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Resiliência e promoção da saúde

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RESILIÊNCIA E PROMOÇÃO DA SAÚDE
RESILIENCE AND HEALTH PROMOTION LA RESILIENCIA Y LA PROMOCIÓN DE LA SALUD

Mara Regina Santos da Silva1, Valéria Lerch Lunardi1, Wilson Danilo Lunardi Filho2, Katia Ott Tavares3

Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunto IV do Departamento de Enfermagem da Fundação Universidade Federal do Rio Grande (FURG). 2 Enfermeiro. Doutor em Enfermagem. Professor Adjunto IV do Departamento de Enfermagem da FURG. 3 Enfermeira. Mestre em Educação Ambiental. Professora Adjunto IV do Departamento de Enfermagem da FURG.
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PALAVRAS-CHAVE: Pro- RESUMO: Resiliência refere-se a capacidade dos seres humanos em enfrentar e responder de forma moção da saúde. Família. Pes- positiva às experiências que possuem elevado potencial de risco para sua saúde e desenvolvimento. quisa sobre serviços de saúde. Falar de resiliência significa, portanto, falar de produção de saúde em contextos adversos. Com o objetivo de responder ao que faz com que uma família, mesmo vivendo em um contexto adverso, tenha uma prática de cuidado capaz de criar as condições para que seus membros construam uma trajetória de vida que pode ser considerada resiliente, é discutido o conceito de resiliência e sua aproximação com o de promoção da saúde, apontando algumas ações que podem potencializar as ações dos profissionais que trabalham com famílias em situação de risco, tais como o deslocamento da ênfase da dimensão de negatividade da doença, para as potencialidades das pessoas/famílias; a articulação de ações intersetoriais e interdisciplinares, compatibilizando políticas públicas saudáveis e a ampliação de medidas protetoras à saúde. K E Y W O R D S : H e a l t h ABSTRACT: Resilience means the human been capacity of facing and answering positively to the promotion. Family. Health adverse experiences to their health and development. To talk to resilience means to talk about health services research. production in the adverse contexts. Aiming to answer what makes a family, even living in an adverse context, have a health care practice capable of creating good conditions for their members build a healthy trajectory of life, the resilience conception is presented with its possible approximations to the health promotion concept, presenting some actions that empower the potential professional actions in health promotion: from the negative dimension of illness to persons/families potentialities; the intersectorial and interdisciplinary actions articulations, to becoming compatible the public healthy policies and enlargement of protector mesures to the health. PA L A B R A S C L A V E : Promoción de la salud. Familia. Investigación sobre servicios de salud. RESUMEN: Resiliencia significa la capacidad de los seres humanos de enfrentar y responder de forma positiva a las experiencias con elevado potencial de riesgo para su salud y desarrollo. Hablar de resiliencia significa por lo tanto hablar de producción de salud en contextos adversos. Con el objectivo de responder como una familia, mismo viviendo en un contexto adverso, tenga una práctica de cuidado capaz de crear las condiciones para que sus miembros construyan una trayectoria de vida que pueda ser considerada resiliente, discutimos la concepción de resiliencia, apuntando acciones que pueden potencializar las dos profesionales que trabajan con familias en situación de riesgo, tales como: el deslocamiento de la ênfasis de la dimension de negatividad de la enfermidad, para las potencialidades de las personas/ familias; la articulación de acciones intersectoriales e interdisciplinares, compatibilizando políticas públicas saludables e la ampliación de medidas protectoras de la salud.

Endereço: Mara Regina dos Santos Silva R. Marechal Floriano Peixoto, 279, Ap.809 CEP:96.200-380 – Centro, Rio Grande, RS. E-mail: mara@vetorial.net

Artigo original: Reflexão teórica Recebido em: 03 de outubro de 2005 Aprovação final: 29 de novembro de 2005

Texto Contexto Enferm, Florianópolis, 2005; 14(Esp.):95-102.

do número de famílias vivendo aquém das condições que poderiam promover seu desenvolvimento numa direção normativa. uma vez que esta é um processo centrado nas potencialidades da família. não apenas de seus integrantes. Ao mesmo tempo. econômicas e políticas em que estão imersas. políticos e econômicos.1:19 Tomando como referência esta concepção. aumenta cada vez mais o número de famílias vivendo em condições severamente adversas e. sem dúvida. que as ajudam a enfrentar. são múltiplos. Nessa perspectiva. um tema gerador de muitas discussões e preocupações. Se pensarmos que a Carta de Ottawa. objetivando uma melhor qualidade de vida”. as escolhas à disposição inexistem e o que as pessoas valorizam já é limitado pelo amassamento de seus sonhos e de seus desejos. particularmente junto a esta população. considera que “desenvolvimento humano é um processo de alargamento das escolhas à disposição das pessoas. Inicialmente. para elas fazerem o que valorizam na vida”. em 2004.2. porque. A ineficiência das redes de apoio social.3 é imperioso questionarmos acerca de como operacionalizar qualquer proposta de promoção da saúde. se levarmos em conta que os fatores que as colocam em situação de risco se originam nos diferentes níveis de seu contexto de vida. quando se fala de saúde e desenvolvimento de famílias que vivem em situação adversa. emerge um questionamento: o que faz com que uma família. de forma positiva. incluindo desde o microsistema familiar até o macro sistema social. pelo grande contingente de famílias expostas a estas condições. evidenciando. a perda das referências de apoio e segurança por parte do Estado. as prioridades das pessoas e dessas famílias se definem a partir da necessidade de sobrevivência. político e econômico.):95-102. discutimos Texto Contexto Enferm. Destas experiências. culturais. de uma forma contextualizada. enfrentando uma verdadeira cadeia de riscos que inclui desde o desemprego. . mas da família como um todo. os desafios quotidianos com os quais se deparam e produzir saúde.Tavares KO INTRODUÇÃO A saúde e o desenvolvimento de famílias que vivem em condições de risco psicossocial constituem. Nessas condições. 14(Esp. A marginalização em relação às oportunidades sociais. Lunardi Filho WD. Os desafios para a promoção da saúde. aumentam os desafios para os profissionais que com elas trabalham. a desigualdade e a exclusão social. Florianópolis. Em seguida. possibilita compreender as práticas de cuidado que se desenrolam na família. resgatando elementos teóricos que possam contribuir para compreender alguns processos vivenciados por essas famílias.2 Por outro lado. embora essas condições arroladas como potencialmente de risco sejam capazes de influenciar de forma negativa na saúde e no processo de desenvolvimento. em determinados contextos. não apenas pela diversidade e complexidade de problemas considerados como potencialmente de risco. 2005. diversos autores chamam atenção para o fato de que uma proporção significativa de pessoas. desde que as famílias se formam. mesmo em um contexto adverso. a discriminação “cultural” que marginaliza e exclui. também. tenha uma prática de cuidado capaz de criar as condições para que seus membros construam uma trajetória de vida que pode ser considerada saudável? Este artigo tem por objetivo apresentar possíveis respostas para esta pergunta. a complexidade de seu viver. a privação do atendimento de suas necessidades básicas.96 - Silva MRS. mesmo convivendo com experiências extremamente adversas. assim como a grave situação econômica e social com a qual as famílias se debatem em um contexto de instabilidade no âmbito global são fatores que não podem ser ignorados. apenas aproximada. o salário insuficiente. mesmo em ambientes adversos. atualmente. Lunardi VL. Nos últimos tempos. mas sem ignorar seus problemas..4. principalmente porque este conceito está atrelado a dois elementos-chave: a necessidade de mudanças no modo de vida das pessoas e a necessidade de mudança de suas condições de vida. documento referência neste campo. podemos ter uma idéia.6 São seres humanos que revelam uma capacidade extraordinária para produzir saúde. na mesma proporção. cultural. não manifestam seqüelas mais sérias. a promoção da saúde representa uma estratégia de mediação entre as pessoas e o meio ambiente. define Promoção da Saúde como sendo o “processo de capacitação de indivíduos e coletivos para que tenham controle sobre os determinantes de saúde. o limite de seus direitos e da liberdade de seus membros de decidir sobre sua vida e sua saúde. O Relatório do Desenvolvimento Humano publicado pela OMS. define. muitas vezes. para uma grande maioria. em todas as partes do mundo. desta forma. frequentemente observadas na prática profissional e relatadas na literatura. articulando as relações entre os contextos sociais. resgatamos a concepção de resiliência. mesmo vivendo em um contexto adverso. especialmente. mas. combinando escolhas pessoais e responsabilidade social e tendo como foco de intervenção a dimensão saudável do processo de viver humano. que orienta as ações de intervenção neste sentido. em suas interações com o ambiente.

Inclui aquelas pessoas/famílias que enfrentam. A segunda categoria pressupõe que resiliência se refere às pessoas/famílias que detêm certas competências e não as perdem. quando se trata de compreender o que faz com que uma família. uma vez que cada uma pode ser aplicada em diferentes populações. muitas vezes. Diferentemente da idéia de invulnerabilidade. 14(Esp. apesar dos desafios que enfrentam. devendo ser evitado quando a resposta é positiva. vivendo etapas distintas de seu ciclo vital e enfrentando situações de risco de natureza diversa. Dentre essas. mas. por exemplo. também. cada um abordando-o a partir de seu ponto de vista. Pelo contrário. Sua história permanece em sua memória. Florianópolis. Tratase de um fenômeno complexo e dinâmico que se constrói de forma gradativa. ao longo de sua trajetória vital. quando se intensifica o número de famílias vivendo em condições extremamente adversas. Refere. tendo se defrontado com essas situações. tampouco. principalmente nos últimos tempos. a partir das interações vivenciadas pelo ser humano e seu ambiente. os desafios que se apresentam. na vida adulta. com impacto. Está implícito que a pessoa funcionava relativamente bem. pode ser considerada positiva. mesmo vivendo em um contexto adverso. as quais podem promover a capacidade de enfrentar com sucesso situações que representam ameaça ao seu bem estar. mas a pessoa é capaz de se recuperar porque encontra o suporte que a ajuda a prosseguir. principalmente para os seres humanos que crescem enfrentando conflitos e situações desafiadoras e. eliminar seus efeitos mais danosos. apesar dos riscos presentes no ambiente. mesmo na vigência de adversidades que as põem à prova. está o fato de que resiliência pressupõe não apenas a presença de condições consideradas como de risco para sua saúde e/ou seu desenvolvimento. que a situação de risco tenha que ser afastada.4.8. o conceito de resiliência têm sido examinado por vários autores. em seus sentimentos. até mesmo.5 A primeira categoria inscreve a possibilidade de interromper trajetórias de risco. mas resulta de que. mesmo na vigência de adversidades. Texto Contexto Enferm. 2005. Já. CONCEPÇÃO DE RESILIÊNCIA Resiliência refere-se à capacidade de um ser humano (indivíduo. certas características do conceito de resiliência assumem maior relevância. a existência de certos processos capazes de reduzir o impacto das adversidades e amenizar ou. a resiliência refere-se à capacidade de enfrentar e responder de forma positiva às adversidades e suas conseqüências potencialmente negativas. ainda. que resiliência não implica a anulação ou eliminação da situação de risco. mas não houve essa exposição. o sujeito possa enfrentar. Entretanto. mas não perde a capacidade de se recuperar e voltar ao seu modo de funcionamento anterior. do ponto de vista social e cultural.9 Assim. a convivência.Resiliência e promoção da saúde . que podem comprometer esse processo. a violência intrafamiliar. não os reproduzem. com a doença mental dos pais. com sucesso. a terceira categoria. Esta concepção contempla a idéia de que houve o enfrentamento de uma situação que representa ameaça ao bem-estar da pessoa/família.):95-102. o sujeito resiliente conserva as marcas da adversidade que enfrentou. após experienciarem uma situação adversa. apesar de viver em um contexto adverso. A literatura sobre resiliência refere que este termo deve ser usado somente para aqueles casos em que a pessoa responde positivamente em presença de uma circunstância de risco significativo. desde o início de sua existência. família ou mesmo uma comunidade) de construir uma trajetória de vida positiva/saudável. nenhuma destas categorias pode ser rejeitada. Não significa que a pessoa não experimente o estresse ou que não se sinta atingida pela situação adversa nem. apesar disso. principalmente. sendo que esta pode fragilizar-se. tenha uma prática de cuidado capaz de criar as condições para que seus membros construam uma trajetória de vida positiva. b) a manutenção de certas competências. Um dos autores mais citados agrupa as diferentes concepções em três categorias. Em termos de promoção da saúde.7 Emergindo como um conceito promissor. e nem por isso se tornam eles próprios doentes mentais ou agressores. apresentadas como: a) a capacidade do sujeito/família de manifestar resultados desenvolvimentais esperados. delineando uma trajetória que. possibilitando que os seres humanos respondam de forma satisfatória às demandas da vida quotidiana. ao longo de seu desenvolvimento. considera como resiliência a capacidade de pessoas/famílias recuperarem seu modo de funcionamento. falar de resiliência implica falar não apenas dos riscos impostos pelas circunstâncias vividas . antes de se deparar com a situação adversa e somente a partir deste momento passa a ter dificuldades.97 - aproximações deste conceito com o de promoção da saúde. Elas estão presentes em suas lembranças. c) a capacidade do sujeito ou da família de recuperar-se das adversidades que experiencia.

mesmo em um contexto adverso. 14(Esp. com potencial para mediar ou moderar os efeitos negativos do ambiente sobre a saúde e o desenvolvimento de seus membros. especialmente as interações com a rede de suporte social de uma família. é preciso levar em conta a capacidade das pessoas de aceitar ajuda no exercício de seus diferentes papéis e funções. amigos ou outros adultos com os quais possam estabelecer uma relação de confiança e construir sua identidade. referidos na literatura como significativos na construção da resiliência e. cultural. quando se intensificaram os estudos sobre esse fenômeno. uma relação protetora e sensível. 13 Especialmente para as famílias que enfrentam adversidades de caráter duradouro como. para cuidar bem. os maus tratos e a maternidade na adolescência.Tavares KO pelo sujeito. considerando as interações vivenciadas pelas famílias e sua rede social. as expectativas positivas depositadas na criança. fortalecimento de parcerias com setores governamentais e sociedade civil organizada. Da mesma forma. Da mesma forma.9 Para compreender como as famílias conseguem produzir saúde. Para compreender como essas famílias conseguem produzir saúde e se construir como contextos de desenvolvimento positivo para seus membros. as relações de cumplicidade. quando o contexto é adverso. É. Evidentemente. incluindo os serviços de saúde. ajuda. de recursos comunitários. é interessante resgatar alguns desses processos. é preciso examinar os processos vivenciados em outro nível.. A partir desse ponto. estabelecendo relações mais complexas com ele. colocar o foco de atenção sobre os nexos entre o micro espaço familiar e o macro contexto social. o tempo compartilhado em família. Lunardi Filho WD. político. já que esta última requer uma reflexão sobre como fortalecer a capacidade individual e coletiva para enfrentar a multiplicidade de condicionantes de saúde. junto a outras pessoas com as quais elas constróem vínculos significativos. apesar das dificuldades que encontram em seu ambiente. estão. os cuidados responsáveis e constantes.):95-102. Esses processos. entre outros. reconhecer a existência concomitante de certas condições ou processos que protegem os sujeitos. em qualquer etapa do ciclo vital. competências e os limites de cada um dos membros da família. uma rede de suporte social engajada com seus problemas pode representar uma base segura. geralmente. Como suporte social. os amigos e outros recursos formais e informais. entende-se o aspecto funcional de uma rede social que efetivamente é capaz de ajudar as pessoas e as famílias em momentos de dificuldades. implica falar de programas e de políticas públicas saudáveis. pois. tais como membros da família expandida. o da rede de suporte social. na promoção de saúde em ambientes de risco. identificados a partir de estudos sobre resiliência que vêm sendo desenvolvidos. À medida que a criança vai crescendo. como processos-chave para que possa criar condições para bem cuidar. especialmente. as quais aumentam a probabilidade de ocorrência de problemas ou de inadaptação. a confiança depositada na pessoa. especialmente nas últimas três décadas. 2005. Esses processos assumem características próprias a cada etapa do ciclo vital. também. a família precisa sentir-se cuidada e aceitar ajuda no enfrentamento das adversidades. presTexto Contexto Enferm. associados com a qualidade das interações vivenciadas por ela no interior do contexto afetivo onde vive seus primeiros anos. são situações ou formas de cuidar que requerem um alto nível de implicação e envolvimento dos membros da família. dependente dos cuidados de um adulto para sobreviver. Assim. ou seja. Principalmente as crianças consideradas como resilientes são referidas pela sua característica de buscar. apesar das adversidades. professores. principalmente para as pessoas que vivem em condições adversas.10. a capacidade dos pais de atender as necessidades físicas e os cuidados de base com relação a saúde dos filhos. em outras palavras. evidencia-se que. ativamente. podem ter aumentada sua capacidade de interagir efetivamente com seu filho. a pobreza. mostram que ser pai/mãe não é tarefa fácil e se torna ainda mais difícil. a sensibilidade dos pais em relação às necessidades dos filhos. a família extensa. falar de rede de suporte social. torna-se possível uma aproximação deste conceito com o de promoção da saúde. Um clima familiar que aporte a segurança necessária para que desenvolva a confiança em si mesma e nos outros. Florianópolis. Na infância. quando a criança é. com maior grau de complexidade. mesmo em ambientes adversos. participação social. os processos se relacionam mais fortemente com: a capacidade dos membros da família para criar um espaço físico e relacional que permita a expressão das potencialidades.98 - Silva MRS. mas. . Por outro lado. é imperioso que esses pais precisem sentir que também são cuidados. ainda. os pais que vivem experiências gratificantes. por exemplo. para serem bons cuidadores. Os autores que discutem a resiliência destacam a importância do suporte social como fator de proteção. A partir da compreensão dos processos que podem sustentar a construção de uma trajetória resiliente. Lunardi VL.

estando associada a um conjunto de valores que inclui: qualidade de vida. sociais.enfatizar a importância de promover o potencial humano em vez de destacar somente os danos e prejuízos. considerando as diferenças e singularidades dos acontecimentos na vida das pessoas e comunidade. de forma prioritária com a saúde. . ampliar medidas protetoras e construir ambientes favoráveis à saúde. Promover saúde implica o seu fortalecimento através da construção da capacidade de escolhas e do uso do conhecimento. desenvolvimento. entre outros. a promoção da saúde necessita ser caracterizada como um amplo conjunto de estratégias que se articulam através de ações intersetoriais e interdisciplinares. do ambiente e das relação que neles e entre eles se desenrolam. uma possibilidade de ampliar a compreensão do processo saúde-doença. implica. também. Da mesma forma. para as potencialidades das pessoa/famílias. Florianópolis. em vez de se ocupar apenas dos transtornos e disfunções. requer o uso de metodologias participativas no enfrentamento de problemas sociais com vistas a influenciar na melhoria da qualidade de vida das comunidades. em diferentes níveis de seu contexto de vida. 2005. Representa. 14(Esp. Por outro lado. eqüidade. culturais.11 A noção de processo permite compreender essas interações vivenciadas pelas pessoas/famílias. mesmo em condições adversas. possibilitando compatibilizar políticas públicas saudáveis. articulando as relações entre os contextos sociais.Resiliência e promoção da saúde . saúde. adversidades e sobre as intervenções de controle para garantir a superação dos problemas de saúde. permite compreender também.99 - supondo o entendimento de que não é suficiente o conhecimento sobre riscos. a comunidade.12 Envolve. . entendemos que promover saúde junto às famílias que vivem em situação de risco. cidadania. o Estado e a sociedade em geral. nas comunidades. o trabalho.7 Enfim. participação. econômico e político. a comunidade e as famílias como espaços de construção e promoção de com- . implica examinar as interação entre os indivíduos e os grupos com seu contexto físico. portanto. resiliência é um conceito que prioriza o potencial dos seres humanos para produzir saúde. deslocando a ênfase da dimensão de negatividade da doença. as práticas de cuidado capazes de promover saúde e desenvolvimento. cultural. a resiliência possibilita resgatar a relação sujeito-família-ambiente e reencaminhar a insatisfação decorrente do conformismo e aceitação de que as pessoas que nascem em ambientes onde a doença. pois. levando em conta que esta não é uma competência apenas individual dos sujeitos ou das famílias. leva ao entendimento que essas práticas não são restritas ao espaço privativo da família. ajudam a moderar ou fazer a mediação entre os riscos e a saúde das famílias.reconhecer a escola. no Estado e focaliza esses grupos em suas múltiplas interações com o ambiente. Assim. Ao mesmo tempo. Apresenta como elementos essenciais a articulação de saberes técnicos e populares e a mobilização de recursos institucionais e comunitários para o enfrentamento e resolução dos problemas de saúde. resiliência representa um dos possíveis caminhos para que os profissionais possam realmente trabalhar. mas. mas também nas famílias. Por conseguinte. de tal forma que esta possa se constituir em um contexto de cuidado. Por seu lado. em circunstâncias adversas.fortalecer os processos que. as quais possibilitam que sejam criadas as condições para que seus membros possam se desenvolver como sujeitos capazes de responder positivamente às demandas da vida cotidiana.):95-102. Além disso. entre outras coisas: . afetivos. já que é considerada como um fenômeno que se constrói não somente a partir das características pessoais do sujeito. RESILIÊNCIA E PROMOÇÃO DA SAÚDE A promoção da saúde parte de uma concepção ampla do processo saúde-doença e de seus determinantes.4. social. cognitivos. influenciando nos processos que determinam a condição de saúde das pessoas e das famílias. econômicos. a dependência química e outros problemas se inscrevem. uma vez que se desenvolvem com a participação de outros ambientes como a escola. Da mesma forma.4. solidariedade. . apesar de terem sido criados em ambientes com alto potencial de risco. sendo que não restringe a atenção e as ações sobre os indivíduos. a violência. ações que necessariamente extrapolam o micro espaço familiar e incursionam em outros níveis do contexto de vida das famílias. desde os processos fisiológicos. mas do ambiente no qual estão inseridos. Texto Contexto Enferm.trabalhar no sentido de promover as competências e as capacidades individuais e coletivas. passando para uma abordagem que inclui a família e a comunidade. democracia. estão condenadas a apresentarem algum tipo de transtorno na vida adulta. políticos.7 Ao mesmo tempo. culturais. a ênfase está sobre as potencialidades das famílias. como acontece quando o modelo de assistência é biomédico-hospitalocêntrico.

contribuem para aumentar as dificuldades destas famílias para se integrarem à vida comunitária. determinadas por problemas de natureza diversa. em uma situação de não poder. por exemplo. que a responsabilidade de gerar as condições para que as pessoas. constituindo uma “cadeia de risco” que. promovendo cada vez mais sua exclusão social. quando a finalidade do trabalho junto às famílias que vivem em condições de risco é ajudá-las a constituir-se em um contexto positivo para a saúde e o desenvolvimento de seus membros. Em relação à primeira questão. habitualmente. A primeira refere-se ao reconhecimento objetivo do potencial de risco ao qual estão expostas. Lunardi VL. formação. lazer). ou seja. o salário insuficiente e tudo isso em uma sociedade na qual se espera que os pais sejam os principais cuidadores e provedores para seus filhos. no mínimo. mesmo enfrentando situações adversas. 14(Esp. de impotência e de dependência da ajuda social.estabelecer amplo processo de construção de parcerias. é importante considerar que as condições com elevado potencial de risco para a saúde e o desenvolvimento das famílias são. Nessas condições.100 - Silva MRS.. uma incoerência. bens. sem dúvida. que repercute sobre o desenvolvimento global dos seres humanos. conhecimento) e do ser (rede social. na medida em que contribuem para exacerbar conflitos interpessoais.):95-102. os altos índices de desemprego. a adversidade é representada pela pobreza extrema. que saem em busca de oportunidades de emprego em outras regiões. embora não se possa generalizar pobreza como sinônimo. muitas vezes. emprego). seus membros dificilmente são capazes de exercer o controle sobre suas vidas e se encontram. criar as condições para que o desenvolvimento de seus membros aconteça de forma normativa é. 2005. cada vez mais. do saber reconhecido (escolarização. na medida em que anuncia que famílias. . consumo. pensar que a família seja capaz de. a dimensão concreta representada pelas perdas e destituições. esta afirmação não deve ser propalada de forma ingênua uma vez que esta capacidade só emerge. não é cobrada a responsabilidade de outras instâncias. tais como a falta ou a qualidade inadequada de alimentos. Embora possa parecer paradoxal. com seus próprios recursos. cujos efeitos são capazes de reduzir e/ou destruir as possibilidades de resposta positiva das pessoas às adversidades que vivenciam. começa com a inadequada nutrição e supervisão médica para a mãe durante a gravidez. atuações intersetoriais e participação popular. na maior parte do tempo.14 Estas perdas. Duas questões são chaves. Florianópolis. esta relação risco versus produção de saúde é significativa. em geral.6 Nestes casos. Em conseqüência. vida familiar. efetivando políticas que respondam de forma mais integradora às necessidades das famílias e comunidades. segue com a desnutrição e as doenças ligadas à inacessibilidade de cuidados de saúde adequados. Assim. uma vez que a sobrecarrega de exigências que extrapolam seus limites e. com uma dimensão abstrata que pode mutilar a auto-estima das pessoas e uma dimensão concreta que se manifesta através da acumulação de perdas que atingem o plano do ter (renda familiar. necessariamente. geralmente. . Outro aspecto que não deve ser ignorado é a presença concomitante de diversas condições de risco. colocando-as. abalar sua estabilidade em consequência. dentre outros. as altas taxas de mortalidade e morbidade na infância. Dentre eles. Entretanto. de doenças. propicia um acúmulo de estressores. dissociando o grupo familiar. mas de todas as instâncias que direta ou indiretamente estão envolvidas no desencadeamento e manutenção das condições que colocam as famílias em risco. algumas vezes. não podemos ignorar que esta é uma condição complexa. as políticas de ajuste econômico e o perfil de distribuição de renda. A segunda. em desvantagem. quando são criados e disponibilizados os recursos que efetivamente podem responder às suas necessidades. limitar o acesso a bens de consumo e. quando se pensa em promoção da saúde de famílias que vivem em condições de risco psicossosial. a intervenção preTexto Contexto Enferm. são potencialmente capazes de desenvolver práticas de cuidado capazes de permitir a emergência de competências individuais de seus membros e coletivas. a qual configura uma condição que. falar de produção de saúde em contextos adversos. as dificuldades e limitações na fase de escolarização e pode culminar com o desemprego crônico ou mesmo o subemprego com salários insuficientes. na idade adulta. num mesmo contexto. Esta cadeia de risco pode ser visualizada quando. desajustes e inadequações também. CONCLUSÕES Falar de resiliência implica. famílias e outros grupos desenvolvam a capacidade de tomar decisões positivas em relação a sua saúde e o bem estar coletivo não são apenas das famílias. Lunardi Filho WD. que repercutem sobre as famílias. muitas vezes desde que se formam. da necessidade de migração de seus membros.Tavares KO petências no enfrentamento das condições adversas da vida. ao mesmo tempo.

que não garantem. junto aos grupos comunitários articulados. uma das maiores barreiras ao desenvolvimento saudável dos seres humanos. no âmbito da comunidade. impossibilitando manter interações positivas entre seus membros ou utilizar adequadamente os recursos capazes de lhes proporcionar melhores condições de vida. 9 Cyrulnik B. 4(3): 81-5. à integridade física. New York: John Wiley & Sons. Paris: Odile Jacob. 3 Restreppo H. Florianópolis (SC): Pós Graduação em Enfermagem/ UFSC.15:73 Nesta perspectiva. também. sem descuidar o respeito aos direitos fundamentais dos outros: “o direito à vida. Mesmo que as famílias não possam ser consideradas como instâncias passivas sobre as quais incidem as conseqüências dos problemas sociais.101 - cisa incluir ações. 56 (1): 127-36. o acesso aos recursos básicos que lhes garantiriam não apenas sua sobrevivência. é preciso levar em consideração os valores atribuídos a essa relação. 2003. é preciso examinar o lugar que ocupa. Seu potencial sinaliza possíveis caminhos para trabalhar com problemas graves que cada vez mais se intensificam em conseqüência das condições sociais.187.undp. no momento em que se elaboram os programas e as políticas de saúde. p. Relatório do desenvolvimento humano: liberdade cultural num mundo diversificado. 5 Werner EE. Ciência e Saúde Coletiva. transformando-se em ameaças maiores e mais intensas do que as limitações físicas e mentais que tradicionalmente constituíam o conjunto de riscos que. as condições para que o desenvolvimento de seus membros pudesse seguir um curso normativo. por exemplo. negativa. apesar do potencial contido no conceito de resiliência. 2000. tais como os altos índices de violência e criminalidade nos aglomerados urbanos e o aumento do número de famílias vivendo em condições de pobreza extrema. Esparbés PS. até algum tempo atrás. Current Directions in Psychological Science.71552. São condições desfavoráveis que. Buenos Aires: Ministerio de Salud y Ambiente de la Nación Argentina.16 Entretanto. reivindicar melhorias locais tais como acesso à educação.104/ serach?q=cache:nMRyIY9V608J: www. 10(3): 669-78. 8 Masten A. às famílias.org/undp/hdro 2 Carvalho SR. as quais possam desencadear processos de participação em decisões que afetem sua qualidade de vida como. na medida em que é concebida como a capacidade do ser humano em construir uma trajetória de vida e de desenvolvimento positiva. disorder. Além disso. Resilience in development. 4(1): 9-29. resiliência passa a ser um conceito muito promissor. Disponível em: http://www.233. por exemplo. as famílias detêm o controle. Les vilains petits canards. Coatsworth D. transporte. geralmente. Resilience: some conceptual considerations. 2004 [cidado 2005 Set 22]. Children in poverty: resilience despite risk. moradia. eram mais explorados pelos estudiosos. 2004 Jul-Set. Internationale de l’éducation familiale. and psychopathology. As contradições da promoção à saúde em relação à produção de sujeitos e a mudança social. 6 Garmezy N. culturais e éticos que estão acontecendo no mundo. editors.ar/htm/ site/pdf 4 Rutter M. Psychiatry. 2001 [cited 2005 Ago 12]. 2001. de decisões internacionais e de mobilização da sociedade. Promoción de la salud: como construir vida saudable. à liberdade e à propriedade”. Trap P. 7 Silva MRS. apesar das condições adversas que o cercam. REFERÊNCIAS 1 Organização Mundial da Saúde. Attachement et stratégies de coping chez l‘individu résilient. dificilmente. Fev. para compreender os processos nesse nível. La Rev. Florianópolis. Journal of Adolescent Health. não podemos ignorar que o conceito de resiliência encontra espaço fértil para “proliferar” justo no interior de macro adversidades sobre as quais. este não deve ser usado para isentar da responsabilidade aqueles que deveriam trabalhar para gerar as condições básicas necessárias a um viver saudável. Competence. Developmental psychopatology: risk.msal. políticas que assolam o mundo todo e repercutem sobre o desenvolvimento das crianças.):95-102. 1995. . também. and adaptation.Resiliência e promoção da saúde . Enfim. é importante destacar que o conceito de resiliência deve ser usado de forma cuidadosa para não sobrecarregar as família com responsabilidades que extrapolam seus limites de competência na resolução de problemas. Available from: http://64. 2005. dizem respeito ao Estado e dependem de iniciativas governamentais. Cohen D J. 10 Vinay A. que interferem de forma Texto Contexto Enferm. econômicas. também. Da mesma forma. 14(Esp. Problemas estes que representam. In: Cicchetti D. 1993 Dez. econômicos. 1993. atualmente. De qualquer modo. 14 (Não consta o nº): 626-31. A construção de uma trajetória resiliente durante as primeiras etapas do desenvolvimento da criança: o papel da sensibilidade materna e do suporte social [tese]. a relação pais e filhos nos programas de saúde. resilience. 1995 Jun. New York (NY): Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. mas. alimentação e saúde.gov.

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