm dois pontos
(
,iniciais: a Praça Municipal e a Praça da Sé. Para a linha (
de "baixQ" o problema é ajnda grave, pois a cidade
(
··continua se ,estendendo na, direção dos bairros servidos por
(
.e8$aS linht\$: . Por isso mesmo, os pontos iniciais são cada
vez mais deslocados. De outro lado, uma parte dos bondes não (
mais. a rua Viscon«;le do Rio Branco desde 1956. Os que
desejavàm se' serVir' dêsses ti-ansportes devem ir procurá-I06
(
na prRÇa.' dos veteranos, nO pé da làdeira ,da NaS horas '.
(
de rush nenhum bonde sobe até o VIadutO. Quem tem neces­
sidade de utUizá-Ios deve 'descer as ladeiras, ou subi-las, se (
deseja chegar mesmo ao coração da Cidade Alta. Os ônibus
(
, param na Praça da Independência, na dos Veteranos, na rua
(
da' noromêço da. rua dr. Seabra, .na ladeira
,da' Praça .F de ver" a extel1Sãodas fiJ.a.s que tomam Jntran..
· sitávêls 'as'ruas transversais,' 'SObretudo à noitinha, quando
(
todos, desejam-regressar, às suas casas. Fato &inda malsre:.
(
'cente é :0 'eStabelecimento do. sentido únicO na ladeira da
Setembro, em
cenas 'horâs' dO' dia; e-durante todo o dia, permanentemente,
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125

1
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124 MILTON SANTOS
(
nas ruas Carlos Gomes e avenida sete de setembro, trecho
a partir da Piedade.
(
Por outro lacro, outras ruas :têm sido conquistadas mala
recentemente pelo tráfego e ajudam a desafogá-lo. Na Cidade
Baixa, embora, todos os coletivos partam da Ptaça Cairu,
( onde fica a salda iníerior do Elevador Lacerda, houve, a partir
de 1950, uma dissOciação do \tráfego dos bondes e ônibus, os
(
plimeiras guardando o camtnho tradicional das ruas Portu­
(
gal e Cons. Dantas e os segundos indo pela rua Miguel Cal­
( mon. E' muito recente a 1nstitUiçãode mão-línica nessas duas
(
ruas.
Na Cidade Alta, .as ruas do Pelourinho, Maciel· e Guedes
de Brito, consagradas ao tráfego para. os b3.irros do norte, 810
atravessadas durante o dia por ''micro-ônibus'', os lotações.
As ruas do Gravatá, da Independência e de santana; são ca­
i minhos dos ônibus que, pela avenida JoanaA.ngél.tca, seguem.
para o bairro de Brotas. Assim, uma parte do tráfego ê des­
viada .da Baixa dos SapateirOs, cnde.sOmente pasaam. os,
(
bondes e OS Ônibus que servem às Unhas de Liberdade, Quintas.
(
e Boledade.
(
A circuIaçáQ dos pedestres . se taz sem JleDhuma dIsd-;
plina. Chega a se tornar. em certos, lugares. Tem
( suas passagens heróicas•.
O· comércio, os gáblnetes Diéd1cos, oá Balões de beleza,
, o sJmples- -trottotr 'elegante aos
(
fins de tarde na rua Chile atraem -umamultldlo de pessoas
que se sucedem em um vaivém Por outro· lado,
ti função de veMadefrB. 'encrwdIhada-'reausadapeJo' 'centro
\
urbano provoca uma'clrcu1ação conslderável -de pedestres,
entre os pontlos de' parada que' ao mesmo tempo- sAó-pontos ,
(
ge correspondência. Uma pewdmJsta
"17,30 . de ·30.000 pes­
lO8S a pé, ,peJa rua Chile· e eêrea -de 35.000 pelo -Tabolo.
"
o CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
Esta é amais curta ligação entre a Cidade Baixa e a Cidade
. Alta, uti1.izad& pelos operários- e pequenos empregadOs para
economizar os 50 celltavos, que é quanto custa uma passagem
pelo elevador.
Devemos acrescentar a êsse quadro os veículos qUe licam
estacionados, seja nas praças, seja nas ruas e ruesmo sôbre
os Não há parques de estacionamento. A praça da
Sé, que é a ma!or, serve como praça de parqueamento e ponto
inictal de um grande número de linhas; é com dificuldade
qUe se podem allnhar uns 50 automóveis. Então os veículos
param em qualquer parte, a despeito das proibições mais ou
menos vistosa! da Policia. Para agtavar ainda mais as más
condições de circulação, há o costume que as pessoas guar­
dam de ficar em pé, durante várias horas, sôbre os passeios,
e mesmo sôbre o meio-fio, na rua Chile e nas ruM Rdjacentes,
a conversar incessantemente: marCHe encontro na rua e
há grupos que se reencontram d1à.riamente às mesmas horas,
para f&lu de poUtlca e de coisas amenas. Atravessar a pé a
rua Chile, após as 1'1 horas, na hora do rush, não é coisa
fácll.
E' nessa. hora que o centro fica mais animado. 0'3 ban­
cos, os maga:dnes, as lojas, as repartições púbUcas fecham
ao mesmo tempo todo mundo deseja voltar para casa, pois
jantar em famfUa ê afuda Um dos bons hábitos do baiano.,
E' a hora critica da circulação e é mais cômodo e rápido ir
a pé da da Sé ê. Praça Castro Alve,s que tomando um
bonde ou ·um ônibuS.
Depols das 20 horas, os bairros centrais se despovoam
dessa multidão inquieta. Há um outro tipo de circulação,
todavia bem menos impoltante, a das pessoas que vêm ptt>­
curar distr8ções,. óu olhar Simplesmente as vitrinas. O mo­
vimento é maior à entrada e à safda daS secções de cinema,
abertos atê·meIa-notte.:Entretanto, as outras porçÕf!S elo cen­
tro estão COmo que adormecidas. Mas é exatamente a -dez
1
(
126 MILTON SANTOS
horas que um outro bairro eómeça a animar-se _ E' o coração
da cidadenotuma, a pr&Çial15 de Novembro, pertinhoda zona
de prostituição, onde prostitutas, vagabundos, marginais de
tôdas as espécies, dão-se encontro em ruas mal' ihuninadas,.
Desloca-se paliiii aí êsse comércio ambulante frutas e c0­
mestíveis, cozinhados ou aquecidoS sob o olhar dos
em pequenos fogões, acesos' em cUna ,dos passeios. O transe­
unte, ainda longe, sente o cheiro forte {las iguàrias afrO:bra$i':'
leiras, condimentadas,com azeite de deiidê epimenta, por n&:
.gras e mulatas vestidas em trajes típicos. Os se tor­
nam movimentados. A polícia afrouxa sua vigilância e as pros­
titutas (a quem é proibido fazer o trottóir durante o dia) p0­
dem sair de casa e se exibir na rua. Isso se passa na Cidade
Alta.
,Nese momento, na Cidade Baixa o contraste ,é enorme
entre os quarteirões dos negócios e a área, mais fe$trita, em
que se pratica a prostituição. Aqui· é uma réplica, embora,
menos característica, do que se passa ,na Cidade Alta, en­
quanto na Cité um sUên,ciocompleto. rompido de·quand()
em quando pelos apitos dos
Essa imagem moderna. de um verdadeiro dédalo, onde
se aperta uma fila multicor e sem f1In de automóveis, quase
imobilizados, que fazem voltas enoIDles para poder vencer pe­
quenas, distâncias, dev&:se a quatro fatôres principais já
examinados separadaIllente: ,. ., . ' "
1) a excentricidade do centro reIª,,..
ção à cidade inteira, e aí ausência de centro.$ secundáriqs ,no;s
bairros-' '
. " , . . _" .
2) a arrumação do
como a Cidade Balxa. a Baixados. Sapateiroseo,
t6rico da, Cidade Alta, ligados. por asCensores, por.planos-in­
clinados e por IBdeir&s; " ' ',;"" "
S) a' concentração' nessa à.rea das' funç6es'd.iretoras da

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vida urbana e regional;
Foro 14 - Eslll parre da Cidade--Baiu. cbamsda alo
CIIOÇOu o último estágio da deterioração. pn!díos em abandono e
, em cuinas. servindo como depósitoS de COOKtUÇÕIeS nos casos
extremOS.
Foro 15 - A tôrre do velho Elevador do Taboão e uma parte da
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.POPULAÇÃO DO CENTRO DA
CIDADE DO SALVADOR
1940 - 1950

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o CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR 129
4) a herança do passado, representada na paisagem par
um plano irregular, muito sem;f:v:eL_não read.ap.
taçães sofridas pelo quadro.' '
O que se passa em Salvador, no próprio coração da.ci­
dade, exprime muito bem a solidariedade dos fatos decfreu...
lação e. de comércio. Outrora, quando todos os caminhos le­
vavam ao centro da cidade, isso favoreceu o desenvolvimento
de um centro comercial, que cresceu ao mesmo tempo que a.
cidade. Essa função comercial provocou um. aumento de cir­
culação na direção da periferia ê espalhou-se ao longo das
artérias principais do trânsito, o que, ao mesmo tempo, lhe
conferiu uma certa inércia. Depois o comércio, cujo domi.;.
nio é disputado por outras atividades, provocoU,por sua vez,
uma circulação muito mais ilitensa. Mas, como as transfor­
mações do centro não correspondem ao crescimento das fun­
(
ções, estas expulsam a circulação, sob a forma de desvio das
correntes do trá.fego, desd'Obramento dos transportes públicos,
ou deslocamento ou supressão das paradas. Mas as ruas que
foram recentemente beneficiadas por essas medidas estão
sendo colonizadas pelo comércio, sobretudo pelo comércio .e
os serviços que se aproveitam de um quadro preexistente.
6 -A POPULAÇAO E SUA DISTRmUIçAO
A população dos bairros centrais da cidade representa
uma forma de utilização do velho quadro. as casas antigas,
casas nobres e ricas hoje. degradadas.. 1!:sse espaço é,
. tanto, disputado por outras atividades, que pouco a. pouCo
expulsam a população de certas ruas, agora pelo
comércio. Isso põe em relêvo o valor dos efetivos demográ­ (
fiC03 aí presentes e evidencia a principal característica atual
(
dessa população, isto é, sua-pobreza.
(
Se compararmosa. populaçãçJ dêsses bairros com a da cida- .
(
de inteira, vemo.; que ela não cesSo,u de baixar desde meados do
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século 18, quandO' corresJl?lldia a 1940,

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o CENTRO DA CmADE DO SALVADatt
não representava mais do que 7,9% e em 1950 cêrca de 4,8% .
EssàS percentagens mostram o enorme desenvolvimento dos
bairros exteriores desde o século 18. Mas tats cifras perdem
muito de significação e são incapazes de dizer tudo; se ana­
lisarmos igualmente os números absolutos. :8:stes, à. primeira
vista, podem causa;r admiração, pois durante os dois últimos
séculos quase não houve mudanças substanciais' quanto ao
número de habitantes dos bairros centrais. Até 1950, en­
quanto o resto da cidade via sua população multiplicar-se por
23, a população do centro ficava quase esta"clonária. Não
possuimos os dados para êstes últimos anos. mas podemos
admitir que tal relação seja ainda. mais expressiva. nos dias
de hoje.
Fim do séc. 18 1940 1950
Bairros Centrais 20.058 22.974 20.580
Bairros Exteriores 17.485 287.469 403.582
TMa a Cidiule 37.543 290.4:43 424.142
ESsa establlidade quantitatíva: não deve a con­
fusões. Ela encobre uma deterioração quà1itailvagraduaI,
representada. numêrlcam.ente pelo a.urnento incessante . d-.s
densidades demográficas de certos setores,(1e certas ruas, em
contraste com' úmà diminuiçio em ou1a'oà, êstes cada
vez mais invadidos por novas atividades. .' .
',' ,
Os dados globais por distrito fornecem o quadro seguinte.
.para flr densldâde humana ao hectare. no fim do século .18,
em 1940 e 1950. São números aproximados:
Fim 81c. 18 1940 1950 .
·Passo ·105 322 377
Sé 30 ft2' , . 29(!
30 85 82 .'
I
" . * ,
. PIlar. '. .7·, 10 '. 4
(
(
(
J • , ___ o - ___ • __ ,_._. _____ _
132 MILTON SANTOS
Tais números não têm um valor em si mesmOs. Curvas se­
melhantes escondem, naverdad.e, de evolução. diferen­
tes. O crescimento da população bem mais significativo no
distrito do Passo entre 1940 e 1950, é muito menos expressivo
que o menos volumoso correspondente ao distrito da Sé,
nesse mesmo período. Na Sé o comércio fêz progressos muito
mais importantes e a abertura de novas ruas e praças re·
duziu a área efetivamente ocupada pela população.
Assim, as números aparentemente mais modestos es­
condem, do ponto de vista da população, uma realidade mais
angustiosa que aqueloutros re1ativns ao Passo. O mesmo se
pode repetir quanto à Conceição da Praia, o distrito mais
marcado pela presença de novas funções e que viu dobrar sua
área desde 'O fim do século 18 (os atu.lhJos sucessivos do pôrto) .
,No distrito do Pilar as cüras mostram um aumento de
densidade entre o fim do século 18 e 1940, seguido de uma
diI:tJ.inuição entre 1940 e 1950. A ausência dé dados para a
,
população
,
nQ primeiro perfodocitado constitui um obstáculo
a uma análise mais exata do fenômeno. Mas, come-os fatos
são relativamente recentes, podemos: arriscar·nos a reconsti­
tuf-Ios. O distrito do Pilar foi o primeiro a conhecer oprccesso
de migração das . famílias abastadas para os bairros exteriores.
foi invadido por uma poplflação pobre numerosa. Os
números relativoo a 1940 exprimem uma evolução diferente:
é. razoável admitir que nesse momento a população eomeçava
jáa: diminuir; nag casas deterioradas instaIavam-se depósitos.
:A cúrva de descrêscimo demográfico, .mais notá:vel entre 1940
e 1950, representa uma conquista mais ativa dessa área por
que a é de outro IMo uma
degtaoação que' atlÍlgia limites extremos.
Pilar corilÍeceu o prOêesso que hoje está se'pàSsando
na Conceição da' Praia: um }>rimeiro período.em que se asso­
ciam comércio e população de comerciantes mais 'ou menos
(
o CENTRO DA CIDADE DO SALVADoa 13:i
(
periodo, com uma migração centrífuga da população rica e
à ocupação das ca.sa.s por uma população cada vez mais pobre,
(
provc-e.a.."Jdo degradação e aumento de densidade; um ter­
ceiro período, oude de um lado a deterioração, muito viva, e
de outro lado a construção de ediffcioo funcionais, a.carretando
a impossibilidade de utilizar essas construções como casas de
residência, trouxeram mais recentemente, como resultado, o
enfraquecimento das densidades. 1!:sse processo, que conduz
à ausência de população, está quase terminado no Pilar (que
em 1950 contava apenas com 2.169 habitantes) mas continua
a se desenvolver na Conceição da Praia, da qual uma parte
- a preguiÇa _·caiu já em degradação completa. Em 1940,
as ruas Manuel Vitorino, Marcfiio Dias e Joaquim MAia
tinham respectivamente, 17, 6 e 5 casas desocupadas e fecha­
das. Em 1950, é ainda menor o número de casas utilizáveis
e hoje restam S'Ômente algtúls esqueletos .
:esse processo é exclusivo da Cidade Baixa, pois na Ci­
dade Alta as casas eram originàriamente .apenas residenciais.
A migraçwo centrífuga das famílias ricas correspondeu à ocu­
. (
pação das casas por famílias da classe média, e depois pelos
pobres. O comércio, fazendo concorrência à população, tam­
bém aparecia, seja transformando o quadro, se êle tinha fôrça
para tanto, seja se acomodando ao velho quadro.
(
O cálculo das densidades tendo por base as divisões ad­ (
. ministrativas pode conduzir a equívocos, pois o distrito da
Conceição da Praia, como tJambémo do Pilar--cresceu' consi";
deràvelmente em área desde I() século 19, em virtude dos ater­
rosdo pôrto. Por' outro lado, é necessário notar a presença
de vastos terrenos pertencentes aos conventos, na Sé e no
Passa, na Cidade Alta. ASsim, tais áreas deverão ser subtraí­
(
:das do total, se quisermos obter uma média aproximativa­
mente ac,eitável. A rigor, entretanto, em virtudE! das modifi·
( ­
:cações sucessivas que sofreram. a área corre3pondente às ruas
I
'e praças do centro deveria também subtrafda. Mas não
abastados, e suaS 'famUias, com um
11
135
13. MILTON SANTOS
dispomos, de elementos seguros para a resultados vá,­
lidos.
Resta-nas o exame das densidades por área construída

que seria ainda mais eloqüente. Todavia, não outras
(
indicações senão para os WlOS de 1940 e 1950. A análise da
evolução demográfica recente muito n, . poderá ilustrar a
respeito do passado, se a associarmos à evolução das demais
atividades presentes no interior do quadro a estudar. Essa
atit.ude permitiria igualmente a utllização do critério das per­
centagens, cuja vantagem é afastar a variante que é cons­
tituída pelo número de andares da.s casas, diferentes em cada
caso, e que constitui um obstácUlo a um cálculo correto da&
densidades .
(
No entanto, o estudo da evolução demográfica recente do
K
centrO' da cidade não nos dará resultados mais válidos se ape­
nas nos utilizarmos de dados globais relativos a cada distrito.
\
'Na verdade, o exame dos dados relativos a cada rua mostra­

-nos que houve um contraste entre a evolução demográfica\do

Pilar e da Conceição da Praia, de um, lado, e do' Passo e ldà
Sé de outro lado. Nos primeiros, o comércio e as atividades
t
complementares ganham terreno e substituem a popWa.ção.
Disso resulta uma diminuição da população, 64,01 % paril o
Pilar e 4,6% para Conceição da Praial, entre 1940 e 1950. En­
tretanto, êsses números estão bem longe de significar tlkl& a
realidade. Representam uma médi&, que não tem valor abso­
luto, naturalmente, pois a evolução não se deu no mesmo,BeD.."O<",
tido no interior de Cada distrito, A mesma contradição Inierna '
pode ser nos distritos, do PaSso e da Sé, que apa­
recem, Il'espectiva.meqte, como tendo tido globalmente um
aumento de população de 1.055 e 502 habitantes. AJíumas
lUas perderam a maior dos seus moradores, enquanto
outras viam multiplicar-se por 2 o número dos habitantes. '
t
resumo, o exame da evolução demográfica recente
, I
I
das ruas do centrO' da cidade (veja-se O' quadro analítico 110 '
! I
,
(
,
O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
,fim do capitulO) conduz a que possamos distinguir quatro
tipos:
1) ruas originàriamente sem população;
2) ruas que perderam seus habitantes entre 1940 e 1950;
3) ruas que se despovoam;
4) ruas onde a população aumenta..
Entretanto, no que se refere aos dois últimos tipos de evO'­
lução. podemos reconhecer diferentes tendências ou ritmos de
crescimento ou de decréscimo, os quais variam segundo per­
centagens extremas.
De modo geral, as ruas 'Originàriamente sem população
correspondem a um certo tipo de paisagem, a. paisagem re­
centemente criada na Cidade Baixa, em conseqüência das
obras e dos aterros do parto e onde foram construidos apenas
ed1fici'OS destinados a não seram habitados (arranha-céus e
armazéns). Areas outras são atualmente despovoadas; êsse
fenômeno resulta de uma evolução e comprova a. conquista
de tais áreas por outras atividades. Correspondem a três
t1pos de paisagem:
1) as atividades capazes de criar um quadro, e que o criam
. efetivamente, substituindo as velhas casa.s por novos imóveis
.dêssJ!:lllQdo a. __,
oUtraS-atiVídQdes que utilizam o qut4dro,mas que por
sua própria natureza expulsam a população: é o. caso das
casas de e prlnclpabnente de importação que
inst8.la.m seus escritórios no Úldàt térreo'e utUizam os an­
dil.res, superi,ores como· depósrto;
':.::,-:,3}finalmente.,{) cC&So- das casa.&,.absolutamente
degradadas e.COIiseqi1entemente. 1ncap8.Ze.s: de receber popu­
. lação. por mais miserável que ela seja.
136
1
MILTON SANTOS
A 1iminuição da população corresponde, em ruas,
à {:rise de moradia e à especulação imobiliária, o que acarreta
geralmente altos alugueres inacessíveis às pessoas pobres, que
são obrigadas a construir miseráveis abrigos ou morar nos
cortiços do centro. Toda.via, tal aumento de população não
é uniforme. Varia de uma rua para outra. Essas variações
não têm um valor .absoluto, seja. porque as ruas em que
já existe saturação recebem naturalmente uma contribuição
demográfica menos importante, seja porque as possibllidades
de alojamento não são as mesmas em tôdas as ruas.
Assim, e ainda de acÔrdo com os dados dos recenseamen­
tos de 1940 e 1950, é possível r.:conhecer certos conjuntos no
interior dos bairros centrais. T3.Ís conjuntas são mais ou me­
nos homogêneos e em média maior ou menor associem carac­
terísticas demográficas, funcionais e de paisagem.
O distrito da Conceição da Praia viu sua população glo­
bal diminuir 4,6%. Com efeito, tendências contraditórias
foram aí constatadas. Enquanto algurr:lB.S ruas se despovoam,
invadidas pelo comércio ou atingidas por uma deterioração
extrema, a zona de deterioração atual, constituída pelas ruas
Lopes· Cardoso, Marcílio Dias, Macedo Costa, Dlonfsio Mar­
tins, Luís Murat, Conceição, Visconde de Mauá, Joaquim da
Maia e Praça Cairu registrava um aumento de população
de perto de 100%.
A praça Calru delimita a área em que a população diminui
e a outra área em que o adensamento demográfico é cada
cada vez mais grave. Há, entretanto, duas. excepções. Na zona.
que .se despovoa, i!ii rua Lopes Cardoso, ao -norte tio Elevador
Lacerda, ainda não teve Os seus SobradoS. ocu­
pelo coméÍ'cio, o que permitiu à sua populaÇão dobrar.
Ao sul da Praça cairu, na área enique a população. àwrienta,
a . rua' Manuel Vitorino representa, igualmente. uma exceção
O CENTRO DA CIDADE DO SALV.\J)OR '137
ou quase, e cujas ruínas servem agora como depósitos de ma­
teriais de construção.
O distrito do PUar acusou uma diminuição de população
calculada em 64%, entre 1940 e 1950. Mas essa percentagem
precisa ser comentada. De um lado, aparece a tendência geral
à diminuição dos efetivos demográficos, que corresponde à
comercialização crescente dessa área, onde, de: um lado, as
velhas casas arruinadas foram utilizadas como depósitos de
mercadorias ou completamente abandonadas, e novos edifí­
cioo foram construídos sôbre os aterros do parto. Assim, a rua
do Pilar perdeu 82,6% da sua população; a rua Maria Quitéria,
50%; a rua Barão Vila da Barra, 35%; a rua Campos: Sales,
16%; etc.. Mas, ao contrário, excepcionais acréscimos de popu­
lação foram verificados, por exemplo, nas ruas Capistrano de
Abreu (80%) e Mascarenhas (30%): são ruas onde a degrada­
ção A avenida Frederico Pontes registra também
um considerável acré3cimo de população, mas o fato nada tem
a ver com a evclução nonnal dessa área. Tal aumento demográ­
fico deve-se, exclusivamente, à presença aí da Base Naval. A
aparência de paradoxo estatístico tem sua réplica em um ou­
tro, na paisagem: vêem-se construções recentes servindo de
habi:ação, o que constitui verdadeira contradição com o que
de modo geral se observa nessa parte central da cidade.
Na verdade, tôda a área de! bancos, do comêrci'ogro!SLsta
e de outras atividades que lhes são subor.runaâas,--Onde se ele­
vam edifícios novos, não teria qualquer população não
os guardas. Na Cidade Alta teriamos uma pálidaÍ'épllca a
êsse fato no CQnjUÍlw formado pelas Praças castro AlveS,
MunicIpal e da Sé e pelas ruas Chile, Ajuda e JOsé Gonçalves,
se' ai não se encontrasseni hotéis e pensões. -'
No distrito da Sé, na Cidade Alta:, o recenseamento mos­
em relação ao conjunto. Sua-população caiu de 34% mais ou tra-nos.um acréscimo de 5,96%. M'as como nos casos prece­
menos; ê uma rua onde as casas degradaram por completo dentes, a realidade é multo mais complexa, talvez ainda mais
I
139
(
(
(
138 MILTON SANTOS
(
( complexa que nos outros distritos pelas ra.zõés que experlmen.
taremos revelar.
( ,
O conjunto formado pelas ruas Ruy Barbosa, Barão Ho­
mem de Melo, ,a; Praça Castro Alves e ruas Visconde do Rio
Branco e Misericórdia registrava uma diminuição global de
20% (ao lado, a rua José Gonçalves perdia. 50% de sua p0­
pulação, mas tal cifra tem up:l8. significação menos importante
em vista das demolições que foram feitas para a construção de
(
um viaduto). Nessa parte do centro da. Cidade Alta acha-se
o centro de atividades principal, alojadas em imóveis novos;
reconstruídos ou adaptados a essas funções. Pelo contrário,
as áreas vizinhas registram globalmente um aumento de den­
sidade relativa ainda maior, tendo em vista não só as demo­
{
lições reaJ.lzadas desde 1940 com o objetivo de
(
a circulação, como a expansão do comércio em certas ruas fa­
(
vorecidas pelo tráfego.
(
Mas, no interior me...C!UlO de cada uma dessas subáreas,
(
o aumento ou 81 diminuição de população corres­
pondente a cada. rua nos conduzem a constatações ricas de
(
ensinamentos. A gama de percentagens também represen­
(
ta processos diferentes 00 diferentes fases de um mesmo pro­
cesso, ou ainda quadros diferentes em que se realiza. um mes­
mo proCesso. Por exemplo, certas ruas registraram um
Incremento demográfico Impressionante, como as ruas An­
gelo Ferraz (240%) e santa Isabel (140%) e também as de
O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
1950 e continua a se estender. Assim, tais números exprimem
menos que. a realidade demogt'áfica.
VimOs já que na área de expansão maior do comércio
população tem tendência a diminuir. Há, porém, outras ruas,
fora dessa área, onde comtatamos a mesma tendênciá. E' o
caso das ruas 28 de Setembro (- 17%), João de Deus
(- 37%), Castro Rebelo (- 10%), e Arestides Milton
(- 8%). Nessas ruas, o fenômeno está relacionado com a
prostituição aí localizada, mas empregando sàmente mulheres
que trabalham durante certa.s horas do dia. ou da noite, mo:.
rando porém, nos bairros exteriores: dêsse ponto de vista elas
estão no mesmo caso que as outras pessoas que vêm trabalhar
diàriamente :no centro - são estatisticamente registradas
como sendo moradoras de outras ruas. Pelo contrário, a pros­
tituição de mais baixa categoria, instalada. nas ruas menos
próxima.s do centro, não constitui um elemento de pertur­
bação na evolução demográfica: a população tem tendência
a aumentar, pois as prostitutas moram no próprio local detra­
balho, onde suportam as mesmas miseráveis condições de vIda
do resto da população pobre que vive nessa área..
E' assim que uma mesma. paisagem, a das velha,s. casas
do centro, pode abrigar duas tendências demográficas dife­
rentes, até mesmo contraditórias. O conj-pnto dos quartei­
.rõeB limitados pela Praça Quinze de Novembro, Anchieta e
José de Alencar e pele. rua J. J. Seabra apresenta uma. certa
bomogeneid8de de paisagem: velhas construções entre as
( S. Francisco (81%), Padre Nóbrega (70%), Inácio Accioly quais se situam1grejas vetu.sf;$.$_...Sua popuJação aumentou
f.. /·
.(65%), Muniz Barreto (50%), 7 de Novembro (42%), Gre­
..
18% entre 1940 e 1950. Essa taxa• .entretanto, está longe de

gódos de Matos.e Querino Gomes (40%) e ainda outras. Tais
índJ.êeS. corre8J.X)ndem a um considerável awnento da densi­
(
dade demográfica nessa. área, fato que os números revelam
( em toda a sua plenitude. pOis se trata de áreas res1dencJa1s.
Mas as percentagens relativas às ruas Alfredo Brito (32%) e
(
Ruy Barbosa (13%) não poauem idêntica signitlcação: são
. representar à realidade inteira. De: um lado, algumas ruas
experimentaram uma evolução positiva (ruas Alfredo Brito,
Gregório de Matas, InáclD Accioly, Santa Isabel, LeOvigildo
FUgueiras, Carvalho. Angelo Ferraz e Muniz Barreto). Se
colocarmos essas ru88 .. p&rt.e,. o ganho demográfico t,erá
sklo da ordem de 40%. Bor outro lado, outràs ruàs
(
·ruas em qué a Comércio estendeu-se largamente entre 1940 e raro sua população, como as ruas João de DeuS. castro Re-
I
(
•••
140 MIT.. TON SANTOS
belo, São Vicente, 12 de Outubro, e a Praça Anchieta. Nesta,
o progresso elo comércio, pequenas indústrias e artesa­
natos expulsou uma parte da população. No conjunto sua
perda. demográfica foi de 22% .Em 1940, a praça' Anchieta
abrigava apenas um armazém e um armarinho n'O lado ímpar
e um cabeleireir,o, um alfaiate e três açougues, um sapateiro
e uma quitanda. no lado par. li:sse comércio, típico de zonas
de transição, está sendo cada vez mais substituído pOt' lojas
. que hoje ocupam quase todos os andares térreos, nos dois
lados da rua. Ao mesmo tempc" as velhas C::t.3as estão sendo
u tllizadas por hotéis e pensões.
No distrito do Passo, cujo incremento demográfico global,
entre 1940 e 1950, atingiu 17,24% o exame do que se passou
em cada uma das ruas nQs; leva a resultados parecidos aos
que observamos no conjunto dos quarteirões da Sé, anterior­
mente analisados, Na rua Luis Viana, por exemplo, a popu­
lação caiu 6%: deve-o aos progressos do comércio e das ati­
vidades artesanais que ocupam os cômod.Js de frente na
parte térrea das residências, o que permite um lucro, 3uple­
mentar aos proprietários ou aos locatários, conforme .0 caso.
Tal diminuição global não significa, porém, diminuição de
densidade. Nas ruas em que o comércio já estava estabele­
cido em 1940, a população, entretanto, aumentou, como na
Praça. José de Alencar (25%), na rua Silva Jardím (20%),
Pode-se admitir, qualitativamente, que os resultados quer
para. essas ruas, quer para a rua Ribeiro dos santos, sejam
muito, semelhantes', oUtras ruas tiveram uma elevada taxa
de inçremento demográfico, como a Praça dos 15 Mistérios
(22%) e a rua Ribeiro dossàntos (37,9%); esta. é quase in­
. t
teiramente residencial e aquela é residencial completamente.
I
Apenas a rua Padre Agostinho registra uma perda demográ­
fica efetiva, isto é, um decréscimo de 75%, baixando de 37
para 9 ha.bitantes:. !st-o se a"'qilica pela. Sua magnífica looali­
zaçiQcomercial' e pelo tipo de casas que a..formam -. são
I
('
(
141
o CENTRO DA CIDADE DO SALVAUOH
casas térreas e sobrados, todos de um só andar, onde se cn­
contramalfaiates, pequenos esc-riMrtos, etc..
Em conclusão, podemos afirmar que no centro da Cidade
do Salvador há dois problemas diferentes quanto à distribui­
ção da população. Na Cidade Baixa, a cidade nova construída
sôbre os aterros do pôrto não tem população desde sua ori­
gem. Pelo contrário, a cidade velha somente residencial na
Cidade Alta e na Baixa acrescentava uma função de
utilização comercial a um antigo papel residencial. Depois,
a distribuição da população se modificou em função dequa­
. tro fatôres: .
1) em certas ruas o comércio se desenvolveu e expulsou
os habitantes, seja peh: substituição das velhas casas por
outras, à müradia, seja utilizando inteiramente
às velhas casas;
2) em outras ruas, a utilizaçã.o parcial das velhas casas
pelo comércio ou pela prostituição controlada acarretou uma
diminuição da população, (J que, entretanto, não significa sem­
pre uma diminuição de densidades;
3) ainda em outras ruas, a. degradação atraiu uma p0­
pulação pobre, que ,continua a crescer, em número e em
densidade;
4) mas, se os imóveis estão em rumas, temos, de novo.

.,
Ao' fím dêsté estudo: podemos reconhecer três períodos
na' formaçaodos'-baittos centràts de Salvador: Dois são ra­
ciónàJs, o primeiro e o último, enquanto a fase intermediária
é'
-
143
(
(
142 MILTON SANTOS'
(
o primeiro período foI de curta duração. Começou com
(
a chegada do governador-geral em 1549 e acabou no fim da
(
século 16. A cidadela tinha ruas que se cortavam em ângulo
reto, um plano propôsttadamente regular, mas defonnado
pelas contingências do sítio. As praças eram largas (a praça
do Terreiro, atual praça.' 15 de Novembro, tinha 870 m2., a
praça do Palãcio, atual Praça Municipàl tinha 290 m2.) .
O segundo, de longa duração, começa nos inícios do séc.
(
17. Durante êsse período a cidade se estende sem nenhum
plano de conjunto, seu crescimento resulta sc]a do dtio, seja de
outros fatôres, como, por exemplo, a existência de grandes
,superfícies, propriedade dos ctDventos, que são responsâveis
pelo desenvolvimento linear; do mesmo modo na Cidade
(
Baixa as exigências do sítio desempenh?m papel idêntico que
( na Cidade Alta. Em ruas tortuosas e
pequenas praças.
O terceiro período, atual, coincidindo. com a ampli1.ção
das funções urba.nas. e a introdução de- transporte,s I!lodernos,
caracter1za..se :
(
a) pelo de cenas ruas e a abertura de pra­
(
ças, nos pontos em que a circulação é maIS intensa, o. que,
tomou passivel a formação de estruturas de
forma linear, mas deixando. quase intactas as artériaS vizi­
(
nhas;
(
b) pela "fabricação" de um sitio, conseqüência dos ater­
(
ros do parto e sô'bre o.S quais criou-se uma estrutura primária.
de forma compacta, co.m largas avenidas, grandes praças,
formadas por ÚDÓveis modernos. .
O sitio, isto é, a escolha inicial da sitio, pesau multo fnr­
temente s6bre a vida urbana. em tôdas:as etapas de sua ev0­
lução.. O primeiro perioda de um. lado. nwresenta um com­
. promisso entre uma vontade criadora e espIanos preeJta-:
belecido.s, e de outra lado, as dificuldades oferecidas: pelo sitio
O CENTRO DA CIDADE 00 SALVADOR
à sua realização. Dai a deformação dos contomos,conquanto
se passa, mesmo hoje, r.econhecer o desejo dos fundadores de
construir uma cidade em xadrez, linhas que ainda estãoní­
tidas no velho centro da Cidade Alta.
O segundo período representa um compromisso entre .o
sitio. e as condições sociais e econômicas, daí a extensão linear
do organismo urbano, sobretudo sôbre as dorsais, bem como
uma certa dissociação de funções.
Durante o terceiro e último período, a cidade começa a
dispor de meios financeiros e técnicos mais importantes, em
conseqüência de seu desenvolvimento econômico. Tais causas
provocam, de um lado., uma adaptação consciente às exigên­
cias do sitio, e de o.utro lado a modificação das condições
topográficas, parcial ou totalmente. Modificação parcial,
com a construção e abertura de novas ruas em ladeira, para
comunicação da. Cidade Alta com a Cidade Baixa, ou o nive­
lamento das ruas antigas. Modificação total, com a "criação"
de um no.vo sitiO, justaposto ao sitio inicial, com a planície
artificial da Cidade Baixa, pertinho do parto.
Se êsses três períodos se sucederam no tempo, cada um
dêles não elimina, porém, as conseqüências do período ante­
rior, na elaboração da paisagem e da estrutura' interna da
cidade, especialmente do seu centro .
A paisagem urbana atual é f.armada de elementos que
a trêS fasçs,_ heterog(meidade.
Da primeira., entretanto, não resta-senão-otraçado das ruas,
pois as casas, com um material muito frágil,
durante o primeiro sécUlo. da colOnização, foram substituidas,
desde a fim do século 17 ou começos do século IR. O se­
gunda período se nota na paisagem pela presença das igre­
Jas, dos palacetes e sobrados e enormes espaços vazios 'perten­
centes aos mosteiros. O terceiro perlflCl$:rse Caracteriza pelas
casas de estllQs; e idades diversas, heranças das fases prece­
dentes, -mas· sua pr6pria contribuição são os· edJficios··
(
(
(
.;p;;çp +=
144 MILTON SANTOS
nos, OS arranha-céus, sejam os da Cidade Baixa, sejam os que
foram construídos ao longo das ruas comerciais na Cidade
Alta.
O problema dos transportes é a conseqüência não só da
excentricidade do centro em relação ao resto da cidade, como
da presença n"OS bairros centrais de elementos concebidos para
uma época em que as exigências do tráfego eram diferentes,
quer dizer, resulta sobretudo· da influência do processo
de formação da paisagem sôbre a fase atual da vida urbana.
A análise da evolução demográfica nas düerentes "sub­
areas" do centro de Salvador nos conduz a: reconhecer a exis­
tência de certas relações entre população, paisagem e fun­
Tais relações são complexas, porque:·
1) a função pode criar uma paisagem, mas pode tam- .
bém aproveitar-se de uma paisagem preexistente. Por outro
hd<1, a mesma paisagem pede servir a funções diferentes, as­
sociàdas ou não no mesmo prédio. Ora, êsse modo de
veitamento não é sempre o mesmo e não é sempre feito inte­
gralmente;
2) disso resulta que uma mesma paisagem pode escon­
der evoluções demográficas diferentes . Por outro lado, a mes­
ma função pode também provocar diferentes resultados de
um ponto de vista da população.
Tal complexidade, entretanto,. não se enquadra com as
tendências gerais da evolução demográfica, em relação à pai­
,sagem e às funções, o que ass1mresumir: certas
.atividades. eómo o banco, o comércio groSSista e· atividades
,complementares econexas, O· comércio de luxo, têm tendên­
cia a expulsar a população do centro da cidade, tendência
que é tanto· mais forte quanto mais capaz de criar-se um
quadrofôr a a.tividade. Por outrO lado, as áreas vizinhas, o
quadro. não atingido pela expansão das atividades do
centro, têm tendência a ver sua. população,a.té
que.a degradação dos imóveis toma impossível a moradia.
I
Foto 18 - Nessa fotografia aparece bem nítida a justaposição das
duas paisagens da Cidade-Baixa. No primeiro plano, os quartei­
rões de transição, onde duas concepções aquitetônicas entram em
choque, com o progressivo triunfo de arranha-céu.
Fottl 19, - No primeiro plano, um edifício da primeira fase das
novas construções na Cidade-Baixa. Todos os demais são bem
recentes.
I
145
(
(
(
(
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í
{
(
(
- .
Foto 20 - O velho e o novo a poucos metros de
distância. -E' ai que funcionava a chamada,"Bolsa
dos automóveis", até que um incêndio devorou,
há poucos meses, o' prédio antigo e um outro,
vislnho
EVOLUÇAO DEMOGRAFlCA
( 1940
SUB-DISTRITO DA OONCEIÇAO
10
O
149
O
O
O
30
O
O
O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
DO CENTRO DE SALVADOR
1950)
Dim.
'/,
34,9
16,6
100
82,1
960 106
O
. 101 32.2
O
O
O
O
O
118
POpa P O P . - ~
RUAS E PRAÇAS
1940 1950 "/o
O O
O O
O O
174 264
O O
O O
O O
5 IJ
O O
O 172
15 86
(Cóntlliür-­
146 MILTON SANTOS
o CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR 147
(Continuação)
EVOLUÇAO DEMOGRAFICA DO CENTRO DE SALVADOR
Pop. Olm.
lUAS E PRA,AS ( 1940 - 1950)
1940
~ : ~ l A ~ .
%
SUB-DISTRITO DO PILAR
Luiz Murat ......... . 12 181 124,2
Macedo costa , •.....• 134 188 23,4
Manoel Vitorlno ..... 279 381 34,2
Marcilio Dias .......• 233 243 4,2
Mercado Modêlo .... . O O
Miguel Calmon ..... . 20
Naus ................ . 155 278 79,3
Pedro Bandeira ..... . O O
Pinto Martins ...•.... O O
Polônia. ........... .. O O
Portugal ............ . 14 4 71,4
Rodrigues Alves ....•• 19 20 5
Santa. Bárbara ..•••.• O O
Santos Dumont •.•.•• 36 O ,100
São João ........... . O O
Tup1namoú .. ••••.• O O
Vidal de Negreiros .•• 16 24 66,6
Visconde de Calrú " .. 36 88 138,8
VJsconde de Mauá ... 55 239 334,5
Visconde do Rosárlo .. O O
lUAS E PIAÇAS
Pop.
1940
Pop.
1950
Aum.
%
Dim.
%
Barão Vila da Barra .. 442 1'18 80
Beira Mar .......... ,. 15 O 100%
Botelho Benjanún ... . 4 100%
Ca.is do parto ....... . 35 100%
Campos Sales ..... ". 501 419 19,5
CapJstrano de Abreu.. 34 60 76,4
Conde d'EU ......... . 8 3 62,5
Conde dos Arcos .... . O O
Cruz Machado ...... . O O
Diogo Dias .......... . O O
Elias Nazaré ........ . 50 100%
Espanha. ............ . O O
Estados Unidos ...... . O O
Fernão Cardin ........ O O
França ..............• O O
Frederico Pontes ..••. 814 867 8,8
Holanda ............• O O
Marechal Deodoro ..•• O O
Maria Qultérla ....... 533 120 48,7
Mascarenhas ••.••..• 78 100 31,1)
Pilar ..............•.. 538 94 82,3
Riachuelo ........... . O O
S. Franclseo de Paula. 240 230 4,3
Suécia. .............. . O O
Torquato Ba.b1'a. ..... . O O
; ... A
I
149
(
(
14a MILTON SANTOS o CENTRO DA CIDADE DO sALVADOR
(
( EVOLUÇAO DEMOGRAJ1CA DO CENTRO DE SALVADOR
(
( 1940 - 1950)
(
SUB-DISTRITO DA Slt
(
(
Pop. Pop. Aum. Olm.
lUAS E PRAGas
1950 1940
( % '/0
(
Anchieta ............
( Aristides M11ton ......
Bento Lisboa. ........
Bonltácio Costa ......
( Oastro Alvés .........
castro Rabelo .......
(
Oh1le ................
D. lerônimo .........
12 de Outubro .......
( Frei Vicente .........
Getúllo santos .......
\
Greg6rio de Matos •..
( Guedes de Brito ...•••
Inácio Aceioly ........
loão de Deus ........
( losé Gonçalves ......
lul1ano Mo.re1ra ......
(
MIser1c6rd1a .........
MonWAlveme •......
(
Xunlc1paJ ...... , .....
Muniz Barretto ......
Padre N6brega. ....•.•
Padre Vieira. ...... !..
( Quertno Gomes .•....
1& de Novembro.......
(
Rodrlgo Btlva ........
(
Ruy Barbosa. ...... ; ••
289
I
28,4 393
156 143 I '7,6
9'7
I
8,4 108
I - -
2 7,7 9
86 10,4 96
2'74 23'7 16,5
- - - -
15 10 33,3
401 385 4
41 4,8 43
521 719 38
238 2M 1'1,9
156 266 70,5
508 320 3'7
183 84 48,4
183 15'1 3,8
83 48
I
28,9
41'1 419 0,4
- - - -
206 328 80
'i'8 133 '10,'1
128 85 33,6
41 58 41.4
101 111 9,9
94 78 19,1
5.,.,
853 18,1
- -
(
(
I

nUAS E PRAGAS
Saldanha da Gama "1
Santa Isabel .........
São Franc1seo ........
São Miguel ...........
Sete de Novembro ....
Tomé de Souza ......
Três de Maio ........
24 de Malo ...........
28 de Setembro ......
VírgUlo Dam.ásio .....
Vise. de Itaparisea '"
Visc. do Rio Branco ..
Pop.
1950
362
43
237
30
182
39
208
73
683
577
238
Pop,
1940
387
104
593
38
·231
24
249
90
568
L
653
144
(COntinuação)
-
Aum. I Oim.
% %
--I-­
8,9
141,8
81,3
20
42,5
38,4
19,i
23.2
18,8
13.1
39,4
EVOLUÇAO DEMOGRAFICA DO CENTRO DE SALVADOR
( 1940 - 1950 )
SUB-DISTRITO DO PASSO
Pop. Pop. Aum. Olm.
lUAS E PRAGAS
1940 .1950 % %
Agostinho Gomes ..•. 37 9 75,'1
Oarmo .............. . 44IJ 432 1,4
Oustódio de Melo ... . 89 88 1
Deraldo Dias ....... .. 53'1 592 10,2
Eduardo Oarigé ..... . 214 204 ·5,1
Gregório de Ma.tos .•. 182 86 8,8
.roão de Brito ....... . 89 8'13 24,8
loaquim Távora. .... . 874
'708 .
losé de Alencar ..•.•• 588 535 7
Luiz Viana. ...... •..•. 553 225 3,2
Peth10n de Villar ...• 198 204 3
15 M18tér:tos .•..•••••• 116 22
Ribeiro dos Santos ., '\"
Silva lardim ....... ..
924
509
1.270
812
37,3
20
(
150
,.1
Plp. A••• DI.
Su b-distritos Ruas
1948 1151 % %
Angelo Ferraz .... Passo e Sé 20 68
240 1
LeovigUdo Carvalho Passo e.Sé 185 202
10 I
I
Alfredo Brito ... , . Passo e Sé 689 917 32
Conde d'Eu ....... Conceição e PUar - - - -
Cais do Põrto ..... Conceição e PUar -
- -
MILTON SANTOS
RUAS QUE FAZEM Pl\RTE DE DOIS SUB-DISTRITOS

,
I
li

,l
.
"1

..l
"

rI
CAPíTULO IV
A ESTRUTURA URBANA DOS
BAIRROS CENTRAIS
A análise da elaboração da atual fisionomia dos bairros
centr.a.is da cidade - sua evolução através de quatro séculos
- e o estudo das funções que abriga - seu dinamismo atual,
- revelam uma certa interdependência entre o aspecto e as
funções, entre paisagem e ccnteúdo. Atividades capazes de
criarem-se um quadro, atividades qUe aproveitam de um qua­
dro' preexistente e o adaptam às suas necessidades, ---.: ativida­
des 'que' diretá ou indiretamente 'destroem ou acabam de des­
truir um quádto preeXistente 'são, tôdas eÍas, bem -significa­
tivas deSsa verdadeira rélaÇão dé causa e' efeito entre forma
e função, aspectos estruturais que vamos agora analisar.
A) , TIPOS DE CONSTRUÇõES
1) OS ARRANHA-ÇltUS"
(
Os arranha-céus são o símbolo das atividades que foram
(
capazes de' se criarem um quadro. E' por esta última razão
que no estágio atual, quando é. maior a atividade
(
financeira e comercial da cidade Na Cidade Baixa são COM- (
(

.'
I
153
,
(
(
MILTON SANTOS
:t
152
\
(
trufCkls para acolher OS bancos, as companhiaS' de seguros, as
(;.8.S8.S de importação e exportação, os escritórios de fábricas,
(
os serviços públicos. E' freqüente, também, que os andares
superiores sejam ocupados por atividades direta ou indireta­
mente ligadas àqueloutras, como as agências de navegação,
#,'
os representantes do comércio, os comissários, os advogados
(
e outros. Na Cidade Alta, sobretudo, os serviços públicos e o
(
comércio são os responsáveis\pelas modificações de aspecto
do quadro. Em certos casos, os novos ediffcios são construi­
dos especialmente para abrigar grandes magazines, ou casas
de comércio de retalho. Mas-, a procura cada vez maior de
(
saJas para alugar nas ruas centrais incitou os construtores a
( fazer edificar, seja para alugar, seja para vender separada­
mente, locais para comércio de luxo e salas para. advogados,
(
médicos, dentistas, emprêsas de construções, etc ..
são QS bancos que sobretudo contribuem para essa re­
(
volução arquitetural. 1!:J.es fazem surgir uma paisàgem in­
(
teiramente nova. na Cidade Baixa, ao lado e mesmo em subs­
( tituição aos velhos sobrados, que pouco a pouco se deterioram.
A importância da função bancária na vida urbana antes


( de se medir pelo volume de negóciQg que realiza, ou' pelo

número de guichês que mantém nQS diversos centros comer-'
ciais pode ser constatada pelo próprio quadro que' criou para t
'::'
'i
servi-la" na Cidade Baixa. ' ,
·,1
Há ainda grandes e velhas casas '"
da rua: Cons. Dantas, artéria. por onde passavam, en.tio,
(
todos os veiculos coletivos para rtapagipe, e os velhos sobra­
dos das ruas e Santos Dumont que abrigavam os
(
bancOs e as instituições parabancárias. Vá.rios, conservam
(
&inda essa antiga localização, seja porque visam,'agora., a,uma
pr6xfma transferência, seja porque não' possuem fundOs su­

ficientes para enfrenf;aX 1lli1á'ixitidança. Todavia, os maJs ricas,
como aumento de suas' atividades, ,fizeram construir sedes
',.--­
próprias, imóveis ,dotados de instalações que ,a um tempo
O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
facilitam os negócios, atraem os clienteS' e dão um testemun.'t1o
de sua fÔrça. Aproveitaram-se dos terrenos vazios resultan­
tes dos aterros do pôrto e ai puderam se arranjar em grandes
avenidas, onde suas exigências de circulação livre são intei­
ramente satisfeitas. Não é raro igualmente que os constru­
tores de novos edifícios des'tinados a fins comerciais rec;er­
vem, no andar térreo, grandes espaças destinados a acolher
sedes bancárias.
Por outro lado, devemos reconhecer duas fases distintas
nessa influência da função bancária sÔbre a evolução da
paisagem na Cidade Baixa. A própria arquitetura dos edifí­
cios o àCusa.. Durante o primeiro período e com a utilização
dos aterros então recentes, vários imóveis foram construidos
pelo Banco EconÔmico da Bahia (1928), Banco da Brasll
(1934), Instituto de Fomento EconÔmico da Ballia (1937) ,
Companhia de Seguros Aliança da Bahia (1937) e outros. O
segundo período, que reflete a nova onda de desenvolvimento
da cidade, corresponde aos últimos anos. Os belos edificios
do Banco da Bahia, do Banco do Comércio e Indústria de
Minas Gerais, do Banco Irmãos Guhnarães, do Banco Ser­
gipense, o novo imóvel da Companbia de Seguros Allança. e
outros, edificados segundo as mesmas influências, ilustram
&se fato de modo bem significativo.
Há assim. três gerações de ediffciós bancários na Cidade
Baixa. Os mais &Iltlgas acolhem os bancos menores, que têm
uma irradiação urbana ou regional. Os mais importantes se
alojam em imóveis modernos ou de meia-idade. As constru­
ções mais recentes pertencem a bancos poderosos, que acu­
.pavam blstalaçóes inadaptadas, ou a agénc1as loca.ts de ricos
bancos de outros Estados ou pafses. As construções de meJa...
idade abrigam os bancos e instituições parabane4r1as igual.
mente ricos e poderosos, mas que foram OS primeiros a aban­
donar os imóveis mais antigos, quando da primeira. fase
de transformação do centro. Sua arquitetura é a mais repre­
sentativa àa época em que foram construidos.·
155
,......-...,.-.--,....
154 MILTON SANTOS
Afora o banco," aS atividades parabancáriaS como os
seguras,: pOr exemplo, fazem surgir"novas construções não
sômente'rià Cidàde' Alta:mas prfucipalmente na Cidade Baixa,
O grande comércio de eXportação e importação, concentrado
nas proximidades' do pôrto, também constrói seus imóveis
onde se aloja. Os serviços públicos fazem o
mesmo. Encontram-se na' Cidade Alta, em sua maior parte,
Alguns, entretanto, passam agora por um processo de mi­
gração: são aquêles serviços que têm maior interêsse em
Ocar perto dopôrtó e do centro de atividade financeira. Os
grandes'mag,àziiles' '(DUas' Américas, Florensllva, Casa da
Músiéa; etc.) fazem cohstruir seus próprios edifícios, ao longo
das avenidas' na Cidade Alta, mas também se constroem ar­
ranha-céus para abrigar lojas nos andares térreos e serviços
nos andares, '
A. simples, enumeração das atividades que .são capazes de
se cria!elll.!llIl ,qua;dro. próprio revela que a Cidade B8.bra,
onde é .a. parte da cidade que sofreu as maio­
res da construção de ar­
: .as áreas. livres resultantes
dos ateUos.doMrto e .um,'grupo compacto, cada
dia aumentado, para substituir ,as . velhas casas das ruas Mi­
guel Calmon, Cons. Dantas e Portugal. Enquanto que no dis­
tr:ttc)da Conceição da Praia, onde se encontra o centro ban­
-a' relação "entre' área de piSo e área coberta era de 15,9
em 1952, ém: S:'Pedro'era de 5,7, no Piblr era de 2,8 e em
. Brota.s de'1,4-,' sãO Pedro é um ba1n:o metade res1denc1&xe
metade' comerciál, os eixos da circulação, ná Cidade
Altá', 'Brotas é "UJUbalrr.o inteiramente residenciaL Agrande
difêrénça em favor da. Conceição da Praia deve-se ao grande
número doS edifícios em altUra, 'os àrrariba-céus que'
mente foram construídos," . .. '- ,
, lITa.:Cidade Alta a adm1n1stração,pÜbl1ca e o comércio
11.111:0' são aS pOdem transformar o
r---.
O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOH
As atividades nece.ssârias sQbretudo à cidade e ao interior do
Estado refletem a sua pobreza e não dispõem de recursos
comparâveis àquelas que serviram à. considerável e rápida
modernização da Cidade Baixa. Os novos edifícios são cons­
truídos dos dois ladQs das ruas onde' passam os veículos de
transporte coletivo, quase seguindo o antigo traçado, SO­
mente próximo à rua Chile, que é o coração do centro da Ci­
dade Alta, é que recentemente se mostrou uma tendência a
não guardar mais êsse plano linear e três pequenas ruas pa­
raleIas' recebem agora um povoamento de arranha-céus
(Ajuda, Ruy Barbosa, e Padre Vieira) .
Mas, enquanto na Cidade Baixa. as construções modernas
se agrupam, não só reduzindo como comprimindo contra a
escarpa o núcleo das velhas casas, na Cidade Alta os novos
edifícios constituem uma· espécie de faixa que se desenvolve
ao longo das vias de circulação, ladeados, nas duas margens,
por casas mais antigas, Isso quer dizer que as ruas vizinhas
guardam quase a mesma fisionomia, E' u:masituação provi­
sória, conseqüência da conquista mais ou menos lenta que de­
verão sOfrer cedo ou tarde. E' por isso que nas ruas ocomer­
ciais do centro alto arranha-céus são vizinhos de casas de
trleia-:idade. . Os arranha-céus. assim, o . resultado da
evolução' da da necessidade de concentrar sôbre es­
paços. relatiyamenterestritos o maior número possível de
atividades; são. construídos visando também obter, sôbre um
determinado espaço, a maior renda. A construção em altura
é necessâria em virtude dos preços elevados atingidos pelos
terrenos nos bairros centrais. E' mesmo um círculo vicios.o,
pois a concentração das atividades nos arranha-céus conduz
ao enca.recimento dos terrenos. N.o ano de 1957 o Banco do
Brasil expôs à. venda 394,45 m2. de terrenos de sua proprie­
dade, na Cidade Baixa, na esquina da avenida dos Estados
Unidos com a rua da Argentina, pelo preço mínimo de 6
milhões de cruzeiros, isto é, 15 mil cruzeiros o metro qua­
drado, Os terrenos vizinhos resultantes também dos aterros

,
\
157
(
156
MILTON SANTOS
\
do parto foram vendidos pela companhia cessionária das
(
Docas da Bahia, em 1922, a. 180 cruzeiros .o metro quadrado.
(
Em 1941, o preço médio era de 300 cruzeiros por metro qua­
drado. Um particular que a essa época adquiriu grandes
lotes, não os quer vender hoje senão ao preço mínimo de
(
15.000 cruzeiros o m2., isto é, a um preço 50 vêzes mais
(
alto.
(
:Itsse aumento de preços cria um certo otimismo entre os
proprietários e anima tôdas as formas de especulação imobiliá­
( ria, contribuindo, dêsse modo, para agravar o problema da re­
cuperação dos velhos edifícios que se degradam ainda. mais
(
depressa.
(
(
2 - OS ARMAZÉNS E TRAPICHES DO PORTO
Ass1m como os arranha-céu.s, os depósitos c.onstruídos
(
peito do parto representam, também, atividades capazes de se
criarem um quadro próprIo. Pertencem, na maior parte. dos
(
casos, a emprêsas de importação e sobretudo de expor.tação
(
e se chamam. trapiches. Mas, além dos armaZéns do parto,
(
há outros que pertencem a emprêsas especializadas, c..omo a
Companhia dos Armazéns Gerais, .organizada pelo In.stituto
de Cacau da Bahia desde que o grosso da exportação de cacau
se passou a fazer por Dhéus, não mais por Intermédio de Sal­
(
vador. São construções especiaJiZádas, levantadas para servir
( à estocageJ;n da. grande massa. de mercadorias. mÍlnipuiadã:-­
por um parto cuja capacidade de carga e descarga é sabida­
(
mente pequena. 'São construções baixas,. em sua quase tota­
(
lidade, formando um único corpo de construção; estão sLtua­
das junto aocats, como Os armaZéns da companhia concessto­
nária do pôJ.1;o, os quais passuem um caráter público, ou €ntão
entre o parto e a estação da estrada de --à Calçada, ao.
longo da avenida Jequttafa, onde se encontram os trapiches
das emprêsaa part!cula.res.
I
O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
3 - AS CASAS DE "MEIA-IDADE"
Entre as construções do centro de Salvador, afora 0.<; ar­
ranha:-eéus,os armazéns: e os cortiços, há, entretanto, as edi­
ficações que apelidamos de casas de "meia-idade". Essa,c; ca­
sas de meia-idade representam uma primeira fase de expan­
são da cidade e do seu centro, de adaptação aos modos de vida
modernos e de valorização dos terrenos do centro. Surgiram,
em maioria, aproveitando as demolições que foram feitas para
servir às novas necessidades do trãfego nas ruas de maior
circulação, como as rua.s Chile, Misericórdia, Ajuda e avenida
Sete de Setembro, na Cidade Alta, e ruas Portugal e Cons.
Dantas, na Cidade Baixa. Ta.i.s casas de meia-idade são, IJor
O'1ltro lado, os primeiros edifícios construidos sôbre os aterros
do parto, de qUe nós já falamos quando realçamos a influên­
cia do banco sôbre a transformação do quadro urbano.
A construção dessas casas de meia-idade fêz·se segundo
objetivos determinados, pois representavam, então, as ativi­
dades capazes de se criarem um quadro. As instalações., en­
tretanto, e,tavam adaptadas já às novas funções que a cidade
via: criarem-se. E' o que explica a sua .resistência, mator que
a das velhas casas, à degradação e à demolição, defronte da
vaga de construções de arranha-céus, ao lado dos quais sub­
sistem nas ruas anteriormente mencionadas. Na Rua Chile,
par exemplo, apenas 7 entre a, 24 casas que a constituem
são recel!te. As demais são de meia-idade.
Tal fatoreve1a,entretanto, um processo de substituição que
está em marcha. Tais construções só são demolidas por uma
questão de mais-valia, quando, em conseqüência da procura
de locais, os terrenos sôbre os quais se encontram atingem
uni valor tão elevado que é preferível corlBtruir novos edifí­
cios, ainda mais altos, no lugar que ocupavam casas de ape­
nas 20_•. 30 ..preço dos terrenos nas ruas vizinhas,
constituídas. por quarteirões in$alubres e degradados, nicl é
sensivelmente ma.1s baixo; então é preferível construir ao longo
158
MILTON SANTOS
das ruas onde há garantias de obter um melhor preço de
venda ou de aluguel por metro quadrado de construção. E' .o'
que explica que uma tal substituição se dê nas artérias co­
merciais onde se exercem atividades capazes da criação de
um quadro, como nas ruas Chile, na Cidade Alta, e Cons.
Dantas, na Cidade Baixa.
Na rua Chile, por exemplo, .onde arranha-céus muito
modernos são vizÍnhos de casas' de meia-idade, há 4 bijute­
rias, 5 casas de moda.s. femininas, 7 de arUgos para homens,
7 lojas de variedades, 3 de material fotográficO, 3 de discos,
3 bombonerias, 3 casas de artigc<s de turismo (lembranças da
Bahia), 4 lojas de artigos para crianças, 1 grande magazine
de tecidos e 4 magazines com multiplas secções. Além disso,
há ainda 4 hotéis, 5 bancos, 2 sorveterias, 3 institutos de be­
leza, 2 livrarias, 3 agências de companllias de aviação, 1 agên­
cia de turismo e dois salões de chá. Os médic.os sã;} 71; :03
dentistas 33; 39 os advogadus; 14 os agentes de coméJ.'cio; 9
as emprêsas de construção e apenas uma casa de exportação
de pedras precioo·as.
Tôdas essas atividades, conforme vimoo, são capazes de
prOVOCll" a construção de novOs edifícios ou a readaptação de
antigos: são tôdas capazes de pagar altos alugueres. Os con­
sultório,5 médico<s, de dentistas e de advogados são alugados
a cêrca de 200 cruzeiros o metro quadrado. O mesmo espaço
no andar térreo vale um preço 20 vêzes mais elevado.
'4 - OS CORTIços
As atividades que não têm fôrça para criarem-se um
quadro alojam-se em um quadro preexistente. Assim. OiS pa­
lacetes e sobradões' envelhecidos, que perderam seu antigo
papel de residência dos nobres e da gente rica, conhecem
agora outras utilizações. Alguns servem exclusivamente à re­
pobre. Outras abrigam, no andar térreo, urncom:ér-
I
O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR 159
cio de transição ou artesanato' e nos andares servem como
residência pobre, nas ruas contíguas ao....centro comercial,
onde se beneficiam da passagem dos transportes coletivos.
Alguns outros têm apenas uma utilzação residencial. E' o
caso das ruas maJ.s próximas do horst e das ruas da Preguiça,
na Cidade Baixa, áreas ainda não atingidas pela expansão
dos arr.anha-céus. Na Cidade Alta é o caso da maior parte dos
distritos da Sé e do Passo.
Os cortiços são o resultado da degradação progressiva
dêsses velhos casarões e sobrados, construídos no centro da
cidade quando essa era a parte residencial rica.
Um belo exemplo de palacete, reduzido hoje à condição
de cor·tiço, é a chamada Casa da.s Sete Mortes, o n.
o
24 da rua
Ribeiro dos Santos, bem perto do centro de atividades da ci­
dade. E' uma casa que possui uma longa história, misturada
de lenda e da qual se conhecem múltiplas versões, a propó­
sito das mortes que as suas grossas paredes teriam presen­
ciado. E' daí que lhe vem êsse nome, conquanto as mortes tives­
sem sido apenas 4, segundo os depQimentos da época ... Em
1795, o juiz do Tribunal desejou punir os a.ssassinos.
A construção dessa casa data do século 18. Ela foi a re­
sidência de gente rica, com um andar térreo e dois andares,
uma fachada coberta de azulejos azuis; as paredes do corre·
. dor er·3.m igualmente cobertas de azulejos de faiança. No
andar térreo moravam os servidores e escravos. Em cima,
. era_a. r_esidência.dos senhores, com belos salões·bem·mobilia­
uos e quartos bem grandes.
Hoje, entretanto, ela é uma casa de cÔmodos. Seu valor
locativo é de apenas .50 mil cruzeiros (segundo o lançamento
da Prefeitura),e o aluguer de 350 cruzeiros. Já em 1940 a de­
trrli!.4ação caminhava. depressa.. O andai térreo abrigava uma
(
···1'l:.'1arCenL"':...ae a· reSidência do . marceneiro. O prinielro anãar
(
era dividido em 18 peças, das quais 11 eram utilizadas como
..
tLI
{
(
( 160 MIL'fON SANTOS
(
dormitórios. Os moradores eram 40, isto é, 1lln8; média de
(
mais ou menos 4 por dormitório. Havia apenas dois sani­
(
tárins e um rádio. Em 1957. a situação mudava muito pouco.
No andar térreo encontrava-se ainda a marcenaria e a mo­
radia do marceneiro e sua família. Mas no primeiro . andar,
(
(
já havia 14 dormitórios onde se apertav.am 60 pessoas, isto é,
(
cêrca de 4,5 por dormitório. O aluguel era de 55 a 70 cru­
( zelroB por sublocatário, o locatário pagava ao pro­
prietário os mesmos 350 cruzeiros. E' bem verdade que de
(
alguns anos para cá os alugueres não podem ser aumentados
(
(lei do inquilinato). Mas de qualquer maneira tais cifras
( são bem significativas. São elas a explicação melh01." para o
abandono em que se encontra o edifício, sem o menor sinal
(
de higiene, sujo por fora e por dentro.
(
A degrad.ação se estendeu tanto na Cidade .A.:tta como
na Cidade Baixa. Atingiu tôda a área dos velhos. sobrados e
das
As razões que encontramos para explicar êsse fenômeno,
(
são principalmente as seguintes:
(
1) A vida famílial organizou-se diferentemente, excluindo
(
a pQSSlbilidade de manter numerosos domésticos, como anti­
(
gamente; .
(
2) fato, ao lado das possibilldades entreabertas pela
(
introduÇão dos novos meios de transporte, levou as pessoas
( de. maiores posses a I se mudarem para 08 bairros exteriores,
longe do centro, onde se construíram'novas casas, adaptadas
(
às novasneeessidades;
(
3) COmo aquêles edifícios perderam seu antigo papel e
não é possível alojar nêJ.es apenas uma. famflia de classe mé­
dJa, começa-se a ut1llzá-los de um outro modo; ai vão ser en­
. contradas pessoas pobres, um pequeno comércio, artesanato
e prostituição;
Foto 21·- Rua Cbile. na Cidade-Alta. Notu como
se misturam edificlos de várias idades. E' a prinei­
pal artéria do comércio varejista de luxo.
Foto 22-A Cidade Velha e o novo povoamento de
arranha-ceus. .Aspecto do centro da Cidade-Alta
no viaduto da Sé.

Foto 23 - Uma vista do Pelourinho
Foto 24 - Outra vista do Pelourinho, vendo-se ao fundo a ladeira
do Caímo.'
161 O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
4) Como essa forma de ocupação dos imóveis é 'de ma­
neira quase g.eral de rentabilidade fraca para os proprietários.
não vêem qualquer vantagem em cuidA-los. Não rea":'
lizam trabalhOs de reconstrução; nem mesmo de reparação,
e as casas se tornam cada vez mais sórdidas. Em 1956, por
eXempl.o, 350 reconstruções foram perni.itldas pela 'Prefei­
tura, na Cidade do Salvador. Apenas duas foram feitas na
ConceiçãO' da Praia, duas na Sé, dez no Pilar e nenhuma no
Passo. Em 1954, 3 na Sé, 4 no Pilar, e nenhuma no Passo
ou na Conceição da Praia. Em 1953, para um total de 114
em tôda a cidade, a Sé contribuiu com 2, .o Pilar com 3, o
Pas.so com 1 e a Conceição da Praia com nenhuma. No pe­
ríodo 1949-50, houv,e apenas uma reconstrução na Conceição
da Praia e uma no Passo. Os números relativos ao Pilar,
são relativamente mais reveladores, mas mostram apeÍlas
queêsse bairro foi colonizado pelo comércio,especialmente
pelas s-edes de emprêsa.s rodoviárias e seus depósitos.
Como vimos, as causas de degradação nesse tipo de pai­
sagem são mais ou menos comuns aos bairros centrais
de Salvador. Entretanto, tais causas se particularizam' na
Cidade Alta· pelas razões seguintes:
1) a incapacidade do centro, isto é, das atividades ,que
abriga, de assimilar as áreas degradadas, acarretando o
aparecimento de construções novas, não SÓmente porque os
nov{)s'ediffciQS surgiram para substituir os. que foram demo-,
lidos para alargar as ruas· principais, como porque as atiVi­
dades que se realizam nesSapa:rte dO centro comercial não
(
tiveram baStante fôrça par.a: se criarem um' quadro;
(
2) a expansãodêsse centro comercial para {) sul, na dire­
ção dos bairros da: classe rica e .da classe média, seguindo' as
de cumiada e dos transportes. 'por causa disso aS caSas
eonstrufdas aí, algumas das quaiS de meia-idade, foram Subs- .
'(
tituida.s por' outras mais m<>4ernas. Essa operação é multo
maÍSl,'entável para os têm mais em vista
163
r'

( 162 MILTON SANTOS
(
ed1ticar nas ruas vizinhas que demolir os velhos palacetes e
(
sobrados em ruínas.
(
S) as interdições legais, criadas para proteger a paisa­
(
gem e assegurar uma. boa perspectiva &Qs monwnentos, de
( modo a preservar a fisionomia histórica dessa parte da cio
dade. Em certas ruas da cidade velha, mais exatamente entre
(
a praça da Sé e o convento do Canno, é proibido construir
(
casas depois de Ulll ceJ.1to de andares. Essa restrtção
( desencoraja as empresários que encontram assim mais uma
boa razão para investir em outra parte, mesmo se o terreno
(
ou os trabalhos de demolição se tornam mais caros; êles po­
dem construir aí imóveis de vários andares e essa operação
é muJto mais rentável. E' o que expl1ca melhor a expansão
do centro comercial para o sul. A defesa do sítio exerce, as.­
sim, um papel de verdadeira baneira à expansão dos novos
(
Imóveis para o. norte.
( ,
. Na Cidade Baixa outras causas mais particulares juntam­
(
-se aquelas causas gerais que explicam o fenOmeno na Cidade....
( Alta:
( 1) o atêrro expansão do pOrto teve como
rE'SUltado uma vasta superfície. a ocupar. Era mais cômodo
(
construir diretamente sObre o vazio que ir demoUr velhas ca- \
(
su. Além de um preço de·venda aproximadamente igual, há
( a vantagem da eXistência de ruas mais largas e de uma circu­
Iàção nlais fácll •. Tal vantagem contribui para que a degra.­
(
daçãcLdos._velhos prédios continue; . -- .
( f' ... __...- ....... ;.
.2) fôi--til"o abandono das, velhos sobrados da Preguiça
e das agora inutllizávéis, mesmo para a moradia
<"
de pessoas muito pobres, que êles se ài.Tum.ara.m completa­
mente; , atingiram o. último grau de degradaçio -e são ocu­
(
pados hoje comdep6sltos de matertaI de censtrução. Em con­
(
seqüência da. fuga da população, OS .serviços. e arteSanatos
-(
-
tembém'desertaram.E'.bem possível' que, Dlais tarde, em
conseqüência da evolução própria a essa área, as atividades
(
(
I
O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
capazes de se criarem um quadro vão preferir êsses terrenos
lide reserva", onde muitas casas já caíram, em detrimento de
outras áreas Qnde ainda existe uma população residual, junto
ao pequeno comércio e ao artesanato.
As tendências da evolução urbana entre 1920 e 1940, já
examinadas por nós, 1n06trando uma predominância bem
Viva das funções de relação e quase uma paralisia do centro
de atividades destinado a servir ao interior do organismo ur­
bano, favoreceram a degradação de modo muito sensível.
Durante êsse período, o centro alto parece haver perdido d!na­
mismo. A degradação foi largamente favorecida, seja porque
os de mudança estavam estacionários, seja porque
estiveram ausentes. Mas êsse fenÔmeno foi acompanhado
de um elemento de contradição, de verdadeira oposição, re­
presentado até 1940 pela inexistência de centros secundá­
rias nos bairros. :bse fato acarretou uma certa expansão
do centro principal, certamente maior do que se las necessi­
dades da população pudessem ter sido satisfeitas em centros
secundários .
Uma das características mais notáveis dêsse bairro cen­
tral de Salvador é o contrraste entre os preços elevados dos
terrenos e os alugueres reduzidos. contraste é tanto
maiS claro quanto ô bairro em ruinas se encontra a menos de
5 minutos do centro comercial, onde o alto preço de 'Venda dos
terrenos correspondé ao alto valor locativo dos ed1tícios. Na
rua Juliano Moreit&, por exemplO, ainda se encontram alu­
guéteS de'S20 cruzeiros mensais'para uma casa de duas peças,
de 170 cruzeiros por 3 peças e até de 32 cruzeiros por um.
quarto não mobillado (tais preçQs variam de a.c6rdo com o
tempo de alUguél). No Pelourinho (praça. José de Alencar),
um alfaiate estabéIecldo há 30 anoi paga apenas 127 cru­
zeiros meilsa1s pelo aluguel de sua loja. Outros
centemente inst..alados, pagam respectivamente 140, 200. 238,
300, 355 e 800 cruzeiros pelos lugares em, que trabalham.
Um pequeno armazém paga 800 cruzeiros de aluguel, que é
(
----------------------
164 MILTON SANTOS
de 1.100 cruzeiros para uma tipografia in.stalada há muito
,tempo e que' ocupa todo o landar térreo de uma casa.
Entretanto, na rua Chile, pertinho, uma sala de 30 m2.
rende entre 3 e 5 mil cruzeiros ao proprietário ea. mesma
área no andar térreo entre 20 e 30 mil. 1i:sse contraste cho­
cante é o resultado do conjunto das causas estudadas acima.
É; ao mesmo tempo, a razão por que os proprietáriosabando­
nam su'as casas.; a renda que êles obtêm não estimula a fazer
tItabalhos de reconstrução ou mesmo simples reparações.
Não é por outra razão que êsse bairro conhece o maior número
de incêndios em· ,tôda a cidade. Dos 854 incêndios registra­
dos em Salvador entre '1943 e 1952, ma.is de metade, isto é,
453, deu-se nos bairrQscentra.is da Sé e da Conceição da
Praia, onde se acrescentam a presença de casas velhas e uma
atividade comercial. intensa. No distrito do Passo, que é com­
pletamente deteriorado, mas quase completamente residen­
cial, o número dos incêndios subiu a 28, nestes dez últimos
anos. 'Entretanto, os distritos da COnceição da Praia e da Sé
tinham, em 1950, mais ou menos 25% do total das casas, isto
é, 2.479 sôbre um total de 94.020.
, A relação entre os tipos de casa e as funções presentes
nessa parte degradada dos bairros centrais cria fenômenos
como êste: um prédio foi construido na rua Silva Jardim,
para substituir uma velha daS8 em ruinas. Tem 4 andares e
.foi edificado há dez anos com o objetivo de servir à instalação
de lojas, no andar térreo, de escritórios noo No en­
tanto, ao fim de dez .anos· apenaS uma pequena parte das salas
se encontra ocupada.
,. ' No" PeiotlriIÍho, uma velha. casa, iIité1ràmentereparada
interiónneIÍte', teve os quartos redivididos depois, dó mesmo
modo 'que 'nas casas vizinhas que 'se encontram em um estado
lamentável. ' '". .'


O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR IGS
contribui para conservar não apenas os aspectos miseráveis do
quadro, como as suas características funcionais.
A ruptura dêsse equtlibrio deve-se à expansão das ativi­
dades capazes de se criarem um quiadro próprio, mas ela se
fêz exclusiv.amente pelos bordos, como uma espécie de expan­
são pioneira, que deixa intacto o nódulo da zona. 1!:sse front
avança por etapas. O comércio fortemente estabelecido têm
tendência a crescer e la, substituir o comércio de transição,
mal definido, que se instala nas margens. :l!ste como que
monta sôbre as áreas residenciais vizinhas e as desorganiza.
Estamos bem colocados para compreender e julgar êsse
processo na avenida Joana Angélica, cujo pedaço inicial for­
mad() há apenas 10 anos de residências ricas é colonizado por
perlSôes; as casas são dh"idiõas em quarto,: alngados a estu­
dantes pobres, pequenos empregados, etc.. Isso significa que
elas se degradam. E' a conseqüência da expansão do comér­
cio. Entretanto, é justo admitir que daqui a algum tempo
(não podemos fixar um prazo, pois entre outros fatôres não
conhecemos a variável que é o ritmo de evolução da econo­
mia urbana), quando as atividades forem capazes de se cria­
rem um quadro, êsse bairro será colonizado por arranha­
céus, expulsando, ao mesmo tempo, as atividades mtnos im­
portantes a periferia, isto é, deslocando o jront pioneiro.
> Tal evolução encontra obstáculos, entretanto, na área
onde é proibido construir fora de certas regras, pelas ra'7.ões
já estudadas. Lsso provocará a tendência à conservação do
mesmo estado de coisas, se não houver intervenção direta do
poder público. E' o caso do Pelourinho.
B - EXEMPLOS DE RUAS
5 - O PELOURINHO
F;ssa relação entre os aspectos formais da paisagem e os
I
O Pelourinho é uma ladeira-praça, de forma irregular,
do_ seu conteúdo é dotiada de uma fôrça de permanência que
rodaada de edifícios dos séculos 18 e 19, grandes casas nobres
167
(
(
166 MILTON SANTOS
(
( de dois e de três andares que serviram como residências a fa­
miJ.ias ricas. mas que hoje caíram em ruínas. O ink·rêsse
(
do estudo dessa praça. reside no fato de que ela se situa no
coração mesmo da área. resguardada pelos regulamentos que
asseguram proteção aos monumentos históricos da' cidade.
Assim, ela representa, a um só tempo, um exemplo da influên­
cia doe jurídicos sôbre os fatos de estrutura urbana
e um exemplo de degradação.
O andar térreo de todos êsses edifícios é ocupado por co­
mércios e artesanatos. Aí se encontram oficinas de vulcani­
zação, bazares, alfaiates, joalheiros, casas que compram e
vendem ferro-velho, canser·t.adores de coiSas várias, armazéns,
armarinhos, restaurantes baratos. sapateiros, padarias, tipo­
(
pa1'ias, fotografias, barbeiros de s.a classe, açougues, uma pe­
quena fábrica de sabão, etc ..
Nos andares mora uma população heterogênea que vive
em condições mais do que precárias. '
O aluguel é 11aixo, de um modo geraI, oscUando. entre
um mínimo de 250 e um máximo de 5.330 cruzeiros. 1!Jste úl­
timo preço é, porém, excepcional. O aluguel va.riaI em média
de 400 a 800 cruzeiros. As casas de cômodo, cujoe locatários
são sobretudo casais sem filhos ou celibatários, .são numerosas.
E' freqüente ver vários rapazes ou môças morando num
mesmo quarto. Casas que outrora abrigavam' apenas uma fa­
mília com seus escravos ou domésticos sofreram um processo
l
\
de subdivisão cada
l
vez' mais avançado; salas e quartos de­
masiadamente pequenos, verdadeiraS células, estão separados
por paredes de madeira. Nesses cublculos não há, luz, nem ar
e inexiste higiene. A vida nesses cortiços é um verdadeiro
inferno e as diversas fammas que ocupam um mesmo andar
se vêem. obrigadOs a se servirem de pm único banheiro e de u­
ma só latrina. Escadas estragadas, soalhos furados, paredes
sujas, tetos com gf)teirasformam um quadro comum a. tôda
essa zona de degrladação.
O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
Em 1940, havia. 32 edifícios, contendo 179 dormitórios.
569 pessoas residiam ai, quer dizer, uma média de 3,2 por_
dormitório. Em 1950, a população era de 708 pessoas, o que
tornava ainda mais gJ:Iaves as lamentáveis condições de vida.
O Pelourinho, como o restante dessa zona de transição, é pre­
ferido pelas pess-oas que não podem pagar altos aluguéis .ou
gastar muito em transportes. E' também. um dos setores ur­
banos procurados pelas pessoas tangidas do interior pelo

PS'OClRINHO
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êxodo. A maior parté das famílias que moram nesse logra.­
douro, isto é, 60%, nãO são originária,s da cidade, e se alojam
de. qualquer maneira no centro da cidade. São numerosos os
que não diSpõem de um trabalho os ofí­
cÍOS.. ma.is freqüentes encontramos .bi­
cheiro, encanador, lavadeira, cozinheiro, bombeiro, pequeno
funcionário, porteiro, engraxate, encerador, viajante comer.
clal, tipógrafo, empregado vendedor .ambulante,
chofer, condutor de ônibus, camelô, etc.. Em suma, sãO pe­
quenos empregados ou pessoas sem uma ocupação perma.­
nente ou bem Seu local d.etrabalho. era, de preta:
I
rência, no centro da cidade. Em. 26 das 28 casas, em que
fizemos tal indagação, a resposta foi afirmativa. .
,._-- ----, Ii'!_ ___
_._o····__
'i!I
168 MILTON SANTOS
Uma fótogràfia bem nitida do conteúdo e das -condições
sociais' em que vivem os moradores dessa praça nos foi dada
por uma enquete realizada. junto aos alunos de uma escola
primária' pública ai' localizada. As respostas foram dadas
pelos próprios alunOSl, se bem que guiados pelas professôras.
Os resul11ados dessa pesquisa não são exagerados, mas, ao
contrário, devem estar atenuados, pelo fato de que os meni­
nos são de um modo geral pouco numerosos nos bairroscen­

trais e desde muito cedo são obrigados a trabalhar, em vista
.'
das condições: sociais e econômicas dos seus pais. Por isso, mui­

tos não podem ir à escola.. Os dados que obtivemos possivel­
'.

mente estarãolainda muito aquém da realidade, que é bem l:
mais dura.
As profissões confessadas para os pais e os adultos são
bem representativas das condições sociais universalmente re­
conhecidas nas áreas de slums. Numerosos são os que não
dispunham de uma ocupação fixa ou definida: representam um
!!
têrça do tOtal. Mais ou menos 20 por centO d06 pais não ti­
nham ·trabalho, 25 por cento procuravam um novo emprêgo
ou desejavam mudar de ocupação.·A percentagem das mulhe­
res trabalhando fOTla do lar era de 28%. Por outro lado, 27%
executavam mesmo em casa um trabalho lucrativo, remune­
rado, graças ao qual ajudavam a equilibrar o do­
méstico. 45 % das mulheres de maior idade nãn tinham ou­
tro emprêgo senão Q de domésticas, percentagem elevada em
relação à cidade tomada em conjunto, onde apenas 25 % da
população feminina, inclusive as domést!caB, contavam com
um ·trabalho em 1950.
As condições de vida. eram miseráveis. 67% dos que res­
ponderam à nossa enquete dormiam com 3 pessoas ou mais
no me..qmo quarto. Dêstes, 8% dormiam com mais 5 pessoas;
25% com mais 4; 25% com mais 3; 22% com 2 pessoas,
11% com uma pessOa e apenas 3 % dormiam sôzinhos num
quarto. Havia também casos extremos, entretanto mailil
I

Foto 25 - Ainda na Zona de transigio, à daR
Portas do Canno - Nota-se muito bem o Comércio
típico dessas áreas.
Foto 26 - Rua do Maciel de Cima, em plena Zona
de degradação social, na Cidade Alta.
169
(
(
(
(
( j
(
Foto 27 - A rua do Maciel de Baixo, bem caracteristica da Zona de
deterioração. Promiscuidade entre homens, bichos e Coisas na rua e
no interior' das casas.
I ~ ~ ~ " ' ' ' ' ' ; ' '
o CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
como O de crianças cujo quarto servia de dormitório a seis,
sete e mesmo oito pessoas.
Entre êsses, 18% não donniam em camas. 45% .afirma­
ram que sua família se ut11za1la de latrinas comuns a outras
'famillas. Apenas 55%, portanto, dispunham de aparelhOS,sa­
nitários pessoa.is, mesmo as3im em mau estiado, salvo excep­
çóes.
Indagados se desejavam mudar dé residência, 70% dos
meninos (dos quais 55 % não vão ao cinema uma vez por se­
mana) responderam lafirmativamente. Uma espécie de eva­
são psicológica caracterizou 60% das respostas, dando como
bairros de preferência aquêles da classe rica.
Em 10% d<lS lares recenseados não havia eletricidade e
!apenas 4% dispunham de telefone; êste último índice não
tem grande significação, em virtude da crise de telefones ge­
neralizada em ·tôda a cidade. 30% não possufam rádio.
Uma outra constatação fornecida por essa pesquisa é a
da origem rurtal de uma boa parte (35%) dos moradores dêsse
bairro leproso. Entre êstes, 45 % não tiveram outra residên­
cia em Salvador senão, essa onde hoje se encontram, isto é, o
bairro dos ccrliços. Atraídos pela. miragem da grande cidade
tentacular, vieram morar nos velhos casarões da Sé e do Passo,
bem como nas da Cidade Baixa, desde que cheJraram da in.:,.
.tenor. Foram provàvelmente atraídog pela. presença de ou­
trós naturais da mesma região, chamados por uma espécie
de simpatia, característica aliás da distribuição espacial dos
ba.bltarites· nos' centros metropolitanos.
Aquêles que já moravam na cidade, e se mudaram de­
pois para os bairros em rufna.s, residiam antes em bairros
igualmente pobres. Se, em casos isolados, algumas pessoas
vieram' de ba1rros ricos ou de classe média, isso se deve ao
fato, Já mencionado, de que em Salvador a repartição social
do.! bairros afuda não é .total, estando. os . bairros. mais ricos
misturados com habitações operárias da pior espécie.
• ,'1"
'..,,-j'7-·;'
170 MILTON SANTOS
6 - A BAIXA DOS SAPATEffiOS
A rua Dr. J. J. Seabra, mais conhecida como a Baixa dos
Sapateiros, é uma secção de um. vale tortuoso e superimposto
sObre uma provável fratura (Alfredo. Pôrto Domingues, n.
o
27)
que bordeja as colinas; diversas ladeiras conduzem, de um
lado, à primeira linha de cumiadas que forma o rebôrdo do
horst, bem em frente à baía, sitio para receber às
primeiras casas da cidade de Tomé de Souza. De outro lado,
as ladeiras levam à segunda linhru de colinas., grosseiramente
paralelas à primeira e que recebeu a expansão do povoamento
urbano durante o século 17. A Praça Cairu, pertinho do
pôrto, fioa. na cotru de 4,5 m., o belvedere da Praça da Sé na
cota de 66,3 m., a Praça Sátiro Dias, na avenida Joana .A.n..
gélica, na cota de 64 m. e a Baixinha, sôbre a rua Dr. Seabra,
na de 37 m. lt a cidade média, na designação de Aroldo de
Azeved? (n.
o
19), por oposição à Cidade Alta e à Cidade Baixa.
Zona de concentração de drenagem,. é isso o que explica
as suas sucessivas utilizações:
1) defesa da cidade contra ataques eventu'ais do interior,
nos prim:eiros séculos (16 e 17) quando tôd.a a cidade se l1mi­
tava à primeira linha de colinas, rodeada de muros: era o
fôsso;
2) esgôto de águas usadas, ,co.mo o atesta o nome que
recebeu depois ,o riacho que corre nesse vale: o rio das Tripas.
Servia para escoar, com o áuxilio da co!,!ente, os restas do gado
que era abatido mais em cJma, no antigo matadourc do
bairro de 'São Benw, '. ' .
ti
,
"i,':.
3) a denoll1ÍL"1ação pe das dada ao seutreeho
.
inicial, é por si mesma eloqüente: era aí que a cidade em
grande parte se ab8§tecia de frutas e legumes. Essa função, •
presente sôbrequ&e tôda a extensão da rua durante vários
séculos, há sOmente 10 anos que desapareceu completamente;
171 O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
4) o sitio, periàdicamente inundável, mesmo depois do
dessparecimento das preocupações de defesa, continua a im­
(
pedir uma utilização residencial, até que os trabalhos de dre­
nagem foram realizados. Daí o nome que teve a rua, a partir
des...c:a.s obras: rua da. Va1a;
5) êsses trabalhos foram feitos na primeira metade do
século 19, quando estancou a onda de construções de casas no­
bres -os confortáveis e luxuosos palacetes das colinas vizi­
nhas - que hoje são miseráveis cortiços. As casas construí­
daS na Baixa dos Sapateiros são modestas e pobres, térreas
geralmente, raramente com um andar, moradia de artesãos,
prfucipalmente sapateiros, que terminaram por transferir à
rua o nome que ela possui atualmente;
6) no entanto, essa artéria foi rebatizada como rua Or.
J . J. Seabra, em homenagem ao governador do Estado que or­
denou a realização das obras que lhe deram seu traçado
atual. Tais obIlas correspondem às novas funções da rua desde
o comêço do presente século. O aumento da população da
cidade, a expansão urbana e a criação de bairros pobres e da
classe médial em direção ao norte, a utilização do vale para
instalação de linhas de bondes que vão servir aos novos bair­
, ros e depois a superposição das linhas de ônibus, são os fatô­
res da transformação doe aspecto e das funções da B'aixa dos
Sapáteiros. rues fortaleceram dês.se modo o papel comercial
desempenhado pela rua desde os últimos anos do século 19.
Ela se transformOOl·pouco a pouco em rua comercfal, transfor­
mação que agora se termina.
O passado, o tempo em que a rua inundável era a um
tempo limite natural e zona de passagem, pesa indevidamente
sôbre o presente; as subdivisões administrativas são as mesmas
que eram há três séculos. A rua ainda é a fronteira adminis­
trativa-entre os distrit.os de 8. P€ dro, Sé. Santana, Passo, Nu­
zaré e mesmo Santo Antônio, em sua extremidade norte. Tudo
isso dificulta as pesquisas e noo parece prejudicial à adminis­
t 1
i
"
\
(
,,:,.\11
(
( 172 MILTON SANTOS
tração sob o plano da prática. Entretanto, as sucessivas refor­
mas e remodelações da divisão adm1nistrativa. municipal têm
preservado es&lll anomalia; tributo que a cidade paga iniltil­
Dlente à sua hiStória.
(
(
(
Na verdade, a sucessão de funções que foi chamada a
realizar, a rua Dr. Seabra deve aos dIferentes modos como se
pôde utu1zar o seu sitiO. Acompanhando a evolução da cidade
e das técnicas, o sitio tem tidocUferentes utilizações, o que
lhe atribui situações dIferentes em relação à cidade, tomada
como um conjunto.
(,
(
(
A Baixa dos sapateiros é quase inteiramente formada
de casas térreas que ainda hoje refletem a condição social
dos seus primeiros moradores. Há, entretanto, duas exceções:
uns pouoos pequenos sobrado,s com um andar e mesmo com
dois andues, principalmente na Baixinha e na rua Eduardo
Carigé (antiga rua das FIôres) e mais os pri­
meiros prédios em clmento-armado. 1:stes a1nda não são melá
dúzia, nenhum tem mais de 4 'andares, nenhum possui ele-'
vador.
(
(
(
(
(
(
A maioria das casas são de parede-meia. Como orlginà­
rlamente eram casas de moradia, isso lhes ditaVa o aspecto
exteriort mas .seu plano se modftlcou, pouco a pouco, à pro­
porção que a rua. se deixava conquistar pelo comércio. ·:ti:ste
a moderniz81. Há. 15 anos, por exemplo, era freqüente ver
enro1air e desenrolar toldos de madeira sôbre os passeios, de
aCÔrdo com as diferentes horas do dfa. Hoje, entretanto,. o
número de marquises em cimentó-armado é enorme. Fazem­
-se novas transform.ações, aparecem. vitrJnes moc:Iema.s
anúncios em luz fluorescente e gás neon, para adaptar o qua­
dro às exigências da clientela.
A principal atividade dessa rua é o comércio.. E' um c0­
mércio varejista pobre. NO' comêço do século resumia-se 4ícb
. trécho denaminado Babdnha, hoje rua Padre Agostinho G0­
mes. A denominação Baixa dos Sapateiros dada originària­
(
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o CENTRO DA CIDADE. 00 SALVADOR 175
mente a êsse trecho sômente. estendeu-se a tôda a rua Dr.
Seabra. à porporção que o comércio também avançava.. .0
início das atividades comerciais nesse bairro (a Baixinha)
deve-.se à expansão do comércio da Cidade Baixa, acompa­
panhando à linha de mais fraca resistência, representada pela.
rua Silva Jardim. onde o declive é mais suave que na.s. dem.aJ.s
artérias ligando a Cidade Baixa à Cidade Alta. Essa rua
desde multo tempo é utilizada diàriamente pelos operários
e empregados que. morando nos bairros do norte da cidade,
trabalham no pôrto ou na Cidade Baixa. Em seguida. o c0­
mércio se expandiu até a extremidade da rua Dr. Seabra. Há
50 anos atrás êle sômente se estendia até a rua Cônego Lôbo
(ladeira da Saúde); há 20 anos até {) Largo de São. Miguel
e a rua Marquês de Montalvão. Há apenas 10 anos que colo­
nizou a rua 28 de Setembro '(li fêz junção com o antigo comér­
cio de alimentação da Praça dos Veteranos. Mais recente­
mente êle ultrapassou esta Praça, ocupou o trecho que v.ai
até a rua Rocha PUta e desbordou sôbre a rua Arestides Mil­
ton. Assim êle se prolonga até se encontrar com a Avenida
Sete de Setembr.o e :a Praça Castro Alves. Mas os prolonga­
mentos recentes não têm ainda um caráter definido como
no resto da rual. Constituem uma espécie de comércio de
transição (pequeno comércio. artesanato). uma sorte de tront
pioneiro do comércio, com tendência a se estabilizar. E· o
mesmo tipo de comércio que se prolonga pelas ruas trans­
versais, ruas Conselheiro Junqueira e da Independência, que
gozam da vantagem de serem utilizadas como passagem dos
Ônibus que a . complicação do tráfego afastou da Baixa dos
Sapateiros. Estas últimas ruas recebem o. comércio de tran­
sição -expulso üe certas ruas do bairro da Sé, à proporção que
êles ali são substituídos por atividades mais rendosas e du­
ráveis.
Pondo .. à: ~ p a 1 ' t e .. êSse comércio de transição que..colohiza ..
"
as extremidades.· e ruas transversais,. a maior parte do comér.
eio da. rua é constituído poi um comércio pobre. de segunda
177
(
1
(
176 M.ILTON .SANTOS
(
necessidade. Não há joalherias, casas de discos, salões de
(
chá, os cafés são em número reduzido. Também não há es­
\ critórios de 8.dvogados;os médicos e os dentistas são raros.
Não há emprêsas imobiliárías, nem agências de turismo.
Enfim, não há grandes magazines, mas apenRS lojas, algu­
l)las de importância, mas a maior parte pequenas e médias.
Sij.o ou menos especializadas, mas geralmente .se adap­
tam ao quadro preexistente, mopificando-o na medida de suas
necessidades e ·possibilidades. É' um comércio pobre, ligada
de forma absoluta às precisões de sua clientela. Isso não
quer dizer que muitas pessoas dos bairros mais favorecidos
( também não a. procurem para fazer compras, imaginando que
a ausência de luxo pennJ,tirá encontrar preços menos eleva­
(
dos que na rua Chile ou na Avenida Sete de Setembro.
E' preciso notar ainda a presença de um mercado ao ar
(
livre em um grande terreno vazio, perto da praça do Largo .de
(
São Miguel. Serve ao abastecimento diário da população das
(
ca.sas arruinadas das redondezas. O comércio de rua é igual.'
mente. animado, representado por camelôs, po.r mulheres que
(
vendem comid&.3. nas esquinas, pelos meninos que oferecem
cigarros a retalho, etc ..
(
Em. 1950, havia 250 lojas e 414 serviços. Em 1957 êsse
número era muito maior, cêrca de 400 lojas e 200 serviços,
aproximadamente. 'Dal acréscimo, que provocou a expansão
espacial de que já falamos, reflete de um lado o crescimentO'
demográfico da cidade e de outro lado revela uma certa, ele­
('
'YsÇão·dos.::padrões de' vida da população. Observa,.se êste
último fato com a recente instalaÇão de lojas que vendem
a.r1iigQs domésticoS, geladeiras e' os fogões a gás de
utilização agore. freqüente e de salões de beleza,que ocu­
r.
pam geralmente os e segundos andares.
\
.".:.casaa..de.comérclo, lojas. de uma certa categoria costu­
(
mam agrupa.r...se. E' o caao, por exemplo, do comércio de
(
que salvo duas casas, entre o La,rgo de S.'
(
(
(
!
o CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
Miguel e a rua Marquês de Montalvão, de amro;; 0"1 lados .. O
comércio de tecid08, bem como o de calçados, aperta.....se entre
o Largo de São Miguel e a Baixinha. São os mais numero­
sos. A Baixinha e suas redondezas constituem uma zona de
concentração de um importante comércio de alimentação que
serve à população dos bairros do centro da cidade e aproveita
a passagem diária de milhares de pessoas que vêm da Cidade
Baixa procurar na rua Dr. Seabra um meio de transpor·te
para os bairros de classe média ou pobre onde moram.
:mates preferem fazer suas compras na cidade, no centro,
para economizar assim alguns cruzeiros. Nesse mesmo bairro
encontramos também vários restaurantes "frege-môscas" que
servem ligeiras refeições de meio-dia aos operários.
A Baixa dos Sapateiros não é uma artéria bancária.
Afora a agência da Caixa. Econômica Federal, de antiga.. im­
plantação, e cuja atividade não está diretamente ligada. ao c0­
mércio, havi31 apenas um guichê de banco até 1955. Foi fe­
chado em conseqüência da falência da matriz no Rio de
Janeiro. Em 1957, entretanto, dois guichês foram abertos,
ambos ligados a estabelecimentos mais importantes da Ci­
dade Baixa.
Em relação com os progressos observados seja na rua
Chile, e redondezas (um guichê em 1940, sete em 1957), rua
onde até mesmo o Palácio do Oovêmo cedeu algumas depen­
dências para a instalação de uma agência bancária, Beja na
avenida Sete de Setembro (O em 1940; 5 em 1957), seja na
Calçada, nas proximidades da. estação da estrada de ferro (1
em 1940, 5 em 1957), somos conduzidos à observação de La­
basse, segundo a qual o banco não é uma atividade pioneira,
mas geralmente se instala depois que outras atividades já se
encontram sõlidamente estabelecidas. A demonstração dessa
tese é difícil no caso presente, mas seja o fato de que as prin­
clpaJ.s casas comerciais são sucursats de outras da rua Chile,
da avenida sete de setembro e da Cidade Baixa, seJa a. situa­
178
179
T
MILTON SANTOS
ção financeira das pessoas que se utilizam dessas lojas e fre­
" ~
qüentam a rua, bem como a proximidade relativa dos outros
centros bancários, podem constituir raiõéS" válidas para a ex­
plicação dêsse fato.
O comércio atraiu para a Baixa dos Sapateiros e redon­ ..
dezas uma outra atividade: a
existe é menos uma atividade
indústria. Na verdade o que
propriamente industrial que
.>
uma atividade artesanal, instaladà sôbre a própria rua e nas
velhas casas das ruas transversais, onde se aproveita de espa­
ços maiores e de alugueres mais badxos.
I
ij
~
Em 1955 () centro da cidade tinha 193 estabelecimentos
q
industriais e artesanais, de acôrdo com as estatísticas. Dêstes
32 contavam com mads de 250perári06, 159 com mais de 5;
e 33 com menos de 5. Nesse cômputo, a Baixa dos Sapatei­
ros entrava COIll apenas 3 estabelecimentos com mais de 25
operários, isto: é, 10% do total dessa categoria nos bairros
centrais. Tinha 47 estabelecimentos com mais de 5 operáriOS,
isto é, 29,5% do total do centro da cidade e 19 com menos de
5 .operários, isto é, 57,5%.
A B A:B
o CenJJro A rua
Estabelecimentos com '
mais de 25 operários 32 3
com mais de 5 qperário,s 159 47
com "menos de 5 operários 33 19
9,2%
29,5%
57.5%
Tais índices revelam um primeiro caráter doosa atividade
semi-industrial da Baixa dos Sapateir.os e suas redondezas:
a atlvldp.de artesanal é predominante não apenas em núme­
ros absolutos, como em números relativos, em relação ao CJl1- ' ~
juntodosd1strltos-centrais da cidade. Em 1955, 762 pessoas,
-dentre as quais 603 operários, participavam dessa atividade.
11
1
O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
Um outrQ caráte: é que a manufatura na; rua Dr. Sea:­
bra está em relação direta com o comérciQ local, salvo em
casos raros. Duas hipóteses são possíveis: ou as atividades
formam, orgânicamente, um só negócio, como, por exemplo,
as 14 casas de móveis, as 5 tipografias e as 7 padarias, ou a
fabricação se faz para altender às necessidades das casas de
comércio. Nesta última hipótese verüicamos em vários casos
que é o capital das casas de comércio que faz surgir oficinas
e pequenos f2lbricos. E' Q caso das 13 sapatarias. Entre parên­
teses, é curioso mostrar que não são exclusivamente histó­
ricas ou folclóricas as razões que permitem à rua guardar seu
nome antig·o: um térço das sapatarias dli cidade é ai que se
encontram.
As fábricas da Baixa dos Sapateiros p-ossuem outros ca­
racteres gerais, comuns aliás às pequenas indústrias do centro
da cidade. E' necessário observar principalmente o seguinte:
1) que essas indústrias trabalham produtos semi-aca­
bados;
2) que destinam os produtos que fabricam a um con­
sumo imediato;
3) qUe não dispõem de lugar, nem de capacidade finan­
ceira para estocar a sua produção; esta se faz à proporção
das" necessidades das ClS&S comerciais e .se vende à proporção
que se termina.
A Baixa dos Sapateiros continua ainda send(} uma rua
residencial. Sem falar nos becos e transversais, essa função
residual é bem evidente Ila3. extremidades da própria rua.
Mas, não tendo ela sido construida sôbre tôda a largura do
vaJe, o espaço que resta por det.rás das lojas foi ocupad{l' por
vários becos, farmades de casinhas "parede-meia", onde mora
gente pobre. Exceto casos isolados, a função residencial na
. Baixa d03- Sapateiros se caracteriza pelo fato ele que ela 'Pro­
longa a degra.dação social das áreas vizinhas. Em 1940, a
181

(
180 MILTON SANTOS
(
I
':
população da ruw, inclusive os DecOS, era de 795 pessoas; em
( 1950 era de 951, o que representa acréscimo de 20%.
(
Tudo isso significa que duas tendências se opõem do
ponto de vista do papel residencial. De uma parte ocomér­
f
cio expulsa .os moradores, pa.ra ocupar êle próprio as casas.
(
que transforma a seu modo. A utilização residencial das ca.:­
(
sas que têm fachada.s diretamente SÔbre a rua tende, assim,
\:
a desaparecer. De outro lado, a população pobre se acumula
nas pequenas casas de trás, cuja degradação é ainda mais
acelerada.
(
(
A rua tem os seus ritmos. Desde manhãzinha ela é per­
corrida por veículos coletivos que levam ao coração dos bair­
ros centrais que deixam na Baixinha uma verdadeira multidão, .
(
de pequenos empregados, operários e domésticos. Mais tarde,
(
os estudantes e os empregados no comércio a
êstes,' pois os cursos começam geralmente às 8 horas e as
lojas se &bremàs 8,30 horas. Depois são os func1onárlc;18 que
utllizam os bondes e ônibus. E em tôdas as horas do dia,'
gente que vem a negócio, donas de casa que fazem compras,
etc.. A rua está sempre animada, mas é à noItinha, entre
17,30 e 19 hOras, que ela é mais movimentada. Jr uma IU8J
estreita, de modo que quando um bonde pára, tudo pára.
Perde-se 5 vêzes mais tempo que em outras horas do dia se
(
se prefere passar pelo trecho principal. Mesmo a solução de
(
desviar o trAnsito não trouxe resultados apreciáveis, poiS
(
cada dia que passa a população e o 'número de veiculos são,
mais numerosos. '
(
( A circulação dos peélestres é importante também. Vimos
(
como' os operários e pequenos' empregados economizam 50
_i
centavos subindo da Cidade' Baixa pela rua "Sllva '

cujo declive é suave. Os deslocamentos seguem um certo
ritmo. A circulação é sobretudo descendente pela manhã e
(
(
(
O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
ascendente à noite. E' () fluxo mais considerável da cidade,
maior mesmo que o-d2.-rua Chile. Tôda a rua, prillcipalmente
entre a Praça dos Veteranos e a Baixinha, é u.m.a verdadeira
torrente .ininterrupta de pessoas, desde as primeiras horas da
manhã até as 8 da noite.
'A rua não tem vida noturna. E' utilizada pelos veiculos
coletivos que vão para os bairros do norte, mas falta-lhe
animação própria., sobretudo quando os cinemas se fecham.
Entretanto, são 4 os cinemas ai localizados e as vItrines ge­
ralmente sem gôsto que atraem· um número limitado de pes­
soas das classes média e pobre.
Pode-se, entretanto, falar de uma divisão da rua em
trechos segundo as funções que ela desempenha. De fato, se
acompanha.r:mos a rua Dr. Seabra desde o seu comêço, na
esquina da rua Arestides Milton até as proximidades da rua.
Visconde do Rio Branco, ai encontramoe casas de morada,
oficinas de artesãos, um pequeno comércio, que está instalado
mais sôlidamente nas pr.oximidades da rua Visconde do Rio
Branco (ladeira da Praça). A Praça dos Veteranos é sobre­
tudo artesanal e abriga um ·comércio de produtos alimeIlj­
tares, muito ativo. Mas a rua Cons. Junqueir8l, rua trans­
versal recentemente conquistada pelo comércio, repete tam­
bém as caracterfsticas do trecho inicial. Entre a Praça dos
Veteranos. o LaTgo de São MIguel, o comércio pôde expulsar
__ a quase partir de 5 anos mais ou
menos. A ativ1d8.de--comercial- é mais intensa entre o Largo
de S. Miguel e a Baixinha: é ai que se encontram os estabe­
lecimentos de nomes mais conhecidos. A Baixinha e redon­
dezas formam. uma área em que o comércio de alJm.entação
evidentemente predominai ai se situam armazéns, restauran­
tes e café&. da as atividades industriais, dis­
sem.madaLumtre- as-casas de . morada. . Estas começam a do..­
Dlinar nas 'Di"aximidaQes cfaHPraça 1.0 de Maio.
183
182 MILTON SANTOS
"
* '"
Um novo dinamismo sacode agora a cidade e se l'eflete
sôbre o seu centro de negócios e de atividades. reforça a
oposição entre as tendências de renovação representadas pelo
próprio dinamismo e as tendências conservadoras,. apresen­
tadas pelas condições s6ciO-econôrrp.cas e jurídicas. Os mo­
numentos e as casas de meià-idade, que ainda são mais
ou menos úteis às funções que presidiram à sua constru­
ção, não sofreram êsse cheque. Continuam de pé, conforme
já vimos,a:té que, por uma questão de mais-valia, sua subs­
tituição se impõe.
Essa luta entre o arranha-céu que tem necessidade de se
levantar e o sobrado que não' quer desaparecer não exprime
apenas o Cc.nfIito entre a especulação imobiliária e a herança
do passado. Representa igualmente um imperativo do cres­
cimento urbano, da expansão dos negócios e da vida de rela­
ções, cujo espaço não poderá se alargar demasiadamente, sob
pena de se tornar impraticável.
Das marchas e contramarchas dessa luta entre () arra­
nha-céu e o sobrado, nasceram os cortiços. O contraste entre
os preços muito elevados dos terrenos e os alugueres baixos
dos prédios explica &se círculo-vicioso, de que uma daS con­
seqüências é a zona de degradação social mais típica do Bra­
sil, ao lado de um majestoso conjunto de edifícios muito mo­
dernos, que a t9das as exigências do confôrto.
Os cortiços são os palacetes deserdados do seu papel.his­
tárico, inutilizáveis, hoje, por atividades mai,s rentáveis.
Ficam à margem do tempo, cujas marcas são. agravadas pela
falta de cuidados. Os arranha-céus são a manifestação da
fôrça das atividades diretoras da vida urbana e regional. Uns
e outros representam aspectos aparentemente opostos, mas
verdadeiramente complementares, de um mesmo e único fe­
nÔmeno, que é a 'especulaçãO.
..

O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR
.,••"":............... '.,c.;"'l •. '.

,. A Baixa dos Sapateiros representa um tipo à parte,
ligado muito estreitamente ao processo de- evolução dos bair­
ros centrais da cidade. O atraso na utilização do seu sítio,
isto é, a sua urbanização, em relação ao dos bairros
centrais, desempenha um papel importante na explicação
tanto dos aspectos formais; como das ativdades que aí se cons­
tituíram. Urbaruzada somente no meio do século 19, não tem
-os casarões que caracterizam os quarteirões das vizinhanças.
De outro lado, sendo atravessada por linhas de bondes e ôni­
bus que levam aos bairros da classe média e pobre, êste úl­
timo fato explica a natureza das atividades que se instalaram
aí. Estas exercem um papel passivo, quase negativo, na mo­
dificação do quadro, pcis não dispõem de fôrça bastante para
transformá-lo. A de quarteirões degradados nas
proximidades é um outro elemento que se opõe às modifi­
cações de aspecto da rua, pois as atividades incapazes de
se criarem um quadro próprio dêles se aproveitam. Pode-se
dizer a mesma coisa da grande extensão da, rua (mais ou me­
nes 2 quilômetros), atravessada por vârias linha3 de trans­
porte coletivo, o que facilita uma implantação disseminada
do comércio.
Como fatôres positivos da transformação do quadro, apa­
reéem timidamente atividades do tipo serviços, capazes de
pagar aluguéis mais altos e que justificam a construção dos
rarosedificias novos: essa transformação está ligada essen­
cialmente à melhoria dos níveis de vida da população da
cidade.'
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(
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:j .
CONCLUSÃO
Uma primeira. e inevitável constatação, após a nossa ten­
tativa de incluir Salvador em um grande esquema de classi­
ficação do fenômeno urbano, é que essa cidade brasileira. cons­
titui um tipo autêntico de .organização urbana cuja pr:tnc1­
paI razão de ser é uma economia comercial especuIativa.
Salyador fornece, Il8l verdade, um bom exemplo dé me­
trópole comercial que serve de traço de união entre um mun­
do colOnial que é o seu hinterland. e um mundo mdustrial que
as matérias-primals exportadas por seupôrto, em
forma bruta. E' o exutório de uma agricultura comercial
cujo destino é estreitamente ligado aos interêsses das potên­
ciasindustriais. Nisto ela se parece a outras metrópoles co­
loniads. Entretanto, quanto a &se ponto de vista., ela possui
uma originaJidade que provém de dois fatôres principais. De
um colon1ais dos países
coloo.iais politicamente dependentes, ela nio dispõe,&, rigor,
dQ estúnulante que pode ser trazido à vb:la urbana: por capi­
taismetropo11tanos, seJ... diretamente, no caso da·associaçio
comérc1o..agr1cultura comerciaI, seja iDd.iretamente, quando SI
construção de estradas de ferro, de rodagem. OU outras formas
urbano através de
uma do espaço que êle Dia poderia reaUzar sem
.essas contribu,içôe8 de fora.

1117
-,:!?-ssezu:
MILTON SANTOS 186
Salvador é, assim, um fato de economia especulativa pura.
Pode-se acrescentar, por .outro lado, que sua região de
influência compreende aO mesmo tempo áreas onde se. pratica
uma agricultura comercial intensiva e áreas onde se pratica
uma agricultura de subsistência, extensiva e em economia
quase-fechada. A agricultura comercial não economiza 1 ecur­
sos quer à cidade quer à sua reg'ião; ao contrário, ela os reúne
e os envia para fora. A agricultura de subsistência, pobre e
e em conseqüência incapaz de criar centros urba­
nos de uma certa importância, influi negativamente sôbre o
desenvolvimento regional. Sendo ela pràticamente estacioná­
ria., enquanto a população não cessa de crescer, libera um
grande número de pessoas que vêm aumentar desmesurada­
mente a . população metropolitana.
A fuga dos capitais disponíveis e a pobreza crônica. das
áreas agrícolas explicam a persistência dessa função comer,,:
cial, à qual não se veio juntar urna função industrial impor­
. tante. O dinamismo urbano é um resultado quase exclusivo
do papel comercial e das atividades que dêle dependem, assim
como a função administrativa. Tais funções são capazes; uma
e outra, de conservar para Salvador uma centralização de
recursos excessiva em relação ao território do Estado, mas
elas são incapazes, até mesmo em razão da economia regio­
nal, de levar ao interior do Estado um fermento de vida.
A ausência de UJ;na função industrial importante deve
ser considerada domo rajz dêsse fato. Mas ela é igualmente
uma conseqüência . Daí um paradoxo aparente, que consti­
tui. ao mesmo tempo um crrculo-viciosô:' é a ausência. de um
'. diniL'Tfi.is'irtQ própri{J,' à .ci4dde o re'sponsável pelo seu cres.ci­
mento. 4- cidade por falta de dinamismo próprio.
Expliquem<Hll:os. Sua incapacidade de a
agricultura do Estado tem como resultado a perpetuàção da
pobreza geral; tal pobreza se reflete naturalmente sôbre a

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o CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR ]a7
metrópole, não somente pelo aumento de população, mas
igualmente como uma restrição às sua.s possibilidaaes'óe
pansão econômica: somente as atividades capitalistas especu­
lativas ganham terreno, direta ou indiretamente, às custas
da, agricultura comercial, por cúja melhoria não se preocu­
pam, preocupando-se ainda· menos com a agricultura de
subsistência. Ambas assim se enfraquecem e por essa razão
o círcu1o-vicioso se fortalece. A cidade continua a ver au­
mentar incessantemente a sua população.
Ai:, estradas, aber.tas para estabelecer uma ligação entre a
Capital do Estado e as zonas semi-áridas, periOdicamente
atingidas pela sêca, são uma realização estranha aos recur­
sos do próprio Estado e à capacidade de organização do es­
paço de sua metrópole: devem-se à iniciativa de governos da
República. Tais estradas facilitaram a imigração dos exceden­
tes de mão-de-obra agrícola bem como um grande êxodo, du­
ranteos pedoo.os secos.- Essa zona é submetida ainda agora
aos âleas do clima; sua vida regional somente se afÍl'1'.l:ll8o
quando as condições se apresentam favoráveis e então há
excedentes agrícolas.
Observa-se, assim, a importância direta ou indireta da
especulação, seja na vida atual da cidade, seja durante o seu
passado, isto' é, no processo do seu desenvolvimento. Poder­
se-ia dizer que .a cidade evoluiu guardando as funções que lhe
foram atribuídas, sua fundação. Aqueloutras
que vimos depois se ajuntarem dependem das primeiras. A
função bancária, por exemplo, que ·foi inicialmente uma con­
seqüência. da atividade comercial, criada para servi-la, ex­
plica, hoje, certos fatos de comércio. a principal responsá­
vel pela coaIescência das que tende a reforçar o papel
macrocefálico da CapItal do Estado. Tal se
realiza ,em favor da atividade comercial lig·ada à atividade
portuária e outras atividades especulativas, do que resultou
finalmente a conservação das funções antigas e,. mutatis mu­
(
(
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188
189
(
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(
MILTON SANTOS O CENTRO DA CIDADE DO SALV ADOH.
(
( tandis, a pobreza de ind:ústrias. E o remédio indicado para
.. ( corrigir 81 pobreza de indústrias é exatamente a importaçãD
de capitais de fora ...
(
Por isso a evolução da vida urbana e sua representação
(
são representativas seja da própria evolução da agricultur81
(
em. sua região, seja da conjuntura mundial de que esta - a
( agricultura comercial - depende. plLpel de ponto de
eontacto entre dois mundos opostos, 'porém complementares,
(
marca tôda a vida urbana, inclusive a organização interna
da cidade.
o centro não escapa a essas influências. E' mesmo a parte
da cidade que mais fortemente significa a existência dêsses
fatos. A penetração das técnicas modernas que ai se observa,
em escala maJor ou menor, quer sôbre a morfologia, quer sô­
(
bre a' são um refiexo da economia regional.
(
São -aspectos que é necessário levar em conta, se deseja;.
(
mos incluir a cidade do 8alvador nas grandes séries urbanas
(
de que fala P. George, mas, também, se queremos descobrir
( sua originalidade como um tipo de organização.
Assim é que as caracteristicas fundamentais da atividade
econOmica regional fomecem uma explicação para a. reparti­
ção social e proflsslonal da população: uma classe rica, cons­
tJtufda por banqueiros, homens do alto comércio, da indústria
e grUldes proprietários, u:ma classe média formada de pessoas
profissões liberais, pequenos comere1antes, proprie­
tários de terras médios, funcionários públlcose uma classe
(
pobre de operários, empregados no comércio, ,pequenos fun­
(
cioDárlos e gente sem profissão def:inida.
Essa estrutura .soc1a1 se reflete SÔbre a estrutura urbana
de.forma não rigorosa. Poderlamos mesmC'1 dizer que a Cidade
do' Salvador aL'lda não amadureceu do pont.o de vist-a da es­
trutura urbana, pois .se há .alguns bairros de caracterfsticas
detlnldas, para outros essa caracterização é menos precisa.
I
i A explicação dessa "juventude" estrutural podemos en­
contrar n8J evolução histórica do fenÔmeno urbano: a orien­
tação que o crescimento urbano seguiu, preferindo as dor­
sais, valorizou êsse terrenos, enquanto as vertentes e os vales,
êstes principalmente, eram ocupados com uma população po­
bre. E' dai que provém 8J mistura observada nos bairros ricos.
Pelas mesmas razões e em conseqüência da valorização dos
terrenos nas ruas onde passam. os transportes coletivos, clas­
se médilli e pobre estão também misturadas, nos vários bair­
ros do norte da cidade. Assim, a menos que levem')s em
consideração essa "diferenciação social em linha" (sejam as
dorsa·is, ,sejam aS. artérias que seguem os transportes, sejam
os vales recentemente urbanlzado.s, sejam ainda as ruas que
associam duas dessas características) não podemos deixar de
reconhecer que' falta à maioria do.s bairros uma homogenei­
dade de padsagem e de contexto.
As exceções são, de um laâo, os bairros extremamente po­
bres, os bidonviUe8 das "invasões", que são. entretanto sujei­
tos a um processo de mudança social, parcialmente realizado
quando um.8l de suas partes é servida por transportes cole­
tivos ou outro qualquer melhoramento. Por ouno lado, os
bairros centrais justapõem uma área. modema, bem cons­
truída, o que se deve à fôrça das funções que abriga, 81 uma
outra área,. de construções antigas, onde mora umapopula­
ção heterogênea e pobre. Entretanto, no interior dêsse con­
junto, a zon81 de expansão do comércio, zona de luta entre as
duas partes do, conjunto, embora seja um tront pioneiro em
constante deslocamento, possui muito pró­
prias. De resto, serial inútil procurar. realidades im:utáyeis no
interior, das grandes cidades ém proCesso de evolução.
A formação a estrutura da. cidade depende, assim, da es­
peculação, cuja marca se inscreve na atividade urba.n&.
Bairro comerc1al. criado para abrigar atlV1dades-
vas, bairro' de' Cortiços que se deterioram sob' a tnnuência da
especulação, bairros ricos e bairros da classe média que .se
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,
190 MILTON SANTOS

criam e se transformam especulativamente. Daí os alugueres
elevados a -ptll"mitirem altas taxas de juros e por essa razão
"
são proibitivos aos pobres. Enfim, os próprios bairros pobres
são uma conseqüência do sistema especulativo de construção.
o sitio sôbre o qual a cidade foi criada, o
do centro, torna eSSa evidência, ainda mais grave: embaixo,
,
uma cidade nova que reduz de mais a mais contra o 1u:rrst os
restos da cidade velha; em cima uma cidade velha que se de­
grada, cortada por ruas comerciais, onde a paisagem se re­
nova. Poderíamos ir mais longe, mostrando como, na Ci­
dade Alta, l) comércio de varejo apresenta dois diferentes
aspectos: um comércio de lux::" m is eSPf'C'lalizado na rua
Chile e redondezas e na, Avenida Sete de Setembro, provo­
a construção de nurnercsos edifícios de vários andares
- crescimento em altura -; e o comércio de varejo pobre,
mais especializado na Baixa dos Sapateiros, com casas tér­
reas em maioria. A evolução urbana e de uma maneira mais
indireta o. sitio são os responsáveis por es.sa subdivisão. .
Em resUllJO, as secções ativas do centro se escalonam em
três grupos, se,gundo sua capacidade de formação ou de
transformação da paisagem: o comércio. de varejo pobre, o
/'"
comércio de varejo .rico e o alto comércio. Para compreender
perfeitamente a realidade, seria preciso acrescentar que o
ritmo de expansão p.e cada uma dessas atividades conforma­
-,se também a êsseescalbnamento. Eis o qUE' se passa:
1) uma pequena parte da população ativamanipuIa
grandes capitais e é responsável pelas atividades àiretoras
da, vida urbana e regional;
2) uma porceIltagem um pouco mais elevada da popu­
iação . urbana e reglonalsustenta o comércio de varejo de
luxo;
O CENTRO DA CIDADE DO SALVADOR 191
3) o grosso da população pobre da cidade mantém o c0­
mércio de reta.lho pobre que, entretanto, tem uma menor
expansão.
Tudo isso constitui um reflexo da economia regional,
bem como a oposição entre cidade nova, sôbre os aterros do
pêrto, e cidade velha colada ao horst ou sôbre as colinas da
Cidade Alta.. Os aterros são devidos aos trabalhos do pôrto
e ligado-s à necessidade de expansão das atividades especula­
tivas.
Examinamos já o papel do sítio "fabricado", seja no apa­
recimento dessa paisagem nova, seja na evolução da cidade
velha. Sem a especulação não se poderia explicar inteira­
mente a construção dos buildings, nem a deterioração das
casas ricas .ou nobres do passado. Os regulamentos do urba­
nismo, preocupados com a conservação dos aspectos histó­
ricos de uma parte da cidade, oferecem uma certa resistên­
cia à transformação do velho quadro. Mas é a especulação
. que incita a ir· construir em outra pa.rte prédios com um
número mais elevado de andares.
Podemos, agora, mostrar com mais fôrça as idéias segundo
.as quais imaginamos poder caramerizar a Cidade do Salvador
e o seu Centro. E' uma cidade onde a especulação comercial
marca de vários modos tôdas as formas de vida. Diríamos que
ela ccnstitui um exemplo típico de metrópole comercial, nas­
cida exclusivamente do fenômeno E' como um
centro de atividades essencialmente especulativo que ela se
organiza e age - ou deixa de agir - sôbre sua região. O
centro, como a cidade, reflete todos êsse3 problemas. Ambos
lhes devem sua originalidade.
Os aspectos vetustos dos bairros centrais aproximam
Salvador de certas cidades européias; ela é até mesmo con­
siderada. como lhes sendo pareeida na América, mais precisa­
mente no Brasil. A Gidade do Salvador deve êsse fato à anti­
.."
guidade do seu papel de centro comercial. Mas, conquanto

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MILTON SANTOS
192
flo. não seja tão jovem, de modo a resistir a essa comparação,
o ritmo segundo o qual se renova - ritmo de país novo ­
afasta a hipótese. Sua pobreza industrial reconhecida ex­
clui a possibilidade de a associar a uma classificação de
cidades do tipo americano, das quais, entretanto, ela possui
muitos traços em sua paisagem central. Deve-os, todavia,
ao banco e a outras atividades de especulação pura. Nós
vim06 já o que a faz diferente dos ou.tros exemplos de metró­
pole que como ela vão encontrar unia razão de vida e dina­
mi.snlo em um "arriêre-pays" colonial.
Mesmo no Brasil, ela é singular. A outra cidade do ye­
jho Nordeste, de evolução oontemporânea e semelhante,
Recife, além de se desenvolver em sítio diferente - uma pla­
ruele - constrói seu novo centro com o sacrifíCio quase total
dos aspectos herdados do passado. As grandes, cidades do
Sul, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Hortzonte, por
exemplo, desenvolveram-se muito depois e segundo um
ritmo. Em tôdas essas, bem como em Pôrto Alegre, os traços
do passado são inexistentes, ou quase.
Assim, se nós devemos servir-nós de uma 'fónnula para
chegar .a. uma definição, diremos, então, que Salvador é uma
da economia especulativa, a metrópoZe de uma ec0­
nomia agrfcola comercial antiga que ainda hoje 8ubsiste; ela
conserva 48 funções que lhe deram um papel regional, em­
bora penetrada pelas novas f07'17Ul8 de vida, devfdas à sua
participação aos modos de vida do mundo industrial, mo.'1tra,
ainda, na paisagem,'· aspeCtos__mi:iliriais_ de outros perfodOs.
BIBLIOGRAFIA
a) QUESTÕES DE MÉTODO
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-Ti
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vador" - Tip. Beneditina, Salvador, 1949.
(
35 - SAMPAIO, THEODORO - "A Engenharia e sua Evolução DO século
Independência" - Edição do Diário Oficiat do Estado, c0­
memorativa do Centenário da Independência da Bahia - Sal­
vador, 1922.
(
(
196
MILTON SANTOS
(
(
(
(
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- Rev. Brasileira dOI Muniápioa, DI. 35-36.
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SENAI, Salvador, 1955.
na voz dos Trovadores" - Tip. do
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dor" - Tip. N. S. do Loreto, Salvador, 1950.
40 - SOARES DE SOUZA, GABRIEL
Martill8, S. Paulo, •.d.
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(
·41 - SPIX e MARTIUS -
Salvador, 1928 ­
"Atrave. da Bahia" - 2.- ed., Imp. Oficial,
(ComentáriOl de Pirajá da Silva).
(
(
(
(
·42 - Tranlportes, Comissão Municipal dos (Relat6rios) - Salvador, 1956.
43 - VICENTE DO SALVADOR, FREI - "História do Brasil" - Nova
edição, reviata por Capistrano de Abreu - Weisf10g Irmãos, Jüo­
-8. !Paulo, 1918.
:44 ,- VILHENA, LUIZ OOS SANTOS - "Notícia. BraaiJicas e Sotaropo­
ntanas" ....., Imp. Oficial, Salvador, 1922.
(
(
(
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(
(
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l
íNDICE DOS MAPAS
1 - tndic.e. aridez, no Estado da Bahia ......•
2 - Distribuição dos núcleos urbanos com mais
de 5.000 habitantes ..................... .
3 - O 'sitio de· Salvador: carta hipsometrica ... .
4 -.Ocupação do espaço na cidade .....•.....
5 - Ev(olução urbana de Salvador ......... : .. .
6 - Oéúpàção . do espaço no centro da cidade .. .
"J - Çomércio da Cidade-Alta ............... .
7 A - da Cidade Baixa ............ .
7B ....... Oamércio da Calçada ................. .
7 C - Comércio da Liberdade ............... .
8 - Distribuição dos guichês bancários ....... .
9 - As industrias do Centro ................. .
10- A Cidade do Salvador no fim do século
XVI ................................... .
11 - As casas da Cidade-Baixa ............... .
12 - O Mosteiro de São Bento ............... .
13 - Os pontos iniciais dos transportes coletivos e .
o seu percurso no centro da cidade ....... .
14 - Evolução da população do Centr<ll da Cidade
15 - Crescimento demográfico nos sub-distritos
-urbanos de Salvador .............••..... ­
16 - O Largo do ...................
17 - O Comércio da Baixa dos Sapateiros..... .
Páginas
31.. 32
33-" 34
53- 54
.55
59
69- 70
77 ­
78
79
80
87- 88
92
100
-,--",..
109-110
115
121-122
127-128
_ 129
163
173-174
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íNDICE DOS GRAFICOS
íNDICE
(
Introdução.................................. . 21
Páginas
1 - Crescimento demográfica de Salvador PRIMEIRO CAPíTULO
oi ................ .. 60
2 - Pirâmide das idades do munlclplo de Salvador
FORMAÇÃO DA CIDADE E EVOLUÇAO DA RE­
194()..1950 .............•.......••.•........••
61
GIÃO .................................... . 29
1.
3 - Pirâmides das idades - Estado da Bahia, Muni­
cípi,o. do Salvador ........................... .
62
A Escolha do Sítio. De Cidade-Fortaleza a Capi­
(
tal do Recôncavo. . . . . . . . . . . . . . . . . ......... . 35
4 - Distribuição dos operários pelos setores .•.....•
93
2. Incorporação do Sertão à Zona de Influência
(
do Salvador ...............................• 37 (
5 - Distribuição dos estabelecimentos industriais •..
94 3. A Organização do Espaço Regional .......... . 39
4. Am'Ol'tecimento Demográfico e Introdução dos
Transportes Mecânicos...................•.. 43
5. O Crescimento Recente da Cidade.......... . 45
6. A ocupação atual do sítio .................. . 52
CAPíTULO II
AS FUNÇOES 00 CENTRO DE SALVADOR.... 67
1. A função portuária ........................ . 71
2. A função administrativa................... . 74
3. A função comercial. . . . . . . . . . . . . . . . ....•.•.. '75
AI A ç, .. _ ..... ;::_ 1...",, __.l:....!_
"Z.. ,c.& \.l.l.l';s-AV ................................................ . 85
5. A função industrial e artesanal ............. . 90
YJ
,
( )
( ,
(
CAPíTULO nI
(
( A PAISAGEM URBANA E A VIDA DO'CENTRO .,.
DA CIDADE................................. .
,_99 '
(
A. A PAISAGEM
(
1. A elaboração do quadro..................... . 101
(
2. Os espaços construidos .................... . 112
(
3. Os espaços vazios. " ........................ . 114 '
4. As conseqüências da escolha do sítio - Um
(
( I
centro excêntrico ......................... . 117
'B. A VIDA
5. A circulação e seus problemas.............. . 118
( 6. A população e sua distribuição ............. . 129
\ .
(
CAPíTULO IV
(
\
(
A ESTRUTURA URBANA DOS BAIRROS CEN- .
( TR.AI8 .•• " ••••••••.•.• " ••. \151
.
(
'";fA . TIPOS DE CONSTRUÇOES
(
1 Os árranha-céus............. ............. . : 151
( ,
2. Os armazéns e trapiches do pôrto........... .
; 156
3 . As casas de "Meia-idade"................. . 157
(
( 4 . Os cortiços;................................ 158
( ,
B. EXEMPLOS DE RUAS
(
,(
5 . O pelourinho...........• "................ ·. 165
í
6 . A baixa dos sapateiros................. . ....• 171
(
CONCLUSÃO ................................ .
!(
185 ..;.
,(
Bibliografia .............. .......... ;'; .. '..•:. ',-; ,."-
• .1'"
...
índice os mapas ............................ .
-
(
índice dos gráficos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 198
,
1 \
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