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Alexander Gottlieb BAUMGARTEN (Berlim, 1714 – Frankfurt an-der-Oder, 1762) é usualmente apresentado como o fundador da estética como disciplina filosófica. Parece mais adequado, contudo, creditar-lhe tão-somente a cunhagem do termo “estética”, com que intitulou obra inacabada em dois volumes que publicou em 1750 e 1758, pois os núcleos conceituais da nova disciplina, de que ele próprio já tratara em opúsculo de 1735 ( Meditationes philosophicae de nonnullis ad poema pertinentibus ), afinal encontram-se também disseminados nas obras de diversos autores mais ou menos seus contemporâneos, entre os quais Vico (1725) e Burke (1757).

MEDITAÇÕES FILOSÓFICAS SOBRE ALGUNS TÓPICOS REFERENTES À ESSÊNCIA DO POEMA∗ (1735) Desde o início da adolescência, o gênero da literatura 1 não só nos agradou, a ambos, 2 de modo extraordinário, como também nunca o desprezamos, seguindo assim o conselho de homens extremamente sábios aos quais era conveniente obedecer; já naquele tempo decidimos experimentar publicamente nossas forças, quaisquer que fossem, no campo literário. 3 Efetivamente, desde a época em que comecei a formar-me nas humanidades — incentivado por aquele que foi o guia de extrema habilidade dos meus primeiros anos de estudos, que não posso nomear sem que a minha alma se inunde da mais alta gratidão: refiro-me a Christgau, digníssimo vice-reitor do próspero liceu de Berlim —, não passei um dia sequer sem me aplicar à poesia. À medida que avançava pouco a pouco em anos, embora tivesse sido forçado, desde o tempo da escola, a voltar cada vez mais meus pensamentos para assuntos mais austeros, e a vida acadêmica no final parecesse exigir outros trabalhos e outras preocupações, dediquei-me não obstante à literatura,4 que me era necessária; assim, nunca pude me obrigar realmente a renunciar à poesia, que considerava inteiramente recomendável, tanto por sua beleza, quanto por sua evidente utilidade. Entrementes, pela vontade divina, que venero, ocorreu que me fosse conferido o encargo de ensinar a poética, juntamente com a assim chamada filosofia racional, à juventude que devia se formar para as universidades. O que haveria de mais propício neste momento, exceto pôr em prática os preceitos da filosofia, quando a primeira ocasião se oferecia? Por outro lado, o que havia de mais indigno ou de mais difícil para um filósofo, que
In: Estética; a lógica da arte e do poema – coletânea de textos extraídos da edição de Johan Christian Kleyb de 1750. Tradução de Miriam Sutter Medeiros. Petrópolis (RJ): Vozes, 1993. p. 9-54. Texto de abertura, seguido de alguns parágrafos selecionados, do opúsculo Meditationes philosophicae de nonnullis ad poema pertinentibus. Edições utilizadas para cotejo: Reflexiones filosóficas acerca de la poesia . Traducción del latin, prólogo y notas de José Antonio Miguez. Madrid: Aguilar, 1964; Meditationes philosophicae de nonnullis ad poema pertinentibus / Philosophische Betrachtungen über einige Bedingungen des Gedichtes . Übersetzt und mit einer Einleitung herausgegeben von Heinz Paetzold. Hamburg: Felix Meiner, 1983. 1 No original latino, studiorum genus (cf. p. 3 da edição alemã referida). A expressão, literalmente traduzida, resultaria em “[um] gênero de estudos”, solução tradutória mais recomendável, a fim de evitar anacronismo, pois a palavra “literatura”, no século XVIII, não possui o sentido moderno de que se investe no texto da tradução. Com efeito, na versão espanhola a que tivemos acesso se lê: “Desde mi más temprana edad, sentí entusiasmo por una determinada clase de estúdios [...]” (grifo nosso; cf. p. 27 da edição espanhola mencionada). 2 O autor refere-se a si mesmo e ao seu irmão, Nathanael Baumgarten, falecido em 1763, seu companheiro de primeiros estudos. 3 Na versão espanhola referida (cf. p. 27), este período se encerra na palavra “força”, nele não havendo pois o segmento final presente na tradução ora reproduzida (“quaisquer que fossem, no campo literário”), onde o emprego da palavra “literário” configura anacronismo (ver a propósito nota 1). 4 No original latino, litteris, isto é, “letras”, opção por sinal da tradução espanhola mencionada (ver nota 1).

proponho-me a considerar os termos poéticos e avaliá-los com cuidado. a aplicação hão de me conceder pensamentos mais importantes e mais maduros. mas que mal foram comprovadas uma só vez. PORTANTO O DISCURSO É SENSITIVO. e que. a denominação “sensitiva” também poderá ser aplicada às próprias representações. é obtida através da parte inferior da faculdade de conhecer. no que se refere à dignidade do assunto. freqüentemente consideradas muito afastadas uma da outra. O desejo é chamado sensitivo enquanto provém de uma representação confusa do bem. nem a limitação do pensador permitiu melhor. do § 65 ao § 76. infelizmente. AS REPRESENTAÇÕES SÃO SENSITIVAS. Deus. Porém agora. na tradução espanhola mencionada. Cálamo: antigo instrumento para escrita em papiro e pergaminho. acrescentar três palavras sobre a poética geral. mas que me pareceu suficientemente importante. do § 13 ao § 65. e me vi. UMA DISTINTA DA OUTRA. finalmente. talvez no futuro. As representações obtidas através da parte inferior da faculdade cognitiva são sensitivas. mostrar claramente que a filosofia e a ciência da composição do poema. serem distinguidas das representações intelectuais distintas. desejo demonstrar que é possível.2 asseverar em palavras alheias e relatar. na luz da Fredericiana. §4 OBS. §3 OBS. por imitação cega ou pelo menos por suspeita e pela expectativa de casos semelhantes. UM DISCURSO COMPOSTO POR REPRESENTAÇÕES INTELECTUAIS SERIA UM DISCURSO INTELECTUAL? Universidade Fredericiana. desonram mais que dignificam a primorosa atividade dos cálamos6 no círculo literário. orbi litterato. após haver evidenciado a fecundidade da minha definição. o tempo. dedicar-me-ei a desenvolver a noção de poema e dos termos a ele associados. A natureza do projeto não permitiu mais. provar numerosas afirmações sustentadas cem vezes. figuradamente. compará-la com algumas outras. por último. desejo. os escritos dos mestres? Eu precisava me preparar para refletir a respeito daquilo que conhecia apenas historicamente e por experiência. desvendo o método lúcido do poema. “mundo letrado”. 7 No original latino. esforçar-me-ei por formar alguma imagem dos pensamentos poéticos. até o § 11. minha situação mudou novamente. para. assim como a representação obscura. com voz estentórica. do § 77 ao § 107. De fato. à medida que o mesmo é comum a todos os poemas. escolhi um assunto que na verdade é considerado pouco profundo e alheio ao discernimento dos filósofos. então. face à fraqueza das minhas forças. 7 Isto explica. 5 Tenho violenta aversão por aqueles que entregam ao público pensamentos ainda imaturos e mal ponderados. A IDEIA DE DISCURSO COMPOSTO POR REPRESENTAÇÕES SENSITIVAS. pois. isto é. segundo todos os graus possíveis. me pareceu suficientemente adequado para exercitar os espíritos que se dedicam a procurar as razões de todas as coisas. pena. não o nego. mas a representação confusa. “mundo de las letras” (ver notas 1 e 4). num fechar de olhos. Pareceu-me oportuno. Enquanto me encontrava nestes embaraços. em seguida. hoje formalmente chamada Universität Karlsruhe. constituem um casal cuja união é totalmente amigável. Desta forma. deste modo. Depois disto. 5 6 . O QUE SIGNIFICA ISSO? EXISTEM REPRESENTAÇÕES SENSITIVAS E INTELECTUAIS. atividades literárias. o fato de não ter cumprido mais cedo o dever que exigem de mim as santíssimas leis da Universidade. e. e que. para que seja cumprido este dever. POR OUTRO LADO. a partir do conceito único de poema (que há muito me está gravado na alma).

............. as representações claras contêm-nas (por definição)...... ..... § 12 AS REPRESENTAÇÕES SENSÍVEIS SÃO ELEMENTOS DO POEMA.... As representações sensíveis são elementos do poema [. Uma mesma coisa pode sem dúvida motivar representações das quais uma primeira seria obscura........... Mas como as representações sensíveis podem ser obscuras ou claras [................. Assim. mas quando falamos de representações que um discurso deve expressar................. sem se deter no nível do conhecimento confuso... CLARA E DISTINTA... no entanto...... § 13 As representações obscuras não contêm tantas representações de marcas distintivas quantas possibilitem reconhecer o objeto representado e distingui-lo dos outros. MAS O QUE É UM CONHECIMENTO CONFUSO? NENHUM DISCURSO É PURAMENTE CIENTÍFICO OU INTELECTUAL.................. EM ALGUM MOMENTO............. uma terceira... PRECISANDO PARTIR....... a aptidão para elaborar um poema é a arte da poesia. Por conseguinte.... .. clara................ distinta.. por outro lado..... §9 OBS....... pela simples razão de que os seus olhos baços só pensam distinguir trevas escuras e uma noite profunda nos poemas dos mesmos.].... permanece sensitivo..... os elementos que permitem a comunicação das representações sensíveis são mais numerosos quando as mesmas são claras que quando são obscuras. .............. do mesmo modo. . referimo-nos àquelas representações que o locutor pretende comunicar. portanto. aquele que possui esta aptidão é um poeta...... são poéticas [... ENTENDE TRÊS REPRESENTAÇÕES: OBSCURA. assim como o discurso científico permanece abstrato e intelectual......... POIS O SER HUMANO (FILÓSOFO) NÃO É 100% INTELECTO PURO............... logo.. quase nenhum discurso chega a ser tão científico e intelectual que não se encontre uma só idéia sensível ao longo do seu encadeamento.......... O QUE É A APTIDÃO POÉTICA? O discurso sensível perfeito é o poema.......... Pergunta-se... cujas representações são claras..] que as obscuras............. este último.......... portanto........... quais são as representações que o poeta pretende exprimir em seu poema.... Suponha-se que um discurso que se compõe de representações sensíveis seja sensitivo....... PARA UM CONHECIMENTO CONFUSO......... refuta-se o engano daqueles que crêem falar tanto mais poeticamente quanto mais o seu palavreado se torna obscuro e complicado. e as representações claras são mais poéticas [.] ... uma segunda......3 PRESSUPOE QUE HAJA SENSITIVO. Um poema....]........... as representações obscuras e as representações claras são poéticas. aquele que se dedica antes de tudo ao conhecimento distinto pode encontrar quaisquer representações distintas num discurso sensitivo... o conjunto das regras às quais o poema deve se submeter é a poética... Mas não concordamos de modo algum com aqueles que ousam negar os melhores poetas..... logo. é mais perfeito que aquele cujas representações são obscuras.. e por último.. Como nenhum filósofo alcança tamanha profundidade que lhe permita contemplar todas as coisas com o intelecto puro.... a ciência da poética é a poética filosófica.............]..... [........

portanto. mas já sabemos que as representações distintas não são poéticas (§ 14). enquanto a segunda não se preocupa com a mesma. não totalmente ignorante em poesia. se dermos a algum filósofo. de tal modo que se dedique a afinar uma sem prejudicar a outra. não refuta conforme as regras (segundo o verso 1). de maneira confusa. § 28 As imaginações (phantasmata) são representações sensíveis (§ 3). se a vivenciarmos a posteriori. temos aqui a principal razão pela qual se considera quase impossível a filosofia e a poesia permanecerem no mesmo nível: de fato.. Supondo porém que um indivíduo muito competente em ambas as partes da faculdade de conhecer e que saiba usar cada uma no devido tempo. e profundas. em todos os graus. de acordo com os filósofos. aquele que refuta / sem ser um lógico. que se situa além da esfera poética. Denominamos imaginações as reproduções das representações dos sentidos. constituindo pois a primeira enciclopéda. § 15 As representações claras são poéticas (§ 13). Obra coletiva elaborada em Constantinopla. § 25 Uma vez que os afetos são graus particularmente relevantes do prazer e do desprazer. No entanto. como. é um procedimento poético provocar os afetos (§ 11). / Então ninguém refutará se não demonstrar / o erro dos outros. por exemplo. os seguintes versos repletos de representações distintas: “Aqueles que demonstram que os outros estão errados os refutam. no próprio dicionário de Suda.9 a faculdade de imaginar é descrita como “aquela que extrai das sensações as formas dos objetos sentidos e as reproduz em si mesma”. Consiste numa compilação de obras e autores da cultura antiga.” O nosso filósofo mal os tolerará. adequadas. as suas sensações realizam-se num sujeito que se representa. a negar que as imaginações são o que imaginamos? De fato. completas. são poéticas (§ 12). logo. embora a métrica de cada um deles seja perfeita. a primeira procura com extrema obstinação a distinção dos conceitos.. não são sensíveis. portanto. com a matéria disposta em ordem alfabética. do significado vago desta palavra. as representações claras podem ser distintas ou confusas. talvez não saiba por que motivo estes versos. no século X. que uniram a toga dos filósofos aos louros do poeta. logo.8 Aristóteles e tantos outros. por outro lado. filósofo alemão. A verdade desta proposição tornar-se-á evidente. Aliás. lhe parecem rejeitáveis.]. nem das regras da gramática: quem se atreveria.4 § 14 As representações distintas. logo. não são poéticas [. este indivíduo perceberá que Leibniz. e se com isso nos afastamos.. aquele que deve demonstrar que um erro existe / deve dominar a lógica. determinam representações poéticas [. as representações confusas são poéticas.. que não pecam nem pela sua forma nem pelo seu conteúdo. O que são então as imaginações. alguma coisa como sendo boa ou má. eram prodígios e não miragens. 8 9 . efetivamente. Os afetos. a não ser as Gottfried Wilhelm von Leibniz (1646-1716). logo. não nos afastamos nem do uso da língua.].

..... o poema deve ser.. § 81 Se a idéia que quisermos transmitir é menos poética que aquela à qual remete. a memória também é poética (§ 12).[..... eles constituem... ad pis.. uma expressão figurada.... Ora... ..... é preciso..... consideradas de maneira abstrata.... que foram extraídos da sensação (como já o indica o conceito “extraídos das sensações”)? § 36 As coisas que dependem de um mesmo conceito de categoria superior são semelhantes (similia).... rejeitar.... § 68 É um procedimento poético o tema determinar as idéias sensíveis e as imaginações do poema que não são temas... efetivamente.] ..... os tropos poéticos: 1 – já que a representação ampliada por um tropo é sensível e... enquanto sensitiva (§ 3)... Logo... Com efeito. por assim dizer... portanto.......... Com efeito.... ora..... que não só permitem ao poema as imaginações e as invenções.. Em relação ao poema e por analogia..... um mundo... § 82 . apesar de tudo... portanto.].. é necessário considerar como verdadeiro o que os filósofos consideram como evidente em relação ao mundo. considerando os parágrafos anteriores..... § 79 A palavra imprópria possui um sentido impróprio........ logo. Já observamos que o poeta é como um demiurgo ou um criador.. qualquer idéia sensível... Agora já determinamos limites e moderamos a imaginação como também a licença excessiva dos talentos... é poético que exista uma associação [..... coisas semelhantes pertencem a uma mesma espécie ou a um mesmo gênero.... poética [... logo....... ao compor o conjunto...... 195). mesmo quando se trata de representações que..... é um procedimento poético preferir o termo impróprio ao termo próprio (§ 79).. portanto. os termos impróprios geralmente são termos próprios a uma representação sensível. são absolutamente válidas.... § 42 O reconhecimento confuso de uma representação deve-se à memória sensível....... como uma propriedade particular..... Ep... mas até mesmo as exigem para a sua perfeição.. se o tema não as determinar..].... elas não são associadas... podíamos recear o abuso dos mesmos... constatamos que............ 2 – já que eles proporcionam representações complexas e confusas [. qualquer invenção e qualquer imaginação “que não seja útil ao derradeiro propósito (o tema) e que não lhe convenha exatamente” (Hor.... é um procedimento extremamente poético representar simultaneamente a imaginação que queremos representar e aquilo que lhe é semelhante. portanto.....]..5 repetições (as reproduções). as imagens (das representações) dos objetos dos sentidos......

mas sensíveis. o poema é a imitação da natureza e das ações que daí dependem [. onde “veja” significa julgar) e a dos italianos (“popolo del buon gusto”). conforme § 36. atribuir um limite determinado pela clareza até mesmo ao número das mesmas. Chegamos mesmo a utilizar algumas destas expressões para falar do conhecimento distinto. ou se o impudor dos pais pudesse deixar de contaminar seus descendentes. Assim. Por isto.]. intensamente poéticos.. a dos latinos (“fale para que eu te veja”.. B 2. elas são muito claras.) .. são poéticos (§ 79) e. como se tratássemos de uma substância) e o poeta produzem coisas semelhantes [. Logo. a natureza (se nos é permitido falar de um fenômeno substantivado e de ações que daí dependem. Ora. Poeta latino (40-102 d.. e pelas ações que daí dependem. 10 11 O gosto. Este julgamento é atribuído ao órgão dos sentidos que é afetado pelo objeto sensível que julgamos. § 92 Nomeamos julgamento dos sentidos o julgamento confuso que se aplica à perfeição dos objetos sensíveis. como tais.5). O discurso em que há um metro é pois uma obra em verso.]. 10 e que se aplica tão-somente ao campo do sensível..]. que existe sobretudo em função das sensações. nem uma ordem clara. nem simetria. sob o ponto de vista extensivo [. § 105 Nem toda obra em verso é um poema. § 83 Os termos metafóricos são impróprios. logo. jamais são distintas e intelectuais. A obra em verso deve sua perfeição ao metro [. se o papel pudesse corar. C. é justo que os utilizemos com mais freqüência que os outros tropos. que são impressos todos os dias. III. No entanto. e.. isto é.. mas ele não pode ser um poema [.6 Uma vez que as representações claras são mais poéticas que as representações obscuras (§ 13). Logo. pois a maior parte destas folhas de papel corariam por receber um nome tão nobre..]. A necessidade de atribuir uma faculdade de julgar os sentidos é o que indica muito bem a denominação que utilizam os franceses e aquela que utilizam os hebreus (ta am e rich). Isto nos permitirá designar o que os franceses nomeiam de “le gout”.]. § 110 As representações que são produzidas de modo imediato pela natureza. mas não é nossa intenção ir tão longe: basta que ele não seja contrário ao costume de atribuir aos sentidos um julgamento confuso... portanto. temos razão em distinguir com grande cuidado os poetas dos fazedores de verso e em ver apenas versos e não poemas nos “papéis de embalagem” (Marcial... pode existir um metro em um discurso no qual não há representações sensíveis. pelo princípio interno das mudanças que ocorrem no mundo. Logo.. etc. O discurso a que faltem estas qualidades bem pode ser uma obra em versos. poéticas [. é um procedimento poético evitar obscuridade nas expressões figuradas e. 11 Ep. existem obras em verso que não são poemas.]. ao mesmo tempo.

portanto. isto é. que é a ciência do modo perfeito de expor as representações sensíveis em geral. período da teologia cristã que se estende do século III ao VIII. não tem nenhuma ou quase nenhuma regra particular que deve observar na exposição de seus pensamentos. a exposição pode ser perfeita ou imperfeita. podemos facilmente descobrir o termo assim definido. Santo Agostinho. Para cotejo. Já os filósofos gregos e os padres da Igreja 13 sempre distinguiram cuidadosamente as coisas sensíveis (aisthéta) das coisas inteligíveis ( noéta).7 § 115 A poética filosófica. uma vez que também honramos com este nome as representações sensíveis dos objetos ausentes (logo. para as técnicas que permitem afinar e aguçar as faculdades inferiores do conhecimento e de as utilizar de modo a proporcionar um maior proveito do mundo. não duvidamos nem um pouco que possa existir uma ciência que dirija a faculdade do conhecimento inferior. no tocante ao modo de exposição. não sem um enorme benefício. e se constituem em objetos da lógica. A segunda subdivide-se em poética épica. § 117 O filósofo expõe as coisas como as pensa. a poética filosófica supõe. que vem a ser a ciência do modo imperfeito de expor as representações sensíveis em geral. 13 Representantes da patrística. São Atanásio. a presença da faculdade de conhecimento inferior no poeta. as representações que transmitimos. mas quem conhece nossa lógica sabe a que ponto este campo é falho. em função do § 9. se é principalmente por sua própria definição que a lógica se concentra nos limites muito estreitos em que de fato está contida?. São Basílio. a perfeição da exposição é o objeto da poética geral. esta seria a ocasião dos filósofos voltarem suas pesquisas. demonstrativa e deliberativa. a estética. nós possuímos. Desta forma. Ora. seja a ciência que educa a faculdade do conhecimento superior para o conhecimento da verdade? Assim. Ora. Ele não se ocupa dos termos enquanto sons articulados: enquanto tais. as coisas sensíveis são objetos da ciência estética (epistemé aisthetiké). Que fazer então.12 § 116 Existindo a definição. é a ciência que leva o discurso sensível à sua perfeição. portanto. São Cipriano. Mas aquele que expões suas idéias de modo sensível deve considerar melhor os mesmos. os objetos da imaginação) . retórica judiciária. é mais prolixa que a lógica. É evidente o bastante que as coisas sensíveis não equivalem somente aos objetos das sensações. etc. entre outros. da estética. São Jerônimo. dramática e lírica. portanto. São Gregório Nacianceno. São Cirilo de Alexandria. São Ambrósio. transcrevemos sua versão espanhola: “Pero puesto que la psicología da sólidos principios. A primeira se subdivide em retórica sagrada e em retórica profana. bem como em diferentes espécies Parece haver problemas de tradução nesta última frase do parágrafo. ele. Certamente será a tarefa da lógica em sentido geral suprir esta faculdade com as regras que o orientem neste conhecimento sensível das coisas. ou ainda. 12 . ou então. As coisas inteligíveis devem. 87). se vemos nela seja a ciência do mundo filosófico do conhecimento de um objeto. O modo imperfeito de expor seus pensamentos é ensinado pela retórica geral. uma ciência do mundo sensível do conhecimento de um objeto. quando falamos. ser conhecidas através da faculdade do conhecimento superior. no dudamos que pueda admitirse provechosamente una ciencia que dirija la facultad cognoscitiva inferior para el conocimiento sensible de las cosas” (p. eles assinalam as coisas sensíveis. Uma vez que a psicologia propõe princípios solidamente estabelecidos. São João Crisóstomo.

14 . no entanto. o autor as toma como símbolo de campos de conhecimento assinalados por convergências e divergências problemáticas e complexas. Os filósofos. 14 Frígios e mísios: povos antigos. pensamos que a determinação da extensão do território que lhes cabe não requer uma geometria menor que aquela dos frígios e dos mísios. sobretudo. devem se ocupar em expor generalidades e.8 análogas. devem deixar estas subdivisões aos retóricos. que tem por tarefa aí inculcar o conhecimento histórico e experimental. habitantes da Ásia Menor. eles próprios. não obstante. sua diferença certamente é apenas de grau. em definir com cuidado as fronteiras da poesia e da eloqüência. Os filósofos. mas. Por sua condição de populações étnica e geograficamente tão próximas a ponto de não ser possível estabelecer fronteiras e distinções precisas entre elas.

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