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ROMUALDO RIBEIRO/GAZETA MERCANTIL

INTERNET

Mercado digital vê problemas na formação de profissionais
Agências sentem falta de mão de obra e escolas não atendem necessidades
CLAYTON MELO E NEILA BALDI SÃO PAULO

AS HABILIDADES NECESSÁRIAS
• Domínio técnico, mas conhecimento do processo • Boa formação geral • Caráter inovador

Quando tinha 17 anos, Yentl Delanhesi — hoje com 21 — era uma jovem indecisa sobre seu futuro profissional: não sabia se cursaria administração, jornalismo ou designer. Como já era uma internauta contumaz, decidiu partir para uma área que abrangesse seu gosto pela web. Resumo da ópera: ingressou no curso de graduação em Comunicação Digital ministrado na Unisinos, em São Leopoldo (RS). Hoje ela trabalha no setor de planejamento e criação da agência de marketing digital Cubo cc, em São Paulo. “Quando entrei para a faculdade, não sabia no que desejava trabalhar, mas estava segura de que estava indo para um setor adequado ao meu perfil”, diz Yentl. A história de Yentl serve como ponto de partida para uma análise sobre a formação profissional no mercado de internet. Casos como o dela, que fez uma gradua-

ou criar cursos em sintonia com as transformações da sociedade. “Há uma lacuna: ou existem profissionais mais experientes, mas sem conhecimento sobre meio digital, ou jovens sem visão de negócio”, afirma Amyris Fernandez, diretora da Universidade Corporativa da AgênciaClick. Isso porque, segundo ela, a formação acadêmica ainda está calcada em um modelo acadêmico antigo. “Assim, aparecem vários cursinhos, pejorativamente falando”. Projeto Pedro Cabral, presidente para a América Latina da rede internacional de agências Isobar — controladora da AgênciaClick —, ressalta que a companhia investe na qualificação de suas equipes. “Não montamos uma universidade acadêmica, mas corporativa. Temos cursos que levam a uma formação objetiva, que formam as pessoas para as questões do nosso trabalho, como designers, gestores de projetos, mídia, desenvolvimento de negócios”, afirma Cabral. Ele avalia, no entanto, que só o domínio técnico não é suficiente. “As pessoas precisam investir na formação de longo prazo”, reforça. Ele se refere a cursos que ofereçam uma formação geral mais ampla, como mestrados, ou que propiciem experiências internacionais, por exemplo. Os projetos de formação da companhia não param por aí. Uma parceria entre e AgênciaClick e a Fundação Getúlio Vargas (FGV) resultou, no meio do ano passado, no curso de Comunicação com o Mercado através de Mídias Digitais. “O mundo digital é profundamente diferente do que estávamos acostumados. Agora, há a possibilidade de interação. Por outro lado, está em metamorfose constante e em altíssima velocidade”, lembra Jaci Corrêa Leite, coordenador do curso. O outro lado Entre instituições de ensino superior, uma das poucas a dar um passo mais ousado foi a Unisinos, com a criação do curso de graduação em Comunicação Digital, em 2003. “Identificamos que o mercado precisava de pro-

• Criatividade • Disposição para aprender sempre
Fonte: Mercado

ção na área, são raros, pois quase não há cursos desse tipo voltados ao digital no Brasil. Assim, a alternativa encontrada pelas empresas interativas é formar suas equipes internamente ou bancar total ou parcialmente os poucos cursos rápidos direcionados à área, geralmente oficinas de curta duração ou cursos de especialização, feitos em um e dois anos. Ainda assim, o País se defronta

com a escassez de mão de obra especializada. A crítica das agências é que as instituições de ensino superior se mostram incapazes de suprir a demanda não apenas no quesito quantidade, mas também no da qualidade — nem todo os cursos disponíveis formariam profissionais de maneira ideal. As escolas, por sua vez, alegam que tentam modernizar
RODRIGO CAPOTE/GAZETA MERCANTIL

Pedro Cabral, da AgênciaClick, destaca investimento em equipe fissionais. Como os cursos convencionais de comunicação não davam conta dessa necessidade, as empresas buscavam as pessoas em outras áreas”, diz o coordenador do curso, Daniel Bittencourt. Segundo ele, a graduação da Unisinos reúne competências de áreas como administração, tecnologia da informação, comunicação e designer. “Não estamos preocupados em repetir as práticas do mercado, mas em construir um profissional com visão holística da área”, argumenta Bittencourt. A Universidade Metodista, em São Bernardo do Campo (SP), montou em 2005 a graduação em Mídias Digitais. “Houve uma mudança nos processos tecnológicos que as formações tradicionais não atendiam”, afirma José Eduardo Sales da Costa, coordenador do curso. Na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM),o Centro de Criatividade promove há dois anos cursos de extensão na área, com módulos que variam de um a seis meses. “Faltam profissionais, e as empresas preferem investir nos seus quadros”, explica Gil Giardelli, coordenador dos cursos de marketing do Centro de Criatividade. Por isso, 70% dos alunos são de corporações e apenas 20% vêm de agências. Segundo ele, as aulas dão um panorama sobre o que há de novo no mundo digital. Não ao tecnicismo Sérgio Amadeu, professor da Faculdade Cásper Líbero e pesquisador de comunicação e tecnologia, avalia que as escolas não vão ao cerne da questão. “Elas estão numa encruzilhada porque continuam formando profissionais voltados ao mundo industrial. A concepção de ensino que prevalece não leva em conta as sociedades em rede. Elas costumam cair no tecnicismo”, afirma Amadeu. “É preciso formar pessoas com autonomia para o aprendizado, e isso se faz com uma sólida formação geral. Só assim os futuros profissionais não se perderão no dilúvio informacional”.

Gil Giardelli afirma que os cursos da ESPM dão panorama das inovações do universo on-line

ANÁLISE
Maristela Alves *

MÍDIA DOS EUA

Jornais se unem de olho na web
AFP WASHINGTON

STEPHEN CHERNIN/GETTY IMAGES/AFP

Universidades não suprem demanda
Apesar da turbulência atual ter gerado cortes de empregos e a ressaca habitual, existe um campo específico de trabalho que, se não está completamente imune aos perversos efeitos da recessão mundial, também está longe de ter suas vagas preenchidas. Muitos acreditam que as oportunidades geradas pela atual crise estão nas profissões ligadas ao meio digital. As empresas apostam no ambiente online para anunciar, vender e desenvolver seus produtos. Assim, geram demandas por profissionais especializados. A má notícia (ou boa, dependendo do ponto de vista) é que existem poucos profissionais realmente qualificados no mercado. Os motivos são vários, mas o principal é que não há uma formação específica. A escassez acontece porque as estratégias e processos ligados ao marketing digital têm nuanças que não são cobertas totalmente pelo que se aprende na faculdade. O dinamismo da área interativa é atendido pelas informações recebidas num curso acadêmico “tradicional”. Que curso acadêmico prepara, pelo menos atualmente, profissionais que possam entender como gerar valor para a empresa através das redes sociais, por exemplo? Alguém poderia argumentar que processos como esse são eminentemente operacionais, mas o fato é que qualquer profissional que queira se estabelecer dentro do meio digital precisa ter essa visão mais “mão na massa”. É preciso que ele entenda como os meios digitais podem ajudar a ampliação de seus negócios. Esse entendimento vem de dois fatores: primeiro, a identificação do profissional com a rede — basta ver como ainda existe uma dicotomia entre os que atuam dentro e fora do segmento on-line — e a prática. Esta vivência prática é fundamental para esse tipo de profissional, já que se trata de um ambiente muito novo, no qual qualquer novidade tem um impacto considerável. E isso independe da formação acadêmica do profissional: em quase seis anos de atuação na área, já deparei com pessoas competentes e de origens diversas: dentistas, físicos, oceanógrafos. De todo modo, existem muitas vagas a serem preenchidas. Uma solução interessante para quem quer ingressar na carreira ou precisa entender melhor o marketing digital é se inscrever em cursos de capacitação e certificação. Abaixo, seguem algumas das funções mais procuradas do mercado digital. E com salários competitivos. Arquitetos da Informação Especialistas em projetar e planejar o fluxo de informações apresentadas nos websites, a fim de facilitar a vida dos usuários; Mídia On-line Profissionais que planejam, compram e gerenciam os espaços de mídia dentro do meio digital; Profissionais de Métricas Um dos atrativos dos meios digitais é a possibilidade de analisar, em tempo real, os resultados de uma campanha ou a performance de um site de comércio eletrônico; Profissional de Mídia Social As empresas não podem mais escapar do fenômeno das redes sociais. Ter perfis no YouTube, Twitter, Facebook são requisitos indispensáveis para as companhias que queiram se manter vivas nesse verdadeiro caldeirão que é o mercado. Identificou-se com alguns destes perfis? Então, não perca tempo: pesquise, inscreva-se em um curso, qualifique-se, acrescente o seu talento neste mercado promissor.
* Diretora de conteúdo da Jump Education, escola especializada no meio digital

Três grandes nomes da imprensa americana vão lançar uma empresa chamada “Journalism On-line”. O objetivo é ajudar os jornais, atualmente em crise, a obter dinheiro com suas operações de internet, valendo-se para isso de um serviço pago de distribuição de matérias. Steven Brill, fundador do canal de televisão especializado em processos, o “Court TV”, Gordon Crovitz, ex-diretor de publicação do The Wall Street Journal, e Leo Hindery, ex-dirigente do departamento internet de alta resolução da AT&T, são os idealizadores da companhia. “Precisamos de um modelo de negócios que permita ao jornalismo de qualidade se beneficiar das vantagens da distribuição pela web, em vez de serem vítimas dela”, disse Brill. Entre os grandes jornais americanos, somente o The Wall Street Journal tem hoje um site pago. Vários outros, e inclusive o The New York Times, indicaram que pretendem cobrar pelas consultas de seus artigos na internet. Muitos analistas são céticos, mas os fundadores da Journalism On-line afirmam terem encontrado uma fórmula: um site com uma senha no qual os leitores poderão ter acesso por meio de assinaturas diárias, mensais ou anuais ou comprar artigos específicos diretamente dos veículos. “O sistema de pagamento protegido por senha será integrado aos sites de todos os editores participan-

Crovitz é sócio de empresa que buscará receitas para veículos tes, e estes serão habilitados a decidir o que cobrar, quanto e como”, disse Brill. A Journalism Online negociaria também acordos de licença com portais de busca. Esta iniciativa coincide com a crítica feita recentemente ao Google News por mídias que condenam a publicação de links para seus artigos sem dividir suas rendas publicitárias associadas. “A Journalism Online permitirá aos editores negociar em posição de força", disse Brill. “Os consumidores sairão ganhando porque terão mais escolhas, e os motores de busca e outros intermediários sairão ganhando porque terão acesso a mais conteúdo jornalístico”, concluiu Brill.